Pronunciamento do deputado Inácio Arruda em homenagem ao artista plástico cearense Zé Pinto, falecido no dia 16 maio de 2004



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Pronunciamento do deputado Inácio Arruda em homenagem ao artista plástico cearense Zé Pinto, falecido no dia 16 maio de 2004.

Sr. Presidente.

Sras. e Srs. Deputados.

Desde o domingo passado, dia 16 de maio, o Ceará está de luto: faleceu, aos 78 anos, um dos seus maiores artistas plásticos, identificado no Brasil e no exterior como Zé Pinto. Entre seus admiradores, restou a lembrança inesquecível de um homem simples que, nascido no dia 28 de setembro de 1925, realizou sua arte para o mundo a partir dos cinqüenta anos de idade, mesmo revelando-se como exímio artista desde a mais tenra infância.

Com esse espírito, estimulou a arte na família, seus filhos foram se tornando artistas antes que ele próprio se revelasse, dona Zenor – sua esposa, uma presença dedicada e permanente até o ano de 1996, quando faleceu –, caprichava na arte dos bordados. Zé Pinto foi durante muito tempo apenas um “marchand” de sua própria casa até que os filhos foram tomando seus caminhos. Em cima de uma bicicleta, em suas idas e vindas da Universidade Federal do Ceará – de onde era funcionário –, circulando pela cidade em busca da sua matéria-prima, encontrou inspiração para cuidar de seu rumo na arte.

O cineasta Rosemberg Cariri produziu as imagens – dentro do Projeto Sol Maior – do escultor – ainda um jovem de cinqüenta e poucos anos – pedalando com os apetrechos do ferro velho amarrados na garupa da bicicleta. E, em sua oficina, máscara pendendo sobre o peito e o maçarico na mão direita, Zé Pinto mostrava como se dava sua relação com as peças, sua “conversa” com elas e os produtos mais que criativos oriundos dessa festa.

Quem transitasse pela Avenida Bezerra de Menezes, uma das mais importantes vias de Fortaleza, saberia que estava diante da casa de Zé Pinto quando visse uma obra sua, ali posta ao ar livre, no canteiro central (o “Pintódromo”), a expressar sua vocação pela arte a céu aberto, respeitada e intocada pelos transeuntes.

Foi lá e dessa maneira que o encontramos, ainda na Segunda metade dos anos 70, disposto a apoiar o que fosse libertário.

Naquela época – e em pleno regime militar – apoiou o nosso jornal Mutirão, um veículo de resistência aos descaminhos que ofendiam a liberdade, do mesmo modo que exaltava a coragem do Semanário Movimento. Para ele, esses arriscados empreendimentos que afrontavam os generais de Brasília e os coronéis que se colocavam à frente da política no Estado do Ceará, eram semelhantes ao seu entendimento da arte, às idéias de suas galerias que demoliam os espaços fechados e suas paredes de recolhimento.

Muitos episódios singulares marcaram o período. Num deles, o cineasta Francis Vale levou o humorista Henrique Filho até sua casa em 1978. Henfil pediu a Zé Pinto que fizesse uma graúna – seu personagem mais marcante – com seus materiais e foi correspondido. Na mesma hora, saiu o bico da graúna e depois o resto. Noutra visita, o bom humor de Zé Pinto o levou a comparar o jornalista Paulo Verlaine ao ator francês Charles Boyer.

Nas raízes de sua profunda noção de liberdade estavam um maçarico, o ferro velho, as peças de qualquer metal recolhidos nas sucatas de Fortaleza e no lixo industrial retorcido, os restos de velhos pneus, as tampas de garrafas, grampos comidos pela ferrugem, uma genialidade que transformava o grotesco em arte viva, convertida em homens de ferro, com a cara do que imaginava futuro ou com a roupagem do passado – em Jesus Cristo na cruz, em Dom Quixote de Cervantes, tudo sob as bençãos de Dona Zenor. Eusélio Oliveira, fundador da Casa Amarela e pai do cineasta Wolney Oliveira encomendou a Zé Pinto seu primeiro Charles Chaplin – feito das mais disparatadas peças do seu ferro velho.

Assim foi assentada a base de uma obra que alcançou as praças brasileiras e internacionais das artes plásticas – particularmente nos Estados Unidos e na Europa. De Fortaleza a Brasília, no eixo Rio-São Paulo, em Lisboa ou nas cidades norte-americanas, Zé Pinto celebrizou-se. Conhecido como “o homem de lata”, fez de sua arte a alegria da Fortaleza das últimas décadas do século XX e dos primeiros anos do atual século.

Em suas mãos, qualquer peça, em qualquer estado, virou arte, articulada ao seu mais amplo sentido, informando que aquela tinha que ser tão livre quanto a sua exposição pública. Uma peça que lhe fosse roubada não lhe traria prejuízo, pois – nos dizia – iria decorar a casa de alguém.

Em sua obra, esteve sempre presente a crítica social mais ácida. Exemplarmente, numa de suas peças celebrizadas, a partir de uma bomba de gasolina e de mangueiras na forma de armas, criou “O Assalto”, símbolo da permanente insatisfação popular com os preços dos combustíveis. Sua ironia verbal ganhou fama até numa tendência conhecida como ‘‘Zepintismo’’.

Torcedor do Fortaleza Esporte Clube, fã de Fagner, Fausto Nilo e Belchior, freqüentador dos filmes (em especial de faroeste) dos frades do bairro de Otávio Bonfim, esse foi o nosso escultor Zé Pinto, um espírito voltado para a liberdade desde os primeiros anos de vida, quando produzia seus brinquedos de lata, seus caminhões, e até os vendia.

Esse inesquecível personagem foi também um amante de Fortaleza, acompanhando ao longo de sua riquíssima vida as transformações da cidade e também da larga avenida onde morava e onde manteve sua galeria desde 1978. Trataremos – é nosso compromisso – de reviver Zé Pinto em sua arte, cuidando para que sua morte não seja sucedida pela ausência de suas esculturas no mais livre dos espaços – seu principal legado para a população de Fortaleza.

É o que tenho a dizer.



Deputado Inácio Arruda







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