Projeto transnational florida



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MIGRAÇÃO, RELIGIÃO E TRANSNACIONALISMO:

O CASO DOS BRASILEIROS

NO SUL DA FLÓRIDA
José Cláudio Souza Alves

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro



Rua Isidro Rocha, 1.221 / 401 – Vigário Geral – 21.240-180

Lúcia Ribeiro


ISER/ASSESSORIA

Rua das Laranjeiras, 525 / 1002 – Laranjeiras – 22.240-002


Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2002.
INTRODUÇÃO

Este artigo foi elaborado a partir dos resultados de uma pesquisa de campo, realizada no âmbito do projeto “Transnational Florida”; este pretende realizar um estudo sobre pluralismo religioso, migração transnacional e identidade entre três grupos de imigrantes na Flórida (EUA): brasileiros, mexicanos e guatemaltecos1.

O objetivo mais geral do projeto é compreender o papel que as crenças, práticas e instituições religiosas exercem na articulação das conexões transnacionais e na construção de identidades nos três grupos. O conceito de transnacionalismo se refere à existência de relações regulares que cruzam as fronteiras nacionais, produzindo um fluxo constante de pessoas, bens, dinheiro, informações, cultura e práticas. No entanto, o específico da pesquisa é a investigação desse transnacionalismo dentro do mundo religioso, percebendo sua relação com a produção de identidades múltiplas e híbridas, individuais e coletivas entre os imigrantes2.

A pesquisa de campo com os brasileiros migrantes foi realizada por dois sociólogos e uma antropóloga3 que, durante 25 dias – de 10 de março a 4 de abril deste ano – permaneceram nas cidades de Deerfield Beach e Pompano Beach, localizadas no Sul da Flórida. Tratava-se de uma pesquisa exploratória, já que o objetivo era mapear o nosso campo de investigação, estabelecendo os primeiros contatos com as comunidades a serem estudadas em profundidade em futuro próximo.

Nesse momento, três grandes focos balizavam a pesquisa de campo: as condições de vida dos imigrantes; os contextos da realidade estadunidense nas quais se inseriram e da realidade brasileira da qual provieram e, finalmente, o papel desempenhado pelas diversas tradições religiosas na construção do cotidiano desses brasileiros vivendo fora do Brasil.

O trabalho de campo foi realizado a partir de contatos preliminares - feitos pela Universidade da Florida4- e da nossa própria imersão no universo da pesquisa, que abarcava os grupos religiosos, dedicados a atender os brasileiros residentes na região. Utilizamos, para tanto, diversos métodos e técnicas: observação participante, entrevistas semi-estruturadas, entrevistas abertas e coleta de material impresso, fonográfico e audiovisual.

O presente artigo, que sintetiza seus principais achados, se divide em duas partes: a primeira aborda as condições de vida nas quais se encontram os brasileiros, enquanto a segunda se detém sobre o universo religioso encontrado. Por ser resultado de um estudo exploratório, este não pretende aprofundar questões específicas, mas visa configurar um panorama mais amplo, que inclui dimensões e dinâmicas diversas.
PARTE I: QUEM SÃO OS BRASILEIROS?

A região e a presença dos brasileiros
Tanto Deerfield Beach como Pompano Beach encontram-se situadas no Sudeste da Flórida, dentro do Condado de Broward, a aproximadamente uma hora e meia de Miami. A primeira cidade tem 64.583 habitantes e a segunda, 78.191 habitantes. Nas respectivas populações, há um número significativo de idosos: em Deerfield Beach, as pessoas de 65 anos ou mais correspondem a 29,3% da população, e em Pompano Beach a 23%5. A isto se soma o numeroso contingente de pessoas mais velhas, vindas do Norte do pais, no período do inverno, popularmente chamadas de “snow-birds”6.

Quanto à composição étnica da população, observamos uma maioria de brancos, tanto em Deerfield Beach, 81,5%, como em Pompano Beach, 70%. Os hispânicos por sua vez, representam uma proporção reduzida, respectivamente, 3,9% e 10%. Segundo Helen B. Marrow (2002)7, sabe-se que a categoria “hispano” foi criada para contemplar as minorias de mexicanos-americanos e porto-riquenhos, mas acabou se tornando mais abrangente, incluindo também os brasileiros. Estes, por seu turno, tendem a rejeitá-la enquanto autoclassificação. A jornalista Sandra Schamas8 confirma esta visão ao apontar que 69% dos brasileiros marcam no Censo: “not hispanic” – “Eu não sou hispânico” e 30% escrevem ao lado da lista de categorias: “Eu sou brasileiro”.

Deste modo, os dados acima revelam um dos primeiros dilemas ao se procurar identificar oficialmente o número de brasileiros nos EUA: em que categoria estão classificados no Censo? Estariam dissolvidos entre hispânicos e/ou outros?

Por sua vez, entre os que estão registrados como eleitores, segundo o Broward Supervisor of Elections, para o ano de 2000, não se observa a presença dos brasileiros. Aqui se coloca - além do problema da classificação dos brasileiros, visto no caso do Censo - a questão de sua representatividade política. Em ambos casos, há um fator que parece ter um peso considerável: estima-se que a grande maioria dos migrantes são “indocumentados”, ou seja, não possuem visto do governo estadunidense que os autorize a viver legalmente no país. Tal situação afeta seriamente o exercício dos direitos políticos dos brasileiros e até mesmo a mera possibilidade de informação sobre as reais dimensões do grupo.

Sabe-se que, atualmente, há um grande número de brasileiros no Sul da Flórida. As estimativas vão de 200.000 a 300.000. É extremamente difícil, entretanto, obter dados mais precisos.

A região de Deerfield Beach e de Pompano Beach é conhecida por concentrar um número elevado de brasileiros. Sua presença, inclusive, pode ser percebida a olho nu, através de indicadores como o número de estabelecimentos comerciais e de negócios que ostentam nomes brasileiros como, por exemplo, “Central do Brasil”, “Brasil Original”, “Uai!”, ou, numa mescla sintomática: “Brasliced”9. A quantidade de bandeirinhas brasileiras, o número de jornais e revistas brasileiros, os anúncios e o português que se ouve por toda a parte são outros indicadores a serem considerados.


Heterogeneidade
A comunidade brasileira que pesquisamos, a partir do mundo religioso, apresenta-se como bastante heterogênea, embora tenhamos detectado algumas tendências dominantes, em termos de classe, raça/etnia e sexo. Em termos de diversidade regional, muitos relatos indicam que a maioria ainda é de mineiros, mas há também muita gente do Nordeste, do Sudeste e do Sul do Brasil.

Para um olhar de pesquisador brasileiro, a maioria parece ser de classe média-baixa, de acordo também com a própria percepção de alguns indivíduos e grupos com quem convivemos mais amiúde. São pessoas com um nível educacional básico, pouco ou nenhum domínio do inglês, executando trabalhos que não exigem maior qualificação, sem possuir a documentação requerida pelo Serviço de Imigração. Há, porém, uma minoria que desfruta de uma situação sócio-econômica elevada, com emprego estável, documentação legalizada, morando em casas confortáveis, com carro do ano. Ao lado de pessoas que já vieram do Brasil com um certo status socio-econômico, parece haver também o caso das que enriqueceram nos EUA e que poderiam ser consideradas como “emergentes”.

No universo analisado, parece haver um certo equilíbrio entre o número de homens e mulheres. No ambiente das igrejas, particularmente, o número de homens é surpreendente, ao contrário do que usualmente sucede no Brasil. Isto talvez tenha a ver com o fato das igrejas brasileiras cumprirem também, nos EUA, toda uma função social, em termos de sociabilidade, lazer e possibilidades de informação sobre emprego e documentação - o que atrairia mais os homens.

Embora a maioria dos brasileiros seja de cor branca, a presença de não-brancos é percebida; seu número e o lugar que ocupam na hierarquia interna das igrejas varia de acordo com as diversas igrejas.

Quanto à idade, predominam os jovens e adultos; há também muitas crianças e relativamente poucas pessoas idosas. Mais uma vez, isto chama a atenção no ambiente das igrejas, à diferença do que é usual no Brasil.
Ida para os EUA: Migração ou mudança?
Não se pode negar que a motivação principal da ida para os EUA é a econômica: “vim para a América ganhar dinheiro”. As oportunidades que os EUA oferecem hoje, neste campo, são evidentes, contrastando claramente com a situação brasileira, marcada pela persistente limitação do mercado de trabalho, pela contração salarial e pelo desemprego crescente.

Entretanto, esta razão está longe de ser a única e, sozinha, não dá conta da complexidade do processo migratório. As histórias de deslocamentos observadas durante nosso trabalho de campo – não apenas a partir do Brasil, mas especialmente do Nordeste dos EUA para o Sul da Flórida – não podem ser explicadas somente pelas diferenças de mercado e de salários, assinaladas pela abordagem neoclássica do modelo push-pull10. É preciso considerar o papel desempenhado pelas redes sociais, como pólos de atração e de sustentação desses deslocamentos. Com efeito, como lembra Martes (2000) “os deslocamentos (…) não são sustentados por indivíduos que isoladamente decidem emigrar, mas sim por grupos de pessoas ligadas por laços de amizade, conhecimento ou relação de parentesco” (p.43).

Ao tratar dos motivos que levam os brasileiros aos EUA, freqüentemente nos deparamos com a dificuldade de se falar de “migrantes”, pois a palavra parece incluir uma nota pejorativa. Uma das entrevistadas, falando sobre o tema, referiu-se ao estigma do migrante e quando perguntamos o que queria dizer com isto, ela respondeu: “é uma situação difícil, sobretudo no começo… são mil dificuldades. É um verdadeiro estigma”.

Com efeito, muitas pessoas não se auto-identificam como migrantes, preferindo falar que “vieram” ou “mudaram-se para os EUA”. Na realidade, quando se referem a migrantes o fazem na terceira pessoa: “eles”, os outros. Isto se dá, sobretudo, quando há situações sociais diferenciadas. Assim, por exemplo, um sacerdote católico, ao referir-se a seus fiéis falava dos “migrantes”, mas não se autodefinia enquanto tal, apesar de ser ele também brasileiro, vivendo nos EUA há cerca de 20 anos.

A rejeição à definição de migrante, contudo, pode também esconder uma outra questão, que se refere à politização deste conceito: mais além da questão da discriminação, está a luta política em torno do reconhecimento enquanto grupo estrangeiro em um outro país, apontando para um debate importante a respeito do papel do Estado e da sociedade civil. Diante da ausência de políticas para os migrantes por parte do governo brasileiro e mesmo do não reconhecimento deste conjunto de brasileiros - sintomático no silêncio dos Presidentes da República ou Ministros, quando das visitas aos EUA - não utilizar o termo migrante pode significar também não debater sobre os responsáveis pelas dificuldades, segregações e estigmas que sofrem os brasileiros.

Por outro lado, esta carência de políticas para os migrantes acaba sendo preenchida pelas igrejas, sobretudo as evangélicas, que passam a suprir a falta de representatividade política dos migrantes.


Condições de trabalho e de vida urbana
O tipo de trabalho exercido pelos brasileiros em Deerfield e Pompano Beach também é diferenciado, configurando mais um elemento de heterogeneidade, entre os migrantes. Há uma minoria que trabalha no setor empresarial, seja em pequenas empresas de capital brasileiro, seja em empresas americanas, nas áreas de comunicação, comércio ou serviços. Contudo, esta forma de ocupação é menos visível. A maioria dos brasileiros encontra-se distribuída em diversos tipos de trabalhos na área de limpeza de casas, construção, jardinagem, pavimentação, tratamento de piscinas, transporte por caminhão e comércio (como balconistas ou atendentes, sobretudo nas empresas de brasileiros).

O salário nestas atividades sofre uma variação que configura uma espécie de escala em termos de remuneração. Nos trabalhos mais pesados e que exigem menor qualificação, como no caso da pavimentação e da limpeza de piscinas, o salário fica em torno de US$ 6,00 a hora. No setor da construção e de limpeza de casa, a média estaria entre US$ 8,00 e US$ 12,00 a hora. Porém, dependendo da qualificação do trabalhador e do tipo de trabalho pode-se chegar a salários mais elevados. Assim, os que trabalham na limpeza de casas, dependendo do tipo da casa e das partes a serem limpas, podem chegar a receber até US$ 20,00 à hora11. Por sua vez, um encanador, um eletricista ou mesmo alguém bem qualificado na colocação de “drywall”12 podem ter salários de US$ 18,00 ou US$ 20,00 a hora. No caso do “drywall”, contudo, as dificuldades próprias ao tipo de trabalho parecem ser muito grandes, acarretando implicações quanto à remuneração. Ao dizer para um dos pesquisadores que trabalhava com “drywall”, um rapaz brasileiro perguntou logo se este sabia o que era: diante da resposta negativa, comentou que “era melhor não saber mesmo do que se tratava”, revelando tanto a desvalorização do tipo de trabalho como a vergonha de quem o faz.

A intensidade do trabalho interfere também nos rendimentos recebidos. Na construção, dependendo das horas de trabalho e do serviço a ser feito, o dia de trabalho pode valer de US$ 75,00 a US$ 150,00. No caso da limpeza de casas, as pessoas podem controlar sua atividade/salário a partir do tipo de serviço que executam e do número de casas agendadas (sendo quatro o número mais elevado de casas possíveis de serem limpas num dia).

O trabalho nos sábados e domingos é freqüente, assim como ter mais de um trabalho. Há casos de pessoas que trabalham com entrega de jornais durante a noite e madrugada e que, durante parte do dia realizam outros serviços como, por exemplo, o transporte de pessoas. As conseqüências desta dupla jornada, entretanto, são bastante prejudiciais, aumentando o risco de doenças e de acidentes.

A precarização das relações de trabalho também é bastante visível. A redução do salário é a forma mais sentida. Por exemplo, o “pé quadrado” do azulejo ou piso colocado, há dez anos atrás, valia 2 vezes mais do que vale hoje. Há um ano atrás, pagava-se US$ 17,00 por cada TV a cabo instalada, hoje o preço é de US$ 9,00. Além disto, a obtenção de férias está diretamente associada ao número de anos trabalhados numa mesma empresa. Assim, dada a alta rotatividade dos empregos ou mesmo a ausência de contratação formal, muitos trabalhadores dificilmente tiram férias.

Os riscos do trabalho ficam por conta do trabalhador. Inicialmente, este tem que fazer um seguro contra acidentes pessoais e contra danos que porventura possa causar ao material ou instalações com os quais trabalha, sobretudo na área da construção; isto pode lhe custar valores como US$ 300,00, pagos de três em três meses.

Ao mesmo tempo, a informalidade possui a sua dupla-face bastante nítida. O pagamento em dinheiro impede o repasse de impostos para o governo, favorecendo o rendimento obtido. Contudo, nestes casos, a instabilidade e insegurança do trabalho podem ser duramente sentidas quando problemas de saúde impedem a pessoa de trabalhar ou lhe exigem recursos elevados para ter um tratamento adequado.

Uma das questões mais sentidas, no caso dos brasileiros, é a superqualificação profissional. Pessoas formadas em universidades e que exerciam funções como advogados, médicos, analistas de sistema ou outros profissionais, deixam estas atividades no Brasil, para se dedicarem nos EUA a trabalhos braçais e desqualificados. O grau de insatisfação e frustração - proporcional à elevada expectativa que se tinha antes quanto às possibilidades de êxito profissional - conduzem, em muitos casos, a problemas sérios na área emocional e na adaptação ao novo modo de vida.

A presença de homens em trabalhos que no Brasil são considerados como tipicamente femininos, como o de limpeza de casas, constitui uma variável interessante a ser investigada. Até que ponto esta mudança afeta emocionalmente o homem?

Por sua vez, a lógica da distribuição do espaço urbano, nas cidades estudadas, difere bastante da existente no Brasil. Largas avenidas, ausência de calçadas, grandes shoppings (malls), prédios construídos de forma a manter a distância entre si, casas isoladas por jardins, são algumas de suas características. A estas se soma um sistema de transporte público muito limitado; não existe metrô e as linhas de ônibus são poucas. Isto significa que ter carro passa a ser algo imprescindível.

Neste contexto, a ausência de espaços públicos de encontro contribui para uma vida de poucos e compartimentados contatos, muitas vezes restritos à moradia, ao local de trabalho e ao comércio. Mesmo as praias possuem áreas privatizadas por condomínios e residências, restando algumas áreas públicas onde há o lado predominantemente freqüentado por estadunidenses e áreas onde as minorias, inclusive os brasileiros, costumam estar. Neste quadro, as igrejas e grupos religiosos, enquanto espaços abertos ao encontro, ganham especial importância.

As condições de moradia são bastante diversificadas, em função da situação econômica dos indivíduos. Para uma minoria, são amplamente satisfatórias, pois tem acesso a casas modernas, bem equipadas, com todo o conforto da tecnologia americana. A maioria, no entanto, paga aluguel em casas de três ou quatro quartos, que podem abrigar de dois a quatro brasileiros por quarto, cobrando-se alugueis em torno de US$ 300,00 por cada quarto, que podem variar, dependendo das instalações e da localidade. Também ocorre o “esquentar cama”, quando os que trabalham de dia revezam o leito com os que trabalham de noite.


Família, escolaridade e língua inglesa
As alianças e vínculos familiares e de parentesco exercem papel relevante nas histórias de incentivo à imigração (Margolis, 1994). Embora constituindo, talvez, uma das vigas de apoio mais importantes para os brasileiros residentes nos EUA, as condições de vida familiar são percebidas de modo muito diversificado em função do status dos indivíduos: se solteiros ou casados; se o casamento se deu nos EUA ou no Brasil; se há filhos nascidos no Brasil ou nos EUA; se o esposo ou a esposa se deslocou primeiro e somente depois do estabelecimento do parceiro ou parceira foram se reunir novamente nos EUA, etc.

Evidentemente as combinações entre os laços dessa rede são complexas, sugerindo uma grande diferenciação interna. Para alguns dos nossos informantes, o fato de “estar longe de casa” tende a fortalecer os laços familiares. Não é raro encontrar famílias que trouxeram parentes próximos, sobretudo avós, para ajudar a cuidar das crianças. Para muitos, pelo contrário, a situação de migração implica em separações e rupturas familiares, aprofundando o desenraizamento e a vida solitária.

Por sua vez, o modo intensivo e extensivo de imersão no universo do trabalho gera limitações de tempo para um convívio familiar de qualidade. Muitos se lamentam por darem pouca assistência às crianças e adolescentes, tanto do ponto de vista afetivo como também no que se refere ao ensino das regras de sociabilidade e educação. Consequentemente, as crises existenciais e familiares são parte da vida e das conversas cotidianas. Esta temática é freqüentemente abordada, como veremos à frente, nos ambientes em que a comunidade de fé se reúne.

No que se refere à escolaridade, pode-se dizer - até onde nos foi possível observar e obter dados - que boa parte dos brasileiros possui o primeiro grau completo. Foram poucos os entrevistados que disseram ter o nível de escolaridade inferior a 8 anos de estudo. Mais reduzido ainda é o número de analfabetos. Encontramos apenas uma mulher que afirmou de modo singelo “não ter as primeiras letras”. No extremo oposto, há, sem dúvida um segmento mais escolarizado, que já vem do Brasil com um nível educacional mais elevado. Em uma das maiores igrejas evangélicas, segundo seu líder, “80% tem nível superior. […] Nossa igreja é um pouco politizada. [...] e é chamada aí fora de igreja dos ricos”.

Além deste segmento, há também os brasileiros que se deslocaram do Norte dos EUA (tendo saído do Brasil na década de 80) para o Sul da Flórida (na década de 90) que, por terem chegado há mais tempo, conseguiram dar continuidade aos estudos. Alguns entrevistados avaliam essa escolaridade em função do seu próprio tempo de chegada, já que os que chegaram na região há mais ou menos 10 anos, tiveram maiores oportunidades de ter seu status de estrangeiro legalizado, isto é, são “documentados” e, em conseqüência, têm condições de vida mais estáveis. Entre estas pessoas há uma tendência a “ler” a migração mais recente como sendo de “brasileiros de baixo nível econômico e educacional”. Nas palavras de um outro informante: “em termos de universidade não são muitos os que se aventuram por aí. Muita gente que vem tem no máximo segundo grau”.

Mas há também outras possibilidades de se pensar a relação entre tempo de chegada e escolaridade. O exemplo de Olavo13, nesta perspectiva, é significativo. Ele chegou no final dos anos 80, com 18 anos. Não sabia nada de inglês e somente no final dos anos 90 conseguiu um emprego melhor, dentro de uma empresa de comunicação. Sua irmã e seu irmão chegaram recentemente, mas por serem mais novos, entraram na "high school"14, aprenderam mais rapidamente a língua e ingressaram no mercado de trabalho com mais facilidade e velocidade, estando atualmente em empregos médios em empresas americanas.

Os filhos de brasileiros que se deslocaram do Brasil em idade escolar ou que nasceram nos EUA têm maiores possibilidades educacionais. As crianças têm acesso ao ensino público, mesmo que os pais e/ou responsáveis sejam “indocumentados”, porém, neste caso, podem ter problemas com a obtenção de diplomas.

Por outro lado, as crianças que se socializam nas escolas estadunidenses terminam por internalizar seus valores; isto não impede, entretanto, que continuem se sentindo brasileiras – sobretudo no caso em que mantêm um contato freqüente com o país de origem e/ou estão imersas em redes sociais de brasileiros. Nestes casos, as igrejas - como veremos adiante - cumprem um papel aglutinador relevante.

Não existe relação automática entre escolaridade e o domínio da língua inglesa. No Brasil, somente os que podem pagar cursos particulares conseguem ter este domínio, já que as deficiências em seu aprendizado, no ensino público, são notórias; isto significa que a grande maioria dos migrantes se enfrenta com a barreira da língua, o que dificulta inserção imediata e qualificada na cultura da sociedade estadunidense.

Em geral, são as crianças e jovens - que têm natural facilidade para o aprendizado da língua - os mediadores culturais entre os familiares que não falam o idioma e o universo cultural da sociedade hospedeira.

Por outro lado, a falta de domínio da língua é um fator que contribui também para a solidão a que já nos referimos, na medida em que limita as possibilidades de comunicação.

Neste caso, o auxílio de quem conhece o idioma revela-se determinante, contudo, inúmeros são os casos de golpes sofridos por brasileiros recém-chegados, nos quais brasileiros conhecedores da língua se valem da ignorância alheia para obter dinheiro e benefícios. Deste modo, é evidente que a combinação entre escolaridade e domínio do idioma garante maiores possibilidades de competir por melhores postos de trabalho e conseguir melhores oportunidades de vida.



Sucessos e insucessos da experiência migratória e o 11 de setembro
A “aventura americana” é uma história cheia de contradições, na qual sucessos e insucessos se entrelaçam. É certo que, diante da diversidade de situações, observada no contexto da pesquisa, a história não é a mesma para todos.

Para uma minoria privilegiada, a qualidade de vida que goza nos EUA é, em muitos aspectos superior à que, em igualdade de condições, teria no Brasil; entretanto, embora estas pessoas se considerem – em maior ou menor grau - satisfeitas com a situação, não escapam das conseqüências de viver longe de seu país de origem: separação da família e dos amigos, choques culturais, defasagens familiares no processo de adaptação à vida nos EUA.

Já para a grande maioria, os desafios colocados pelas condições de vida e de trabalho são bem mais pesados: ter que enfrentá-los cotidianamente traz como conseqüência problemas emocionais e psíquicos: solidão, clima de tensão permanente, depressão, levando inclusive em alguns casos ao suicídio. O exemplo de uma das primeiras Igrejas Batistas de brasileiros – que conta com cerca de 800 membros – é impressionante: entre os mesmos, ocorreram, nos últimos seis meses, 12 suicídios15.

Ao mesmo tempo, muitos dos migrantes não conseguem vislumbrar, no momento atual, uma alternativa melhor. Neste contexto, a decisão de ficar nos EUA ou voltar ao Brasil se coloca como um dilema permanente.

Consciente ou inconscientemente, este dilema está muito presente na vida dos brasileiros. Voltar ao Brasil é um sonho - o ano que vem eu volto - que, entretanto, vai sendo sucessivamente adiado pela impossibilidade de realizar-se.

A cada hora eu olho o relógio para ver que horas são no Brasil“, diz Ivete, que pensa a cada instante em voltar, mas não tem condições para isso.

As melhores oportunidades de trabalho nos EUA, a segurança, a qualidade de vida, a possibilidade de envio de dinheiro para o Brasil – possibilitando a realização de projetos de outra forma impossíveis - a necessidade de saldar dívidas contraídas nos EUA e, por outro lado, as dificuldades econômicas e a violência no país de origem são argumentos levantados para justificar a permanência nos EUA.

No pólo oposto, os argumentos para voltar também são fortes: a dureza da vida nos EUA, a solidão, o excesso de qualificação profissional ou a sub-qualificação do trabalho realizado, a dificuldade de relacionar-se com estadunidenses - considerados frios e individualistas - e, por outro lado, a saudade do Brasil, a separação da família e dos amigos, a falta de um estilo de vida mais solto e mais caloroso.

Naturalmente, estes argumentos se mesclam e se desenham diferencialmente, em cada trajetória pessoal, configurando opções diversas. Por outro lado, as decisões vão se reformulando, ao longo do tempo: o período inicial é geralmente o mais difícil, exigindo um esforço maior de adaptação, sobretudo quando as questões relativas à moradia, ao trabalho e à documentação não estão equacionadas; depois, à medida que as pessoas vão se habituando ao estilo de vida estadunidense, muitas vezes passam a não se “encontrar” mais no Brasil; esta tendência se fortalece mais ainda quando os filhos, criados nos EUA, já não querem voltar.

Não se trata, entretanto, de um processo linear nem isento de ambigüidades. Neste sentido, o relato de Aparecida é significativo, pelo fato de tratar-se de uma mulher de classe média alta, ex-esposa de um alto representante do governo brasileiro; Aparecida não se auto-classifica entre os que são considerados os mais ricos – “como os Collor de Melo” - mas obviamente não se diz pobre: dispõe de segurança econômica e da liberdade de ir e vir. Ela escolheu vir morar nos EUA e gosta muito da Flórida, embora se queixe das limitações no plano cultural. Mas voltar ao Brasil, depois de tanto tempo fora, tampouco é fácil. Embora viva uma situação socialmente privilegiada, nem por isso se encontra isenta de divisões internas e de sofrimento. Não deixa de ser migrante (será que ela se considera como tal?) e, como tal, não escapa aos dilemas e dificuldades típicos desta situação.

Neste contexto, não são muitos os brasileiros que conseguem assumir claramente a decisão de morar definitivamente nos EUA; em geral, são os que conseguiram melhores condições de vida e se adaptaram ao estilo estadunidense, ou os que têm a expectativa de efetivamente se instalar nos EUA.

Outro caso é justamente o de líderes religiosos, que vieram para exercer atividades religiosas nos EUA e que ficarão no país enquanto for necessário.

Na grande maioria dos casos, entretanto, o dilema é permanente e freqüentemente insolúvel.

Para os que tomam a decisão de ficar, a questão da regularização dos papéis, junto ao Immigrant National Service (INS) assume um lugar de absoluta preeminência. Não era difícil – pelo menos até pouco tempo atrás, antes dos eventos do 11 de setembro16 – lograr obter, por exemplo, o "visa" por seis meses. A partir da expiração dessa data o imigrante se tornaria “ilegal”, a menos que conseguisse legalizar sua situação, através do contrato de trabalho ou do casamento com cidadã ou cidadão estadunidense. Na impossibilidade destas duas alternativas, muitos brasileiros preferem arriscar e permanecer trabalhando “indocumentados”. Esta opção, - que parece ser a adotada pela grande maioria - significa expor-se à tensão permanente de ser “descoberto” pelo INS, sofrer a “humilhação de ser visto como criminoso”, ou, no pior dos casos, passar pelo penoso processo de extradição.

O atentado de 11 de setembro de 2001 agudizou as dificuldades, já vivenciadas pelos migrantes. Há consenso, entre os entrevistados, de que a situação, em geral, ficou pior. O fato foi visto como assustador e chocante – “o 11 de setembro criou uma morte” – e provocou conseqüências no clima geral do país: É uma situação grave, estamos em guerra”, afirma um sacerdote.

Além disso, gerou também conseqüências específicas nas condições de vida dos brasileiros: afetou as condições de trabalho – “o trabalho caiu muito, tem muita gente sem trabalho – mas, sobretudo representou um aumento de restrições à migração: os processos de legalização de documentos são muito mais lentos, há maiores exigências para conceder a “drive-license” e intensificou-se o controle sobre pessoas indocumentadas: houve gente que foi efetivamente presa e deportada.

Naturalmente, todo este contexto gera um clima de muito medo e tensão; e este se agrava pela multiplicação de boatos, que se transmitem rapidamente entre os brasileiros.



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