Projeto “Ciência na Escola”



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GESTÃO URBANA E QUALIDADE DE VIDA: CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Alexandre Mendeleck

Marcemino Bernardo Pereira
Projeto “Ciência na Escola”

E.M.E.F. “Pe. Melico C. Barbosa”


O Projeto “Ciência na Escola” busca melhorar a qualidade do ensino-aprendizagem nas escolas públicas em que atua promovendo a reflexão dos professores no momento mesmo da sua prática; nesse sentido, o nosso trabalho se configura como formação na ação. Acreditamos que a pesquisa seja o procedimento que melhor instrumentaliza alunos e professores nesse processo justamente porque possibilita uma certa autonomia dos agentes envolvidos: ao professor contribui na construção dos saberes necessários à prática docente, ao aluno uma melhor compreensão sobre sua própria aprendizagem. Um ensino-aprendizagem ancorado na pesquisa por parte do aluno e do professor traz, como não poderia deixar de ser, diversos outros desdobramentos, um deles, que nos interessa aqui, é o trabalho colaborativo entre disciplinas quando se busca entender um “conteúdo” que não esteja até então previsto nos currículos. É esse o teor da nossa comunicação, através do relato de um trabalho de pesquisa pretendemos localizar e melhor explicitar os pontos aqui enumerados: pesquisa; autonomia relativa no processo de aprendizagem; conteúdo não curricular; trabalho colaborativo.

Na E.M.E.F. “Pe. Melico C. Barbosa”, o Projeto vem se desenvolvendo desde 1997, ou seja, desde sua implementação. Tendo se iniciado com o professor de História, a cidade foi escolhida como ambiente das investigações. Escolhemos o período de passagem do século XIX para o século XX porque víamos naquele período uma série de características com as quais os alunos poderiam dialogar tendo como referência questionamentos atuais, ou seja, buscávamos na reconstrução da história de Campinas elementos que pudessem esclarecer as dúvidas dos alunos em relação à cidade hoje. O professor de Ciências fazia um trabalho semelhante, mas centrado na busca de soluções para os problemas urbanos, onde os alunos simulavam a organização de uma prefeitura, como gestores da cidade. Nesse trabalho de gestão a turma era agrupada em torno de Secretarias, cada uma responsável por buscar soluções para problemas específicos da sua área, mas que interagiam em determinados momentos em busca de uma melhor compreensão do problema, suas causas, encaminhamento e discussão de propostas para uma possível solução. Foi nesse contexto que resolvemos experimentar um trabalho de colaboração entre as duas disciplinas.

O trabalho de colaboração entre duas disciplinas que lidam com conteúdos tão distintos parece ser uma tarefa infrutífera, ou no máximo um encontro onde uma ilustra o objeto da outra, numa relação no mínimo desnecessária. Não é isso o que ocorre quando temos um procedimento em comum, no caso, a pesquisa. Lembremos que os dois professores têm a cidade como espaço de investigação e reflexão, com enorme variedade de problemas e questões, o que não poderia ser diferente dada a multiplicidade própria da urbanidade. Esta multiplicidade, por sua vez, que poderia à primeira vista parecer um obstáculo, torna-se a base mesma da autonomia relativa quanto ao processo de aprendizagem e o solo fértil para a emergência de “conteúdos” não comuns no ambiente escolar.

Temos uma sala em comum onde fazemos nossos registros e realizamos atividades mais sistematizadas, é a partir do material produzido por esses alunos que procuramos contribuir com reflexões e propostas no Projeto “Ciência na Escola”. É uma turma que participa do Projeto nas condições antes citadas desde a 6° série, hoje (2003) estão cursando a 8° série. As atividades realizadas em equipe configuram-se, no nosso trabalho, como parte mesmo do fazer conhecimento científico. A troca constante entre alunos e professores – seja quanto aos problemas, dúvidas ou compartilhamento de informações – reproduz a dinâmica mesma que o Projeto proporciona entre seus participantes, no caso os professores e a universidade. E visto que nas duas instâncias estão sendo construídos saberes e práticas, a avaliação, no sentido de legitimação, ocorre durante o processo na forma de consensos provisórios. Os critérios de agrupamentos dos alunos não são os mesmos nas duas disciplinas: nas aulas de História dependem do tema a ser abordado e dos problemas a serem investigados; nas aulas de Ciências se relacionam às preferências e características de cada aluno. No primeiro caso a turma define um tema em comum e em seguida elaboram, individualmente, questões a serem pesquisadas. A partir dessas questões é que o professor forma as equipes de trabalho; no segundo caso os alunos são agrupados em Secretarias em torno de responsabilidades específicas em relação à gestão urbana – transportes, educação, segurança etc. – , estas secretarias são então coordenadas por um ou dois alunos que fazem às vezes do Executivo da cidade. Como se vê, a diversidade de temas, questões e problemas é visível e como os grupos de trabalho das aulas de História não coincidem com as Secretarias nas aulas de Ciências, os alunos transitam por diversos saberes, qualquer um está apto a participar e opinar sobre as mais diversas questões, e nesses intercâmbios os alunos constróem um outro olhar sobre a cidade e seus problemas.

A nossa atenção enquanto professores reflexivos durante o processo de aprendizagem tem sido quanto às conexões que os alunos estabelecem entre estes saberes na construção de um novo olhar sobre a cidade; o quê Campinas da passagem do século XIX para o século XX tem para oferecer aos alunos do começo do século XXI? A partir da cidade real, historicizada, os alunos sonham a cidade ideal, construída a partir das expectativas, incertezas e receios experimentados no dia-a-dia. A partir do real os alunos planejam uma outra realidade, e isso só se trona possível se, no bom sentido, o currículo formal for transgredido.

A titulo de exemplo relatamos aqui o estudo sobre o tema “violência”, que nos últimos três anos tem se tornado fonte de apreensões e angústias para toda a comunidade. Com a onda de seqüestros no início de 2001 amplamente divulgados pela mídia e, no caso particular de Campinas, o assassinato do Prefeito em Setembro daquele mesmo ano, a sensação de insegurança tornou-se geral, e como não poderia ser de outro modo, converteu-se em “conteúdo” a ser discutido na escola, os alunos estavam interessados em saber como a situação havia chegado àquele ponto, que violência era aquela.

Que violência era aquela? Era este o problema a ser investigado. Nas aulas de História os alunos reconstruíram traços da criminalidade em Campinas a partir do estudo do cotidiano da primeira cadeia da cidade e nas aulas de Ciências procuravam redimensionar o conceito de violência, estendendo-o por exemplo, ao descaso com setores como saúde e cultura. Analisando tabelas e dados oficiais, os alunos puderam entender que não estava ocorrendo uma escalada da violência em números absolutos, mas em qualidade, ou seja, estava aumentando assustadoramente uma modalidade de violência que atingia determinado grupo social. Que violência era aquela? Ao final do trabalho verificamos que os alunos haviam construído um outro olhar sobre o tema, agora ampliado na sua dimensão histórica e social, a violência deixava de ser um problema do “outro” para ser um problema “nosso”.

Como forma de verificar o diferencial de um aprendizado através da pesquisa e colaborativo aplicamos um mesmo questionário em duas turmas distintas, porém da mesma série. Uma, a do nosso registro, trabalhando sistematicamente com pesquisa, e uma outra, em que o tema foi abordado de forma tradicional, com leitura de textos e colocações do ponto de vista do professor. Enquanto a primeira turma relacionou violência com questões sociais e históricas mais amplas, os alunos da outra turma identificaram o mesmo problema com opção pessoal, como se a violência fosse por conta de sujeito violentos. Essa diferente interpretação levou, consequentemente, à diferentes propostas de encaminhamentos de solução. Os alunos que aprenderam através da pesquisa, demonstrando terem construído com relativa autonomia seus saberes, indicaram o investimento público em geração de emprego e educação como soluções possíveis para o problema, já os alunos da outra turma, refletindo um ensino que mais reforça o senso comum do que o questiona, indicaram mais policiamento e a pena de morte como solução final.

Com esta exposição procuramos demonstrar que a aprendizagem através da pesquisa, partindo de princípios tais como o trabalho colaborativo e a abertura da escola para “novos” conteúdos pode proporcionar uma autonomia relativa do aluno na construção dos seus conhecimentos. Acreditamos ainda que só dessa forma é possível um saber significativo sobre a realidade, no sentido mesmo de questionar determinados consensos cristalizados que estão mais interessados na manutenção das nossas características seculares de violência e exclusão, do que propriamente do diálogo em busca de alternativas mais humanas e democráticas.
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