ProduçÕes dos alunos na casa de são josé (1911- 1915): SÍmbolos da cultura material escolar



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PRODUÇÕES DOS ALUNOS NA CASA DE SÃO JOSÉ (1911- 1915): SÍMBOLOS DA CULTURA MATERIAL ESCOLAR


Jaqueline da Conceição Martins

Universidade Federal do Rio de Janeiro



Beline_moda@yahoo.com.br
Rafaela Rocha do Nascimento

Universidade Federal do Rio de Janeiro



Rafauni_pedg@yahoo.com.br
Palavras-chave: Produções escolares; Instituição asilar/escolar; Cultura material escolar.
Introdução
O presente trabalho é resultado de pesquisa de Iniciação Cientifica em andamento cujo trabalho principal é catalogar a documentação que compõe o Centro de Memória da Escola Técnica EstadualFerreira Vianai. O objetivo desse estudo é analisar o ensino de Desenho como parte integrante do plano de estudos da Casa de São José. Abrigo/escola – de caráter filantrópico – que funcionou em regime de internato entre os anos 1888 a 1916. O propósito da instituição era o de acolher meninos considerados “desvalidos” ofertando-lhes o ensino primário e a iniciação ao trabalho. Sua concepção assistencialista acompanhou as ideias científicas, próprias do período estudado, onde adquiriu destaque a formação para e pelo trabalho. No período republicano, a instituição passa para a administração do Estado, contudo ainda contaria com o incentivo de “capitalistas” e “industrialistas”. Nesse contexto, a expressão “educação profissional” emerge em função do novo molde capitalista/industrial, que fortemente afetou a organização e o funcionamento da Casa de São José e suas congêneres. No âmbito desse estudo, trabalhamos com o corpus documentalii composto pelos desenhos dos alunos da Casa de José, que integram a produção escolar da mesma, e datam de 1911 a 1915.

Para desenvolvermos este artigo também contamos com outras fontes documentais, do recorte temporal em questão, tais como: Decretos (1891 e 1904); o periódico A Noite; correspondências oficiais da Casa de São José; Plano de ensino da cadeira de desenho de 1893; “Attestado de frequencia do pessoal da Casa de São José” de 1914 e convite para a Exposição Escolar de 1896.

Para investigarmos as produções escolares – desenhos - dos alunos da Casa de São José, nos apropriamos do conceito de cultura material escolar, que nos fornece aportes teóricos para compreendermos o objeto de estudos em questão. Desejamos ampliar esse conceito para além do estudo sobre mobiliário, utensílios, materiais pedagógicos, etc., não desconsiderando que é por meio dos materiais escolares que podemos instituir práticas discursivas, modos de organização pedagógica da escola, constituição de sujeitos e práticas, significados simbólicos e outros.

Ao indagarmos sobre a forma como se constituía o ensino de desenho na Casa de São José, encontramos vestígios trazidos nas produções desse aprendizado, como as marcações nos versos de dois desenhos, registrando ser de “1º logar” e 2º “logar”. A partir dessa constatação percebemos a necessidade de um estudo seguindo um caminho pautado nas produções como uma cultura material escolar, pois se trata de objetos que fizeram parte da Casa de São José e ainda são fruto de práticas e possíveis estratégias de emulação, decorrentes da necessidade de ordem e manutenção do saber.

Neste sentido, não desejamos estudar os desenhos em uma visão e apreciação puramente artística, mas estabelecermos a interlocução com os recortes de informações coletadas em jornais, decretos do período e de outras fontes que vão desde o convite das exposições aos relatórios do diretor e professores. Por isso, enfatizamos nossa opção de estudo como a seleção dos desenhos dentro das práticas instituídas na escola.

Em relação à escolha teórico-metodológica dialogamos com os estudos de Fiscarelli e Souza (2007), ao trazerem, também, os troféus escolares sob o olhar da cultura material escolar, pois consideram os objetos como “signos ricos de idéias, sentidos, representações que mostram um modo de pensar e agir sobre o mundo” (p.109). A contribuição desses estudos para esse estudo se dá ao nos fornecer informações para a análise do objeto em questão – os desenhos – que pode não se limitar ao aspecto físico, incorporando significados, cotidiano e valores que os mesmos carregam, percebendo além do que é visto de fora e articulando os discursos, a cultura da instituição, as indagações sobre o objeto e a intencionalidade que carrega.

Cabe ainda lembrar, segundo Lnerthe (2005), que o estudo do objeto escolar como um valioso meio de reflexão e indagação ultrapassa sua simples composição, ou seja, “(...) por esses sinais e indícios na realidade opaca, ou melhor, é através das falhas do conhecimento geral que se deve procurar, na particularidade, um sentido que tenha um vínculo, uma significação para a totalidade” (p. 149). Logo, os desenhos se tornam um objeto de pesquisa bastante rico, pois, se o olhar do pesquisador for de conhecer não só o objeto e sim as práticas que o envolviam, o valor deste artefato será de múltiplas reflexões e indagações.

Os indícios são o caminho para a construção de uma rede de significados que possivelmente eram atribuídos na instituição escolar a determinadas realizações, assim como as que faziam parte do ensino de desenho, o que permite caminharmos no sentido de perquirir esses detalhes com o entendimento de que esse estudo é complexo e necessita de um olhar que não se limite a uma visão macro do objeto e aos discursos maniqueístas. Por este caminho, desejamos mostrar o valor que era atribuído aos desenhos seguindo um estudo sobre seus usos e funcionalidades, ou seja, como isso era pertinente para a Instituição e para a sociedade envolvida nessas produções e os significados que lhe eram incorporados pelos discursos pela manutenção dessas práticas, pois os “artefatos se transformam ao longo do tempo com o efeito dos contatos culturais” (Fiscarelli; Souza, 2007, p.111).

Por fim, investigamos como eram planejadas e desenvolvidas as aulas de desenho, e o modo como eram utilizados pela instituição nas exposições escolares. A hipótese de trabalho é que a instituição organiza o seu plano de estudos, incluindo o ensino de desenho, voltado para a formação da mão-de-obra de que necessitavam as incipientes indústrias brasileiras. Por meio do cruzamento das fontes, observamos que há indícios de que havia interesse da Casa de São José em sociabilizar os resultados da instrução por ela ministrada.

Desta forma, inquiri-se: quais eram as relações estabelecidas entre o ensino de desenho e a formação profissional dos alunos? Para responder essa questão dividimos o estudo em cinco partes, objetivando uma metodologia que forneça informações sobre: a) breve apresentação da Casa de São José e do Centro de Memória Ferreira Viana; b) a escola primária e o aprendizado de desenhos: uma formação para o trabalho; c) a Cultura Material Escolar sobre a produção dos alunos – desenhos; d) significados das exposições e premiações na cultura escolar e, e) estudo de dois casos envolvendo o ensino de desenho. Os subtítulos seguem uma sequência visando permitir o diálogo entre os temas abordados no trabalho, que em seu desenvolvimento permitem uma maior clareza dos acontecimentos que envolveram o ensino de desenho e facilita a discussão ao longo deste ensaio.

Neste sentido, visamos relacionar as fontes utilizadas com os desenhos intencionando uma análise constitutiva sobre a importância dessas produções pelas festas e exposições que costumavam ocorrer nas escolas primárias da época, começando por uma ordem que apresente ao leitor a instituição analisada para depois tratar de responder nossas indagações ao dialogar com autores e outras fontes que explicitam a aula de desenho e sua importância para a Casa de São José, assim como as exposições.

Por fim, desejamos percorrer um caminho que contemple a discussão do ensino de Desenho como parte da inovação pedagógica em curso e nos interrogarmos a respeito da sua importância como formação prática.
Breve conhecimento da Casa de São José e do Centro de Memória Ferreira Viana

A Casa de São José foi um abrigo-escola – de caráter filantrópico – fundado em 9 de agosto de 1888, na cidade do Rio de Janeiro, pelo então Ministro da Justiça, Antônio Ferreira Viana. Antes dela, o Asylo de Meninos Desvalidos já cumpria com a assistência às crianças pertencentes às classes populares, funcionando desde 1874 por iniciativa governamental por meio do Conselheiro e Ministro João Alfredo Correia de Oliveira.

O Asylo de Meninos Desvalidos e a Casa de São José só se vincularam à Diretoria de Instrução Pública dois anos após a aprovação da Lei Orgânica de 1892, passando antes pela Diretoria de Higiene e Assistência Pública, o que nos fez ver que essas duas instituições durante esse período tiveram um caráter caritativo-assistencial.

Com a regulamentação do ensino profissional, em 1902, pelo decreto nº 282 de 27 de fevereiro, a Casa de São José, passou a ser um curso de adaptação para o ingresso ao Instituto Profissional Masculino (antigo Asylo de Meninos Desvalidos), destinando-se a receber e educar “menores do sexo masculino, dos seis aos doze anos de idade, proporcionando-lhes o ensino primário e prático de algumas profissões mecânicas adequadas a sua idade” (Art. 2º).

Por meio do decreto nº 496 de 27 de agosto de 1904, confirma-se o caráter assistencialista da Casa de São José, ao registrar que esta oferecia “aos recolhidos, alimentação, vestuário e tratamento médico, além do ensino de artes e ofícios, das noções do curso elementar de instrução primária, de desenho aplicado às artes, de trabalhos manuais e de exercícios ginásticos e militares”.

No que diz respeito ao Centro de Memória Ferreira Viana, localizado na Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, antiga Casa de São José, segundo Machado (2004, p. 10) a desordem das obras e das instalações do prédio, em 1988, contribuiu para que os professores encontrassem “um rico arquivo de documentos relativos à fundação da Casa de São José, bem como seus primeiros anos de funcionamento”. A referida autora, não faz menção acerca da localização desse conjunto de documentos – os desenhos – e como o estado era de muita poeira e umidade, muitos papéis ou se perderam ou foram inevitavelmente para o lixo. Machado ressalta ainda, que com essa reforma no prédio e com a retirada total dos telhados, muitos mobiliários da escola foram destruídos por causa das chuvas abundantes, eventos que provavelmente afetaram a sala do Centro de Memória. Assim, os desenhos localizados foram os que sobreviveram ás intempéries do tempo, das condições do prédio e da omissão do Estado frente aos ricos acervos de suas instituições de ensino.

Portanto, o trabalho no Centro de Memória nos possibilitou um conhecimento mais aprofundado sobre a Casa de São José, pois a informação sobre sua história e suas atividades pedagógicas, não se restringiram ao que conhecemos pela Lei. Como referido na introdução, os desenhos encontrados constituem-se fontes valiosas para se pensar as suas práticas escolares, pois os traços bem elaborados dos desenhos, a identificação de colocações como 1º e 2º lugar, armazenamento de vários desenhos pertencentes a determinados alunos e os documentos relacionados ao ensino de desenho encontrados no Acervo, nos permitiram estudar esse conjunto de documentos.

A escola primária e o aprendizado de desenhos: uma formação para o trabalho

No período Jesuítico a educação voltada para as artes não era um conhecimento muito valorizado. Era tido como um conhecimento secundário, mas não buscando generalizar o conhecimento voltado para o trabalho manual, o ensino de artes e ofícios. “(...) No projeto missioneiro, eram tidas como atividades sumamente importantes para o progresso de uma república (...)” (Nascimento, 2008, p.42)iii, pois muitos trabalhadores eram indispensáveis, como os arquitetos, os ferreiros, os marceneiros entre tantos outros que eles citavam. Como também os artistas, os pintores, os músicos, entre outros.

Desse modo, o ensino de desenho apresenta sentidos e conotações diferentes na história. Relevante para as camadas mais abastadas da sociedade ao oferecer uma formação mais intelectual, para a visão do belo e para tarefas ligadas às expedições científicas nas colônias. Assumiu novas conotações ao ser introduzido na escolarização das camadas populares.

Assim, após esse ensino ter ficado “por muito tempo sob o monopólio da nobreza e de profissionais que tinham a tarefa, não só de realizar as investigações científicas, mas também de identificar o lugar, demarcar o espaço (...) e de atuar nas indústrias fabris que emergiam” (Trinchão, 2008, p.127) em Portugal. No Brasil imperial o ensino de desenho foi criado para formar profissionais que também atuassem nas manufaturas, mas que não fosse reservado apenas a algumas camadas da sociedade, investindo na “educação do povo” e na formação dos trabalhadores.

Com isso, as reformas educacionais previam a inclusão do aprendizado nas oficinas nos planos de ensino das instituições primárias e secundárias criadas na Corte com a intenção de dar a instrução necessária a formação do homem que “não tem meios para fazer estudos superiores, e, abraçando uma outra mais vantajosa para si e mais util para a patria, mudando a face da industria fabril e manufatureira”iv

Na formação do asylado da Casa de São José, de acordo com o Decreto nº 496, de 27 de agosto de 1904, que versa sobre o Regulamento da Casa de São José, em sua página 14 deixava visível a importância dada à preparação para os trabalhos manuais, pois tendo os alunos idade inferior a 12 anos de idade e “completado o curso no estabelecimento, oportunidade em que revelaria aptidão para algum dos ofícios ali ensinados, seria desligado e transferido para o Instituto Profissional João Alfredo, isso, se sua conduta tivesse sido regular” (Art. 5º).

Infere-se que o interesse dessa formação envolvia as indústrias, uma vez que o custo de mão-de-obra do menor v era mais vantajoso, pois tinha valor inferior pago ao adulto, como podemos verificar no estudo de Félixvi quando se refere ao trabalho dos “menores” nas indústrias e no decreto de 1891que regulamentava a rotina nas fábricas para as crianças a partir dos 8 anos de idade a título de aprendizadovii.

  Desta forma, essa instituição, no período considerado por este trabalho, deveria oferecer o ensino de língua portuguesa, leitura e noções gerais de gramática prática; lições das coisas, noções gerais e muito elementares de geografia, especialmente do Brasil; aritmética prática, problemas sobre operações usuais; instrução moral e cívica, compreendendo os fatos mais consideráveis da História do Brasil; caligrafia e desenho, este aplicado às artes e ofícios; ginástica e exercícios militares, de acordo com o já referido Decreto em seu Art. 7ºviii.

Nesse sentido, de acordo com Souza (2008, p.35), a formação do “futuro trabalhador brasileiro necessitava de conhecimentos variados, ainda que limitadíssimos”, destacando os esforços empreendidos para a instrução das camadas populares. A autora também afirma que, além dos saberes considerados elementares, a inserção de outros aprendizados era uma prática comum, pois “caberia ainda a escola primária prover às camadas populares alguns conhecimentos técnicos, de cunho profissional” (Idem), o que demonstra uma forte preocupação com as ocupações manuais, onde o desenho poderia estar relacionado em seu programa, porque na Casa de São José, esse pertencia aos aprendizados de Artes e Ofícios.

Assim, analisando o plano de ensino e as correspondências oficiais da Casa de São José, referentes à aula de desenho, de onde saiam alguns trabalhos, que seriam possivelmente expostos, encontramos algumas informações de como se realizavam as aulas de desenho e confirmamos a hipótese de que, para além de um trabalho voltado para as artes, ele deveria ser pensado para o trabalho fabril.

O que nos motiva a testar essa hipótese é que no programa da cadeira de desenho datado de 1893, muitas lições se resumiam às aplicações à indústria:
Desenho: estudo dos modelos em relevo (pastas cartão) série A, B e C, sempre executado do tamanho igual ao modelo. Em cada lição o professor aproveitará o modelo para dar explicações de formas geométricas, ministrando aos alunos por este meio o conhecimento das figuras planas e sólidas e suas aplicações na indústria e na arte, o conhecimento e uso do prumo. O estudo da série A e B será somente contornado podendo se o professor julgar conveniente combinar um ou outro da série C. Cópia de folhas nacionais, modelos de gesso moldados sobre o natural (...)ix.
Portanto, como demonstrado na assertiva acima, no plano da aula de desenho existia toda uma preocupação em torno de um conhecimento que fosse voltado para o estudo das formas e aplicações geométricas, assim como: “Conhecimento das figuras planas e sólidas e suas aplicações na indústria e na arte”. Neste sentido, como verificado no plano da aula de desenho, existia toda uma preocupação em torno de um conhecimento que fosse voltado para o estudo das formas e aplicações geométricas, visualizados nas frases citadas como: “Conhecimento das figuras planas e sólidas e suas aplicações na indústria e na arte”.

Na distribuição das horas de aulas, que segundo o mesmo Decreto em seu Art. 11 § 1ºx, ter-se-á muito em vista, que as de ensimno primario deverão funccionar de modo a não ficarem prejudicadas as de trabalhos manuaes e as de officinas sendo que o desenho com applicação ás artes e officios terá lugar nas respectivas officinas”. Confirma-se então o lugar e a relevância que o ensino de desenho poderia ter tido na Casa de São José.

Para o exercício da docência na cadeira de desenho, a Casa de São José contava com o professor titular Raphael Frederico. Seu nome aparece relacionado em documentos dos anos de 1893 e 1914.  Nesse mesmo período, constam também os nomes de dois adjuntos: o professor Manoel Teixeira da Rocha e a professora Alzira de Carvalho.  Constamos, ainda, a existência de um ajudante para referida a cadeira de desenho, assim como em trabalhos manuais e outros aprendizados. 

Portanto, o ensino de desenho seria parte da rotina asilar/escolar propícia ao desenvolvimento do aprendizado profissional, não estariam longe de proporcionar aos alunos daquela instituição uma boa formação para o trabalho nas indústrias e para a vida, aperfeiçoando-os em suas destrezas manuais desde a tenra idade.

Assim, por ser a Casa de São José, um abrigo/escola pensado para encaminhar à formação de trabalhos manuais, acreditamos na possibilidade da aula de desenho como um dispositivo de observação das aptidões necessárias às atividades manuais nas indústrias e fábricas. Dessa maneira, uma perspectiva importante para os grupos que viam no crescimento industrial o caminho a ser tomado pela nação sob o novo regime político – a República.

A partir dessa constatação, percebemos também que o ensino de desenho se constituiu, ao final do século XIX, como ponto de tensão entre dirigentes municipais e professores da instituição, a partir das diferentes concepções sobre a educação dos asilados. A pista que seguimos encontra-se em um relato do escrevente Tenente Alfredo Pinto de Carvalho, do ano de 1894, ao ex-diretor sobre o programa de Desenho e Caligrafia, revelando já terem sido suprimidos pelo Conselho Municipal, retirando o ensino de desenho em sua Lei Orçamentária de 1893, sendo confirmado este mesmo ato no ano seguinte.

Ao mesmo tempo, o conteúdo do documento oficial direcionado ao prefeito, de uma queixa referente ao não fornecimento de material de desenho, feita pelo professor substituto Manoel Teixeira Rocha que mesmo tendo a retirada deste aprendizado insistiu com o programa, pois de acordo com ele, a mesma cadeira constava nos estatuto da Casa de São José e alegava ser esse conhecimento “(...) indispensável a uma escola profissional como a Casa de São José, não havendo motivo ou vantagem em supprimil-o (...)”xi.

No mesmo sentido, podemos perceber que essa preocupação não se limitava ao corpo docente, mas também partia do diretor da instituição o Dr. Alfredo Barcellos. O referido diretor, ao relatar a necessidade de oficinas destinadas a esse aprendizado, em artigo publicado no Jornal “A Noite” de 4 de abril de 1914, deixou claro que existia a preocupação do mesmo na ausência desse saber, afirmando que “não se comprehende que um estabelecimento como aquelle ainda não tenha 'officinas de artistas'” e questiona se “não seria tão util ao asylado sair dali carpinteiro, ferreiro, eletricista, sapateiro, ou perito em qualquer arte?”xii

Questão antiga, considerando que em 1876, Félix Ferreira já defendia a importância do ensino do desenho voltado para as “exigências industriais”. Vejamos em suas palavras o que tem a nos dizer:
A harmonia que deve existir entre a educação e as exigencias industriaes da actualidade, exige tambem que o dezenho occupe um lugar conspicuo na educação popular. Tanto pelo aperfeiçoamento pessoal, que o dezenho produz, como tambem pela sua utilidade pratica, deve ser elle ensinado em todas as escolas publicas.xiii
Retornando à Casa de São José – que foi um abrigo/escola público – e, por conseguinte ao ensino de desenho, parece que o conflito sobre o que se considerava necessário para a formação daqueles alunos e o que não era considerado, incidia sobre o aprendizado de desenho, mesmo que este fizesse parte de um discurso em defesa da sua importância na formação manual para os ofícios. Ao mesmo tempo, cabe destacar a possibilidade de que essa cadeira tenha sido mantida na escola por esforços dos docentes, ainda que por mais um tempo, desde 1893 até 1916.

No entanto, mesmo que esse ensino tenha permanecido até 1916, ele pode ter sido base para muitas profissões em fábricas, podendo assim, ter permeado o universo da cultura escolar daquela Instituição através de festas e exposições. Por isso, que as premiações internas, feitas possivelmente pelos docentes de determinadas cadeiras, não podem ser visualizadas como casos isolados desse processo de manutenção e exposição dos saberes, elucidados na Casa de São José, pois os esforços empreendidos pelos sujeitos presentes no universo escolar, que podem ir além do previsto em lei, é que permitem dar vestígios para a educação de hoje do que era desenvolvido na instituição de ensino, além de demonstrar características únicas de cada escola.

Assim, por ser este um abrigo/escola próprio para encaminhar à formação de trabalhos manuais, pensamos na possibilidade da aula de desenho como um dispositivo de observação das aptidões necessárias às atividades manuais nas indústrias e fábricas, uma perspectiva importante para os grupos que viam no crescimento industrial o caminho a ser tomado pela nação sob a égide do desenvolvimento político e econômico.

Portanto, através do conjunto de desenhos e documentos encontrados no Centro de Memória, tivemos a oportunidade de analisar os sentidos do ensino de desenho na Casa, articulando diferentes fontes, como a legislação e os periódicos da época, a saber, o Jornal do commercio, A Noite e a Gazeta de Notícias, entre outros, jornais que costumavam publicar notícias de exposições em festas de encerramento do ano letivo de várias instituições primárias públicas.

Contudo, não encontramos nenhuma notícia nesses periódicos a respeito das festividades na Casa de São José, levando-nos a alguns questionamentos. As festas de fim de ano ocorriam mesmo nesta escola? Seriam relevantes para essa instituição? Esta realizava exposições públicas com a mesma frequência que as outras? Qual a visibilidade atingida junto à sociedade carioca por essa instituição e por último: Qual o significado que tinha a exposição destes desenhos na cultura escolar da instituição. Questões que no limite dessa reflexão não daremos conta de respondê-las, mas que, no limite, sinalizam uma agenda de trabalho a ser percorrida.
Significados das exposições e premiações na cultura escolar
A prática das exposições dos trabalhos infantis no âmbito educacional se originaram das exposições universais, realizadas a partir de meados do século XIX. Elas tinham a intenção de mostrar os progressos da modernização e os produtos da indústria. O modelo de realização de exposições migrou para dentro da escola especialmente entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX. Na primeira Exposição Pedagógica, realizada em 1883 no Rio de Janeiro, constava em seu convite uma listagem dos objetos que poderiam ser expostos, os quais incluíam também o que era produzido pelos estudantes, junto com a designação dos métodos adotados.

Da mesma forma, no Centro de Memória do Instituto Ferreira Viana/ Casa de São José localizamos um convite para a exposição dos trabalhos anuais do ano de 1896, para os alunos das escolas públicas dos quais participavam os que faziam parte dos jardins de infância, das escolas primarias masculinas e as femininas e dos cursos secundários e normais, constando de trabalhos clássicos dos alunos, com a inclusão dos trabalhos e objetos que poderiam ser expostos. Entre os materiais permitidos para a exposição estavam os de desenhos lineares, onde para a apresentação deveriam


(...) abranger no mínimo o período lectivo de trez mezes, apresentar uma disposição progressiva, trazer as corrigendas, notas ou observações dos respectivos professores, afim, de exprimirem trabalho real, constante e consciencioso da escola, o methodo, a qualidade e a gradação dos deveres.xiv


Além das regras para a exibição dos trabalhos determinarem a mostra da qualidade do ensino desenvolvido nessas escolas, o texto de abertura do convite também se apropria de representações sobre essas exposições da época, quanto à importância de dar visibilidade ao trabalho reformador e civilizatório realizado dentro das instituições de ensino, exibindo o que estava sendo feito em prol dos menos favorecidos e que resultados estavam sendo obtidos, pois, de acordo com o seguinte trecho:
As exposições escolares já realisadas por este instituto têm mostrado que não estamos tão atrazados em matéria de instrucção como suppõem muitos; os processos modernos de ensino são conhecidos em não pequeno numero de escolas. O que nos falta é generalizal-os e é essa a providencia urgente em que se empenha o Pedagogium e da qual devem lançar mão os que se preocupam seriamente do futuro da nossa patria, que tem tudo a esperar da boa e salutar instrucção dada ao povo.xv
Portanto, a partir dessas informações percebemos que a intenção das escolas públicas primárias era de se utilizar as exposições para mostrar os avanços pedagógicos e promover seu trabalho de caráter caritativo-assistencial e, concomitantemente, de uma formação profissional que enobrecia o trabalho realizado com os meninos tidos como “desvalidos” e também com o cuidado do preparo dos que trabalhariam para o futuro do país. Assim, de acordo com as regras, ressaltadas por um diretor de uma respectiva instituição de ensino, no convite endereçado a Casa de São José, as exposições e os trabalhos dos alunos poderiam ser observados e comparados para que se ressaltasse a evolução de cada um e o que ainda deveria ser feito para o aperfeiçoamento do aprendizado.

Os anseios de modernidade impregnavam os mais diversos textos da época, como aqueles das reformas e dos planos de ensino, dos convites das exposições, reforçando a intenção de modernizar o país por meio do desenvolvimento do ensino. O moderno e o atrasado são termos que estão presentes no convite da Casa de São José, no entanto mesmo com o discurso aludido e a forma como se desejava realizar o evento

A exposição é incapaz de revelar todo o enredo das experiências vividas (o sabor das conquistas e a frustração das derrotas, as emoções e decepções de alunos, professores e outros envolvidos), mas prestasse a evocação de um passado memorável atrelado, muitas vezes, e a representações de excelência e qualidade do ensino (Fiscarelli; Souza, 2007, p. 98).
Dessa forma, de acordo com Fiscarelli e Souza (2007, p. 104), ao mesmo tempo em que, as exposições serviriam a escola na promoção sobre o discurso de qualidade do ensino desenvolvido, ela também escondia as falhas, pois, “ao mesmo tempo em que sugerem o testemunho das participações bem sucedidas, silenciam sobre os fracassos”, ou seja, a realização das exposições no final do ano, constando no convite com data prevista para o dia 27 de dezembro, traz indícios da disseminação do que foi declarado qualificável para representação da instituição de ensino, ao relatar como necessário a precedida correção do professor, podendo haver um mecanismo de pré-seleção para os trabalhos.

Ao confrontarmos os dados inclusos no verso de dois dos desenhos encontrados com o convite de participação dessa instituição asilar/escolar na Exposição de 1896, podemos supor que esses eventos pudessem ter ocorrido mais vezes e a escola ter participado com as suas produções escolares, de acordo com regulamento do convite. Essa fonte indica práticas de premiações previstas, a qual apresenta um quadro de honra onde entrariam os nomes dos premiados. Assim, como os dois desenhos do acervo (cf. figuras 1 e 2 respectivamente) estão com as marcações de “1º logar” e “2º logar”, podem confirmar a ocorrência dessa prática.



Figura 1 – Desenho do aluno Olyntho Pires, sem identificação de data e contendo no verso a inscrição: “1º logar”.xvi


Figura 2 – Desenho de um aluno sem identificação, apenas com as seguintes inscrições no verso: “184” e, escrito a lápis “2º logar”.xvii


Desta forma, na Instituição estudada, ao averiguarmos alguns relatórios do final do século XIX percebemos que as práticas das premiações eram valorizadas, pois nesses documentos, encontramos os pertencentes a um professor da cadeira de trabalhos manuais, onde o mesmo pedia uma quantia em moeda para ser direcionada aos alunos que se destacaram com proveito durante as suas aulas e também, a partir, dos resultados finais dos exames, o que nos levou a mais uma hipótese: a de que poderiam ocorrer também essas premiações nas aulas de desenho, pelo professor do mesmo aprendizado.

Por essa razão, os dois desenhos acima evidenciam a participação em algum tipo de concurso escolar, seja ele, na sala de aula ou não, organizado de acordo com a rotina da escola, as concepções pedagógicas dos professores e diretores, enfim, orientado pela cultura escolar desenvolvida na instituição. Além disso, devemos ressaltar a importância que tinham as exposições escolares, assim como também os exames e as festas de encerramento do ano letivo, pois tinham a função de tornar públicas as atividades desenvolvidas nas instituições, aproveitando a ocasião para que tanto a família como, a população em geral, tivessem conhecimento do trabalho realizado dentro da instituição, atribuindo assim, significados ao ato de premiar no intuito de causar resultados positivos no processo escolar.

Fiscarelli e Souza (2007, p. 104) destacam que as premiações “constituem indícios significativos” dessas práticas, especialmente no que se refere aos tipos de concursos que podem ser desportivos, literários, industriais, entre outros. Segundo as autoras, essas práticas “põem em cena habitus estudantis e os vínculos entre a escola e a sociedade” (Idem). Ou seja, a Casa de São José, por meio de instrumentos pedagógicos, como as premiações, tinha por objetivo estimular os alunos para uma formação voltada para o trabalho, recorrendo a estratégias de emulação e aos discursos pertinentes ao desenvolvimento econômico da nação.

Devido aos padrões de excelência baseados na ideia de capricho e do “bem feito”, estes, talvez, levariam a ocorrência de algumas burlas ao regulamento da exposição, o que nos permitiram indagar, se alguns dos desenhos aqui analisados não teriam sido feitos pelo professor ou finalizados pelo mesmo e dando nome pela produção, ao aluno, pois estes poderiam ter em média 10 anos de idade.xviii

Essa indagação partiu de uma análise feita por um professor do grupo de pesquisa do qual participamos nesse projeto, assim, a hipótese partia de que se alguns dos desenhos que encontramos não teriam sido feitos pelo professor ou finalizados pelo mesmo e dando nome pela produção, ao aluno e então, intentamos responder essa questão para saber se era possível a ocorrência dessa prática.

No entanto, tomamos conhecimento, por parte de uma especialista da área de Arte e Educação, de que os alunos das escolas profissionais desde cedo aprendiam vários ensinamentos de desenho e que era de interesse das escolas a perfeição nos detalhes com a intenção de aprimorar as habilidades manuais e a percepção do belo. Recorremos ao trabalho de Ferreira do ano de 1876, para essa compreensão:


Não falta ao brazileiro aptidão e habilidade para as artes, principalmente plasticas; si tivessemos escolas de dezenho e officinas normaes não escasseariam modeladores nem ornatistas; mas onde irão aquelles que se sentem com vocação para as profissões industriaes, aprender as regras da arte e os preceitos do bello? Onde os bons modelos que inspirem e apurem-lhes o gosto?xix
Assim, a hipótese, na verdade é de que essas imagens contendo os desenhos dos alunos evidenciam o cuidado e a relevância do desenho na instituição examinada. Em vista disso, os desenhos da instituição estudada são relevantes para indagarmos sobre os processos advindos dessas produções, pois estão intimamente relacionadas à cultura escolar especifica da instituição e à cultura educacional que se pretendia disseminar junto às escolas primárias e de ensino profissional do período.

Desta forma, os desenhos se relacionam a essa ambiência cultural, que sobre o prisma da cultura material escolar, permitem a disseminação de “uma rede de significações que denunciam a presença de determinadas práticas, ritos e tradições incorporadas e conservadas pela instituição escolar” (Fiscarelli; Souza, 2007, p.101). Portanto, sob essa perspectiva, e a partir de nossas indagações, podemos observar a importância posta ao ensino de desenho mesmo passando por dificuldades advindas da supressão e ao mesmo tempo a insistência na permanência da cadeira de desenho na Casa de São José.

Com isso, seguindo o caminho de Shueller e Gondra (2008), ressaltamos que estas práticas pedagógicas podem elucidar variadas reflexões, além do uso dos instrumentos pedagógicos.

Em vista disso, com a afirmação de Machado (2004), de que o ensino de desenho fez parte da Casa de São José até o ano de 1916, verificamos que mesmo com os esforços efetuados para mantê-lo, ele foi extinto de vez. O que nos levou a pensar se era porque este ofício não seria mais interessante para as fábricas ou não se efetivou por outro motivo, como a falta de verba já reclamada antes, quando a escola ultrapassou a ordem do Conselho Municipal na supressão do desenho das aulas públicas em 1893.

Neste caminho, nos referenciamos em Shuller e Gondra, ao trazerem as ideias do inspetor de instrução pública, Uchoa Cavalcante (1879), onde este afirmava que
(...) era preciso ir além dessas fontes, problematizá-las, posto que a ‘experiência’ demonstrava o quanto o estudo exclusivo das leis poderia levar a ‘falsas apreciações’: os programas escolares, na prática, muitas vezes se alteravam e, outras vezes, eram postos inteiramente de lado pelos agentes da prática educativa.(Shuller; Gondra, 2008, p.440)xx
Contudo, não intencionamos desenvolver neste trabalho uma afirmação a cerca dos hábitos e significados que continham na Instituição em estudo, mas sim buscar nas fontes, averiguar e abrir espaço para reflexões direcionadas à cultura que possivelmente constituía-se nas exposições escolares e o que fazia parte desse cotidiano.



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