Prince of secrets



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Encontro12.04.2018
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CAPÍTULO 6

Demyan balançou cabeça, tentando clarear os pensamentos.

— Por que você acha que gemi? Já se passaram três noites.

Chanel tentou não demonstrar sua satisfação, mas temia não ser bem-sucedida nisso.

Então, inclinou a cabeça e encontrou o olhar invejoso de outra mulher. Chanel ignorou, a inveja não tinha poder para furar a bolha de felicidade ao seu redor.

Demyan estava com ela e não demonstrava o menor interesse em estar com outra mulher.

Ela olhou para o som de seu riso. Ele a estava observando.

— Sou engraçada? — perguntou ela.

— Está muito satisfeita consigo mesma.

Estou feliz com a vida, e com você, acima de tudo.

Ela não compartilhava seus sentimentos com facilidade, mas Laura não passara a tarde apenas dando conselhos de moda. A irmã mais nova dissera que, se Chanel realmente gosta desse cara, precisava se abrir para ele.

— Você não pode fazer aquilo que faz com a mãe, o pai e todo mundo, exceto com Andrew e comigo — disse Laura.

— Que coisa?

— A maneira como esconde quem é, para que ninguém possa machucá-la.

— Você é muito perspicaz.

— Para uma adolescente, você quer dizer.

— Para qualquer um — Sua mãe tinha quase 50 e mal compreendia a natureza da filha mais velha.

A mão de Demyan deslizou até seu quadril, as pontas dos dedos brincando com sua pele exposta.

Chanel afastou-se do toque.

— Não gosto de ser ignorado.

— Não estava ignorando você.

— Não estava pensando em mim.

— Como pode dizer?

— Eu sei.

— Você é arrogante.

— Você já disse isso, mas sabe que eu não concordo.

E quanto mais o conhecia, menos ela acreditava na acusação. Havia uma vulnerabilidade difícil de detectar no homem ao seu lado. Era preciso enxergar muito de perto para ver.

— Estou pensando em você agora — assegurou ela.

— Eu sei.

Chanel riu em meio à multidão.

— Demyan! — Uma voz feminina chamou.

Não havia como não perceber a tensão em seu corpo, não com ele tão perto de Chanel.

Eles se viraram em direção à mulher que o havia chamado, com um sorriso falso que Chanel não via desde seus primeiros encontros.

— Madeleine.

O senso de moda e a postura de Madeleine eram tudo que a mãe de Chanel desejava para sua filha.

Infelizmente, Chanel recusou-se a viver de acordo com tais esperanças. Ainda muito jovem, ela aprendeu que nada que fizesse seria suficiente; portanto, qual a finalidade de tentar ser alguém que não era?

O cabelo loiro de Madeleine provavelmente não era natural, mas não havia indicadores para confirmar. Usava um vestido Givenchy com suprema confiança, os acessórios em perfeita proporção.

Chanel não poderia adivinhar a idade da outra mulher só de olhar para ela, mas chutou algo entre 30 e 45 anos bem preservados.

O olhar que ela deu a Demyan indicou que ele sabia qual era a idade dela intimamente.

Se isso tivesse acontecido um mês antes, Chanel teria se retirado do campo de batalha.

Contudo, o que ela negou no terceiro encontro era uma certeza agora. Estava perdidamente apaixonada por Demyan Zaretsky, embora não tenha tido a chance de dizer a ele. Não tinha certeza de quando o faria.

Embora ele nunca tenha dito as palavras, sugeria um futuro juntos quase toda vez que se encontravam

O amor e o compromisso dele com o futuro davam-lhe força.

Baseando-se um pouco na autoconfiança da mãe, Chanel adiantou-se e estendeu a mão.

— Chanel Tanner. Você é uma velha amiga de Demyan?

Madeleine percebeu a leve ênfase de Chanel na palavra “velha”, seus olhos se estreitando ligeiramente com raiva, mas não com justa indignação. Então, era mais velha do que aparentava.

— Pode-se dizer que sim — Madeleine pôs a mão no ombro de Demyan. — Nós nos conhecemos muito bem, mas admito que não sabia que ele usava óculos.

Demyan afastou-se habilmente do toque enquanto mantinha um braço em torno de Chanel.

— Seu marido está aqui, Madeleine?

O estresse deixou o corpo de Chanel rígido. Demyan tivera um caso com essa mulher? Ele disse que não acreditava em infidelidade.

Será que mentiu?

— Ele não conseguiu escapar do trabalho. Estou sozinha esta noite. — Madeleine sorriu para Demyan com expectativa.

Ficou claro que estava esperando por um convite para juntar-se a eles, embora Chanel não tivesse certeza de como isso deveria acontecer.

Seus ingressos tinham assentos numerados.

Demyan ignorou completamente a indireta.

— O custo de ser casada com um homem e suas responsabilidades.

A mulher mais velha franziu a testa, desta vez havia raiva logo abaixo da superfície.

— Será que sua amiguinha aqui sabe disso? Ou ela ainda está na fase da lua de mel, acreditando que vai fazer dela uma prioridade?

— Ela é prioridade. — Demyan puxou Chanel mais perto.

Ela não sabia se o movimento foi consciente, mas Madeleine percebeu isso também.

Madeleine recuou, e Chanel sentiu uma inesperada compaixão.

— Tenho certeza de que você é prioridade para seu marido. Ele trabalha para vocês terem uma boa vida.

Seu pai costumava dizer isso para sua mãe.

— Eu sabia no que estava me metendo quando casei com ele. — Madeleine olhou para Demyan. — E do que estava desistindo. As chances eram melhores com Franklin.

— Ele se casou com você. Portanto, interpretou bem a situação. — Havia uma mensagem na voz de Demyan para a outra mulher.

Demyan estava dizendo que não teria se casado com ela, e suas palavras tranquilizaram Chanel sobre o caso extraconjugal. Oh, ficou claro que os dois haviam compartilhado a cama, mas era igualmente óbvio que tudo terminara antes de Madeleine casar-se com Franklin.

— Quanto tempo vocês ficaram juntos? — perguntou Chanel com sua infame falta de tato, mas nenhuma vontade de retirar a pergunta.

Podia ser estranho, mas ela percebeu como sabia muito pouco sobre Demyan.

— Ele não contou sobre mim? — perguntou Madeleine em tom malicioso.

Ainda assim, Chanel só conseguia sentir pena dela. Não parecia feliz com as escolhas que fez na vida.

— Não.

A outra mulher não pareceu contente com a resposta. Talvez Madeleine pensasse que havia causado grande impacto na vida de Demyan.



— Você é bem direta, não é? Sua mãe não a ensinou a ter tato?

— Para sua decepção eterna, não.

Isso trouxe um sorriso inesperado, porém pequeno, para os lábios de Madeleine.

Demyan inclinou-se e beijou a têmpora de Chanel, pois não se aborrecia com essa característica dela.

— Ela é direta — disse ele a Madeleine enquanto olhava para Chanel. — Sem artifícios.

— Então ela não vê o artifício em você — opinou Madeleine, mais triste do que amarga.

— Ele controla algumas coisas — respondeu Chanel antes de Demyan. — Mas sei que não está escondendo nada. Entendo como pode ser difícil compartilhar seu verdadeiro eu com outra pessoa.

— Céus, você não tem filtro? — questionou Madeleine.

— Não.

Foi a vez de Demyan rir, o som genuíno e, aparentemente, chocante para a outra mulher. Madeleine encarou-o, boquiaberta.



Por fim, disse:

— Nunca ouvi você emitir esse som.

— Ele só está rindo. — Tudo bem, Demyan não fazia aquilo com frequência, mas tinha um inegável senso de humor.

Só, diz ela. Essa coisinha jovem realmente não conhece você, não é? — Agora, Madeleine olhava para Chanel com pena.

— Foi um prazer encontrá-la, mas precisamos ir para nossos lugares. Com licença — disse Demyan.

Madeleine não disse nada enquanto se afastavam.

Quando chegaram aos seus lugares, Chanel compreendeu como a outra mulher pensou que ela seria incluída na noite deles. Demyan tinha um camarote.

Apesar de haver espaço para pelo menos oito lugares, havia apenas duas cadeiras, cobertas com veludo Borgonha, estilo rainha Anne. Uma pequena mesa com uma garrafa de champanhe e canapés.

Demyan acompanhou-a a uma das cadeiras, certificando-se que estava confortável antes de sentar-se.

— Sabe, ela está errada.

— Madeleine?

— Sim.


— Sobre o quê?

— Você conhece a base da minha natureza.

— Não sei quase nada sobre você. — As palavras vieram de seu lado cientista, embora seu coração soubesse que ele falava a verdade.

Aquele homem que perdera o controle quando esforçou-se tanto para se conter, aquele era o verdadeiro Demyan.

Demyan balançou a cabeça, seus olhos escuros brilhavam com uma sensualidade que agora ela reconhecia muito bem

— Você conhece as coisas mais pessoais sobre mim

— Ela também

— Não.


— Você fez sexo com ela. — Mesmo sabendo que Madeleine não estava casada na época, Chanel percebeu que o fato ainda a incomodava um pouco.

Sabia que ele tivera outras amantes. Provavelmente muitas, mas não queria encontrá-las.

— Ela nunca viu o lado mais primitivo da minha natureza. Nenhuma outra mulher viu.

— Você acha que o conheço melhor do que ninguém porque não demonstra controle no quarto?

— Sim.

— Quero saber sobre seu passado, não os nomes de cada mulher que esteve com você. Espero nunca encontrar outra, mas não sei nada sobre você. — Exceto que, para ele, ela era especial.



Manteve esse pensamento para si mesma. Queria saber mais.

— É o futuro que conta.

— Mas, sem uma conexão com o passado, não há base para compreender o futuro. — Historiadores faziam essa afirmação o tempo todo, e os cientistas sabiam que era verdade, por diferentes motivos.

— Pensei que os cientistas só pensassem no progresso.

— Com base nas descobertas do passado.

— Sem criar algo completamente novo?

— Nada é novo, apenas recém-descoberto.

— Como seu sensual senso de moda? — Ele brincou.

— Isso foi Laura.

— Ela não está aqui.

— Gostaria que você a conhecesse. — Se iriam ter um futuro, precisariam compartilhar suas vidas no presente.

Inclusive as partes menos agradáveis, como conhecer sua mãe e Perry.

— Gostaria muito disso.

— Mesmo?


— Naturalmente. Ela é sua irmã.

— Uma parte do meu passado.

— E seu presente e futuro.

— Sim, e daí?

Demyan exibiu um olhar desconfiado que ela não compreendeu.

— Quer conhecer minha família?

— Sim. A menos que... Vocês se dão bem? — Talvez o relacionamento dele com os pais fosse pior do que o dela com Beatrice e Perry.

— Dou-me muito bem com a tia e o tio que me criaram.

— O que aconteceu com seus pais?

— Ambição.

— Não compreendo.

— Deram-me aos meus tios para alimentar a própria ambição.

Provavelmente havia mais nessa história, mas ela compreendeu que era algo que Demyan não compartilhava com todos.

— Você os vê?

— Meus tios? Muitas vezes. Na verdade, foi onde passei os últimos três dias.

— Pensei que fossem negócios.

— Eu não disse isso.

— Você não disse absolutamente nada.

— Você não perguntou.

— Tenho o direito de perguntar?

— Absolutamente.

Isso foi definitivo e bem-vindo.

— Tudo bem

— Meus pais aparecem em ocasiões sociais familiares.

— E?

— Não me consideram seu filho.



— Ou seu amado sobrinho.

— Nada amado.

— Sinto muito.

— Você não está muito melhor com sua mãe e Perry.

— Acho que nem um pouco melhor — admitiu ela.

— Seus pais não a compreendem.

— Eles não me aprovam Isso é pior, acredite. — Teria sido muito melhor se sua mãe e Perry a considerassem um mistério. Em vez disso, consideravam-na um modelo defeituoso que precisava de reparos constantes.

— Eu aprovo completamente.

— Obrigada. — Ela sorriu, deixando o amor brilhar em seus olhos. — Aprovo você, também

— Fico feliz em ouvir isso. — Demyan pegou a garrafa de champanhe e serviu uma taça para cada um.

— Por que champanhe? — perguntou ela.

Se fosse seu vinho preferido, Chanel não perguntaria, mas Demyan disse a ela que bebia champanhe apenas em ocasiões especiais.

Ele entregou-lhe uma taça.

— Espero ter algo para comemorar em breve.

Arrepios irromperam sobre a pele de Chanel, seu coração foi parar na garganta.

— Ah?


Ele enfiou a mão no bolso e pegou uma pequena caixa que era inconfundível no tamanho e na intenção.

— Não deveria acontecer antes de um jantar e com rosas, e... — Ele ficou sem fôlego. — Não sou um homem que segue roteiros.

— Apenas o próprio roteiro.

Algo passou através dos olhos dele, quase como culpa, mas isso não fazia sentido. Demyan podia ser um pouco mandão fora do quarto, mas não precisava sentir culpa.

Ele se moveu e ficou apoiado sobre um joelho diante dela, a caixa do anel abriu-se.

— Case-se comigo, Chanel.

— Você... Eu... Isto... Como você pode querer... Faz só um mês...

— É mais do que três encontros. Sabia que queria me casar com você desde o início. — Não havia como questionar essa afirmação.

Foi lá, nos olhos e na voz dele. Nada além de sinceridade. Sabia que a queria, nunca vacilou.

— E quanto ao amor?

— Você me ama? — perguntou ele.

Ela assentiu.

— Diga.

— Você primeiro.



— Talvez eu nunca diga as palavras. Você vai ter que aceitar isso.

— Se eu quiser me casar com você.

— Ah, você quer.

Chanel queria, mas não compreendia.

— Por que você não pode dizer essas palavras?

— Posso prometer-lhe fidelidade e uma ótima vida juntos. Isso não é o suficiente?

A mudança de sintaxe era estranha e, em seguida, ela percebeu que, como um falante nativo da Ucrânia, estava usando a estrutura de sua língua materna. Significava que ele estava nervoso apesar de aparentar calma?

Ela olhou para ele de perto e viu aquele pequeno traço de vulnerabilidade.

— Amo você.

— E eu sempre vou honrar isso.

— Não sei.

Demyan se encolheu, a incerteza apareceu em sua expressão por um breve momento.

— Você precisa de tempo para considerar. Eu entendo.

Ele se levantou, colocando o anel no bolso.

— As luzes ficarão desligadas durante a peça.

O abismo entre eles era enorme, mas Chanel não sabia o que fazer para superar isso. Não podia dizer sim de primeira. Ela não sabia se era suficiente nunca ouvir tais palavras. Não dizê-las significava que ele não sentia?

Contudo, ele queria se casar com ela.

— Diga-me por quê.

— O quê?

Ele estava jogando ou realmente não sabia?

— Por que você não vai dizer as palavras.

— Fiz uma promessa.

— Para quem?

— Minha mãe do coração.

Chanel tentou entender.

— Ela não quer que você se case?

— É claro que ela quer. Está muito ansiosa para conhecê-la.

— Mas ela não quer que você me ame?

— Não soava promissor.

— Ela não quer que eu use essas palavras para convencê-la a se casar comigo. Deve ser uma decisão sua.

— É uma coisa ucraniana?

— Não somos ucranianos. Somos de Volyarus.

Ao contrário de seus irmãos ucranianos, Volyarus não foi objeto de domínio russo, perdendo a identidade. Seus vínculos com as velhas formas de agir e pensar em sua pátria original provavelmente eram mais fortes do que na atual Ucrânia, mas ela o compreendia.

— Tudo bem, uma coisa de Volyarus.

— É uma coisa da família Yurkovich.

— Seu sobrenome é Zaretsky.

— Meus pais nunca desistiram dos direitos legais.

— Você pode mudar seu nome agora. — Demyan era adulto. Não havia nada que o impedisse.

— Sim, eu posso.

— Talvez, você devesse.

— Talvez, se você concordar em compartilhá-lo, poderei mudar meu sobrenome para aquele que está em meu coração.

Essas palavras rodopiaram na mente de Chanel quando a peça começou. Ela não conseguia acompanhar o que acontecia no palco, estava muito ocupada tentando decifrar o que se passava na mente de Demyan.

Ele fizera o pedido de casamento. Já havia dito que planejava fazer isso, mas Chanel não se permitiu acreditar.

Ela lançou um de muitos olhares na direção dele, mas sua atenção parecia fascinada pela apresentação. Desistira tão facilmente.

Chanel alegou não conhecê-lo. Demyan tinha dito que ela conhecia o homem que ele era em sua natureza mais básica. Ela levou aquilo para o lado sexual.

Mas, na verdade, ela o conhecia bem em várias áreas. Demyan era um homem movido pelos próprios planos, seria implacável para atingi-los. A maneira como lhe proporcionou prazer, adiando o dela e o seu próprio, até chegarem onde deveriam, indicava muito.

Demyan não desistia facilmente. Insistiu naquilo que queria. Como convencê-la a tentar fazer amor enquanto suas mãos estavam amarradas com lenços de seda. Ela estava desconfiada e pouco disposta a fazê-lo, mas ele a convenceu.

E foi incrível.

Será que não a queria o suficiente para lutar, ou estaria sentado naquela cadeira planejando como ficar com Chanel, fingindo assistir aos atores no palco?

Tinha certeza de que sabia a resposta, e não era desanimadora, mas era um pouco alarmante.

Ele estava planejando, mas ela não estava pronta para dar-lhe uma resposta. O que significava que Chanel precisava orquestrar um artifício para evitar o que quer que ele estivesse planejando. Provavelmente fazer amor com ela até que ela estivesse tão feliz a ponto de dizer sim a qualquer coisa.

Para não pensar naquilo durante muito tempo e acabar amarelando, Chanel jogou-se ao chão. A cabeça de Demyan moveu-se rapidamente para os lados, para que pudesse vê-la, provando que estava sintonizado no que ela fazia. Definitivamente planejando.

— O que você está fazendo? — sussurrou ele.

Ela andou de joelhos até a cadeira.

— Sabe, você poderia ter optado por um local mais romântico. Seria mais fácil se tivesse trazido um sofá.

Demyan olhou para Chanel, chocado.

— O quê?

— Isso. — Ela estendeu a mão para o cinto dele.

Demyan agarrou seu pulso.

— O que você está fazendo?

— Você está se repetindo e eu teria pensado que era óbvio.

— Aqui?


Em resposta, Chanel soltou o pulso para que pudesse desfazer a fivela no cinto. Concluído, desabotoou a calça e depois, lentamente, e o mais silenciosamente possível, começou a abaixar o zíper, no camarote escuro.

Ninguém poderia vê-la, embora houvesse centenas de pessoas por perto.

As costas de seus dedos roçaram no membro já ereto, e ela deu uma pequena risada.

— O que é engraçado?

— Eu estava enganada.

— Sobre?


— Pensei que estivesse aqui tramando, mas a verdade é que você estava pensando em sexo, não é?

— Sim


— Ou são a mesma coisa?

Ele não respondeu, o que já era uma resposta.

— Fizemos muitas coisas.

Ele assentiu com um movimento brusco.

— Mas isso não.

— Não.


— Por quê?

— Não sabia se você queria.

— Você decidiu que queria um monte de outras coisas das quais eu não tinha certeza.

— Isso é diferente.

Talvez fosse.

— Esta sou eu instigando.

— Não entendo.

Chanel sorriu para a confusão em seu tom de voz.

— Eu pensei que você pudesse ler minha mente.

— Nem mesmo eu posso fazer isso. Nem mesmo ele. Ela quase riu.

— Mas você não é arrogante.

CAPÍTULO 7

— Confiante. Não é o mesmo.

— Talvez não seja. — Chanel manobrou a ereção quente para fora, através da fenda na cueca boxer. — Nunca fiz isso antes.

— Faça o que quiser. Comprometo-me a apreciar.

Ela sorriu. Acreditou nele. Tinha absoluta certeza sobre a quantidade de prazer que ele sentia com a intimidade física.

Este homem não se cansava dela.

Então, Chanel não se preocupou se estava fazendo corretamente quando se inclinou e lambeu ao redor da ponta da ereção. Era grande e ela teria que esticar os lábios para levá-lo para dentro. Contudo, pouco dele caberia em sua boca.

Não se preocuparia com isso agora, concentrou-se em apreciar o gosto dele. Era salgado e um pouco amargo, mas doce, também. A pele dele era quente contra seus lábios e língua.

Ela gostou. Muito.

Demyan não tentou apressá-la, embora um fluxo pré-ejaculação estivesse escapando e suas coxas estivessem rígidas de tensão. Ela segurou a maior parte da extensão com as mãos, enquanto sugava a ponta.

Ele fez pequenos ruídos, quase inexistentes, indicando que estava gostando disso tanto quanto, ou mais, do que ela.

De repente, ele agarrou a cabeça dela e puxou-a para trás, bagunçando os cachos que Laura domou com tanto esforço.

— Você precisa parar.

— Não.


— Estou pronto para o clímax — disse Demyan ferozmente.

— Essa é a finalidade — sussurrou Chanel.

Ele balançou a cabeça.

— Você não vai engolir na primeira vez. Não sabe se vai gostar.

— Está sendo mandão novamente e aqui não é o quarto.

Ignorando-a, Demyan a puxou para seu colo, manobrando-a para que pudesse continuar a tocá-lo. Então, entregou-lhe um guardanapo da mesa.

Ela sorriu.

Então, terminou com a mão, pegando a ejaculação com o guardanapo, e o grito, com um beijo apaixonado.

Quando terminou, afundou na cadeira, embora continuasse segurando-a com firmeza.

— Você fez isso de propósito.

— Para lhe dar prazer?

— Também.

Ela se aconchegou nele.

— Eu não darei uma resposta hoje.

— Tudo bem

— Sério?


— Sim, mas isso não me impede de levá-la ao meu apartamento para mostrar como será nossa vida de casados.

— Não tenho dúvidas de que o sexo será incrível.

— Teremos certeza pela manhã.

— Devo ligar e avisar que não vou trabalhar amanhã?

O olhar dele disse que, embora fosse conhecer a cama dele, não seria para descansar.

— Acho que talvez sim.

Chanel o fez. Nas primeiras horas da manhã, depois que Demyan fez amor com ela, durante a noite. O apartamento dele, na verdade, era uma cobertura que ocupava todo o andar superior de um dos edifícios mais históricos de Seattle.

Demyan acordou-a com beijos e carícias algumas horas mais tarde.

Fizeram amor de forma lenta e quase torturante. Ele parecia determinado em provar alguma coisa para ela, mas Chanel não estava convencida de que era o que ela precisava saber para concordar em se casar com ele.

Quando ela foi, mais uma vez, saciada, ele informou que havia ligado para Laura e convidou a família inteira de Chanel, incluindo Andrew, que Demyan mandou buscar em seu jato particular, para jantar na noite seguinte.

— Meus pais estão vindo para cá? Amanhã?

— Sim.


— Você não acha que deveria me consultar primeiro?

Parecendo presunçoso e certo de sua resposta, disse:

— Você estava dormindo.

— Poderia ter esperado até eu acordar.

— Eu estava entediado.

— Certo. E você não tinha mais nada para ocupar o tempo, exceto ligar para minha irmã. Como conseguiu o número?

— Será que bisbilhotou o telefone dela?

Ele desviou o olhar sem responder.

Chanel suspirou.

— Fez alguma coisa furtiva e ardilosa, não foi?

Não era exatamente uma conclusão difícil. Como se houvesse outra forma de obter o celular particular de sua irmã sem perguntar a Chanel.

— A possibilidade não deixa você com raiva? — perguntou ele, com olhar cauteloso.

Ela olhou para ele, perplexa.

— Você não está preocupado se estou aborrecida por você ter feito planos com minha família, mas sim se estou aborrecida com o método que utilizou para obter o número da minha irmã?

Ele deu de ombros.

— Acho menos inquietante você ter vasculhado meus contatos enquanto eu estava dormindo do que você usá-los para marcar um jantar com a minha família. — Ela balançou a cabeça. — Bem, isso parece interessante.

Em seguida, foi tomar um banho. Foi sua vez de trancar a porta.

Sendo sorrateiro e ardiloso, Demyan conseguiu entrar de qualquer maneira. Chanel não esperava outra coisa.

Então, ela não saltou quando a mão dele pousou em seu quadril e seu grande corpo acrescentou calor ao do chuveiro.

— Você me disse que queria que eu conhecesse sua família.

— Falava de minha irmã.

Ele era inteligente demais para não ter feito a distinção.

Virou-a em seus braços.

— Sabe que terei de conhecer todos eles eventualmente. Por que não agora?

— Porque não estou pronta! — Ela não fez nenhum esforço para controlar seu volume.

A conversa poderia ter ficado tensa, mas ele dominava a técnica de beijar para solucionar o conflito.

Fizeram amor, movendo-se sob a cascata de água, seu corpo atrás dela, os braços em volta, alcançando os lugares mais sensíveis.

Quando ele conduziu-a ao prazer máximo, prometeu:

— Vai ficar tudo bem, sérdenko.

Chanel queria acreditar nele desesperadamente, mas a experiência de uma vida inteira havia lhe ensinado o contrário.

— Você vai me ver através dos olhos deles.

— Ou vou ensiná-los a vê-la através dos meus.

Talvez, apenas talvez, sua suprema autoconfiança guiaria as interações familiares por esse caminho.

Ela podia ter esperança.

Na noite seguinte, a família de Chanel apareceu pontualmente no apartamento de Demyan.

Chanel estava tão feliz por ver Andrew e Laura que o estresse de ver a mãe e o padrasto não alcançou níveis críticos instantaneamente. Isso também pode ser atribuído à forma como Demyan manteve um braço reconfortante em torno dela durante as apresentações.

Ele contratou um buffet com garçons para que Chanel não precisasse cozinhar ou servi-los.

Ela não convidava os pais para visitá-la desde que se mudara, aos 19 anos. Chanel pensou que morar sozinha faria diferença na forma como Beatrice e Perry respondiam aos seus esforços na cozinha. Ela percebeu que estava enganada pela rapidez com que eles deixaram claro que Chanel ficou aquém em receber visitas. A refeição era muito simples, as bebidas, pouco variadas, e mesmo seus pratos de uma loja de departamentos eram considerados inferiores.

Como foi inferido pela porcelana que Chanel ganhou no aniversário seguinte. Ela doou o presente e continuou usando seus pratos simples.

Desde então, Chanel evita assiduamente as inferências e sugestões da mãe de que ela poderia recepcionar um dos pequenos encontros familiares ao longo dos anos. Nos dez anos desde o primeiro fiasco, Chanel certificou-se de não convidar mais a mãe ou o padrasto para sua casa.

Perry estava claramente impressionado com Demyan, a expressão do homem mais velho brilhando com aprovação pela cobertura e por estar sendo servido por um funcionário vestido de preto.

Demyan os manteve ocupados com conversa fiada, mudando de assunto sempre que parecia ir na direção de vamos criticar Chanel. Ele também verbalizou seu apreço por Chanel de uma forma que não poderia ser confundida ou ignorada por seus pais.

O comportamento protetor a tocou profundamente e Chanel encontrou-se relaxada com sua família de uma maneira inédita.

— Então, você trabalha para Yurkovich Tanner? — perguntou Perry a Demyan durante o jantar.

— Sim.

Chanel acrescentou:



— Nos escritórios corporativos.

A resposta vaga nunca satisfez seu padrasto. Ela não queria passar o resto da noite ouvindo Perry questionar Demyan sobre suas conexões e perspectivas de trabalho.

Demyan evitou cada ataque repentino, até Perry desistir, um pouco confuso.

— Bem, talvez você possa fazer alguma indicação para Andrew. Tentei entrar em contato com eles, você sabe, por causa da ligação de Andrew com um dos fundadores originais.

Não era Andrew quem estava ligado a Bartholomew Tanner. Era Chanel, e sua conexão era tênue, na melhor das hipóteses.

— Não tive resposta. — Perry deu de ombros. — Foi uma aposta alta, mas contatos são importantes nos negócios.

Demyan assentiu e, em seguida, desviou o olhar para Chanel.

— Fico feliz em indicar alguém da família.

Chanel chutou o tornozelo de Demyan sob a mesa, mas ele nem teve a cortesia de recuar.

Então, fora por isso que ele planejara o jantar. Disse que esperaria por uma resposta, mas pretendia colocar toda a família ao seu lado. Ele devia ter percebido que não seria difícil.

Beatrice Saltzman havia desistido da esperança de que sua filha mais velha fosse casar e, se o fizesse, não seria vantajoso. Seria a maior defensora de Demyan.

Chanel iria matá-lo mais tarde, mas agora precisava lidar com as consequências de sua insinuação.

Não foi sua mãe ou Perry que perceberam.

Você vai se casar? — indagou Laura, seus olhos brilhavam. Ela sorriu para Chanel. — Eu disse que aquela roupa iria fisgá-lo.

— Eu não queria fisgar ninguém. Não estamos noivos.

— Mas pedi a Chanel que se case comigo.

A mãe de Chanel a encarou, boquiaberta.

— E você não disse sim? Não, claro que não disse. — Beatrice balançou a cabeça, como se não pudesse esperar outra coisa da filha desajustada.

— Estou pensando a respeito. — Chanel metralhou Demyan com os olhos, mas ele sorriu de volta.

— Não pense muito. Ele pode desfazer a oferta — aconselhou Perry, com seriedade. — Provavelmente você não vai conseguir coisa melhor.

— Não é um negócio — Chanel proferiu as palavras, recusando-se a ser ferida pela observação do padrasto.

Porque era verdade. Ela não podia imaginar ninguém melhor que Demyan em sua vida, mas não era o que estava segurando-a, era?

— Não, não é — Andrew entrou na conversa, olhando para o pai com cara feia. — Deixe-a em paz com isso. Demyan teria sorte de ter Chanel como esposa e ele, obviamente, é inteligente o suficiente para perceber isso.

Andrew e Laura não viam Chanel da mesma forma turva que seus pais.

Por isso, Chanel sempre foi agradecida. Porque amava Andrew e Laura.

Demyan olhou para ele com aprovação antes de lançar um olhar arrepiante para Perry.

— Nenhum de nós vai encontrar alguém melhor, por isso a pedi em casamento.

— Bem, é claro — vociferou Perry, percebendo que cometera um erro com suas palavras.

Chanel queria concordar em se casar com Demyan naquele momento, mas não podia. Havia muito em jogo.

Chanel estava assistindo a uma maratona de filmes antigos quando a campainha tocou na noite seguinte.

Ela recusou o convite de Demyan para jantar e passar a noite na cobertura; queria um tempo para pensar sozinha.

Demyan não ficou feliz, insistindo que poderia pensar na companhia dele. Ela se recusou.

Chanel compreendeu que poderia resistir até mesmo ao lado mais forte da personalidade dele. E que ele a respeitava o suficiente para fazer sua vontade, quando sabia que ela estava falando sério.

Se ele estivesse tocando a campainha, esses pressupostos estariam errados e poderia ser a resposta que ela precisava.

Por mais doloroso que pudesse ser.

Contudo, não foi Demyan que ela viu pelo olho mágico. Foi sua mãe.

Atordoada, Chanel abriu a porta.

— Mãe! O que você está fazendo aqui?

— Queria falar com você. Posso entrar?

Chanel deu um passo atrás e observou, confusa, sua mãe entrando em seu apartamento pela primeira vez.

Beatrice sentou-se no sofá, ajustando cuidadosamente a saia Vera Wang.

— Feche a porta, Chanel. A temperatura diminuiu lá fora.

— Você gostaria de beber algo? — perguntou Chanel enquanto obedecia a mãe e, em seguida, ficou parada, sem saber o que fazer consigo mesma.

— Não, obrigada. — Com um leve aceno de mão para a outra extremidade do sofá, ela indicou onde Chanel deveria sentar. — Eu... Você pareceu incerta sobre seu relacionamento com Demyan na noite passada. Talvez queira falar sobre isso.

— Com você? — perguntou Chanel com descrença enquanto se acomodava em seu lugar.

Sua mãe fez uma careta, mas concordou.

— Sim. Posso não ter sido a melhor nos últimos anos, mas sou sua mãe.

— E ele é rico. — A cobertura mostrou isso. Beatrice certamente notou.

— Não é por isso que estou aqui.

— Ele tem conexões corporativas. Perry e Andrew também podem considerá-las úteis.

Sua mãe suspirou.

— Eu não estou aqui em nome do seu irmão ou do meu marido.

— Você está aqui por mim — disse Chanel com sarcasmo.

Mas sua mãe assentiu, com a expressão estranhamente vulnerável e sincera.

— Sim, estou. A maneira como vocês dois estão juntos é especial, Chanel, e não quero que perca isso.

— Namoramos há apenas um mês — disse Chanel, expressando sua maior preocupação.

Beatrice balançou a cabeça, como se entendesse completamente.

— Foi assim comigo e com seu pai. Na primeira vez que nos vimos, soubemos que ficaríamos juntos para o resto de nossas vidas.

— Você deixou de amá-lo. — O que Chanel faria se Demyan não a quisesse?

— Nunca.


— Mas você disse...

Havia muitos exemplos para escolher um só.

— Ele era o único para mim

— Você se casou com Perry.

— Eu precisava de alguém depois que Jacob morreu.

— Você tinha a mim. Prometeu que sempre seríamos uma dupla. — Quebrar essa promessa doeu mais que tudo.

— Foi muito difícil. Você era muito parecida com ele. Tentei torná-la diferente, mas você recusou-se a mudar. — Beatrice suspirou, parecendo quase derrotada. — Você é tão teimosa. Assim como ele.

Pela primeira vez, Chanel sentiu dor nessas palavras.

— Perry me odeia.

— Ele é um homem muito ciumento.

— Ele não tinha ciúmes de mim. Você não era carinhosa o suficiente para deixá-lo com ciúmes.

Os olhos de Beatrice se encheram de tristeza.

— Não, eu não era. Ele tinha ciúmes de Jacob.

— Porque você nunca deixou de amá-lo.

— Como você deixa de amar a outra metade de sua alma?

Finalmente, Chanel compreendeu uma parte de sua infância que sempre considerou mistificada. No começo, tentou ter um bom relacionamento com Perry. De verdade.

— Perry me culpou. Descontou seu ciúme em mim.

— Seu pai não estava por perto para ser punido.

— Você permitiu.

Beatrice olhou para o lado e encolheu os ombros, como se não se importasse. Como se toda aquela dor fosse adequada para uma criança.

— Você permitiu — disse Chanel novamente. — Você sabia e você permitiu que me odiasse em efígie de meu pai.

— Ele não odeia você. Queria que você fosse a melhor, você só queria seus livros e a ciência.

— É o que eu amo. Isso nunca importou para você?

— É claro que importava! — Beatrice pulou, mostrando uma agitação estranha.

— A ciência roubou seu pai de mim Você acha que eu queria que roubasse você também?

— Então você me afastou.

— Não foi minha intenção.

— Não me encaixo com os Saltzman. Beatrice não negou, mas também não concordou. Chanel deveria ser grata por pequenas misericórdias?

— Eu me encaixo com os Tanner.

— Muito, mas todos se foram, Chanel. Não consegue ver isso?

— E você acha que vou morrer jovem, como papai, por causa do meu amor pela ciência?

— Você é muito mais Tanner. Você assume riscos.

— Não! — Ela também foi afetada pela forma como seu pai e avô morreram — Sou muito cuidadosa.

— Se você é, então, eu tive algum sucesso.

— Você teve sucesso. Você conseguiu corroer nosso relacionamento até ele não existir mais. — Chanel quase engasgou com as palavras, mas não iria mais segurar. — Você não suportava o fato de que eu a fazia lembrar o papai, então me empurrou para longe com as duas mãos.

— E agora você nem consegue me ver, mesmo uma vez por mês.

— Suas visitas são muito desmoralizantes.

— Seus irmãos a encontram com mais frequência.

Mesmo Andrew. Ele estava longe, na universidade, mas Chanel o visitava pelo menos uma vez por semestre. Ela fez o melhor para nutrir uma boa relação com os irmãos, mas evitou a mãe com a habilidade de um dublê de motorista.

— Você encontra com Laura uma vez por semana, mas, de alguma forma, evita encontrar-se com Perry ou comigo.

— Pode me culpar? — Chanel exigiu e, em seguida, sacudiu a cabeça. — Não importa se você pode ou não. Sei de quem é a culpa por não termos um relacionamento e não é minha.

Finalmente, ela havia compreendido isso. Não é que Chanel não fosse amável. A menos que estivesse disposta a se tornar uma pessoa completamente diferente, sem as paixões de seu pai, Chanel estaria destinada a ser o fardo do sofrimento da mãe e do ciúme de Perry.

Não havia como ela ser inteligente o suficiente, bem comportada ou até bonita o suficiente para ganhar a aprovação deles.

Não com o cabelo e os olhos iguais aos do pai. Não com o desejo de ser uma cientista.

— Não, não é. Você merece coisa melhor do que Perry ou eu proporcionamos. Você merece ser amada por quem você é e por alguém que não deseje mudá-la.

— Ser eu mesma.

— Sim. Você merece isso. — A voz da mãe soou com uma sinceridade amorosa que Chanel não ouvia havia anos.

— É por isso que estou pedindo que não afaste Demyan. Eu não trocaria os anos que passei com seu pai por nada no mundo, nem mesmo uma vida sem a constante dor.

— Você acha que Demyan me ama como papai amou você?

— Ele deve. — Em um gesto atípico, Beatrice segurou as mãos de Chanel. -Querida, um homem como ele não propõe casamento se pode tê-la em sua cama sem compromisso, a não ser que queira você por completo, para terem uma vida juntos.

— Ele é muito possessivo.

E mandão na cama, mas não compartilharia isso com a mãe.

— Ele precisa de você. É assustador para um homem precisar de alguém assim. Faz com que segure mais firme.

— Papai segurou firme?

— Oh, sim.

Chanel teve dificuldade em imaginar isso.

— Como Perry?

— Nada como Perry. Jacob não era mesquinho. Não era ciumento. Confiava completamente em mim e no meu amor, mas ele segurou firme. Queria passar o máximo de tempo comigo.

— Ainda assim, seguiu sua paixão pela ciência.

— Sim. Costumava amá-lo por isso.

— Você passou a odiá-lo, não foi?

Chanel não só passou a infância como bode expiatório de Perry por causa um homem que estava morto, sua mãe também a castigou por ser muito parecida com o pai.

— Sim — Lágrimas brotaram e transbordaram dos olhos de Beatrice. — Traí o nosso amor, aprendendo a odiá-lo por ter me deixado.

— Ele não culpou você. — Chanel sabia disso. O amor de seu pai por sua mãe não tinha limites.

— Por odiá-lo? Tenho certeza de que você está certa. Ele me amou puramente. Mas, se estivesse aqui para ver o dano que causei a você, a nossa família, estaria furioso. Ele iria me odiar também.

CAPÍTULO 8

Chanel não conseguia responder.

Sua garganta estava muito apertada com lágrimas que ela não queria derramar, mas sua mãe provavelmente estava certa.

Jacob Tanner amou sua filha com a mesma profundidade que amou a esposa. Esperava algo melhor para as duas, algo que Perry nunca desejou.

Beatrice suspirou e enxugou as lágrimas do rosto, sem procurar por um lenço para fazê-lo corretamente.

— Eu gostaria de dizer que faria tudo diferente se pudesse.

— Você não pode? — perguntou Chanel, surpresa com o quanto isso doía.

— Conforme eu envelheci e vi seu irmão e irmã amadurecerem, tive a oportunidade de observar como você é com eles, isso abriu meus olhos para muitas coisas. Percebi que sou uma pessoa fraca.

— Se você vê um problema, tem o poder de corrigi-lo e não faz nada para mudá-lo, então, sim, acho que você é fraca.

— Tão pragmática. Seu pai teria dito a mesma coisa, mas vocês teriam presumido que eu conseguiria mudar a mim mesma. Se eu fizesse, acha que teria me esforçado tanto para mudar você?

— Então, é isso? As coisas vão ser sempre assim?

— Não. Se você me der outra chance, serei melhor.

— Então você mudou. — Chanel poderia acreditar nela?

— Reconheci o preço da minha fraqueza. O amor e o respeito de minha filha. É demais.

— Não sei se posso confiar em você.

— Eu entendo e não espero encontros semanais.

— Não tenho tempo. — Chanel percebeu como foi dura depois que disse as palavras, e fez uma careta.

Sua mãe exibiu um sorriso irônico.

— Talvez pudéssemos tentar mais de uma vez a cada vários meses.

— Vamos ver se podemos deixar as visitas mais agradáveis antes de começar a fazer planos.

Beatrice assentiu e, em seguida, fez outro gesto atípico, abrindo os braços para um abraço. Como Chanel não se moveu imediatamente para aceitar, sua mãe tomou a iniciativa.

Chanel respondeu com seu abraço superficial e normal, mas sua mãe a abraçou com força.

— Amo você, Chanel, e estou muito orgulhosa da mulher que você se tornou. Sinto muito não ter sido uma mãe melhor.

Chanel ficou em silêncio, atordoada, por alguns segundos antes de retribuir o abraço.

— Você não acha que sou muito desajeitada e nerd para Demyan? — perguntou ela contra o pescoço da mãe.

Ainda não estava pronta para ver a expressão da mulher mais velha caso não fosse gentil.

Mas Beatrice se afastou, forçando Chanel a olhá-la nos olhos.

— Minha filha, você é mais do que suficiente para aquele homem. Você é tudo que ele precisa. Agora, você precisa acreditar nisso para ser feliz com ele.

— Faz apenas um mês, mãe.

— Seu pai propôs casamento em nosso terceiro encontro.

A sinergia tirou o fôlego de Chanel. Demyan não propôs no terceiro encontro, mas disse a ela que estavam começando algo para a vida toda.

— Pensei que você tivesse casado porque estava grávida de mim

— Eu estava grávida, sim, mas já tínhamos planejado o casamento. Só que nosso plano original era casar depois que ele concluísse seus estudos.

— Você disse...

— Um monte de coisas estúpidas. Chanel ficou boquiaberta, em choque, com a admissão da mãe.

Beatrice deu uma risada.

— Feche a boca. Vai pegar moscas.

— Também amo você, mãe.

— Obrigada. Isso significa muito. Sei que não mereço.

— Não disse que gostava de você — falou Chanel com sua habitual franqueza.

O relacionamento delas funcionaria somente se superassem a dor, não se a enterrassem.

— Você vai, querida. Você amava seu pai, mas eu fui sua pessoa favorita nos primeiros oito anos de vida.

— Eu não lembro.

— Vai lembrar. Sou teimosa também Você não puxou só a Jacob.

— E quanto a Perry?

— Vou falar com ele. Nunca percebi o quão ruim era em sua mente. Ele realmente não a odeia. Até me disse que a admira.

Chanel fez um som de descrença.

— É verdade. Você é brilhante em sua área. Acho que o intimida. Ele é um empresário forte, mas se tivesse seu cérebro, ele estaria na posição de Demyan.

Sua mãe saiu logo em seguida, depois de prometer novamente que as coisas seriam diferentes e certificá-la de que Perry saberia que precisava mudar a maneira como tratava Chanel.

Chanel ficou muito chocada quando recebeu um telefonema dele mais tarde naquela noite. Ele pediu desculpas e admitiu que sempre se sentiu comparado ao pai dela.

Chanel não tentou fazê-lo se sentir melhor. Perry não chegava aos pés de Jacob Tanner. Seu pai havia sido muito mais gentil e amoroso, mas Chanel concordou em tentar deixar o passado para trás se o futuro fosse diferente.

Como Demyan afetou tanto sua vida em tão pouco tempo?

De alguma forma, Demyan explodiu em sua vida e criou um caminho diferente, onde ela não seria mais solitária ou rejeitada.

Se ela pudesse confiar nele e no amor que sentia, o resto de sua vida seria diferente também.

Ela pegou o telefone e ligou para ele.

— Sentindo minha falta, pequena? — perguntou ele.

— Sim — Havia uma riqueza de significados nessa palavra.

Sim, você sente minha falta, ou sim, aceita se casar comigo? — perguntou, parecendo esperançoso, porém cauteloso.

— Os dois.

— Estarei aí em dez minutos.

Demorava meia hora para chegar até lá de carro, mas ela não discutiu.

Demyan bateu na porta de Chanel com um minuto a menos dos dez que havia prometido.

O que ele não disse foi que já estava na área.

A porta se abriu, e Chanel arregalou os olhos.

— Como você chegou tão rápido?

— Já estava na estrada.

Ela franziu o cenho.

— Vindo para cá?

— Não de forma consciente. — Ele argumentou consigo mesmo sobre ligar ou visitar depois que ela lhe disse que queria a noite para pensar.

Até o momento, respeitar os desejos dela estava vencendo o debate interno.

— Então, o que você estava fazendo por aqui?

Demyan passou por ela gentilmente, não estava interessado em ter essa discussão, ou qualquer outra, do lado de fora da porta.

— Saí para dar uma volta.

— Deste lado da cidade? — perguntou ela ceticamente.

— Sim


— Mas você não estava planejando passar por aqui.

— Não. — E essa escolha claramente foi a correta.

— Você sai para dirigir sem propósito com frequência? — perguntou Chanel, ainda parecendo incrédula.

— Nem tanto, não. — Ele foi para a cozinha, onde se serviu de uma dose de vodca de Volyarus antes de beber metade em dois goles.

Demyan trouxe a garrafa uma noite, dizendo que, às vezes, gostava de uma dose para relaxar. Ela disse que ele poderia deixar no freezer se quisesse.

Deixou, embora raramente bebesse.

— Você está bem, Demyan? — perguntou Chanel através do arco entre a sala de estar e a cozinha. — Pensei que estaria feliz.

— Não gostei do meu apartamento vazio esta noite.

Acostumara-se muito com a presença dela. Mesmo quando ficava apenas sentada com uma de suas intermináveis revistas científicas enquanto ele respondia e-mails, era agradável tê-la por perto.

Era quase necessário.

— Também senti sua falta.

— Você queria seu espaço. Para pensar — lembrou ele; o lado racional de seu cérebro dizia que sua reação não estava favorecendo seus planos.

— Foi proveitoso. Ou você esqueceu o que eu disse ao telefone?

Ele bateu a bebida no balcão, o líquido transparente transbordou dos lados e o cheiro de vodca se espalhou.

— Não esqueci.

— E você está feliz?

— Extasiado.

— Percebe-se. — As palavras eram sarcásticas, mas uma faísca de compreensão brilhou em seus lindos olhos.

— Você é um elemento permanente na minha vida. É natural eu contar com sua companhia em certo momento.

— Então você me considerava um elemento permanente antes de eu concordar em casar com você?

— Sim — Ele não tinha o hábito de perder o que buscava.

— Compreendo. Eu não estava tão confiante, mas senti muito a sua falta quando você estava na Volyarus.

— E ainda assim recusou a minha proposta no início.

— Não recusei. Eu disse que precisava pensar.

— Isso não é um acordo.

— A vida não é preta e branca.

— Não é?

— Não. — Chanel aproximou-se dele. — Acho que você está mais assustado com a rapidez do nosso relacionamento do que eu.

— Não estou. — Tudo fazia parte de seu plano, tudo exceto essa reação inexplicável de pedir um tempo longe dele.

— Você parece assustado. Bebendo vodca e dirigindo por aí como um adolescente com seu primeiro carro.

— Eu garanto, não cantei pneu em nenhum sinal de trânsito.

— Adolescentes ainda fazem isso?

— Alguns. — Ele nunca fez.

Não seria apropriado para um príncipe.

— Eu disse sim, Demyan. — Ela colocou as mãos sobre o peito dele, seus olhos suaves de emoção.

Os braços dele automaticamente a envolveram.

— Por quê?

Ter concordado deveria ter sido suficiente, mas ele precisava saber.

— Minha mãe veio aqui. Ela me disse para não desistir de algo tão poderoso só porque me assusta.

— Sua mãe? — perguntou ele, achando difícil acreditar.

— Sim. Ela quer tentar consertar nosso relacionamento.

— Ela sabe que você tem 29 anos, e não 19?

Chanel sorriu, com uma tristeza e esperança à espreita nas profundezas de seus olhos cor de tempestade.

— Nós duas sabemos. Não será uma família feliz repentinamente, mas estou disposta a encontrá-la na metade do caminho.

— Você é uma pessoa mais generosa do que eu.

— Não tenho tanta certeza disso, mas uma coisa eu sei: guardar amargura e raiva dentro de mim dói mais.

Um vento frio soprou na alma de Demyan. Esperava que ela se lembrasse disso caso descobrisse a verdade sobre o testamento de seu tataravô.

Ela franziu o cenho.

— Você estava dirigindo sem seus óculos?

— Não preciso deles para dirigir. — Ele não precisava deles para nada, mas não tinha certeza se daria a notícia a ela.

— Você sempre os usa, exceto na cama.

— Eles não são tão corretivos.

— São uma muleta para você — disse ela com olhar analítico.

— Pode-se dizer isso.

— Você precisa mesmo deles?

Ele nem sequer considerou mentir em resposta à pergunta direta.

— Não.

Ele esperava raiva ou, pelo menos, a pergunta, por que ele usava? Em vez disso, recebeu um olhar de entendimento que o confundiu.



— Se eu posso concordar em casar com você, você pode parar de usar os óculos.

— Tudo bem.

Ela sorriu para ele.

— Quer comemorar o noivado? — perguntou Chanel com uma vibração exagerada nos cílios.

O desejo de brincar veio do nada, mas ele foi adiante.

— Você quer uma dose da minha vodca?

Demyan gostava do homem que havia se tornado na presença desta mulher.

— Eu estava pensando em algo mais alucinante, menos bebida e mais experiência. — Ela passou a ponta do dedo nos lábios dele, no rosto e no pescoço, desceu até o peito e parou sobre o mamilo.

Ele puxou-a mais perto, com seu corpo reagindo a ela como sempre.

— Adoro experiências.

— É mesmo?

Demyan suspirou e admitiu:

— Não, normalmente não. Minha posição consome a minha vida.

— Não mais.

— Não, não mais. — Ele não tinha planejado dessa maneira, mas casar-se com Chanel Tanner mudaria tudo.

Podia sentir a mesma sensação de inevitabilidade quando viu, pela primeira vez, a foto dela no escritório do tio. Só que agora, ele sabia que se casar com ela não seria uma ação temporária para corrigir permanentemente seu país.

E estava feliz. O sexo era alucinante, mas isso não o chocou tanto quanto a Chanel. O que ele não havia previsto é que a presença dela seria tão gratificante, mesmo quando não havia clímax.

Agora? Demyan planejava ter ambos.

Chanel ajustou o cinto de segurança, a contenção física não fazia nada para dissipar a sensação de fantasia infundindo seu ser.

Depois de concordar em se casar com Demyan, ele não perdeu tempo em definir a data, apenas seis semanas a partir da noite de seu noivado. Disse a ela que sua tia queria organizar o casamento.

Chanel, que foi uma das poucas meninas em sua classe que não passou a infância sonhando com o casamento perfeito, ficou imensamente feliz por ter alguém para planejar com sua mãe. Beatrice estava determinada a transformar o casamento apressado em um grande evento social.

E quanto menos Chanel participasse disso, melhor. Tentou convencer Demyan a fugir, mas ele tinha essa ideia estranha de que ela merecia um casamento de verdade.

Como ela havia deixado claro que não queria ser o centro das atenções em uma grande festa, como sua mãe desejava, Chanel concluiu que o casamento era importante para Demyan.

Então ela cedeu, ao mesmo tempo chocada e feliz ao saber que sua mãe havia concordado em realizar o casamento em Volyarus.

Beatrice foi vaga quando Chanel perguntou algo sobre a família de Demyan ser grande e o casamento acontecer em sua terra natal. Chanel não esperava esse tipo de compreensão da mãe e ficou feliz por isso.

Ela até manifestou gratidão genuína por Beatrice assumir a organização com a tia de Demyan. Chanel passou as últimas semanas trabalhando horas extras para deixar sua pesquisa adiantada, para tirar quatro semanas de lua de mel em Volyarus.

Ela não ficou nem um pouco decepcionada quando Demyan perguntou se gostaria de conhecer sua terra natal durante a lua de mel.

Adorou a ideia de passar um mês na companhia dele, aprendendo tudo que podia sobre o pequeno país e seu povo, sem falar em vê-lo rodeado pela família e aqueles que o conheciam a vida toda.

Ainda havia uma parte de Chanel que sentia que Demyan era um estranho. Ou melhor, uma parte de Demyan que ela não conhecia.

Sua mãe voou para Volyarus duas semanas antes de finalizarem os planos para o casamento com a tia de Demyan.

Perry, Andrew e Laura estavam no avião com Chanel e Demyan agora.

Perry esforçou-se para não criticá-la, mas Chanel não sabia se foi porque sua mãe falou com ele ou em respeito a Demyan. Nunca viu seu padrasto tratar alguém como tratava Demyan, quase como se fosse da realeza ou algo assim.

Isso fez Chanel pensar.

— O que você faz na Yurkovich Tanner? — perguntou ela quando os motores do avião estavam aquecendo.

— Por que pergunta?

— Porque eu percebi que não sei.

— Sou o chefe de operações.

— Em Seattle? — questionou Chanel, um pouco assustada pelo trabalho dele ser de alto nível, mas, em seguida, irritada consigo mesma por não perceber que era óbvio.

Contudo, não era estranho alguém do alto nível corporativo conferir os destinatários das doações?

— No mundo todo — disse Demyan, quase com desdém — Meu escritório fica em Seattle.

— Eu sabia disso, pelo menos. — No mundo inteiro? Ele era chefe de operações de todas Yurkovich Tanner?

Ela fez uma pesquisa sobre a empresa depois que lhe deram a bolsa universitária. Não era pequena. Mantinham interesses em quase todos os continentes do mundo e o CEO era herdeiro do trono de Volyarus.

Demyan ser chefe de operações significava que nadava no tanque dos peixes grandes.

— Você está me olhando estranho — acusou Demyan.

— Não percebi.

— Meu cargo importa tanto?

— Conheço seu escritor favorito, como você gosta do seu bife e quantos filhos quer ter, mas não sei nada sobre seu trabalho.

— Pelo contrário, sabe muito. Você sentou ao meu lado durante teleconferências com a nossa filial na África e na Ásia.

— Eu não prestei atenção. — Assuntos corporativos não eram tão interessantes quanto ciência... Ou suas leituras eróticas.

Agora que Chanel tinha experiência, eram ainda mais fascinantes.

— Você não perdeu nada que possa lhe interessar.

— Imaginei. — Ela suspirou. — Sinto como se devesse compreender melhor esse lado da sua vida. Você trabalha muitas horas.

— É um trabalho que exige muito.

— Você gosta?

— Muito.

— Você vai continuar a trabalhar de 12 a 16 horas por dia depois que voltarmos de Volyarus?

— Farei o possível para diminuir minhas horas, mas 12 horas por dia não é incomum

— Entendo. Tudo bem, então.

— Tudo bem, o quê? Você está com aquele olhar.

— Que olhar?

— Aquele teimoso. — Suas sobrancelhas se uniram — O mesmo de quando você insistiu em comprar o vestido de casamento sem consultar sua mãe ou minha tia.

A tia de Demyan, Oxana, ofereceu um vestido Givenchy. Chanel recusou. Demyan não ficou feliz, queria poupar Chanel do estresse e das despesas de procurar pelo vestido perfeito. Sabia que roupas não eram seu forte, mas ela se recusou a fazer concessões sobre isso.

Enquanto não se importava com as cores para a decoração, a comida servida ou até mesmo os eventos na recepção, havia duas coisas com as quais Chanel se importava.

O que ela usaria e quem comandaria a cerimônia.

Para conduzir, concordou em ter o padre ortodoxo da família de Demyan, desde que o pastor da igreja que frequentava desde a infância, um homem que havia conhecido e respeitado seu pai e avô, os conduzisse durante os votos e fizesse a oração final.

Não abriria mão do vestido. Chanel e Laura passaram três semanas na internet, lojas de roupas antigas e revendas, e encontraram o vestido perfeito.

Um vestido desenhado pela própria Coco Chanel.

Sua mãe escolheu seu nome por causa de sua estilista favorita e também porque era a marca que estava vestindo quando o pai de Chanel a pediu em casamento. Chanel queria uma ligação com o pai no dia de seu casamento.

Uma sobreposição de seda, com flores de magnólia drapeadas. No entanto, o estilo de Coco Chanel — as mangas de anjo com recortes ousados — deu ao vestido um ar discreto de sensualidade.

A peça foi desenhada para uma figura como a de Chanel. Justa nos seios, cintura e quadris, ficando solta abaixo do joelho; o vestido a deixava feminina sem parecer desconfortável.

A compra quase zerou a poupança de Chanel, mas ela não se importava. Seu trabalho pagava bem, e Demyan não estava exatamente sofrendo por dinheiro.

A boca de Demyan cobriu a de Chanel, e ela o beijava antes de perceber que ele estava tentando chamar sua atenção.

Depois de alguns segundos prazerosos, ele levantou a cabeça.

Atordoada, sorriu para ele, ciente de que seu irmão fazia gestos engasgados e falsos do seu assento, do outro lado do corredor.

Perry fez sinal para ele se calar, mas Chanel não prestou atenção aos dois.

Estava muito centrada no olhar de Demyan.

— Assim é melhor — disse ele.

— O quê?


— Você pensando em outra coisa. Agora, só está pensando em mim

Ela riu suavemente.

— Sim, eu estou.

CAPÍTULO 9

— O que deixou você com aquele olhar teimoso antes?

Chanel teve que pensar e, em seguida, lembrou.

— Você disse que geralmente trabalha 12 horas por dia.

— Sim, e você disse que estava tudo bem

— Não, eu disse tudo bem em reconhecimento.

— Você não aprova 12 horas por dia.

Ela encolheu os ombros.

— Não é esse o problema.

— Não é?


— Não.

— Qual é o problema?

— Filhos.

Demyan franziu o cenho como se estivesse confuso sobre alguma coisa.

— Nós concordamos que gostaríamos de ter pelo menos dois. Também concordamos que por causa de considerações de saúde e histórico familiar, eu não iria engravidar depois dos 35 anos.

— E?


— Então a gente terá que ajustar para uma única criança, ou nenhuma.

— Por quê? — perguntou ele, parecendo perigoso a expressão no lindo rosto igualmente ameaçador dela.

— As crianças precisam de atenção de ambos os pais.

— Nem todas as crianças têm dois pais.

— Mas, se elas têm, merecem ser prioridade de ambos.

— Eu não vou fugir da responsabilidade com meus filhos.

— Um pai faz mais do que viver de acordo com as responsabilidades. Ele leva os filhos à praia em dias de sol e assiste aos jogos de futebol. Você não pode fazer isso se trabalha 12 horas por dia, cinco dias por semana.

Algo mudou na expressão dele.

Ela sentiu um aperto no coração.

— Você também trabalha nos fins de semana.

— Até o momento, sim

Seria um obstáculo? Não.

Mas Chanel não gostou de descobrir isso agora.

— Participarei de programas extraclasse — decidiu ela. — Não preciso ter filhos para ter uma vida completa.

— Está ameaçando não ter filhos se eu não cortar minhas horas?

— Não estou ameaçando. Estou informando que não colocarei uma criança no mundo para que ela passe a infância se perguntando se é importante para o pai.

— E você me acusa de ver o mundo em duas cores.

— Vejo muitos tons e sombras. Não significa que meus filhos viverão sob uma ou mais delas.

— Você nunca considerou a arte do compromisso?

— Sou péssima nisso. — Ele ainda não tinha percebido?

Ela cedeu naquilo que não importava, e no que importava? Bem, ela poderia ser um pouco intransigente.

— Isso pode ser um problema. Não sou conhecido por ceder no que importa para mim.

— É bom estarmos de acordo sobre isso, então.

— Como assim?

— Você disse que queria ser o melhor pai possível, que não quer que seus filhos duvidem de seu lugar em sua vida.

— Sim


— Então você concorda que é melhor não tê-los se o seu horário de trabalho não mudar.

Demyan parecia cansado e frustrado.

— Não é tão simples.

— Pode ser.

— O que você sugere? Que eu deixe Yurkovich Tanner falir?

— Sugiro que você contrate três assistentes, um para cada grande mercado; homens e mulheres que conheçam a empresa, que se preocupem com ela e em quem você confie para tomar decisões menores. Serão a primeira linha para política e tomada de decisão, para você dedicar seu tempo apenas para as coisas mais importantes.

— E se isso já é tudo o que eu faço?

— Não é.


— Você disse que ignorou minhas ligações.

— Isso não significa que não consiga acessar as lembranças.

— Você é assustadoramente inteligente, não é?

Chanel encolheu os ombros, nem terminaram seu teste de QI na escola depois que ela completou os três primeiros exercícios antes de começarem a marcar o tempo. O professor não queria que ela se sentisse como uma aberração.

— Você acabou de descobrir de que se trata meu trabalho e já está dando conselhos. — Longe de irritado, Demyan soava admirado.

— Penso rápido.

— Você seria brilhante no mundo dos negócios.

— Não tenho interesse.

— Vou conversar sobre isso com meu tio.

— Ele é seu mentor?

— É meu chefe.

— Ele trabalha para Yurkovich Tanner?

— Ele é o rei de Volyarus.

Chanel esperou pelo resto da piada, só que não veio, e o olhar de Demyan dizia que não era piada.

Ela sabia que, em última análise, os donos da Yurkovich Tanner eram da monarquia do país. Contudo, nunca passou pela sua cabeça que o tio de Demyan e o rei eram a mesma pessoa.

— Seu tio é rei.

— Sim.

— Oxana?


— Rainha.

— Ela me disse para chamá-la de Oxana.

— É privilégio dela.

— Você nunca disse nada.

— Não queria assustá-la.

— Esconder informações importantes é como mentir.

— Sou chamado de príncipe Demyan, mas não sou nenhum cavaleiro de armadura brilhante. No fundo, sou um cossaco, Chanel. Você deve saber disso. Qualquer armadura que eu tenha, está manchada. Sou um ser humano, com falhas humanas. — Ele disse isso como se admitisse um segredo obscuro.

Em outro momento, teria brincado sobre o melodrama e a arrogância dele. Agora? Ela precisava pensar.

— Eu não estava esperando por isso. Você é um cara corporativo que veste suéter. — Só que ele não os tinha usado, nem calça jeans, ultimamente.

Chanel não percebera, até então. Roupas não importavam muito para ela. Não era como sua mãe, ou Laura. Olhando para trás, percebeu que houve uma série de mudanças sutis ao longo das últimas seis semanas.

Vestia-se com ternos elegantes. Ela quase nunca mais o viu com trajes casuais, como quando se conheceram. Às vezes, à noite, mas ele nunca saía de casa pela manhã vestindo um suéter.

Nunca mais o percebeu ajustando óculos, que não estavam mais lá.

O que isso significava? Que ele era muito mais confiante do que ela pensava.

Tudo bem, quem pensava que Demyan Zaretsky não era confiante precisava fazer uma verificação da realidade.

Chanel não sabia por que ele usara os óculos, mas não eram uma muleta para alguma insegurança.

E, honestamente, que isso importava?

— Chanel — Demyan chamou.

Ela o olhou tentando diferenciar entre quem ele era e o que ele revelou.

— Você é um príncipe.

— É um título nominal apenas.

— O que isso quer dizer? — O que ela sabia sobre a realeza não preencheria uma página.

Oficialmente, sou um duque, mas sou chamado de príncipe para agradar meu tio, o rei.

— Aquele que criou você? — Ainda não fazia sentido e estava ficando mais confuso.

— Ele e Oxana me criaram como irmão de Maksim, o príncipe herdeiro. Eu era um extra para o trono.

— Era?

— A esposa do meu primo está esperando o primeiro filho.



— O próximo na fila para o trono agora?

— Sim.


— É tudo tão estranho.

Ela olhou em volta dentro do avião, que havia decolado sem ela perceber. Sua família estava olhando, sem fazer esforço para esconder o interesse.

Perry não pareceu surpreso, mas Andrew e Laura estavam de olhos arregalados.

— Mamãe e Perry sabiam — adivinhou ela.

— Sim.

— Eles nunca disseram.



— Concordaram que minha posição poderia assustá-la. Queria tempo para mostrar a você que sou o homem com quem aceitou se casar.

— Mas você é um príncipe.

— Isso muda o que você sente por mim?

Havia muito conflito dentro de Chanel, Demyan não tinha dúvida disso.

— Não. Amo você, não seus títulos.

— Fico feliz em ouvir isso. — O alívio na voz dele não podia ser falso.

— Isso é tão legal — disse Andrew, lembrando Chanel de que tinham espectadores.

Chanel franziu o cenho para o irmão mais novo.

— Você pode pensar assim.

— Eu também — disse Laura.

— A única coisa que importa é o que você pensa — disse Demyan.

— Dê-me algum tempo para processar.

— Chanel...

— Não. Eu não quero falar sobre isso agora.

Ela não queria falar, recusou todas as tentativas dele ou da família durante o resto do voo, ao ponto de fingir estar dormindo para que eles a deixassem quieta.

A chegada em Volyarus foi mais tranquila do que ela esperava, dada a posição de Demyan.

Felizmente, não houve nenhum alarde, nenhuma linha de repórteres com câmeras de grande porte. Claro, se houvesse, ela mostraria a todos como conseguiu sua faixa preta em taekwondo.

No entanto, além de alguns homens com aparência séria, que pareciam ter saído do filme Homens de Preto, havia apenas duas outras pessoas: a mãe de Chanel e uma bela mulher com um porte real inconfundível. A rainha Oxana.

Demyan guiou Chanel na direção das duas mulheres com a mão na parte inferior das costas dela. Ele parou quando estavam de frente para sua tia e a apresentou a todos.

A rainha estendeu a mão para Chanel.

— É um prazer conhecê-la. Demyan fala muito bem de você, assim como sua mãe.

Chanel fez o melhor para não demonstrar surpresa.

Sabia que Beatrice estava tentando, mas a ideia de que ela realmente falou bem de Chanel para outra mulher era ainda muito nova. Oxana passou as últimas duas semanas na companhia de Beatrice. No passado, os resultados teriam sido catastróficos para as esperanças de ganhar o respeito da rainha.

Pelo olhar de ambas as mulheres, não era mais algo com que se preocupar.

— Obrigada por fazer de Demyan parte de sua família. Alguém o ensinou a proteger as pessoas que ele ama, e acho que foi você.

Os belos olhos escuros se arregalaram, a boca de Oxana abriu-se em estado de choque e, em seguida, se curvou em um sorriso.

— Acredito que ele estará em boas mãos com você, Chanel.

O rei estava esperando no palácio, era mais reservado e menos acolhedor. Chanel não se importava.

Ela compreendia.

Todo mundo estava agindo como se fosse perfeitamente normal para um príncipe ficar noivo depois de um mês e se casar seis semanas mais tarde.

Obviamente, o rei Fedir tinha suas dúvidas.

Como Chanel ainda tinha seus próprios medos, não se preocupou com o fato de ele ter alguns também

Os planos de casamento não permitiram que Chanel e Demyan passassem algum tempo sozinhos o resto do dia. Ela não ficou surpresa de encontrá-lo em seu quarto tarde da noite depois de deixar sua mãe e Oxana organizando o jantar de casamento.

Demyan puxou Chanel em seus braços e beijou-a durante vários segundos antes de recuar.

— Assim é melhor.

— Você sentiu minha falta.

— Passei o dia todo sem você, no trabalho.

— Mas é diferente aqui.

— Sim.

— Preocupado que sua mãe do coração contaria seus segredos? — Ela brincou, despreparada para o olhar de culpa nas feições dele. — O quê?



Ele balançou a cabeça.

— Nada.


— Demyan?

— Ela é minha mãe de coração.

— Você disse a ela e ao rei que pediu a documentação para mudança de nome?

— Eles vão ouvir quando o padre disser os nomes durante a cerimônia.

— Você é um cofre romântico, não é?

— Não sou romântico, Chanel.

— Continue pensando assim — Então, um pensamento verdadeiramente horrível passou por sua mente. — As pessoas vão me chamar de princesa depois que nos casarmos?

— Você vai se recusar a se casar comigo se eu disser que sim?

— Não vou recusar, mas, Demyan, não é fácil descobrir repentinamente que você é da realeza.

Ele assentiu, como se entendesse, mas como poderia? Ele cresceu sabendo quem era.

— Então, a coisa da princesa... — Ela não estava disposta a deixar isso passar. Chanel queria uma resposta.

— Isso depende do meu tio.

— Se ele me chamar de princesa...

— Então outros o farão.

— Ah.

— Você parece aliviada.



— Não sou uma princesa aos olhos dele. — Quando ela disse as palavras, soube que eram verdadeiras. E não culpava o rei Fedir por se sentir assim.

— Não sou da nobreza.

— Você é. Herdou o título de seu tataravô, é uma dama. Casar-se comigo fará de você uma duquesa.

— E daí?


— Se você não for chamada de princesa, será chamada pelo seu título.

— Isso é medieval.

— Não. Confie em mim, o sistema de nobreza está vivo e em muitos países modernos.

— Mas... — Ela não queria ser chamada de duquesa.

— O termo correto é vossa alteza.

— Isso me faz soar como, como... Como chamam um cardeal na igreja católica.

Ele riu, como se ela estivesse brincando.

Mas não estava.

— Sou... É...

Ele não a deixou continuar.

Mostrando que sabia exatamente do que ela precisava: dele. Demyan puxou-a em seus braços e beijou-a.

Todos os pensamentos sobre títulos indesejados e laços da realeza desapareceram.

Ao longo dos próximos dias, Chanel quase não viu Demyan, exceto quando ele ia até o quarto à noite para fazer amor com ela de forma apaixonada, quase desesperada.

Ela não entendeu, mas parecia que ele a estava evitando. Sem saber se eram suas velhas inseguranças, ela recusou-se a pensar nisso.

Beatrice estava em seu habitat, planejando o casamento de sua filha com um príncipe. Uma parte cínica de Chanel não conseguia deixar de se perguntar o quanto dessa aprovação recente originou-se a partir das mudanças inesperadas nos acontecimentos.

Perry não era tão crítico quanto fora no passado, mas não ampliou seu pseudocarinho paternal.

Como sempre havia sido, Laura e Andrew eram sinceros e afetuosos com Chanel. A presença constante deles lembrava que não importava o quanto a vida pudesse mudar ao se casar com alguém da realeza, as coisas verdadeiramente importantes permaneciam

Embora o visse pouco durante o dia, Demyan aparecia no quarto todas as noites, às vezes muito tarde e claramente esgotado. Aparentemente, quando estava em Volyarus, seus deveres prolongavam-se para o âmbito familiar: a política da realeza.

Às vezes, eles não faziam amor antes de cair no sono, mas, nessas noites, ele a acordava nas primeiras horas, proporcionando-lhe um prazer incrível.

Naquele dia, ele arrumara tempo para se sentar com Chanel enquanto ela e o advogado do padrasto revisavam o acordo pré-nupcial.

Depois que ela leu tudo, concluiu que não precisava da interpretação de mais ninguém para um documento legal, a linguagem era simples e direta.

Havia alguns exageros na opinião dela, mas nada que a impedisse de assinar.

Após o casamento, Chanel e seus herdeiros abririam mão de todos os direitos que poderiam ter em Volyarus, seus empreendimentos financeiros e políticos, nada especificamente relacionado com a empresa da família Yurkovich.

Outro dava a todos os filhos que ela tivesse com Demyan plenos direitos como seus herdeiros, o que ela considerou um exagero.

Claramente, a família real era muito protetora com seus interesses.

Chanel tinha certeza que tais determinações haviam sido do rei; os termos do acordo eram muito generosos para Chanel, considerando o fato de que ela não estava trazendo qualquer riqueza significativa para o casamento. O acordo garantia uma quantia anual para despesas de subsistência, que Chanel não conseguiria gastar em cinco anos, o que dirá em um.

A menos que fosse em pesquisa, mas Demyan não aprovaria o uso de suas finanças pessoais para financiar suas obsessões científicas. Yurkovich Tanner já foi generosa a esse respeito.

Uma coisa que o acordo pré-nupcial destacava em letras garrafais e em negrito era que Demyan queria que o relacionamento fosse permanente. Caso ela tivesse qualquer dúvida.

Mas ela não tinha.

A provisão financeira não diminuiria caso ele viesse a falecer. A quantia anual era vitalícia, para Chanel e seus filhos.

Havia outros requisitos muito rigorosos que garantiam que ela não se divorciasse de Demyan ou fosse infiel. Não que fosse fazer isso.

Mas o acordo descrevia de forma bastante clara que qualquer criança nascida de outro pai não teria nenhum benefício financeiro através dela ou qualquer outra fonte de riqueza Yurkovich, Zaretsky ou Volyarus.

Estranhamente, se ela se divorciasse de Demyan, ou ele dela, por outra razão a não ser por infidelidade dela, Chanel ainda seria bem cuidada. Até que se casasse novamente. Se ela se casasse com outra pessoa, ou fossem apresentadas provas irrefutáveis de infidelidade, perderia os benefícios financeiros de seu casamento com Demyan.

Demyan colocou sua mão sobre a dela antes que assinasse.

— Você concorda com todos os termos?

— São mais do que generosos.

— Sempre vou me certificar de que você tenha o que precisa, não importa o que o acordo diga.

— Eu acredito em você. — E Chanel acreditava. Com todo seu ser.

CAPÍTULO 10

A manhã do casamento de Chanel foi tediosamente focada em beleza, moda e causar um impacto, como ela temia que poderia ser, com Beatrice no comando.

Estranhamente, pela primeira vez na vida, Chanel não se importou com sua mãe fazendo rebuliço sobre sua aparência.

Passar pelas etapas de depilar as pernas, fazer o cabelo e a maquiagem ressoou com uma familiaridade quase bem-vinda nessa estranha nova situação que havia se tornado sua vida.

Fazia anos desde a última vez em que Chanel havia sentado para uma das rotinas de preparação de sua mãe para uma função social, mas o som da voz de Beatrice dando instruções ao estilista trouxe de volta memórias antigas.

Era mais fácil lidar com as memórias do que com a realidade. Ela se casaria com um príncipe.

Era mais que surreal.

— Seus dedos estão gelados. — A manicure franziu a testa quando tirou a mão de Chanel do banho hidratante. — Por que não disse nada? A água deve estar muito fria.

Beatrice testou a água com o dedo e olhou para Chanel, preocupada.

— Você está bem, querida?

Chanel assentiu.

— A solução de óleo de argan está quente o suficiente, mas a manicure está certa. Suas mãos estão geladas.

Chanel deu de ombros.

— Mãe, ela vai se casar com um príncipe. Esse não é exatamente o sonho de Chanel — disse Laura. — Ela está estressada.

— Mas ele é perfeito para você.

— Você mal nos viu juntos. Como pode saber? — questionou Chanel.

— Você o ama.

Chanel assentiu. Não havia porque negar a única coisa que a levaria a se casar com um homem da realeza.

— Ele adora você.

— Nisso eu concordo com a mamãe. — Laura sorriu.

— Acho que sim — admitiu Chanel. — Demyan age como um homem muito feliz com seu futuro.

Beatrice esticou o braço e colocou a mão na têmpora de Chanel, franzindo o cenho.

— Você está em estado de choque.

— Nossa, mamãe constatou o óbvio. — Laura não revirou os olhos, mas chegou perto de fazê-lo.

— Eu não gosto do seu tom, jovenzinha. — Beatrice franziu o cenho.

— Bem, você está agindo como se Chanel devesse estar animada e feliz quando provavelmente está se esforçando para não fugir. Ela é uma cientista, mãe, não uma socialite.

— Estou bem ciente da profissão da minha filha. — Beatrice tomava o cuidado de não franzir o cenho, porque causava rugas, mas seu tom de voz transmitia desagrado.

— Você precisa de suco de laranja para elevar seu açúcar no sangue? — perguntou Beatrice a Chanel.

Ela balançou a cabeça.

— O problema é que não parece real.

— Acredite ou não, eu vomitei duas vezes antes de caminhar até o altar com seu pai — confessou Beatrice com constrangimento demais para não ser verdade.

Laura bufou.

— Você estava grávida, mãe. Provavelmente foram enjoos matinais.

— Não foi isso. Eu estava apavorada. Quase desmaiei quando estava me preparando para o meu casamento com seu pai.

— Mesmo? — Chanel não poderia imaginar que sua mãe ficara agitada assim

— É um grande passo, o casamento. Não importa o quanto você ame o homem com quem está casando.

— Não sei por que tanta agitação. Se não der certo, é só se divorciar — disse Laura com a confiança despreocupada da juventude.

A mãe olhou para a filha mais nova.

— Essa não é a atitude das mulheres desta família.

— Você e Chanel podem ficar estressadas, mas eu não. Se eu me casar e tudo mais. Parece muita preocupação com algo que acaba em divórcio cerca de 50 por cento das vezes. Acho que viver junto faz muito mais sentido.

Chanel quase riu ao ver a expressão de horror absoluto cruzando o rosto da mãe.

— Pare de ficar assim, mãe. Você e Chanel levam tudo a sério. Não sou como vocês.

Foi uma revelação a Chanel Laura considerá-la parecida com a mãe.

— Você é mais parecida com nós do que imagina, mocinha. Contudo, não haverá mais conversa sobre divórcio no dia do casamento de sua irmã.

Chanel nunca ouvira a mãe usar esse tom com Laura.

A jovem escutou, mas sua expressão pouco subjugada indicou que o fato não foi inédito.

Quanto Chanel deixou passar do mundo ao seu redor? Não havia percebido que Demyan era um rei corporativo, muito menos um príncipe. Não sabia que sua mãe ainda amava seu pai e tivera certeza de que Beatrice não a amava.

Chanel estava errada sobre tudo.

Foi uma descoberta esperançosa.

No entanto, durante o resto da preparação para o casamento, ela permaneceu em choque, uma sensação que a atormentava desde que acordara sem Demyan em sua cama.

Quando o maquiador terminou a aplicação final do batom, soou uma batida na porta.

— O motorista chegou. Vocês estão prontas? — perguntou Beatrice.

Laura parecia um anjo loiro em seu vestido azul Vera Wang, de dama de honra, que era o complemento perfeito para o vestido de Chanel.

— Não é o motorista — anunciou Laura após abrir a porta. Em seguida, ela fez uma reverência e Chanel sentiu um nó na garganta.

O rei viera lhe dizer que não queria que Chanel se casasse com seu quase filho adotivo? Não, era um pensamento irracional.

Mas... Sua mente parou de girar descontroladamente em face da grandeza da rainha Oxana. A rainha de Volyarus entrou, fazendo com que o grande aposento parecesse muito pequeno.

— Bom dia, Chanel. Beatrice. — A rainha inclinou levemente a cabeça para a mãe de Chanel e sorriu para Laura. -Laura, você está linda.

— Obrigada, sua majestade — respondeu Laura com um sorriso.

— E você, minha querida — disse a rainha, olhando para Chanel. — Você está absolutamente perfeita. Este é um original de Coco Chanel, não é?

— Sim.


— Ela foi uma estilista brilhante e inovadora que mudou a face feminina da alta costura. Acho sua escolha singularmente apropriada, já que tenho certeza que você será igualmente impactante em seu campo.

— Obrigada.

Oxana sorriu.

— De nada. — Ela ofereceu a Chanel uma caixa de veludo azul-escuro, de médio porte, destinada a joias. — Eu ficaria honrada se você usasse isso.

Esperando pérolas, ou algo dessa natureza, Chanel sentiu seu coração bater mais rápido com a visão da tiara incrustada de diamantes. Não era nada igual à coroa que descansava no cabelo da rainha, mas era digna de uma princesa.

— Eu não... Isto é... — Chanel não sabia o que dizer, então, fechou a boca.

— Parte da minha roupa de casamento — concluiu a rainha. — Ficarei feliz em vê-la sendo usada novamente.

— A esposa do príncipe Maksim não usou? — perguntou Laura, conseguindo verbalizar, pelo menos, uma das perguntas em sua mente.

— Rei Fedir deu a ela a tiara de princesa de sua mãe. Foi decidido entre nós que a minha seria reservada para a esposa do nosso filho mais velho.

O coração de Chanel ficou aquecido ao ouvir Demyan ser mencionado como filho mais velho do rei e da rainha.

De alguma forma, embora o estilista não soubesse que uma tiara seria adicionada mais tarde, o penteado era perfeito para acomodar o acessório incrustado de diamantes.

— Aqui, veja você mesma — insistiu Oxana.

Laura e Beatriz pareciam preocupadas. Haviam notado que Chanel não olhara no espelho desde aquela manhã.

Mas Chanel não queria comprovação visual de que ela não parecia uma princesa.

— Confio em seu julgamento. — Chanel resguardou-se.

— Então, vai confiar na minha instrução para olhar-se no espelho, minha futura nora. — A expressão de Oxana não aceitava discussão.

— Você parece uma princesa — disse Beatrice com muito mais sinceridade do que uma afirmação tão banal merecia.

— Demyan vai ficar de queixo no chão — acrescentou Laura.

Longe de ofendida, a rainha riu e concordou.

— Sim, acredito que sim.

Respirando fundo, Chanel virou-se para enfrentar o juiz imparcial que não poderia mentir. O espelho apenas refletia, não fazia julgamentos.

A mulher olhando para Chanel, com grandes olhos cinzas, não parecia uma rainha. Também não pareia com as princesas que já havia visto nos tabloides, mas, neste momento, ela estava linda.

O vestido Coco Chanel parecia ter sido feito sob medida para seu corpo, as rendas antigas marcando os lugares certos. O véu de camada única, que ia até o chão, e a tiara acrescentaram uma elegância com a qual Chanel não estava acostumada a ver quando se olhava no espelho.

O maquiador conseguiu destacar o formato e a coloração rosada dos lábios e deixar os olhos brilhando.

Seus cachos foram moldados em parafusos perfeitos e presos, destacando o comprimento de seu pescoço.

Esta mulher não constrangeria Demyan.

Chanel virou-se para a mãe e abraçou Beatrice com mais emoção do que se permitiu mostrar durante anos.

— Obrigada.

— O prazer foi meu. Faz tempo desde a última vez que você me permitiu produzi-la. Eu me diverti muito.

Beatrice retribuiu o abraço e recuou, piscando para conter as lágrimas.

Chanel começou a ver que, à sua maneira, sua mãe não a tinha abandonado completamente quando criança.

Vestindo o uniforme oficial dourado e azul-escuro dos comandantes cossacos de Volyarus, Demyan aguardava ao pé da escada do palácio. Era a tradição real de seu país que ele fosse com Chanel, na carruagem puxada por cavalos, até a catedral.

Seus olhos escuros encontraram os dela, seu belo rosto firme e impassível. No entanto, havia uma inconfundível satisfação em seu olhar.

Ele estendeu a mão, coberta por uma luva branca. Ele não deveria pegar na mão dela ainda, não deveria tocá-la de forma alguma. Foram instruídos a entrar separadamente na carruagem Ela deveria sentar-se de costas para o motorista e ele, de frente para o povo, na procissão lenta até a catedral ortodoxa.

De acordo com o coordenador do casamento e com a tradição real, ela e Demyan não deviam tocar nem a ponta dos dedos até o padre proclamá-los marido e mulher.

Então, esse gesto dizia muito sobre a vontade do príncipe de colocar Chanel antes dos protocolos.

Sem aviso, a névoa mental e emocional cercando Chanel caiu, e o mundo ficou calmo pela primeira vez naquele dia. Apesar de ser início do outono, o sol brilhava no céu, o ar em torno deles era um frio de outono e preenchido pela cacofonia das vozes das multidões em volta do palácio.

O amor por Demyan cresceu dentro de Chanel, afastando preocupação e dúvida, preenchendo-a de certeza.

Seus dedos se tocaram Ele puxou-a para frente, e uma corrente elétrica passou entre eles.

Os olhos deles brilharam e, em seguida, Demyan tirou a capa de seu uniforme e colocou-a em torno de Chanel. Soaram vários suspiros e, então, o rei disse algo que Chanel acreditou ser um protesto.

Não podia ouvi-lo. O longo manto militar repousou em seus ombros. Ela não discutiu que não estava sentindo frio, porque a peça tinha o cheiro de Demyan, fazendo-a sentir-se abraçada por ele.

Ele a ajudou a entrar na carruagem, abstendo-se ainda mais do protocolo para se sentar ao lado dela.

Os flash das câmeras dispararam, e as pessoas aplaudiram. Nada disso impressionou Chanel. Ela estava muito focada no homem que segurava sua mão e olhava para ele com alegria.

— Somos só você e eu — disse ela suavemente.

— Sim.

A vida poderia ser mais complicada por causa do título dele, mas no fundo era a vida que ela queria. Chanel conhecia esse homem e estava ligada a ele pela alma.



A felicidade refletida no olhar dele escureceu, tornando-se algo mais sério.

— Acredite que, não importa o que aconteça, nossa união é para nós. Ponto final.

— Ponto final.

Não tinha que fazer sentido, ou ser racional, ela percebeu. Havia se apaixonado completamente por ele.

Como sua mãe dissera, este homem era o homem para Chanel, o amor de sua vida, e ele sentia o mesmo, embora não tenha dito.

Mesmo que nunca dissesse.

— Amo você — disse ela para ele.

— Vou guardar esse tesouro pelo resto da vida, eu prometo.

Demyan tornou o juramento oficial menos de uma hora depois, quando disse isso na frente da catedral lotada, como parte dos votos que concordaram em falar. Ele também prometeu cuidar dela, respeitá-la e apoiar seus esforços para fazer do mundo um lugar melhor através da ciência.

Chanel, que nunca chorava, sentiu as lágrimas escorrendo por suas bochechas. Ainda bem que sua mãe insistira em maquiagem à prova d’água. Os votos de Chanel incluíam amar Demyan pelo resto da vida.

Não foi difícil prometer algo que ela não poderia evitar.

A mudança de nome também foi reconhecida, pela primeira vez, durante a cerimônia de casamento, quando o padre ortodoxo formalizou os votos antes de declará-los casados.

Um murmúrio percorreu a multidão, mas Demyan parecia alheio. Sua atenção estava voltada totalmente para Chanel.

A expressão do rei estava mais emotiva do que Chanel pensou que possível.

O príncipe herdeiro Maksim e sua esposa estavam claramente felizes com a mudança de nome quando Chanel finalmente os conheceu na recepção após a cerimônia.

Ela achou estranho ainda não ter conhecido o irmão de Demyan.

Ficou evidente, pelas várias observações feitas por Demyan, que os dois homens eram muito próximos. O fato de Chanel não tê-lo conhecido antes a fez pensar que talvez o príncipe herdeiro desaprovasse o casamento.

Ficara óbvio que ele ainda não tinha conhecimento sobre a união dos dois até ter sido chamado de volta para Volyarus por seus pais.

Príncipe Maksim parecia bastante disposto a aceitar Chanel na família. Sua esposa não era da realeza, nem da nobreza, então ele deveria ter uma visão moderna do casamento.

Embora um comentário, ou dois, feito por sua esposa tenha indicado o contrário.

Uma vez que eles terminaram de cumprimentar as pessoas autorizadas a entrar na recepção formal, a família Yurkovich inteira dirigiu-se ao povo de Volyarus, da varanda principal, em frente ao palácio. O rei fez um discurso. Todos acenaram e sorriram antes que todo mundo, exceto ela e Demyan, voltassem para dentro.

Ele dirigiu-se à multidão, dizendo-lhes como estava honrado pela dama Chanel Tanner concordar em ser sua esposa, e que seu antepassado, barão Tanner, teria ficado feliz.

Então, beijou Chanel.

E não foi um beijo modesto para as massas. Demyan tomou sua boca com suave voracidade, mostrando a ela e a todos que observavam como estava contente por ela ser oficialmente sua.

Chanel viu-se separada de Demyan durante a recepção, mas não ficou surpresa.

Ele a preparou para os procedimentos formais do evento, durante o qual teriam muito pouco tempo juntos. Ele havia prometido compensar isso na lua de mel prolongada.

O que surpreendeu Chanel foi encontrar-se sem nenhuma das pessoas que deveriam certificar-se de que ela não estava sozinha.

Rainha Oxana estava ocupada conversando com a princesa Gillian. A mãe de Chanel estava conversando com um duque idoso enquanto Andrew flertava com a neta do homem, sob o olhar atento e não muito feliz da mãe da moça. Perry estava falando de negócios em algum canto, não que ele fosse um dos acompanhantes de Chanel.

Mesmo Laura havia se perdido na multidão.

Chanel pensou que agora seria o momento ideal para encontrar um lugar tranquilo para se recompor um pouco. A multidão de pessoas era esmagadora para uma cientista que passa a maior parte de seus dias no laboratório, a mistura de tantas vozes soando como um rugido em seus ouvidos.

Vendo um corredor, Chanel saiu do enorme salão de baile. Quanto mais caminhava ao longo do corredor, menos escutava a cacofonia de vozes do salão, e mais tensão era drenada.

Ela ouviu pessoas conversando mais à frente, um dos tons ela reconheceu com um sorriso. Demyan.

Encantada com a oportunidade de vê-lo no meio do caos do dia de seu casamento, apressou os passos, abrandando-os quando percebeu com quem ele estava.

Rei Fedir.

A única pessoa que intimidava Chanel e trazia à tona suas inseguranças mal resolvidas e recentes. Também havia outras duas vozes, uma mulher e um homem.

Estavam todos falando em ucraniano, uma raiva velada ressoava de pelo menos dois dos oradores.

Conforme Chanel desacelerou o passo, a conversa converteu-se em palavras que ela conseguia compreender.

A mulher desconhecida perguntou:

— Como você se atreve a nos humilhar dessa maneira?

— Minhas ações não foram concebidas como um insulto a você. — Demyan não parecia particularmente preocupado.

— Como poderiam ter sido interpretadas de outra forma? — Um homem, que não era o rei, perguntou. — Você nos repudiou perante toda Volyarus.

— Eu não repudiei você. Eu me aliei a minha verdadeira família.

— Eu coloquei você no mundo — disse a mulher, em fúria.

E a identidade das outras duas pessoas ficaram claras para Chanel: os pais biológicos de Demyan.

— Você também me deu para seu irmão, abdicando de qualquer responsabilidade e todas as ligações afetivas para comigo. Não sou mais seu filho.

— Você não é uma criança. — O homem que falava só podia ser o pai biológico de Demyan. — Você sabe que isso foi necessário.

— Sei que você trocou seu filho pela chance de alavancar-se acima de seu cunhado, o rei. Sei que Fedir e Oxana precisavam de um herdeiro secundário ao trono, mas eles sempre me trataram como algo mais do que uma conveniência.

— Estou muito contente por você ter adotado o nome de nossa casa, Demyan — disse o rei, com sinceridade. — Seus pais poderiam ter evitado esta surpresa, permitindo que Oxana e eu adotássemos você como nosso filho. Eles se opuseram, como você disse... Para sua própria conveniência. Eu, por exemplo, fiquei alegremente surpreso e sei que sua mãe sente o mesmo.

Chanel sorriu, satisfeita pelo homem aparentemente frio preocupar-se com seu filho adotivo. Demyan disse alguma coisa que ela não compreendeu.

— Você acha que não é mais do que uma conveniência para o rei e rainha? — zombou Duque Zaretsky. — Ele acabou de assegurar que você sacrifique o resto de sua vida pelo bem da riqueza da família. Você é muito mais uma ferramenta para ele do que foi para mim Chanel não compreendeu o que o duque quis dizer com essas palavras, mas não havia dúvida de que sua intenção era feri-lo. E não ficaria parada enquanto alguém tentava ferir Demyan.

Ela abriu a porta, deparando-se com um escritório impressionantemente masculino, e cruzou rapidamente para o lado de Demyan.

Seu olhar escuro brilhou com algo que parecia preocupação antes do prazer de sua presença ganhar vida.

— Olá, sérdenko.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou o rei com sua habitual atitude fria para com ela.

— A recepção estava ficando muito barulhenta.

— Você não pode abandonar suas responsabilidades como anfitriã por um capricho.

— Sério? É o que você está fazendo aqui? — perguntou ela com tanto sarcasmo que poderia ser confundida com a irmã.

— Corrija-me se eu estiver errado, mas não era seu nome que estava no convite listado como anfitriã desta festa?

Demyan riu, pegando a mão dela e puxando-a para seu lado.

— Você faz uma excelente defesa, pequena.

Todos na sala, exceto Chanel, mostraram diferentes níveis de surpresa ao humor de Demyan. O rei se recuperou primeiro, dando-lhe um olhar rancoroso de respeito quando ela esperava uma carranca e repreensão educada.

Ela teve muita experiência com ambos e uma vida inteira percebendo que não era boa em tomar o caminho de menor resistência, mesmo que isso significasse evitá-lo.

— Certo — disse o rei Fedir. — Vamos voltar todos juntos.

— Será que ela já sabe? — perguntou o duque, com uma expressão calculista, seu tom inegavelmente malicioso.

CAPÍTULO 11

Chanel não perguntou o que o duque quis dizer, nem mesmo percebeu que o homem havia falado.

Ele falou em ucraniano. De alguma forma, ela duvidava que Demyan teria trocado confidências com o homem mais velho, o que significava que o duque não fazia ideia de que ela compreendia o idioma. Isso transformou sua escolha sem cortesia.

— Você vai ficar em silêncio — respondeu o rei no mesmo idioma de seu cunhado, em tom áspero.

Ignorando os dois homens, Chanel sorriu para Demyan.

— Eu senti sua falta.

— Oh, você é doce — disse a princesa Svitlana em um tom sarcástico.

A expressão de Demyan era uma estranha mistura de ternura e ansiedade estranha quando olhou para Chanel.

— Estou muito orgulhoso de você. Não são muitos os nerds da ciência que se sairiam tão bem em um assunto de Estado com pouco treinamento.

— Você contratou um grupo muito competente de babás.

Ele exibiu uma expressão de surpresa.

— Você acha que não percebi que pediu a eles que me vigiassem? — Depois que ela notou, sentiu-se muito bem cuidada.

Demyan nunca deixaria Chanel afundar ou nadar nas águas infestadas de tubarões que rodeavam sua vida.

— Eu não poderia estar com você o tempo todo — disse ele, dando uma explicação.

Não que ela precisasse de uma.

— Porque você é um príncipe.

— É apenas um título nominativo — disse a mãe biológica, com mais veneno.

— Ele não é mais príncipe do que você, que é uma princesa de boa linhagem.

Chanel deu a mulher mais velha um pouco de sua atenção, mas manteve seu corpo voltado para Demyan.

— Eu não sou um cavalo e não nasci em uma criação. Embora eu não tenha a pretensão de ser princesa, Demyan é definitivamente um príncipe.

— Ele não vai herdar. Não agora que a princesa Gillian carrega o próximo herdeiro do trono.

— Mas ele é filho do rei e da rainha. Isso faz dele um príncipe.

— Eu o coloquei no mundo — disse a duquesa.

Chanel achou estranho o duque nunca ter verbalizado sua paternidade.

— Parabéns.

— Você está zombando de mim?

— Não. Eu não sei como são seus outros filhos. Espero que sejam mais como o irmão mais velho do que seus pais, mas sei que você deu à luz a um homem incrível, que é Demyan. Tenho certeza de que se sente muito orgulhosa com essa realização, mas você não é mãe dele mais do que eu sou uma princesa.

— Oxana é minha mãe — afirmou Demyan com certeza absoluta.

— E você faria qualquer coisa por ela e pelo homem que considera seu pai, mesmo se casar com uma cientista americana socialmente desajustada para proteger os interesses financeiros dos Yurkovich. — Svitlana disse “cientista” como se fosse um palavrão.

Chanel quase sorriu. Nunca havia considerado sua vocação como além dos limites.

— Já chega, Svitlana. — Novamente, o tom do rei foi duro, sua expressão era de censura.

— Ah, então você não contou a ela? — perguntou o duque Zaretsky, depreciativamente, ignorando a evidente ira do rei. — Eu quase consigo sentir pena. Ela desistiu de centenas de milhões de dólares ao se casar com você e nem sabe disso.

Não havia dúvida de que o duque estava falando de Chanel, mas as palavras não faziam absolutamente nenhum sentido.

— Eu não desisti de nada e ganhei tudo ao me casar com Demyan — afirmou ela ferozmente.

A duquesa olhou para ela com pena.

— Você não faz ideia, mas não importa que tipo de acordo pré-nupcial estes dois a convenceram a assinar. Até pronunciar seus votos três horas atrás, você era dona de 30 por cento da Yurkovich Tanner.

— Eu não era. Meu tataravô deixou suas ações para o povo de Volyarus. — Ele contara a sua bisavó, em uma carta, ainda em posse de Chanel, com a Bíblia da família.

— E foram usadas para financiar a infraestrutura, escolas e hospitais, desde então — assegurou o rei.

Chanel sorriu para ele, sem nenhum rancor por sua conduta indesejável.

— Eu sei. Fiz uma pesquisa quando recebi a bolsa de estudos. Seu país é referência pela postura progressista em relação ao meio ambiente e conservação de energia.

— Fico feliz por você pensar assim.

— O dinheiro era seu — insistiu a irmã do rei. — Até que você se casou com meu filho.

As alegações estavam começando a fazer um terrível sentido, mas Chanel não tinha intenção de permitir que os dois abutres soubessem diante dela a dor que dilacerava seu coração.

Ela simplesmente disse:

— Ele não é seu filho.

— Gostaria de ver o testamento de seu tataravô? — perguntou o duque, claramente relutante em desistir.

Duas coisas eram óbvias naquele momento. A primeira era que havia alguma verdade no que o duque e sua esposa estavam dizendo. Se não houvesse, Demyan e o rei teriam negado categoricamente.

Além disso, os dois estavam demasiado tensos para as reivindicações serem inteiramente falsas.

Em segundo lugar, quaisquer que fossem os motivos do duque e da princesa Svitlana em revelar isso a Chanel, não tinham nada a ver com ajudar ou proteger alguém. Muito menos ela.

Na verdade, estava bastante certa de que sua intenção era magoar o filho que, finalmente, havia feito uma aliança pública com a família que o criara.

Chanel afastou-se do duque e da duquesa para encarar Demyan.

— Diga-me que seus irmãos não puxaram aos seus doadores de óvulo e espermatozoide.

Sons duplicados de indignação indicaram que os Zaretsky tinham ouvido.

Demyan não respondeu; havia em seus olhos uma expressão que ela nunca tinha visto antes. Medo.

Ela não tinha certeza do que ele temia. Se ele temia que ela fosse atrapalhar qualquer plano que tenha feito com rei Fedir, ou se estava preocupado de que ela armasse um escândalo na própria recepção, realmente não importava.

Fosse lá o que Demyan sentia por ela, Chanel o amava e não permitiria que duas pessoas cuja rejeição já causara uma vida de dor o machucassem mais.

— Eu acho que está na hora de todos nós voltarmos para a recepção. — Chanel não conseguia desenterrar um sorriso, mas fez o melhor para mascarar a própria dor.

Demyan falou em seguida; suas palavras saíram em um tom estranho.

— Precisamos conversar.

Ela não queria que ele demonstrasse vulnerabilidade diante dos Zaretsky. Chanel não lhes daria a satisfação de acreditar que tinham sido bem-sucedidos em seus esforços vingativos.

Ela estendeu a mão e segurou o rosto dele, como ele fez tantas vezes com ela, esperando que lhe desse a mesma sensação de conforto e de cuidado que sentia.

— Mais tarde.

— Você promete?

— Sim.


— Ela é uma tola — disse o duque em um enojado ucraniano.

Chanel olhou para ele por cima do ombro, com uma expressão refletindo desdém

— O único tolo aqui é você, se pensa que, por um segundo, tem o poder de influenciar a vida do meu príncipe, para o bem ou para o mal, hoje ou no futuro. Você simplesmente não importa.

Chanel também falou em sua língua nativa e apreciou o choque que isso causou no nobre arrogante.

A duquesa suspirou.

— Você é americana.

— O que não equivale a desinformada, estúpida ou sem educação. — Chanel encontrou olhos tão parecidos quanto os de Demyan na cor, mas diferentes na expressão. — Minha herança neste país pode não ser real, ou de longa data, mas, quando se trata do bem-estar de Volyarus, ele é tão importante quanto a sua.

Seu avô ajudara aquela nação a se manter financeiramente, três décadas atrás, e seus esforços ainda beneficiavam Volyarus.

— Você já sabia — disse a duquesa, quase como se admirasse a perspicácia de Chanel. — Mas, então, por que se casou com ele?

— Porque ela me ama — respondeu Demyan com a voz rouca.

Chanel se voltou para ele, sem concordar ou dar aos seus pais outro minuto de seu tempo. Ela não tinha conhecimento sobre o testamento ser diferente daquele que sua bisavó havia informado, ou o que tinha a ver com o casamento de Chanel e Demyan, embora ela pudesse dar um palpite com base no acordo pré-nupcial.

Contudo, não estava disposta a admitir isso para os Zaretsky.

Demyan estava analisando seu rosto, como se tentasse ler seus pensamentos. Até agora, em seu relacionamento, ela havia sido um livro aberto. Chanel tinha pouca esperança de conseguir esconder o que estava se passando em sua cabeça agora.

Mas Chanel não precisava falar sobre o assunto. Especialmente diante da geração mais velha da família real.

— Saia — disse o rei à irmã e ao cunhado.

Os Zaretsky olharam para a porta do escritório.

— Não — ordenou o rei. — Pela passagem secreta. Vocês não vão retornar à recepção e estarão fora do palácio dentro de uma hora.

— O quê? Você não pode estar falando sério. O que isso vai aparentar? —questionou sua irmã.

— Que você teve um acesso de raiva quando seu filho escolheu mudar de nome para refletir seu verdadeiro parentesco — respondeu o rei com o tom ártico.

A princesa Svitlana cruzou os braços.

— Não vou fazer isso.

— Você vai. Não finja esquecer que este não é um rei nominal de Volyarus. Tenho o poder de revogar sua cidadania e deportá-la. Não me tente a fazê-lo.

O duque e sua esposa empalideceram ao ouvir as palavras do rei; a princesa Svitlana fez uma ótima imitação de um peixe ofegante, embora nenhuma palavra tivesse saído de seus lábios.

A expressão nos olhos de seu irmão sugeriu que ela continuasse assim

Mostrando que ela era mais inteligente do que sugeriam as evidências, a princesa saiu através da passagem secreta, sem pronunciar outra palavra. Seu marido foi logo atrás dela.

Chanel se afastou de Demyan, pretendendo retornar para a recepção. As multidões e as vozes que havia 15 minutos pareciam tão esmagadoras, agora, chamavam como um farol para escapar dos pensamentos que estavam multiplicando-se em sua cabeça.

E a cada novo pensamento vinha uma dor que Chanel não sabia até quanto conseguiria suportar.

O rei bloqueou sua saída, o olhar dele analisando-a como havia feito seu filho adotivo. No entanto, o nível de crueldade da expressão dele fez com que ela congelasse; sentiu apenas confusão misturada com mágoa no olhar de Demyan.

Não disse nada, simplesmente esperou que o rei da Volyarus se movesse.

Ele franziu o cenho.

— Você não vai voltar para a recepção para causar uma cena.

Chanel estava fazendo o melhor para conter a devastação emocional que não sentia desde a morte do pai. O rei realmente pensou que sua demonstração de prepotência estava ajudando?

— Deixe-me dar um pequeno conselho, vossa majestade.

Ele ergueu as sobrancelhas em choque evidente ao tom de voz dela.

Chanel continuou:

— Neste exato momento, tudo o que vejo quando olho para você é um homem que usaria qualquer meio dissimulado necessário para roubar de uma mulher e de sua família um legado que eles nem sabiam que existia.

— Não houve nada dissimulado sobre seu casamento com meu filho. É legal em todos os sentidos. Você não pode desfazê-lo.

Ela disse uma palavra que raramente passava entre seus lábios, mas deu nome à mentira. Oh, o rei podia estar correto em dizer que ela não tinha como desfazer a legalidade do casamento, mas não fazer nada sobre ele ser desonesto?

Aquilo era um absurdo.

— Tudo o que eu fiz até agora foi dar minha opinião e não ofereci meu conselho. Se você é inteligente, vai aceitar.

— Chanel, você não pode falar assim com ele — disse Demyan, parecendo cansado, em vez de corretivo. — Ele é seu rei.

— Não é meu rei. — Mais do que Demyan era seu príncipe.

Rei Fedir perguntou antes que Demyan pudesse responder a essa afirmação:

— Qual é o seu conselho?

— Não tente me dizer o que fazer. Embora minha intenção não seja constranger minha família ou a rainha Oxana, que tem sido muito amável comigo, sua instrução para não causar uma cena é quase um impulso esmagador para fazê-lo.

— Você ama meu filho.

Ela não negaria. Qual seria a finalidade? Todos naquela sala sabiam a verdade sobre suas emoções.

— Mas eu nem sequer gosto de você — disse ela ao pai adotivo de Demyan, de forma muito sucinta.

O rei se encolheu, com o rosto em choque, como se ninguém jamais tivesse falado com ele dessa maneira antes. Talvez ninguém tenha.

— Chanel... — Essa foi a voz de Demyan, um som que ela não queria ouvir ou poderia voltar a confiar tão cedo.

Ela se virou para encará-lo, seu coração entrou em um ritmo que trouxe dor em cada respiração.

— Não faça isso. Apenas não faça, Demyan. Apesar de suas horríveis intenções, o duque e a duquesa foram mais honestos comigo que você.

— Não. — Demyan balançou para a frente, como se tivesse sido puxado por uma corda amarrada ao peito.

Chanel deu um passo para trás rapidamente, certa de uma coisa. Não poderia permitir que ele a tocasse naquele momento.

— Pare. Eu disse mais tarde. Quis dizer exatamente isso.

— Talvez vocês dois devessem conversar agora — sugeriu o rei, soando um pouco incerto.

Chanel não fez nenhum esforço para esconder a aversão absoluta que sentiu quando olhou para ele.

— Você está fazendo de novo. Diz que talvez devêssemos conversar e tudo em que consigo pensar é que não haverá mais conversa.

— Você é uma mulher teimosa.

— Você não faz ideia do quão teimosa eu posso ser. Passe alguns minutos conversando com meu padrasto e ele vai informá-lo.

— Já passei algum tempo na companhia dele.

E ouviu muita coisa, Chanel tinha certeza. Pela primeira vez na vida, ela simplesmente não se importava se Perry havia sido justo com relação a ela.

— Tenho certeza de que ele gostou.

— Ele é um homem oportunista.

— Ele é. — Algo acendeu em sua mente, duas lembranças unindo-se para formar uma única conclusão. — É ele, não é, o motivo pelo qual você teve que agir agora?

O rosto do rei suavizou-se em uma máscara desprovida de emoção, mas não antes que ela percebesse o brilho de surpresa causado por seu palpite.

Porque estava certa.

— Meu tataravô Tanner morreu, aparentemente, com um testamento muito diferente daquele que minha bisavó acreditou ter existido. No entanto, ninguém da sua família se aproximou da minha durante quatro gerações para garantir que as ações do barão Tanner permanecessem em sua preciosa empresa.

— Não é apenas uma empresa, é a base financeira de um país inteiro.

— O seu país.

— Seu também, agora.

— Isso ainda precisa ser analisado.

— Chanel... — Demyan tentou dizer alguma coisa.

Ela colocou a mão para cima.

— Não. Você não. Não agora. Confie em mim, é melhor para todos se você demonstrar aquela paciência implacável pela qual é tão bem conhecido nos negócios.

— Como você sabe disso?

— Passei seis semanas conhecendo você. — Pena que ele não havia feito o mesmo.

Ele teria percebido que não havia maneira pior para ela ficar sabendo de seu subterfúgio do que por terceiros. Contudo, talvez ele tenha percebido e simplesmente não se importou.

Demyan não arriscaria acabar com qualquer plano que ele e seu pai tenham colocado em prática para proteger sua preciosa riqueza e, consequentemente, seu país.

Ela focou-se no rei novamente.

— Meu padrasto abordou sua empresa tentando negociar com conexões que ele não tinha, e isso preocupou todos vocês.

— Ele é um homem engenhoso.

— Ele é um tubarão, embora eu considere Demyan maior e muito mais implacável.

— Sem dúvida. — O rei parecia orgulhoso.

Afinal, por que não estaria? A impiedosa desenvoltura de seu filho lhe rendeu poder completo sobre Yurkovich Tanner pela primeira vez em quatro gerações.

Chanel não sabia como, nem quais eram os detalhes, mas isso ela captou pelo que foi dito na sala, aquela noite.

— Há uma meia dúzia de produtos químicos moderadamente acessíveis que desintegrariam a carne do corpo de um tubarão em menos de um minuto, sabia disso?

O rei balançou a cabeça, sua expressão quase estupefata.

— Sabia. Conheço cada um deles.

— Você o está ameaçando?

— Estou lembrando que até tubarões são comidos se não forem cuidadosos, e que nem sempre é preciso ser um peixe maior para fazê-lo.

— Acredito que há um fio de crueldade em você também.

— Gostaria de descobrir?

O rei abriu a boca e, em seguida, fechou-a, olhando para Demyan com preocupação antes de sua expressão ficar pensativa.

— Não.

— Bom.


— O que você pretende fazer?

— Jogar o buquê.

— Sabe que não é o que eu quis dizer.

— Eu me importo?

A boca do rei contraiu, mas ele se afastou, tendo finalmente captado a mensagem de que suas repreensões serviam mais de estímulo para o mau comportamento do que para preveni-lo.

Chanel jogou o buquê.

Ela ainda conseguiu desenterrar um sorriso para a foto quando Laura o pegou e largou imediatamente. A atitude de sua irmã em relação à instituição do casamento não poderia ter sido mais óbvia.

Chanel imaginou se a adolescente havia pegado o buquê apenas para poder jogá-lo novamente. O salão inteiro irrompeu em gargalhadas, e até mesmo Beatrice estava sorrindo.

Ela deveria estar.

Sua filha fracassada conseguiu fisgar um príncipe. Não fora à toa que ela tinha ido até o apartamento de Chanel com histórias sobre um primeiro amor eterno.

Chanel não podia acreditar que pensou que a mãe estava finalmente demonstrando interesse em sua filha mais velha.

Mas, então, deixou-se convencer de que Demyan queria se casar com ela. Não com a única herdeira viva de Bartholomew Tanner.

Com um sorriso ainda fixo no rosto, Chanel olhou o salão de baile cheio de pessoas. Seu olhar pousou na rainha Oxana. A mulher parecia satisfeita, tinha uma expressão controlada e repleta de felicidade.

Seria por que ela sabia que a fortuna Yurkovich estava segura, ou estaria feliz com o que acreditava ser o casamento de seu filho com seu verdadeiro amor?

Outra lembrança se encaixou e o sorriso abandonou o rosto de Chanel. Oxana foi quem convenceu Demyan a prometer não usar declarações de amor para convencer Chanel a se casar com ele.

A rainha sabia do testamento. Mas tinha escrúpulos, o que seu marido e filho não tinham. Talvez ela fosse a única pessoa em quem Chanel poderia confiar para lhe dizer a verdade.

Sentiu-se tentada a deixar a recepção mais cedo, mas cada vez que deixava seu olhar encontrar Demyan, o via olhando para ela. Ele só a seguia, mas ela queria uma chance de falar com a rainha e obter algumas respostas primeiro.

Teve sua chance inesperadamente quando Oxana apareceu e colocou a mão sobre seu braço.

— Está tudo bem, Chanel?

Chanel olhou para Demyan. Ele retribuiu a atenção, a expressão de seus olhos escuros era ilegível, mas algo na maneira como ele observava Chanel e sua mãe indicava que enviara a rainha até ela.

— Você sabe — disse Chanel em vez de responder.

— Que você e meu marido tiveram uma espécie de discussão mais cedo? Sim.

Interessante a rainha considerar a discussão como sendo entre Chanel e o rei, não Chanel e Demyan.

— Ele contou a você?

— Demyan contou.

Mesmo o som do nome dele machucava Chanel de modo indefinível.

— Você estava ciente dos planos deles por causa do testamento do meu tataravô.

Oxana assentiu.

— Você o fez prometer não mentir sobre me amar. Obrigada. — Chanel não tinha certeza do quão pior seria a dor dentro dela se tivesse acreditado em falsas palavras de amor. — Quero ler o testamento.

— Se perguntar a Demyan, ele vai contar tudo a você.

— Eu não quero ouvir dele. Ele teve a chance de me contar. E escolheu ficar calado.

— Ele estava tentando proteger nossa nação.

Chanel não conseguiu deixar de zombar.

— Porque sou um enorme risco à segurança.

Oxana olhou ao seu redor, obviamente preocupada se alguém poderia ouvi-las. Ninguém estava na faixa de suas vozes suaves, mas isso poderia mudar a qualquer momento.

— Não quero ficar aqui — admitiu Chanel, desesperadamente.

Não havia outro lugar em que ela pudesse ficar sem que alguém com quem não queria falar a seguisse, o que incluía praticamente todos, exceto Oxana, no momento.

A rainha suspirou, olhando para ela com tristeza.

— Ele se preocupa com você.

Talvez Oxana também não fosse a melhor companhia. Chanel apenas balançou a cabeça e começou a se afastar.

A mão de Oxana em seu braço impediu-a de aumentar a distância entre elas.

— Venha, vou levá-la a um lugar distante do exame minucioso das outras pessoas.

Chanel achou um pouco óbvio quando a rainha levou-a ao espaço reservado para as mulheres, mas elas não pararam no aposento externo como ela esperava. A rainha conduziu-a para uma das três pequenas cabines com sanitários, fechando a porta atrás delas.

Embora o espaço fosse maior do que o habitual, não foi feito para duas pessoas, e Chanel não considerou uma boa ideia falar sobre assuntos sensíveis, com apenas uma porta separando elas de qualquer um que entrasse ali.

Mas Oxana não fez nenhuma pergunta, ou qualquer tentativa de conforto. Ela simplesmente empurrou uma seção de lambris e, em seguida, a parede atrás do vaso sanitário girou para trás.

Oxana estendeu a mão para Chanel.

— Venha, vou levá-la até a biblioteca de documentos particulares da Casa Yurkovich. O testamento de seu tataravô está armazenado lá.

CAPÍTULO 12

Chanel estava cercada pela escuridão na sacada com vista para os jardins do palácio, agora silenciosos. A recepção tinha acabado havia bastante tempo, o carro do último convidado saíra 30 minutos antes.

A temperatura caíra desde a manhã, e ela tremeu no ar frio, mas não voltou para dentro.

Antes de deixá-la ler o testamento e as informações relevantes nos diários de Bartholomew Tanner, Oxana contou a ela que seu lugar favorito para solidão era esta varanda.

— Os quartos não têm câmeras de segurança, mas têm monitoramento infravermelho. As salas públicas e os corredores estão todos cobertos por transmissão de vídeo. Os únicos lugares no palácio onde você pode relaxar sem ser monitorada são as varandas para se dirigir ao público e a do quarto de Fedir.

— Não é um risco de segurança? — perguntou Chanel.

Mas Oxana sacudiu a cabeça.

— As paredes e cada direção estão cobertas.

O que significava que Demyan acabaria por encontrá-la porque o caminho de Chanel até a varanda teria sido rastreado pelo monitoramento de vídeo depois que ela saíra pela passagem secreta.

Ela poderia ter saído do palácio de vez. Chanel era uma mulher engenhosa e dezenas de carros haviam deixado a propriedade nas últimas horas.

Mas não era covarde e nunca se escondeu da verdade, não importasse o quanto isso pudesse prejudicá-la.

Contudo, não estava totalmente claro que verdade era essa. Não depois de ler o testamento. Não depois de lembrar das palavras de Demyan na carruagem, naquela manhã.

Não depois de ter ouvido Oxana dizer exatamente que promessa havia extraído do filho sobre o amor.

Não até que Chanel fizesse a Demyan a única pergunta que realmente importava.

Chanel.

Ela virou-se para o som de seu nome, saindo dos lábios de Demyan.

Ele ficou emoldurado pela luz do corredor. Estendeu a mão e acionou um interruptor. Mais luz dourada inundou a varanda.

— Desligue isso — disse ela, inclinando a cabeça para que ele não visse os danos causados pelas lágrimas, mesmo com a maquiagem indelével.

— Não. Não precisamos de mais sombras em nosso relacionamento.

Chanel virou-se para encará-lo, a raiva deixando seus músculos rígidos com tensão.

— As sombras são todas suas.

Ele assentiu, com a expressão tão sofrida quanto ela sentia se pudesse acreditar na evidência diante de seus olhos.

Não tinha certeza se poderia confiar em suas percepções. No entanto, ela não achava que ele pudesse fingir a palidez de seu rosto, a forma como suas pupilas quase engoliam a íris cor de café expresso ou o jeito como ele respirava, em suspiros de pânico.

— Aquele dia, no meu laboratório, foi planejado.

— Eu precisava conhecê-la. Você não é uma pessoa social.

— Então Yurkovich Tanner doou 5 milhões de dólares para meu departamento, para pesquisa. É uma apresentação cara. — Embora nem chegasse perto do que os Yurkovich perderiam se ela tivesse reivindicado as ações Tanner da empresa.

— Também assegurou que você olhasse para mim de maneira favorável.

— Sua ideia ou do rei?

— Será que isso importa?

— Não.

— Você leu o testamento.



— Oxana lhe disse.

— Vi você ir para a biblioteca de arquivos particulares nas gravações de segurança.

— Ah.

— Passei duas horas assistindo as fitas, tentando encontrar você.



— Usamos as passagens secretas.

— Sim. Você só apareceu por breves períodos no vídeo e havia muitas pessoas no palácio para rastreá-la com o identificador de infravermelho.

— Coitadinho.

— Cha... — Engasgou-se com o nome dela e deu um passo à frente, cambaleando; o piso de pedra era liso e sem obstáculos.

— Você nunca precisou de óculos. — Para nada.

Ele parou a alguns metros dela.

— Eu disse isso a você.

— Mas eu pensei que você precisasse deles como uma muleta emocional.

— Não uso muletas.

— Não. Um homem sem emoções não precisa de muletas, não é?

— Sou humano, droga, não um fantoche. Tenho emoções.

— Aposto que foi ideia do rei se aproximar de mim parecendo um nerd corporativo para combinar com minha personalidade.

— Ele pensou que eu seria muito intimidador na minha forma habitual.

— Aquele homem, o tubarão corporativo, faz parte de você.

— Sim.

— Mas ele não é você por inteiro.



— Eu pensei que era.

— Até quando?

— Até que eu conheci você.

— Você não está sendo sincero.

— Nunca fui mais sincero.

— Você mentiu para mim

— Sou implacável quando se trata em proteger meu país e aqueles que amo.

— Percebi.

— Há pouca esperança de que isso mude.

— Não. Faz parte de sua natureza. Você teria sido um excelente cossaco.

— Ainda temos a elite de nosso exército. Como manda a tradição, passei dois anos treinando com eles antes de ir para a universidade.

— Isso não era obrigação do príncipe Maksim?

— Ele não era o filho mais velho do rei.

— Mas ele é o herdeiro do trono.

— Sim.

— Isso incomoda você?



— Não. Eu odeio política.

— Eu odeio ser enganada.

— Não farei isso novamente.

— Você pode realmente prometer isso, com sua natureza implacável?

— Sim.

— Por quê?



— Eu não compreendo.

— Acho que você compreende.

O rosto dele empalideceu ainda mais.

— Não, Chanel.

— Não o quê? Fazer você admitir suas vulnerabilidades. Se é que você tem alguma.

— Eu tenho.

— Eu não sou nem um pouco idiota, sabe. O vocabulário relacionado à lei pode não ser como o da ciência, mas entendo bem o suficiente.

— Sim?


— Sim O testamento de Bartholomew Tanner é ambíguo. Meu casamento com você nega qualquer reivindicação que eu, ou qualquer um dos meus filhos, faça a Tanner Yurkovich.

Demyan assentiu.

— O pré-nupcial não precisava explicitar isso tudo.

— Não.


— Você acrescentou aquele parágrafo como uma espécie de aviso para mim, não foi?

Ele deu de ombros.

— Você também certificou-se de que eu ficaria bem financeiramente, embora, legalmente, eu não tivesse como perseguir quaisquer interesses monetários no futuro.

— Você é minha esposa. Não quero que lhe falte nada.

— Aposto que o rei simplesmente adorou os termos do acordo pré-nupcial.

— Ele concordou com eles.

Tinha certeza de que havia uma história por trás disso, mas agora ela não estava interessada em ouvi-la.

— Você veio atrás de mim com a intenção de garantir a estabilidade econômica de Volyarus, não importando a que custo.

— Sim. — Pareceu que a palavra foi arrancada dele.

— Você poderia simplesmente ter pedido para eu passar as ações para você e eu teria feito isso. Especialmente depois de ler os diários de meu tataravô.

— Diários?

— Ele deixou clara sua intenção de deixar as ações para o povo de Volyarus, mas a princípio ele ainda tinha esperança de que seu tio-avô se casasse com a minha bisavó, depois, depositou suas esperanças na geração seguinte. Morreu antes que pudesse formar a aliança.

— Estou ciente disso.

— O que você não sabe é que ele escreveu para minha bisavó e disse a ela que planejava deixar suas ações da Yurkovich Tanner para o povo de Volyarus. Eu nunca teria tentado arruinar as vontades dele.

— Seu padrasto não seria tão compreensível. Ele poderia muito bem ter convencido sua mãe a nos processar em nome do falecido marido.

— Uma denúncia que não teria ido a lugar nenhum sem a minha cooperação, e eu não teria cooperado.

— Não sabíamos disso.

— Você deveria ter percebido quando passou a me conhecer melhor.

— Uma vez que eu me comprometo com um propósito, não mudo de direção por um capricho ou pela esperança de um resultado diferente.

— Talvez você tenha decidido que queria se casar comigo. — Foi difícil dizer as palavras, colocá-las para fora assim, mas este homem estava em contato com suas emoções tanto quanto o fantoche que não admitia ser.

— Eu quis me casar com você.

— Por quê?

Demyan olhou para ela, sua expressão era tão aberta que ela sentiu vontade de chorar. Porque demonstrou que ele claramente não sabia como expressar com palavras. Uma coisa era óbvia. Aquele homem não sabia o que fazer com suas emoções.

— Somos muito compatíveis.

— Somos?

— Você sabe que sim.

— Você é um príncipe. Eu sou uma cientista.

— Esses são nossos títulos, não o que somos na essência.

— Tudo bem, então você é cruel, e eu sou insegura. Somos emocionalmente reprimidos.

— Mas você fica mais segura de si comigo.

— E você é menos cruel comigo? — perguntou ela, já sabendo a resposta.

Olhando para trás, ela percebeu que o acordo pré-nupcial era praticamente uma carta de amor de Demyan.

A incerteza na expressão dele era de partir o coração.

— Sim?


Ela não conseguiu mais conter a vontade de tocá-lo. Aproximou-se dele, e ele envolveu-a em seus braços como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Sim, Demyan. Sim. — Sua crueldade nem sempre era uma coisa ruim, mas ela também trazia à tona o melhor dele.

Agora, se Chanel pudesse levá-lo a perceber o que isso significava.

— Você me excita como nenhuma outra mulher. — Ele falou como se o fato o confundisse. — Não gosto de ficar sem você. Nem mesmo por alguns dias. Fica difícil manter o foco.

— Fico feliz em ouvir isso. Sinto-me da mesma maneira.

— Sinto sua falta — frisou Demyan. — Cada hora que estamos separados. Mesmo quando estou trabalhando.

Não importava como essa coisa entre eles tinha começado, Demyan foi capturado no turbilhão de emoção com ela. Essa foi a conclusão de Chanel depois de rever, com muita dor, cada lembrança desde o momento em que se conheceram.

— Doeu descobrir sobre o testamento e seu motivo em se casar comigo pelo seu pai biológico.

A dor contorceu a expressão de Demyan.

— Sinto muito. — Ele estendeu a mão para limpar as lágrimas na bochecha dela. — Você chorou.

— No começo, tudo em que eu conseguia pensar era que você me enganou, me fez amá-lo, quando não sentia nada por mim. Que você provavelmente planejava se livrar de mim assim que a tinta secasse na certidão de casamento.

— Não! — Ele a beijou, a conexão entre seus lábios infundiu uma ânsia mais forte do que qualquer coisa que ela já sentiu.

Era uma versão ampliada dos sentimentos que emanavam dele durante a noite, quando faziam amor, desde que chegaram em Volyarus.

Chanel não fez nada para interromper o beijo durante um longo tempo, necessitando dessa conexão tanto quanto ele.

Mas, por fim, afastou-se.

— Você pretendia me dizer?

— Talvez um dia. Não sei. Eu não queria.

— Você estava com medo.

— Nunca tenho medo.

— Normalmente não, mas a ideia de me perder assustou você.

— Já perdi você? — Seus braços se apertaram ao redor dela mesmo quando fez a pergunta.

— Não.


— Não?

— Definitivamente não. Ainda.

Seu grande corpo ficou absolutamente rígido.

— Ainda?


— Tudo depende de sua resposta a uma pergunta.

Ele olhou para ela.

— Você nunca quebra suas promessas, certo? — Ela deixou seu corpo moldar-se completamente ao dele, tentando dar-lhe força.

Isso é o que as pessoas que se amavam faziam, forneciam sua força quando necessário.

— Certo.

— Diga-me que você me ama.

A tensão que emanava dele aumentou exponencialmente.

— Sua mãe me disse o que ela fez você prometer.

A expressão de Demyan era assombrada.

— Você prometeu não dizer que me amava, a menos que estivesse falando realmente sério — lembrou Chanel. — Você pode dizer isso agora, Demyan. Vou guardar seu amor para sempre também

— Mas...

— Você me ama.

— Amo?

— Essa coisa que você estava dizendo antes, sobre sentir minha falta, ter medo de me perder, mesmo a maneira como você mudou o acordo pré-nupcial, tudo isso significa uma coisa.



— Significa? — Compreensão e aceitação afloraram em seu rosto, fazendo-o sorrir com uma felicidade de partir o coração. — Significa. Eu amo você, Chanel, mais do que a minha vida como príncipe. Mais do que qualquer coisa.

Mais lágrimas encheram os olhos dela, mas essas não queimaram ou feriram seu coração.

— Amo você também.

— Eu estou falando sério.

— Eu sei.

— Não, estou falando sério... Não temos de viver com a coisa toda da realeza. Eu sei que não é a vida que você quer. Posso abdicar do meu papel.

Não era uma promessa vazia e não viria sem custo significativo para este homem incrível, especialmente depois de finalmente reconhecer seu verdadeiro papel como filho de Oxana e Fedir. Mas Demyan estava sendo totalmente sincero sobre a oferta.

— Não. Amo você, Demyan. Príncipe implacável. Tubarão e rei corporativo. Todos vocês.

— Amo você por tudo que você é também, Chanel, e isso inclui a mulher que nunca aspirou a ser uma socialite.

— Também não vou ser uma agora.

— Meu tio... Pai não vai saber o que fazer com você.

— Ele provavelmente vai me chamar de princesa só para me irritar.

Demyan riu, um som livre e cheio de mais alegria do que ela viu nele antes.

— Você pode muito bem estar certa.

— Desde que você me chame de amor.

Koxána Moja — disse ele, chamando-a de seu amor em ucraniano.

— Para sempre. Você é o coração que bate dentro do meu peito.

Em seguida, ele a levou de volta para os aposentos que compartilhariam sempre que ficassem no palácio durante os próximos anos e fez amor com ela de forma lenta e suave, durante a noite toda, usando essas palavras e muitas outras para dizer a Chanel que realmente a amava e sempre amaria.

Mais tarde, ela se aconchegou em seu corpo e bocejou enquanto dizia:

— Eu acho que é uma coisa boa você ter um lado sorrateiro e oculto.

— É mesmo?

— Sim.


— Por quê?

— Do contrário, nunca teríamos ficado juntos. Você sorrateiramente transpôs todas as minhas barreiras.

— É justo, já que você destruiu as minhas.

Duas pessoas quebradas que nem tinham percebido que o amor os fez inteiros.

Sim, pensou Chanel, isso era correto e justo.

— Amo você, Demyan.

— Amo você.

— Sempre.

— Pelo resto de nossas vidas.

— E além — A eternidade não acabaria com um amor tão forte.

— E além.

EPÍLOGO

Oxana abraçou seu mais recente neto. A pequena criança tinha apenas 3 dias de vida, mas estava tão alerta que a rainha não conseguiu deixar de sorrir para os olhos cinzentos suaves assim como os da mãe.

O pequeno Damon era seu quarto neto e Oxana tinha certeza de que ele traria tanta alegria quanto os outros três; sentia-se abençoada por seus filhos e suas esposas.

O mais velho, Mikael, tinha 5 anos e era a única criança que Gillian e Maksim haviam concebido. Sua mais nova foi adotada, uma linda menina que encantava os pais.

O filho mais velho de Demyan e Chanel havia completado 2 anos, quatro meses antes do nascimento de seu irmãozinho. Ambas as crianças eram mimadas e adoradas pelos pais, que mostravam uma determinação implacável quando se tratava de colocar a família em primeiro lugar.

Oxana não poderia estar mais satisfeita. Ela desistiu de uma vida de amor e encontrou pouca felicidade pessoal, a fim de dar aos seus filhos a chance de uma vida melhor. Um seria rei, o outro continuaria a supervisionar os negócios, e ambos seriam muito felizes.

E Oxana considerou isso uma compensação mais do que justa pelos sacrifícios que fizera. Afinal de contas, estava com seus netos agora. Eles a chamavam de Nana, não vossa majestade, e não hesitavam em bagunçar seus trajes de alta costura com os dedos.

Como era incrivelmente abençoada... Mas seus filhos é que receberam a verdadeira bênção.

Um amor para a vida toda, com mulheres que não só os conheciam, mas também os aceitavam

Fedir muitas vezes não sabia o que fazer com suas noras tão independentes, mas amava ser avô e já tinha grandes planos para as crianças.

Oxana não disse a ele, mas também tinha planos e sabia exatamente o que cada neto necessitava para o futuro. Amor.

Assim como ela fez o melhor para que seus dois filhos percebessem seus amores, faria o que fosse preciso para garantir que cada um de seus netos também conhecesse o verdadeiro amor.

Fedir poderia planejar todas as maquinações que quisesse, mas e no fim? O amor triunfaria.

Como triunfou para seus filhos.

PAIXÃO NEGADA

ANNE MATHER

Cleo poderia jurar ter visto aquela mulher antes. Não saberia dizer quando nem onde, talvez fosse apenas uma sensação, fruto de sua imaginação. Mas notou algo familiar ao olhar para ela, algo que se recusava a desaparecer de sua mente.

Nervosa, fez que não com a cabeça. Certas vezes, Cleo exagerava em seus sentimentos, o que não era nada bom para si mesma. Contudo, sem dúvida, aquela mulher a encarava desde o momento em que ela entrou na fila do caixa, e talvez por isso lhe parecesse tão familiar. Era possível que Cleo se parecesse com algum conhecido da tal mulher.

Sim, poderia haver alguma explicação perfeitamente simples e inocente. Ela não gostava de ser observada, mas isso não significava que a mulher fosse perigosa. Pagando pelo leite que a fizera ir ao supermercado, Cleo resolveu ignorar o olhar persistente, mas ficou muito assustada quando a mulher se dirigiu a ela, perguntando:

— Você é a Srta. Novak, certo? -perguntou a desconhecida, bloqueando seu passo. — Eu fico muito feliz de encontrá-la... finalmente. Uma amiga sua disse que eu poderia achá-la aqui.

Cleo franziu a testa. A desconhecida só poderia estar falando de Norah, e isso significava que já tinha estado em seu apartamento. Por que Norah resolvera contar detalhes de sua vida a estranhos? Com tanta coisa acontecendo por aí, imaginava que a amiga seria mais discreta.

— Sinto muito — disse Cleo, embora preferisse não dizer nada e sair correndo. — Nós nos conhecemos?

A mulher sorriu, e Cleo percebeu que era mais velha do que parecia quando vista de longe. Antes, diria que tinha seus 40 e poucos anos, mas de perto denunciava ter mais de 50. Seus fios grisalhos eram uma prova da idade, embora mantivesse um corpo esbelto e pernas esguias.

Não era muito alta, pois tinha de erguer a cabeça para encarar Cleo nos olhos. Mas a sua maquiagem fora bem feita, suas roupas eram obviamente caras, e o que lhe faltava de estatura era perfeitamente compensado com presença.

— Peço desculpas — respondeu ela com um leve sotaque estrangeiro, dirigindo Cleo para fora da loja pelo simples método de continuar conversando. O ar frio da tarde de outono envolveu as duas, e a mulher tremeu, como se não gostasse da sensação. Ela continuou falando: — Eu deveria ter me apresentado. Nós não nos conhecemos, minha querida. O meu nome é Serena Montoya, sou irmã do seu pai.

— O meu pai não tinha nenhuma irmã, Sra. Montoya. Sinto muito. — E começou a se afastar. — Acho que a senhora cometeu um engano.

— Acho que não... — retrucou Serena Montoya, tocando a manga do casaco de lã de Cleo com dedos cujas unhas estavam pintadas de vermelho escarlate.

— Por favor — insistiu ela —, peço que me escute por alguns minutos. — Depois suspirou e soltou o casaco de Cleo, que a encarava. — O nome do seu pai era Robert Montoya...

— Não.

— Ele nasceu na ilha de San Clemente, no Caribe, em 1956.



— Nada disso é verdade — disse Cleo encarando-a impaciente. Depois, com um toque de resignação, continuou: — Sim, é verdade, o meu pai nasceu em San Clemente, mas não tenho certeza do ano, e o nome dele era Henry Novak.

— Será? — perguntou Serena agarrando o pulso de Cleo, desta vez com uma firmeza inegável, e encarando-a sem trégua. — Não estou mentindo, Srta. Novak. Eu sei que você sempre imaginou que Lucille e Henry Novak eram os seus pais, mas eles não eram.






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