Pré-Projeto de tese a imaginação Subversiva ao Redor do Mundo: Imagens e Contos de Protesto na Imprensa Anarquista e Anticlerical



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Pré-Projeto de tese
A Imaginação Subversiva ao Redor do Mundo: Imagens e Contos de Protesto na Imprensa Anarquista e Anticlerical

(Espanha, Argentina e Brasil, 1897-1936)
Caroline Poletto1

2013

Para o “IV Encuentro de Investigadores sobre el anarquismo” resolvi apresentar meu pré-projeto de tese, apresentado na seleção do Doutorado da Universidade Do Vale do Rio dos Sinos –UNISINOS - em novembro de 2012. O presente pré-projeto foi aprovado pela banca examinadora e, em março de 2013, iniciei a cursar o Doutorado na supracitada Universidade, objetivando a construção/ concretização desse pré-projeto defendido por ocasião da seleção de ingresso no Doutorado. Portanto, o presente projeto (ou pré-projeto) encontra-se em fase inicial de desenvolvimento e admite mudanças, incrementos e supressões, uma vez que não se trata de um projeto engessado, mas sim de um trabalho que admite a flexibilidade. Por isso, acredito que a oportunidade de apresentar esse projeto, que se encontra ainda na fase inicial, em um encontro de tamanha importância para a temática do projeto, se reflita em intercâmbios de ideias, sugestões e exercícios críticos que tornarão esse trabalho possível e melhor, uma vez que o real aprendizado ocorre com a troca, com as discussões, com os múltiplos olhares e, muito mais, na coletividade do que no isolamento.

Durante a leitura do projeto, notar-se-á que o mesmo se trata de um aprofundamento e de uma ampliação de alguns temas já abordados na minha dissertação de Mestrado2, defendida em março de 2011 e que me deixou algumas lacunas e inquietações, as quais tentarei responder (na medida do possível) com o desenvolvimento do presente projeto, nos próximos quatro anos.




  1. DEFINIÇÃO DO PROBLEMA E OBJETIVOS DA PESQUISA

Verifica-se que, nos últimos anos, e em especial na última década, se produziu e ainda está se produzindo uma renovação nos estudos historiográficos acerca do movimento anarquista. Além da retomada do interesse por essa temática, também se percebe que as recentes pesquisas estão realizando novas perguntas, possibilitadas, entre outros fatores, pela ampliação não somente das fontes utilizadas, mas também no que concerne à facilidade de acesso a elas, tendo em vista a gênese e o aprimoramento dos arquivos digitais3 em diversos países, bem como as novas possibilidades de reprodução e categorização dessas fontes. Isso possibilita que novos estudos centrados na cultura e política anarquista apareçam, de forma a permitir que o anarquismo deixe de ser considerado apenas como um momento específico na gênese do movimento operário mundial no final do século XIX e cujo ápice se deu no decorrer do século XX (principalmente nas três primeiras décadas) para se transformar em um interessante prisma de indagação sobre variados momentos do passado que vão além do simples conflito de interesses verificado no mundo do trabalho; superando, portanto, a concentração nas esferas rígidas dos campos político e econômico e adentrando no projeto cultural do anarquismo, o qual propõe uma nova educação, novos valores, uma nova visão de mundo e, por fim, a formação de um novo homem.

Talvez, um dos reflexos mais perceptíveis da utilização das novas tecnologias como um meio de auxílio ao pesquisador no que concerne ao manejo das fontes esteja, no caso específico da imprensa operária/ anarquista, na possibilidade atual de se reproduzir, melhorar e detalhar as imagens contidas nos periódicos4, de forma a transformar essa fonte visual em um elemento potencial do conhecimento histórico contemporâneo; fonte essa pertencente ao mundo do sensível, que mescla o artístico com o político, a objetividade com a subjetividade, confunde os limites da realidade e da ficcionalidade. Assim, as inovações tecnológicas atuais permitem voltar aos objetos, por vezes já estudados em décadas anteriores, com um olhar diferenciado e com uma abordagem específica, que apenas agora se torna efetivamente exequível. Dessa forma, acredita-se que não basta apenas apontar a carência de estudos em determinadas áreas (ou com determinadas fontes), mas deve-se também refletir acerca do porquê da sua ausência; no caso em questão, as dificuldades ou, até mesmo, impossibilidades de reprodução das imagens em anos anteriores justificam a inexistência de estudos centrados nas mesmas5. Além disso, a contemporaneidade não escapa às imagens, uma vez que se vive na era do visual, em que os televisores e computadores emitem centenas de imagens por minuto, de maneira que seu estudo também reflita uma carência atual de orientação; carência essa que impulsiona os seguintes questionamentos: como essas imagens circulam e se reproduzem tanto no espaço (diferentes regiões) como no tempo? O que permanece? O que se transforma? Qual sua importância? Elas podem ser trivialmente reduzidas em palavras? O discurso visual apenas reforça o textual ou apresenta características próprias e independentes em relação às palavras?

A incorporação das imagens enquanto fontes potenciais do conhecimento histórico possibilita também a comparação destas com outros tipos de fontes, de maneira a favorecer novas descobertas através daquilo que foi verificado pela comparação: ausências, permanências, formas diferentes de se comunicar, estratégias diferenciadas, entre outras. O que, sem sombra de dúvida, auxilia a desvendar os mistérios da linguagem humana, que não se traduzem apenas no formato textual, mas também no visual, musical e gestual. Sobre essa incorporação iconográfica no universo do historiador, se afirma que “não é que a imagem tenha sido elevada, para o historiador, ao nível do documento textual; ao contrário, o texto foi rebaixado ao nível da imagem, abraçou o engano” (FLORES; VILELA, 2010, p.13). De forma que a incorporação de novas fontes não possibilita a construção de uma história finalizada e definitiva, mas, pelo contrário, se traduz na inserção de novos questionamentos os quais devem minimizar as carências de orientação atuais, mas jamais extingui-las por completo, uma vez que a história produzida sempre é relativa e nunca definitiva.

O projeto aqui apresentado, para ingresso no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, propõe analisar aspectos da imprensa libertária6 e anticlerical7 fundamentais para a formação, conscientização e doutrinação dos leitores segundo os princípios básicos do anarquismo, tanto no Brasil como na Argentina e Espanha, tendo em vista o próprio internacionalismo anarquista e a grande proposta que essa imprensa almejava de “ser universal”. Este projeto insere-se na linha de pesquisa intitulada “Poder, Ideias e Instituições” tendo como foco temas relativos às práticas políticas e culturais, os conflitos e as representações, a produção e circulação de ideias nos veículos da chamada “pequena imprensa”8 e pretende ampliar algumas questões que já foram trabalhadas ao longo do curso de Mestrado, bem como estabelecer novas problemáticas surgidas com a opção de acrescentar fontes e ampliar tanto o enquadramento espacial quanto o marco temporal da pesquisa.

O presente projeto pretende se “enquadrar” entre esses novos estudos e problemáticas possibilitados por esse “novo olhar” sobre as fontes do anarquismo, uma vez que procura demonstrar o interesse pelos estudos de circulação (tanto de ideias como de pessoas), a formação de uma cultura anarquista, a importância da imagem e da literatura para a formação dessa cultura libertária e a consequente (des) construção do “outro” baseada na formação de estereótipos claramente verificados. Para dar conta desse interesse, a referida pesquisa pretende analisar as imagens e os contos da imprensa anarquista (e algo da imprensa anticlerical) espanhola, argentina e brasileira, tentando verificar (quando possível) os prováveis caminhos tomados na circulação de ideias bem como a formação (ou não) de uma imprensa universal e internacionalista (como defendida nas bases da doutrina anarquista) ou a permanência (ou não) de especificidades e estratégias locais nos veículos da imprensa libertária, tendo como centro de análise elementos do discurso estético propagandístico do anarquismo. Tentar visualizar repetições, distanciamentos, pontes e intercâmbios de ideias entre os elementos (imagens e contos) dos diferentes periódicos utilizados eis, portanto, o objetivo principal da pesquisa.

Durante o curso do Mestrado procurei, através da proposta de comparação entre variados jornais e suplementos da imprensa libertária e anticlerical de Buenos Aires e de Porto Alegre, demonstrar como as caricaturas e os contos encontrados nesses suplementos e jornais cumpriam um papel de destaque no que diz respeito à formação dos leitores, apresentando uma função pedagógica evidente. Embora a dissertação não tenha esgotado o estudo das caricaturas e contos a que se propôs, pensa-se que a mesma possibilitou reflexões pertinentes para a compreensão tanto das múltiplas estratégias utilizadas pela imprensa independente, quanto a respeito da identificação dos discursos visuais e textuais, os quais, ora se complementam, ora se repetem e, em alguns casos, se distanciam. Procurou-se, portanto, evidenciar os momentos de aproximação e de afastamento entre os elementos discursivos em questão. Para o projeto de Doutorado pretende-se aprofundar essa pesquisa, incorporando novas fontes (periódicos) e ampliando tanto o lócus da pesquisa como o marco temporal, uma vez que periódicos de São Paulo, de Madri e de Barcelona serão inclusos na mesma (somando-se aos de Porto Alegre e Buenos Aires); periódicos esses marcados por uma frenética atividade propagandística, cultural e educativa. O marco temporal, que na dissertação englobava o período de 1897-1916 se estende agora até meados de 1936, tendo como marco inicial o surgimento do periódico libertário argentino La Protesta (o que já demonstra certa organização do movimento) e, como marco final, a Guerra Civil Espanhola, a qual encerra também uma fase de força do anarquismo como alternativa às políticas vigentes.

Tentar-se-á, portanto, analisar as imagens e contos encontrados nos periódicos em questão, a fim de verificar as denúncias, as crenças e as estratégias de ação da imprensa subalterna de ambas as cidades e países. Acredita-se que o valor desse estudo encontra-se exatamente nos desafios que comporta: desafio de trabalhar com a linguagem metafórica e fantasiosa dos contos que, muitas vezes, fazem “tremer”, “vibrar” e com os traços, por vezes irônicos e risíveis, das imagens, adentrando na sensibilidade estética do anarquismo; o desafio de trabalhar com artistas e autores anônimos que não estavam preocupados em deixar suas marcas individuais, uma vez que se expressavam em nome da coletividade, sendo integrantes da “alma coletiva” e o desafio da comparação entre elementos da imprensa libertária e anticlerical de países e cidades distintos. Cabe lembrar que a incorporação de periódicos de Porto Alegre na presente análise, cujos demais periódicos utilizados são de cidades maiores e com grande importância na formação do operariado nacional (Buenos Aires, São Paulo, Barcelona e Madri), se justifica tanto por possibilitar desvendar os caminhos da imprensa libertária e o intercâmbio de ideias entre Buenos Aires e São Paulo, podendo Porto Alegre ser a ponte, o elo entre ambas e também pela possibilidade de se verificar quais elementos dos grandes periódicos da imprensa libertária eram reproduzidos nos periódicos menores, de caráter mais local, como os de Porto Alegre. Esses desafios que a pesquisa comporta tentam retirar das imagens e contos maneiras próprias de representação no seio da imprensa libertária, demonstrando práticas de leituras que se apoiaram tanto no visual como no textual para se configurar enquanto narrativas de informação, comunicação e convencimento.

Ressalta-se ainda a pouca incidência de trabalhos centrados na comparação dos periódicos da imprensa libertária de diferentes países, uma vez que o que mais se verifica é a ocorrência de estudos isolados que abordam os jornais de uma cidade ou país específico, sem realizar uma análise comparativa com os elementos da imprensa libertária de outros países. No entanto, esses estudos “isolados” têm uma importância fundamental para o estudo da imprensa anarquista, porém, sente-se a falta de um estudo que procure tratar essa imprensa como ela se autodesignava: internacionalista e universal. Através da utilização da comparação tentar-se-á fornecer uma visão mais global dessa imprensa que tencionava atingir a todos.

Além do objetivo principal supracitado, a pesquisa apresenta ainda os seguintes objetivos específicos:

- Verificar de que maneira alguns dos acontecimentos marcantes para o anarquismo na época analisada (a Semana Trágica de Barcelona, a execução do educador libertário Francisco Ferrer, a condenação de Sacco e Vanzetti, a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, os Mártires de Chicago e as consequentes “rememorações” do 1º de Maio, entre outros) foram retratados nos diferentes periódicos através das imagens e/ ou contos;

- Procurar desvendar as aproximações/ simpatias existentes entre a imprensa libertária e a anticlerical, uma vez que, por vezes, ambas se confundem;

- Tentar apontar as relações existentes entre o intercâmbio de pessoas (sujeitos ativos na imprensa anarquista) com o intercambio de ideias;

- Verificar se há certa homogeneidade cultural no operariado em questão.

- Estabelecer ligações entre os estudos isolados da estética e cultura anarquista da Argentina, Brasil e Espanha, fazendo com que esses autores dialoguem, não apenas com a autora desse projeto, mas também entre si.

Para dar conta dos objetivos dessa pesquisa, a mesma pretende levar o leitor a desfrutar do universo imagético e simbólico apresentado através de riscos, rimas e fantasias que tanto denunciavam como objetivavam uma mudança profunda na sociedade que lhes dava vida, uma vez que acreditavam na inteligência e sensibilidade humana, constituindo-se em elementos significativos da crítica social e da arte de protesto dos anos finais do século XIX e das três primeiras décadas do século XX. Crítica essa que pode parecer estranha no contexto atual, em que o papel da mídia é mais o de deformar do que formar e o espaço concedido aos veículos da pequena imprensa é, cada vez mais, minimizado ou pouco sentido.
2. AVALIAÇÃO DA BIBLIOGRAFIA PERTINENTE

Em uma breve revisão da produção historiográfica espanhola, argentina e brasileira, apesar da existência de importantes estudos isolados da temática em questão, percebe-se a carência de estudos comparativos, bem como a incipiência de trabalhos que se propõem à análise do discurso, da estética e da cultura anarquista. Seria impossível citar aqui todos os importantes trabalhos existentes sobre o movimento anarquista espanhol, argentino e brasileiro. Portanto, nessa breve revisão bibliográfica serão apresentados alguns trabalhos clássicos, fundamentais para qualquer estudo sobre o movimento anarquista e, de forma mais abundante (porém não exaustiva), os trabalhos centrados na imprensa, cultura e arte libertária.



Para dar conta do surgimento e posterior desenvolvimento do anarquismo na Espanha são fundamentais tanto as obras clássicas, já consagradas pela historiografia espanhola, cujos alguns dos principais expoentes são: José Álvarez Junco, Clara E. Lida e Francisco Madrid, como obras mais recentes que incluem novas fontes e olhares sobre o anarquismo espanhol. José Álvarez Junco apresenta uma série de trabalhos sobre os aspectos sociopolíticos e culturais do movimento operário espanhol nos séculos XIX e XX, merecendo destaque a obra “La ideologia política del anarquismo español”9 em que o autor analisa o anarquismo desde o ponto de vista ideológico, percebendo que ele – o anarquismo espanhol – é herdeiro tanto da fé na razão, ciência e progresso como dos ideais transmitidos pelo socialismo utópico (coletivismo, liberdade sexual, educação racionalista, antimilitarismo, entre outros) e, ao mesmo tempo, também resultado das tensões e contradições peculiares da situação espanhola (paixão anticlerical, moralismo exacerbado, pacifismo doutrinal, violência tática) se configurando num movimento de massas que alcança originalidade no terreno tático, proclamando a espontaneidade nas suas ações. Clara E. Lida, por sua vez, dedica-se ao estudo da gênese do movimento anarquista na Espanha, sendo a sua obra “Anarquismo y Revolución en la España del Siglo XIX”10 considerada a principal referência para os estudos dos anos iniciais do anarquismo na Espanha, quando esse ainda não se apresentava articulado enquanto movimento; porém, as ideias anarquistas já se faziam presentes em solo espanhol e se refletiam nas primeiras lutas e conflitos ocorridos tanto no campo quanto na cidade. A obra de Clara E. Lida centra-se na análise dessas lutas e conflitos anteriores ao surgimento do anarquismo enquanto movimento organizado (o que virá a acontecer apenas na Primeira Internacional). Já Francisco Madrid realiza um trabalho de fôlego e que merece o reconhecimento de todos os interessados na temática do anarquismo espanhol, pois, na sua tese de doutorado intitulada “La prensa anarquista y anarcosindicalista (desde la I Internacional hasta el final de la Guerra Civil, 1869-1939)”11 o autor apresenta as principais características da imprensa anarquista, bem como seus objetivos e estratégias de ação, perpassando questões acerca dos idiomas utilizados, apresentando a língua internacional: o esperanto, as questões referentes às formas de financiamento e arrecadação dos periódicos, bem como às formas de distribuição e, ainda, questões referentes à repressão que os veículos da imprensa libertária sofriam na Espanha, à configuração dos diversos grupos anarquistas e à pedagogia racionalista. Além de desenvolver de forma elogiável e com um cuidado minucioso as questões supracitadas, o autor ainda apresenta uma compilação e organização de, possivelmente, tudo aquilo que já foi escrito de forma regular (revistas, jornais e suplementos) na imprensa anarquista espanhola (apresenta 853 títulos de publicações). Nesse compilado o autor apresenta os jornais, revistas e suplementos, suas características, duração, direção e, o que é mais importante, a localização atual dessas fontes da imprensa libertária e o formato das mesmas (microfilme ou original); de forma que a tese de Francisco Madrid serve de referência para muitas pesquisas voltadas para a temática do movimento operário e do anarquismo espanhol, uma vez que ela fornece informações valiosas para os pesquisadores sobre a imprensa libertária.

Deixando os clássicos de lado e passando para os trabalhos mais recentes surgidos no ano de 2010 decorrentes da comemoração do centenário da fundação da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) fundada em 1910, merece destaque o trabalho de Dolors Marin12, que perpassa minuciosamente as questões referentes ao surgimento da CNT, ao internacionalismo proletário, ao universo cultural das veladas e apresentações teatrais, bem como ao universo dos gritos subversivos das poesias e canções, terminando com uma análise da participação dos anarquistas na Guerra Civil da Espanha e as mudanças oriundas dessa participação. É um trabalho elogiável que consegue mesclar nas doses certas história política e história cultural, pertencendo aos novos estudos do anarquismo. Outra obra decorrente da comemoração dos cem anos da CNT é o trabalho coordenado por Julián Casanova13 que, além dos escritos de sua autoria sobre o anarquismo na Espanha durante a Segunda República e a Guerra Civil, traz ainda textos de outros autores, dos quais merece destaque os trabalhos dos já citados “autores clássicos” do anarquismo espanhol como José Álvarez Junco que, nesse texto, estuda a filosofia política do anarquismo espanhol e o trabalho de Clara E. Lida que retrata a história da Primeira Internacional na Espanha, abrangendo o período de 1868-1889, demonstrando os momentos tanto da clandestinidade presente na gênese do movimento anárquico espanhol como os momentos posteriores já caracterizados por certa organização política e reconhecimento enquanto movimento social, porém, ambos os momentos eram acompanhados pela repressão estatal. Destacam-se ainda nessa publicação organizada por Casanova o trabalho de Rafael Núñez Florencio que se detém nas questões da violência e atentados ocorridos entre os anos de 1888 e 1909 na Espanha; anos esses marcados pela utilização da violência tanto em atentados promovidos pelos anarquistas, como nas ações repressivas da polícia do Estado espanhol; bem como o texto de Carlos Gil Andrés sobre as origens e consolidação da CNT, demonstrando as diversas fases e orientações que caracterizaram a Confederação Nacional dos Trabalhadores no decorrer dos anos.

Passando das recentes obras do anarquismo espanhol para as produções cujas temáticas principais sejam a imprensa, a cultura e a estética anarquista, é importante destacar o excelente e inovador (e por que não dizer desafiador e ousado) trabalho de Lily Litvak que, em suas principais obras, aborda com uma sensibilidade incomum a arte e estética anarquista, abrangendo o universo dos contos, das imagens, canções, espetáculos teatrais e maneiras peculiares de sociabilidade dos grupos libertários tentando, através desses universos, esboçar os traços principais da cultura ácrata na Espanha. No seu livro “Musa Libertária”14 a autora pretende recuperar a riqueza de temas que o mundo libertário espanhol produziu ao tentar criar uma “cultura alternativa”, dedicando boa parte da obra em desvendar os traços característicos da arte e estética libertária, utilizando para tal fontes da imprensa bem como obras literárias. Complementando esse trabalho iniciado em “Musa Libertária” a autora nos presenteia com a obra “El cuento anarquista”15 na qual disserta sobre a importância da literatura e dos contos curtos no que concerne às questões propagandísticas e doutrinárias do anarquismo, bem como apresenta e reproduz na íntegra 23 contos libertários encontrados nos periódicos anarquistas espanhóis nas décadas iniciais do anarquismo na Espanha, incluindo contos de autores importantes para o proselitismo libertário como, por exemplo, José Prat e Anselmo Lorenzo.

Joan Zambrana16, por sua vez, está mais interessado em desvendar os aspectos políticos do periódico Tierra y Libertad do que os aspectos culturais. Sua extensa obra (são mais de 1000 páginas) se inicia com uma minuciosa recompilação dos artigos encontrados no periódico, destacando a temática e os autores envolvidos, passando para a análise e reprodução de alguns editoriais e, por fim, o autor inova ao tentar traçar um provável mapa do anarquismo espanhol verificado através da divulgação no próprio periódico da relação de outros periódicos recebidos (tanto da Espanha como de outros países), bem como dos locais para onde era enviado o jornal Tierra y Libertad. Encerrando esse extenso trabalho o autor ainda apresenta os diferentes grupos anarquistas que se formaram ao redor da Espanha durante o período de 1910-1919, tentando diferenciá-los e apontando as contribuições de cada um no seio da propaganda libertária.

Deixando de lado o contexto europeu e pensando nas análises teóricas da ação e do pensamento anárquico no contexto da América Latina, duas obras são de extrema importância para a compreensão dos passos iniciais dos anarquistas em países como o Brasil e a Argentina. Cappelletti & Rama17 apresentam a gênese da ação anarquista em Buenos Aires, relacionando tal acontecimento ao processo de imigração. Ao mesmo tempo em que apresentam o surgimento da imprensa libertária na capital da Argentina, refletindo acerca das primeiras publicações do periódico “La Protesta Humana”, traçam os principais feitos desses anarquistas na gênese de sua organização, como, por exemplo, as greves gerais e a fundação da FORA18. Na análise da parte brasileira, os referidos autores também vinculam o anarquismo com o processo imigratório e apresentam a tentativa da formação de um núcleo anárquico na colônia Cecília (Paraná) e mostram a atuação dos primeiros anarquistas em Porto Alegre, dando destaque ao primeiro Congresso Obreiro do Rio Grande do Sul (1898). No entanto, tal obra não apresenta comparações diretas entre o movimento anárquico brasileiro e argentino, tratando-os isoladamente.

Julio Godio é outro nome importante no que toca aos estudos do movimento operário latioamericano. Em seu livro “História do Movimento Obrero Latioamericano/ Anarquistas y Socialistas”19 o autor procura demarcar a atuação da classe operária latinoamericana como um todo, evidenciando alguns distanciamentos entre anarquistas de pátrias distintas. No entanto, o autor se detém mais nos anarquistas de Buenos Aires, analisando as greves, os congressos, a atuação da FORA bem como os atentados violentos praticados por alguns desses. Sobre o movimento operário brasileiro o autor lança alguns tópicos (como a fundação de organizações operárias no Brasil), mas não os aprofunda.

Essas duas obras expressam as primeiras tentativas de apresentar num mesmo estudo as classes trabalhadoras ou parte delas (brasileira e argentina); no entanto, a análise comparativa não é o foco principal das obras em questão. Quanto à historiografia argentina referente ao movimento anarquista (especialmente em Buenos Aires), há dois autores que estão realizando trabalhos de grande valor para o resgate da história do movimento anárquico e seus sujeitos: Juan Suriano e Mirta Lobato. Suriano analisa no seu livro “Anarquistas: cultura y política libertaria en Buenos Aires, 1890-1910”20 o fenômeno do anarquismo em variados campos de atuação: cultural, político, ideológico e social; ou seja, o autor procura fazer um relato global de todas as esferas em que os anarquistas se fizeram presentes, demonstrando tanto seus êxitos, quanto seus limites. Analisa as instituições operárias, a imprensa, as escolas libertárias, bem como a simbologia e os ritos do movimento, as festas, o teatro, a arte. É uma pesquisa importantíssima e rica, que impressiona por sua complexidade ao tratar de âmbitos tão variados, indo do político ao cultural e simbólico. Em outra obra de Suriano, denominada “La interpelación anarquista”21, o autor aponta para o fato de que o anarquismo na Argentina não é homogêneo e que há diferenças entre seus adeptos. Tenta mostrar os atritos desses “anarquistas” no seio da direção do periódico “La Protesta”, bem como com a direção de outros periódicos, como “Luz y Vida”, o que rompe com a ideia de um anarquismo homogêneo e classista.

Mirta Lobato, em “La Prensa Obrera”22, apresenta um trabalho importantíssimo acerca tanto da imprensa operária argentina como uruguaia, ao ousar realizar um estudo comparativo entre ambas as produções, evidenciando as similaridades e a grande circulação existente entre essas produções da imprensa operária. Analisa e “ressuscita” uma série de periódicos gremiais dos dois países que estavam perdidos e fragmentados em arquivos, bibliotecas e residências de ex-militantes.

Além desses autores, outros, mais antigos e já consolidados como autores clássicos do anarquismo argentino, são de grande relevância para a compreensão desse movimento: Diego Abad de Santillán e Iaacov Oved. Santillán é um clássico entre os escritos acerca do movimento operário e apresenta, em um dos seus livros (La FORA23), toda a trajetória da FORA, analisando todos os seus congressos e suas rupturas internas. Tal obra é fundamental para se perceber a diferença entre os primeiros congressos realizados pela Federação (que contavam com um caráter mais ativo e atuações expressivas) e os últimos, já imbuídos de passividade e tolerância frente à realidade. Em outro estudo, realizado em comemoração aos 30 anos do periódico “La Protesta” e publicado no Certamen Internacional de La Protesta24, Santillán se esforça para contar a história do periódico libertário, retratando seus diversos diretores, colaboradores, crises internas e superações. Tal estudo tem grande valor para a presente pesquisa, uma vez que fornece informações pertinentes acerca da história do jornal “La Protesta” nos seus trinta primeiros anos de existência. Por fim, porém não menos importante, o estudo de Iaacov Oved25 sobre o movimento obreiro na Argentina procura respostas para as questões referentes ao auge do anarquismo na Argentina, uma vez que, segundo o autor, o anarquismo se converteu no elemento promotor da maioria das lutas dos trabalhadores em solo portenho. Sua obra procura resgatar os primeiros passos dados pelo anarquismo na Argentina, abarcando o período de 1880 a 1905, ano este em que o anarquismo já tinha atingido uma proporção significativa na sociedade argentina.

Já na historiografia do movimento operário brasileiro e, ao que mais interessa aqui, do movimento anarquista, é fundamental citar a obra de Edgar Rodrigues que perpassou tanto a fase mais institucionalizada do movimento (através dos Congressos Operários), quanto àquelas ligadas aos aspectos culturais: manifestações do 1º de Maio, escolas libertárias e o teatro social. No livro “Alvorada Operária”26, o autor disserta a respeito dos Congressos Operários realizados tanto em São Paulo como no Rio Grande do Sul e Paraná, sendo um dos historiadores pioneiros a tratar de aspectos do movimento operário gaúcho. Na mesma obra, o autor trata da situação da mulher operária, inovando e ampliando assim as possibilidades de estudo da classe operária brasileira. Outra obra que merece destaque por seu caráter inovador é a produção de Francisco Foot Hardman intitulada “Nem Pátria, nem Patrão: Memória operária, cultura e literatura no Brasil”27, datada de 1983 e reeditada em 2002, que retrata a tomada de consciência da classe operária brasileira e a consequente origem do movimento anarquista, as contradições e os problemas da política cultural anarquista no Brasil, os efeitos da presença cultural do proletariado e das correntes libertárias no panorama literário pré-modernista da sociedade brasileira, bem como apresenta, no último capítulo, uma interessante análise das obras literárias anarquistas, adentrando nos aspectos estéticos da literatura libertária. Dando continuidade ao estudo dos aspectos estéticos da literatura anarquista, Hardman organiza, juntamente com Arnoni Prado e Cláudia Leal, o livro “Contos Anarquistas”28 em que apresenta uma amostra da literatura anarquista efetivamente escrita no Brasil e que se traduz numa produção cultural expressiva e, em grande parte, ainda desconhecida. Tais autores pretendem resgatar parte dessa produção literária através do mergulho no universo da ficção militante.

Inserindo-se na mesma linha que os trabalhos de Francisco Hardman, ou seja, envolvendo os aspectos estéticos e culturais, também contribuem de forma expressiva os trabalhos mais recentes que analisam as imagens ou contos da imprensa libertária. Nesse sentido, destaca-se o trabalho da historiadora Angela Maria Roberti Martins29 que trabalha com as caricaturas libertárias encontradas nos periódicos anarquistas de São Paulo e Rio de Janeiro, entre os anos de 1910-1920, bem como o trabalho de Alberto Gawryszewsky30, que também trabalha com as imagens anarquistas impressas nos periódicos libertários paulistas entre os anos de 1910 a 1930; e ainda a dissertação de mestrado de Cláudia Feirabend Baeta Leal31, que apresenta e analisa contos e poesias presentes na imprensa libertária paulista entre os anos de 1900 a 1916.

Se, no caso de Madri, Barcelona, Buenos Aires e São Paulo, contamos com uma vasta bibliografia acerca dos anarquistas e do movimento operário nessas cidades, o mesmo não ocorre na análise particular dos anarquistas em Porto Alegre. No entanto, isso não significa que não existam estudos relevantes acerca dessa temática. Há, sim, estudos de qualidade expressiva que retratam aspectos dos anarquistas gaúchos e que servirão de suporte para a presente pesquisa. Para começar é válido citar a tentativa de Marçal em retratar a história dos anarquistas gaúchos através da apresentação de breves biografias de vida dos sujeitos que se destacaram nesse movimento. Em seu livro “Anarquistas no Rio Grande do Sul”32 o autor procura caracterizar esses anarquistas respondendo a perguntas tais como: quem são? O que fazem? O que estudam? A qual profissão se dedicam? Além de breves biografias, o livro também apresenta textos e poesias publicados pela imprensa operária gaúcha, os quais são fontes valiosas de pesquisa. Tendo também a imprensa operária gaúcha como base de sua elogiável pesquisa, o historiador Jorge Jardim apresenta na sua dissertação de mestrado intitulada “Comunicação e militância: A imprensa operária do Rio Grande do Sul (1892-1923)”33 os principais periódicos (e suas respectivas características) que formavam tal imprensa. O autor faz alusão aos periódicos “A Luta” e “Lúcifer”, fornecendo informações relevantes para a referida pesquisa.

Sílvia Petersen, juntamente Maria Elisabeth Lucas, na obra “Antologia do Movimento Operário Gaúcho”34, apresenta uma série de documentos da imprensa operária gaúcha (vários deles, inéditos e de difícil acesso aos pesquisadores), bem como questões fundamentais para a recuperação da memória operária e, em especial, dos anarquistas, uma vez que as autoras apresentam a posição do periódico libertário “A Luta”. Já no livro “Que a União Operária Seja nossa Pátria”35, Petersen objetiva analisar os instrumentos formais de organização e luta dos operários (associações, sindicatos, partidos e greves), elucidando aspectos da dimensão político-ideológica-institucional no Rio Grande do Sul da Primeira República.

Deixando de lado os aspectos políticos do movimento operário riograndense e direcionando-se para os estudos que se aproximam do cultural, do simbólico e do imagético se destaca novamente Sílvia Petersen36, que realiza um estudo voltado para as questões culturais dos anarquistas em Porto Alegre, dando destaque especial para a educação “libertária” e para a prática teatral, mostrando aspectos de divulgação dos ideais libertários através das escolas operárias, da prática teatral e da imprensa libertária. Caminhando-se do projeto cultural para a construção da identidade operária dos trabalhadores porto-alegrenses, tem-se o estudo de Isabel Aparecida Bilhão37, o qual apresenta aspectos da identidade em construção desse operariado, dando destaque ao constante atrito entre socialistas e anarquistas: socialistas representados pelo periódico A Democracia e anarquistas pelo periódico A Luta, bem como mostrando os discursos ora mais radicais, ora mais reformistas do operariado gaúcho, o que, de acordo com a autora, contribui para a construção de uma identidade pouco fixa e definida.



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