Postais do Coração



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Postais do Coração

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Contents

Sumário
Capa


Folha de Rosto


Créditos

Dedicatória

Citação

Agradecimentos

Primeira Parte

Capítulo 1

Capítulo 2


Capítulo 3


Capítulo 4


Capítulo 5


Capítulo 6


Capítulo 7


Capítulo 8


Capítulo 9


Capítulo 10


Capítulo 11


Capítulo 12


Capítulo 13


Capítulo 14


Capítulo 15


Capítulo 16


Segunda Parte

Capítulo 17

Capítulo 18


Capítulo 19


Capítulo 20


Capítulo 21


Capítulo 22


Capítulo 23


Capítulo 24


Capítulo 25


Capítulo 26


Capítulo 27


Capítulo 28


Capítulo 29


Terceira Parte

Capítulo 30

Capítulo 31


Capítulo 32


Capítulo 33


Capítulo 34


Capítulo 35

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Ella Griffin

Postais do Coração

Tradução


Denise Tavares Gonçalves

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Copyright © Ella Griffin 2011
Copyright © 2012 Editora Novo Conceito
Todos os direitos reservados.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são


produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas
e acontecimentos reais é mera coincidência.

Versão Digital — 2012

Edição: Edgar Costa Silva
Produção Editorial: Lívia Fernandes
Preparação de Texto: Lizete Mercadante Machado
Revisão de Texto: Alline Salles, Elisabete B. Pereira, Tamires Cianci
Diagramação: Vanúcia Santos
Capa: Márcia Matos
Diagramação ePUB: Brendon Wiermann

Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Griffin, Ella
Postais do Coração / Ella Griffin ; tradução Denise Tavares Gonçalves. -- Ribeirão Preto, SP : Novo Conceito Editora, 2012.

Título original: Postcards from the heart.

ISBN 978-85-8163-049-6
eISBN 978-85-8163-141-7

1. Ficção inglesa I. Título.


12-10897 CDD-823

 Índices para catálogo sistemático:


1. Ficção : Literatura inglesa 823

Rua Dr. Hugo Fortes, 1.885 — Parque Industrial Lagoinha


14095-260 — Ribeirão Preto — SP
www.editoranovoconceito.com.br www.editoranovoconceito.com.br

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Para Neil, que mudou tudo.

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Agradecimentos

Se você for escrever um romance, provavelmente descobrirá, como descobri, que elaborar a história é só metade do processo. Você também precisará de mais algumas (ou de todas) estas coisas:

Um amigo que o encontre toda semana em um restaurante japonês na Rua George e o escute falar sem parar sobre os motivos pelos quais você adoraria escrever, mas não consegue. Alguém que resista à vontade de enfiar os sushis no ouvido e diga: “Vou assumir seu sonho de escrever um livro até que você mesma consiga realizá-lo”. (Obrigada, Morag Prunty.)

De outro amigo que ouça pedaços esparsos dos primórdios de seu livro e faça elogios. E que reserve algum tempo de sua vida incrivelmente ocupada para ler seu primeiro rascunho (165 mil palavras, das quais 164 mil têm erros de ortografia). E que o ajude a encontrar um agente brilhante (veja mais adiante). E que o presenteie com um texto adorável para sua capa. (Obrigada, Marian Keyes.)

De algumas almas afins que genuinamente prefiram ficar sentadas na cozinha de alguém, anotando e lendo pedaços de texto, em vez de ir ao bar. (Obrigada, Ailish Connolly, Suzanne Power, Karen Hand e Lucy Masterson.)

De algumas aulas de redação. (Obrigada, Dorothy Carpenter e Claire Boylan. Infelizmente ambas se foram, mas serão sempre lembradas.)

De alguém para auxiliá-lo com alguma pesquisa. (Obrigada, John Lynn.) De alguém para ajudá-lo a montar de novo na sela quando você cair do cavalo. (Obrigada, Shiera O’Brien.) E de alguém gentilmente perfeccionista para orientá-lo quando você estiver editando. (Obrigada, Wendy Williams, Nikki Walsh, Hekena Mulkerns e Alison Walsh.)

É de grande valia ter um agente inteligente e brilhante. (Obrigada, Jonathan Lloyd.) Uma editora carinhosa e inspirada (obrigada, Kate Mills), cujo local de trabalho pareça sua casa. (Agradeço a todos da Orion, especialmente a Susan Lamb e Jade Chandler.)

Você não será capaz de terminar seu romance sem alguém que o apoie e estimule em centenas de pequenos detalhes e em algumas coisas grandes. Alguém que deixe uma rosa do jardim em seu copo de água e faça um minestrone para você. E que o salve sempre que você atole. E leia seus rascunhos em trens e aviões e lhe mande torpedos para dizer que está rindo com as partes engraçadas pela sexta vez. Essa foi a pessoa de que mais precisei. (Obrigada por tudo, Neil Cubley. Especialmente pelo postal da garotinha soltando um balão em forma de coração. Você é muito querido.)

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“Se a resposta é o amor, você poderia refazer a pergunta?”

Lily Tomlin

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Primeira Parte

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Capítulo 1

Eram somente nove horas da manhã, mas todos os homens na Rua Grafton levavam flores. Saffy adorava o modo como o Dia dos Namorados trazia à tona o romantismo nas pessoas mais improváveis. Como o empresário carrancudo, agarrado a um buquê de lírios, que gritava instruções em seu celular diante do Bewley’s. E o gótico com o agasalho do Infected Malignity que ela surpreendeu cheirando sorrateiramente uma única rosa vermelha comprada na florista da esquina da Rua Duke.

O que quer que Greg fosse lhe dar, certamente não incluiria uma rosa vermelha. Rosas eram o que todos davam no Dia dos Namorados. Greg gostava de fazer coisas diferentes. Ele já havia mandado flores de cacto e orquídeas negras e, no ano anterior, uma enorme planta carnívora. Era realmente muito bonita, mas não havia muitas moscas em fevereiro, e a planta morreu depois que Saffy lhe serviu um pouco de salmão defumado tirado de um sanduíche.

 

A filosofia da Komodo, “Espere o Inesperado”, estava escrita em uma parede na recepção, embaixo de uma enorme placa de aço com o logo da agência — um lagarto carnívoro. Era bem real e assustava todo mundo, exceto Ciara, a recepcionista, que não podia vê-lo porque ficava sentada de costas para ele. Mas nesse dia Saffy nem prestou atenção na placa, porque ocupando boa parte da recepção encontrava-se o mais maravilhoso buquê de rosas que ela já havia visto, e Ciara gesticulava, chamando-a. O cabelo oxigenado da moça mal aparecia por trás da montanha de papel celofane e papel de seda.



— Saffy! — ela arfou, balançando seu inalador. — Você pode tirar essas malditas flores daqui antes que eu...? — Abaixou-se para atender o telefone. — Aaalô, Komodo Propaganda — disse, ofegante. — Pooois não?

Saffy riu. Greg não havia mandado uma rosa vermelha. Ele mandara no mínimo três dúzias. Correu para lá, inclinou-se e respirou o perfume doce e picante. Havia um pequeno envelope branco enfiado entre as flores de vermelho aveludado.

O inalador apareceu novamente.

— Espere aí! Essas rosas são para Marsh. E provavelmente enviadas pela própria Marsh. Ela é a única pessoa que gosta de si mesma. — Ciara apontou para um buquê ainda maior que estava no canto, atrás de sua mesa. — Aquele é para você. Acho que sou alérgica àquela enooorme flor ca-ca-beluda.

— Tem um admirador secreto? — Simon indagou, de modo arrogante, quando Saffy passou por ele a caminho do escritório, carregando as flores. — É o Tim Burton?

 

— Oi, gata! Com que roupa você está?



Mesmo depois de seis anos, alguma coisa em Saffy explodia suavemente quando ela ouvia aquela voz. Greg podia fazer instruções para montar móveis soarem sexy. Quando ele gravava comerciais para o rádio, antes de ficar famoso, o Conselho de Regulamentação Publicitária recebeu 47 reclamações dizendo que seu anúncio de um banco — “os juros podem subir, mas também podem cair” — era sugestivo demais.

Ela olhou para sua camiseta branca justa e a calça listrada da DKNY. Calçava seus sapatos Kurt Geiger favoritos, mas Greg não gostava que ela usasse salto alto, a não ser que estivesse sentada ou deitada.

— Posso dizer com que roupa eu não estou? Talvez seja mais estimulante.

Ele riu.


— Então me diga que roupa vai usar quando eu levá-la para jantar hoje à noite.

Fazia anos que eles não saíam no Dia dos Namorados. Era difícil criar um clima romântico e ficarem com os olhos nos olhos, quando a maioria das mulheres do local tentava encarar Greg, e as que não tentavam tiravam fotos dele com seus celulares.

— Tem certeza de que não quer ficar em casa, comer escalopes e beber uma boa garrafa de vinho? — Havia um Prosecco na geladeira e ela havia jogado montes de pétalas de rosa na cama antes de sair pela manhã.

— Tenho certeza. Então, fique bem bonita. Está bem?

Saffy sorriu.

— Está bem. — Se trabalhasse na hora do almoço, poderia sair mais cedo, ir ao cabeleireiro e pegar o vestido creme na lavanderia.

— Ah, você recebeu as flores?

— Ah, é claro! Desculpe. Recebi, sim. Obrigada! Elas são simplesmente... — Ela ficou olhando o buquê, procurando a palavra certa; procurando alguma palavra, na verdade. O arranjo central era uma planta espinhosa roxa rodeada por aves-do-paraíso e por algo que parecia repolhos ornamentais remendados juntos. — São... incríveis. Eu adorei.

— Mesmo? Essa coisa de “uma dúzia de rosas vermelhas” no Dia dos Namorados é muito clichê. Eu disse ao florista para se esbaldar.

Greg tinha o hábito de dizer coisas prosaicas de modo inusitado. De alguma maneira, ele conseguia torcê-las e dar-lhes certo sentido estranho. Como “a loira guiando as loiras” e o muito inspirado “colocar os bois no carro”.

— Bom — Saffy disse com sinceridade —, ele se esbaldou mesmo.

Ela ouviu vozes ao fundo. Greg estava na gravação de A Estação, uma novela diurna sobre uma equipe de bombeiros de Dublin. Havia o bombeiro mais velho e sábio, o bombeiro jovem e problemático, o bombeiro gay e a bombeira peituda. Greg era Mac Malone, o bombeiro heroico, aquele cuja foto decorava as paredes dos quartos de muitas adolescentes.

— Escute, Saff, eu devo gravar pelo menos até as 7 da noite, e reservei o restaurante para as 8, então encontro você lá. E tem uma coisa que eu queria perguntar para você hoje à noite, uma coisa muito importante... espere — ele cortou. — Cara, estou no telefone. Diga a ela que estarei lá em um minuto. E que não vou carregar aquela baleia escada abaixo... Ah, é? Bom, um dos dublês vai ter que fazer isso. Me desculpe, gata. O que eu estava dizendo?

— Estava dizendo que tem algo muito importante para me perguntar...

— Sim — ele disse, com a voz baixando uma deliciosa meia oitava. — Eu tenho uma coisa para perguntar... — Houve nova confusão e outra voz entrou na linha. — Aqui é Robert, o primeiro assistente de direção. Também quero perguntar uma coisa. Você poderia ligar de volta quando não houver uma mulher seminua grávida pendurada em uma escada de 30 metros que balança muito esperando que o sr. Gleeson faça o seu bendito trabalho?

 

Saffy tentou se concentrar no relatório do contato com a Avondale Alimentos, mas em sua cabeça havia ideias que não estavam relacionadas com queijo. Greg tinha algo a perguntar. O que seria? Seu coração batia contra as costelas como um balão aprisionado. Seria possível que fosse “aquilo”? Ela sorriu para a enorme planta espinhosa. Levantou-se e foi sentir o aroma um dos pequeninos repolhos cor-de-rosa. Surpreendentemente, tinha cheiro de repolho. Em seguida, voltou para sua cadeira. Isso era ridículo. Ela era a pessoa mais sensata que conhecia e não iria se deixar levar.



Greg tinha algo a perguntar, e pronto. Ele lhe fazia perguntas o tempo todo. Na noite anterior, quando assistiam a 24 Horas, ele indagara se seria possível pedir anestesia geral para fazer uma tatuagem, se ela achava que Kiefer Sutherland usava Botox e por que os cães não tinham umbigo.

Ela se forçou a voltar para o relatório de contato e, quando terminou, clicou em enviar. Estava dando outra olhadela nas flores quando de repente se deu conta de que se esquecera de corrigir a ortografia.

se referira ao cliente, Harry, como “Hairy”. Duas vezes. E havia colocado “cliente para perverter” em vez de “reverter” e digitado seu nome (seu próprio nome) como “Sassy”. Por sorte, o e-mail ainda estava na caixa de saída e ela conseguiu cancelar o envio. Contudo foi por pouco.

Tirou as flores de vista, escondendo-as atrás de seu arquivo, e procurou afastar Greg da mente. Se conseguisse terminar todos os relatórios de contato nas próximas duas horas, poderia se permitir pensar nele novamente na hora do almoço. Ela gelou. Hora do almoço! Havia esquecido completamente que ia encontrar sua mãe para almoçar. Não podia desmarcar mais uma vez. Elas não se viam desde o Natal.

 

O pôster era vermelho vivo com letras brancas comportadas. “Se o amor é a resposta, você poderia refazer a maldita pergunta?”. Não era exatamente um bom sinal, mas já parecia bem melhor do que a versão anterior: “Eu tenho cara de quem gosta de gente?”.



Ant, o diretor de criação da Komodo, se recusava a falar diretamente com qualquer um da agência, exceto sua diretora de arte, Vicky. O restante do pessoal tinha que deduzir seu humor pelas brevíssimas mensagens que apareciam na porta de seu escritório todos os dias. Na verdade, não havia muito o que deduzir. Seu humor era geralmente ruim, mas ele não fora contratado por suas habilidades sociais.

Anthony Savage havia escrito o contundente Os Geeks Herdarão a Terra para a Compushop. E os comerciais de rádio dos Pneus Axis, que usavam trechos extraídos de discursos de políticos e sempre terminavam com a frase “Controle-se”. E os anúncios de segurança nas estradas que exibiam o retrato de uma linda menina paraplégica e a frase “Você bebe, portanto eu existo”. Seu trabalho publicitário era ouro puro.

O escritório era dividido em dois por uma linha traçada com fita adesiva que corria ao longo do carpete, subia na parede e atravessava o teto. A metade de Vicky parecia um verdadeiro templo à deusa “Garotinha”. Seu computador era decorado com luzes. A mesa, atulhada de maquiagem e velas perfumadas, potes de canetas cintilantes e pastas com capas engraçadinhas. Quase não se via o chão sob as pilhas de livros e revistas.

A metade de Ant continha o próprio Ant, sua mesa, a cadeira e o cesto de lixo. Os únicos objetos em sua mesa eram o computador e uma caixa de confeitos de hortelã. As únicas coisas no chão eram seus sapatos da Camper, alinhados com precisão matemática, exatamente paralelos à cadeira.

— Olá, Saffy. — Vicky estava comendo salgadinhos. Ela usava uma malha colante vermelha e uma saia longa branca com meia-calça vermelha e preta listrada e botas de ciclista. Vicky tinha uns 35 anos a mais para usar roupas de uma menina de 5 anos de idade, mas de alguma maneira elas lhe caíam bem.

— Oi, gente. Eu só queria saber como estão indo com a campanha do queijo. Não estou pressionando...

Ant nem se deu ao trabalho de levantar os olhos de seu Sudoku. Na casa dos 30, tinha a cabeça raspada e um rosto pequeno, redondo e sempre franzido, que o fazia parecer uma mistura de um velho e um bebê mal-humorado. Como sempre, vestia-se de preto e não estava comendo nada. A única coisa que Saffy já vira Ant colocar na boca, exceto balas de hortelã e cerveja Guinness, fora um banner.

— Diga à moça de terninho para sair e morrer lá fora — ele murmurou para Vicky.

— Calminha, tigre! — Vicky levantou-se e sacudiu as migalhas dos salgadinhos de seu longo cabelo castanho. — Saffy é nossa amiga, lembra?

Espalhou alguns esboços feitos com marcador sobre a bagunça de sua mesa. Saffy olhou bem. Não poderia mostrar aquilo para seu cliente da Avondale de modo algum. Em um deles, ela conseguia ver o que parecia ser o rosto de Jesus entalhado em um pedaço de queijo. A chamada era: “Avondale, a Cara dos Queijos”.

Em outro, Jesus estava segurando um sanduíche de queijo e uma caneca de chá, sob a frase: “Avondale, Uma Santa Ceia para Não Esquecer”.

Havia outros. O pior mostrava um Jesus radiante com um pedaço de pão na ponta de um espeto. “Avondale, o que Jesus Acharia?”

A Komodo tinha a reputação de fazer um trabalho não convencional e a filosofia da agência era “esperar o inesperado”, mas aquilo já era tomar esse lema muito ao pé da letra.

— Gente — ela disse com cuidado —, eu consigo ver a intenção de vocês com essa coisa de Jesus e queijos, mas...

Vicky cortou-a, soltando um sorriso de “confie em mim”. Ela sempre conseguia controlar Ant o suficiente para que o trabalho fosse aprovado.

— Estamos só cogitando algumas ideias. Vamos continuar. Vamos ter um monte de opções para mostrar para você na segunda-feira.

— Isso aqui não é uma agência de propaganda — Ant silvou. — É o inferno com luzes fluorescentes.

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Capítulo 2

— Este é bonito. — Sua mãe pegou um sutiã cor de limão com duas fileiras de nervuras de cetim cor-de-rosa e colocou-o sobre Saffy. — Este é lindo.

Lindo? Só se você for uma prostituta adolescente e daltônica.

— Ah-ah — Saffy balançou a cabeça. — Não acho que tem a ver comigo.

— Ah, Sadbh! — O couro cabeludo de Saffy pinicou de irritação. Ela odiava seu nome inteiro. — Temos que fazer você sair desse marasmo. Você precisa de um pouco mais de... como é que eles falam naquele anúncio?... va-va-vum. Uma dica de moda: se Deus quisesse que usássemos óculos, ele não nos teria dado lentes de contato.

Tinha parecido uma boa ideia levar sua mãe para fazer compras em vez de ir a um restaurante. Saffy pensara que poderia se esquivar da tentativa de Jill de ter uma conversa de mulher para mulher e comprar algo para usar sob seu vestido cor de creme. Algo suave e sexy para surpreender Greg. Sua mãe ficara encantada.

— Nem me lembro da última vez que fui fazer compras para você! Vai ser divertido!

Infelizmente, Saffy se lembrava. Tinha sido para seu vestido de debutante. Foram momentos de lágrimas (de Jill), pirraça (também de Jill) e humilhação (sua). Ela queria um elegante vestido azul-marinho de alcinha. Acabou usando um traje cor-de-rosa de cetim com saia bufante, meias rendadas e um bolero combinando. Ainda estremecia ao ver as fotos que de vez em quando apareciam no Facebook.

O departamento de lingerie da Brown Thomas estava apinhado de casais enamorados se afagando entre as araras dos suspensórios e calcinhas de renda.

— Você ficaria linda neste aqui! — Jill enfiou um sutiã com manchas de leopardo sob o braço. — Será que eles têm tamanho 34?

Nada como ter a própria mãe anunciando o tamanho de seu sutiã para uma pequena multidão para você desejar não ter nascido. Uma assistente as rondava.

— Se você e sua amiga precisarem de alguma ajuda, é só pedir — ela disse com um sorriso.

Saffy odiava quando as pessoas as tomavam como amigas ou, até pior, irmãs. Sua mãe adorava, é claro. Mas felizmente ela não tinha ouvido. Já havia ascendido ao paraíso do varejo. Estava saqueando uma arara com cabides que tilintavam. Seu cabelo loiro caía do coque frouxo. O rosto brilhava e seus olhos azuis soltavam faíscas. Por um breve período dos anos 1970, ela fora modelo, e tinha as maçãs do rosto e aquele andar de passarela, aos pulos, para provar. Também exibia um corpo incrível para seus 53 anos, e ainda conseguia atrair atenção, mas precisava fazer isso com um vestido coral justíssimo e botas de camurça roxas?

Saffy deu uma olhadela em si mesma em um espelho cuja moldura era uma silhueta de mulher. Como desvantagem, ela não tinha a estrutura óssea de sua mãe nem as curvas de parar o trânsito. Como vantagem, o que havia de tão incrível em parar o trânsito? As mulheres a detestariam, os homens perderiam o rumo e, em algum ponto do caminho, acabaria viciada em tanta atenção. Ela desconfiava que era por isso que a mãe sempre se vestia para ser a pessoa mais chamativa do local.

Seu terninho listrado da DKNY era simples, mas clássico. O cabelo castanho-caramelo estava no comprimento dos ombros e era desfiado para ressaltar seu rosto esguio. Sua pele era clara demais, mas com um pouco de base ela conseguia dar-lhe um tom mais quente. Era difícil vê-los quando usava óculos, mas seus olhos eram grandes e de um castanho-esverdeado. Gostaria de ter quadris menores e seios maiores, mas não é o que todas querem? Todas que têm seios, obviamente.

Certa vez, na estreia de um filme, um jornalista a tinha confundido com a esposa de Bono. Ali Hewson era tudo que Saffy desejaria ser: natural, elegante, suave, bem casada com um homem famoso, mas satisfeita em ficar fora dos holofotes, e não usaria botas roxas nem morta.

— Conte-me — sua mãe pegou-a pelo braço e guiou-a na direção de uma marca de lingerie luxuosa — como vão as coisas com o Greg?

— Está tudo ótimo — Saffy respondeu com calma. Essa era a conversa que ela vinha tentando evitar. — Como vão as coisas com o Len?

Quando era pequena, sua mãe costumava dizer que era preciso beijar um monte de sapos antes de encontrar um príncipe, e parece que ela tinha razão. Len era o último de uma fila de sapos que se estendia até onde Saffy podia lembrar.

Exceto pelo suéter tricotado a mão, a paixão pelo veganismo e a barba com aparência suja, não havia nada de errado com ele. Saffy o encontrara duas vezes, e provavelmente não o encontraria novamente. Os sapos nunca duravam muito tempo.

— Ah, o Len. — Jill passou os dedos pelo babado de um baby-doll e suspirou. — Ele tem boa vontade, mas estou começando a me cansar dessa coisa de “carne é assassinato”. Nem me lembro da última vez que comi um sanduíche com bacon, e tive que guardar todos os meus sapatos de couro, exceto estes. — Deu um tapinha carinhoso em uma das botas. — Eu disse que era imitação de camurça. Ele vai aparecer mais tarde para me preparar um cozido de cinco tipos de feijão, que deve ser ótimo, mas não é exatamente um afrodisíaco. — Ela colocou o baby-doll de volta na arara, pensativa. — E você? Algum plano para o jantar de Dia dos Namorados?

— Acho que vamos sair para jantar — Saffy disse, casualmente.

— É? Onde?

— No 365. Fica na...

— Eu sei onde fica! É fantástico. Eu li a crítica no Irish Times. Você é uma garota de sorte. — Jill suspirou. — Acho que não tem ideia da sorte que tem, mas...

Saffy já sabia o que vinha a seguir.

— Uau! — Arrebatou um cabide a esmo e ergueu-o. — Você devia experimentar isso. — Era um corpete em arrastão vermelho.

Sua mãe nem chegou a olhar direito.

— Sadbh, você não acha que talvez seja hora de você e o Greg se casarem, porque já faz...

— Já faz o quê? — Saffy retrucou. — Seis semanas que você perguntou?

— Não precisa vir com duas pedras na mão.

Saffy tentou retroceder. Sua mãe adorava uma cena, principalmente em público.

— Me desculpe. Vamos mudar de assunto... — Mas era tarde demais. Jill estava a toda.

— Não, eu é que peço desculpas! Me desculpe se é crime demonstrar o mínimo interesse em minha filha única.

Não era culpa de Saffy ser filha única. Na verdade, ela adoraria ter tido irmãos. Quanto mais, melhor. Qualquer coisa que desviasse a ofuscante atenção de Jill. Qualquer coisa que impedisse sua mãe de obter um passe livre para sua vida pessoal.

— Me desculpe — Jill apontou-lhe um pequeno cabide de metal, acusando-a — por desejar que você seja feliz e tenha segurança. Me desculpe por não querer que você acorde de repente, com 50 anos, sozinha e...



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