Por que os adolescentes escrevem diários na rede



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Lima, N. L. de & Santiago, A. L. B. Por que os adolescentes escrevem diários na rede? A escrita de si no universo virtual





Por que os Adolescentes Escrevem Diários na Rede? A Escrita de Si no Universo Virtual
Why do Adolescents Write Journals on the Internet? The Writing of Oneself in the Virtual Universe

Nádia Laguárdia de Lima1


Ana Lydia Bezerra Santiago2
Resumo
Este trabalho apresenta o resultado de uma pesquisa que investigou os motivos pelos quais os adolescentes escrevem blogs. Utilizamos como recurso metodológico a leitura de 50 blogs de adolescentes. Identificamos três principais motivos: o interesse em escrever sobre si, a busca de amizades e o interesse em falar sobre a adolescência. Realizamos uma leitura desses motivos utilizando os seguintes critérios: aproximando os blogs dos diários íntimos, analisando o blog como um discurso e refletindo sobre a identificação na adolescência tendo como referência os recursos teóricos da psicanálise.
Palavras-chave: blogs; adolescentes; diários.
Abstract

  

This article presents the results of a research which investigated the reasons why adolescents write blogs. As a methodological resource, we have analyzed fifty blogs made by adolescents. We identified three main reasons: the interest in writing about oneself, the search for friendships, and the interest in talking about adolescence. We interpreted those reasons according to the following criteria: associating blogs to personal journals, analyzing the blog as a discourse, and reflecting on identification in adolescence having as a reference the theoretical resources of psychoanalysis.


Keywords: blogs; adolescents; journals.



A primeira vez nunca se esquece.

Olá eu! Dou hoje início àquilo que será a mais profunda busca de mim mesma, à mais intensa viagem àquilo que sou e que sinto

(http://malucadanet.blogs.sapo.pt/)


Introdução
O avanço tecnológico e a difusão da internet possibilitaram que muitos adolescentes começassem a escrever seus diários na rede, nos chamados blogs, passando assim dos diários íntimos às páginas on-line que podem ser acessadas livremente. Nesse espaço virtual, os jovens escrevem seu perfil, poemas, pensamentos, letras de músicas, fazem protestos, colocam fotos e interagem com os leitores, que deixam seus comentários nas páginas dos blogs. Os blogs de adolescentes multiplicam-se de maneira surpreendente no ciberespaço. O blog é uma produção cultural da contemporaneidade. Seu crescimento acelerado no caso de adolescentes no Brasil e no mundo pode ser ilustrado através dos seguintes dados estatísticos pesquisados: “o número de blogs no mundo chegou a 57 milhões”; “um quinto dos adolescentes nos EUA que tem acesso à internet tem o seu próprio blog”; “estima-se que o Brasil tem cerca de três milhões de blogs”; “entre 2004 e 2006 a quantidade de adolescentes que criaram um blog passou de 19 para 28% dos jovens conectados1”. Acompanhamos uma mercantilização do gênero no mundo ocidental. Os adolescentes representam a maioria dos autores de blogs dentro do estilo pessoal. Com apoio nesses dados estatísticos, buscamos conhecer os motivos pelos quais os adolescentes escrevem blogs.

Para esta pesquisa, baseada em (Lima, 2009), foram lidos 50 blogs de adolescentes, recolhendo-se em seus textos os motivos que elegem para a escrita. Normalmente esses motivos encontram-se no primeiro dia de postagem. Assim, são os próprios adolescentes que descrevem as razões que os levam a escrever um diário aberto na rede. Como critério de seleção, buscou-se a presença das palavras “diário” e “adolescente” no corpo do texto ou no título do blog. Realizamos uma leitura utilizando a teoria psicanalítica como referencial teórico para a análise.




Uma Leitura dos Blogs
A leitura dos 50 blogs mostrou que a grande variedade de formas, estilos e objetivos torna difícil caracterizá-los e defini-los com critérios únicos. Os autores, apesar de usarem alguns recursos comuns a todos os blogs, usam esse espaço “próprio” de forma também própria. Mesmo sendo todos caracterizados dentro do estilo pessoal, definidos por seus autores como “diários” e escritos por “adolescentes”, existe grande variedade de tipos e formas. As mulheres continuam representando a maioria nesse universo da escrita de si: 90% dos blogs pesquisados são de adolescentes do sexo feminino.

Identificamos três principais motivos para a escrita dos blogs: o interesse em escrever sobre si, a busca por fazer amizades e conhecer pessoas (adolescentes) e o interesse em falar sobre a adolescência. Optamos por fazer uma leitura desses motivos a partir das seguintes perspectivas:

- O interesse em escrever sobre si: o blog como uma narrativa sobre si.

- A busca por fazer amizades e conhecer pessoas – o endereçamento ao outro ou o blog como um discurso.

- O interesse em falar sobre a adolescência: a identificação com a adolescência nos blogs. Essas reflexões serão apresentadas a seguir.
O Blog como uma Narrativa Sobre Si
Começo de tudo
Olá...

Aqui começo a escrever de mim, um pouco de cada dia, um pouco da minha vida

(http://rluchiari.zip.net/arch2006-11-19_2006-11-25.html)


Constatamos em nossa pesquisa que a grande maioria dos adolescentes elege como o principal motivo para a escrita de um blog o interesse em falar de si. Em 70% dos blogs o principal motivo para se escrever é o desejo de se expressar e de falar da própria vida, continuamente (muitas vezes, diariamente), como em um diário íntimo. Eles assim descrevem seus motivos: “contar suas aventuras”, “contar suas histórias”, “escrever sobre si”, “falar de si um pouco a cada dia”, “expor sua vida amorosa em capítulos”, “desabafar”, “fazer um diário”, “expressar totalmente”, “escrever diariamente”, “falar da adolescência”, “contar tudo o que se passa em sua vida”, “falar tudo o que vier à mente”, “relatar toda a vida”, “fazer confissões a cada dia”, “descrever cada momento da própria vida”. O adolescente busca escrever sobre si, relatar a própria história, continuamente, ordená-la, como uma escrita diária, confessional (o termo confissão aparece frequentemente, assim como “falar tudo”, “relatar tudo”, “expressar totalmente”). O principal motivo eleito pelos adolescentes, portanto, foi o interesse em fazer uma “escrita de si”, uma narrativa sobre si.

Alguns blogs se assemelham muito ao diário clássico. Um adolescente inicia seu diário assim: “Querido diário”. Esse blog parece não se diferenciar em nada de um diário confidencial, impresso. Seu autor não só se dirige ao diário para se apresentar e falar de si, como acaba o seu texto também se despedindo do diário. Uma autora expressa enfaticamente o desejo de conhecer a si mesma. Revela seu desejo de fazer uma profunda busca de si mesma, de querer saber quem é, de ser “eu própria”.



Todos os blogs pesquisados são nomeados por seus autores como diários. As características formais de um diário são facilmente identificáveis pelo leitor e serão resumidas abaixo. Muitas dessas características estão presentes nos blogs, como podemos ver:

- Escrita pessoal: normalmente o autor de um diário íntimo o escreve para falar de si. O texto é escrito na primeira pessoa. Os textos dos blogs são também escritos em primeira pessoa e têm como objetivo falar de si.

- Datação: apesar de não existir a exigência da escrita diária, todo registro é datado, tanto no diário íntimo como no blog. O diário e o blog são escritos no tempo “presente”, mesmo que recorram a lembranças do passado e escrevam sobre o futuro. Essa é considerada a principal característica formal de um diário.

- Caráter linear da escrita: a escrita no diário segue uma ordem cronológica, uma evolução temporal, apesar de não ser necessária a presença de um encadeamento lógico entre os registros. A escrita do blog também segue uma ordem cronológica, uma evolução temporal, com a presença da datação. Mas o texto do blog é mais fragmentado, híbrido, marcado por diferentes tipos de escrita, imagens e sons. Os diversos links permitem uma leitura amplamente não linear, descontínua, com acesso a diferentes caminhos, definidos pelo leitor.

- Leitura descontínua: a leitura do registro de um determinado dia não obriga à leitura dos registros anteriores nos diários íntimos. Mas a leitura nos blogs é acentuadamente descontínua, permitindo o acesso a outros blogs, outros textos, a partir de diferentes links situados nas páginas do blog.

- Registro de língua familiar: a linguagem normalmente utilizada pelo autor de um diário é familiar, espontânea, informal. A linguagem nos blogs não só é uma linguagem informal, mas é também típica do ciberespaço, com suas características de fragmentação, uso de clichês, acrescentada dos recursos de imagens e sons.

- Caráter confessional do texto: o texto do diário íntimo é normalmente confessional. O diarista se dirige ao diário como a um amigo íntimo, um confidente e o conteúdo de seu diário é secreto. Apesar do caráter público do blog, o adolescente faz muitas confidências em seu blog. Essas confidências são facilitadas pela possibilidade de se ocultar a identidade. Se nos diários íntimos as confidências são facilitadas pelo caráter privado de seus escritos, nos blogs, as confidências são possibilitadas pelo caráter de “velamento” do espaço virtual. Os blogs, portanto, aproximam-se dos diários íntimos em alguns aspectos e distanciam-se em outros.

Apesar das características formais descritas acima, alguns autores consideram que apenas duas características definem o diário íntimo: a temporalidade e a sinceridade. Para Maurice Blanchot (1971),1o diário pode apresentar grande liberdade de formas, já que pode conter pensamentos, sonhos, ficções, comentários sobre si mesmo, acontecimentos importantes, insignificantes, tudo lhe é conveniente, dentro da ordem e desordem que quer o autor, de modo que parece conter vários gêneros dentro de si. No entanto, um aspecto determinante na escrita de um diário é que ele deve respeitar o calendário. A identidade do diário está, desse modo, na temporalidade.

Se o pacto de sinceridade é a outra característica do diário íntimo, uma espécie de contrato de sinceridade entre autor e leitor, como considera Lejeune (1975), esse contrato existiria também no blog, isto é, no ciberespaço, lugar da ficção, por excelência? No blog não há a exigência do nome próprio e seu autor pode criar um nome ficcional. O autor de um blog pode criar diferentes identidades e nomes no espaço virtual, tendo vários blogs simultaneamente. Podemos pensar que o texto escrito no ciberespaço é sempre um texto ficcional. Mas a leitura dos blogs nos levou a considerar que leitor e autor estabelecem certo “pacto de sinceridade”, mesmo que o espaço virtual seja “o campo da ficção”.

Se mesmo no diário íntimo o narrador divide-se em sujeito do enunciado e sujeito da enunciação, narrador e personagem, relacionando-se de forma dual com sua escritura e percorrendo múltiplos caminhos imprevistos até para si próprio, o blog “expande infinitamente” essas possibilidades, potencializando-as. O caráter ficcional do ciberespaço torna mais próximo o ficcional do autobiográfico, promovendo uma quase indistinção entre os dois gêneros literários.

Uma particularidade do blog é o seu caráter declaradamente público, que cria possibilidades de interlocução com diferentes pessoas e que favorece uma interatividade constante. Assim, a escrita íntima se torna pública e o texto pessoal se torna “plural”. O autor de um blog submete o seu texto à apreciação do outro. O interesse do autor em ser lido e avaliado por um outro pode estar presente na escrita de qualquer diário íntimo, mas esse desejo nem sempre é revelado e a publicação de seus escritos pode ser adiada e até mesmo nunca realizada. No blog, ao contrário, esse interesse é explícito. O autor não espera concluir o seu diário para publicá-lo, mas, a cada fragmento de texto que escreve, ele já é lançado no espaço público. Ele espera os comentários do leitor e se decepciona quando seu texto não é lido ou comentado. Essa frustração apareceu em vários blogs.

Essas particularidades do blog tornam difícil sua localização dentro de um gênero discursivo. O blog aproxima-se do diário íntimo, mas mantém dele certa distância. É uma escrita ao mesmo tempo individual e coletiva, uma escrita de si e endereçada a um outro. Podemos, talvez, localizá-lo entre o diário íntimo e a carta, com a diferença que o blog, mesmo sendo endereçado a um leitor específico (como, por exemplo, a um outro adolescente), pode ser lido por várias pessoas. Assim, sem buscar fazer uma análise comparativa entre o diário e o blog, interessa-nos conhecer as especificidades desse tipo de escrita no universo virtual. Veremos adiante esse endereçamento presente nos blogs de adolescentes.


O Blog como um Discurso
O adolescente que escreve um blog se dirige a um outro. Quase metade dos blogs revela o desejo de seus autores de serem lidos, vistos, de receberem comentários ou de fazerem amizades, como vemos abaixo:
Meu nome é Cat,e no meu blog eu vou fala de tudo na minha vida tipo sobre: meus amigos,a escola,passeios,inimigos e sobre o que penso e vcs vão me ajudar às vezes, a resolver muitos problemas que se passam na minha vida,a vida de uma adolescente.
Em outro blog seu autor revela: “.... e pretendo compartilhar todas minhas alegrias e tristezas aqui... procurar conselhos de vez em quando tbm eh bom, ñ faz mal a ninguem.. =D”.

Muitos terminam seus textos pedindo aos leitores que deixem seus comentários: ... “e por favor, deixem seus comentários”.



Os adolescentes muitas vezes buscam, através da internet, se lançar no espaço público para fazer amizades, se mostrar e conhecer pessoas. O adolescente busca fazer muitos amigos através de seu blog. O desejo de fazer “inúmeros” amigos na rede parece ser facilitado pela possibilidade de se omitir o nome próprio. Os adolescentes revelam que poder omitir a identidade facilita uma escrita “mais livre, solta, despreocupada”. Assim, a possibilidade de se expressar sem ter que se identificar é um motivo importante para se escrever um diário na rede:
Eu não vou me apresentar, já que eu não confio muito em Internet e tenho as minhas paranoias. Não é qualquer um que sabe o meu nome não!!! Onde já se viu...”
Vou ser sincera mesmo, vou falar tudo o que eu fiz e o que eu eu penso em fazer. Não vou esconder nada, já que a minha identidade será mantida em mais perfeito sigilo; Medo? Acho que o motivo não seria esse, mas sim, a vergonha e o receio de me abrir como já disse. ~Por isso não vou me identificar, e se achar ruim, o que está fazendo aqui???”
Aki poderei colocar todos os meus pensamentos....Sem ninguem ao menos saber.... poderei colocar de td, desde meus desejos mais fortes, qto aos meus piores rancores.... Sei q minha vida eh igual a de toda adolescente... e todos temos um objetivo, e o meu, eh perder minha timidez podendo assim, flr com todos sem receio algum...”
O caráter paradoxal que envolve a publicização/privacidade é também característico dos blogs. A escrita de si no blog comporta certa dimensão privada: o adolescente pode restringir o acesso de pessoas por meio de vários recursos, como o uso de códigos a que só um grupo restrito tem acesso. Ele pode usar um pseudônimo, não colocar fotos, omitir dados mais pessoais e até alterá-los. Mas, mesmo apresentando uma dimensão privada, o blog está lançado no espaço público. Existe um velamento “que se mostra”, num jogo de se ocultar e de se oferecer ao olhar do outro, como um convite ao desvelamento. O adolescente, ao endereçar a pergunta sobre o seu ser a um outro, se histeriza, como solução à feminilidade.

O adolescente elege um outro “adolescente” para se comunicar. Ele busca assim um outro “supostamente igual”, especular. Pensa que está se dirigindo a um outro especular, mas na verdade ele está interrogando a linguagem. Para além do outro especular, há um endereçamento a um Outro. Para Lacan, o Outro é o tesouro do significante, o lugar simbólico de onde o sujeito recebe sua mensagem invertida, é “o Outro como sítio prévio do puro sujeito do significante” (Lacan, 1998, p. 807).1O Outro está numa posição de anterioridade lógica em relação ao sujeito, que busca nesse lugar sua determinação significante. O adolescente situa no Outro sua determinação significante, como aquele que, situado como lugar de anterioridade lógica em relação ao sujeito, lhe enviará sua própria mensagem invertida.

Há um importante trabalho psíquico que o jovem dever fazer no tempo da puberdade, que é o de separação dos pais. Em 1914, em Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar, Freud faz algumas reflexões sobre a adolescência, marcando em especial o trabalho de separação que o jovem faz do pai e sua substituição pela figura do mestre. Ele acrescenta que o desligamento da figura do pai faz nascer a nova geração. Nesse movimento, há a reafirmação da função de interdição edípica, com a abertura à possibilidade do exercício do desejo, permitindo a concretização no pacto social.

Assim, na adolescência, os pais são destituídos do lugar de saber e, na atualidade, podemos interrogar se “o mestre” ainda se situa como um substituto dos pais, como na época de Freud. Será que a identificação horizontal hoje substitui a identificação vertical?

Existe outra leitura possível desse endereçamento que o jovem faz a um outro adolescente. Ao questionar sobre o seu ser e sobre o sexo, o adolescente precisa construir a própria resposta a essa pergunta. Ele não pode endereçar essa pergunta aos pais, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque os pais são destituídos desse lugar de saber, nesse momento em que o adolescente está fazendo um esforço de separação deles. Em segundo lugar, porque os pais apresentam dificuldades em abrir mão do lugar de saber e se sentem ameaçados diante do novo. Os pais normalmente “se fecham” no próprio saber e não conseguem abrir espaço para um saber que lhes escapa, para algo que possa ser diferente da própria experiência. Eles repetem frequentemente suas experiências passadas, nostalgicamente, como um ideal que deve ser seguido e “repetido” pelos filhos. Esse fechamento dos pais só pode levar o adolescente a buscar um outro lugar de endereçamento. Um outro adolescente está exatamente no lugar do vazio de saber, como aquele que não é “suposto saber” que, assim como ele, não sabe.

Assim, é nesse lugar do vazio de saber que pode haver a produção de um novo. Podemos identificar essa produção a partir do discurso histérico. O romance clássico é caracterizado por um relato linear (S1 - S2), que postula um sentido (I/S) na existência narrada. Esse sentido é construído pela tentativa de se extrair uma lógica retrospectiva e prospectiva, estabelecendo relações inteligíveis entre os diversos estados que se sucedem. O autor se reduz ao lugar de retorno do discurso que vem do Outro, como uma mensagem sempre invertida. No blog há um endereçamento da pergunta sobre o próprio desejo e sobre o sexo a um outro adolescente e, retroativamente, há a construção de um romance familiar pelo sujeito, como retorno do discurso que vem do outro, como uma mensagem invertida.

Temos aqui a estrutura do discurso histérico. Mas, ao abordar o discurso histérico, estamos indo além da estrutura clínica que o mesmo evoca – a histeria – para definir um tipo especial de relação de palavra, uma estrutura elementar de linguagem. O discurso histérico refere-se, portanto, não à histeria enquanto tipo clínico, mas à própria posição do sujeito falante. O discurso histérico constitui uma estrutura elementar da relação de palavra.

É na demanda endereçada ao Outro que circula o desejo, sempre escamoteado na enunciação. A partir do desejo do Outro, abre-se para o sujeito a dimensão do seu desejo. O sujeito constrói respostas para o suposto desejo do Outro: “Que queres?” O desejo do Outro é sempre enigmático, é algo apenas suposto. O desejo, ao se apresentar como pergunta, faz surgir a dimensão do enigma, pois o desejo é um enigma. O desejo inconsciente é, portanto, articulado a uma questão e sustentado pela fantasia que se constitui na resposta do sujeito a essa questão. A resposta que o sujeito constrói ao enigma do desejo do Outro lhe advém como mensagem que ele recebe do Outro. O desejo inconsciente se articula com a demanda, circulando em seus significantes. O discurso histérico ilustra como o sujeito situa o Outro com o poder de responder sobre o seu desejo.

Qualquer sujeito só emerge do laço social. O matema de Lacan nos esclarece que todo laço social que trata o outro como um mestre é discurso da histérica. Ao escrever o discurso da histérica, Lacan buscou colocar em evidência o que constitui o valor da histeria, que é obter do mestre a produção de um saber. Aqui o sujeito ($) é aquele que mantém o discurso, enquanto que o outro é suposto ser o detentor do saber. Só que esse saber será sempre incompleto, jamais podendo atingir sua verdade e escrever seus próprios limites, pois a verdade do saber que tal discurso supõe se acha no sintoma que caracteriza o próprio sujeito ($). No Seminário 17, Lacan postula que, no nível do discurso da histérica, esta, na posição dominante, aparece sob a forma de sintoma ($). “É em torno do sintoma que se situa e se ordena tudo o que é do discurso da histérica” (Lacan, 1992, p. 40). O saber que o sujeito faz advir no outro é apenas parte do saber. A histérica representa a falta-a-ser. Seu desejo, como todo desejo, é o desejo do Outro. O discurso histérico é o inconsciente em exercício. A linguagem é a condição do inconsciente e o inconsciente permite situar o desejo (Lacan, 1992).

Lacan observa que o discurso da histérica tem o mérito de manter na instituição discursiva a pergunta sobre o que vem a ser a relação sexual, como um sujeito pode sustentá-la ou não. Desde que faça a pergunta sobre o desejo, o sujeito entra na função do desejo e faz o significante-mestre cair (Lacan, 1992). Lacan, ainda nesse seminário, diz que nós temos necessidade de sentido. Para ele, o que conduz ao saber não é o desejo de saber, mas “o discurso da histérica” (p. 21). O que o analista institui como experiência analítica é a histerização do discurso, a introdução estrutural do discurso da histérica. A experiência analítica dá ao outro, como sujeito, o lugar dominante no discurso da histérica, histeriza seu discurso, faz dele um sujeito a quem se solicita que produza significantes que constituam a associação livre, soberana, do campo.

O discurso histérico inscreve um tipo especial de relação de palavra e refere-se à própria posição do sujeito falante, que busca no Outro a resposta para o seu desejo. O enigma é uma enunciação e o discurso histérico mostra a entrada do sujeito na função do desejo. Assim, podemos pensar que a escrita de um blog, como artifício fálico substitutivo da falta, pode se inscrever no registro do “discurso histérico”, pois ele revela uma “estrutura discursiva” que parte da pergunta sobre o desejo. Como destaca Soler (2005):


como discurso, a histeria determina um sujeito que nunca está sozinho, mesmo que esteja isolado, um sujeito sempre pareado na realidade com um outro que se define pelo significante-mestre, e que o sujeito interroga quanto a seu desejo de saber sobre o sexo (p. 55).
O adolescente, em seu blog, se dirige a um outro adolescente, interrogando sobre o seu desejo de saber sobre o sexo. O sujeito dividido na posição de agente determina o laço social definido como discurso histérico:

$S1

a // S2

A partir da leitura dos blogs, situamos hipoteticamente, nos quatro lugares do discurso histérico, os seguintes elementos:



Adolescenteoutro adolescente

Não-relação sexual // romance familiar

O adolescente ($), na posição de agente, interroga um outro adolescente (semelhante) sobre o seu desejo de constituir um saber sobre o sexo. Ao se dirigir a um outro adolescente, o jovem busca um outro supostamente semelhante (“só um outro adolescente pode entender o que estou passando...”), como um lugar esvaziado de saber (o adolescente, assim como ele, não sabe). O produto dessa operação é a produção de um novo onde existe um vazio de saber. O produto é a escrita de um romance familiar no blog. No lugar da verdade encontra-se a “não-relação sexual”, enquanto impossibilidade. Essa verdade encontra-se recalcada. Como verdade, ela não pode ser capturada em sua totalidade, organizando-se sempre como um semidizer. É ela, entretanto, que faz agir o agente, mas se mantendo e se situando como ponto de interrogação para cada sujeito.

Diante do encontro com o real do sexo, o adolescente busca uma saída fálica para encobrir esse vazio. A construção de um romance familiar permite bordejar esse vazio, conferindo-lhe um sentido, como a tessitura de um véu fálico que permite velar o real. O romance familiar escrito no blog, como produto do discurso, pode representar a construção de um novo que inclui o real e faz laço social.


A Identificação com “A Adolescência”
O adolescente escreve em seus blogs sobre a adolescência: 44% deles mostram explicitamente um dos principais motivos que levam seus autores a escrever: “falar sobre a adolescência”. Em alguns textos, aparece a representação de adolescência do seu autor; em outros, a busca por compreender essa fase da vida:
sou uma adolescente normal, com meus 14 anos, chegando nos 15 esse ano, o//tenho meus amores, minhas dores, decepções.. como todo mundo!

nunca vi um livro onde uma adolescente tenha escrito (exceto, talvez o Diário de Anne Frank) todas as suas dúvidas, as suas confusões, os seus problemas, seus dramas, suas carências...
É irónico como vimos um diario de uma adolescente, dixem k esta é a faxe melhor da noxa vida, una parte tem rasão por outra ñ, 1º andamos na escola e temos carradas d coisas para estudar! 2º temos de tomar decisões importantes k iram afectar a nossa vida já por adultos. Por ixo não venham com história k a vida de um adolescente é a melhor fase, pois eu digo n é! A pesar k iremos ter muitos mais problemas

vcs vão me ajudar às vezes, a resolver muitos problemas que se passam na minha vida,a vida de uma adolescente.
O que uma adolescente poderia fazer? Viver, Amar e Aprender. E é nisso que se resume a minha vida, neste espaço vou colocar como eu estou aprenderndo a amar e a viver.
e tô aqui pra falar de assuntos atuais de Adolescentes para Adolescentes...
Escrever sobre a adolescência é algo comum ao diário clássico e ao diário aberto na rede. Além do interesse em escrever sobre essa fase da vida, identificamos o interesse em ler o que o outro adolescente escreve sobre a adolescência. A leitura de outros blogs de adolescentes é uma prática muito frequente entre os blogueiros pesquisados. Além de blogs de amigos, eles visitam outros de autores desconhecidos (também adolescentes) e vão formando uma rede de amigos blogueiros adolescentes. Costumam indicar, no próprio blog, outros blogs que consideram interessantes. Assim, os adolescentes identificam-se com o grupo de adolescentes no ciberespaço.

Freud, no texto Psicologia de grupo e análise do eu, descreve a identificação como “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa” (Freud, 1974 [1921], p. 133). Ele destaca três tipos de identificação. O primeiro tipo é bem precoce na vida de um sujeito, relaciona-se com a primeira fase da organização da libido, a fase oral:


...em que o objeto que prezamos e pelo qual ansiamos é assimilado pela ingestão, sendo dessa maneira aniquilado como tal. O canibal, como sabemos, permaneceu nessa etapa; ele tem afeição devoradora por seus inimigos e só devora as pessoas de quem gosta. (p.134)
Essa identificação, que ele define como identificação ao pai, pode perder-se de vista, segundo Freud. E acrescenta que esse primeiro tipo de laço já é possível antes que qualquer escolha de objeto tenha sido feita.

Freud recorre ao sintoma para exemplificar o segundo tipo de identificação, que está relacionado com a escolha de objeto. Ele dá o exemplo de uma menininha que desenvolve o mesmo sintoma da mãe de uma tosse atormentadora. Freud esclarece que “...a identificação apareceu no lugar da escolha de objeto e que a escolha de objeto regrediu para a identificação” (Freud, 1974 [1921], p. 135). Nesse caso, o “eu” assume as características do objeto. A identificação é parcial e extremamente limitada, “tomando emprestado apenas um traço isolado da pessoa que é objeto dela” (p.135).

O terceiro tipo de identificação é baseado na possibilidade ou desejo do sujeito de colocar-se em uma mesma situação de um outro sujeito. Freud explica esse processo com o exemplo de uma moça que está num internato e recebe uma carta de seu namorado que lhe desperta ciúmes e uma crise de histeria. Outras moças do internato que conhecem o assunto passam a ter a crise, como um desejo de colocar-se na mesma situação, ou seja, gostariam também de ter um caso amoroso secreto e, sob a influência do sentimento de culpa, aceitam também o sofrimento envolvido nele. Freud nomeia esse tipo de identificação como “identificação por meio do sintoma”.

Freud resume os três tipos de identificação da seguinte forma: o primeiro tipo constitui a forma original de laço emocional com um objeto; no segundo tipo, de maneira regressiva, torna-se sucedâneo para uma vinculação de objeto libidinal, por meio da introjeção do objeto no ego; e no terceiro tipo, “pode surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum partilhada com alguma outra pessoa que não é objeto da pulsão sexual” (Freud, 1974 [1921], p. 136). O terceiro tipo de identificação explica o laço mútuo existente entre os membros de um grupo, segundo Freud, e é baseada numa importante qualidade emocional comum.

Para Lacan, a identificação é da ordem da relação do sujeito ao significante. Como a identificação se confunde com a identidade, Lacan parte da desmontagem dessa falsa equivalência que estaria no centro da identificação: A=A. O significante não pode ser idêntico a si mesmo. Para dar suporte ao que se deseja, é preciso uma letra. Lacan mostra na letra justamente essa essência do significante por meio do qual ele se distingue do signo. O significante não é o signo. O signo é representar alguma coisa para alguém. O significante se distingue do signo por manifestar apenas a presença da diferença, nada mais. Lacan afirma que a primeira coisa que ele implica é que a relação do signo com a coisa seja apagada (Lacan, 1961-62). É tomando a identificação enquanto significante que podemos diferenciá-la dos efeitos da imagem para compreender o que é colocar em um ser a substância de um outro, essa operação em que o sujeito assume a identidade de duas aparições tão diferentes. É o significante que introduz a diferença no real.

A primeira espécie de identificação abordada por Freud é, portanto, segundo Lacan, mítica, ambivalente, sobre o fundo da devoração assimilante, da incorporação. Ela é direta e imediata, sem a mediação do traço (do significante). Essa primeira identificação tem a marca que o sujeito recebe do Outro como suporte, quando se dá a fundação do sujeito no campo do Outro, mas só com a segunda identificação essa marca invisível será revestida.

A segunda, de tipo regressivo, tem o traço unário como instrumento de identificação. Lacan introduz a noção de traço unário, esse traço único, traço de estrutura mais simples, destituído de toda variação. O que o distingue não é uma identidade de semelhança. Como significante, ele se distingue do signo por manifestar apenas a presença da diferença. O traço unário é a marca da diferença. Sua função e seu valor estão justamente relacionados a essa redução extrema das diferenças qualitativas. Todos os significantes têm esse traço por suporte. O Einziger Zug é o traço que Lacan designa unário para acentuar seu caráter de um, contável, esse um em cuja repetição toda a série se apoia, por oposição ao um-unificador. O traço unário suporta as variações, o deslizamento da bateria significante.

O sujeito só pode ser situado a partir da segunda identificação, a de tipo regressivo, que, ao tomar um traço do objeto como instrumento da identificação, escreve no inconsciente o enlace do sujeito com o objeto. O objeto perdido é conservado nesse traço unário ao qual o sujeito se identifica. Lacan destaca que essa identificação é parcial, altamente limitada, mas que é acentuada no sentido de estreiteza, de encolhimento, que é “nur ein einziger Zug”, somente um traço único da pessoa objetalizada.

Essa segunda identificação reporta, pois, ao ideal, como traço que reveste essa marca invisível. O ideal representa o Outro através de um signo, um traço único. Esse traço intervém na relação narcísica, constituindo a orientação dos investimentos libidinais e mantendo a função do eu ideal. Esse traço tomado emprestado do objeto torna-se o signo do amor. No amor, a dimensão da falta está sempre presente. O eu do amante, empobrecido, situa no outro aquilo que lhe falta, para resgatar a sua imagem ideal. Trata-se de uma escolha narcísica, tendo como referência o traço unário.

A terceira identificação é ao Outro por intermédio do desejo, desejo subjacente às relações do sujeito com a cadeia significante, que alteram profundamente a estrutura da relação do sujeito com suas necessidades.

Lacan reporta aos tempos da privação e da frustração para situar a emergência do sujeito. Ele comenta que, para que a verdade simbólica, que supõe a contagem, seja fundada, é preciso que algo tenha aparecido no real; esse algo é o traço unário. É no nível da privação que se situa o tempo anterior à contagem. Freud se refere à primeira como a mais importante identificação do sujeito. Mas a segunda identificação é necessária, pois reforçaria a primeira. Lacan demonstra que o (-1) constitutivo do sujeito da privação, ou seja, a casa vazia de traços está ligada à estrutura mais primitiva do inconsciente, mas requer o apoio, a sustentação do traço unário como instrumento de identificação do sujeito.

É no tempo da frustração que se introduz com o Outro a possibilidade para o sujeito de um novo passo essencial. Surge, no tempo da frustração, a dimensão de perda essencial à metonímia, perda da coisa no objeto. O par presença/ausência introduz o sujeito no registro do apelo. Assim, o sujeito pode estabelecer uma relação não só com o objeto real, mas com os traços que restam dele. As duas identificações vão se articular no ponto em que o sujeito toma um significante como insígnia dessa toda-potência, no traço unário que aliena o sujeito na identificação primeira e forma o ideal do eu. Lacan localiza na imagem do eu o ponto de nascimento do desejo. E afirma que, depois da privação real, há a frustração imaginária. Mas a imagem fundadora do desejo vai situar-se dentro do simbólico.

O terceiro tipo de identificação é a identificação ao Outro por intermédio do desejo. A identificação histérica mostra como o desejo supõe em sua subjacência a articulação das relações do sujeito com a cadeia significante, já que essa relação modifica a estrutura de toda relação do sujeito com cada uma de suas necessidades. Para Lacan (1961-62), o desejo está articulado a um ponto de falta na imagem do Outro, na qual o sujeito se aliena. O automatismo de repetição é a busca, ao mesmo tempo necessária e condenada, do traço unário, aquele que não pode se repetir. O desejo é o que suporta o movimento, certamente circular, da demanda sempre repetida. Esse ciclo de repetição, como o movimento da bobina, desenha o objeto do desejo, o objeto a. É pelo fato de ter sido tomado no movimento repetitivo da demanda, no automatismo da repetição, que ele se torna objeto do desejo, segundo Lacan. O advento constituído pela repetição, o metonímico, que desliza, é evocado pelo próprio deslizamento da repetição da demanda.

Nesse terceiro tipo de identificação, portanto, um ponto de falta é percebido pelo eu no outro. Nesse ponto vazio, um objeto é convocado para ser colocado no lugar do ideal do eu. Aqui a escolha de objeto não é narcísica. Esse modo de identificação é que está na base do sintoma histérico. Num grupo social, as pessoas colocam um objeto no lugar de seu ideal e, em função disso, se identificam entre si no seu eu. Assim, uma comunidade se organiza em torno de um ponto, objeto inapreensível que causa o desejo, objeto a.

O desejo se constitui, para Lacan (1961-62), antes de tudo como aquilo que está escondido no Outro por estrutura; é justamente o impossível ao Outro que se torna o desejo do sujeito. O desejo constitui-se como a parte da demanda que está escondida ao Outro, esse Outro que não garante nada justamente enquanto Outro. O objeto vai pôr-se coberto no princípio de ocultação do lugar mesmo do desejo. O objeto de desejo existe como esse nada enquanto oculto ao Outro, e torna-se o invólucro de todo objeto.

O sujeito de que se trata, esse do qual seguimos o traço, as pegadas, segundo Lacan, é o sujeito do desejo e não do amor. Lacan (1961-62) comenta que o desejo remete ao falo, que é a presença a partir da ausência. Ele acrescenta que eu desejo o outro como desejante e não como me desejando, pois quem deseja sou eu e, desejando o desejo, esse desejo só poderia ser o desejo de eu (moi); se me encontro nessa reviravolta onde estou bem seguro, ou seja, me amo no outro, se sou eu quem eu amo. Lacan explica que o neurótico está numa posição crítica em razão de sua impossibilidade estruturante de identificar sua demanda com o objeto de desejo do Outro ou de identificar seu objeto com a demanda do Outro.

Assim, a identificação histérica remete à alienação ao Outro. Soler (1998a) comenta que “o sujeito histérico se caracteriza por sua conexão direta com o Outro barrado e por sua propensão a identificar-se pela via do sintoma” (Soler, 1998a, p. 446). Esse uso do sintoma não separa o sujeito do Outro, ao contrário, o conecta com ele. Como salienta Soler, a identificação em seu sentido habitual implica a alienação ao Outro. Ela acrescenta que o que permite ao ser falante ser educável, dócil ao laço social, é a sua possibilidade de identificação, “sua capacidade para aceitar as ordens do significante” (p.445).

No seminário RSI, Lacan, comentando sobre os três registros e seu enodamento, retoma a identificação tripla, como foi definida por Freud, a partir da formulação dos três registros: real simbólico e imaginário:


...se há um outro real, não está senão no próprio nó e é por isso que não há Outro do Outro. Esse Outro real, identifiquem-no com o seu imaginário, terão então a identificação do histérico com o desejo do Outro, essa se passa nesse ponto central. (Lacan, 1974-75, p. 53)
Quando há uma identificação com o simbólico do Outro real, há a identificação como traço unário (Eizinger Zug). Quando há uma identificação com o real do Outro real, há o nome do pai, no que a identificação tem a ver com o amor. Essa discussão da identificação com o real levará à formulação de Lacan sobre a identificação com o sintoma.

Podemos relacionar esse terceiro tipo de identificação com o processo de identificação que ocorre na adolescência. Diante da necessidade de se operar uma separação da autoridade paterna, o adolescente vai em busca de novas identificações. Se o saber, na infância, estava ligado aos pais, a adolescência é exatamente o momento em que os pais são destituídos desse lugar de saber. Nesse momento, o adolescente busca a construção de um saber próprio, que escape aos pais.

Assim, nesse grupo social, os jovens colocam um objeto no lugar de seu ideal e, em função disso, se identificam entre si no seu eu. Uma comunidade se organiza em torno de um ponto, objeto inapreensível que causa o desejo, objeto a. Os adolescentes se identificam entre si com “a adolescência”.

O grupo de adolescentes vai ser o lugar de construção de um novo saber, que é compartilhado pelo grupo de pares, que exclui os pais. Nesse espaço, cria-se uma comunidade de códigos, de língua, de regras, um saber comum. Num grupo de iguais, estabelecem-se critérios de “entrada” e de “saída”, “inclusão” e “exclusão”, onde é possível reconhecer-se enquanto adolescente. As identificações coletivas constituem-se, portanto, possibilidades de inserção social, mas que funcionam, de certa maneira, à margem do social. O adolescente busca o reconhecimento “fora” do grupo social, enquanto pertencente a um grupo que está certamente à margem da sociedade, pois a representação social de adolescente define-o exatamente como aquele que está em transição, não é criança nem adulto, que está, consequentemente, “fora”, “à margem”, “em compasso de espera” para entrar no universo social.

O grupo é um campo de fenômenos narcisistas maciços, como salienta Soler (1998). A pertinência ao grupo leva aos ganhos narcisistas. Ela destaca que, nesse laço do sujeito com o Outro do significante, há uma dupla necessidade: incluir-se e subtrair-se. O incluir-se realiza-se nas admissões formais ou instituídas, quando o sujeito, ao pedir para ser admitido, busca ser representado pelo significante do grupo, incluir-se. Mas, paradoxalmente, “ao ser admitido como um entre outros, o sujeito não pode menos que sentir sua diferença aplainada e então aspirar a distinguir-se” (Soler, 1998, p. 297). Assim, a autora aponta a dialética do sujeito e o Outro: incluir-se através da identificação com o grupo e distinguir-se para deixar aí o seu vazio.

Podemos estabelecer aqui uma hipótese: os adolescentes, ao identificarem-se com o grupo de “adolescentes”, buscam incluir-se a partir da identificação com o grupo. Mas, para distinguirem-se nesse grupo onde a diferença fica aplainada, eles escrevem seus diários, seus “blogs” pessoais, individuais, como uma “escrita de si”, que os particulariza nesse universo de iguais.

Soler (1998) identifica o grupo enquanto o Outro do significante no qual o sujeito deve alojar-se e que atua pacificando o gozo, conceito elaborado por Lacan. O conceito de gozo é abordado nos textos de Lacan de diferentes formas. Ele pode ser compreendido como estrutural ou transgressão, como um excedente “pulsional”, resto ou impossível (de simbolizar). Ele é tanto um obstáculo quanto aquilo que impulsiona o sujeito, o coloca em marcha. O gozo ex-siste como resposta real do sujeito. Existe sempre um excesso, que não se submete à cadeia significante. Dá-se uma impossibilidade estrutural de absorver esse excesso. Existe uma marca de gozo que resiste, um modo do sujeito presentificar esse excesso que se inscreve e se atualiza nos “traços de perversão”, localizáveis nos sintomas, fantasias e condutas sexuais dos neuróticos. Alguns autores analisam a existência de uma possível “perversão generalizada” na contemporaneidade. Essa discussão não se baseia na estrutura clínica perversa, mas nos traços de perversão, ou nas incidências do discurso capitalista sobre os modos de gozar contemporâneos (Lima, 2009).

Retomando Freud em O mal-estar na civilização, Soler destaca que o grupo identifica, coletiviza e contém o gozo destrutivo. Assim, o grupo exerce uma função humanitária, mas ela destaca que isso é um efeito interno e parcial, já que toda renúncia se paga com um retorno do gozo. “No grupo, o contido no interior retorna ao exterior” (Soler, 1998, p. 298). Esse conjunto identificado por um significante (S1) que, no caso dos blogs pesquisados, é “adolescente”, opera uma certa regulação interna do gozo. Fica, portanto, excluído aquele que não se inscreve como S1, ou seja, aquele que não é “adolescente”, como o adulto. Entre os dois cria-se uma luta estruturalmente programada.

Como salienta Soler, o S1, como significante mestre, pacifica apenas localmente e leva, de maneira correlata, à guerra com o que não é S1. Há uma rejeição do gozo do Outro, mas, paradoxalmente, há a idealização dos modos de gozo em relação ao que está fora. Identificamos em muitos blogs de adolescentes o “adulto” como aquele que não compreende o adolescente, está situado “fora”, “excluído” do grupo, dessa forma incapaz de compreender o que se passa internamente no grupo e, muitas vezes, “um inimigo em potencial”.

Soler (1998) defende a hipótese de que atualmente há uma homogeneização dos modos e objetos de gozo, ou seja, todos devem gozar da mesma forma e com os mesmos objetos. O gozo é oferecido na mídia, de maneira praticamente universal, por intermédio dos objetos da ciência. O sujeito busca se satisfazer por meio dos objetos ofertados pela cultura. Nos blogs de adolescentes são comuns as referências aos objetos de consumo. Assim, na contemporaneidade, há um apagamento das diferenças, o que pode levar à exaltação das particularidades e a reivindicações regionalistas, como um retorno da diferença foracluída, uma de suas compensações, como sublinha Soler (1998). É possível pensar que a adolescência, como fase marginal da vida, não muito bem situada (“entre” a infância e a fase adulta), ao se agrupar na marginalidade do espaço virtual (que é também um “lugar/não lugar”), exalta suas particularidades, unindo-se e retornando como uma diferença foracluída. No blog abaixo, sua autora se dirige apenas às pessoas que estão passando pelo mesmo problema, os “adolescentes”. Ela exclui, portanto, quem não é adolescente: “e tô aqui pra falar de assuntos atuais de Adolescentes para Adolescentes...”...quero q aqui seja um diario q atrai apenas pessoas q estao passando pelo mesmo problema ....ser adolescente nao eh facil neh...” (http://desabafodeumaadolescente.zip.net/arch2006-10-15_2006-10-21.html).

A autora do blog abaixo comenta que “odeia” escritores adultos falando da adolescência. Para ela, só mesmo um adolescente pode escrever sobre a adolescência:
Sinceramente, eu odeio esses livros para pessoas como eu, em plena puberdade (por sinal, que palavra horrível) de autores adultos e principalmente autores homens. OK, eles já passaram por isso um dia e, muitas vezes já nos sentimos como eles, mas existe um pequeno e modesto detalhe nisso: nunca vi um livro onde uma adolescente tenha escrito (exceto, talvez o Diário de Anne Frank) todas as suas dúvidas, as suas confusões, os seus problemas, seus dramas, suas carências...se alguém conhece um, me diga, por favor, porque eu estou cometendo uma rata terrível.

(http://adolescentegirl.zip.net/arch2006-07-30_2006-08-05.html)


Se a puberdade é um dos momentos em que há o encontro com o real, sabemos que a adolescência é a resposta sintomática que o sujeito vai dar a isso, é o arranjo particular com o qual ele organizará sua existência, sua relação com o mundo e com o gozo. Stevens (2004) propõe a clínica da adolescência como a clínica do sintoma. Mas se trata de uma resposta individual e escolha de um sujeito. Na adolescência, há certo despedaçamento do imaginário diante da irrupção do real da puberdade (órgão marcado pelo discurso na ausência de um saber sobre o sexo). Na ausência de um saber, resta a cada um inventar sua própria resposta. Stevens descreve o real da puberdade, articulando-o com três definições de real em Lacan: um primeiro conceito de real, articulável na disjunção entre a identificação simbólica e imaginária, disjunção esta acentuada no momento da adolescência em função do despedaçamento da imagem; um segundo conceito de real como aquilo que irrompe, que não tem nome e que vem modificar a imagem, que acontece no tempo do despertar da puberdade, e o real como a não-relação sexual, que faz retorno na puberdade. A adolescência é, pois, a enumeração de uma série de escolhas sintomáticas em relação a esse impossível, que é o real da puberdade.

Podemos pensar que a identificação com a adolescência é, portanto, uma resposta a esse impossível de ser nomeado, ao real da “puberdade”. Mas, dentro das várias respostas a esse impossível, cabe a cada sujeito uma escolha particular. Assim, podemos pensar que o blog é uma das possibilidades ofertadas pela cultura atual ao jovem que se identifica com a adolescência. Nessa cultura “global”, em que todos são iguais perante o consumo, o sujeito, em seu blog, pode construir algo que o particulariza. A construção de um romance familiar no blog pode ser a tentativa de tecer algo particular, nesse universo de iguais.


Conclusão
A pesquisa realizada com os blogs de adolescentes permitiu-nos conhecer algumas das razões do grande interesse dos jovens pela escrita nos blogs, ou sites pessoais. Essas razões, eleitas pelos próprios adolescentes, possibilitam uma maior compreensão da adolescência hoje. Os principais motivos que levam os adolescentes a escreverem nos diários on-line são: o interesse em escrever sobre si, a busca por fazer amizades e conhecer pessoas e o interesse em se situar na fase da adolescência e falar sobre ela. A leitura desses motivos a partir do referencial teórico psicanalítico possibilitou compreender a adolescência marcada por duas dimensões: uma atemporal e outra temporal. Considerada como um tempo lógico, resultado do despertar pulsional da puberdade, a adolescência é atemporal, ou seja, todos os sujeitos passam por essa etapa da vida, quando as modificações da puberdade determinam uma ruptura com a infância, produzindo efeitos psíquicos sobre o sujeito. Se alguns efeitos deverão ser considerados a partir do caso a caso, não podemos desconsiderar a incidência da cultura sobre os sujeitos. Assim, a adolescência pode ser tomada também no sentido temporal, apresentando particularidades em função da cultura na qual se insere. Os sujeitos escolhem os modelos identificatórios que são oferecidos pela cultura. Os blogs são exemplos dessa oferta feita aos jovens na contemporaneidade.

Os diários íntimos, guardados a “sete chaves”, durante muito tempo foram associados à entrada na adolescência. Nesses escritos íntimos, os jovens construíam uma narrativa sobre si, como um saber próprio, que permitia uma saída aos impasses colocados pela puberdade. Na atualidade, os jovens utilizam as páginas virtuais para falarem de si, construindo um “romance familiar”, que é lançado no espaço público. Os adolescentes também utilizam o espaço virtual para fazerem amizades e conhecerem pessoas. Nesse espaço público, eles se dirigem a outros adolescentes, através de seus textos escritos, buscando uma inserção junto ao grupo de adolescentes. A escrita de um romance familiar pelo adolescente surge como resultado desse endereçamento a outro jovem adolescente, que ele situa numa posição semelhante à sua, e, portanto, diferente dos pais. A identificação com a adolescência é fundamental para os jovens, que tentam construir uma nova posição social, com todas as contradições que essa fase da vida implica.

Assim, o ciberespaço pode ser visto hoje como um lugar onde o adolescente exercita o importante e necessário trabalho psíquico de separação dos pais, iniciando a passagem do espaço familiar para o espaço público. As identificações coletivas no ciberespaço constituem possibilidades de inserção social, mas que funcionam, de certa maneira, à margem do social. Marcado por contradições, o ciberespaço apresenta os limites mais tênues e flexíveis, possibilitando o exercício das contradições próprias dessa fase da vida. Fundamentalmente, podemos reconhecer que pode haver nesse exercício da escrita de si pelo sujeito, a construção de um saber próprio. Se o computador permite qualquer percurso, abrindo possibilidades para diferentes formas de utilização, o ciberespaço pode ser utilizado pelo sujeito como um espaço de construção de saber que o particulariza, numa cultura que visa a homogeneização de todos os indivíduos a partir do consumo.
Referências
Blanchot, M. (1971). VIII. Le journal intime et le récit. In M. Blanchot, Le livre à venir (pp. 271-279). Paris: Gallimard.
Freud, S. (1974/1921). Psicologia de grupo e análise do eu. In S. Freud, Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (p.89-179). (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 18). Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1974/1914). Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar. In S. Freud. Totem e Tabu e outros trabalhos (pp. 281-288). (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 13). Rio de Janeiro: Imago.
Lacan, J. (1961-62). Le séminaire, Livre IX: L’identification. Inédito.
Lacan, J. (1992/1969-70). O seminário, Livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Lacan, J. (1974-75). Livre XXII, RSI. recuperado em http://gaogoa.free.fr/>.
Lacan, J. (1998). Subversão do sujeito e dialética do desejo. In J. Lacan, Escritos (pp.793-842). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Lejeune, P. (1975). Le pacte autobiographique. Paris: Seuil.
Lima, N. L. (2009). A escrita virtual na adolescência: os blogs como um tratamento do real da puberdade, analisados a partir da função do romance. Tese de Doutorado, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
Soler, C. (1998). A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria.
Soler, C. (2005). O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Stevens, A. (2004). Adolescência, sintoma da puberdade. Clínica do contemporâneo. Revista Curinga. Escola Brasileira de Psicanálise. Seção Minas. n° 20, p.27-39.

Categoria de contribuição: Relato de pesquisa

Recebido: 24/06/09

Aceito: 07/09/10



1 Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais, Mestre em Educação (UFMG), Psicóloga (UFMG), Psicanalista, Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Endereço para correspondência: Rua Professor Otávio Coelho Magalhães, 324, Mangabeiras, Belo Horizonte/MG, CEP: 30.210-300. Endereço eletrônico: nadialaguardia@uai.com.br

2 Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, USP, Psicanalista, membro da EBP - Escola Brasileira de Psicanálise e membro da AMP - Associação Mundial de Psicanálise. Endereço para correspondência: Rua Windsor, 60, Condomínio Vila Castela, Serra del Rei, Nova Lima/MG, CEP: 34.000-000. Endereço eletrônico: a.lydia@terra.com.br

1Recuperado em 12 dez. 2007 de http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI737650-EI4802,00.html

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Pesquisas e Práticas Psicossociais 5(1), São João del-Rei, janeiro/julho 2010






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