Por causa da mulher



Baixar 42,08 Kb.
Encontro06.11.2017
Tamanho42,08 Kb.


EM BUSCA DE UMA HISTÓRIA DO CORPO: “Por causa da mulher”(?)
Profª Ms. Maria Helena Câmara Lira (UFPE)
RESUMO
A temática em pauta faz parte das primeiras discussões de uma pesquisa de doutorado acerca da educação do corpo de meninos e meninas nos processos civilizadores estabelecidos em escolas confessionais. Para este artigo levantamos uma discussão preliminar acerca do corpo e das relações de gênero enquanto categorias úteis para análises historiográficas. Trazemos enquanto provocação para a construção da narrativa a música “Super-homem – A canção” de Gilberto Gil, composta em 1979. No nosso ponto de vista essa música destaca o universo feminino e masculino de forma interdependente, o que possibilitou sua apreciação em articulação com autores que discutem corpo e gênero.
Palavras-chave: Corpo, Gênero, História
INTRODUÇÃO
Os códigos de comportamento, os sentimentos, a linguagem mudam a partir das novas exigências sociais que se revelam em normas de conduta e, também, na formação de representações de gênero. O que nos intriga, nesse atual processo de pesquisa de doutoramento, é identificar o que determinam essas mudanças que se fazem presentes tanto na formação da personalidade dos indivíduos como também em suas relações sociais, principalmente no que concerne a construção de identidades e de um ethos feminino e masculino que se revelam no corpo.

Apresentamos enquanto provocação para a construção desta narrativa, a música de Gilberto Gil “Super-homem – A canção”, que chamou nossa atenção por revelar um conflito ou uma descoberta das interdependências entre a porção feminina e masculina que se faz simultaneamente presentes em homens e mulheres.

A música, ou melhor, a arte de uma forma geral, pode ter diferentes interpretações e significados; dificilmente seus admiradores conseguirão reconstruir seu sentido original, o que não faz desse novo sentido menos importante ou significativo para quem se debruça sob esse trabalho contemplativo.

De acordo com fontes disponíveis na internt1, Gilberto Gil compôs a música citada em 1979, quando estava hospedado na casa de Caetano Veloso, no Rio de Janeiro. Após assistir “Super-men - O filme”, no cinema, Caetano chagou em casa entusiasmado contando a cena em que a namorada do super-homem morre em um acidente de trem, em seguida, o herói volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar no tempo e salvar sua namorada. Segundo destaca o próprio Gil, ele ficou impregnado com a imagem do super-homem fazendo a Terra voltar por causa da mulher.

Logo, o artista entra em cena e na mesma noite Gil compõe uma “canção a serviço de uma letra”, conforme seu próprio relato, intitulando-a “Super-homem – A canção”. A letra ora é muito direta e clara ora é intrigante e faz o ouvinte se questionar, mas, sem dúvida, em todo momento ela traz o encanto e a sedução de uma poesia. Abaixo segue a letra:

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria / que o mundo masculino tudo me daria/ do que eu quisesse ter

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara é a porção melhor que trago em mim agora/ é a que me faz viver

Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera/ ser o verão o apogeu da primavera e só por ela ser

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória / mudando como um Deus o curso da história / por causa da mulher (GIL, Gilberto. Super-homem – A canção, 1979)

A “porção mulher” que Gil cita na canção é uma das partes mais intrigantes. Seria uma apologia ao homossexualismo ou uma ênfase às inter-relações entre o homem e a mulher, ou melhor, entre o masculino e o feminino? Essa a problemática que norteia este artigo: tecer prévias análises acerca das interdependências entre o masculino e o feminino que existem no ser homem e ser mulher, as quais se revelam no corpo no decorrer da história.

Entretanto, antes de destacarmos o corpo como um espaço de representações de gênero, é preciso entender qual conceito de corpo temos tentado nos aproximar no intuito de traçar sobre ele uma perspectiva de análise historiográfica.
QUE CORPO É ESSE?
Conceituar o corpo apenas em sua dimensão biológica pode ser muito objetivo e fascinante se o encararmos enquanto um conjunto de órgãos que deve funcionar com equilíbrio e eficiência para manter esse mesmo corpo vivo. Entretanto, cada vez mais pesquisas nas ciências humanas vêm enaltecendo o corpo enquanto uma construção cultural, permeada por técnicas, discursos, costumes que revelam o que há de mais tangível e concreto no indivíduo, mas, também, o que há de mais simbólico e misterioso.

Um dos autores que colocam o corpo em destaque, em uma perspectiva filosófica, é Maurice Merleau Ponty (1908-1961), também conhecido como o filósofo do sentido. Esse autor destaca o ser humano como uma dialética entre alma e corpo, se contrapondo a construção de leis formuladas em relação a partes isoladas do indivíduo. Portanto, a dicotomia corpo/alma, sensível/inteligível não é defendida por esse autor, que enaltece a elaboração de um conhecimento, ou melhor, de uma consciência a partir da definição de uma percepção que não separa o sensível do racional.

Para a fenomenologia da percepção é com o corpo que se aprende sobre o mundo. A nossa presença no mundo é corporal, logo, o autor se refere a um corpo que não é cartesiano ou um corpo máquina, mas sim, um corpo vivo, um corpo próprio que representa a forma do homem existir no mundo.

Também chamamos a atenção para o filósofo social Michel Foucault (1926-1984), que, do mesmo modo, enaltece o corpo em suas análises. Contudo, para Foucault, o corpo tem uma função histórica e política que evidencia uma prática discurso em sua forma de comportar-se, em seus costumes, no que por ele é dito e não dito. Para Foucault (2007), as relações de poder materializam-se nos corpos dos indivíduos. Ou seja, o sistema de poder no qual os corpos estão inseridos exercem uma ação de governo sobre eles, potencializando os corpos dóceis, aqueles que são úteis e adequados para a propagação dos discursos hegemônicos que fortalecem o próprio sistema.

Em comum entre os dois autores há a perspectiva de olhar para o corpo em um ponto de vista histórico-social, é possível aproveitar suas teorias para entender as relações de agenciamento e poder que envolvem as dominações sobre o corpo.

Outro autor que tem auxiliado significativamente nessa compreensão histórico-social acerca do corpo é Norbert Elias (1897-1990). Através da teoria sobre o processo civilizador, em especial na obra Processo Civilizador: Uma história dos costumes, publicado no final dos anos de 1930, o sociólogo alemão busca mostrar as transformações dos comportamentos à mesa, no quarto de dormir, situações intimamente relacionadas a atitudes e funções corporais.

Elias não perde de vista o valor atribuído às fontes literárias, pinturas, documentos históricos, mas, ao que parece, seu principal investimento está nos manuais de boas maneiras. O autor tece uma ideia de que não é possível entender o que hoje é considerado civilizado sem revisitar o passado e os conceitos anteriores.

Nessa perspectiva, Norbert Elias faz algo, até então, pouco comum entre os pesquisadores das ciências sociais, ele valoriza as funções corporais em nível de objeto histórico e sociológico, ou seja, ele dá história ao corpo e dá corpo a história, como diria Le Goff (2006). Pois, para Elias, as funções corporais não são naturais, são frutos de construções históricas e sociais, são resultados de ações culturais. Entretanto, na medida em que essas funções se materializam em comportamentos, atitudes e sentimentos como a vergonha, por exemplo, elas podem ser incorporadas e sentidas como naturais, o que ajuda na formação de regras de conduta e do autocontrole.

É através dessas regras de conduta que comportamentos são regulados e que há a construção de consensos de gestos mais ou menos adequados para determinadas situações. Tais gestos estão muito relacionados à sensibilidade e a moralidade que dão corpo a segunda natureza dos indivíduos, a segunda pele, ao saber social incorporado, que Elias chama de hábitus.

Norbert Elias se debruça sobre situações que para muitos poderiam ser irrelevantes, situações que dispensariam maiores explicações, mas que são extremamente problemáticas, quando lançadas sob o ponto de vista do autor supracitado, que o faz tentando traçar a compreensão de uma mudança de comportamento muito atrelada às questões sócio-psicológicas.

Destarte, na perspectiva da teoria do processo civilizador há uma relação entre um universo psicológico, que define a personalidade, os sentimentos, e o universo social que se revela com ações de “boas” maneiras e civilização. O hábitus nasce dessa relação entre a dinâmica social e a estrutura da personalidade dos indivíduos, portanto, o hábitus individual está articulado a um hábitus social o que demonstra que a história de uma sociedade pode ser entendida através da história de cada indivíduo.

Não é nossa intenção esgotar as possibilidades de discussão acerca dos autores que destacam o corpo enquanto possibilidade de estudos para além das ciências biológicas, mas sim trazer algumas aproximações preliminares sobre o entendimento do corpo inserido nas ciências humanas. Já que, ao incluirmos esse víeis nas pesquisas historiográficas, reforçamos a ideia de que a história deve ser reconstruída ou revisitada para além do que seria oficial, para além do que é dito.

As práticas corporais, durante anos renegadas a um esquecimento histórico, hoje podem auxiliar na reconstrução dessa história, seus comportamentos, costumes, sentimentos. Além disso, elas podem contribuir na compreensão das relações de gênero; talvez a história tenha vivido a “ilusão de que ser homem bastaria”, mas hoje, principalmente na perspectiva da nova história cultura, o corpo ora masculino ora feminino é palco da análise de discursos, conteúdos, hábitus que enriquecem as pesquisas historiográficas.
A ILUSÃO DE QUE SER HOMEM BASTARIA”
Diante da compreensão de corpo apresentada, trazemos à tona as relações de gênero travadas nesse corpo, tendo enquanto base teórica o pensamento de Joan Scott. Scott (1994) demonstra uma preocupação em tratar as relações entre mulheres e homens a partir de uma ótica que faça com que estes sujeitos não sejam vistos em separados. A autora afirma que a história das mulheres tem uma força política potencialmente crítica, uma força que desafia e desestabiliza as premissas disciplinares estabelecidas, principalmente porque esse tipo de história questiona a prioridade relativa dada à “história do homem”, em oposição à “história da mulher”.

Scott (1994) reforça a discussão de que as relações de gênero são construídas e sofrem influencias culturais. Nascemos homens ou mulheres, mas nos tornamos femininos(as) e/ou masculinos(as). Essa construção se dá inclusive na elaboração da subjetividade que atribui um ethos feminino e masculino para o vida social. Contudo, essa subjetividade é criada a partir de representações sociais que são reforçadas por normas de conduta em diversos campos de ação: escola, família, igreja, grupos de convivência. Esses espaços reforçam ou reconstroem algumas representações femininas e masculinas que através de suas normas, códigos e simbolismos como, por exemplo, a forma de se vestir, cores pré-definidas para meninas e meninos (rosa e azul respectivamente), bolas de futebol para meninos, bonecas para meninas, acessórios, adornos, tudo isso reforça as representações e naturalizam aquilo que é elaborado culturalmente.

Na medida em que esses códigos, símbolos, comportamentos em geral, naturalizam-se e formam uma subjetividade nos indivíduos pouco se questiona acerca das razões de tais costumes o que torna, no ponto de vista acrítico, normal meninas vestir-se de rosa e meninos de azul. A elaboração de novas referências acerca do universo feminino e masculino, de novas representações sociais, pode surgir dos questionamentos, das desconstruções de arquétipos ditos enquanto adequados e verdadeiros.

Na Idade Média, por exemplo, as representações femininas estabelecidas ficavam entre a figura de Eva (a pecadora) e Maria (a santa), as vestimentas, as reservas ao espaço privado, a submissão, a obediência, a sexualidade feminina era extremamente controlada pelos códigos e técnicas corporais que a Igreja Católica determinava como mais apropriadas para as mulheres. O controle religioso sobre o corpo ainda está presente nas sociedades atuais, mas, não podemos negar que outras representações femininas surgiram no decorrer da história, com isso, novas subjetividades foram construídas acerca do ethos feminino. Os corpos das mulheres ganharam outras referências que passaram a ser mais toleradas e, até mesmo, mais defendidas pela sociedade.

Entretanto, queremos enfatizar que por mais que haja um investimento histórico na construção de referências e características masculinas próprias para os homens e femininas para as mulheres, a interdependência entre esses dois universos faz com que essas distinções tenham uma mobilidade, não sejam fixas e engessadas em mundos paralelos.

Recorrendo mais uma vez a música de Gil, enquanto uma provocação para essa discussão, percebemos a sensibilidade e o estreitamento que pode ocorrer entre a porção mulher que há em cada homem e a porção homem que há em cada mulher. Ou melhor, que o ser feminino e o ser masculino estão em homens e mulheres simultaneamente. Logo, as características atribuídas às mulheres no decorrer da história, enaltecidas em seus corpos e naturalizadas em práticas discursivas e normas de conduta, como, por exemplo, a sensibilidade, a delicadeza do gesto, os cuidados mais acentuados com a aparência, a afabilidade, também podem estar presentes nos homens.

É comum as mulheres receberem atribuições relacionadas à delicadeza e aos perfumes das rosas tão característicos da primavera, e os homens ao vigor e ao calor do sol próprios do verão. O que se torna encantador em meio e essas analogias é que o verão não existe sem a primavera, é um ciclo interdependente, por mais que em algumas localizações do planeta sejam mais sutis, um está relacionado ao outro, como nos provoca a canção de Gil “Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera ser o verão o apogeu da primavera e só por ela ser”.

Essa mobilidade e interdependência podem trazer novos olhares sobre as relações de gênero estabelecidas no decorrer da história, principalmente sobre os corpos de homens e mulheres que se submeteram a processos educacionais na formação de costumes, regras de etiqueta, normas de “boas” maneiras e padrões estéticos. Devemos considerar que alguns desses pontos são mais exigidos por uma das categorias de gênero. A beleza, por exemplo, tem sido um debate mais evidenciado no universo feminino. Quanto mais bela mais feminina, associando a beleza a um sentido de cuidado com a aparência, quanto mais feia menos feminina é considerada a mulher.

Os homens também podem ser incluídos nessa discussão, o que torna evidente alguns comentários aos quais atribuem características femininas a homens que cuidam da aparência além do habitual, como, por exemplo, fazendo as unhas, sobrancelhas e depilações. Quem foi mesmo que falou que isso é coisa de mulher? Podem até serem ações que transitam no universo feminino, mas não necessariamente são práticas corporais de propriedade das mulheres.

A incansável busca pela beleza, que até um determinado momento era palco de discussões muito maior entre as mulheres, tem, cada vez mais, atraído os homens. Seria mais uma variável do feminino entre homens e mulheres ou seria uma reconstrução do que é feminino e masculino? O que podemos afirmar é que a “feiúra” tem se tornado progressivamente intolerável no atual processo civilizador, o que se estende para os corpos de homens e mulheres.


A BELEZA ENTRE O CORPO FEMININO E MASCULINO
Para a filosofia o conceito de belo sempre apresentou discordâncias. Segundo Nascimento2 (2010), para Kant “não existe conceito estrito do Belo, podemos apenas refletir acerca do que se passa quando temos contato com algo que conceda puro prazer3. Para a sociedade atual o prazer em ser bela(o) está principalmente em ser magra(o), vestir-se com roupas da moda, cabelos escovados, de preferência bem lisos, dentre outros atributos.

Essas exigências são bem mais rígidas para as mulheres, como destaca Joana Novaes (2006) em seu fascinante livro “O intolerável peso da feiúra: sobre as mulheres e seus corpos”. Para a autora a sociedade é mais tolerante com os homens no que concerne a aparência, basta um esmalte descascado para que a mulher receba um olhar crítico sobre sua imagem.

A autora coloca que a imagem da beleza sempre teve uma associação histórica às mulheres e à saúde; a contemporaneidade tem enaltecido a beleza relacionada a corpos super trabalhados, sexuados, que lutam contra o cansaço e o envelhecimento. Sant’Anna (2005) destaca que por volta de 1900 e 1930, as propagandas publicitárias referentes a produtos de beleza eram conduzidas como medicamentos, em especial, pomadas para afinar a cintura, branquear a pele, escurecer os cabelos brancos, era o tempo em que os remédios curavam a feiúra.

Os discursos que marcam a história mostram, ainda, que a beleza passou de dom de Deus para características das deusas(es). Para ser bela(o) basta querer; há recursos e informação que estão ao alcance de muitos, estar acima do peso ou fora de outro elemento dos padrões de beleza estabelecidos, além de ser um problema social, passa a ser um problema moral, é praticamente um desvio de conduta questionável e intolerável em uma sociedade civilizada que dispõe de academias, possibilidades de cirurgias plásticas e gastroplastias.4

Nesse contexto o espelho passa a ser o maior conselheiro e a visão o principal sentido para valorizar o outro. Joana Novaes (2006) destaca que a técnica de feitura do espelho foi fundamental para transformar a imagem social do corpo. A autora destaca alguns questionamentos de Nahoum (1987):
“Como viver em um corpo que não se vê? Como mirar sua celulite na água de um poço? Seu queixo duplo no fundo de uma panela de barro? Como construir uma imagem corporal tendo por espelho os olhos dos outros?”

É interessante pensar nesses elementos como determinantes na mudança das práticas corporais, na resignificação dos sentimentos acerca da corporeidade, da beleza, da feiúra e do corpo, assim como, é importante pensar como essas mudanças se refletiram nas relações de gênero. Se em um determinado momento bastava aos homens serem fortes e aparecerem em revistas fazendo poses de super-heróis, atualmente a perspectiva de beleza que invade o mundo masculino atribui aos homens cuidados com a aparência que pareciam mais legítimos às mulheres.

Retomando a última estrofe da música de Gilberto Gil encontramos: “Quem sabe o Super-Homem venha nos restituir a glória mudando como um Deus o curso da história por causa da mulher”. Sabemos que a sociedade muda e que essa mudança não é linear, sabemos também que essas mudanças não são determinas por super-heróis como uma vez contou a história tradicional. O que determinam essas mudanças? Talvez um dos determinantes sejam as relações de poder estabelecidas entre os corpos de homens e mulheres, que se revelam na construção e reconstrução de representações flutuantes entre o feminino e o masculino.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em meio a algumas problemáticas levantadas acerca da história do corpo, a partir das relações de gênero, identificamos que é preciso entender qual perspectiva de corpo as pesquisas historiográficas estão abordando. A partir do entendimento do corpo como uma construção histórico-social, onde estão inscritos elementos culturais, torna-se mais fácil perceber que as representações de um corpo feminino e masculino também são construídas historicamente.

A canção de Gilberto Gil leva-nos a pensar nas interdependências que existem no ser homem e ser mulher; o feminino que há no homem e o masculino que há na mulher traçam novas relações de gênero que não devem ser analisadas a partir de um olhar isolado no tempo presente. Revisitar o passado nos ajuda a entender essas relações que são elaboradas através da formação de normas de condutas sociais e da formação das personalidades individuais de forma articulada e, até mesmo, inconsciente.

Revisitar o passado, nessas circunstâncias, também nos ajuda a ampliar o nosso olhar sobre o corpo enquanto uma categoria útil para análise, pois nos faz repensar acerca daquilo que sobre ele está estabelecido ao nos depararmos com novos, ou melhor, antigos costumes, práticas e sentimentos.

Vale citar, ainda, que não são os super-homens que mudam o curso da história, como também não são as super-mulheres, mas sim, suas relações interpessoais, seus interesses inseridos em um processo de interdependências, que marca seus corpos com códigos, habitus e representações que podem contar várias histórias.


REFERÊNCIAS
ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Volume 1. Uma História dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. 2v.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da prisão. 33ª ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

LE GOFF, Jacques; TRUONG, Nicolas. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

MERLEAU-PONTY, Maurici. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

NOVAES, Joana de Vilhena. O intolerável peso da feiúra. Rio de Janeiro: Ed. Garamond, 2009.

SANT’ANNA, Denise (org.) Políticas do Corpo: Elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação liberdade, 2005.



SCOTT, Joan. Gênero: Uma Categoria útil para análise histórica. 3ª edição. Tradução de Chistine Dabat e Maria Betânia Ávila. Recife: S.O.S Corpo, 1996.



 Doutoranda em Educação pelo programa de pós-graduação em Educação da UFPE.

1 Comentários disponíveis no site: http://gege.refazenda.com/popup_letra.php?id=234. Acesso:maio/2010

2 Diretor da Coleção Contemporânea: Filosofia, Literatura & Arte; Autor de livros como Retrato Desnatural ( 2008); Idealizador e professor do curso Os Sentidos da Beleza, ministrado na Casa do Saber (RJ), que trza em pauta as visões sobre beleza de Kant, Hegel, Jean François e Umberto Eco.

3 Entrevista dada a Revista Filosofia, ano IV, nº46, 2010.

4 Ver NOVAES (2006).






©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal