Pontifícia universidade católica do paraná



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3 O bem e o mal na visão de Jung

"Quem, por conseguinte, desejar encontrar uma resposta ao problema do mal, tal como é colocado hoje em dia, necessita em primeiro lugar de um conhecimento de si mesmo, isto é, de um conhecimento tão profundo quanto possível de sua totalidade. Deve saber, sem se poupar, a soma de atos vergonhosos e bons de que é capaz, sem considerar a primeira como ilusório ou a segunda como real. Ambas são verdadeiras enquanto possibilidades e não poderá escapar a elas se quiser viver (como obviamente deveria), sem mentir a si mesmo e sem vangloriar-se." (JUNG, 1978, p. 285).


Nada como uma citação da obra dita autobiográfica de Jung para se extrair a essência da sua opinião a respeito da problemática do mal. Deve-se ressaltar que a obra "Memórias, sonhos, reflexões" começou a ser escrita em 1957 e, portanto posterior à fase que Jung resolveu se expor falando de uma problemática tão contundente. Cabe aqui um pequeno resumo histórico sobre os escritos e consequentemente sobre as idéias de Jung acerca do tema da monografia. No presente trabalho, só comenta-se as cartas que compõem os três volumes de suas correspondências, que no Brasil foram editadas pela Editora Vozes (JUNG, 2001, 2002 e 2003). Neste resumo apresenta-se os trabalhos e alguns dados a partir de 1937, por julgar-se que foi nesta época que os escritos revelam um Jung ligado na 'religião ocidental' e consequentemente nos dogmas por ela emitidos.

Jung vinha desenvolvendo seus estudos sobre religião oriental principalmente após seu primeiro encontro com Richard Wilhelm, que ocorreu em 1922. Em 1926, Wilhelm enviou para Jung sua tradução de um livro alquímico oriental que culminou na produção, em conjunto, do livro "O segredo da flor de Ouro", em 1929. Jung já vinha pesquisando a alquimia desde 1926, mas com um viés oriental devido em parte a influência do seu amigo Wilhelm, que veio a falecer em 1930. O prefácio de Jung para o livro "I Ching", de Wilhelm só foi escrito em 1949 para a edição inglesa, embora Jung já tivesse conhecimento do livro desde a sua primeira edição, assim como costumava consultá-lo com uma certa freqüência.

Pode ser uma coincidência, mas Jung embarca para sua visita a Índia em dezembro de 1937 com o retorno em fevereiro de 1938, logo após ter aceito o convite para fazer as três conferências na Universidade de Yale sobre o tema 'religião ocidental', que recebeu o título de "A natural religiosidade da alma". O autor acredita que após esta palestra e o retorno de Jung de sua viagem ao oriente, marca na sua vida um interesse sempre crescente na religião ocidental e no seu bojo os temas da privatio boni, do summum bonum e 'do bem e do mal'.

Em 1938, Jung escreveu um artigo que correspondia as suas palestras nas "Terry Lectures"6, da Universidade de Yale, no estado de Connecticut, nos EUA, que veio a ser transformado no volume XI/1 de suas 'obras ditas completas' e levou o título de "Psicologia e Religião". Na tradução para o português usou-se uma versão datada de 1939. Aqui Jung já aborda o tema da Trindade, da quaternidade e da posição do mal e esboça seus comentários que irá desenvolver mais tarde no artigo "A interpretação psicológica do dogma da Trindade".

Em 1938 ocorre a invasão da Áustria pela Alemanha e o começo de uma guerra longa e cruel que Jung enfrentou pela segunda vez em sua vida. Abaixo um trecho da biografia de Jung escrita por sua discípula Barbara Nannah. Ele serve ao propósito de se observar a tranqüilidade das pessoas ante a possibilidade de guerra e para se ter uma idéia de quão tardiamente em sua vida Jung começou a ter a real noção do mal e de seu relacionamento com o bem, onde eles realmente se encontravam e como interagiam com o ser humano.
"Depois da Conferência de Eranos de 1939, todos saímos a passeio por alguns dias [...]"

"Todos estávamos de volta ao lar, e Jung encontrava-se em Bollingen, quando a Europa, horrorizada, recebeu a notícia do terrível pacto entre Alemanha e Rússia. Jung ficou ainda mais perturbado com um sonho deveras indigesto, que ele teve imediatamente depois disso. Sonhou que Hitler era 'o Cristo do diabo', o anticristo, mas que, entretanto, como tal, ele era um instrumento de Deus. Ele disse que levou muito tempo e esforço até que fosse capaz de aceitar a idéia. Embora Jung estivesse ocupado com a idéia da face sombria de Deus desde a sua infância, ainda faltava muito até que ele finalmente conseguisse enfrentar o problema em Resposta a , e a idéia de que um lunático perigoso como Hitler pudesse ser um instrumento de Deus ainda estava longe de fazer parte de sua consciência quando teve este sonho." (HANNAH, 2003, p. 275)


Olga Froebe-Kapteyn solicitou a Jung um encontro simbólico em Eranos para o ano de 1940 e o público foi bem reduzido. Vale a pena lembrar que a Segunda Guerra Mundial já tinha iniciado há um ano e por pouco a Suíça não tinha sido invadida pelos alemães. Ocorreram duas palestras, a de Jung e a do matemático Andreas Speiser. A freqüência foi na sua maioria de suíços e alguns poucos refugiados, mas estes poucos tiveram o prazer de debater o assunto da Trindade, que foi repetido no próximo ano, já sem a pressão enorme de uma invasão da Alemanha. Em 1942 a palestra foi transformada em artigo e hoje se encontra no volume XI/2 das obras completas.

Após as palestras de 1935 e 1936 de Eranos Jung usou-as como base do seu livro "Psicologia e alquimia" que foi terminado em janeiro 1943 e publicado em 1944. No primeiro capítulo que serve como uma introdução, Jung toca diversas vezes no tema do bem e do mal e no entender do autor constitui uma das pérolas dos escritos de Jung.

Em 1944 Jung sofre um acidente que irá transformar em muito a sua vida. Nas palavras do autor em um artigo:
Jung adoeceu gravemente (provavelmente um “infarto agudo do miocárdio”) logo após uma queda, ocorrida em 26 de janeiro de 1944; escorregou na calçada com neve transformada em gelo, na velha Zürich. Jung nasceu em 26 de julho de 1875, portanto, estava, na época, com 68 anos. A princípio, a queda não provocou o infarto, parece que foram dois avisos do inconsciente, primeiro um menor e o outro maior, logo em seguida.

De acordo com sua narrativa, a lesão cardíaca foi extensa e resultou em longo tempo de internação. Jung nos conta que dois dos medicamentos que tomou foram: o “oxigênio” e a “cânfora”. O oxigênio continua em voga, mas a cânfora foi abandonada nesse tipo de tratamento. A cânfora é anestésica e estimulante da respiração; provavelmente, a lesão cardíaca provocou uma insuficiência do coração e também um edema pulmonar. Acontece que um dos efeitos da cânfora é estimular o “Sistema Nervoso Central”, podendo ter facilitado o aparecimento das “Visões” de Jung. Num estado de coma superficial ou torpor, começou a ter uma série de visões que ficaram marcadas em sua lembrança. Felizmente, a narrativa das visões e sensações destes 21 dias, que passou relutando para viver, foi preservada nas suas Memórias. (SOUZA, 2006, p. 02)


Com o desenvolvimento sobre as idéias da alquimia já assentadas, Jung partiu para o estudo do simbolismo de Cristo e produziu o livro "Aion - Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo" em 1950. Neste livro encontra-se farto material sobre a privatio boni, o summum bonum e 'o bem e o mal', principalmente no capítulo V, intitulado "Cristo, símbolo do si-mesmo".

Foi em 1952 que Jung trouxe a público o seu livro "Resposta a Jó", que de certa maneira contém muitas idéias sobre a privatio boni, o summum bonum, o Diabo e 'o bem e o mal', embora os termos não apareçam em profusão. O livro tornou-se um marco na obra de Jung e de certa forma 'municiou-o' para a sua correspondência, na sua maioria para religiosos que eram contra as suas idéias propostas no livro em questão.

No período de 1952 até 1953, o tema do bem e do mal foi amplamente discutido entre Pauli e Jung e está bem documentado no livro editado por Carl A. Meier, intitulado "Wolfgang Pauli y Carl G. Jung - Un intercambio epistolar, 1932-1958". Como o titulo já diz a correspondência ocorreu entre 1932 e 1958, mas no período citado houve uma provocação de Pauli em duas cartas; na primeira falou sobre o livro Aion e o mal e na segunda sobre o livro de Resposta a Jó e também sobre o mal.

No volume XVIII/2 das Obras Completas de Jung encontra-se uma quantidade de escritos (prefácios, entrevistas, artigos, cartas, etc.) em que citações com os termos privatio boni, summum bonum e 'o bem e o mal', são comuns. Pode-se destacar a longa carta ao pastor William Lachat, de 27 de março de 1954 e parte da correspondência - em forma de perguntas e respostas - entre Jung e H. L. Philp a qual deu origem ao livro "Jung e o problema do mal".

Para delimitar o presente trabalho escolheu-se tratar do assunto 'bem e mal' usando como base a correspondência de Jung devido ao fato de que nelas encontra-se um Jung mais liberado de seus críticos e, portanto, mais pessoal e contundente.

Nada melhor para fechar o capítulo do que retornar ao livro dito autobiográfico de Jung com o qual abrimos o mesmo. Aqui se vê um Jung ainda muito jovem, na época de sua Crisma, mas já interessado e angustiado com o problema da Trindade.


"No que se refere a meu pai, a situação era muito diferente. Teria sido bom submeter-lhe minhas dificuldades religiosas e aconselhar-me com ele; se não o fiz foi porque julgava conhecer a resposta que me daria, por motivos ligados à probidade do seu ministério. Pouco depois constatei a que ponto tal suposição era justa: meu pai ministrava-me pessoalmente aulas de religião, a fim de preparar-me para a crisma e isto me aborrecia. Certa vez, folheando o catecismo em busca de algo diferente das explanações sentimentais, incompreensíveis e desinteressantes acerca do 'Senhor Jesus', deparei com o parágrafo referente à trindade de Deus. Fiquei vivamente interessado: uma unidade que ao mesmo tempo é uma 'trindade'! A contradição interna deste problema cativou-me. Esperei com impaciência o momento em que deveríamos abordar essa questão. Quando chegamos a ela, porém, meu pai disse: 'Chegamos agora à Trindade, mas vamos passar por alto este problema pois, para dizer a verdade, não a compreendo de modo algum.' Por um lado, admirei sua sinceridade, mas por outro fiquei extremamente decepcionado e pensei: 'Ah, então é assim! Eles nada sabem disso e não refletem! Como poderei abordar esses temas?'" (JUNG, 1978, p. 57).

4 O BEM E O MAL NAS CARTAS DE JUNG
A seguir é apresentada uma tabela com todas as cartas em que aparece a citação do bem e do mal. Estão em ordem cronológica para facilitar a procura nos três volumes da edição em português. Alguns dados que estão faltando não aparecem nas notas às cartas.


vol.

pág.

dia

mês

ano

destinatário

nasc/mort

país

ocupação

I

357

02

nov

1944

Max Pulver

(1889-1952)

Suíça

grafólogo

II

27

20

abr

1946

Eugene H. Henley

(1884-1968)

EUA

analista

II

92

13

jan

1948

Gebhard Frei

(1905-1968)

Suíça

filósofo

II

124

13

jan

1949

Jürg Fierz




Suíça

filólogo

II

146

31

dez

1949

Victor White

(1902-1960)

Inglaterra

padre

II

203

16

nov

1951

Hans Schär

(1910-1968)

Suíça

pastor

II

226

09

abr

1952

Victor White

(1902-1960)

Inglaterra

padre

II

233

30

abr

1952

Victor White

(1902-1960)

Inglaterra

padre

II

246

30

jun

1952

Victor White

(1902-1960)

Inglaterra

padre

II

256

01

set

1952

Horst Scharschuch




Alemanha




II

267

19

nov

1952

Barbara Roob




Inglaterra

psicóloga

II

304

24

nov

1953

Victor White

(1902-1960)

Inglaterra

padre

II

317

30

jan

1954

Erich Neumann

(1905-1960)

Israel

analista

II

322

13

fev

1954

G. A. van den Bergh von Eysinga

(1874-1957)

Holanda

teólogo

II

325

16

fev

1954

James Kirsch




EUA




II

333

10

abr

1954

Victor White

(1902-1960)

Inglaterra

padre

II

402

28

mar

1955

Lucas Menz




Alemanha

padre

II

421

14

maio

1955

Hélène Kiener




França




II

443

09

nov

1955

Theodor Bovet




Suíça




II

446




nov

1955

Simon Doniger




EUA

editor

III

32

28

jun

1956

não identificada




Suíça




III

34

30

jun

1956

Elined Kotschnig




EUA




III

82

03

jun

1957

Erich Neumann

(1905-1960)

Israel

analista

III

87

11

jun

1957

H. L. Philp




Inglaterra

pastor

III

100

17

ago

1957

Roswitha




Suíça




III

110

15

out

1957

John Trinick




Inglaterra




III

117

26

out

1957

John Trinick




Inglaterra




III

149

03

maio

1958

Morton T. Kelsey




EUA

pastor

III

172

01

out

1958

James Gibb




Canadá




III

192

12

fev

1959

Tanner




Suíça

pastor

III

229

05

nov

1959

Charles E. Scanlan




EUA




III

234

05

dez

1959

Leonard




Inglaterra




III

303

19

nov

1960

Eugene M. E. Rolfe




Inglaterra




III

307

07

dez

1960

Wilhelm Bitter




Alemanha

médico

III

315

30

jan

1961

William Griffith Wilson

(1896-1971)

EUA



Tabela 1
Jung fez sua primeira citação em carta, sobre 'o bem e o mal', em uma missiva de 02 de novembro de 1944 e depois desenvolveu o tema em mais outras trinta e quatro (34) delas. Pelo menos é o que temos em suas cartas publicadas, pois sabe-se que nos volumes que vieram a público não estão todas as suas correspondências ― sendo a última em 30 de janeiro de 1961, ano de sua morte.

A pretensão do autor é fazer uma viagem comentada pela correspondência de Jung, em ordem cronológica, para sentir como Jung tratou do tema de uma forma descontraída, pois assim é considerada sua correspondência.

Em sua primeira citação sobre o mal, em novembro de 1944, ano em que quebrou a perna e teve um infarto agudo do miocárdio, enfermidade que quase o levou a morte, Jung fala do mal e do poder e diz que o mal está no ser humano. Nesta primeira carta cita o mito gnóstico do Anthropos para afirmar que a 'divindade una', ao construir o homem primordial, deu-lhe a possibilidade do bem e do mal:


"Quanto ao problema do mal e do poder sempre me ocorreu que Macht (poder) provém de machen (fazer); e como 'fazer' é uma atividade específica do ser humano, pode-se concluir eventualmente que a expressão característica do ser humano traz o caráter do mal e que em conseqüência o Anthropos é realmente Lúcifer." (JUNG, 2001. p. 357).
No pós-guerra, Jung escreveu ao seu amigo Henley e narra que durante a guerra o mal chegou ao seu extremo e que de certa forma foi um aprendizado penoso para todos. Hoje vemos que a guerra não cessou nem cessará, pois o caminho da humanidade para a consciência é longo e difícil.
"Eu realmente nunca havia pensado que o homem pudesse ser tão absolutamente mau. Pensei que pudesse ser mau, tendo o mal ao menos certo caráter, mas na Alemanha o mal chegou ao extremo da perversão. Foi uma imundície de maldade, inimaginavelmente pior do que a perversidade normal. Mas como a Alemanha não está na Lua, tirei minhas conclusões com referência ao restante da humanidade." (JUNG, 2002, p. 28).
Não se pode perder a meta de que ao lidar com o Deus metafísico lida-se com a divindade que é Una. Entretanto, o parâmetro humano é a dualidade, portanto em questões como o bem e o mal vamos ter sempre duas visões, a de Deus e a do homem. Para fugir um pouco da palavra Deus pode-se usar arquétipo, que para tal fim não faria muita diferença, principalmente o arquétipo que Jung chamou de si-mesmo. Suas palavras em uma carta são:
"Quando digo 'Deus', isto é uma imagem psíquica. Também o si mesmo é uma imagem psíquica do transcendente, porque é uma totalidade indescritível e inatingível da pessoa. Ambos são expressos empiricamente pelos mesmos símbolos ou por símbolos semelhantes, de modo que não se pode distingui-los entre si." (JUNG, 2002, p. 93).
Na ocasião desta carta a Fierz, a guerra já tinha terminado há cerca de três anos e a lembrança de seus horrores ainda afloravam e de certa forma estavam muito vivos. Por isto Jung escreve sobre Neumann e lembra ao seu destinatário que ele (Neumann), como representante de um povo está sofrendo o mal gigantesco que foi o Holocausto, com o agravante de quem já tinha presenciado uma das mais encarniçadas guerras que foi a retroativamente chamada 1ª Guerra Mundial, ou como ainda chamam hoje a "Grande Guerra".
"Devemos lembrar-nos também que Neumann é judeu e por isso conhece o cristianismo a partir de fora; e além do mais é preciso saber que foi demonstrado aos judeus de modo muito drástico que o mal 'sempre é projetado'." (JUNG, 2002, p. 124).
Nesta carta Jung lembra que foi buscar em São Tomás de Aquino uma explicação melhor para a privatio boni e seus silogismos conseqüentes onde o mal é muito minimizado ou até anulado. Infelizmente não encontrou lá nada confortante, como não iria encontrar em nenhum nome da patrística católica. Aborda o fato psicológico de que para o ser humano, que vê o mundo pelo seu eu em formação, bem e mal não passam de mais duas metades de uma sizígia e como tal têm pesos iguais. Em seqüência lembra o fato histórico do demônio e o inferno não serem uma criação recente e sim algo que acompanha a humanidade.
"Também mergulhei em Sto. Tomás, mas não me senti refrescado com isso. Todos desconsideram o fato de que o bem e o mal são as metades equivalentes de um julgamento lógico. Todos se omitem também de discutir a eternidade do demônio, do inferno e da condenação, coisas que certamente não são 7, nem são boas (isto é, boas apenas para os espectadores celestes)." (JUNG, 2002, p. 147).
A seguir Jung tenta explicar porque foi sarcástico em uma missiva anterior e como o sarcasmo atua no lugar do pecado para que ocorra uma libertação do Pai, assim como o jovem deve se libertar dos seus pais terrenos para que possa concluir sua jornada na terra. O pecado vem do grego 'harmatia' e tem o significado primitivo de 'errar o alvo'. De certa maneira quando o sarcasmo é usado, o alvo não está sendo alcançado, pois não está sendo objetivado. O pecado é a necessidade do ser humano de ir contra a divindade para com isto ter a chance de compreendê-la e saber que nunca será como ela.
"Talvez seja mais difícil libertar-se do bem do que do mal. Mas sem o pecado não há libertação do bom Pai; neste caso o sarcasmo desempenha o papel correspondente." (JUNG, 2002, p. 204).
Deve-se perguntar então se um arquétipo sabe o que é bem e mal, se sabe o que é mau ou bom para o ser humano. Acredita-se que o arquétipo tenha os dois dentro de si e os use indiscriminadamente sem se importar como tal. Seres humanos possuem a visão dualista bom x mau, bem x mal, claro x escuro, gosto x não gosto e, assim, tendem a classificar tudo a sua volta. Mesmo quando são extremamente unilaterais, estão agindo num sistema dualista em que o outro pólo não está sendo considerado no momento. Nas palavras de Jung para o pastor White, aliás, a segunda de uma série de importante comunicação.
"Simplesmente não sabemos como os opostos estão reconciliados ou unidos em Deus. Também não entendemos como estão unidos no si-mesmo. O si-mesmo é transcendental e só parcialmente consciente. Empiricamente ele é bom e mau. Assim como os 'atos de Deus' tem indiscutivelmente aspectos contraditórios. Mas este fato não justifica o julgamento teológico de que Deus seja bom ou mau. Ele é transcendental, assim como o si-mesmo, e por isso não está sujeito à lógica humana." (JUNG, 2002, p. 227).
Jung destaca aqui um dos perigos da privatio boni que perdura até os dias de hoje: o menosprezo do mal alegando ser ele a ausência do bem. Segundo a teoria de Jung quando desprezamos um lado de uma bipolaridade o outro cresce como uma sombra e em dado momento explode com sua presença avassaladora. Jung volta aqui com a problemática de que o ser humano só sabe lidar com os opostos ou ele transforma o Uno em polaridade ou o ignora.
"Do ponto de vista prático, a doutrina da privatio boni é moralmente perigosa, porque torna pequeno e irrealiza o mal; e desse modo também diminui o bem, pois tira-lhe o seu oposto necessário: não há branco sem preto, direita sem esquerda, em cima sem embaixo, calor sem frio, verdade sem erro, claridade sem escuridão, etc." (JUNG, 2002, p. 235).
Nesta outra carta ao padre White, Jung ressalta que o modo de se ver a divindade irá com certeza definir a substancialidade do mal, mas mantém sempre a posição do mal como ser oposto a divindade, se considerá-la sumamente boa.
"O ponto crucial parece estar na contaminação das duas noções incongruentes de Deus e de ser. Se o senhor supõe, como eu suponho, que Deus é um juízo moral e não substancial em si mesmo, então o mal é o seu oposto e tão não substancial como o primeiro. Mas se o senhor supõe que Deus é ser, então o mal nada mais pode ser do que não-ser." (JUNG, 2002, p. 246).
Aqui Jung é taxativo em mostrar a realidade do mal e chega a denominar o demônio como uma entidade, que pode às vezes possuir o ser humano. É claro que essa possessão é pelo inconsciente pessoal do indivíduo e devidamente alimentado pelo inconsciente coletivo. Como acima, não se pode pensar o mal como um ser, senão o bem seria a ausência do mal e fica-se preso a uma doutrina dogmática que poderia ser chamada de "privatio malum8".
"O demoníaco, ao contrário, baseia-se no fato de que há forças inconscientes de negação e destruição e de que o mal é real. Reconhece-se por exemplo o demoníaco não só porque práticas de magia negra são possíveis mas também porque possuem um efeito sinistro, e poderíamos supor até que o praticante da magia negra estivesse possuído por um demônio." (JUNG, 2002, p. 256).
Na carta para a psicóloga Robb, Cartas II, p. 267, Jung só toca no assunto do mal, não declarando nada que possa ser acrescentado ao presente trabalho.

Mais uma carta inesquecível de Jung para o padre White. De uma maneira contundente mostra a um clérigo os dois lados da divindade, assunto este, que tinha sido o tópico principal do seu livro editado no ano anterior, "Resposta a Jó". Reforça também a subjetividade do ser humano em distinguir entre o bem e o mal e até a flutuar entre eles. Jung coloca Javé como a divindade suprema contrariando o que já sabia de seus estudos gnósticos, pois parece que não queria chocar em demasia o seu querido amigo já tonto com a leitura de "Resposta a Jó".


"Cristo como um símbolo está longe de ser inválido, ainda que ele seja um lado do si-mesmo e o demônio seja o outro. Este par de opostos está contido no Criador como sua mão direita e esquerda, como diz Clemente Romano. Do ponto de vista psicológico, a experiência de Deus criador é a percepção de um impulso irresistível, provindo da esfera do inconsciente. Não sabemos se esta influência ou compulsão merece ser chamada de boa ou ruim, mesmo que não possamos deixar de saudá-la ou amaldiçoá-la, dando-lhe um nome bom ou mau, de acordo com a nossa disposição subjetiva. Javé possui os dois aspectos porque é essencialmente o criador (primus motor) e porque ainda é irrefletido em toda sua natureza." (JUNG, 2002, p. 304).
Enquanto o ser humano não for capaz de entender que o seu modo de ver o mundo foi feito para distinguir e vivenciar os opostos e, que com certeza um deles não vai ser bom - pelo menos num dado momento - não poderá caminhar para o passo seguinte; entender que a divindade precisa dele e sem ele não realiza os seus desígnios.
"É exatamente isto que S. João da Cruz descreve como 'a noite escura da alma'. É o predomínio da escuridão, que também é Deus, mas uma provação para a pessoa humana. A divindade tem um duplo aspecto; e, segundo o Mestre Eckhart, Deus não é feliz em sua mera divindade, e este é o motivo de sua encarnação." (JUNG, 2002, p. 305).
Quando o problema é social, Jung preocupa-se com a sombra coletiva, e é um pouco pessimista, principalmente porque as conseqüências da guerra ainda ressoavam na Europa. Ainda assim relembra ao ser humano a sua necessidade básica de imitar o simbolismo de Cristo, no seu caminho para enfrentar Satanás e também para colher os louros de 'passear sobre as águas'. Acrescenta que ele precisa entender que cada caminho percorrido apenas abre mais uma porta para mais um caminho a ser percorrido, e nenhum deles é asfaltado.
"Na verdade, nossa sociedade nem começou a defrontar-se com sua sombra e nem a desenvolver aquelas virtudes cristãs tão urgentemente necessárias para lidar com as forças da escuridão. Nossa sociedade não pode dar-se o luxo de separar-se da imitatio Christi, mesmo que soubesse que o conflito com a sombra, isto é, Cristo contra Satanás, é apenas o primeiro passo no caminho para o objetivo mais distante da unidade do si-mesmo em Deus." (JUNG, 2002, p. 305).
Na carta enviada a Neumann, Cartas II, p. 317, só existe uma referência a privatio boni e às colocações de Martin Buber, sem nenhuma idéia que possa ser aproveitada aqui.

Para um teólogo holandês, Jung defende-se das acusações que sofreu com a publicação de seu livro 'Resposta a Jó' e entra no assunto polêmico, até os dias de hoje, que é a manipulação da igreja para contornar a dualidade de um deus judeu que nos parece mais um deus secundário do que o Deus único, a Mônada.


"Concordo com o senhor que minhas afirmações (em Resposta a Jó) são chocantes, mas não mais, e até bem menos, do que as manifestações da natureza demoníaca de Javé no AT. Os midraxes sabem disso, mas a igreja cristã precisou inventar este espantoso silogismo da privatio boni para anular a ambivalência original do Deus judeu." (JUNG, 2002, p. 323).
Um ponto central na teoria junguiana, feita de avaliações empíricas, é a necessidade básica de cada ser humano conhecer os opostos que habitam dentro de si, principalmente o bem e o mal.
"Esta diferenciação moral é um passo imprescindível no caminho da individuação. Sem profundo conhecimento do 'bem e do mal', do eu e da sombra, não existe conhecimento do si-mesmo, mas no máximo uma identificação arbitrária e, por isso, perigosa com ele." (JUNG, 2002, p. 325).
Em 10 de abril de 1954 Jung escreveu uma longa carta ao padre Victor White. Colocá-la aqui em toda sua extensão extrapola a limitação de uma monografia, portanto serão pinçados alguns trechos representativos; estratégia que também será adotada em outras cartas mais longas. Um trecho importante fala da sombra de Cristo e remete o padre White na tentativa de compreender que o si-mesmo, por ser único, contém a dualidade.
"Eu diria que Cristo conhecia sua sombra-Satanás - que ele afastou de si logo no início de sua carreira. O si-mesmo é uma unidade, consistindo porém de duas, isto é, de opostos, caso contrário não seria uma totalidade. Cristo se divorciou conscientemente de sua sombra." (JUNG, 2002, p. 334).
Logo adiante, Jung apresenta certa evolução da divindade quando o ciúme é revelado para o ser humano. O povo judaico então percebe que a divindade traz a dualidade indistintamente e a história de Jó9 vem nos contar exatamente isto.
"Foi um grande passo à frente quando Javé se revelou um Deus ciumento, fazendo seu povo escolhido saber que ele estava por trás dele com bênção e punição, e que o objetivo de Deus era o ser humano. Não sabendo proceder melhor, eles o enganavam obedecendo literalmente à sua lei." (JUNG, 2002, p. 335).
Para o ser humano é uma grande dificuldade lidar com o absoluto, seja ele o bem ou o mal. Cristo deu o exemplo há 2000 mil anos atrás, ao lidar com sua sombra em forma de demônio. Este lidar não é sumir com a sombra, sumir com o mal, escondendo-o, e sim interagir com ele para fazer a consciência surgir a cada momento. Os opostos não podem ser unidos no ser humano, isto só acontece na divindade. O homem precisa oscilar de um oposto ao outro, sem parar e, no máximo aproximá-los para que a distância se torne menor, já que a fusão só acarretaria a aniquilação.
"Agora deve começar uma nova síntese. Mas como pode o mal absoluto ser conectado e identificado com o bem absoluto? Parece impossível. Quando Cristo resistiu à tentação de Satanás, este foi o momento fatal em que a sombra foi cortada. Mas ela deveria ser cortada de forma tal a possibilitar ao homem tornar-se moralmente consciente. Se os opostos morais pudessem ser unidos de todo, eles seriam neutralizados e já não haveria moralidade alguma. Certamente não é isto que a síntese quer." (JUNG, 2002, p. 336).
Jung continua na mesma carta ao padre White a tratar do problema da dualidade e coloca com maestria a importância do simbólico para que a função transcendente atue entre os opostos. A cruz representa dois opostos na posição norte e sul e mais dois opostos na posição leste e oeste. O primeiro faz a ponte do divino com o humano, ao qual Jung se referiu ao falar das folhas e das raízes das árvores. Os braços da cruz ligam o ocidente ao oriente no mesmo plano, na busca pela irmandade que faz de nós iguais pelo simples fatos de sermos individuais.
"Num tal caso de irreconciliabilidade, os opostos estão unidos por uma ponte neutra ou ambivalente, um símbolo que expressa ambos os lados de tal forma que eles podem funcionar juntos. Este símbolo é a cruz em sua interpretação tradicional como a árvore da vida ou simplesmente como a árvore em que Cristo está preso sem poder fugir. Esta característica especial indica o sentido compensador da árvore: a árvore simboliza aquela entidade da qual Cristo foi separado e com a qual deveria ser conectado novamente para tornar completa sua vida ou seu ser. Em outras palavras, o crucificado é o símbolo que une os opostos morais absolutos. Cristo representa a luz; a árvore, a escuridão; ele é o filho, a árvore é a mãe. Ambos são andróginos (árvore = falo). Cristo está tão identificado com a cruz que os dois termos se tornaram quase intercambiáveis na linguagem eclesiástica (por exemplo: 'redimido por Cristo ou pela cruz', etc.). A árvore traz de volta tudo o que foi perdido pela extrema espiritualização de Cristo, principalmente os elementos da natureza. Através de seus ramos e folhas, a árvore reúne as forças da luz e do ar; e, por meio de suas raízes, reúne as forças da terra e da água." (JUNG, 2002, p. 336).
Na data desta carta Jung ainda estava impressionado com as duas bombas atômicas jogadas no Japão em 1945, assustado com a Guerra da Coréia, de fim recente e sempre bombardeado com as notícias da desenfreada corrida armamentista dos EUA e URSS, na Guerra Fria. Frente a estes fatos, Jung lembra que o poder divino de manipular os átomos e a radiação já estava nas mãos do homem e podia ser usado a qualquer momento para a aniquilação total. O poder adquirido pela manipulação atômica dá a falsa impressão ao homem de poder ser Deus e, de certa maneira, de que Deus pudesse ser homem.
"Isto é um mistério terrível e de difícil compreensão, pois significa que o ser humano será essencialmente Deus, e Deus essencialmente ser humano. Os sinais que apontam nessa direção consistem no fato de que o poder cósmico de autodestruição é posto nas mãos dos homens, e o homem assume a natureza dúplice do Pai. Ele a compreenderá mal e estará tentado a destruir toda a vida da terra pela radioatividade. O materialismo e o ateísmo - a negação de Deus - são meios indiretos para atingir este objetivo. Negando Deus, o homem se deifica, isto é, fica tão poderoso como Deus e sabe o que é bom para a humanidade. É assim que começa a destruição. Os mestres-escola intelectuais do Kremlin são exemplo clássico disso. É grande o perigo de seguir o mesmo caminho. Ele começa com a mentira, isto é, a projeção da sombra."

"Há necessidade de pessoas que conheçam sua sombra, pois precisa haver pessoas que não projetem. Deveriam estar numa posição visível, onde seria de se esperar que projetassem, mas inesperadamente elas não projetam! Poderiam dar um exemplo visível, que não seria visto se elas fossem invisíveis." (JUNG, 2002, p. 337).


De fato Jung combatia ferozmente a teoria do summum bonum10 e aqui vamos encontrar o assunto discutido mais uma vez com destaque, para mostrar que esvaziar o mal de uma substância não vai fazer a humanidade ficar melhor.
"Isto é compreensível em termos de sua natureza paradoxal, mas não em termos do summum bonum que, por definição, já contem todo o necessário para sua perfeição. Por isso ele também não precisa das pessoas, ao contrário de Javé. Tenho de questionar a doutrina do summum bonum na medida em que 11 do mal tira deste qualquer substância e só deixa o bem, ou simplesmente nada, o qual, sendo nada, também nada produz, isto é, não pode causar o mínimo impulso mau. E, como não é nada, também não pode provir do ser humano. Além disso, o demônio existiu antes do homem, e certamente não foi bom. Mas o demônio não é nada. Portanto, o oposto do bem não é nada, mas sim um mal igualmente real." (JUNG, 2002, p. 404).
Cristo desceu ao inferno e lutou com o diabo, vencendo-o, mas isso não quer dizer que o diabo tenha sido eliminado ou suprimido do mundo. Pelo contrário, ele aparece cada vez mais nas artes e na literatura. Nesta carta aparece um dilema crucial que vai ser desenvolvido na conclusão do trabalho: devemos ser maus ou bons? Devemos ser igualmente bons e maus? Devemos conscientizar o nosso mal e assim não precisar fazê-lo no nosso cotidiano? Como devemos nos comportar na vida prática frente a este problema secular?
"(...) No símbolo de Cristo está certamente sugerida a vitória sobre o mal, através da descida aos infernos e abertura da prisão. Mas nunca se ouviu dizer que, depois disso, o demônio tivesse abandonado de alguma forma a vida terrestre; ao contrário, é opinião aceita no Novo Testamento que ele, após o reinado de mil anos de Cristo, será solto novamente sobre a terra em todo seu frescor juvenil, na forma do Anticristo. Também, como a senhorita diz muito bem, uma luz forte é o melhor projetor de sombras, supondo-se que fora dele exista algo que possa projetar sombra. Até mesmo os santos projetarão sombra. Também não se sabe se haveria mais bem do que mal, ou que o bem seria mais forte do que o mal. Só podemos esperar que o bem predomine. Quando identificamos o bem com o construtivo, existe a possibilidade de que a vida continue numa forma mais ou menos suportável; mas se o destrutivo predominasse, o mundo já teria desaparecido. Isto não aconteceu ainda; podemos supor então que o positivo supera o negativo. Por isso é suposição otimista da psicoterapia que a conscientização acentua mais a existência do bem do que do mal obscurecedor. A conscientização é de fato uma reconciliação dos opostos e constitui assim um terceiro mais elevado." (JUNG, 2002, p. 421).
A privação do mal que foi tão bem realçada por Santo Agostinho é novamente colocada nestas páginas, só que agora para um teólogo protestante que como tantos outros ou fugiam do problema ou faziam afirmações repetitivas que atualmente não convencem nem a uma criança de 6 anos.
"O protestantismo se defronta com questões que algum dia devem ser ditas em voz alta como, por exemplo, o abominável sofisma da privatio boni, que até mesmo teólogos protestantes estão dispostos a subscrever. Ou a questões da relação entre o Deus do Antigo e do Novo Testamento, que eu submeti a quatro professores acadêmicos. Dois nem sequer me responderam." (JUNG, 2002, p. 444).
Mais uma carta da qual é preciso colocar uma parte mais extensa. Em primeiro lugar porque Jung responde sobre a gênese de seu livro tardio e polêmico, demonstrando sem dúvidas quanto tempo esta questão do bem e do mal foi ruminada por ele e só em 1952 veio a público, quando Jung tinha 77 anos de idade. Em segundo lugar pela recorrente colocação de que a privatio boni12 não encontra respaldo na psicologia profunda e nas observações empíricas com seus pacientes. Nesta época Jung já tinha 55 anos de formado e de atuação como clínico.
"Seu pedido de contar-lhe como Resposta a chegou a ser escrito coloca-me diante de uma tarefa difícil, porque a história deste livro não pode ser contada em poucas palavras. O problema central dessa obra ocupou-me por anos. Muitas e diferentes fontes alimentaram a torrente de suas reflexões, até que um dia - e após longa consideração - o tempo parecia maduro para colocá-las em palavras."

[...]


"Ligada à discussão desses problemas e à doutrina da redenção, critiquei a idéia da privatio boni como não condizente com os conhecimentos psicológicos. A experiência psicológica mostra que tudo o que chamamos 'bom' é contrabalançado por um 'mal' igualmente substancial. Se o 'mal' é 13 - não existente - então tudo o que existe deve ser 'bom'. Dogmaticamente nem 'bom', nem 'mal' podem ser derivados do ser humano, pois o 'Malévolo' existiu antes do ser humano como um dos 'filhos de Deus'. A idéia da privatio boni começou a ter um papel na Igreja só depois de Mani. Antes dessa heresia, Clemente Romano ensinou que Deus governa o mundo com uma mão direita e outra esquerda, sendo a direita Cristo e a esquerda, Satanás. A posição de Clemente é claramente monoteísta, pois une os opostos num só Deus." (JUNG, 2002, p. 447).
O ser humano continua com a visão dualista que lhe é própria e com ela interpreta e tenta entender os arquétipos, a divindade, o diabo. Mas quando tenta entender algo que está acima dele e é Uno, não pode chegar a nenhuma conclusão e só lhe resta a ansiedade e a angústia. Para a divindade única e metafísica não há consideração sobre o bem e o mal e Ele nos envia sua totalidade sem distinção. Quando o homem gosta de alguma coisa, chama de bem e, quando não, de mal.
"A amoralidade de Javé, ou sua notória injustiça, transforma-se na exclusiva bondade de Deus apenas na encarnação. Esta transformação está ligada ao seu tornar-se pessoa humana e só existe enquanto concretizada através do cumprimento consciente da vontade de Deus no ser humano. Se isto não se realizar, revela-se não apenas a amoralidade do criador, mas também sua inconsciência, isto é, acontece irrefletidamente o bem e o mal, ou, em outras palavras, não há bem ou mal, mas apenas um acontecer indiferente, que os budistas chamam de corrente nidana, ou seja, a ininterrupta concatenação causal que leva ao sofrimento, à velhice, à doença e à morte." (JUNG, 2003, p. 33).
Nesta longa carta escrita para a doutora Kotsching, o primeiro destaque se dá para a percepção dualista que o homem possui do mundo e também de sua única arma de observação que é a consciência sendo precedida pelos 5 sentidos. Jung afirma de certa maneira que o mundo ainda está em construção e que o Deus que o construiu não tinha muita consciência de sua criação.
"A senhora sabe que nós seres humanos somos incapazes de explicar qualquer coisa que acontece fora ou dentro de nós mesmos sem o emprego dos meios intelectuais à nossa disposição. Sempre temos de usar elementos psíquicos semelhantes aos fatos que acreditamos ter observado. Por isso, quando tentamos explicar como Deus criou seu mundo ou como se comporta em relação ao mundo, a analogia que usamos é a maneira como nosso espírito criativo produz e se comporta."

"Quando consideramos os dados da paleontologia de que um criador consciente tenha levado talvez mais que um bilhão de anos para criar a consciência, parece-nos que ele percorreu infindos desvios; e se quisermos explicar seu agir, chegamos inevitavelmente à conclusão de que seu comportamento é muito semelhante ao de um ser com, no mínimo, uma consciência bem limitada. Mesmo tendo consciência das coisas existentes e dos próximos passos a dar, parece não ter previsão do objetivo final, nem conhecer os caminhos que levam diretamente a ele. Portanto, não seria uma inconsciência absoluta, mas uma consciência mais fraca. Semelhante consciência levaria inevitavelmente a inúmeros erros e impasses, com as mais cruéis conseqüências: doença, mutilação, lutas terríveis, isto é, exatamente as coisas que aconteceram e estão acontecendo em todos os campos da vida. Além do mais, é impossível para nós imaginar que um criador, produzindo um universo do nada, estivesse consciente de alguma coisa, pois todo ato de conhecimento se baseia no discernimento; assim, por exemplo, não posso ter consciência de outra pessoa se eu for idêntico a ela. Se não existe nada fora de Deus, então tudo é Deus e, neste caso, é impossível o autoconhecimento." (JUNG, 2003, p. 34).


O homem foi criado para que, através dele, a consciência fosse estabelecida gradativamente e, com isto, o mundo continuasse em constante aperfeiçoamento. Um Deus vai ser tão bom em função da bondade adquirida por poucos seres humanos. O autor acredita que foi o que aconteceu com Santo Agostinho. Ele se julgava um homem bom e projetou sua bondade na divindade. Por fim Jung usa o mito de Adão e Eva e as suas expulsões do Paraíso para demonstrar que só depois do conhecimento é que o bem e o mal aparecem, seguindo-se sua conseqüente separação.
"Ainda que a encarnação divina seja um acontecimento cósmico e absoluto, ela se manifesta empiricamente apenas naqueles poucos indivíduos, capazes de consciência suficiente para tomar decisões éticas, isto é, de decidir-se pelo bem. Por isso, Deus só pode ser chamado bom na medida em que é capaz de manifestar sua bondade nos indivíduos. Sua qualidade moral depende dos indivíduos. Eis a razão por que se encarnou. A individuação e a existência individual são indispensáveis para a transformação do Deus criador."

"O conhecimento do que é bom não é dado a priori; pressupõe uma consciência que saiba discernir. Este já é o problema no Gênesis, onde Adão e Eva precisam primeiro ser esclarecidos para reconhecer o bem e discerni-lo do mal. Não existe algo como o 'bem' em geral, pois algo absolutamente bom pode ser absolutamente mau em outro caso. Os indivíduos são muito diferentes, seus valores são diferentes e suas situações variam tanto que não podem ser julgados por valor e princípios gerais. Por exemplo, a generosidade é sem dúvida uma virtude, mas torna-se vício tão logo seja aplicada a um indivíduo que a compreende mal. Neste caso deve haver discernimento consciente." (JUNG, 2003, p. 36).


Ao escrever esta carta para E. Neumann Jung fez colocações de tal importância que fica difícil encurtar seu pensamento, principalmente num tema tão discutido nos dias de hoje como a ética. Começa a dissertação com a refutação da suposta liberdade do ser humano para escolhas, e aqui se pode admitir que, na realidade tem-se a liberdade de escolher os patrões, mas sempre vamos ter um. Os gregos já haviam percebido que a ética já está dentro de nós, pois a palavra "ethos" quer dizer em grego antigo "morada do homem", conforme se observa em Murachco (1997, p. 32).. Este tema também vai ser mais desenvolvido na conclusão da monografia. No texto abaixo as palavras de Jung para seu amigo em Israel.
"O mal é e sempre será aquilo que não se deve praticar, como se sabe. Mas infelizmente o ser humano se sobreestima a este respeito: pensa que é livre para escolher entre o bem e o mal. Ele pode imaginar isto, mas, em vista da magnitude desses opostos, é pequeno e impotente demais para escolher livremente e em qualquer circunstância um ou outro. Acontece antes o seguinte: por razões mais fortes do que ele, pratica ou não o bem que gostaria, da mesma forma como o mal lhe sobrevém como uma desgraça."

"Ética é aquilo que torna impossível ao ser humano praticar intencionalmente o mal e o força - muitas vezes com pouco êxito - a fazer o bem. Isto significa que ele pode fazer o bem e não pode evitar o mal, ainda que sua ética o leve a testar as forças de sua vontade neste sentido. Na verdade ele é a vítima dessas forças. Precisa admitir que não consegue evitar de todo o pecado, mas, por outro lado, tem a esperança de poder fazer o bem. Mas como o mal é inevitável, nunca sairemos completamente do pecado, e isto é um fato que precisa ser reconhecido. Ele enseja não apenas uma ética nova, mas considerações éticas diferenciadas, como a pergunta: como agir diante do fato de que não posso livrar-me do pecado? A instrução, contida no lógion de Cristo 'Se sabes o que fazes...', indica um caminho para a solução ética do problema: eu sei que não quero o mal, mas faço-o assim mesmo, não por escolha própria, mas porque me acomete irresistivelmente. Enquanto pessoa humana sou fraco e combalido, de modo que o mal consegue dominar-me. Sei que o faço e o que fiz, e sei que durante minha vida toda estarei no tormento dessa contradição. Evitarei o mal onde puder, mas cairei sempre de novo neste buraco. Eu me esforçarei, porém, para viver como se este não fosse o caso; farei das tripas coração para agradar o Senhor, como o administrador infiel que intencionalmente apresentou um balanço falsificado." (JUNG, 2003, p. 82).


Numa carta dirigida a um pastor inglês, Jung especifica o mal como real e pertencente ao todo, ao divino e, portanto, pronto a assolar qualquer homem na face da terra. Na mesma carta, fala do mal surgindo com a consciência e, logo o mal como parte integrante da humanidade e que dele não pode se livrar. Logo abaixo, reforça que do mal em si não consegue falar, só do mal subjetivo e, destaca a dualidade do próprio mal, um mal puro, real, ligado ao divino e um mal misturado nas projeções humanas, um mal irreal e subjetivo que pode se transformar em bem a qualquer momento.
"A 'queda', por exemplo, corresponde à experiência de que toda pessoa se desvia desde o início do caminho prescrito. Sou tentado e até mesmo possuído sempre de novo por forças do mal (como São Paulo), e o pecado se mistura nolens volens ao meu pão de cada dia [...]"

"Quando falo do 'pecado original' entendo aquilo que a doutrina da Igreja chama de peccatum originale, o pecado de Adão, isto é, a desobediência do ser humano. Ela se mostra claramente na vida de cada um como desvio inevitável do estado de graça, onde ainda não tinha havido pecado [...]"

"Evidentemente sou incapaz - como qualquer outra pessoa - de definir o que é o mal em si. Não há nada que às vezes não possa ser chamado de mal. É uma qualificação subjetiva, apoiada num consenso mais ou menos geral. O desvio do nume parece ser entendido universalmente como o pior e mais original pecado." (JUNG, 2003, p. 87).
Aqui, Jung contesta a subscritora quanto à facilidade de praticar o bem devido às benesses alcançadas por esta prática. Por outro lado dá vida própria ao mal como um ser a se intrometer na vida do ser humano e a desviá-lo de seu caminho. Coloca a resposta na busca da consciência e de certa forma na compreensão do inevitável. Encerra o parágrafo com a colocação de que bem e mal são conceitos humanos e que nunca vão desaparecer e, termina com a sugestão, para a leitora, de que o ideal está no caminhar do ser humano, sempre na busca da compreensão da divindade última e suprema.
"Sua pergunta - por que é mais difícil praticar o bem do que o mal - não está bem colocada, porque normalmente é mais fácil praticar o bem do que o mal. É verdade que nem sempre é fácil fazer o bem, mas as conseqüências de 'praticar o bem' são muito mais agradáveis do que as de 'praticar o mal', de modo que com o tempo a gente faz o bem e evita o mal por simples razão prática. É claro que o mal se intromete em nossa boa intenção e, para tristeza nossa, nem sempre pode ser evitado. A tarefa então é compreender por que isto é assim e como pode ser suportado. Em última análise, bom e mau são julgamentos humanos; o que é bom para alguém é mau para outro. Mas com isso não ficam abolidos o bem e o mal; este conflito está presente sempre e em toda parte e está relacionado com a vontade de Deus." (JUNG, 2003, p. 101).
A conjunção divina é para ser sentida e experienciada pois, quando é transformada em palavras projetivas, apresenta uma série de equívocos. O que chega para nós não é o arquétipo em si - senão seríamos queimados qual Sêmele por Zeus - e, sim, uma figuração do seu ser e com ela devemos tentar compreender o todo que contém a polaridade em harmonia. Como o ser humano usa os opostos em confrontação, assim ele julga que a divindade também o usa. Jung deixa este assunto bem claro em uma exposição magnífica e vale a pena ler sua narrativa na seleção dos três trechos abaixo.
"A descrição da coniunctio em palavras humanas é tarefa que pode levar ao desespero, pois se está obrigado a encontrar expressões e formulações para um processo que ocorre 'in Mercurio' e não no plano do pensamento e linguagem humanos, isto é, não na esfera da consciência discernente. Do lado de cá da barreira epistemológica temos de separar os opostos para chegar a uma linguagem compreensível."

"[...] O fato é que as figuras atrás da cortina epistemológica, isto é, os arquétipos, são uniões 'impossíveis' de opostos, seres transcendentais que só podem ser percebidos através da confrontação com seus opostos. Bom só pode ser entendido como 'não mau', dia como 'não noite', etc."



"[...] Uma vez que a coniunctio é um processo essencialmente transcendental, isto é, arquetípico, e a nossa atitude mental é ainda essencialmente cristã, enfatizamos o Espírito, o Bem, a Luz, o Acima, o espiritualizado, isto é, o sutil, a pureza, a castidade, etc. e separamos tudo isso de seu oposto; contudo somos forçados a mencioná-lo, mesmo que para negá-lo, desprezá-lo ou condená-lo. O oposto está ali porque ele pertence inevitavelmente à realidade transcendental, arquetípica. O bem não pode existir sem o mal [...]" (JUNG, 2003, p. 111).
Ao escrever esta outra carta para Trinick, Jung disserta sobre a metodologia da alquimia que no fundo admite a coniunctio oppositorum14. Destaca-se que a alquimia não era ingênua de acreditar numa fusão dos opostos com uma aniquilação, ou seja, uma sobreposição. De certa forma a busca dos alquimistas pela pedra filosofal, que lembra uma busca de Cristo é uma busca pela aproximação dos opostos. Se o ser humano tentar converter um oposto achando que o outro é melhor, com certeza estará brincando de Deus e queimar no fogo é uma conseqüência inevitável.
"Assim procedendo, a alquimia chegou a um resultado que na verdade não coincide com o objetivo cristão. Por isso o símbolo cristão ficou sendo mais ou menos uma analogia da pedra, ou a pedra um equivalente de Cristo. O método para este fim foi uma coniunctio oppositorum, que não é uma idéia cristã, pois a psicologia histórica cristã pensa antes na supressão do mal do que numa complexio boni et mali. A alquimia ousou a idéia de uma certa transformação do mal com a perspectiva de sua integração futura. Neste sentido deu continuidade ao pensamento de Orígenes que, no final, até o demônio seria redimido, um pensamento não apoiado pela Igreja." (JUNG, 2003, p. 118).
Na mesma carta ocorre a tentativa de demonstrar que a alteração da figura de Cristo para a figura da pedra ou lapis15 é, de certa maneira, uma saída de um grupo medieval para demonstrar que em Cristo deveriam estar os opostos e que a Trindade cristã fica desequilibrada, pois falta-lhe um oposto ou melhor, este foi omitido. A sociedade é o somatório de seus indivíduos mas, quando o problema é a sombra coletiva, a psique da sociedade se nivela por baixo e lidar com a projeção de sombra de um povo é algo complicado.
"Se, pois, o pensamento alquimista coincide no essencial com a idéia cristã em geral, não se consegue ver claramente qual a finalidade de transformar o pensamento cristão nos símbolos alquimistas e por que o objetivo da alquimia é a Lapis e não Cristo. Por que afinal falar em Lapis? Mas o fato de a Lapis ser uma existência diferente da de Cristo mostra que a alquimia tem realmente outro objetivo em mente. Isto é óbvio uma vez que a Lapis deriva de uma síntese de opostos, o que o Cristo dogmático absolutamente não é. Por essas razões não posso concordar com a interpretação cristã do processo alquimista. Ao contrário, vejo na alquimia uma tentativa de solução diferente: realizar a união dos opostos que falta na doutrina histórica cristã. De acordo com isso, o espírito predominante da alquimia é Mercurius utriusque capax e não a terceira pessoa da Trindade, isto é, o Summum Bonum. Isto é um problema dos tempos modernos que projeta sua sombra desde o começo do novo milênio." (JUNG, 2003, p. 118).
Jung vem conduzindo sua carta a Kersey de modo a admitir que conhece-se pouco a divindade e a matéria, mas que temos de admitir a existência das duas. No parágrafo seguinte, transcrito abaixo, Jung ainda admite a existência do Summum Bonum se fosse algo inalcançável pelo ser humano. No entanto, de imediato ressalta que, também, temos de admitir que na 'realidade última' encontram-se todos os opostos do criador. Conclui ser muito difícil explicar a existência do mal com a presença de uma divindade que é totalmente boa.
"Sob essas circunstâncias é permissível admitir que o Summum Bonum é tão bom, tão superior, tão perfeito, mas tão remoto que está além de nossa percepção. Mas com o mesmo direito é permissível admitir que a realidade última é um ser que representa todas as qualidades de sua criação, com suas virtudes, razão, inteligência, bondade, consciência, e seus opostos - um completo paradoxo à nossa compreensão. O último ponto de vista corresponde aos fatos da experiência humana, ao passo que o primeiro não consegue explicar a existência óbvia do mal e do sofrimento." (JUNG, 2003, p. 150).
Aqui a referência não pode ser encurtada sem a lastimável perda de um conteúdo importante e também com grande sacrifício da compreensão do contexto. Jung destaca a relatividade do bem e do mal e coloca o indivíduo em destaque como aquele que qualifica os opostos e de certa maneira até o espaço e tempo em que algo é bom ou mau. Apesar de uma suposta manipulação pelo homem, não se pode anular a existência deste par de opostos em sua alma, eles vão continuar a ter uma existência psicológica e, portanto, real. Jung volta aqui a uma solução ética ou arquetípica na medida em que ela já está dentro do indivíduo. Assim como ressalta - o que é uma constante em sua obra - que é sempre a partir da mudança individual que se deve começar uma mudança coletiva.
"Na verdade, é assim como o senhor diz: pode-se falar de um reservatório do bem e um reservatório do mal. Mas esta afirmação é um pouco simples demais, porque bem e mal são opiniões humanas e, por isso, relativas. O que é bom para mim pode ser mau para outro e vice-versa. Apesar de bem e mal serem relativos e, portanto, não válidos em geral, o contraste existe e eles constituem um par de opostos fundamentais para a estrutura de nossa mente. A oposição bem-mal é uma experiência universal, mas sempre é preciso perguntar: de quem é a experiência? Isto é uma grande dificuldade. A situação seria simples se pudéssemos fazer afirmações gerais sobre o bem e o mal. Poderíamos nesse caso designar com precisão as coisas boas e as más. Mas, como isto não acontece, coloca-se a questão do indivíduo humano. O indivíduo é o fator decisivo, pois é ele que declara uma coisa como sendo boa e outra como sendo má. Não importa o meu julgamento ou de outra pessoa qualquer; é exclusivamente o indivíduo em questão que decide se uma coisa é boa ou má para ele. Por isso nossa atenção deve voltar-se para o indivíduo que decide e não para o problema do bem e do mal, que não podemos resolver para os outros."

"Esta é a razão por que não se pode falar a nações inteiras o que é bom para elas. Só podemos encorajar o indivíduo a tomar decisões éticas, esperando um consenso geral. O que uma nação toda faz é sempre o resultado daquilo que muitos indivíduos fizeram. Também não se pode educar uma nação. Só é possível ensinar ou mudar o coração do indivíduo. É verdade que uma nação pode ser convertida para coisas boas ou más, mas neste caso o indivíduo está agindo meramente sob uma sugestão ou sob a influência da imitação e, por isso, seus atos não têm valor ético. Se não se muda o indivíduo, nada é mudado. Isto ninguém gosta de ouvir; e, porque é assim, minhas sugestões de auxílio não entram no ouvido de uma nação. Diz-se que não são populares. Em outras palavras, não concordam com o gosto do povo. Ele as porá em prática quando todos as praticarem. E cada um espera que o outro seja o primeiro a agir. Por isso ninguém começa. Somos por demais modestos, preguiçosos ou irresponsáveis para admitir que podemos ser os primeiros a fazer a coisa certa. Se todos sentissem a mesma coisa, haveria ao menos uma grande maioria de pessoas pensando que a responsabilidade é coisa boa. Sob essas circunstâncias os piores males da humanidade já teriam sido resolvidos. (...)" (JUNG, 2003, p. 172).


Esta carta enviada ao pastor Tanner é uma daquelas longas cartas - com Jung bem amadurecido e já perto da morte - que dá vontade de colocar inteira. Como não é possível fazê-lo, o jeito é contentar-se com pequenos trechos mais significativos, como o primeiro que mostra Jung incomodado com a guerra fria e o fortalecimento de uma 'cortina de ferro', que sempre foi um prenúncio de uma Terceira Guerra Mundial - para quem já tinha visto duas grandes guerras. No segundo parágrafo lamenta um mundo ainda pouco consciente e lembra que os mitos de criação são mitos de criação da consciência. Para quem já viu o século XXI entrar, a descrença poderia ser maior se não for entendida sua mensagem de que as coisas vão caminhar assim para sempre. É uma carta para ser colada no espelho do banheiro.
"A razão desse fenômeno singular eu a vejo no fato de as pessoas estarem um tanto cansadas de crer e esgotadas pelo esforço de terem que aderir a idéias que não entendem muito bem e que portanto lhes parecem indignas de fé. Esta dúvida é reforçada pelos acontecimentos de nossa época. Acontecem coisas perante as quais o público se pergunta: é possível que um mundo, onde isto acontece, seja governado por um Deus bondoso, um Summum Bonum? Nosso mundo desmorona inclusive por estar dividido em duas partes por uma cortina de ferro. Numa das partes a atividade religiosa é desencorajada e oprimida, sendo o 'príncipe da mentira', o diabo, que na nossa metade perdeu toda substância ao evaporar-se numa simples privatio boni, foi elevado, por razões de Estado, ao princípio supremo da ação política. Esses fatos têm uma conseqüência altamente sugestiva sobre os cristãos que professam a fé coletiva. Sempre que uma crença é preferida, exigida ou esperada, aumenta infalivelmente a dúvida e, assim, nasce uma vulnerabilidade da fé em alguns pontos determinados."

[...]


"Por mais de 100 anos o mundo se viu confrontado com o conceito de um inconsciente e por mais de 50 anos, com um estudo empírico dele; mas só poucas pessoas tiram as devidas conclusões. Ninguém percebeu que sem uma psique reflexiva não há mundo e que, por conseguinte, a consciência é um segundo criador do mundo. Os mitos cosmogônicos não descrevem o início absoluto do mundo, mas o surgimento da consciência como a segunda criação."

[...]


"Se estes arquétipos - conforme denominei os fatos preexistentes e preformadores da psique - forem considerados como 'simples' instintos ou como demônios e deuses, isto em nada altera o fato de sua presença atuante. Mas faz grande diferença se os subvalorizarmos como 'simples' instintos, ou os supervalorizarmos como deuses." (JUNG, 2003, p. 193).
Mais uma vez, Jung aborda com clareza a sizígia do bem e do mal e a condição básica da existência dos dois para todo o sempre. Assim, a sombra existe porque projetamos luz e não podemos negá-la com a simples afirmação de que a sombra é a ausência de luz. Mesmo porque a negação leva ao não confronto e, com isto fugimos do confronto com a nossa sombra e com a sombra do mundo.
"Uma vez que o mal não tem fim neste mundo e que ele é a contrapartida indispensável da antítese bem-mal, seria limitação arbitrária do conceito de Deus supor que ele é somente bom e, assim, negar ao mal sua existência real. Se Deus é exclusivamente bom, então tudo é bom. Não há sombra em parte alguma. O próprio mal não existiria. O ser humano seria bom e não poderia fazer nada de mal. Isto é outro paradoxo que a psicologia deve explicar para o nosso bem, porque os flagrantes sofismas conectados à discussão de coisas como a privatio boni prejudicam a compreensão e a aceitação das doutrinas religiosas." (JUNG, 2003, p. 229).
Em entrevista à rede BBC, para o programa de John Freeman 'Face a Face', em março de 1959, desenrolada em sua casa em Küsnacht, a Jung foi perguntado: "E agora, ainda acredita em Deus". Sua resposta "Eu sei. Não necessito crer, porque sei." (JUNG, 1982, p. 375), ficou famosa, e choveram cartas para maiores esclarecimentos sobre o tema. A carta de Leonard é uma delas, mas na resposta, Jung não explica se o Deus Uno conteria a dualidade, como o faz em outras cartas. Coloca no ser humano a decisão sobre o bem e o mal por ser ela uma experiência vivida. Fica para os humanos a avaliação moral dos fatos e colocar o bem e o mal conforme seu sentimento em relação aos acontecimentos. Isto ocorre com o ser humano permanecendo com sua visão dualista e distante da divindade transcendental e inatingível. O uso da palavra hipóstase por Jung parece ser no sentido de: "equívoco cognitivo que se caracteriza pela atribuição de existência concreta e objetiva (existência substancial) a uma realidade fictícia, abstrata ou meramente restrita à incorporalidade do pensamento humano" (Houaiss, 2002).
"Contudo, consideraria intelectualmente imoral admitir que minha concepção de Deus fosse igual à do Ser universal e metafísico das confissões ou 'filosofias'. Não cometi a impertinência de uma hipóstase e não me atrevi a uma qualificação arrogante como: 'Deus só pode ser bom'. Só minha experiência pode ser boa ou má, mas sei que a vontade superior se baseia num fundamento que transcende a imaginação humana." (JUNG, 2003, p. 235).
Jung responde a uma carta de E. Rolfe e comenta o recente livro do religioso intitulado "The Intelligent Agnostic's Introduction to Christianity"16, que considera inocente demais. Para reforçar que as colocações de Rolfe são 'coloridas' ao extremo afirma no parágrafo abaixo, que é uma transparência ilusória a alegação do privatio boni.
"Mas aqui começa de novo a história nefasta do mundo com a terrificante questão da escuridão não redimida, que ele não compreende. O sofisma da privatio boni é por demais diáfano." (JUNG, 2003, p. 304).
Mais uma vez, fica em destaque a totalidade divina, o Uno como todo poderoso e senhor de todas as coisas. Jung faz uma pergunta a Santo Agostinho que, logicamente não pode ser respondida, mas deixa um sabor de como seria um diálogo entre os dois grandes pensadores. Na mesma carta Jung aborda um princípio que admite um mal menor para evitar um mal maior, e julga a punição da sociedade como um desses males menores que servem para controlar um mal maior e catastrófico. O importante é destacar nesta carta de 1960, pouco antes da sua morte e com a idade de 85 anos, que ele aborda o mal como inevitável e necessário. Se ocorrer a fusão do bem com o mal não vai haver mais uma sociedade humana para discutir o tema.
"Sto. Tomás recorre, como é seu costume, a uma petitio principii. Gostaria de perguntar a Agostinho: Se Deus é tão poderoso e bom, que pode tirar o bem do mal, donde ele tira o mal?"

[...]


"Até mesmo os veneráveis Padres da Igreja devem concordar que o mal não é apenas inevitável, mas inclusive necessário, para prevenir mal maior. A abordagem moderna dessa questão receberia o seu aplauso. Não há uma linha divisória clara entre prostituição e crime. Aquela é um mal como este, e por isso são necessários em certo sentido; pois uma sociedade sem crimes iria esfrangalhar-se em pouco tempo."

"A nossa justiça criminal está sobre pés fracos neste sentido, porque combate por um lado o que é uma necessidade social por outro. É compreensível que tal dilema dê motivos a acrobacias silogísticas, tanto jurídicas quanto eclesiásticas. A punição também é um mal e uma transgressão semelhante à do crime. Trata-se simplesmente de crime da sociedade contra o crime do indivíduo. E também este mal é inevitável e necessário." (JUNG, 2003, p. 307).


Nesta última carta, o destinatário é o famoso Sr. Wilson conhecido por ser um dos fundadores da associação dos AA (Alcoólicos Anônimos), no ano de 1934. Jung responde uma missiva do senhor Wilson que agradece o tratamento feito por Jung no senhor Roland H., em 1931 e, principalmente, a sinceridade de ter-lhe dito, na época, que sua recidiva do alcoolismo só poderia ser tratada se o mesmo reconhecesse e lidasse com a divindade, tanto externa, como internamente. Roland teve um encontro com o numinoso e tinha um amigo que obteve o mesmo sucesso frente ao problema do alcoolismo, de onde surgiu a idéia para fundar a associação. No trecho colocado abaixo Jung fala da necessidade da atitude religiosa para poder-se enfrentar os demônios pessoais, quer sejam ele o álcool, o jogo, as drogas, o trabalho ou qualquer outro vício que persiga o homem.
"Estou fortemente convencido de que o princípio do mal que prevalece neste mundo leva a necessidade espiritual não reconhecida à perdição, se não contar com a contra-reação de uma atitude verdadeiramente religiosa ou com a parede protetora da comunidade humana. Uma pessoa comum, não protegida por uma ação do alto e isolada da sociedade, não pode resistir ao poder do mal, que é chamado apropriadamente de demônio17." (JUNG, 2003, p. 316).




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