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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ
CENTRO DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS E DA SAÚDE
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA ANALÍTICA

O BEM E O MAL NA CORRESPONDÊNCIA DE CARL GUSTAV JUNG

CURITIBA
MARÇO DE 2006

PAULO COSTA DE SOUZA

O BEM E O MAL NA CORRESPONDÊNCIA DE CARL GUSTAV JUNG
Monografia apresentada à Pontifícia Universidade Católica do Paraná no curso de especialização em Psicologia Analítica como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Psicologia Analítica sob a orientação do professor Armando de Oliveira e Silva.

CURITIBA
MARÇO DE 2006

Dedico este trabalho à minha família:


Tania,
Raquel,
Silvia,
e a quem me inspirou: A. Miguel

Agradeço às quatro figuras humanas que deram suporte ao meu desenvolvimento:

Otávio Alves da Costa, meu avô... Sem palavras...

Paulo A. R. Terra, pelo carinho e paciência com os quais mostrou o caminho da retidão...

Benjamin A. R. Terra, por mostrar os dois lados da moeda de uma maneira lúdica e inteligente e, apresentar-me à obra de Jung...

Carlos A. S. Lieberenz, por último, mas não por fim, companheiro leal desta longa caminhada...


Agradeço aos estudiosos de Jung em Curitiba, mas preciso destacar alguns:

Juliano M. Amui, me recebeu de braços abertos no seu grupo;

Letícia M. Capriotti, sempre disponível e amável;

Jussara M. J. Carvalho, com graça e leveza conduziu a coordenação da pós e permitiu a criatividade;

Renata C. Wenth, Mãe-Terra carinhosa no lidar com as plantas e

Andrea A. Lima, companheira fundamental desta etapa.

Um agradecimento especial ao colega Armando de O. e Silva, além de meu querido orientador, uma figura de referência para os estudos de Jung no estado dos pinhais.

Entre os dois, eu sentia-me pequeno e miserando,

Vibrando todo, tumultuando, soluçando,

Com olhos meigos, lábios torpes - indeciso

Entre um inferno e um paraíso!


Régio, 1984, pág. 15.

RESUMO
No início da monografia, nove definições de conceitos empíricos - que aparecem constantemente e repetidamente na obra de Jung - foram inseridas com o intuito de esclarecer e nortear o leitor não muito familiarizado com a leitura da obra do grande pensador suíço. As explicações sucintas e não tão abrangentes são apoiadas por citações de autores junguianos, com a finalidade básica de mostrar como seus discípulos e seguidores interpretaram sua obra tão complexa.

Um pequeno histórico será apresentado para que o leitor tenha uma idéia da evolução do tema da monografia na obra de Jung.

O trabalho começou com um levantamento de toda citação sobre o bem e o mal na correspondência de Jung. De cada carta, além de trechos onde estão citadas as palavras bem e mal, selecionou-se trechos com material relevante ao assunto em pauta. Cada trecho selecionado é devidamente comentado, mas sempre o material de Carl Jung é preponderante. No início deste capítulo há uma tabela onde constam: o volume das cartas de Jung, a página onde encontrá-las, a data da missiva e o destinatário, com a data de seu nascimento e morte, nacionalidade e ocupação principal. Os dados que estão faltando não foram informados nos livros correspondentes.

Para uma pequena complementação do que foi dito na correspondência selecionou-se e comentou-se alguns trechos do artigo de Jung intitulado "O bem e o mal na psicologia analítica", contido no volume XI das Obras Completas.

A conclusão do trabalho se inicia com um resumo do que foi dito por Jung sobre o bem e o mal na sua correspondência. O resumo está numerado, não necessariamente em ordem cronológica, mas agrupado e compactado para evitar repetições desnecessárias.

Para finalizar, o autor acrescenta sua contribuição sobre o posicionamento de Jung e tenta dar um encadeamento a sua abordagem, frente a uma problemática tão complexa. Um destaque foi dado as duas abordagens que Jung dava ao mal, uma como mito-arquetípica e outra como histórica. Outro destaque foi dado à Trindade e ao simbolismo que ela gera como ao 'três' instável e a busca do 'quatro' representante da totalidade, que está longe de significar perfeição. Jung coloca o trinitário e o quatêrnio como fenômeno humano e a negação do sombrio que está no quatro como um problema a ser solucionado.

Sem a pretensão de esgotar o assunto o desejo é levantar questões para que o tema do bem e do mal continue a ser debatido com seriedade, vigor e entusiasmo.

SUMÁRIO

Resumo pág. 06


1 Introdução pág. 08
2 Conceitos junguianos pág. 10

2.01 Conceito básico de Consciente e de Inconsciente pág. 11

2.02 Conceito básico de Sombra pág. 12

2.03 Conceito básico de Projeção pág. 14

2.04 Conceito básico de Persona pág. 16

2.05 Conceito básico de Complexo pág. 18

2.06 Conceito básico de Arquétipo pág. 19

2.07 Conceito básico de Anima e Animus pág. 21

2.08 Conceito básico de Self pág. 22

2.09 Conceito básico de Individuação pág. 24


3 O bem e o mal na visão de Jung pág. 27
4 O bem e o mal nas cartas de Jung pág. 31
5 Um único artigo em duplicata pág. 49
6 Conclusão pág. 53
7 Referências pág. 60

1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho aborda um tema crucial tanto em filosofia e religião, quanto em psicologia profunda. O tema do bem e do mal já foi debatido inúmeras vezes por religiosos e filósofos e outras tantas por psicólogos, mas está longe de ter se esgotado.

A abordagem principal nesta monografia será feita através da correspondência de Jung. Nela foi pesquisado o que ele escreveu sobre o tema 'do bem e do mal' nos três volumes da edição em português. O levantamento será complementado pelo único artigo que Jung escreveu com este título, ou seja, o bem e o mal.

Para iniciar o trabalho optou-se pela apresentação de uma explanação sucinta dos termos básicos da 'psicologia analítica ou complexa' visando auxiliar o leitor não tão familiarizado com o assunto. Esta estratégia facilitará, também, o desenvolvimento das idéias específicas sem a necessidade de interrupções para explicação de certos termos, nem a colocação de extensas notas de rodapé. Não será dado nenhum destaque especial ou explicação mais abrangente para termos específicos, por julgar-se que o fundamental e importante na obra de Jung é o conjunto de idéias, que na realidade não chegam a se constituir em grande novidade e modernidade. No entender do autor, a genialidade de Jung foi mais por ser ele um ordenador de conceitos que foram sendo emitidos ao longo da história humana e que de certa forma perderam sua conexão. Além disto, Jung valorizou fatos empíricos que foram deixados de lado por seus colegas ao abordarem tais conceitos, como por exemplo, na elaboração do termo "complexo". Como corroboração final, a explicação dos termos facilitará a compreensão das idéias colocadas na conclusão. Encontra-se neste capítulo uma predominância de citações de pós-junguianos com o propósito básico de avaliar como os conceitos empíricos de Jung foram entendidos ao longo dos anos até os dias de hoje. Some-se, a isto, o fato de que no capítulo seguinte as citações são todas de Jung.

Na seqüência será apresentado um breve histórico do tema o bem e o mal na obra de Jung e em seguida o corpo principal do trabalho: a apresentação da correspondência de Jung em ordem cronológica. Cada carta em que foi mencionada a palavra bem ou mal será citada e comentada e, em algumas a citação será longa devido à contundência e importância do material ali contido. A estratégia se justifica pelo fato de lá encontrarmos um Jung com uma linguagem mais solta, mas fluídica, e sem a preocupação de apresentar um bom resultado para uma platéia de leitores que sempre foi muito rigorosa em suas críticas.

Mesmo com o material das cartas de Jung já desenvolvido e preenchendo bem o miolo da monografia e apesar da necessidade de uma delimitação bem específica do tema, incluiu-se um capítulo para a avaliação de partes do artigo de Jung sobre o tema do bem e do mal, intitulado "O bem e o mal na psicologia analítica", com a intenção precípua de colher dados para um desfecho mais embasado que é apresentado na conclusão. Principalmente porque ele é único - onde o bem e o mal aparecem no título - (apesar de apresentado duas vezes nas Obras Completas em alemão e conseqüentemente em português1) no tema em questão e porque ele é derivado de anotações de um aparte final de Jung na palestra do seu colega Seifert. Portanto, mostra também um Jung bem solto e não muito preocupado com seus detratores (na época ele nem acreditava que suas palavras seriam transformadas em um artigo e muito menos que fariam parte de suas obras completas).

Na conclusão, o autor apresenta um resumo não cronológico e bastante sintético das idéias de Jung que surgiram a partir da observação de sua correspondência; estão listadas em vinte e quatro (24) tópicos julgados os mais importantes sobre o tema. Um destaque foi dado as diferentes abordagens que Jung dava ao mal, uma como 'mito-arquetípica' e outra como 'histórica'. Outro destaque foi dado à importância que Jung dava a Trindade religiosa e a uma comparação estabelecida por ele entre o três e o quatro, enfocados como fenômeno psicológico humano e sua busca no processo de individuação. Em seguida, colocações pessoais são inseridas principalmente com dois exemplos, mas sem nunca perder o fio condutor das idéias junguianas apresentadas anteriormente.

As colocações pessoais do autor não poderiam deixar de ser polêmicas principalmente devido ao tema em si, mas o intuito único de levantar questões é colocar temas difíceis e contundentes num setor do conhecimento humano que já é problemático em sua natureza, que é a psicologia. A idéia é motivar o debate como retribuição das extensas horas de excelente ensino, que foram apresentadas no curso de pós-graduação. Com este trabalho espera-se mais um despertar para futuras pesquisas do que esgotar este assunto tão rico e polêmico. Pretende-se deixar uma porta aberta para o desenvolvimento do tema e uma busca do esclarecimento contínuo de assunto tão instigante e de certa forma angustiante.


2 Conceitos Junguianos
Todos aqueles que estudam e escrevem sobre Jung abordam assuntos que já são do seu conhecimento e de certa maneira de seu domínio. Como uma monografia, depois de gerada e parida, vai ganhar vida e circular no mundo acadêmico, encontrando um universo muito heterogêneo, as dúvidas e tropeços nos termos usados vão surgir a todo instante. Quando um autor escreve, o assunto fica claro para ele, mas ele não tem a idéia precisa de como chegará para cada um dos seus leitores, que vão estar no futuro (espera-se não muito distante) a ler a obra. O ideal na obra escrita seria uma interação instantânea, semelhante a uma palestra, onde a platéia formulasse suas dúvidas e perguntas sobre o que foi escrito, mas isto não é possível. Com isto, a proposta é começar o trabalho esclarecendo alguns conceitos e tornar os leitores os mais homogêneos possíveis frente ao universo de formulações junguianas.

De uma certa forma, os pensamentos de Carl Gustav Jung (1875-1961) e, conseqüentemente seus conceitos, são muito difíceis de serem compreendidos, pelo menos para o autor. Jung possuía uma cultura muito vasta, pois foi um homem que viveu na Europa da virada do século XIX para o XX, numa época muito transformadora. Passou por duas grandes guerras e ainda prosseguiu sua vida em franca atividade até 1961, ano de sua morte. Ele enveredou por assuntos complexos, como por exemplo: antropologia, sociologia, filologia, mitologia, misticismo, religião, história, alquimia, gnosticismo, simbologia, filosofia e é claro sem perder o empirismo da psicologia, com o viés de sua experiência de residente por 09 anos em um hospital psiquiátrico. Jung escreveu realmente poucos livros, sua obra é formada na maioria por artigos que vieram do núcleo de suas palestras e seminários, mas foi imensamente produtivo em escritos científicos que começaram já na sociedade estudantil da faculdade e portanto cumpriram longos 65 anos de atividades literárias.

Os conceitos junguianos são inúmeros e complexos e não sofreram por parte de Jung uma ordenação lógica, nem foram reunidos em tomos específicos dentro da sua obra. A única vez que tentou uma ordenação de seus conceitos foi quando colocou um glossário no final do volume VI de suas obras completas, intitulado "Tipos psicológicos". Acredita-se que com nove destes conceitos já se tenha uma base para deixar mais claro suas palavras, às vezes tão herméticas. Optou-se para que a maioria das citações seja de autores pós-junguianos, isto com a finalidade básica de olhar como seus seguidores interpretaram seus escritos, mas na explicação dos verbetes será mantida fidelidade às palavras do próprio Jung.
2.01. Conceito básico de Consciente e de Inconsciente

A consciência está sempre referida ao ego e como conseqüência o inconsciente não o está. O ego faz parte da consciência, mas não é toda ela. O ‘Ego’ é o centro da nossa consciência, sem ser ela toda. Uma pessoa está escrevendo e o telefone toca, foi um fato consciente que chega aos sentidos (no caso a audição), mas que não a interessou, porque ela estava concentrada em escrever, foi quase que direto para o inconsciente. Quando esta pessoa terminar um parágrafo, pode trazer o fato de novo para a consciência do ego e perguntar para um membro da família se a ligação era para ele. Jung fala de conteúdos psíquicos como o total da psique que abrange a consciência e a inconsciência. Nas palavras de Jung:


"Por consciência entendo a referência dos conteúdos psíquicos ao eu enquanto assim for entendida pelo eu. Referências ao eu, enquanto não entendidas como tais pelo eu, são inconscientes. A consciência é a função ou atividade que mantém a relação dos conteúdos psíquicos com o eu. Consciência não é a mesma coisa que psique, pois a psique representa o conjunto de todos os conteúdos psíquicos [...]" (JUNG, 1991, p. 401).
O consciente é tudo aquilo que nos chega pelos órgãos dos sentidos. Estes inputs (o que penetra na nossa mente) são transformados em imagens. Depois de manipularmos estas imagens, elas podem ficar no nível ‘consciente’ ou ir para um ‘depósito’ muito maior que se chama ‘inconsciente’. No que Jung chamou de inconsciente coletivo encontramos conteúdos não pessoais e alguns que não passaram pela nossa consciência. No dicionário de Sharp, no verbete inconsciente, este assunto fica bem esclarecido.
"Inconsciente. A totalidade dos fenômenos psíquicos, destituídos da qualidade de consciência [...]"

"O inconsciente é, ao mesmo tempo, vasto e inexaurível. Não é simplesmente o desconhecido, ou o depósito dos pensamentos e emoções conscientes que foram reprimidas, mas inclui os conteúdos que podem ou que irão se tornar conscientes." (SHARP, 1993, p. 86).


Jung separou o inconsciente em dois reservatórios distintos e os denominou pessoal e coletivo, sempre tirando suas conclusões de observações empíricas, principalmente de seus pacientes. O inconsciente coletivo está presente tanto agora para a humanidade como estava presente há 8000 anos atrás e em todos os tempos da existência humana. No inconsciente dito pessoal aí é colocado à experiência de cada indivíduo, mas que de certa forma vai alimentar o inconsciente coletivo que é comum a toda a humanidade. Nas palavras de Moacanin:
"Aduziu ele que este conceito não era uma idéia a ser especulada ou um postulado filosófico, mas que existia uma prova empírica a confirmá-lo. Jung define o inconsciente coletivo como a parte da psique que deve sua existência exclusivamente à hereditariedade, e não a experiências pessoais que tenham sido conscientes em determinado momento, desaparecendo depois da consciência. Estas são a camada da psique que ele denomina de inconsciente pessoal e que contém todo o material esquecido ou reprimido pelo indivíduo, deliberada ou involuntariamente. Desse modo, Jung distingue o inconsciente pessoal, a psique subjetiva e a psique objetiva, que ele chama de impessoal, transpessoal ou inconsciente coletivo." (MOACANIN, 1995, p. 45).
Em princípio não temos um acesso direto ao nosso inconsciente. Podemos buscar alguma coisa nele pela vontade do Ego, como no caso de tentarmos lembrar algo de nossa infância. Às vezes o nosso 'inconsciente pessoal' nos manda um pensamento que não pedimos, como um acesso de raiva por algum fato banal, ou eles aparecem toda noite quando dormimos, como por exemplo, nos sonhos. Sobre eles cita-se Signell:
"A maior parte dos sonhos, [...], provém da camada mais acessível do inconsciente, o 'inconsciente pessoal', que consiste de experiências da infância e da vida cotidiana atual [...] Jung, [...] concluiu que a função dos sonhos não era obscurecer, mas trazer conteúdos inconscientes para a consciência, visão que em geral prevalece hoje. Na visão de Jung, imagens e símbolos aparecem nos sonhos porque são a linguagem natural do inconsciente e eles podem ser compreendidos pela interpretação da linguagem dos sonhos [...]" (SIGNELL, 1998, p. 46).
Portanto tudo que está no inconsciente não é do conhecimento do ser humano. Pode-se desenvolver a capacidade de fazer contato com o ‘inconsciente pessoal’ e com o ‘inconsciente coletivo’, uma delas é a meditação, outra é a imaginação ativa, para citar apenas duas. Apesar de dispor-se de um mundo imenso que está ao alcance da humanidade, às vezes ele é ignorado por completo. Se alguém quiser desenvolver esta capacidade, pode-se dizer que o processo é lento, mas os resultados são estupendos. Os orientais chamam isso de atingir o ‘Nirvana’ (o outro lado do rio).

Jung sempre definiu seus conceitos baseado em suas observações empíricas e assim sempre pautou sua vida; nada mais justo que deixar para ele a última palavra:


"Inconsciente. Para mim este conceito é exclusivamente psicológico, e não filosófico, no sentido metafísico. É um conceito-limite psicológico que abrange todos os conteúdos ou processos psíquicos que não são conscientes, isto é, que não estão relacionados com o eu de modo perceptível. A justificação para falar da existência de processos inconscientes deriva, para mim, única e exclusivamente, da experiência [...]." (JUNG, 1991. p. 424).

2.02. Conceito básico de Sombra

Uma parte do ‘inconsciente individual’ do homem chama-se ‘sombra’. É um ‘lugar virtual’ que durante toda sua vida ele vai colocando as suas ‘características reprimidas’. De um modo geral pode-se dizer que é lá onde seus defeitos ficam. Tem este nome por ficar oculta atrás de um corpo que recebe luz. Não é dado ao homem conhecer, normalmente, a sua sombra. É preciso um longo trabalho para torná-la consciente. O trabalho com a sombra é tarefa para a vida toda. Ulson coloca o problema da seguinte maneira:


"Dentre todos os conteúdos arquetípicos, o que se encontra mais próximo do ego é a sombra. Seu estrato mais superficial constitui o que chamamos de inconsciente pessoal, formado por elementos que já fizeram parte do consciente, mas que foram reprimidos por serem incompatíveis com os valores do consciente, ou ainda por conteúdos subliminares que, por não serem suficientemente fortes para atravessar o limiar da consciência, permaneceram em estado de latência." (ULSON, 1988, p. 60).
O conceito junguiano de sombra não consta do glossário do volume VI, das Obras Completas. Foi um conceito dos mais tardios e vamos achá-lo numa definição mais completa em 1946:
"Com efeito, ele encontrará infalivelmente aquilo que atravessa o seu caminho e o cruza, isto é, em primeiro lugar aquilo que ele não queria ser (a sombra), em segundo lugar, aquilo que não é ele, mas o outro (a realidade individual do tu) e em terceiro lugar, aquilo que é seu Não-eu psíquico, o inconsciente coletivo." (JUNG, 1990, p. 128).
Pode-se usar um exemplo como o a seguir:

Uma criança do sexo feminino foi muito extrovertida na sua infância, muito brincalhona, uma ‘espoleta’. Esta menina vivia numa família muito conservadora, e seus pais reprimiam seu comportamento mais expansivo. Viviam dizendo:

 Meninas não se vestem desse jeito.  Meninas não sobem em árvores, nem jogam bola.  Meninas só brincam de bonecas.  Meninas não dizem coisas feias.

Acontece que a menina em questão vai reprimindo dia após dia suas características extrovertidas, o seu lado espontâneo, o seu lado criativo. Estes aspectos de sua personalidade não vão embora, ficam no inconsciente pessoal e juntamente com outros aspectos reprimidos constituem a sua sombra. Lemos em Wolff o seguinte:


"[...] porque falta a coragem de se encontrar a si próprio. Isso significa, para a psicologia profunda, a coragem de encontrar-se e confrontar-se com a própria 'sombra', o que não é, pura e simplesmente, mal. Sombra é, antes, tudo o que há de submerso, esquecido ou silenciado, tudo o que é penoso e, portanto, é removido. É também tudo aquilo que não se viveu, não se realizou, embora houvessem condições para tanto. Em resumo: é o 'lado obscuro' da personalidade." (WOLFF, 1990, p. 72).
Quando o homem assume, como seu objetivo, que tudo que lhe afeta ou lhe emociona é seu e só seu, ele já está bem situado no caminho da confrontação com a sua sombra. Ele vai a uma exposição de quadros e apenas um quadro lhe afeta, lhe toca, lhe emociona; ao ler alguns livros um específico lhe emociona mais que os outros. Se ele tiver em mente que aquelas imagens simbólicas que lhe atingiram não atingiram mais ninguém daquele modo e começar a perceber o quanto de sua psique está envolvido no processo, então terá um ponto de partida palpável para lidar com a sombra, ou seja, um bom começo para um processo que vai levar a vida toda. Stein colocou o problema da seguinte maneira:
"Um dos fatores psíquicos inconscientes que o ego não pode controlar é a sombra. De fato, o ego, usualmente, não possui sequer consciência de que projeta uma sombra. Jung emprega o termo sombra para denotar uma realidade psicológica que é relativamente fácil de captar num nível imagístico, mas mais difícil de compreender nos níveis prático e teórico." (STEIN, 2000, p. 98).

2.03. Conceito básico de Projeção

A sombra a princípio fica escondida, quieta num canto sem se manifestar. Mas sem percebê-la o homem pode ser atingido por um fato externo. Quando a sombra é atingida o ‘consciente’ não identifica o fato, porque a sombra está em outro compartimento, o inconsciente. Mas isto cria uma energia que incomoda e o inconsciente 'precisa' colocar esta energia em algum lugar. Este lugar geralmente é uma pessoa ou um objeto. O processo que faz com que esta energia psíquica é 'jogada' para fora, de uma maneira inconsciente, sem a participação do Ego, chama-se Projeção.

Jung foi ambivalente com este conceito que no consultório chamou de transferência e contratransferência. No dizer de Steinberg:
"Não há a mesma consistência ou a mesma evolução nas opiniões de Jung sobre o valor da transferência. Bem ao contrário, esta é a única área, em todos os seus escritos sobre a transferência, em que ele continuamente se contradiz. Ele chega a se contradizer no mesmo artigo. Isto talvez indique algum conflito emocional pessoal de Jung com relação ao assunto da transferência." (STEINBERG, 1992, p. 19).
É claro que as projeções são fenômenos inconscientes e na medida em que se identifica com elas, elas se tornam conscientes e portanto não podem mais ser chamadas de projeções.

Pode-se comparar a projeção da sombra com uma vassoura de muitos pêlos, em tamanhos os mais variados, os maiores tampando os menores. Começa-se a retirar os pêlos maiores, que corresponde a sombra mais grosseira. Depois de um exaustivo trabalho de reconhecer esta camada da sombra, de integrá-la ao ego, aparece a camada que estava embaixo e assim por diante. Este processo é interminável e nunca se deixa a vassoura sem pêlos, ou seja, as projeções diminuem mas nunca acabam.

Às vezes um quadro ou um livro atinge os complexos de 10, 100 ou mais pessoas, geralmente ocorre este fenômeno quando os símbolos manipulados são universais. Um quadro de uma Madona (que exalta o arquétipo da mãe) ou um livro sobre sonhos (um tema universal), são bons exemplos do tipo de arte que mexe com grande número de pessoas. Se duas pessoas estão lado a lado vendo um quadro e ambas ficam afetadas ou emocionadas com um quadro, com certeza foram afetadas em complexos diferentes, embora seu núcleo arquetípico possa ser o mesmo. Assim, a projeção destes complexos constelados também vai ocorrer de maneira diferente. Se por um passe de mágica, dois filmes pudessem ser feitos com as imagens decorrentes de uma projeção seriam dois filmes bem diferentes, possivelmente sobre o mesmo tema. É como pedir a duas pessoas que pensem sobre um cavalo. Para uma o cavalo vai ser branco, estará num pasto com sua manada, para outra pode ser um corcel marrom selado em uma pista de salto. A palavra que motivou as imagens é a mesma, mas a resposta é sempre muito pessoal, pois os complexos estão de certa maneira entrelaçados uns aos outros.
"Jung qualifica de projeção um fenômeno psicológico verificável, a princípio, no cotidiano de todos os homens, ou seja, estamos sujeitos, em nossas concepções acerca de outras pessoas e de situações, a erros freqüentes de julgamento que precisam ser corrigidos mais tarde, mediante uma melhor compreensão. Em tais casos, a maioria das pessoas se dá por satisfeita em compreender o engano, e não refletem mais sobre o que poderia ter sido a causa do juízo errôneo e da concepção incorreta." (VON FRANZ, 1992, p. 09).
Voltando ao exemplo anterior - usado para 'sombra' - da menina que recebeu críticas severas dos pais sobre a sua extroversão. Ela cresce, vira mulher, mas continua basicamente uma pessoa extrovertida, vamos chamá-la de Júlia. Seu comportamento exterior é pautado pelo comedimento, pela educação refinada, pelos bons modos, etc. Mas dentro dela, no inconsciente, na sua sombra, existe uma garota moleca e brincalhona.

Vamos imaginar que Júlia encontra uma colega de infância (vamos chamá-la de Ana) que tinha as mesmas características que ela, mas seus pais não foram tão repressores. Ana agora é uma artista, pintora, de bem com a vida, fala um pouco alto, diz alguns palavrões, etc.

Após o encontro das amigas, Júlia fica muito incomodada com aquilo tudo. Passa um dia agitada, irritada e não sabe de onde surgiram essas emoções. De noite ela comenta com o marido que encontrou uma amiga de infância e que sentiu muita pena dela, é uma pessoa muito esquisita e muito ‘perua’.

Na madrugada deste mesmo dia ela sonha com uma palhaça, em um grande circo, em um subúrbio de uma cidade grande. Acorda assustada e não entende nada do sonho. No dia seguinte Júlia vai almoçar com um amigo e ela sabe que ele estuda Jung e os sonhos. Ela conta o sonho e ele pergunta como foi seu dia anterior. Ela narra o episódio com a amiga artista. Ele então diz que a figura feminina (do mesmo sexo) no sonho pode ser a sua sombra, e que a irritação e a angústia que sentiu frente ao encontro com Ana, foi uma projeção da sua sombra não consciente. Ele explica que quando nos irritamos com o comportamento de outra pessoa, normalmente, estamos nos vendo nela. É claro que ela não acreditou...!

De uma maneira mais didática podemos ver a colocação de Verena Kast:
"O objetivo terapêutico é acolher os impulsos de desenvolvimento que surgem na psique. Com isso, o indivíduo ganha mais competência para lidar consigo e com os outros: ele entende melhor a si mesmo, inclusive seus lados obscuros, cujas projeções podem depois ser reconhecidas mais facilmente. O objetivo abrangente é tornar-se mais autônomo, mais capaz de se relacionar e cada vez mais autêntico." (KAST, 1997, pág. 165).
A projeção é de tal importância que sempre mereceu um especial destaque no encontro analítico. Abaixo pode-se ver uma colocação, obtida em um dicionário, acompanhada de um desenho explicativo do problema que ocorre com os níveis de interação entre psicólogo e paciente. Na seta amarela o psicólogo interage seu consciente com o seu inconsciente. Na seta roxa é o paciente que faz esta interação. Na seta marrom as consciência de analista e paciente se comunicam. Na seta azul ocorre uma interação entre os inconscientes de terapeuta e paciente. Na seta verde o encontro do consciente do psicólogo com o inconsciente do paciente. Na seta vermelha o consciente do paciente com o inconsciente do terapeuta.
"O segundo aspecto da transferência arquetípica refere-se aos eventos geralmente esperáveis da análise, àquilo que ela provoca no relacionamento entre analista e paciente. Este padrão pode ser ilustrado de forma esquematizada, adaptada de um diagrama de Jung (CW 16, parág. 422)." (SAMUELS, SHORTER e PLAUT, 1988, p. 32.)
CONSCIENTE analista paciente


INCONSCIENTE analista paciente




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