Plano de pastoral da arquidiocese de olinda e recife (Documento de trabalho) I um olhar sobre a realidade que queremos evangelizar



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PLANO DE PASTORAL

DA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

(Documento de trabalho)

I - UM OLHAR SOBRE A REALIDADE QUE QUEREMOS EVANGELIZAR

(VER)


  1. O Papa Inocêncio XI, no dia 16 de novembro de 1676, pela Bula Ad sacram Beati Petri sedem criou a Diocese de Olinda, a qual, em 05 de dezembro de 1910, foi elevada à dignidade de Arquidiocese e Sede Metropolitana pelo Decreto da Sagrada Congregação Consistorial, pela Bula Cum urbis Recife do Papa Bento XV de 26 de julho de 1918. Ao longo desses séculos, a nossa Igreja Particular tem buscado manter-se fiel no anúncio do Evangelho nessa região. Porém, como uma Igreja sempre atenta aos sinais dos tempos, vê-se confrontada, mais uma vez a, criativamente, dar testemunho do Evangelho e anunciar Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre, diante dos novos contextos com os quais ela se sente confrontada hoje.

  2. No mesmo espírito da Conferência de Aparecida, “Cabe a nós olhar a realidade de nossos povos e de nossa Igreja, com seus valores, suas limitações, suas angústias e esperanças. Enquanto sofremos e nos alegramos, permanecemos no amor de Cristo, vendo nosso mundo e procurando discernir seus caminhos com a alegre esperança e a indizível gratidão de crer em Jesus Cristo. Ele é o Filho de Deus verdadeiro, o único salvador da humanidade. [...]. ‘Se não conhecemos a Deus em Cristo e com Cristo, toda a realidade se torna um enigma indecifrável; não há caminho e, não havendo caminho, não há vida nem verdade’. No clima cultural relativista que nos circunda se faz sempre mais importante e urgente enraizar e fazer amadurecer em todo o corpo eclesial a certeza de que Cristo, o Deus de rosto humano, é nosso verdadeiro e único salvador.” (DAp.22)

  3. Damos graças a Deus pela porção do povo de Deus confiada à nossa Arquidiocese, situada na Região Metropolitana do Recife que, na estimativa do IBGE (2011), possui uma população de 3.717.640 habitantes e a sua densidade demográfica, de 1.342,88 hab/km², sendo uma das mais altas do país. A Grande Recife é tida como a maior metrópole do Nordeste e a 5ª maior do Brasil. As estimativas é que em 2015 a população da RMR será de 4,070 milhões de pessoas. Boa parte da economia da região vem da prestação de serviços, que concentrou 54,7% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2008, embora a atividade industrial também esteja em patamar de destaque, sendo responsável por 40,5% do PIB da Grande Recife. Já as que incluem a agricultura, foram responsáveis por 5,8% da economia da região.

  4. Como Igreja peregrina e missionária, nossa Arquidiocese está inserida em um contexto rico de manifestações culturais e artísticas que refletem a criatividade do nosso povo, sendo conhecida, nacionalmente, como uma região multicultural, com suas festas populares.

  5. Temos que ter um olhar atento sobre a nossa realidade, pois missão é comunicação, a comunicação que “Jesus é o caminho, verdade e vida” (Jo 14,6). E se não estivermos em sintonia com as “angústias e esperanças” dos homens e mulheres que nos foram confiados pelo Senhor para evangelizar, certamente, muito da nossa energia e vitalidade se perderá em improvisos e voluntarismos pastorais, que pouco ou nada ajudarão a encontrarmos caminhos novos, revigorados, para a nossa ação pastoral.

  6. Um olhar mais atento sobre a nossa realidade nos leva a perceber e nos provoca sobre a necessidade de ações pastorais para o evangelização da porção do povo de Deus a nós confiada, mais apropriadas aos sinais dos tempos. Como a Igreja foi confrontada nos diferentes contextos culturais, a dar respostas criativas à sua ação missionária ao longo dos séculos, a nossa Arquidiocese, mais uma vez, é convocada a sair em missão, anunciando evangelho e fascinando com a pessoa de Jesus Cristo os homens e mulheres da nossa Arquidiocese, nos diferentes contextos em que vivem. Para tanto, precisamos também levar em conta os MCS (Meios de Comunicação Social), rádio, TV, jornais e internet.

  7. A pluralidade de contextos culturais, econômicos, sociais e eclesiais exige dos discípulos missionários uma pluralidade de métodos de evangelização. Porém, sem um olhar crítico sobre essa realidade poderemos cair em generalizações que não seriam capazes de dar sinais concretos da ação transformadora de Deus entre nós. Ao mesmo tempo em que a nossa realidade é rica na sua pluralidade de expressões e de experiências belas que revelam a grandeza da nossa gente, ela também nos apresenta desafios que exigem de nós discernimento para que, á luz da fé, nos coloquemos a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e vida e “para que a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

O TESTEMUNHO DA NOSSA IGREJA E OS SEUS

DESAFIOS ATUAIS

  1. As visitas pastorais têm confirmado a riqueza de expressões pastorais e de fé, do nosso povo de Deus na Arquidiocese, animados por sacerdotes, religiosos, religiosas, diáconos1 e centenas de leigos e leigas que, com os seus mais variados ministérios, com os Movimentos, os Grupos e as Pastorais, animam incansavelmente o nosso povo e, criativamente, encontram as formas de anunciar o Evangelho nos diferentes contextos das nossas comunidades. Tal realidade é, para todos nós, motivo de agradecimento a Deus por todos os esforços e compromissos pelo anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Os movimentos representam uma grande dinamicidade na configuração pastoral das paroquias e na Arquidiocese. Porém, as visitas pastorais têm revelado a urgência de uma maior articulação dos movimentos entre si e com a agenda e as opções pastorais da Arquidiocese. A dedicação dos sacerdotes às suas paróquias é também motivo de ação de graças. A sobrecarga administrativa, porém, compromete em não poucas situações o atendimento e a atenção espiritual aos fiéis e às comunidades.

  2. O censo de 2010 indica-nos mudanças significativas na sociedade que afetam diretamente a questão do sentido que dá unidade a tudo que existe: a) mudanças nos padrões de composição das famílias brasileiras; b) individualização extrema de comportamentos; c) perda das tradições e desenraizamento cultural; d) pouca visibilidade da Igreja católica nas periferias.

  3. Meio século após a realização do Concílio Vaticano II, por diferentes motivos, várias paróquias entre nós não possuem ainda, efetivamente, uma dinâmica pastoral a partir dos conselhos de pastoral (CPP, CCP e CEP), sinais visíveis e eficazes de uma Igreja de comunhão e participação. Ao celebrarmos meio século da realização do Concílio Vaticano II tal realidade nos questiona profundamente. Como ser “uma Igreja em estado permanente de missão” se ainda falta a estrutura mínima em várias realidades da nossa Igreja local? Isso revela nossa precariedade quanto à formação cristã de base, à formação bíblica e à efetivação de uma iniciação cristã para jovens e adultos que possa nutrir o gosto e o senso de comunhão e participação. Expressa também a necessidade do cuidado com a formação permanente do clero na perspectiva das opções pastorais da Arquidiocese e do discipulado de Jesus Cristo. Uma Igreja em estado permanente de missão precisa se ancorar na Palavra de Deus que, por sua vez, renovará as práticas da vida religiosa.

11. Também salta aos olhos a pluralidade de riquezas e criatividades na vida pastoral de cada comunidade. Elas demandam, porém, diretrizes que, respeitando a especificidade de cada contexto, reflitam o rosto da nossa Igreja e da unidade sacramental que nos constitui. Mas, há ambientes onde a presença pastoral da Igreja é ainda muito modesta como, por exemplo, no meio universitário. Falta uma Pastoral Universitária.

O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E OS SEUS DESAFIOS

  1. É inquestionável que a nossa Igreja está situada em uma das regiões do país que atualmente mais cresce economicamente. Os programas sociais dos Governos (Federal, Estadual e Municipais) propiciaram uma mudança no poder aquisitivo de muitas famílias. Este fato não foi ainda apreciado pastoralmente de modo suficiente. O Grande Recife é responsável por cerca de 65% do PIB de Pernambuco. Marcada por três novos pólos de desenvolvimento econômico que já afetam a vida da área causando mudanças radicais nas próximas décadas: o pólo portuário de SUAPE representa hoje um dos maiores complexos de transações econômicas da nossa região e, segundo as estimativas, tem a possibilidade de duplicar a renda de Pernambuco até 2020; Outro pólo de desenvolvimento que influenciará o desenvolvimento urbano e econômico da nossa religião é a atual “cidade da copa”. Trata-se de um empreendimento urbanístico que está em desenvolvimento na Zona Oeste da Região metropolitana do Recife, na cidade de São Lourenço da Mata. A ideia que teoricamente justifica esse empreendimento é a de uma “cidade inteligente’, na qual se quer buscar um equilíbrio entre o desenvolvimento urbano e a preservação dos recursos naturais. Esta será a primeira cidade inteligente do Brasil, o seu espaço urbano de mais de 240 hectares está localizado às margens do Rio Capibaribe, a Arena Pernambuco, palco de jogos da Copa das Confederações de 2013 e Copa do Mundo FIFA de 2014 é o principal empreendimento do local, que contará ainda com Shopping Centers, Estação de Trem Metropolitano, faixas para ciclistas, centro de convenção, áreas residenciais, universidades, parques etc. Tal empreendimento já aponta para onde a Região metropolitana do Recife tenderá a crescer nas próximas décadas. Um outro pólo, não menos importante é o que está sendo implantado na região próxima á cidade de Goiana que, mesmo não estando geograficamente situada nos limites da nossa Arquidiocese, as consequências do seu desenvolvimento têm grande relevância para o contexto atual da nossa evangelização nas áreas da Arquidiocese próximas a essa região. O setor secundário tende a se desenvolver cada vez mais naquela região, estando atualmente em implantação a criação do Pólo Famacoquímico e de Biotecnologia do estado de Pernambuco, bem como a chagada da nova unidade da Fiat Automóveis.

  2. Se por um lado esses pólos trazem desenvolvimento econômico para a nossa região, por outro causam contradições sociais, ecológicas, insegurança e violência urbana e, assim, nos desafiam a encontrar respostas pastorais criativas para a evangelização desses novos cenários e superar a timidez no tocante à responsabilidade no processo de conscientização política e cidadã dos católicos.

  3. Milhares de seres humanos migrantes, sem raízes culturais em nossa região, na sua grande maioria, como já pode ser observado, homens, solteiros ou sem as suas famílias, têm que conviver juntos, de maneira repentina e sem grandes laços sociais, em regiões que são criadas junto a esses pólos. Para a nossa ação evangelizadora não tardam a aparecer, nesses novos cenários, os primeiros sinais desafiadores; o alto índice de prostituição, inclusive infantil e as dependências químicas, principalmente as drogas lícitas (como o álcool e fumo) e as ilícitas. Qual resposta nós daremos a tal realidade tão contraditória; tanta riqueza econômica acompanhada de tanta pobreza humana? Se por um lado refletem os centros da economia em nossa região, por outro revelam as novas periferias existenciais que nos aguardam.

Os impactos ambientais da implantação de grandes fábricas, das novas redes de comunicação, rodoviária, aérea, marítima, de grandes concentrações urbanas e da exploração do turismo industrial em ambiente de tradição pesqueira e agrícola, abrem novos desafios à ação pastoral e evangelizadora. O Evangelho da vida (DAp 348 e DGAE 65-72) implica a necessidade de elaborar uma cultura da vida que anuncie as exigências éticas que vão além da rentabilidade dos empreendimentos e do aumento do PIB e que orientam à busca de um equilíbrio com o respeito da criação, obra de Deus, da qualidade da vida pessoal e social, da distribuição équânime dos benefícios econômicos, culturais e sociais.

O estágio atual do nosso desenvolvimento econômico exige uma retomada das Pastorais Sociais ligadas ao meio ambiente, ao trabalho, à prevenção e recuperação (pescadores e pescadoras, dos migrantes, da sobriedade) e também de uma Pastoral Familiar forte e dinâmica. Nesses locais de intenso desenvolvimento econômico, as iniciativas pastorais deverão ser acompanhadas pela aquisição de espaços físicos que favoreçam as atividades e as celebrações.



A PLURALIDADE CULTURAL E OS SEUS DESAFIOS

  1. O desenvolvimento da população da nossa Arquidiocese sempre foi marcado por diferentes processos de imigração, frutos dos conflitos agrários, da crise da cultura dos engenhos, das secas e do próprio fascínio que a cultura urbana exerce sobre os jovens. A nossa região é marcada pela pluralidade da cultura urbana, que se caracteriza, entre outras coisas, pelas mais variadas e contraditórias ofertas de sentido para a existência das pessoas. Com uma pluralidade de ofertas tão grande era de se esperar a inevitável relativização dos modelos tradicionais de família, sexualidade, lazer e até mesmo de relação com Deus.

  2. Na nossa Arquidiocese, aproximadamente 852 mil pessoas, vivem em habitações com muito pouca estrutura, ou em situações sub-humanas, com baixos níveis de renda, em favelas, cortiços ou nas ruas das nossas cidades. Muitas pessoas entre nós vivem na pobreza e sofrem as consequências do descaso secular de políticas públicas que não se preocuparam em transformar, de fato, as situações de “pecado estrutural” entre nós. São rostos de dependentes químicos, moradores de rua, doentes sem assistência, de idosos e crianças abandonados.

O elenco de desafios abaixo mencionados esperam de nós atitudes criativas para respostas pastorais eficazes que espelhem nossa fidelidade a Jesus Cristo:



  1. A relativização dos modelos tradicionais e a pluralidade de ofertas de sentido têm provocado em muitas pessoas duas atitudes que temos que, como Igreja, ter presente e buscarmos uma postura crítica à luz da fé, para que possamos ajuda-los a reencontrarem sentido para suas existências e maturidade humana e espiritual para se relacionarem com a cultura moderna, sem se deixar levar pelas falácias que nos querem seduzir: por um lado, um relativismo cultural que lentamente fragiliza a família e as demais estruturas sociais, provocando uma crise de sentido na existência de muitas pessoas, principalmente entre os jovens. Por outro, o fundamentalismo que, por conta do medo e da insegurança, causados pelo pluralismo, se fecham em atitude uma de combate, ofertando respostas fáceis e aparentemente seguras, criando um clima de intolerância e falta de capacidade de dialogar.

b. No Brasil, no Censo de 2000, 73,89% da população de declarava católica, porém uma década depois o número caiu para 68,4%. Na nossa Arquidiocese, em 2000, 62% se declaravam católicas, no último Censo, em 2010, caiu para 53,4%. Antes de qualquer proselitismo ou atitude de combate, tais dados nos devem levar a refletir: por que as nossas comunidades de fé não estão conseguindo fascinar suficientemente os 8,6% dos católicos que deixaram a Igreja católica na última década na nossa Arquidiocese? Se eles saíram e foram para outras comunidades religiosas é sinal questão buscando algo. E se eles buscam e saíram é urgente nos perguntarmos sobre o que estamos oferecendo e como estamos. Precisamos todos(as), protagonistas ordenados e leigos(as), com coragem, reavaliar os nossos modelos paroquiais e modificar nosso modo de acolher, de exercer a compaixão e a misericórdia, se quisermos, de fato, enfrentar tal desafio.

c. Outro dado desafiador é o que a última pesquisa do Censo denomina como os “sem religião no Brasil”. O que não significa que são ateus. São pessoas que, na sua maioria, possuem ainda algum tipo de religiosidade, mas não querem ter um vínculo com uma instituição religiosa. Os dados mostram que 13,39 % da população na nossa Arquidiocese se declaram “sem religião”. Muitos são jovens que se estruturam social e subjetivamente sem nenhuma ou quase nenhuma relação com o catolicismo. Tal constatação exige de nós criatividade missionária. Como o Bom Pastor, somos chamados, mais uma vez, a irmos ao encontro das ovelhas dispersas.

d. A complexidade da vida urbana se apresenta como o grande palco da cultura atual. A nossa Arquidiocese é fortemente marcada por essa cultura plural, na qual o tempo é regido pela subjetividade dos indivíduos. Em que o mundo virtual se confunde com o mundo real. Pessoas moram em uma região, mas trabalham e têm as suas relações familiares e de lazer em espaços geográficos completamente diferentes. Muitas vezes a região da paróquia em que moram é apenas o lugar em que dormem.

Os centros tradicionais e históricos das cidades já não são mais centros habitacionais, as residências vão dando lugar a prédios ou escritórios e lojas. A função de socialização, que os centros da cidade tinham no passado, hoje é, até certo ponto, vivida fora dos centros, nos Shoppings, nos condomínios fechados etc.

As nossas paróquias foram criadas para uma cultura que cada vez menos existe. No passado as paróquias tiveram um papel fundamental na socialização dos indivíduos e na forma deles viverem a fé. Porém, hoje, para muitos, o espaço da paróquia não consegue ser o lugar mais adequado para a vivência da sua fé, tendo em vista a mobilidade na qual alguns estão inseridos. Sem dúvida, nesse contexto, os Movimentos Eclesiais têm um papel importante para a vivência da fé dessa parcela significativa do povo de Deus. Por isso, a relação entre paróquia e Movimentos é fundamental.

A nossa Arquidiocese está confrontada com a necessidade de pensar toda a sua ação pastoral a partir da urbanidade. Não se trata de uma dimensão pastoral entre as outras. O que está na nossa frente, como “sinais dos tempos”, é a urgência de se repensar, profundamente, a partir dos desafios que o mundo urbano nos traz. Há uma riqueza entre nós de práticas religiosas e devocionais herdadas da cultura rural e tradicional, porém, temos que nos debruçar decididamente na pastoral urbana. Os dados mostram que a nossa Igreja ainda não consegue penetrar, de forma significativa, na cultura urbana.



A NECESSIADE DE RENOVAÇÃO PASTORAL E ESPIRITUAL

  1. Diante da realidade religiosa plural e desafiadora do presente no território da Arquidiocese de Olinda e Recife constatamos que a riqueza e a criatividade da nossa pratica devocional, com suas belas expressões de afeto a Deus, com as procissões, as romarias, os santuários, as festas dos padroeiros, etc. frutos da nossa rica religiosidade popular são chamadas hoje e sempre a confrontar-se com o seguimento de Jesus. Nunca é pouco lembrar sobre o perigo de divorcio entre fé e vida, entre pratica devocional e seguimento de Jesus, que só é possível na medida em que assumimos juntos sermos uma “igreja samaritana”, que não se contenta em ser centrada em si mesma, mas vai a encontro dos homens e mulheres do nosso tempo.

  2. A renovação pastoral e espiritual passa necessariamente pelo amadurecimento no seguimento de Jesus e pela paixão para anunciá-lo. Isto exige que a igreja particular se renove constantemente em sua vida e ardor missionário. Só assim teremos uma igreja casa e escola de comunhão, de participação e solidariedade (DAp 167).

  3. A Arquidiocese é chamada a ser “comunidade missionária. Daí a necessidade de sair ao encontro não só dos que ainda não crêem em Cristo, mas, sobretudo, dos batizados que não foram evangelizados e que não participam da vida da comunidade de fé” (DAp 168).

  4. Sendo presidida pelo Arcebispo, auxiliado pelos presbíteros e diáconos, a Arquidiocese é o primeiro espaço de comunhão e missão. É dever do bispo diocesano estimular e conduzir uma ação pastoral orgânica, renovada e vigorosa, onde a variedade dos carismas, ministérios, serviços e organizações se orientem no mesmo projeto missionário para comunicar vida no próprio território (Rm 12,4-5). Tal projeto viabiliza a pastoral orgânica, capaz de dar resposta aos novos desafios (DAP 169).

  5. A renovação pastoral e espiritual da igreja exige renovação das paróquias e conversão pastoral dos presbíteros. Essa renovação passa pela renovação das estruturas, para que se tornem uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articularem, conseguindo que seus membros se sintam realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão.

  6. A renovação missionária das paróquias se impõe, tanto na evangelização das grandes cidades como do mundo rural do nosso continente, que está exigindo de nós imaginação e criatividade para chegar às multidões que desejam o Evangelho de Jesus Cristo. Particularmente no mundo urbano, é urgente a criação de novas estruturas pastorais, visto que muitas delas nasceram em outras épocas para responder as necessidades rurais (DAp 173).

  7. Os melhores esforços das paróquias, hoje, devem estar na convocação e formação de leigos missionários e que só através da multiplicação deles poderemos chegar a responder à exigências missionárias do mundo atual, principalmente do mundo do trabalho, da cultura, das ciências, das artes, da política, dos meios de comunicação, particularmente das redes sociais e da economia (DAp 174).

  8. Qual deve ser o modelo dessa nova paróquia missionária? Segundo o exemplo das primeiras comunidades cristãs (At 2,46-47), a comunidade se reúne para partir o pão da Palavra e da Eucaristia e perseverar na catequese, na vida sacramental e na pratica da caridade (DAp 175). Só uma pastoral alimentada pelo serviço fraterno, pela comunhão e pelo testemunho profético promoverá a renovação criativa da paróquia nestes tempos de mudança de época.

  9. A renovação criativa, alimentada pelo serviço fraterno, não pode negligenciar o diálogo ecumênico e inter-religioso, especialmente, através da colaboração mútua nas causas da paz e dos Direitos Humanos.


II - A IGREJA E A SUA MISSÃO NA DINÂMICA TRINITÁRIA

(JULGAR)


  1. O mistério da Trindade é a fonte, o modelo e a meta do mistério da Igreja. Ela se constitui como um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito2. Deus Pai sai de si para nos chamar a participar da sua vida e escolhe o povo de Israel para revelar o seu projeto de Amor. Chagada a plenitude dos tempos Ele nos falou por meio do seu Filho Jesus Cristo, que nos revelou plenamente o amor do Pai e nos convida a nos unirmos a Ele, porque só Ele tem palavras de Vida Eterna (cf. Jo 6,68). A Igreja, como a comunidade da memória de Jesus, é chamada a ser no mundo um sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo gênero humano3.

  1. Sendo assim, a Igreja não se basta a si mesma: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão do Filho e do Espírito Santo’”4. Por isso, o impulso missionário é fruto necessário à vida que a Trindade comunica aos discípulos5. A sua razão de ser é participar da missão do Filho e do Espírito Santo na história, tendo consciência que “A missão do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem destinação universal. Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho. A Igreja sabe, por revelação de Deus e pela experiência humana da fé, que Jesus Cristo é a resposta total, superabundante e satisfatória às perguntas humanas sobre a verdade, o sentido da vida e da realidade, a felicidade, a justiça e a beleza. São as inquietações que estão arraigadas no coração de toda pessoa e que pulsam no mais humano da cultura dos povos. Por isso, todo sinal autêntico de verdade, bem e beleza na aventura humana vem de Deus e clama por Deus”6.

  2. Ao recebermos a fé e o batismo, acolhemos a ação do Espírito Santo que nos leva a confessar a Jesus como Filho de Deus e a chamar Deus de “Abba”. Todos nós batizados e batizadas, através do sacerdócio comum do Povo de Deus, somos chamados a viver e a transmitir a comunhão com a Trindade, pois “a evangelização é um chamado à participação da comunhão trinitária”7.

  3. A igreja é a “grande comunidade de todos os discípulos missionários, novo povo de Deus, conclamado para reunir-se na fraternidade, acolher a Palavra, celebrar os sacramentos e sair em missão, no testemunho, na solidariedade e no claro anúncio da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo”8. Como afirma o Papa Francisco “...a posição do discípulo missionário não é uma posição de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias… incluindo as da eternidade no encontro com Jesus Cristo. No anúncio evangélico, falar de “periferias existenciais” descentraliza e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O discípulo-missionário é um “descentrado”: o centro é Jesus Cristo, que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais”.9 Diante do desafio de uma grande pluralidade de grupos, com as mais diversas ofertas de espiritualidades, muitas delas difusas e sem demonstrar uma efetiva abertura à comunhão eclesial e ao sofrimento humano, nunca é suficiente lembrar o que “Cristo Cabeça remete necessariamente à Igreja Corpo (cf. Cl 1,18). Não há como ser verdadeiro discípulo missionário sem o vínculo efetivo e afetivo com a comunidade dos que descobriram fascínio pelo mesmo Senhor. Na Igreja, o discípulo missionário percebe a força de uma união que ultrapassa raças, condições econômico-sociais, preconceitos, discriminações (cf. Gl 3,28) e tudo que, de algum modo, tenda mais a separar do que a unir. Chamada a ser, na terra, sinal do Deus-Amor, do Deus-Comunhão, do Deus-Trindade, a Igreja encontra sua razão de ser na vivência e no anúncio do Reino de Deus (cf. LG, n. 1). A unidade de todos os discípulos missionários, em meio à diversidade de dons, serviços, carismas e ministérios (cf. LG, nn. 9-13), testemunha o amor trinitário do Pai, pelo Filho, no Espírito10. Uma Igreja que se compreende a partir desta verdade é uma Igreja que busca incessantemente ser uma comunidade de participação e comunhão.

  4. Diante da atual pluralidade de ofertas de interpretações, muitas vezes contrastantes entre si e a serviço de projetos particulares, de como se dá esse encontro com Jesus Cristo, é importante lembrar que “Viver, pois, o encontro com Jesus Cristo implica necessariamente amor, gratuidade, alteridade, unidade, eclesialidade, fidelidade, perdão e reconciliação. Torna o discípulo missionário firmemente enraizado e edificado em Cristo Jesus (cf. Ef 3,17; Cl 2,7), à semelhança da casa que se constrói sobre a rocha (cf. Mt 7,24-27). Assim, cada discípulo missionário, junto com toda a Igreja, comunidade dos discípulos missionários, torna-se fonte de paz, justiça, concórdia e solidariedade. Significa contemplar Jesus Cristo em constante atitude de saída de si, de desprendimento e esvaziamento. Significa acolher o mistério divino como contínuo transbordar do amor do Pai pelo Filho, no Espírito. Implica diálogo, unidade na diversidade, partilha, compreensão, tolerância, respeito, reconciliação e, consequentemente, missão11.

  5. E a nossa comunhão eclesial se nutre com o Pão da Palavra de Deus e com o Pão do Corpo de Cristo. A Eucaristia, como participação de todos no mesmo Pão de Vida e no mesmo Cálice de Salvação, nos faz membros do mesmo Corpo de Cristo, que é a Igreja (cf. 1 Cor 10,17). Ela é a fonte por excelência e o ponto mais alto da nossa vida cristã, como sinal e instrumento da nossa solidariedade para transformar o mundo, expressão mais perfeita e o alimento da vida em comunhão. Na Eucaristia, devemos nutrir as novas relações evangélicas que surgem do fato de sermos filhos e filhas do Pai e irmãos e irmãs em Cristo. Por isso, nossa Igreja é chamada a ser uma “casa e escola de comunhão”, onde nós, os discípulos, compartilhamos a mesma fé, esperança e amor e a testemunhamos para o mundo12. Vendo o sinal do nosso testemunho nos mais diferentes contextos da nossa Arquidiocese as pessoas se abrirão e se deixarão tocar pela fonte que nos alimenta.

  6. Como afirmou o Papa Bento XVI, a Igreja, como “comunidade de amor”13 é chamada a refletir a glória do amor de Deus, que é comunhão, e assim atrair as pessoas e os povos para Cristo. No exercício da unidade desejada por Jesus, os homens e mulheres de nosso tempo se sentem convocados e recorrem à formosa aventura da fé. “Que também eles vivam unidos a nós para que o mundo creia” (Jo 17,21). Ele também nos diz que a Igreja cresce e cumpre a sua missão trinitária, não por meio de proselitismo, mas, “por ‘atração’: como Cristo ‘atrai tudo para si’ com a força do seu amor”14. Como nas origens do cristianismo, somos chamados hoje, no contexto atual da nossa Arquidiocese a exercer essa “atração”, em relação às pessoas e à sociedade, marcado por uma profunda relativização das instituições e das tradições e de uma acentuada relevância das vivencias subjetivas da fé, na medida em que formos capazes de viver e dar testemunho público da nossa comunhão, pois os discípulos e discípulas de Jesus serão reconhecidos pelo mundo se amarem uns aos outros como Ele nos amou (cf. Rm 12,4-13; Jo 13,34). No momento atual o anúncio terá de ser selado pelo nosso testemunho em favor da vida, da fraternidade, da solidariedade e da paz, sob pena de não sermos mais ouvidos pelos homens e mulheres do nosso tempo. A nossa atração virá do nosso testemunho.

  7. Por isso, a nossa Arquidiocese, em comunhão com o Magistério ordinário da Igreja, proclamado no Concílio Vaticano II, com a Conferência Episcopal Latino Americana - CELAM, expresso na sua Conferência de Aparecida e com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, presente nas suas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil, se empenhará em ser uma Igreja em estado permanente de missão, uma casa da iniciação à vida cristã, alimentada pelo pão da Palavra e da Eucaristia.




  1. A articulação da Arquidiocese em Vicariatos concretiza a escolha de uma Igreja local que realiza a sua missão buscando a comunhão de paróquias, pastorais, movimentos e comunidades que no processo da “conversão pastoral”, oferecem aos diferentes sujeitos uma variedade de oportunidades que si concretizam nas pequenas comunidades e nos grupos,

que o Espírito Santo suscita e dinamiza com riqueza na nossa Igreja.


  1. As paróquias precisam buscar uma nova identidade, evitando centralizações, para colocar-se a serviço das pessoas nos seus territórios e animar a comunhão entres as numerosas comunidades e experiências eclesiais que as compõem.




  1. O surgimento de novos ministérios leigos favorecerá as mudanças necessárias a uma pastoral decididamente missionária, na qual a missão não seja tratada como um mero evento, mas que ofereça respostas diversificadas às novas situações, demandas e sensibilidades, e que possibilitem a homens e mulheres, jovens e idosos, e especialmente aos muitos sofredores das nossas cidades um encontro pessoal com o Senhor Ressuscitado.




  1. Ela quer empenhar os seus esforços e direcionar toda a riqueza das múltiplas vivencias da fé da parcela do Povo de Deus a ela confiada, para que se torne uma comunidade de comunidades, a serviço da vida em todas as suas dimensões, econômicas, políticas, sociais e culturais, refletindo, para cada um em particular e para a sociedade como um todo, o “ícone da Trindade”, que é a sua razão se ser: “Transformados por Jesus Cristo e comprometidos com o Reino de Deus, os discípulos missionários formam comunidades que não podem fechar-se em si mesmas, ao estilo de guetos ou ilhas. Por suas atitudes fraternas e solidárias, trabalhando incessantemente pela vida em todas as suas instâncias, tornam-se sinais de que o Reino de Deus vai se manifestando em nosso meio (cf. Mt 11,2-6; At 2,42), na vitória sobre o pecado e suas consequências15.


QUAL É O CONTEÚDO DA MISSÃO?

  1. Nunca é suficiente lembrarmos qual é o conteúdo da nossa missão: toda a ação eclesial brota de Jesus Cristo e se volta para Ele e para o Reino do seu Pai, acompanhado pelo Espírito Santo. Nele, com Ele e a partir d’Ele mergulhamos no mistério trinitário. A nossa missão, em comunhão com a missão trinitária, é testemunhar o Reino de Deus16.

  2. A Igreja deve cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus e adotando suas atitudes (cf. Mt 9,35-36), como uma Igreja samaritana. Ele, sendo o Senhor, se fez servidor e obediente até à morte de cruz (cf. Fl 2,8); sendo rico, escolheu ser pobre por nós (cf. 2 Cor 8,9), ensinando-nos o caminho de nossa vocação de discípulos e missionários17. A resposta a seu chamado exige entrar na dinâmica do Bom Samaritano (cf. Lc 10,29-37), que nos dá o imperativo de nos fazer próximos, especialmente com quem sofre, e gerar uma sociedade sem excluídos, seguindo a prática de Jesus que come com publicanos e pecadores (cf. Lc 5,29-32), que acolhe os pequenos e as crianças (cf. Mc 10,13-16), que cura os leprosos (cf. Mc 1,40-45), que perdoa e liberta a mulher pecadora (cf. Lc7,36-49; Jo 8,1-11), que fala com a Samaritana (cf. Jo 4,1-26)18, derrubando assim as barreiras que separam os judeus e os samaritanos, e que pediu ao Pai para que todos fôssemos um (Jo17) e que nos tornássemos pouco a pouco um só rebanho, sob a direção de um só pastor (Jo 10).

  3. conteúdo do anúncio não são normas ou mesmo, em primeiro lugar, uma doutrina, mas, sim, um encontro com uma Pessoa, a Pessoa de Jesus Cristo. Deus, no seu mistério trinitário, não quis revelar uma doutrina à humanidade, Ele quis se auto revelar. Ele próprio é o conteúdo da Revelação19 que quer propor ao mundo a realização do reino do Seu Pai.

  4. Não resistirá aos desafios do contexto atual uma compreensão da fé católica que se deixe reduzir a um elenco de algumas normas e proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, ou a moralismos brandos ou crispados que não transformam, de fato, vida dos batizados20. Como nos lembra o Papa Bento XVI, “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”21.

  5. Propor ou repropor esse encontro com a Pessoa de Jesus Cristo hoje, na nossa Igreja e na sociedade, exige de nós uma imensa criatividade e sensibilidade pastoral para encontrarmos as mediações necessárias para o diálogo com cada pessoa e grupo, ao qual queremos anunciar o mistério da nossa fé. Missão é comunicação e no contexto cultural atual nenhuma comunicação será eficaz se não conseguir encontrar as mediações para o diálogo com as novas linguagens e subjetividades dos homens e mulheres que queremos evangelizar. Temos que conseguir, sem perder a coragem profética, tocar a subjetividade dos homens e mulheres do nosso tempo, escutando as suas angústias e esperanças22. Sem um profundo respeito à sua subjetividade, certamente, teremos poucas chances de conseguir provocá-los para que se abram ao mistério de Cristo nas suas vidas. Por outro lado, diante do momento atual de grande manipulação da subjetividade religiosa das pessoas, com as mais diversas ofertas “espirituais” no atual mercado religioso, temos que ter grande discernimento pastoral para que as experiências emocionais religiosas não sejam confundidas com a ação transformadora do encontro com a Pessoa de Jesus Cristo. Como nos esclarece o Documento de Aparecida: “A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor despertam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo do coração do discípulo, uma adesão a toda a sua pessoa ao saber que Cristo o chama pelo nome (cf. Jo 10,3). É um ‘sim’ que compromete radicalmente a liberdade do discípulo a se entregar a Jesus, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6). É uma resposta de amor a quem o amou primeiro ‘até o extremo’ (cf. Jo 13,1). A resposta do discípulo amadurece neste amor de Jesus: ‘Eu te seguirei por onde quer que vás’ (Lc 9,57)”23.

  6. Esse encontro com a Pessoa de Jesus se manifesta no testemunho daqueles e daquelas que se deixaram tocar por seu amor, que se manifesta na solidariedade com todos os que sofrem. A graça desse encontro com Cristo transborda nas relações com as pessoas, consigo mesmo e com o próprio Deus. Por isso, não devemos confundir qualquer experiência religiosa com a experiência totalizante do encontro com o mistério de Cristo. Como nos lembra a Conferência de Aparecida: “Para ficar verdadeiramente parecido com o Mestre, é necessário assumir a centralidade do Mandamento do amor, que Ele quis chamar seu e novo: ‘Amem-se uns aos outros, como eu os amei’ (Jo 15,12). Este amor, com a medida de Jesus, com total dom de si, além de ser o diferencial de cada cristão, não pode deixar de ser a característica de sua Igreja, comunidade discípula de Cristo, cujo testemunho de caridade fraterna será o primeiro e principal anúncio: ‘Todos reconhecerão que sois meus discípulos’ (Jo 13,35). No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até à doação de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitem para conhecermos o que Ele fez e para discernirmos o que nós devemos fazer nas atuais circunstâncias24.

  7. No momento atual, profundamente marcado por uma religiosidade difusa, sem contornos definidos, se faz necessário um critério mínimo para que nós possamos, permanentemente, avaliar a nossa experiência religiosa e a sua coerência com a Pessoa de Jesus Cristo. Ser discípulo Dele é participar do seu projeto, é cultivar os seus sentimentos, é segui-lo. “Como discípulos de Jesus reconhecemos que Ele é o primeiro e maior evangelizador enviado por Deus (cf. Lc 4,44) e ao mesmo tempo o Evangelho de Deus (cf. Rm 1,3). Cremos e anunciamos “a boa nova de Jesus, Messias, Filho de Deus” (Mc 1,1). Como filhos obedientes à voz do Pai, queremos escutar a Jesus (cf. Lc 9,35) porque Ele é o único Mestre (cf. Mt 23,8). Como seus discípulos, sabemos que suas palavras são Espírito e Vida (cf. Jo 6,63.68). Com a alegria da fé, somos missionários para proclamar o Evangelho de Jesus Cristo e, nEle, a boa nova da dignidade humana, da vida, da família, do trabalho, da ciência e da solidariedade humana na defesa da criação25.

  8. Esse encontro com a Pessoa de Jesus não nos leva ao fechamento, pelo contrário, nos insere na vida da comunidade. Provoca em cada um de nós e na Igreja um novo jeito de ser, como os cristãos da Igreja primitiva, será pelo nosso estilo de vida que anunciaremos o que cremos: diante de uma vida sem sentido, Jesus nos revela a vida íntima de Deus em seu mistério mais elevado, a comunhão trinitária; Diante do desespero de um mundo sem Deus, que só vê na morte o final definitivo da existência, Jesus nos oferece a ressurreição e a vida eterna na qual Deus será tudo em todos (cf. 1 Cor 15,28); Diante da idolatria dos bens de consumo, Jesus apresenta a vida em Deus como valor supremo; Diante do subjetivismo hedonista, Jesus propõe entregar a vida para ganhá-la, porque “quem aprecia sua vida terrena, a perderá” (Jo 12,25). É próprio do discípulo de Jesus gastar a vida como sal da terra e luz do mundo. Diante do individualismo, Jesus convoca a viver e caminhar juntos. A vida cristã só se aprofunda e se desenvolve na comunhão fraterna; Diante da despersonalização, Jesus ajuda a construir identidades integradas; Diante da exclusão, Jesus defende os direitos dos fracos e a vida digna de todo ser humano. De seu Mestre, o discípulo tem aprendido a lutar contra toda forma de desprezo da vida e de exploração da pessoa humana.

  9. Só o Senhor é autor e dono da vida. O ser humano, sua imagem vivente, é sempre sagrado, desde a sua concepção até a sua morte natural, em todas as circunstâncias e condições de sua vida; Diante das estruturas de morte, Jesus faz presente a vida plena. “Eu vim para dar vida aos homens e para que a tenham em plenitude” (Jo 10,10). Por isso, cura os enfermos, expulsa os demônios e compromete os discípulos na promoção da dignidade humana e de relacionamentos sociais fundados na justiça; Diante da natureza ameaçada, Jesus, que conhecia o cuidado do Pai pelas criaturas que Ele alimenta e embeleza (cf. Lc12,28), convoca-nos a cuidar da terra para que ela ofereça abrigo e sustento a todos os homens (cf. Gn 1,29; 2,15)26. Nisso conhecerão que somos as suas testemunhas.

  10. Temos que ter consciência que o momento atual traz grandes desafios para a nossa ação missionária. Ela que exige de nós uma grande sensibilidade para captar os “sinais dos tempos”. Pois, estamos vivendo em um tempo de mudança de época e é nela que temos que repropor a Pessoa de Jesus Cristo, como Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6). O momento atual exige de nós um espírito crítico, confiantes na ação do Espírito, mas com uma grande criatividade para encontrarmos metodologias pastorais adequadas aos diferentes contextos com os quais a nossa ação evangelizadora quer dialogar. Nesse cenário podemos observar duas atitudes extremas que se destacam e são desafiadoras para a nossa ação evangelizadora: de um lado, é o agudo relativismo, próprio de quem, na crise dos fundamentos, oscila entre as inúmeras possibilidades oferecidas pela cultura e o cenário religioso atual, do outro, são os fundamentalismos que, se fechando em “seguranças ilusórias” se mostram incapazes de dialogar com a pluralidade e o caráter histórico da realidade como um todo. Estas duas atitudes desdobram-se em outras tantas que afetam profundamente a nossa cultura atual27, chegando mesmo a ter influencia em alguns grupos cristãos. Estas atitudes devem ser evitadas, pois só farão aumentar, ainda mais, a separações entre o Evangelho e a cultura28, sendo um empecilho à ação evangelizadora da Igreja.

  11. Quando a realidade se transforma, devem, igualmente, se transformar os caminhos pelos quais passa a ação evangelizadora29. Como nos lembra o Papa Bento XI, nossa maior ameaça “é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”30. Para nos converter em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e nos tornarmos fiéis discípulos31 Por isso, “Nenhuma comunidade deve isentar-se de entrar decididamente, com todas as forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonaras ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé32. Nunca é suficiente lembrar que as nossas estruturas devem estar a serviço da evangelização. Com profundo discernimento pastoral devemos ter a coragem de realizar uma permanente autocrítica, para encontrarmos sempre o melhor caminho de anunciar Cristo ao mundo.

  12. Mesmo tendo presente toda a riqueza da pluralidade de dons e carismas que estão presentes nos vários grupos, movimentos e paróquias da nossa Arquidiocese, não podemos, em momento algum, esquecer que somos permanentemente chamados à conversão. Com humildade devemos reconhecer que a “ovelha perdida” que o Bom Pastor busca não é só o “outro”, mas, cada um de nós. “A conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço da instauração do Reino da Vida”33. Por isso, a conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Só assim será possível que o Evangelho continue introduzindo-se na história de cada comunidade eclesial com novo ardor missionário, fazendo com que a Igreja se torne sempre mais uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária34.

  13. Temos que ter presente que Jesus saiu ao encontro das pessoas nos mais diferentes contextos: homens e mulheres, pobres e ricos, judeus e estrangeiros, justos e pecadores, convidando-os a seguí-lo. Hoje, continua convidando a encontrar nEle o amor do Pai. Por isso mesmo, o discípulo missionário há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores. Ao participar dessa missão, o discípulo caminha para a santidade e, vivê-la na missão o conduz ao coração do mundo. Por isso, a santidade não é fuga para o intimismo ou para o individualismo religioso, tampouco abandono da realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos, e muito menos fuga da realidade para um mundo exclusivamente espiritual35. Como nos lembra o Papa Francisco, “...quem coloca Cristo no centro da sua vida, descentraliza-se! Quanto mais te unes a Jesus e Ele Se torna o centro da tua vida, tanto mais Ele te faz sair de ti mesmo, te descentraliza e abre aos outros. Este é o verdadeiro dinamismo do amor, este é o movimento do próprio Deus! Sem deixar de ser o centro, Deus é sempre dom de Si, relação, vida que se comunica... E assim nos tornamos também nós, se permanecermos unidos a Cristo, porque Ele faz-nos entrar neste dinamismo do amor. Onde há verdadeira vida em Cristo, há abertura ao outro, há saída de si mesmo para ir ao encontro do outro no nome de Cristo.”36

  14. Contemplando a Virgem Maria, que é a imagem esplêndida da conformação ao projeto trinitário do reino de Deus, que se cumpre em Cristo, que, com o seu exemplo, nos recorda que a beleza do ser humano está toda no vínculo do amor com a Trindade, e que a plenitude de nossa liberdade está na resposta positiva que lhe damos37, vamos todos nos abrir aos novos “sinais dos tempos” e juntos sairmos em missão para os “novos Areópagos” da nossa Arquidiocese, anunciando que Jesus Cristo veio “... para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10b).




1 73 Presbíteros incardinados e residentes; 32 Presbíteros seculares não incardinados, e residentes; 146 Padres religiosos e 29 diáconos permanentes.

2 DAp, 155.

3 LG, 1.

4 AG, 2.

5 DAp, 347.

6 DAp, 380.

7 DP, 218.

8 DGAE 2011-2015, 13.

9 Discurso do Papa Francisco aos dirigentes do CELAM em .28 de julho de 2013.


10 DGAE 2011-2015, 14.

11


12 DAp, 159.

13 DCE, 19.

14 Bento XVI, Homilia na Eucaristia de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, 13 de maio de 2007, Aparecida, Brasil.

15 DGAE 2011-2015, 29.

16 DGAE 2011-2015, 4.

17 DAp, 31.

18 DAp, 135.

19 DV, 1-2.

20 DAp, 12.

21 DCE, 10.

22 GS, 1.

23 DAp, 136.

24 DAp, 138-139.

25 Dap, 103.

26 DAp, 109-113.

27 DGAE 2011-2015, 20.

28 EN, 23.

29 DGAE 2011-2015, 25.

30 RATZINGER, J. Situação atual da fé e da teologia. Conferência pronunciada no Encontro de Presidentes de Comissões Episcopais da América Latina para a doutrina da fé, celebrado em Guadalajara, México, 1996. Publicado em L’Osservatore Romano, em 1º de novembro de 1996.

31 DAp, 549.

32 DAp, 365.

33 DAp, 366.

34 DAp, 370.

35 DAp, 147-148.

36 Discurso do Papa Francisco aos catequistas vindos a Roma em peregrinação por ocasião do ano da fé e do Congresso Internacional de Catequese em 27 de setembro de 2013.

37 DAp, 141.




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