Pierre verger e o projeto colúmbia



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PIERRE VERGER E O PROJETO COLÚMBIA
Ednei Otávio da Purificação Santos – PPGEduC/UNEB

Drª Jaci Maria Ferraz de Menezes – PPGEduC/UNEB

Considerações Iniciais


O convênio de pesquisa firmado no início da década de 50 entre o Governo da Bahia, via Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia (FDC-Ba), com a Universidade de Colúmbia, contou com a presença do "olhar peregrino" de Pierre Verger, com sete de suas fotografias ilustrando o trabalho de pesquisa contratado por Anísio Teixeira. O denominado Projeto Colúmbia previa o estudo de cidades em seis regiões ecológicas do Estado da Bahia, que eles denominaram como: Recôncavo, Nordeste, Chapada Diamantina, São Francisco do Conde, Oeste e o que ele chama de Florestas do Sul - pegando de Ilhéus e Itabuna até Vitória da conquista e do Extremo Sul todo.

Outras regiões que não foram estudadas pelo grupo, porém outros pesquisadores estudaram: Itaparica, com Carlo Castaldi; Ilhéus e Itabuna, com Anthony Leeds; Salvador, que foi estudada por Thales de Azevedo, além de toda a região do Vale do Rio São Francisco, estudada por Donald Pierson. O PROCAD revisita as regiões da Chapada Diamantina (no caso, Rio de Contas), Região do Semiárido (Monte Santo) e do Recôncavo (São Francisco do Conde), prevendo uma comparação com outras cidades nas mesmas regiões: Brumado, Euclides da Cunha e Santo Amaro, de modo a estabelecer uma relação entre o tradicional e a modernidade.

O acervo fotográfico da Fundação Pierre Verger, digitalizado na internet, está todo organizado por continente, país, estado e cidade, o que facilita uma consulta na série de fotos tiradas, especificamente, na Bahia, salientando que reflete apenas um pequeno conjunto do total das fotografias de Verger. Mas é possível perceber que, além de ser um etnógrafo de uma enorme sensibilidade, tem também um olhar especial que estas fotografias captam, ao focar nas pessoas que moram nestas cidades, bem como o ambiente. Ele fotografou quase a Bahia toda.

Essa missão propõe relatar como ocorreu participação de Pierre Verger junto ao Projeto Colúmbia, através de uma pesquisa no acervo de fotógrafo, que fica na Fundação que leva seu nome, na Vila América. A hipótese que surgiu nas discussões das reuniões que seguiram sugere que Verger acompanhou e fotografou as viagens do Projeto Colúmbia em 1950 e existiria no acervo cópia das fotos, como fotógrafo do estudo, nos municípios visitados pela UNESCO - Monte Santo e Euclides da Cunha; São Francisco do Conde e a região das usinas em Santo Amaro da Purificação; e Rio de Contas e Livramento do Brumado, na Chapada Diamantina. Além de fazer o levantamento do material na Fundação Verger, sabendo se este material existe ou não, de modo a adquirir cópia das fotos para digitalizá-las e disponibilizar na home Page do PROMEBA/PROCAD/REDEMEMO.

Quanto ao desenvolvimento das atividades, as mesmas precisaram ser realizadas no período de setembro a novembro de 2010, momento em que as necessidades das disciplinas do Mestrado que estou cursando não interferiram no desenvolvimento da pesquisa. Essas atividades perpassaram pelo âmbito de uma extensa e detalhada pesquisa documental nos livros e documentos e com entrevistas dos funcionários da Fundação e pesquisadores da vida de Verger, bem como na aquisição de livros estrangeiros correlacionados ao tema.

A estruturação deste texto inicia contextualizando o fotógrafo, sua vida na França e saída ao Brasil; depois introduz Alfred Metráux, antropólogo e diretor do Departamento de Pesquisas Raciais da UNESCO e um dos grandes amigos de Verger; depois com o educador Anísio Teixeira, secretário de Educação e Saúde da Bahia e o Projeto Columbia, para finalizar demonstrando as decisões que levaram Anísio e Metráux a utilizarem as fotos de Verger no Projeto UNESCO de Ciências Sociais, Estudos Raciais.


II – Pierre Verger, o fotógrafo.
Pierre Édouard Leopold Verger nasceu em Paris a 04 de novembro de 1902, filho caçula de um industrial belga pertencente a alta burguesia e de grande sucesso no ramo da tipografia (ROLIM), o que lhe permitiu entrar em contato desde cedo com os processos de impressão, edição e cartonagem de artigos destinados à publicidade.

Quanto aos motivos que o levaram a viajar pelo mundo a partir de 32, quatro fatos tem destaque: a morte de um irmão em 1914, do pai em 1915, do outro irmão em 1929 e da mãe em 1932. Sem os laços familiares que o prendiam em Paris, somados ao desgosto que sentia com relação aos costumes da alta burguesia francesa onde fora criado, da qual considerava fútil e superficial, estava assim indo a URSS e pouco depois ao Taiti. (AMARAL & SILVA).

Fundou em 1934 a agência de fotógrafos Alliance Photo, juntamente com René Zuber e com Pierre Bourcher, que o ensinou a fotografar. Paris era considerada, na década de 30, como a capital internacional da fotografia. Este título tornava a cidade ponto de encontro de grande fotógrafos, sendo que muitos deles vieram a participar da Alliance, como Henri Cartier-Bresson, Emeric Feher, Denise Bellon, Maria Eisner e Robert Capa, entre outros.

A divulgação das fotos feitas pela Alliance, como as de Capa sobre a Frente Popular e a Guerra da Espanha, atraía a atenção de todos. Muitas das suas fotos que foram negociadas via agência foram publicadas em tantos lugares, que ultrapassam o conhecimento do próprio Verger. Algumas revistas que publicaram fotos suas são, por exemplo: Voilá (1937/38), Picture Post e Life, nos anos 30, e Regards, nos anos 40 (LÜHNING).

Essa agência lhe permitia fazer diversos acordos tipo “passagem-por-fotos”, uma dessas com a Companhia Geral Transatlântica, que o trouxe da Europa para o México (LE BOULER, p.97). A Drª Iara Rolim nos traz em sua tese os valores monetários praticados pela agência naquele momento: “... as fotos de Verger eram cobradas apenas pelo preço de ampliação, algo em torno de 20 a 30 francos”.
Segundo Le Bouler,

Também foi em 1934, que Paul Rivet (1876-1958), antropólogo francês e diretor do Musée d'Ethnographie du Trocadéro admitiu o fotógrafo Verger como colaborador voluntário, sendo encarregado do laboratório fotográfico. Este museu passa a se chamar Musée de l´Homme em 1937, graças a reorganização feita por Rivet e George-Henri Rivière acercas das coleções de antropologia física e etnologia. Foi neste museu que ele teve contato com a pesquisa etnográfica, devido ao fato do interesse da França em objetos e artefatos na África, principalmente, e com os pesquisadores do museu, entre eles Alfred Metraux. Em maio de 1935, após ter voltado da Espanha, o antropólogo e o fotógrafo prepararam uma exposição sobre Ilha de Páscoa, acerca dos estudos de seu professor, Rivet, e Rivière sobre uma missão franco-belga na Oceania (LE BOULER, p.83).

Metraux nasceu na Suíça, em 5 de novembro de 1902, ou seja cinco horas depois de Verger, o que lhe conferiu o apelido de “quase-gêmeo” (LE BOULER, p.47) e, em 1963, comete suicídio. Desenvolveu sua tese de doutorado sobre os Tupis-Guaranis em 1928, sendo aluno de Paul Rivet, renomado antropólogo. Fundou na Universidade Nacional de Tucuman, Argentina, o Instituto de Etnologia, sendo o diretor pelo período de 28-34. Em 1937 realizou uma pesquisa na Ilha de Páscoa, com uma expedição franco-belga organizada por Rivet, conhecendo no Musée de l´Homme o fotógrafo colaborador do museu Pierre Verger. Em 1938 tornou-se professor da Universidade de Berkeley e de Yale, nos EUA. Em 1939, passa 15 dias com o antropólogo americano Charles Wagley em varias cidades sul-americanas, entre elas no Rio de Janeiro em 9 de fevereiro de 1939, onde conhece Heloísa Torres e é recebido por Getúlio Vargas, participando de pesquisa também com Levi-Strauss e Jehan Vellard. (METRAUX, p.32)

Em 1941, após obter a cidadania americana casando com sua segunda esposa, Rhoda, mãe de Daniel Metraux, sendo que este é nascido em 29 de outubro de 1948, é contratado pelo Instituto Smithsoniano, para assumir o setor desse instituto denominado Escritório Etnológico Americano, em Washington DC, o que lhe proporcionou diversas viagens pela América do Sul, gerando uma enciclopédia sobre os índios sul-americanos (Handbook of South American Indians). Em 1946, ele se tornou chefe de seção na ONU de Assuntos Sociais em Nova York. A partir de 1947 as atividades de Métraux nas Nações Unidas estão em total sintonia com a emergente UNESCO, e ele se tornou um conselheiro desta organização para o projeto da Hyléa Amazônica.

Em seguida, de 1948 a 1950, passa a colaborar mais estreitamente com a UNESCO ao concordar em pesquisar diretamente o Projeto Etnológico do Desenvolvimento Econômico e Social do Vale do Marbial no Haiti, recolhendo a maioria das informações que permitiram a elaboração de seus futuros trabalhos sobre vodu haitiano. Esses dois anos de colaboração culminou com a transferência em definitivo de Métraux para a UNESCO em 1950, fazendo com que retornasse a Paris (METRAUX, p.156). As viagens de Métraux seguiram para o Brasil, Caribe, Guiana, e até mesmo na África Ocidental, culminando na publicação de seu livro sobre vodu, em 1958. Em novembro de 1962, Métraux chegou ao limite de 60 anos na UNESCO, sendo obrigado a se aposentar. 

Mesmo tendo estado em vários lugares do mundo, assim como o amigo Verger, Metraux nunca perdera contato com ele, trocando bastantes cartas que tratavam não somente das pesquisas, bem como suas angustias e alegrias vivenciadas. Em 17 de julho de 1947 que eles se reencontram na cidade de Recife, reencontro este que durou minutos (METRAUX, p.212).

Foi Metraux, por exemplo, quem mostra em 21 de outubro de 1948 aos membros da comissão da ONU uma série de fotos tiradas por Verger no Haiti, no período de 4 a 9 de junho de 48 (Le BOULER, p.180). A receptividade foi tanta que ele logo respondeu ao fotógrafo que querem que ele exponha as fotos na Conferência de Beirute. Essas fotos foram tiradas durante sua estada no Haiti, que aconteceu devido ao fato da demora da saída da bolsa ofertada por Theodore Monod, diretor do IFAN, o Instituto Francês para a África Negra, que a ofereceu no dia de deixar Recife e retornar pra Bahia para que ele fosse estudar na fonte (África) a origem dos cultos africanos implantados no Brasil. Recebera o convite da bolsa em outubro de 1947 em Recife, quando aproveitou para estudar e tirar fotos sobre o culto a Xangô, e mandou-as à Monod, indicando que essas fotos comprovariam a influência do culto africano no país, porém somente embarcou para Dacar no fim do ano de 1948, exatamente 24 de novembro.(LE BOULER, p.164 e 166 e 188)

O fotógrafo chegou ao Brasil após sair da Bolívia, chegando à cidade de Corumbá em 13 de abril de 1946, e quase que imediatamente partiu de trem para São Paulo, onde encontrou Roger Bastide. A leitura de uma cópia francesa do livro Jubiabá, de Jorge Amado e os calorosos elogios de Bastide à Bahia e sua influência africana atiçaram o desejo de Verger em ir para Salvador, chegando em 5 de agosto de 1946.


Foi Metraux quem, indiretamente, solucionou dois problemas de Verger. Ao saber que o fotógrafo iria para o Rio de Janeiro antes de aportar na Bahia, pediu que o mesmo fosse cumprimentar uma grande amiga sua, Vera Pacheco Jordão (LE BOULER, pag 155-156) que estava a escrever para a revista o Cruzeiro uma matéria, coincidentemente, sobre o Peru, local que Verger esteve antes de passar pela Bolívia e vir ao Brasil e, é claro, tirou diversas fotos. Quando viu as mesmas, logo o indicou para apresentá-las ao Cruzeiro que imediatamente se interessou. Ademais, ao saberem da sua intenção em seguir para a Bahia, logo a revista o contratou, assinando no Rio de Janeiro em 8 de julho de 1946 o contrato, o que lhe garantiu não somente um salário, como também o visto permanente de estada no Brasil. Quando chega a Salvador, já chega como um fotógrafo contratado pela revista, pertencente ao grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Metraux relata em seu diário o almoço que tivera com Vera Pacheco em 19 de outubro de 1950, na qual ela o relatou sobre o encontro com o amigo Verger (METRAUX, pag.299)

Verger afirma que "assim que cheguei nesta cidade [Salvador], fiz parceria com Odorico Tavares [pernambucano que já trabalhava na revista de Chatô em Recife, e fora deslocado para a sucursal de Salvador pelo próprio dono da empresa, depois de uma série de ameaças do governo Vargas a jornalistas pernambucanos] que havia aceito escrever textos para acompanhar as fotos para O Cruzeiro. Fiz durante os anos seguintes aproximadamente 80 dessas reportagens em diversos lugares."(LE BOULER, p 158-159).

III – Verger na Bahia


Na introdução do livro "Odorico Tavares; Canudos 50 anos depois", publicado pela FUNCEB em fevereiro de 1993, José Calazans afirma que Tavares foi a Canudos “na companhia de um jovem fotógrafo francês recentemente chegado ao Brasil, a quem o chefe do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o extraordinário Rodrigo Melo Franco Andrade, depositando a maior confiança, mandara ao Nordeste para fazer as fotos do nosso acervo documental. O moço, chamado Pierre Verger, tornar-se-ia um dos mais notáveis conhecedores da problemática afro-brasileira”.

O chefe do SPHAN conhecera Verger através de Marcel Gauteroth, outro excelente fotógrafo francês, considerado pelo arquiteto Lucio Costa como o "o mais artístico dos fotógrafos do patrimônio chegando ao SPHAN” e cujos primeiros trabalhos foram ampliações de chapas feitas por Alfred Métraux, na Ilha da Páscoa, para a exposição sobre as civilizações no Pacífico, preparada por George-Henri Rivière. Em 1937, fotografa a Exposição Universal, publicando 48 fotos na revista Arts et Métiers Graphiques (VERGER, 1982, p. 95). O arquiteto relata que Marcel “irrompeu repartição adentro sobraçando uma pasta com belas fotos da Acrópole, na companhia de Pierre Verger". Rodrigo Mello Franco de Andrade entusiasmou-se com o material, acolhendo como um de seus colaboradores, assegurando-lhe trabalhos comissionados. Por seu intermédio, passa a freqüentar intelectuais modernistas da cidade como Carlos Drummond de Andrade, o próprio Lucio Costa, Alcides Rocha Miranda e Mário de Andrade, este último aquele que instaurou no SPHAN.

Outra revista que propiciava a Verger publicar suas fotos era A Cigarra, que foi criada em 1914, adquirida por Assis Chateubriand em 1933, em 1944 foi passada para o seu sobrinho, Freddy Chateaubriand, que dinamizou a revista, conforme Medeiros (TACCA, 1986, p. 17) e fora extinta em 1956. Era a “irmã menor” d’O Cruzeiro, iniciada em 1928 e contava com a mesma equipe de fotógrafos e jornalistas de sua “irmã maior”, sendo de formato menor, mensal e utilizava o mesmo padrão imagético cristalizado por Jean Mazon. Numa reportagem d’A Cigarra de junho de 1949 intitulada “Caroá" e escrita por José Leal e imagens de Verger, há um breve relato sobre o fotógrafo:


"Pierre Verger é um espírito irrequieto, um homem apaixonado pelas aventuras arriscadas, um fotógrafo internacionalmente conhecido. Sei que ele é francês mas nunca lhe pergunte em que parte da França nasceu. Está entre os quarenta e cinco anos de idade, já percorreu a maior parte do mundo, e sua bagagem consta apenas de três blusões, três calças, um par de sapatos, roupa interna, sua máquina fotográfica e um arquivo de negativos que constitui um documentário riquíssimo. Alto, apressado, afável, bom companheiro, ele pensa unicamente em viajar. Esteve no Brasil por mais de dois anos, morou na Bahia e fez centenas de reportagens e agora está na África de onde escreveu longa carta para José Medeiros. Certa vez encontrei com ele no interior do Maranhão. "Oh, sua chegada foi muito oportuna. Eu estou querendo fazer um passeio a Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Quer ir comigo para fazer os textos das reportagens que pretendo fazer? “- Naquele mesmo dia embarcamos num caminhão de carga, vencendo estradas perigosas, até chegar em Campina Grande, na Paraíba. Nessa cidade tomamos um avião que nos deixou no Recife. Mais tarde, Verger conseguiu o avião particular de um amigo para sobrevoar o estado do Pernambuco. O mau tempo entretanto impediu nossa viagem de observação. Os planos dele foram abaixo e na mesma semana Verger decidiu fazer uma reportagem sobre o caroá, planta nativa que cuja fibra resulta em cordas e tecidos, que enriqueceu um grande número de nordestinos."

Le Bouler nos traz uma informação interessante a pagina 209 da biografia de Fatumbi:


em julho de 1950 Verger soube, por intermédio de Charles Wagley, antropólogo e professor da universidade Columbia, de Nova York, que Métraux se propõe a vir em outubro ao Brasil. E exatamente neste mês de julho que se iniciam três investigações, conduzidas simultaneamente por três antropólogos: Harry William Hutchinson, Marvin Harris e Ben Zimmerman. Estas investigações, iniciadas em julho de 1950, terminaram em junho de 1951, assinala Wagley, em dezembro de 1951. Os três antropólogos têm, respectivamente como ‘campo’: ‘o Recôncavo (Estado da Bahia)’, ‘a parte montanhosa do centro do Brasil’ e o ‘Sertão, região árida do nordeste do estado da Bahia". O estudo de Hutchinson terá por título: ‘As relações raciais em um município rural do Recôncavo (estado da Bahia)’; o de Harris: ‘As relações raciais em Minas Velhas, comunidade rural da região montanhosa do Brasil central’; e o de Zimmerman: ‘As relações raciais na região árida do Sertão’. Métraux, por fim, só chegará à Bahia por volta de 16 de novembro de 1950.”
IV - Pierre Verger, Metraux, Charles Wagley e o projeto Colúmbia.
Wagley e Verger já se conhecem, e mais ainda, os dois eram amigos de longa data de Metraux os quais mantinha sempre contato, entre outros, como Roger Bastide. Curiosamente em seu diário Itinéraires interrompe os relatos no periodo de 14 de novembro de 1950 à 15 de janeiro de 1951. Verger também não havia comentado sobre a presença nem no livro 50 anos de fotografia nem em "Trinta anos de amizade com Alfred Métraux". Le Bouler perguntou a Verger sobre este fato, em 16 de junho de 1991, no qual trouxe a seguinte resposta:
"Levantei nas minhas anotações a chegada de Métraux na Bahia em 17 de novembro de 1950 e sua partida para o Rio de Janeiro no dia 27. Ele voltaria à Bahia em 8 de dezembro. Fizemos, então, uma viagem pelo interior do Estado da Bahia entre os dias 10 e 14 de dezembro, na companhia de Thales de Azevedo e Charles Wagley para visitar os 3 antropólogos da Columbia University. Métraux retornou a Nova York em 18 de dezembro".

Uma referência feita por Wagley no prefácio a primeira edição do estudo Race and Class in Rural Brazil relata a presença de Metraux no ano de 1950. Nesse texto percebemos a presença dos agradecimentos de Wagley a Anísio, Thales, Ayres e Metraux, entre outros. (WAGLEY, 1951)


Outra referência é do próprio Métraux sobre sua passagem pela Bahia em 1950 é localizada no seu diário, em Intineraires a pagina 320, no dia 1º de novembro de 1951, sendo que neste dia ele e Verger vão visitar um pai-de-santo de prenome Cosme, ‘um dos principais informantes de Verger’:
“J’etais déjà venu le voir l’année dernière”

(METRAUX, 01/11/51, pag.299)


Outra citação intrigante na biografia de Verger feita por Le Bouler faz menção à participação de fotógrafo na missão:
Desde o início da investigação Verger pensa, com razão, que Wagley ‘encontrará meios de fazê-lo entrar em ação qualquer dia desses’. Em 8 de outubro, escreve a Métraux: ‘Vi Wagley, simpático, parecia interessado há dois meses por fotos a serem feitas quando os três antropólogos estiverem mais familiarizados com o meio’. De fato, Races et classes datis le Brésil rural será ilustrado com sete ‘fotografias de Pierre Verger’.

Essa investigação é o Projeto Columbia que viria a se tornar o Projeto UNESCO. E esses meios por Wagley encontrado é justamente o que promove essa mudança.

V – O Projeto Colúmbia e o projeto UNESCO


Após a Segunda Guerra Mundial, a questão racial se tornou um dos motes das preocupações mundiais justamente pelo acontecimento mais insano dessa, o Holocausto. A criação da UNESCO seria uma resposta, a qual estimularia pesquisas que pudessem abordar, sobretudo, a superação do fenômeno racista advindo do conflito judeu alemão. A idéia para o projeto era assim iniciada (CHOR, 1999).

Com a assunção de Metraux na chefia do Setor de Relações Raciais do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO em abril de 1950 (MÉTRAUX, 1978), e do brasileiro Ruy Coelho como seu principal assistente. O projeto seria aplicado apenas na Bahia devido a forte influência da cultura africana nesse cenário, bem como a presença de estudos, nos anos 30 e 40, de pesquisadores estrangeiros como Landes, 1947; Frazier, 1942; Pierson, 1942; Herskovits, 1943, indicando a Bahia (Brasil) como um lugar privilegiado em termos de convívio entre as raças.

Chor Maio (1999) descreve em sua pesquisa que em junho de 1950, Florença, Itália, a 5ª Conferência da UNESCO aprovara uma pesquisa sobre relações raciais no Brasil, que fora idealizado por Arthur Ramos, médico e antropólogo brasileiro, conselheiro daquele órgão falecido em 31 de outubro de 1949, com o contexto da ampliação das investigações sociais e antropológicas no Brasil. Duas semanas após a deliberação da conferência, Wagley estabeleceu contatos com a instituição, mais precisamente com o amigo Metraux, que passou a saber do convênio Universidade de Columbia/Estado da Bahia, “projeto idealizado por Anísio Teixeira, então secretário estadual de Educação e Saúde, na gestão de Otávio Mangabeira (1947-1951), que tinha a intenção de conhecer a vida social de três comunidades rurais próximas a Salvador com o objetivo de colher subsídios para o desenvolvimento de futuras políticas públicas de modernização dessas áreas (Wagley, Azevedo e Costa Pinto, 1950)” (CHOR, 1999).

A descrição da Drª Josildeth Consorte acerca do projeto Columbia é muito interessante, pois é ressaltado, na sua fala, o quão importante era a presença de Anísio Teixeira:



Há outra coisa. Anísio, no mesmo momento em que dava início ao projeto de pesquisas com a Universidade de Colúmbia, punha em prática seu projeto de educação com o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, que incluía a famosa Escola Parque. Isto nos faz pensar que seu objetivo com o projeto dos estudos de comunidade não era propriamente fornecer subsídios para sua atuação, mas buscar este conhecimento com qualidade mais ampla. É o que me parece. Anísio era um homem muito preocupado com nosso atraso. [...] Recentemente, a filha de Wagley trouxe-me a carta do doutor Anísio à chefia do Departamento de Antropologia da Universidade de Colúmbia confirmando a realização do convênio. É o atestado de nascimento do projeto.
Metraux, em um trecho do seu diário, datado de 9 de dezembro de 1951 relata um encontro com Anísio Teixeira:
Longue conversation avec Anisio Texeira, qui vient d'êntre chargé par le gouvernement de faire une sorte d'inventaire des ressources du Brésil en techniciens, et de trouver un moyen de compléter les cadres de l'enseignement. Nous discutons de la possibilité d'obtenir, par l'Assistance Technique, un professeur de sciences sociales, un de science naturelles et un biologiste-généticien. Anisio souhaiterait des spécialistes suscepitibles de rester au Brésil. Je suggère comme thème de recherches "les effets sociaux des nouvelles écoles créées par le Département d'Education".

Ela ainda afirma que seis meses após o início das pesquisas de campo, Metraux chega a capital baiana com uma proposta da UNESCO de estudo das relações raciais no Brasil e que a mesma recebeu um documento recentemente que explicita claramente que “Metraux entregou a Wagley a coordenação deste trabalho na Bahia.”


Wagley era muito bem relacionado e benquisto no Brasil. O trabalho realizado na Amazônia Nas cartas trocadas com Heloísa Torres, do Museu Nacional, diz em uma delas que trabalhou “com Marvin Harris [seu aluno da Universidade de Colúmbia] no Ministério da Educação, a convite de Anísio Teixeira, [onde] conheceu Darcy Ribeiro e Thales de Azevedo e começou uma série de pesquisas de comunidade na Bahia que dariam início a uma longa série de pesquisas feitas por ele e por seus alunos no Brasil.” (CORREA&MELLO, 2008). Sua esposa, Cecília Wagley, durante sua estada em Nova York, endereça uma carta a Torres em 24 de outubro de 1949, comentando acerca de um financiamento: “A nossa viagem ao Brasil no próximo ano parece bem provável. Até agora Chuck [apelido de Charles Wagley, que também era às vezes tratado como Dr. Carlos Wagley] não sabe ainda como arranjará o resto do dinheiro para cobrir as despesas e completar a quantia dada pelo Estado da Bahia, mas temos esperanças que conseguirá. Dessa maneira, se não tivermos o prazer de vê-la por aqui até lá, esperamos poder aproveitar bem de sua companhia em 1950.” (CORREA&MELLO, 2008). Essa quantia deve referir ao financiamento da FDC-Ba ao Programa Bahia-Columbia, colaboração de Wagley com Thales de Azevedo em Salvador, “que também treinava estudantes, brasileiros e americanos, em pesquisas de comunidades. Ver Thales de Azevedo, As Ciências Sociais na Bahia: notas para sua história, Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984 e Charles e Cecília Wagley, Serendipity in Bahia. 1950-70, em Universitas - Revista de Cultura da Universidade Federal da Bahia 6/7, maio/dezembro, 1970.” (CORREA & MELLO, 2008).

Quanto a esses financiamentos realizados pela Fundação de Desenvolvimento da Ciência na Bahia - FDCBA, criada por Anísio Teixeira, a revista Técnica de dezembro de 1955, traz uma tabela com os valores destinados a bolsas e contribuições a pesquisas, bem como eventos e publicações, entre outros. É possível perceber na Tabela 1, através de uma rápida leitura no período de 51 e 52, que não houve nenhum pagamento de bolsas nesse período.



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