Peter knauer sj



Baixar 42,25 Kb.
Encontro25.01.2019
Tamanho42,25 Kb.

Peter Knauer SJ

IGREJA UNIVERSAL, IGREJAS PARTICULARES E IGREJA TODA1

Resumo:

Em LG 8,2 afirma-se que a Igreja de Cristo que no Símbolo designamos de católica subsista na Igreja católica. Referente à primeira quer se dizer a Igreja Universal, Igreja enquanto tal. Esta não pode ser confundida com a “Igreja toda” (igualmente mundial), a qual representa um conjunto de Igrejas particulares. A uma Igreja de Cristo é a Igreja Universal. Ela está sempre presente onde existe uma fé indivisível em Jesus Cristo.

A Igreja Universal é a Igreja tal qual. Ela consiste de Igrejas particulares. O conjunto das Igrejas particulares é denominado de Igreja toda. Mas na história e também na discussão teológica contemporânea, costuma ser confundidas Igreja Universal e Igreja toda. Tal confusão é natural porque também a Igreja toda é mundial.

No Código do Direito Canônico (CIC 1983) o conceito [termo] da Igreja universal (ecclesia universalis) nem aparece, mas sim apenas o conceito da ecclesia universa. Com o termo da ecclesia universa quer-se dizer Igreja toda. Na tradução oficial alemã dos textos conciliares e também do CIC, infelizmente, o conceito da ecclesia particularis é traduzida inadequadamente por “Igreja parcial”. Na realidade ele designa a “Igreja particular”. A palavra latina “particularis quer dizer o singular, o particular. Inclusive, dessa forma a palavra é utilizada nas línguas romanas. A expressão francesa em particulier não significa “em parte” e sim “particularmente, sobretudo”. Apenas em comparação com a Igreja todas as Igrejas particulares são “partes” (portiones).



A disputa em torno do “subsistit”

Na declaração romana “Dominus Jesus” de 06 ago. 2000, subscrita pelo Cardeal Ratzinger, diz-se no nº 16,3 por referência à célebre afirmação da Constituição Dogmática do Vaticano II sobre a Igreja: “Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na sucessão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica”.**A passagem de LG 8,2 aí é citada da seguinte maneira: “Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17), encarregando-o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28,18ss.); levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (cf. 1Tim 3,15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele”.

Na explicação que segue, essa frase é interpretada assim: “Com a expressão ‘subsistit in’, o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que, não obstante as divisões dos cristãos, a Igreja de Cristo continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que ‘existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição’, isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica. Acerca destas, porém, deve afirmar-se que ‘o seu valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica’”.

Contudo, nessa citação do Concílio não se deu conta do fato de que, na verdade, em LG 8,2 fala-se da Igreja católica duas vezes em sentido distinto. Na passagem recortada da citação acima referida, indicada pelos pontinhos, consta: “que no símbolo professamos uma, santa, católica e apostólica”. Portanto, lido em sua essência, afirma-se no texto conciliar que a Igreja católica do Símbolo subsista na Igreja católica. No Concílio, essa afirmação assumiu o lugar de outra formulação prevista num esquema anterior que dizia que a Igreja católica do Símbolo é a Igreja católica. Mediante substituição do “é” pelo “subsiste em” torna-se impossível identificar simplesmente a “Igreja católica”, mencionada primeiro, com aquela mencionada por último.

A tradução alemã comum do subsistit in por “é realizada em” poderia ser mal entendida no sentido de que a Igreja, antes, seja algo como uma ideia abstrata que somente a partir de então encontra na Igreja católico-romana sua realização concreta. Em contrapartida, Cardeal Ratzinger explicou o subsistit in em entrevista para o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung de 22 de setembro de 2000 no sentido de que, certamente, o ser da Igreja seria mais abrangente do que a Igreja católico-romana, mas somente nesta aquele teria “o caráter de um sujeito próprio de modo todo especial”. Queria o Cardeal Ratzinger dizer com isso que a Igreja católica do Símbolo subsistisse somente na Igreja católico-romana? De tal subsistência exclusiva não se fala na afirmação do Concílio. Esta é formulada de forma positiva e significa que na Igreja católico-romana a uma Igreja de Cristo se faz plenamente presente. Não nem excluído nem afirmado que a Igreja talvez possa estar inteiramente presente em outras comunidades cristãs de fé também. Mas essa questão permanece em aberto.

Uma interpretação excludente, segundo a qual a Igreja de Cristo seria um sujeito concreto apenas na Igreja católico-romana, parece incompatível com o teor de LG 8,2. Pois já no início da citada passagem de LG a Igreja católica do Símbolo é entendida como realidade constituída e ordenada enquanto sociedade nesse mundo, antes de ser afirmada dela ainda que ela subsista na nossa Igreja católica (romana). Portanto, a Igreja do Símbolo desde antes é sujeito e não alcança seu caráter de sujeito apenas por meio de sua subsistência naquela Igreja católica que é nomeada em segundo lugar na formulação de LG 8,2.

Muito pelo contrário, quer-se dizer que a Igreja do Símbolo é, sem mais, a Igreja tal qual. A rigor, universalis apenas representa aqui a tradução latina de catholica o que significa justamente “universal”, “mundial”. Esta Igreja compreende-se como evento contínuo da transmissão da palavra de Deus. Ela empenha-se por uma mensagem da qual há de concluir a pretensão de que ela afete ao ser humano enquanto ser humano e, por isso, mundialmente a cada ser humano e também a todos os seres humanos juntos.

Ecclesia universalis

O evento contínuo da transmissão da “palavra de Deus”, sendo justamente essa a autocomunicação de Deus na palavra humana do anúncio de fé constitui essa Igreja de antemão como realidade em nosso mundo e até como sujeito. Por palavra de Deus há de entender-se o Evangelho de Jesus Cristo, a autocomunicação de Deus na “palavra da reconciliação” (2 Cor 5,19) instituída por Jesus. Esta palavra enquanto tal é palavra última que abrange toda a realidade de nosso mundo. O termo “palavra de Deus” implica que ninguém pode acrescentar algo a ela e nem tirar algo dela se é que pode ser entendida doutra forma senão somente como “palavra de Deus”, a saber, como autocomunicação de Deus. Autocomunicação de Deus significa que deus doa-se a si mesmo nessa palavra e enche o nosso coração de seu Espírito Santo. Também os sacramentos não representam nenhum acréscimo à palavra de Deus, mas eles mesmos não fazem nada mais senão sublinhar a graça já recebida. Eles são as formas visíveis da palavra de Deus acolhida na fé da Igreja. A palavra de Deus consiste na transmissão da fé em Jesus Cristo como sendo o filho de Deus. Crer em Jesus como o Filho de Deus significa, por causa de sua palavra, confiar de todo coração, que nós e o mundo todo somos acolhidos por Deus com aquele amor no qual este está voltado a esse, desde toda eternidade, como seu próprio em-face-de. Esse amor do Pai ao Filho, no qual somos acolhidos, é o Espírito Santo. Por isso, crer há de ser entendido como o estar repleto do Espírito Santo. “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão no Espírito Santo” (1Cor 12,3). Tal fé é uma realidade insuperável.

A Igreja constituída como o evento contínuo da transmissão da palavra de Deus não é a associação posterior de fiéis singulares. Mas fiéis singulares apenas existem de tal forma, que a eles tenha sido transmitida a una fé indivisível na autocomunicação de Deus em sua palavra por meio de outros. Se a fé provém da “mensagem ouvida” (Rm 10,17), então, ela apenas surge quando seres humanos aderem à comunidade dos que já crêem. O teólogo Gerhard Ebeling formula: “[...] seria completamente errado se se difundisse a opinião de essa comunidade de Cristo ser originalmente e no fundo somente a respectiva comunidade singular, enquanto apenas em desenvolvimento posterior o olhar teria sido dirigido ao todo, á junção a uma unidade maior. Pelo contrário: a perspectiva do todo, indivisivelmente uno é no conceito de ecclesia o primário, ainda que não no sentido de uma organização, mas de uma criação nova”.2

E também não se trata somente de uma realidade social, e sim ela até é constituída e ordenada enquanto tal. A constituição da Igreja consiste em um em-face-de de magistério e comunidade, inerente à própria essência da fé. Pois o fato de a fé provir da mensagem ouvida não vale somente para cada fiel singular, mas também para a respectiva comunidade no seu todo. Também a comunidade no seu todo não produz para si própria a sua fé, mas esta há de ser comunicada a ela; e representar isso constitui o significado dos ministros ordenados. Cada fiel que testemunha a fé a outro naturalmente o faz na autoridade de Cristo, sim in persona Christi. Doutro modo a fé não pode ser transmitida. Os ministros ordenados, porém, atuam in persona Christi capitis (Concílio Vaticano II Decreto sobre serviço e vida dos presbíteros [Presbyterorum Ordinis], 2,3), portanto, na pessoa de Cristo enquanto cabeça em face do corpo todo da comunidade. A atuação magisterial refere-se, primeiramente, à comunidade no seu todo. A possibilidade necessária de um em-face-de de magistério e comunidade é tão constitutivo para a essência da fé que o Concílio pode dizer que o Espírito Santo guarde essa estrutura administrativa estabelecida por Cristo na sua Igreja de forma “indefectível” (indefectibiliter; LG 27,2; “sem diminuição” como consta na tradução oficial alemã). A sucessão apostólica dos ministros ordenados é uma expressão necessariamente possível pelo fato de que a palavra da reconciliação a ser transmitida é uma palavra “instituída” uma vez por todas, que a Igreja não produz por conta própria. No entanto, a sucessão apostólica dos ministros ordenados encontra sua garantia última na sucessão apostólica da própria fé e não do contrário. Não há outra fé em Jesus Cristo senão a dos apóstolos.

Portanto, com a primeira denominação da Igreja católica em LG 8,2 é apontada a Igreja enquanto tal, a Igreja tal qual. Para essa Igreja a tradição teológica utiliza o termo da Igreja universal (ecclesia universalis). Ela é a uma e única Igreja de Cristo.

A fala dessa uma e única Igreja de Cristo, no entanto, não impede falar de uma multiplicidade de Igrejas singulares, nas quais essa uma e única Igreja de Cristo se faz plenamente presente: “Esta Igreja de Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas comunidades locais dos fiéis [vere adest], que, aderindo aos seus pastores são elas mesmas chamadas também no Novo Testamento de Igrejas” (LG 26,1). A expressão vere adest parece realmente sinônima ao subsistit in em LG 8,2. De fato, a afirmação de LG 8,2 tinha sido explicada no relatório da comissão preparatória do texto dessa forma: “Essa Igreja é uma única, e aqui na terra ela está presente na [adest in] Igreja católica, haja que fora dela também possam encontrar-se elementos eclesiais”.3 Talvez o subsitit in comparado ao vere adest realce mais claramente a persistência e continuidade da presença da Igreja católica do Símbolo na nossa Igreja católica de hoje no seu todo e nas respectivas Igrejas singulares ou comunidades locais com seu bispo.

De acordo com LG 15, em geral, há entre todos que crêem em Jesus Cristo como o Filho de Deus “uma união verdadeira no Espírito Santo [vera quaedam in Spiritu Sancto coniunctio]”. O próprio Espírito Santo é essa realidade que une. Os “numerosos elementos de santificação e de verdade”, que também existem fora do conjunto da Igreja católico-romana, mas que a unem a outros cristãos, de todo jeito permanecem dentro do conjunto da Igreja Universal. Esta é a Igreja que denominamos no Símbolo de católica. E é ela que abrange todos os que crêem em Jesus Cristo como o Filho eterno de Deus.

Em UR 3,1 consta que também os cristãos separados da Igreja católico-romana “justificados no batismo pela fé, são incorporados a Cristo [Christo incorporantur] e, por isso com direito [iure] se honram com o nome de cristãos, sendo merecidamente [merito] reconhecidos pelos filhos da Igreja católica como irmãos no Senhor”. Entende-se que com a Igreja católica aqui referida por último designa-se a Igreja católico-romana. Pode-se perguntar se perante o iure e o merito é com direito que a esses são prescindidos da comunhão eucarística.

Se mais adiante em UR 3,4 afirma-se que o Espírito Santo dignou-se a servir-se também das comunidades de outros cristãos como instrumentos de salvação, então se pode concluir de que tais comunidades cristãs igualmente são legítimas.

Sendo assim, então também vale dizer deles o que escreve a Constituição dogmática sobre a Igreja (LG 26,1): “Esta Igreja de Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas [legitimis] comunidades locais de fiéis, as quais, aderindo aos seus pastores, são elas mesmas chamadas Igrejas no Novo Testamento”. A uma Igreja universal também neles está presente. Ela subsiste também em meio a eles. Aliás, também Lutero assinalou expressamente a correlação de comunidade de fé e magistério pastoral; “Igreja cristã significa, no entanto, que o número ou a multidão dos batizados e fiéis pertencem a um padre ou um bispo, seja na cidade ou no país todo ou no mundo todo (WA 30,2; 425,22-24).



Que Igreja é o meio universal de salvação?

Quando o Concílio explica: “Porque só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares” (UR 3,5), há de perguntar-se, se por Igreja católica quer dizer aqui a Igreja universal acima referida, a qual subsiste na Igreja católico-romana, ou apenas a essa última, na qual a Igreja universal subsiste.

Anterior ao Vaticano II a Igreja católico-romana sempre negou às outras Igrejas toda legitimidade. Embora tenha sido essa a concepção oficial, infelizmente era incorreta. Aprende-se disso que mesmo diante de opiniões oficiais, defendidas com ênfase, não se deveria recuar precipitadamente com relação a questões críticas; pois, dessa forma, não se presta nenhum serviço efetivo à Igreja.

No Concílio Vaticano II, a Igreja católico-romana conseguiu aprovar a seguinte concepção: “Por isso, as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica” (UR 3,4).

A primeira frase dessa citação é problemática em sua formulação. Ela suscita a impressão de que as carências [oder: insuficiências] de outras Igrejas representem para a Igreja católico-romana um próprio assunto de fé. Em um Símbolo completo também teriam que ser alistadas as carências de outras Igrejas. Na verdade, porém, essa frase apenas pode significar que, segundo a opinião da Igreja católico-romana, as outras Igrejas sofram de carências. Esse fato não pode, ele mesmo, ser assunto de fé. O credimos que o Concílio utilizou com um pouco descautelosamente não tem o significado de “de acordo com a nossa fé”. Aliás, é possível tratar-se de carências que bem possam ser encontradas do lado da própria Igreja católico-romana. Pois com relação à Igreja católico-romana inteira o Concílio diz que, devido às cisões, “até para a própria Igreja se torna mais difícil exprimir na realidade da vida e sob todos os aspectos a sua plena catolicidade” (UR 4,10).

A segunda frase da citação, por sua vez, é a afirmação verdadeira: não os cristãos singulares são crentes sem mais e sim, antes, suas comunidades enquanto tais servem ao Espírito Santo como seus meios. Será que se faz jus a elas querer negar a elas novamente seu caráter de Igreja como antigamente?

Mas acontece, no entanto, que, no olhar católico-romano, todas as evidências parecem sustentar que as comunidades cristãs separadas da Igreja católico-romana, de fato, sofram de “carências de fé”. Contudo, tal impressão que tanto se impõe, é posta em xeque pelo fato de que a fé cristã não é, de jeito nenhum, composta de forma aditiva. Todas as verdades de fé podem ser entendidas somente como desdobramentos de um só mistério de fé, a saber, de nosso participar da relação de Jesus com Deus. De acordo com Irineu de Lion vale dizer: “Pelo fato de a fé ser uma e a mesma, ninguém que saiba falar muito sobre ela tem mais, e ninguém que saiba falar menos sobre ela tem menos”.4

E de acordo com isso o Concílio formulou: “A totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo [cf. 1Jo 2,20.27] não pode enganar-se na fé [in credendi falli nequit]; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do senso sobrenatural da fé do povo todo, quando este, “desde os bispos até ao último dos fiéis leigos” [cf. Agostinho, De praedestinatione sanctorum 14, n. 27: Pl 44,980], manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes” (LG 12,1).

De fato, uma fé voltada á palavra de Deus no sentido da autocomunicação de Deus não pode ser errada somente porque a palavra de Deus enquanto tal é compreensível apenas sob a condição de que aquilo de que fala nela mesma acontece. Pois ela fala de Deus estar amorosamente voltado a nós no Espírito Santo e ela mesma é tal estar voltado. Por essa razão, ela é necessariamente “verdadeira por si mesma”. A mensagem cristã explica sua pretensão de ser palavra de Deus pelo seu conteúdo. Deus está voltado a nós com um amor que não tem sua medida em nada que é criado, mas que, antes, é o amor do Pai ao Filho no qual nós somos acolhidos. Por esse amor não ter sua medida no mundo, não pode ser “lido” no mundo e sim há de ser proferido a ele. O Filho de Deus assumiu natureza humana a fim de tornar possível tal palavra humana que seja compreensível como palavra de Deus. Contudo, toda pretensa proclamação de fé desviando da verdadeira palavra de Deus, doravante, deixa de ser compreensível como palavra de Deus; enquanto suposta proclamação de fé ela não é errada, mas de antemão incompreensível porque não permite ser entendida como autocomunicação de Deus.

Se se põe ao lado da afirmação de que a totalidade dos fiéis não pode errar, a afirmação da mesma Igreja católico-romana de que também outros cristãos “justificados no batismo pela fé, são incorporados a Cristo” (UR 3,1), parece resultar daí que também eles realmente pertencem à totalidade dos fiéis que enquanto tal não pode errar na fé. Pois, de fato, afirmações de fé compreensíveis no sentido da autocomunicação de Deus que mesmo assim seriam erradas, de antemão nem poderiam ser produzidas.



Tarefa e fim de todo trabalho ecumênico

Se outros cristãos recusam doutrinas compreensíveis como afirmações de fé no sentido da autocomunicação de Deus há de supor-se que eles somente podem contestá-las em um sentido que tais afirmações nem têm. Noutras palavras: trata-se de doutrinas equivocamente formuladas. Ou, ao menos, elas são faticamente mal-entendidas e, por isso, recusadas num sentido completamente inadequado. Nesse caso a tarefa ecumênica da Igreja católico-romana consiste em formular mais esclarecidamente suas doutrinas de fé. Cuidar, nesse sentido, da trave no próprio olho, provavelmente contribua muito mais do que deparar-se imediatamente com o cisto no olho de outros (cf. Mt 7,3-5).

Como exemplo seja mencionada a doutrina da infalibilidade papal. Confere-se ao papa aquela infalibilidade com a qual Cristo queria ver revestida sua Igreja. Ela fundamenta-se no fato de que afirmações compreensíveis como afirmações de fé no sentido da autocomunicação de Deus sempre são verdadeiras “por si mesmas” e não apenas mediante concordância da Igreja. Isso é um fato genérico: a palavra de Deus somente é reconhecida enquanto palavra de Deus na fé, portanto, pela concordância da Igreja; mas, de modo algum, ela é feita palavra de Deus pela fé da Igreja. Como isso não costuma ser dito claramente, surge a impressão noutros cristãos que a Igreja católica ensine que o papa seja infalível sempre quando ele acha que está com razão (engano que já em Mt 16,22 é rejeitado severamente). Tal subjetivismo papal, que de fato existiu na história da Igreja, efetivamente não é defendido nas doutrinas católicas.

Outro exemplo é a disputa em torno dos princípios de “a Escritura somente” ou de “Escritura e Tradição”. Disputa-se porque não se enxerga que a mesma palavra “Escritura” tem significado distinto. Na fórmula católica “Escritura e Tradição” entende-se por Escritura simplesmente a Bíblia, por assim dizer, até mesmo antes de abri-la. Perguntando como ela há de ser entendida, tem-se como resposta que seu sentido é a transmissão da fé. Por “Tradição” não se entende outra coisa senão justamente essa transmissão da fé. O sentido da Escritura é a própria Igreja como o evento contínuo da transmissão da fé. Na fórmula protestante “a Escritura somente”, ao contrário, não se entende por “Escritura” a Escritura a ser entendida corretamente ainda, mas a desde já corretamente entendida, a saber, no sentido em que é palavra de Deus e seus textos “o pregar e atuar de Cristo”.5 Pois a Escritura não é palavra de Deus em sentido qualquer, mas somente no sentido de nosso participar da relação de Jesus com Deus. E nesse sentido ninguém pode acrescentar algo a ela. Tudo já está contido nela.

Todavia, não falta a certas comunidades eclesiais protestantes, p.ex., a sucessão apostólica do magistério? Já no ano de 1984 a comissão bilateral da Conferência Episcopal da Alemanha e da direção da Igreja Evangélico-luterana unida da Alemanha emitiu um documento: “Comunidade eclesial e sacramento”. Seu resultado principal consistia em perceber que nas comunidades evangélicas o ministério seria transmitido sem graus. Por isso não se podia excluir que pastores evangélicos, segundo a concepção católica, seriam bispos (cf. ibid., 75,77, 109 e o.). Pelo que eu saiba, a esse resultado da comissão oficialmente instituída nunca foi recebida uma resposta da Igreja católico-romana. No entanto, uma resposta não seria necessária antes de continuar a dizer que nas comunidades evangélicas o ministério sacramental não seria plenamente conservado?

Fim de todo esforço ecumênico há de ser, de um lado, que cristãos de linguagens diferentes, mas de uma e mesma fé, deixem de contestar mutuamente a legitimidade [ortodoxia] de sua fé. Além disso, é desejável que mutuamente se reconheçam de forma positiva. Para tal é suficiente que sua fé em Jesus Cristo como o Filho de Deus consiste em saber o mundo todo acolhido no amor eterno do Pai ao Filho e, em razão dessa fé, viver diferente do que a partir do medo pela própria pessoa. Seja como for, já Paulo alertou os cristão em Corinto de não tornar sua pertença a ele ou a Cefas (Pedro) ou Apólo critério próprio de diferenciação da fé (1Cor 1,12s e 3,5-17). Por acaso, Paulo foi crucificado por vocês?

Para a pertença a una Igreja de Jesus Cristo que no Símbolo professamos como a una [e única] católica a concordância na fé é absolutamente necessária. Pois essa fé já contém em si tudo o que é necessário e em si é indivisível. Evidentemente é por demais desejável constatar e reconhecer tal concordância explicitamente. Porém, pensar que a concordância na fé existe somente quando também foi declarada, em última consequência desembocaria em um comportamento cismático pelo qual nós mesmos teríamos que responsabilizar-nos. A constatação da concordância não é absolutamente necessária e sim apenas necessariamente possível. Uma comparação profana: faz parte da essência do jogo de futebol que necessariamente podem ser feitos gols. Porém, um jogo em que não há gols, mas que empata 0:0, ainda assim continua sendo futebol quando mantido que é altamente desejável fazer gols. Dessa forma, alguns aspectos da Igreja podem permanecer latentes por muito tempo em diversas Igrejas singulares. P.ex., a conciliaridade também pertence à essência da Igreja, mas na Igreja católico-romana, depois do Concílio de Trento, durante três séculos não houve concílio sem que com isso a Igreja teria que ter deixado de ser Igreja. No entanto, foi tudo menos proveitoso não convocar um concílio durante tanto tempo.

Cristãos podem pertencer à Igreja universal, mesmo que falem linguagens completamente diferentes e não se entendam bem por falta de bons intérpretes. Jesus mesmo respondeu aos discípulos que não estavam dispostos a tolerar que também outros expulsavam demônios no seu nome: Quem não é contra nós é por nós (Mc 9,38-40). Somente com relação a ele mesmo vale dizer: Quem não é por mim é contra mim (Mt 12,30). Com a fé em Jesus Cristo no sentido de sua filiação divina e de nossa participação de sua relação com Deus está dada a fé toda. Como a brasa por debaixo das cinzas tal fé é suficiente para incendiar novamente uma labareda.

Tradução de Michael Kosubek

Fortaleza, em outubro de 2010.



1 [Nota do tradutor:] Esse artigo de Peter Knauer, intitulado de “Universalkirche, Einzelkirchen und Gesamtkirche” foi originalmente publicado in: Orientierung 65 (2001), 3-6. Em sua publicação online, (acesso em: 20 out. 2010), o autor observa a respeito da mesma: “No texto que segue, trata-se de uma ampliação da versão impressa acrescida de algumas explanações (marcadas por recuo e em colchetes)”.

** [Nota do tradutor:] Citado de acordo com a tradução portuguesa no site oficial do Vaticano: . Acesso em: 25 out. 2010. Assim também na tradução portuguesa do Denzinger (DH 5088); cf. Denzinger, Heinrich. Compendio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Tradução, com base na 40.ed. alemã (2005), aos cuidados de Peter Hünermann, por Jose Marino Luz e Johan Konings. São Paulo: Loyola, 2007. Citam-se os documentos magisteriais no português do site oficial do Vaticano somente quando eles não se encontram em sua inteireza (como no caso de algumas passagens do decreto Unitatis Redintegratio na tradução portuguesa do Denzinger citado por último.

2 Ebeling, Gerhard. Das Wesen des christlichen Glaubens. München: Ch. Kaiser, 1965, 136. Entende-se aqui por organização uma unidade administrativa. Em diferença à constituição social da Igreja, tal estrutura administrativa não pode ser o constitutivo verdadeiro da Igreja.

3 Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticani II, 3,1; 176.

4 Contra Haereses I, 10, 2 (PG 7, 553A).

5 Martin Lutero, WADB 7; 385,26 (Prefácio à epístola de São Tiago e de Judas).

- -




©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal