Perls, Frederick S. Gestalt-terapia explicada



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F: Fale com eles.
J: Acordem! /F: Outra vez. / (Alto.) Acordem. /F: Outra vez. / (Alto.) Acordem. /F: Outra vez. / (Alto.) Acordem! ... E... (Em voz alta, quase chorando.) Vocês não podem me ouvir! Por que vocês
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não me ouvem?... (Suspira.) E eles não respondem. Eles não dizem nada.
F: Vamos! Seja falsa. Invente-os. Ressuscite-os. Vamos fazer uma brincadeira de mentira.
J: Muito bem. Nós não sabemos por que não podemos ouvir você. Não sabemos. Nós nem mesmo sabemos que não queremos ouvir você. Nós somos apenas esqueletos. Ou somos tranquilos? Não... Nós não sabemos por que não podemos ouvi-la. Nós não sabemos por que somos assim. Nós não sabemos por que você nos achou assim. (Chorando.) Talvez se você nunca tivesse ido embora, talvez se você nunca tivesse ido embora, isto não teria acontecido. Parece que é isto. É isto que eles teriam dito. É isto que eles teriam dito.
F: Muito bem. Sente-se de novo no seu lugar...
J: Eu sinto que quero lhes contar que eu fui embora cedo demais, e realmente não consigo ir embora totalmente. (Chorando.)
F: Diga a eles que você ainda necessita deles.
J: Eu ainda necessito de vocês.
F: Diga-lhes com mais detalhes do que você necessita.
J: Eu ainda necessito da minha mãe para me segurar.
F: Diga isto para ela.
J: Eu ainda necessito de você para me segurar. (Chorando.) Eu quero ser uma menininha, às vezes — esqueça o “às vezes”.
F: Você ainda não está falando com ela.
J: (Soluçando.) Está bem. Mamãe, mamãe, você pensa que eu sou muito crescida, e eu penso que sou muito crescida. Mas, há uma parte de mim que não está separada de você, e eu não consigo, eu não consigo deixá-la.
F: Você vê como isto é uma continuação da nossa última sessão? Você começou como a menina ríspida, arrogante, e então a suavidade saiu? Agora você está começando a aceitar que tem necessidades delicadas... Então seja a sua mãe.
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J: (Timidamente.) Bem, você sabe que pode voltar a hora que quiser, Jane. Mas, não vai ser a mesma coisa, porque eu tenho que cuidar de outras menininhas. Eu preciso cuidar das suas irmãs e elas são meninas pequenas, e você já é grande e já pode tomar conta de si mesma. E eu estou satisfeita por você estar crescida. Eu estou contente por você ser tão esperta... Em todo caso, eu não sei mais falar com você. Quero dizer, eu sei... eu respeito você, mas eu não a entendo grande parte do tempo... (Soluçando.) E... e...
F: O que acabou de acontecer? O que aconteceu quando você parou?
J: Eu senti uma dor no estômago. Eu me senti frustrada.
F: Diga isto para a Jane.
J: Jane, eu... (chorando)... eu estou com dor no estômago. Eu me sinto frustrada; eu não a compreendo, porque você faz coisas tão esquisitas; porque você foi embora quando era tão moça, e realmente nunca voltou. E você fugiu de mim e eu a amava e queria que você voltasse, e você não voltou. E agora você quer voltar e é tarde demais.
F: Seja de novo a Jane.
J: (Sem chorar.) Mas eu ainda preciso de você. Eu quero sentar no seu colo. Ninguém mais pode me dar o que você me dá. Eu ainda preciso de uma mãe. (Chorando.) ... Eu não posso acreditar. Eu não posso acreditar no que eu estou dizendo. Quer dizer, eu posso concordar com o que estou dizendo, mas...
F: Muito bem, vamos interromper. De qualquer forma, você acordou. Volte para o grupo. Como você está nos experienciando? Vê pode dizer ao grupo que precisa de uma mãe?
J: Hum. (Risos.) (Jane ri.) Eu posso dizer para você, Fritz. Ah não, eles são muitos.
F: Está bem, agora, vamos ver se conseguimos juntar as coisas. Tenha um encontro entre a sua dependência de bebê e a sua arrogância.
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J: (Arrogante.) Você não é mesmo de nada. Não é de nada. Você tem andado por aí. Você tem andado por aí durante muito tempo. Você aprendeu muita coisa. Você sabe como se virar sozinha. Que merda há com você? Por que você está chorando?

Bem, é que às vezes eu gosto de ser desamparada, Jane, e eu sei que você não gosta disto. Eu sei que você não atura muito isto. Mas, às vezes, sai sozinho. Eu não consigo trabalhar com o Fritz sem isso aparecer. Eu não posso esconder... durante muito tempo, mas... se você não assumir isso, eu vou, realmente, eu vou continuar saindo, e talvez você nunca cresça.


F: Diga isto outra vez.
J: Eu vou continuar saindo e talvez você nunca cresça.
F: Diga isto com muito rancor.
J: Eu vou continuar saindo e talvez você nunca cresça.
F: Muito bem, seja de novo a arrogante.
J: (Suspira.) Bem, eu tenho tentado pisar em cima de você, e esconder você, e guardar você, e fazer todo mundo acreditar que você não existe, O que mais você quer que eu faça? O que você quer de mim? ...
Eu quero que você me escute...
F: A Jane arrogante está disposta a escutar?
J: Eu comecei a escutar... está bem, vou lhe dar uma chance. Eu estou com vontade de lhe dar uma chance... (A mão direita levanta um punho ameaçador.)
F: É? É? — Não não não, não — não esconda. Saia. Você não lhe dá chance, você dá ameaças.
J: É. É isto que eu faço.
F: É, dê ambas as coisas. Faça ameaças e dê uma chance.
J: Muito bem. Vou lhe dar uma chance. (A mão direita acena.)
F: Ah! Isto significa: “Venha a mim”.
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J: É. Vamos nos reunir. Vamos tentar nos encontrar e ver o que podemos fazer... Mas, eu estou prevenindo, (ameaçando) (risos) se você continuar me fazendo de boba, Jane, com o seu choro e a sua dependência... você nunca vai me deixar crescer. (Pensativa.) Eu nunca vou deixar você... Hum... (Risos.) Está bem.
F: Seja de novo a outra Jane.
J: Bem, eu não quero crescer... esta parte de... eu não quero crescer. Eu quero ficar do jeito que eu sou.
F: Diga isto outra vez.
J: Eu quero ficar do jeito que eu sou.
F: “Eu não quero crescer”.
J: Eu não quero crescer. /F: Outra vez! Eu não quero crescer. /F: Mais alto. / Eu não quero crescer. /F: Mais alto. / Eu não quero crescer. (A voz começa a se quebrar.) /F: Mais alto. Eu não quero crescer!
F: Diga isto com todo o seu corpo.
J: (Chorando.) Eu não quero crescer! Eu não quero crescer. Eu estou cansada de crescer. (Chorando.) É difícil “pacas!”... (Suspira.)
F: Agora seja de novo a Jane arrogante.
J: É claro que é difícil. Eu sei que é difícil. Eu consigo. Eu consigo qualquer coisa. Eu estou aí, provando, o tempo todo. O que é que há com você? Você está sempre atrás de mim. Você precisa me alcançar... Vamos lá, alcance-me...

Está bem, eu vou alcançar você, Jane, mas você precisa me ajudar.


F: Diga a ela como la pode lhe ajudar.
J: Você tem que me deixar existir sem me ameaçar, sem me punir.
F: Diga isto outra vez.
J: (Quase chorando.) Você tem que me deixar existir sem me ameaçar e me punir.
F: Você consegue dizer isto sem lágrimas?
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J: (Calmamente.) Você tem que me deixar existir sem me ameaçar e sem me punir.
F: Diga isto outra vez para o grupo... a mesma frase...
J: Você tem que me deixar existir sem me ameaçar e sem me punir.
F: Diga isto também para o Raymond (noivo).
J: (Chorando.) Você tem que me deixar existir sem me ameaçar... você sabe disto...
F: Pegou?
J: Sim...
F: Muito bem.
JANE II
Jane: Na noite passada eu tive um sonho, e eu gostaria de trabalhar com ele. Eu estou num parque de diversões, muito barulhento e agitado... E estou atravessando a multidão, dando encontrões com as pessoas, e não estou gostando. E estou segurando a mão do meu irmão menor, para ele não se perder. E nós estamos atravessando a multidão, e ele diz que quer entrar naquele brinquedo que... ahn... que as pessoas sentam naquelas cadeirinhas e passam por um túnel. E... ahn...

Fritz: Voltamos ao “e”. Você usa “e, e, e”, como se tivesse medo de deixar os acontecimentos ficarem sozinhos.


J: É. Então, nós não temos dinheiro..., não temos nenhum dinheiro para andar no brinquedo. Eu tiro o relógio do pulso, e peço ao meu irmão que vá perguntar ao bilheteiro se ele aceita o relógio para nos deixar andar. Ele volta e diz que o bilheteiro não aceita o relógio, então nós vamos entrar sem pagar.
F: Muito bem. Vamos começar todo o sonho de novo. Desta vez, não é você quem está sonhando, é o seu irmão.
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J: (Mais impetuosa.) Bem, nós estamos no parque de diversões, e está muito divertido, exceto que a minha irmã está segurando a minha mão. Ela está me apertando o pulso para não me perder. Ela me tem seguro ela está apertando muito o meu pulso, e eu quero... eu quero que ela me solte. Eu realmente não me importo de me perder. Mas ela se importa, então eu a deixo segurar o meu pulso. Há um brinquedo em que eu quero andar. Eu não me importo se ela vai comigo ou não, mas eu sei que ela não me deixa ir a não ser que possa ir junto, a não ser que possa ficar comigo. Ela não... ela não quer ficar sozinha... Nós não temos dinheiro para andar no brinquedo, e ela me dá o relógio dela. Eu fico realmente contente porque temos um jeito de entrar. Eu vou falar com o bilheteiro e não adianta, mas eu quero mesmo andar nesse brinquedo.
F: Diga isto outra vez.
J: Eu quero mesmo andar nesse brinquedo. /F. Outra vez! Eu quero mesmo andar nesse brinquedo. /F: Outra (Mais alto.). Eu quero mesmo andar nesse brinquedo!
F: Eu não acredito em você.
J: Oh! ... Eu não quero; meu irmão é quem quer. (Ri.) Hum. Jane, eu quero mesmo andar nesse brinquedo. Eu quero mesmo... Eu quero ir, você vindo comigo ou não. É divertido. Dê-me o seu relógio... Ela me dá o relógio. O bilheteiro diz não. Jane! Nós vamos entrar sem pagar. Ela não quer. Bem, então eu vou entrar sem pagar. Oh! Você não quer ficar sozinha, então você vai também. Está bem. Vamos entrar sem pagar. Agora, em vez de você pegar a minha mão, eu vou pegar a sua, porque eu vou ajudar você a entrar. Então segure, passe por baixo do portão, eu sou muito pequeno, muito criança.
F: Agora interrompa. Feche os olhos, experiência as suas mãos.
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J: Hum. A minha mão direita está rija, muito rija. Está apontando. A minha mão esquerda está tremendo e está..., está aberta. É... ahn... as minhas duas mãos estão tremendo. E os meus joelhos e as minhas coxas estão rijos. E eu não sinto um peso no peito como em geral me acontece. Mas eu me sinto pesada na cadeira, e a minha mão direita está apontando. E agora...
F: Eu notei que quando você puxou, a mão direita é o irmão, a mão esquerda é a Jane.
J: Hum... Eu esqueci onde estava... Eu sou a Jane. Oh! Nós vamos..., é... eu vou entrar sem pagar. Eu estou morrendo de medo, mas eu tenho mais medo de perder o meu irmão do que entrar sem pagar e ser descoberta, e então eu pego na mão dele e.... eu pego na mão dele....
F: Espere um pouco. Qual é o nome do seu irmão?
J: Paul.
F: O Paul ainda está sonhando o sonho.
J: Ah! Está bem. Pegue na minha mão. Eu sei como você tem medo de fazer coisas assim, mas eu também sei que você tem tanto medo que eu me perca, que posso fazer você vir comigo sem pagar, porque eu quero entrar nesse brinquedo. E eu adoro me divertir, e vou me divertir, você tendo medo ou não. Então nós..., nós passamos debaixo da cerca, e passamos pelo meio das pernas das pessoas, entrando e saindo, passamos pelo bilheteiro.
F: Eu não acredito. Você não está no sonho. A sua voz está fazendo aaaahhhhhhhrrrrr...
J: As minhas pernas estão doendo e a parte de cima da perna está meio... Eu estou segurando a mão da Jane. Nós estamos... estamos passando (a voz se torna mais expressiva) no meio das pernas das pessoas e.... nos arrastando, e (sorridente, feliz) eu gosto disto, eu gosto de fazer isto, e ela está com medo. (Suspiro.) E nós vamos..., e nós chegamos até a porta, e estamos passando pela porta, e ela está me puxando, e eu a estou
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puxando. Eu estou tentando puxá-la para dentro, e ela não vem comigo. Então eu aperto o pulso dela como ela estava apertando o meu, e eu sou menor que ela, mas consigo puxá-la para dentro, e ela está de quatro e eu estou puxando. E nós passamos... passamos pela porta, e eu subo no brinquedo, e a deixo ali parada, e o carrinho entra no túnel..., ela não... ela me perde. Na hora que eu entrei ali, consegui subir no brinquedo...
F: Agora despeça-se da Jane.
J: Tchau, Jane! ... Eu... eu não queria me despedir dela. Eu prefiro me divertir... A Jane está ali atrás, parada, olhando, como uma boba. Ela está ali parada com as pernas tremendo, e eu não dou a mínima bola. Eu realmente não ligo. É fácil me despedir dela. (Ri.) Ela está ali parada, como uma tola, e está me chamando, está chamando o meu nome. Ela está frenética, ela parece que está em pânico. (Desinteressada.) Mas eu prefiro me divertir.
F: Muito bem. Agora troque de novo de papel. Seja a Jane outra vez.
J: O sonho é muito comprido.
F: Já há muita coisa aí.
J: Ser a Jane outra vez. Muito bem. Eu estou no parque de diversões com o meu irmão e nós estamos passando... eu não acho que quero realmente estar ali, e...
F: Conte. Conte para nós a sua posição.
J: O que você disse?
F: Toda a sua posição. A situação está aberta, certo? Está muito claro. Há o seu irmão, e há você. Você quer se segurar nele; ele quer ser livre.
J: Bem, eu acho... eu acho que ele é mais novo do que eu... e ele é mais novo do que eu, e eu não quero que ele..., faça o que... eu fiz. Eu quero (baixinho e com hesitação) protegê-lo ou algo assim. Eu quero segurá-lo. Eu acho... eu acho que continuo tentando fazer o que a minha mãe não consegue... É doentio.
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É realmente doentio..., eu falo com ele. Eu digo para ele: Paul, pare de tomar drogas, e pare de vagar por aí. (Chora.) Pare de tentar ser livre, porque você vai se arrepender. Quando você tiver vinte anos, você vai se arrepender.
Agora eu quero ficar do lado dele. Ele diria, como é que você pode me dizer para não fazer exatamente o que você faz? O que foi que você fez quando tinha dezesseis ou dezessete anos? Como você pode dizer isto? Não é justo. Eu gosto do que estou fazendo. Deixe-me em paz! Você... você é uma puta. Você é igualzinha à minha mãe, você é tão puta quanto ela. Como é que você pode ser tão puta quando você mesma já fez isto? ... (Suspira.)
Eu... eu estou tentando cuidar de você. Eu estou tentando cuidar de você, e eu sei que não posso... (Chora.) Eu sei que preciso largar você, mas nos meus sonhos eu continuo tentando segurar, manter você seguro, porque o que você está fazendo é tão perigoso! ... Você vai se foder todo. (Chora.)
Mas você não está toda fodida! Olhe para si mesma! Você mudou, você realmente mudou. Você não mente mais. Não muito. (Risos.) Você não toma mais muita droga, como você costumava tomar. Eu também vou mudar. Eu simplesmente tenho que fazer o que eu sinto. Você não confia em mim, não é? Você é como a minha mãe, você não confia em mim. Você pensa que eu não sou forte.
F: Muito bem, Jane. Eu acho que você pode resolver isso sozinha. Neste instante eu quero fazer outra coisa. Eu quero começar com o início. Sempre olhe para o início do sonho. Note onde o sonho está ocorrendo, se você está num carro, se o sonho está tendo lugar num motel, na natureza, ou num prédio de apartamentos. Isto lhe dá imediatamente a impressão do ambiente existencial. Agora comece o seu sonho com: “A vida é um parque de diversões”. Agora faça um discurso sobre a vida sendo um parque de diversões.
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J: A vida..., a vida é um parque de diversões. Você entra num brinquedo e sai. Você entra noutro, e sai. E então você se depara com tudo que é tipo de gente, você dá encontrões com gente de todo tipo, e então você olha, e para alguns você não olha, e alguns o irritam, e realmente dão encontrões, e outros são amáveis. E você ganha coisas. Você ganha presentes... E alguns brinquedos..., a maioria dos brinquedos dá medo. Mas são divertidos. São divertidos e dá medo. E está apinhado de gente, um monte de gente... um montão de rostos... E no sonho, eu... eu estou me segurando em alguém neste parque de diversões, e essa pessoa quer brincar de tudo.
JANE III
Jane: O sonho que eu comecei da vez passada, eu não acabei de contar, e eu penso que a parte final é tão importante quanto o da primeira parte. Eu tinha parado quando estava no Túnel do Amor...
Fritz: O que é que você está cutucando? (Jane estava coçando a perna.)
J: Hum... (Limpa a garganta.)... Eu estou só sentada aqui, um pouquinho, para poder realmente estar aqui. É difícil ficar com este sentimento e falar ao mesmo tempo... Agora eu estou na zona intermediária, e eu... eu estou pensando em duas coisas: se eu devo trabalhar com o sonho, ou se devo trabalhar com o “meu cutucar”, que é uma coisa que faço muito. Eu cutuco a minha cara, e... Eu vou voltar ao sonho. Eu estou no Túnel do Amor, e mu irmão se foi..., para algum lugar... e à minha esquerda há uma sala grande e está pintada da cor.... da cor que as minhas salas de aula costumavam ser pintadas, uma espécie de verde claro, e à esquerda há umas arquibancadas. Eu olho para lá e vejo pessoas sentadas. Parece que elas estão esperando entrar no brinquedo. Existe uma multidão
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enorme em volta de uma pessoa, o Raymond (noivo). Ele está falando com aquela gente, está explicando alguma coisa, e eles estão escutando. E ele está mexendo o dedo, deste jeito, e está fazendo gestos. Eu fico surpresa ao vê-lo. Vou na direção dele, e é óbvio que ele não quer falar comigo. Ele está interessado em ficar com toda aquela gente, entretendo toda aquela gente. Então eu digo para ele que vou esperá-lo. Eu fico ali sentada... no terceiro banco, e olho para baixo, e olho o que está acontecendo. E fico irritada e me sinto desconsiderada. Então eu vou e digo: “Raymond, estou indo embora, não vou mais esperar por você”. Eu saio pela porta... eu fico parada do lado de fora... um pouco... eu fico ansiosa. Eu posso me sentir ansiosa no sonho. Agora eu me sinto ansiosa porque na verdade eu não quero estar fora. Eu quero estar do lado de dentro, com o Raymond. Então eu entro. Eu passo pela porta...
F: Você está contando um sonho, ou cumprindo uma tarefa?
J: Estou contando um sonho...
F: Ou está cumprindo uma tarefa?
J: Estou contando um sonho, mas ainda..., eu não estou contando um sonho.
F: Hum. Decididamente não.
J: Eu estou cumprindo uma tarefa.
F: Eu só lhe dei duas alternativas.
J: Eu não posso dizer que estou realmente consciente do que estou fazendo. Exceto fisicamente. Eu estou consciente do que está me acontecendo fisicamente, mas... eu não sei realmente o que eu estou fazendo. Eu não estou lhe pedindo para me dizer o que estou fazendo... Só estou dizendo que não sei.
F: Eu notei uma coisa: Quando você sobe para o lugar quente, você para de bancar a boboca.
J: Rum. Eu fico apavorada quando subo aqui.
F: Você morre.
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J: Êpa! ... Se eu fechar os olhos e entrar no meu corpo, eu fico sabendo que não estou morta. Se abro os olhos e “cumpro a tarefa”, então eu morro... Agora eu estou na zona intermediária, estou me perguntando se estou morta ou não. Eu noto que as minhas pernas estão frias e os meus pés também. As minhas mãos estão frias... Eu sinto... Eu me sinto estranha... Agora eu estou no meio. Eu... eu não estou nem com o meu corpo... nem com o grupo. Eu noto que a minha atenção está concentrada naquela caixinha de fósforos no chão.
F: Muito bem. Tenha um encontro com a caixa de fósforos.
J: Neste instante, eu parei de olhar para você, porque é... é.... porque eu não sei o que está acontecendo, e não sei o que estou fazendo. Eu nem sei se estou falando a verdade. Você tem que saber por que está na cadeira. Você não pode simplesmente ir e não saber por que. Você tem que saber tudo, Jane.
Você não me dá moleza. Realmente não dá. Você realmente faz ‘uma porção de exigências... Eu não sei tudo. É difícil dizer. Eu não sei tudo e, além disso, grande parte do tempo eu não sei o que estou fazendo... Não sei... não sei se é verdade ou não. Eu nem sei se isto é mentira.
F: Então seja o dominador outra vez.
J: É o que...
F: O seu dominador. Este é o famoso dominador. O dominador, dono da verdade. É aqui que está o seu poder.
J: É. Bem... hum... eu sou o seu dominador. Você não pode viver sem mim. Sou eu quem... faz você ser notada, Jane. Eu faço você ser notada. Se não fosse eu, ninguém notaria você. Então, é melhor você ser um pouco mais grata pela minha existência.
Bem, eu não quero ser notada, você é quem quer. Você quer ser notada. Eu não quero ser notada. Não
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quero... Realmente não quero ser notada tanto quanto você.
F: Eu gostaria que você atacasse o lado arrogante do dominador.
J: Atacar... do lado arrogante.
F: O dominador sempre é arrogante, sempre se julga com a razão. O dominador sabe o que você tem que fazer, tem todo o direito de criticar, e assim por diante. O dominador resmunga, cutuca, coloca você na defensiva.
J: Sua puta! Você é como a minha mãe. Você sabe o que é bom para mim. Você... você torna a minha vida difícil. Você me diz o que fazer. Você me diz para ser...., real. Você me diz para eu me auto realizar. Você me diz para... ahn, dizer a verdade.
F: Agora, por favor, não pare de mexer as suas mãos desse jeito, mas conte para nós o que está acontecendo.
J: A minha mão esquerda...
F: Faça com que elas conversem.
J: Minha mão esquerda. Eu estou tremendo, eu estou com o punho fechado, empurrando para frente (a fala começa a se interromper), é meio..., o punho está muito apertado, empurrando... empurrando as minhas unhas para dentro da minha mão. Não é bom, mas eu faço isto o tempo todo. Eu me sinto apertada.
F: O que a caixa de fósforos responde?
J: Eu não me importo se você está dizendo a verdade ou não. Para mim, não importa. Eu sou só uma caixa de fósforos.
F: Vamos experimentar. Diga: “Eu sou só uma caixa de fósforos”.
J: Eu sou só uma caixa de fósforos. E eu me sinto tola dizendo isto. Eu me sinto meio boba, sendo uma caixa de fósforos.
F: Hum.
J: Um pouco útil, mas não muito. Existe um milhão de caixas como eu. E você pode olhar para mim, e
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gostar de mim, e quando eu tiver sido usada, você pode me jogar fora. Eu nunca gostei de ser uma caixa de fósforos... Eu não... eu não sei se é verdade quando eu digo que não sei o que estou fazendo. Eu sei que há uma parte de mim que sabe o que eu estou fazendo. E eu me sinto suspensa... tensa. Eu não me sinto relaxada. Agora eu estou procurando entender por que nos dois segundos que demoram para vir do grupo para o lugar quente, toda minha..., toda minha persona se modifica... Talvez seja porque... eu queria conversar com a Jane nesta cadeira.
Ela estaria dizendo: (Autoritária.) Bem, você sabe onde está. Você está bancando a boba. Você está bancando a estúpida. Você está fazendo isso e aquilo, e você está sugando as pessoas, e você... (mais alto) não está dizendo a verdade! E você está presa, e morta...
E quando eu estou aqui, imediatamente, a Jane daqui diria: (Voz fraca, insegura.) Bem, é... eu me sinto na defensiva, agora sentada nesta cadeira. Eu me sinto na defensiva. Eu sinto que, por alguma razão, eu preciso me defender. E eu sei que não é verdade... Então quem está cutucando você? É esta Jane aí que está me cutucando.
F: É.
J: Ela está dizendo... Ela está dizendo: (Vivamente.) Agora que você está na cadeira, você precisa ficar no aqui e no agora, você tem que fazer direito, você precisa se ligar, você precisa saber de tudo...
F: “Você precisa cumprir a sua tarefa”.
J: Você precisa cumprir a sua tarefa e precisa fazer direito. E você tem que... Acima de tudo, você precisa se auto realizar completamente, e precisa se livrar dos seus enrosco, e junto com isto... não é.... não é obrigatório você fazer isto, mas se você conseguir entreter os outros neste meio tempo, isto será bom. Tente dar um pouco de sal, para que as pessoas não
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se chateiem e durmam, porque isto faz você ficar ansiosa. E...
F: E a mão direita?
J: Eu estou segurando você contra o pulso.
F: Diga a ela por que você a segura.


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