Perls, Frederick S. Gestalt-terapia explicada



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F: Você cometeu um erro. Você não me pediu um fósforo.
B: (Em voz alta.) Sim senhor, pedi sim. Noventa e nove por cento das pessoas nos Estados Unidos, quando você diz “Você tem um fósforo?” — as pessoas com mais de dez anos de idade não vêm com esta, ou seja, não respondem: “Sim, eu tenho um fósforo”, ou qualquer outra coisinha imbecil como esta. Você sabia o que eu estava querendo. Por que é que você ficou enchendo o saco?
Dale: Isso é tudo gente desonesta.
B: Oh! Não me venha com besteira, Dale.
F: Você está vindo em minha defesa?
Dale: Oh! Não... não... nããããão, eu só estou dizendo. (Risos.) Não, você se arranja muito bem sozinho.
B: (Ainda bravo.) Isto é blábláblá! É o jogo da gestalt, é isto que é. E você não pode me encarar honestamente e dizer que não sabia que eu estava querendo um fósforo.
F: (Timidamente.) Ah! Eu sabia que você queria um fósforo.
B: Então por que você veio com toda aquela estória?
F: Porque eu faço estória. Porque eu sou o um por cento! (Risos.)
B: Oh, meu irmão! Eu quero sair daqui.
F: Este é um bom ressentimento.
B: Sabe, eu estou de tal jeito que eu nem tenho mais ressentimentos com relação a você. (Risos.) (Biair aponta um dedo admoestador para Fritz.) Você ganha o seu dinheiro sentado nesta cadeira, e... (Fritz imita Blair com o dedo em riste.) É “Menino ruim”. (Risos) Você é um... está bem, você joga com as suas Regras eu jogo com as minhas. Só não... minhas regras são
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quando eu peço um fósforo, sabe... é só você dar. (Risos.) Dê-me uma resposta direta.
F: Então você pode apreciar também aquilo que eu fiz?
B: É claro. Eu vou dizer para você, Fritz, (risos) eu não estou sozinho nesta conversa mole. Mas isto não impede que eu esteja louco da vida. O fato é que...
F: O fato é que o sujeitinho chato e anêmico que você era duas semanas atrás está agora saindo para fora com raiva de verdade.
B: Shh! Eu antes não era chato e anêmico. (Risos.) Não, isto é fato... Eu tinha mais alguma coisa para dizer... Era isto que eu queria dizer. O fato é que eu amo você, mas isto não impede de às vezes eu odiar o seu jeito, também.
F: É claro que não. Eu espero que não... Mas você falou como se odiar fosse ruim. Você não “deveria” odiar.
B: Eu tive alguns sentimentos hoje de manhã, Fritz, que eu estou gostando. (Risos.)
F: Muito bem. Obrigado.
Uma das maiores dificuldades que eu vejo na tomada de consciência, no processo do agora que queremos atingir, é a falta de consciência da própria atividade. Vamos deixar isto bem claro. Para a maioria das pessoas é muito simples, com um bocadinho de treino, descobrir o que se passa no mundo, descobrir pessoas, cores e assim por diante. Também é relativamente fácil — a não ser que se esteja realmente’ dessensibilizado — descobrir as próprias sensações, ou emoções. Mas onde muitas pessoas escorregam é no fato de não terem consciência de ias atividades. Existe muita atividade em andamento na zona intermediária, atividades como “Eu estou ensaiando”, “Eu estou fazendo o jogo da adaptação”, “Eu estou aqui para fazer você de bobo”. Está tomada de consciência da atividade que se está fazendo é algo a que eu gostaria de dar especial atenção. Esta pode ser a razão básica de
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pessoas, que de outra forma são muito sensíveis e frequentemente capazes de ver muita coisa nos outros, serem incapazes de tomar a consciência do agora, da realidade, de si mesmos... Muito bem.
MURIEL 1
Muriel: (Voz suave e rica.) Agora eu tenho consciência de estar sentada, afundada na cadeira. A cadeira está me suportando por baixo das coxas, e pelas costas... Ahn...
Fritz: Você vê uma atividade projetada. A cadeira está suportando você, como se ela estivesse fazendo algo com você.
M: Hum... eu sinto que ela está. Ah! Eu estou satisfeita de que ela esteja aí suportando as minhas coxas... eu a sinto nas minhas costas, empurrando. Eu estou me reclinando nela e é.... igual. Eu sinto que estou na parte de trás da minha cabeça. Eu tenho consciência de que os meus olhos estão olhando para cima, para aqueles três pinos ou coisa parecida... e as vigas... e eu vejo o semicírculo cortado pela viga grande... e como a viga..., hei!
F: Você está descobrindo alguma coisa?
M: Estou, a viga e aquela coisa vertical na pintura..., são iguais e eu me pergunto se.... Ah! Se a pintura foi pintada desse jeito ou se quando foi colocada, alguma coisa aconteceu (ri) na interação entre a viga e a pintura.
Steve: É a luz do sol.
M: (Interesse e surpresa.) A luz do sol. Agora eu noto que há outros seres humanos na sala. Eu vejo; Sally com seu quimono japonês azul-escuro e branco e você parece muito descansada, e revigorada.
F: Você pode descrever o azul com um pouco mais de detalhes? Que tipo de azul é?
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M: É quase preto na altura do peito, e à medida que vai descendo... e quando você..., quando chega na parte do braço, fica mais claro, e ahn... e eu vejo os retângulos brancos seguindo o contorno do tecido. E agora eu noto o rosa e o azul na parte de baixo, e o ouro da sua aliança.
F: Sim, faça um favor. Use a palavra descobrir o máximo que puder, porque isto não estava aí antes. Muitas vezes é difícil entender a ideia do fenômeno... O mundo existe, mas não existe enquanto você não descobre o mundo. Enquanto você não o vê, ele é só teoria. Quando você descobre, você enriquece o seu mundo com algo novo. Agora feche os olhos e veja se consegue fazer o mesmo dentro de você; parta numa viagem de descobertas.
M: Eu descubro que os dois cotovelos estão apertando para baixo... Eu descubro que os meus dedos estão muito pesados, e estão caindo, ahn... pendurados, é o que eu quero dizer, pendurados pesadamente. Hum, eu descubro alguma coisa vermelha tremulando na frente dos meus dois olhos, e as minhas pálpebras estão tremendo, e eu vejo vibrações vermelhas.
F: Mais uma vez, eu quero enfatizar a diferença entre uma pessoa que está na descoberta, sempre descobrindo alguma coisa nova, para a qual o mundo fica cada vez mais rico, cada vez mais coisas e experiências entram; e uma pessoa que conserva o status quo... a pessoa-chave.
M: Fecho os olhos de novo? / F: Feche. / Eu descubro um movimento giratório no topo da minha cabeça... hum... e enquanto u respiro, eu seguro a respiração no topo, e aperto os ombros. É desagradável. Rum..., eu ainda estou fazendo isto, e é surpresa. Eu me sinto apanhada no redemoinho em cima da minha cabeça, eu não continuo. Parece que está aumentando. (Suspira.) E quando eu respiro assim, ele para... (Abre os olhos.)
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F: Ah! Você voltou para nós. O que você descobre neste mundo?
M: Eu descubro que a Helena parece uma estátua. (Ri.)... Eu descubro que o Dick tem um sorriso torto. Eu descubro o Bob escrevendo mais depressa do que nunca.
F: Agora, a essência da descoberta real é a experiência do “Ah-Ah! “. Sempre que há um dique, alguma coisa entra no lugar; sempre que urna gestalt se fecha, acontece o dique do “Ah-Ah! “, o choque do reconhecimento. Então, você teve uma viagem muito bem sucedida para o mundo exterior, então volte para o mundo de dentro.
M: Eu não quero. Eu vou porque você mandou... Hum, eu estou com uma câimbra aqui, e quando eu faço massagem é gostoso, é muito gostoso... Mais uma vez eu estou no topo da minha cabeça... e eu experiência não querer continuar.
F: Como você experiência este “Eu não quero continuar”?
M: Bem, eu fiz um movimentozinho para baixo com o peito, e isto provocou alguma coisa aqui em cima e parou... eu abro os olhos, Fritz, eu...
F: Você está consciente do seu sorriso?
M: Não... agora estou... Hum, eu quero sorrir e abrir os olhos, e....
F: Você está vendo, alguma coisa está acontecendo na zona intermediária. Um conflito entre “o Fritz me mandou” e “eu não quero fazer”. Fique um pouco mais consciente do processo que está ocorrendo na zona intermediária.
M: Agora, eu me sinto mais segura com os olhos abertos... Assim que eu fecho, eu fico com o rede moinho na cabeça.
F: Você pode fazer isto em intervalos de cinco se segundos? Fique com os olhos abertos durante cinco segundos, feche durante cinco segundos e volte
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ao redemoinho, depois volte para o mundo, e volte para o redemoinho.., e veja o que acontece então.
M: Rum, você parece interessado, Teddy, e isto me agrada. Bob está segurando o dedo em cima da boca, como se quisesse mantê-la fechada. (Fecha os olhos.) O redemoinho está empurrando a minha cabeça para trás, era a isso que eu estava resistindo antes... Rum, eu achava difícil falar lá de trás, mas é extremamente confortável..., oh!
F: Então volte para nós...
M: Eu vejo interesse no rosto do Fergus, e isto me agrada... Sally, você está segurando a boca... eu me pergunto por que.
F: Então, volte para o mundo interior...
M: Minha cabeça quer ser segurada. (Descansa a cabeça na mão.)... Quanto mais eu a apoio... é sim! Isto é bom... Se eu a deixo livre, o redemoinho a puxa para algum lugar, e quando a apoio na minha mão, minha mão segura e eu não sinto o redemoinho.
F: Então volte...
M: Jane parece uma gata, observando por trás do cabelo.
F: Feche os olhos... O que você experiência? ...
M: Tremor, rouquidão, limpar a garganta, tremor por trás das pálpebras. / F: Abra os olhos!
Eu não quero olhar para as pessoas. / F: Feche os olhos. /Redemoinho mais forte. / F: Abra os olhos. / Eu realmente não quero olhar para as pessoas. / F: Feche os olhos. / Redemoinho ainda mais forte. / F: Abra os Eu não quero olhar para ninguém. / F: Feche Agora os meus olhos estão tremendo mesmo, e eu estou segurando as mãos, segurando a cabeça.
F: Você pode integrar isto. Olhe para nós e ao mesmo tempo preste atenção ao redemoinho, traga o seu
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redemoinho consigo. Pode ser que seja difícil, mas tente.
M: Uh, ih! /F: O quê? / Eu acabei de ver..., como um halo de luz atrás... hum... a cabeça de Sally e quando eu olho para o rosto do Teddy, eu vejo os contornos debaixo da carne..., a estrutura dos ossos. (Suavemente.) Õô, uh...
F: Uma pequena descoberta, um pequeno passo adiante, uma nova forma de olhar. Feche os olhos outra vez.
M: Eu quero ficar com eles abertos. (Fecha os olhos.) Agora eu vejo umas formas fosforescentes de... é o Teddy, e, não sei..., oh! é o Frank.
F: É você os leva de volta consigo. Muito bem, é só até aqui que eu quero chegar. E então, posso ter algum feedback?
Jane: Eu fiquei interessada o tempo todo.
Frank: Foi lindo, lindo. Isto obviamente é uma interpretação: você se segura e impede de dar a si mesma beleza e riqueza.
Dale: Este redemoinho no fundo... você insistia em não querer se envolver. Quando finalmente você se soltou, foi lindo.
F: O principal é que nenhuma única frase foi falsa.
M: E isto me agrada muito.
F: Este é um ótimo exemplo de integração do mundo exterior com o mundo interior. Quando eles se juntaram, ôÔôôPA! Então não há interferência da zona intermediária — nada de explicações, nada de interpretações, nada de julgamentos, e tudo isto. Este é o momento decisivo — a diferença entre a velha rotina viciada, sempre a mesma, em contraste com a descoberta, que sempre significa acrescentar algo novo, acrescentar algo à sua vida, acrescentar algo ao seu conhecimento, acrescentar algo ao seu crescimento. Há alguma coisa no mundo que não estava aí antes. Isto acontece apenas quando se está em contato com o agora.
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MURIEL II
Muriel: Enquanto eu olho em volta, para o grupo, eu me descubro fazendo uma trágica cena de adeus. É hora de chegar a isso, seja lá o que isso for.
Eu estou com o meu sonho. Quando eu acordei hoje de manhã ele apareceu, e ficou aí o dia inteiro, bem aqui... / F: Do seu lado direito. / É, bem aqui... E é bom tudo isto. Ele me diz que está aí e que vai ficar aí, e eu não tenho escolha... “Está na hora” e “Vamos ao que importa”. E então, bem na minha frente, bem aí, está aquela pessoa que eu vi ontem à noite no espelho, que eu não conheço e nunca vi antes. Eu não sei quem ela é....
Fritz: Então onde você está agora?
M: (Como que acordando.) Oh! Eu estou num lugar que não é nada. Eu encontro esse estranho, e ele está indo para trás, para trás...
F: Onde você está agora? ...
M: Bem, está tudo branco.
F: Você não tomou nenhuma droga?
M: Não! ...
F: Você está me vendo?
M: Sim, é claro.
F: Você vê os outros?
M: Vejo. Quando eu olho, vejo todo mundo muito claramente... E agora eu estou intrigada, como se houvesse alguma coisa. Eu acho que, quando eu fiz aquele negócio do agora, aquele exerciciozinho, e eu estava com o redemoinho na cabeça, e eu consegui aquele pouco de integração — depois eu pensei, é isso, é o tipo de coisa que eu fato quando estou com “fumo na cuca”.
F: Então, balance entre as suas experiências, e a sua experiência do grupo.
M: Hum. Agora você parece o Grande Rosto de Pedra... E por dentro eu posso... eu ouço meu coração bater... bum, bum, bum... A sala parece muito
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brilhante. As luzes parecem muito brilhantes. E você olhando para mim, Fergus. Você me olha como se estivesse morto, com as suas pestanas se mexendo.
F: É. Como um filme do Alfred Hitchcock.
M: (Ri um pouco.) Você parece um elfo, ou um duende, com o cabelo todo desalinhado... (Fecha os olhos.) Meus pés acabaram de dizer: “Não é isso”. É isso... Minhas mãos estão frias, e eu posso sentir o ar em volta delas quando elas se movem, nesta espécie de massagem. Eu posso vê-las com os olhos fechados, morenas. (Abre os olhos.) Puts! (Ainda falando devagar.) Existe muita luz aqui, muita luz, e eu imediatamente volto para o sonho, onde eu não tinha luz suficiente para enxergar...
Dale: Eu sinto que esta sala toda está “alta” — em outro nível. Quero dizer, como se ninguém fosse real, ou... eu nem mesmo sinto que você está aí, Fritz. (Ri.) Vamos voar todos para a lua, ou algo assim.
Jane: Eu sinto a mesma coisa.
M: Agora eu estou com medo de lhes dizer o que acabei de ver, porque é como estar “de barato”... Sally, as suas bochechas são rosadas como uma boneca de porcelana, e os seus olhos são profundos e escuros, e espiam lá de trás...
F: Sabe de uma coisa? Você está certa.
M: É. (Risos.) Oh! Obrigado, papai.
F: Mas é só isso?
M: É!
Dale: Aaaa, iiiih, bolas! Eu quero mais.
M: Mais o quê? Oh! Eu adoro olhar para o seu rosto Sally.
F: Então, volte para si mesma.
M: Ooooh. Só os pés impacientes, basicamente. E agora eu estou com a cabeça pesada. Muito peso por aqui... tudo girando... Agora eu sinto que uma calma e quietude desceu sobre todo mundo. Eu ocupada... Dá medo, Fritz!
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F: É. Despersonalizada. Dá medo. Claro que dá medo. É um mundo sem alma. Algo como uma glorificada Madame Tussaud.
M: (Murmuram.) Oh!, ôôôôôô... Foi exatamente assim que eu me senti.
F:É.
M: Eu sinto medo.
F: Fique mais consigo mesma.
M: Agora eu sinto um sinal de ... apenas um tremor muito débil na minha pálpebra... muito débil. Eu geralmente tenho tanta coisa acontecendo por dentro. Mas eu não vejo nada.
F: Muito bem... volte para nós... e se despeça de nós.
M: Eu não quero me despedir.
F: Hum?
M: Eu não quero.
F: Eu gostaria que sim. Você levantou isso no princípio.
M: É, eu sei, é isto que está parecendo. (Voz fraca.) Tchau, Abe, algum dia a gente se vê... talvez... Tchau, Dick, divirta-se fotografando... Tchau, June, não sei se algum dia nós vamos nos ver de novo. (Um pouco mais forte.) Eu já me despedi de você antes... Tchau... eu já fiz isso: tchau. Hum... (Quase inaudível.) Tchau, Teddy... (Para Fritz.) Você também, bem?
F: Hum...
M: (Suspira.) ... Eu não quero me despedir de você.
F: O que você quer?
M: (Suspira.) Realmente eu não sei... Está bem. Tchau. (Suspira.) Isto evidentemente significa: “Não olhe...”.
F: Quando você disse tchau você cruzou as pernas.
M: Certo. Fechando-me também. (Depressa.) Tchau!
Dale: Eu não acho que você realmente se despediu do Fritz. Você emitiu um som, você...
M: Bem, eu fiz tanto quanto fiz com os outros.
Dale: Ah, não! Você ficou com o Teddy um tempão.
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M: Eu acho que seria horrível se eu realmente me despedisse.
F: Exatamente.
M: Bem, se despedir de verdade é a mesma coisa que a morte.
F: É.
M: Então...
F: Então, você não quer morrer.
M: Não...
F: Qual é a sua objeção?
M: Oh! Eu quero ter você por perto, para poder estar com você e me sentar no lugar quente quando tiver peito, e você poder curar todo mundo... Eu simplesmente me sinto entorpecida.
F: Muito bem. Feche os olhos e entre no seu torpor. (Ela suspira.) É, isto serve.
M: Hum?
F: Isto serve, é. Entre no seu torpor.
M: Agora mesmo eu fiz uma careta. Está muito, muito pesado, especialmente no rosto..., e.... bem, é como alguma coisa grossa amarrada, no meu rosto, e agora está se alargando... hum... eu não...
F: O que vem em seguida é só um experimento. E não tenho ideia se vai funcionar ou não, se nós estamos ou não na trilha certa. Diga adeus para o seu espelho.
M: Eu sinto como se estivesse nele, agora... Eu me vejo imediatamente com oito anos de idade.
F: Muito bem. Despeça-se da menina de oito anos.
M: Você vai mesmo embora? Vou. Ela diz que vai. Agora ela está se virando e indo embora... desaparecendo, no nada.
F: Volte para o espelho. Você consegue se despedir dessa pessoa?
M: Eu não conheço essa pessoa.
F: Converse — é ele ou ela?
M: Ela... Sou eu.
F: Bem, primeiro você tem que se apresentar.
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M: Agora estou entrando mesmo.
F: É...
M: (Suspira.) Bem, ela está só aí, no espelho.
F: Converse com ela.
M: Quem é você? Eu nunca vi você antes. Eu não reconheço você. Eu não sinto que... eu não sinto que conheço você. Eu nunca vi você antes. Geralmente os seus olhos não são assim.
F: Como é que são os olhos dela, agora?
M: Bem, são marrons... são os meus olhos..., são marrons e estão abertos... e.... E... há um pequeno brilho em cada um, que é mais ou menos um vigésimo do que eu vejo em geral no espelho; e existe uma espécie de mancha morta em cada um. É mais ou menos isso.
F: Agora troque de lugar...
M: Ela não diz nada. Ela só fica olhando, e a expressão não muda.
F: Dê uma voz a ela: “Eu não digo uma única palavra...”.
M: Eu não digo nada. Eu só... eu estou aqui, olhando para você. Olhando para você. E eu não sinto nenhuma vida em mim, e estas duas manchinhas que você vê nos meus olhos, é só a luz de fora, isto não vem de mim.

Bem, de onde você veio? Sabe, eu não sou assim, e você é o meu reflexo no espelho, então...


F: Diga isto mais uma vez: “Eu não sou assim”.
M: Eu não sou assim. /F: Outra vez. / Eu não sou assim. / F: Outra vez. (Mais alto.) Eu não sou assim! /F: Outra vez! Você não é eu! / F: (Muito alto.) Eu não Outra vez. /

(Com riso trêmulo.) Eu não sou.


F: A sua voz está se tornando real. Seja ela de novo.
M: Então de quem é o reflexo no espelho? Hahaha...
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Você me pegou... Eu não tenho resposta. Tem que ser assim. Você é o meu reflexo.
F: Diga isto para o grupo.
M: Tem que ser assim, você é o meu reflexo?
F: Ahn, ahn.
M: (Muito baixo.) Tem que ser assim, você é o meu reflexo... (Continua, com várias entonações.) Tem que ser assim, você é o meu reflexo. Tem que ser assim, você é o meu reflexo. Tem que ser assim, você é o meu reflexo.
F: Então, o que você está realmente experienciando?
M: Bem, eu sinto que a metade de cima está querendo se mexer, e como se existisse sangue nela.
F: Mexa-a. (Fritz pega a mão dela.) Deixe... Não... Ainda não está quente.
M: Um pouquinho quente. Está suada. Oh! Este ar aqui dentro. Oh, ôôô. Onde é que eu estava?
F: Onde você estava?
M: Eu não sei.
F: Quando você veio para este lugar, você estava em transe, você não estava aqui.
M: Louca.
F: É. Fora deste mundo, era lá que você estava.
M: Simplesmente louca.
F: Você me vê?
M: É claro. Eu só me lembrava que ontem na aula de massagem; Abe fez alguma coisa de hipnotismo... Está bem, agora eu sinto que está voltando.
F: Voltando para o seu transe? / M: É. / Muito bem. Volte. / M: Voltar? / Volte para o transe.
M: Bem, agora eu sinto todo esse movimento na minha mão, e no pescoço, todo esse movimento.
F: Agora é mais difícil morrer, estar morto.
M: Hum... Oh! ... Ahn... e minhas mãos estão fazendo esta massagem, como nós fizemos hoje quando
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eu fiz na perna de Dale, e realmente fiquei excitada e tomada pelo ritmo.
F: Agora feche os olhos e volte para lá.
M: Para onde?
F: Para a perna de Dale.
M: Estou afagando, e vejo a Molly fazendo isto, e ela se coloca toda quando faz isto, e faz tudo, e eu imito o jeito dela ficar parada, e o que ela faz, e eu realmente entro na perna, eu sinto todo o interior dos músculos e realmente “curto” isso. Eu só fiz a massagem numa perna inteira, e realmente entrei no ritmo da coisa, amando cada minuto. Agora eu não me sinto mais assim. O tempo ficou no meio mas...
F: Muito bem, despeça-se da perna e volte a nós.
M: É bastante bom. É... está muito tranquilo... Há dois olhos que parecem um espírito olhando para mim...
F: Você pode ser estes olhos, olhar para nós?
M: Eles são grandes mesmo, e eles não estão vendo. Quero dizer, eles estão vendo todas as coisas que eu disse antes, mas é como... não há mais nada para ver.
F: Agora volte à perna, à massagem.
M: À perna de Dale? Bem, eu estou na barriga da perna, foi lá que eu realmente “curti”.
F: Então o que você descobre?
M: Bem, toda esta matéria aqui por baixo!
F: O que mais? ... Eu pensei que você tinha descoberto alguma “curtição”, ou alegria ou algo assim.
M: Bem, a coisa foi por si só.
F: É.
M: E, não sei... não são tão grande coisa... foi algo tão incrível? Sabe, eu saí disso.
F: Muito bem. Agora você pode dizer isto para o grupo.
M: Bem, eu estou vendo todo mundo “na sua”, agora. Tony está em algum lugar lá atrás, e a Dale está sendo terapeuta, e a June amiga e anfitriã.
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F: A sua voz ainda não está na realidade, ainda está em transe.
M: Está bem...
F: Bem, vamos entrar num acordo. Neste instante, você não está morta, você está só meio morta.
M: Está bem...
F: Experimente o seguinte: Faça a sua estrutura superior conversar com a sua estrutura inferior.
M: Ah é? Está bem. Ei, o que você está fazendo aí embaixo?

Vamos andando; o que mantém você aí? Não sei; a cadeira.


F: Você recebe o seu apoio da cadeira, e não das suas pernas.
M: Certo. Certo. Bem, você não pode se levantar e se sustentar sobre as suas próprias pernas?
F: Duvido.
M: Vou considerar isto. Vou pensar nisto.
F: Você está muito mais confortável aí em cima.
M: Éééééé. Certo. Certo. Certo. Não preciso ficar andando. Não preciso subir por causa de ninguém.
F: Eu gostaria que você descobrisse o chão, o piso.
M: Está bem.
F: Levante-se. Veja quanto apoio você pode receber das suas pernas.
M: (Debilmente.) Bem, meus pés aí estão. Eu sinto o tapete... Puxa! Todo mundo parece tão distante... Eu me sinto tão alta, em pé.
F: Ah! Você pode sentir quanto espaço você ocupa nesta sala?
M: Puts! Posso.
F: Você sente que tem três metros de altura?
M: Não. Não. Mas estou mais alta d que eu sou. Bem, não está assim tão puro. (Suspira.) Não, não está ligado..., não ligado.
F: Sabe de uma coisa? Você soa como se não acreditasse muito que existe.
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M: Ahn?...
F: E, consequentemente, nós não existimos... Você conhece a estória do monge Zen e da borboleta. Chuang Tsé sonhou que era uma borboleta, e então ficou ponderando o que foi isto. Eu sou um monge Zen que acabou de sonhar que era uma borboleta, ou eu sou uma borboleta que está sonhando que acorda como monge Zen.


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