Perls, Frederick S. Gestalt-terapia explicada



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F: Muito bem. Agora feche os olhos. Recue até quando você tinha sete anos. Torne-se uma menina de sete anos.
J: (Debilmente.) Está bem... Sete? ... Ai, eu sou feia. Muito gorda. Eu tenho a franja toda torta. Ela é cheia de pontas, porque eu preciso cortar sozinha, ninguém corta para mim. Meu cabelo ondulado e descuidado. Minhas unhas — todas roídas. Do pescoço até
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os joelhos eu sou quase preta — suja! — porque basta eu abotoar os botões da saia e dizer que eu me lavei, escovei os dentes, e não perturbei na noite passada; e eles nunca desabotoaram os botões da saia para ver se eu me lavei mesmo. E a minha saia está suja de geleia, e de tinta... Eles fazem a gente tomar banho cobertas por um lençol, em cubículos pequenos, e quando eu tinha sete anos — eu tenho sete anos — eu não quero tomar banho coberta pelo lençol. (Chora.) E uma campainha toca e isto significa que nós temos que sair para o saguão, e a gente faz fila. (Fala chorando.) E com quem é que eu posso conversar? Eu nem mesmo sei — urgh — que ninguém quer esta criança. (Lamenta-se.) Eu só recebo depreciações. Eu nunca recebo balas ou sorvete. Eu como batatas e outras porcarias. Minha avó me manda uma caixa de balas, e eu não tenho permissão de ficar com ela. Eu preciso colocá-la numa cesta grande, na sala de jantar, e dividir com todo mundo... eu não ganhei nenhuma. (Explode em pranto.) Por favor, posso ganhar uma? E então não ganhou nenhuma na semana que vem. (Soluça.)
F: Muito bem, June. Quantos anos você tem agora?
J: Mais ou menos nove.
F: E a sua idade real? Qual é a sua idade?
J: Eu estou com trinta e cinco.
F: Trinta e cinco. Faça o papel de uma mulher de trinta e cinco anos conversando com essa menina. Faça a menina de agora conversar com a menina de então... Coloque-a naquela cadeira, e você sente-se aqui. Agora você tem trinta e cinco anos.
J: (Delicadamente.) Você não é uma menina má. Meninas de nove anos não são más. Você só é uma boca- da boba, e nem mesmo isto é culpa sua... Eu não me incomodo de você ter buracos nos dentes por comer chocolate. E, June, eu não me incomodo de que você seja gorda. Eu não me incomodo de que você seja suja, por que todas estas coisas são realmente muito superficiais
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F: Agora eu quero que você volte a nós. Eu gostaria de fazer um pouco de blábláblá a respeito disto. Você tem alguma ideia do que faz você se apegar tanto a esta lembrança?
J: Ela durou tanto tempo.
F: Muito bem, olhe em volta, e veja o que acontece aqui.
J: Não sei. Aquilo não tem a mínima relação com qualquer coisa que eu esteja fazendo aqui e agora.
F: Então, eu estou interessado em saber por que você precisa carregar essa menina com você, por que você não consegue soltá-la.
J: às vezes..., eu nem mesmo sinto que a estou carregando. Eu sinto como se ela... se ela estivesse sentada aí, e ela está esperando uma oportunidade, quando alguém me rebaixa, e.... puts, então ela simplesmente assume o comando, e eu sou a criança.
F: Exatamente, exatamente. Agora diga: “Eu estou esperando uma oportunidade de bancar a rainha da tragédia”, ou algo assim.
J: Eu posso falar; eu não tenho certeza de que vai adiantar.
F: “Eu tento despertar a sua atenção”.
J: Eu só estou esperando uma oportunidade de despertar a sua simpatia, o seu calor, a sua compreensão... e quando eu consigo, eu fico grata e me sinto melhor, e me sinto de novo com trinta e cinco anos. Assim, eu consigo aguentar. Mas, no instante em que sinto que não consigo aguentar, eu encolho, eu fico pequena, e faço outra pessoa me aguentar.
F: E então, você a tira da lata de lixo?
J: (Forte.) Sim, eu a tiro para fora, eu a apresento para mim mesma, eu a aceito, eu a represento, até que encontre alguém que dê apoio, seja sugado por ela; e então, eles são gentis, eu me sinto segura, e posso deixá-la de lado.
F: Agora volte para ela. Converse com ela. Conte-lhe sobre o jogo imbecil que vocês duas estão fazendo.
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J: Garota, nós estamos no meio de um jogo. Eu nem sabia disto até agora pouco. (Risos.) Eu tenho trinta e cinco anos. Eu não sou gorda. Eu não sou suja. (Risos.) Eu posso comprar um pacote de balas e comer a hora que eu quiser. Eu tenho muitas pessoas que me amam mesmo. Eu tenho muitas pessoas que me dão apoio quando eu preciso, então para que é que eu preciso de você? (Risos.)
F: O que ela responde?
J: Ah! ela diz: Você não está tão se-gu-ra assim. Você sabe? Ah! ... eu sou..., uma menina muito conveniente de se ter por perto. (Risos.)
(Ri.) Um banho de ácido para você também. (Muito riso.)
F: E para os profissionais — isso é para mostrar — este é um dos famosos traumas que os analistas freudianos espalham. Eles vivem em cima disso durante anos. Eles pensam que é a causa da neurose, em vez de encará-lo apenas como um truque. A psicanálise é uma doença que tem a pretensão de ser cura.
Entendam, é muito difícil aceitar que tudo que sucede aqui tem lugar na fantasia. A neurose é um meio-termo entre a psicose e a realidade. June está sentada numa cadeira confortável. Nada pode acontecer a ela. E, no entanto, todas estas coisas do sonho dela são tomadas como reais. É por isto que estamos longe de entender o fato de estarmos desempenhando papéis. Aqui não há bombas, não há matança, não há nenhuma menininha, são apenas imagens. A maior parte das nossas lutas são pura fantasia. Nós não queremos nos tornar aquilo que somos. Nós queremos nos tornar um conceito, uma fantasia, o que devemos ser. Às vezes temos aquilo que se chama de ideal, e que eu chamo de maldição, o ser perfeito; e então nada que fazemos nos satisfaz. Sempre existe algo que temos que criticar no sentido de manter o jogo da autotortura; e vocês podem ver que neste sonho o jogo da autotortura está presente em grandes proporções.
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GLENN 1
Glenn: Eu me sinto meio tremendo, e há uma espécie de... excitamento no meu peito, uma espécie de tremor. Eu não gosto da minha voz... Estou consciente do meu joelho ardendo, e das coxas. Minhas calças repuxando as pernas. Quando eu me sentei as calças ficaram presas.
Fritz: O que é que isto tem a ver com o fato de você não gostar da sua voz?
G: Nada. Não tem nada a ver.
F: Você pulou da voz para as pernas... Em outras palavras, no fato de não gostar da sua voz você estava na zona intermediária... E em vez de experienciar a sua voz, você a julgou... /G: Eu a julguei. /... você fez alguma coisa...
G: Sim. Em vez de ouvi-la como oca, meio trêmula, eu a ouvi como sendo ruim.
F: É Eu notei que você se transformou de escritor em juiz. (Riso.)... Veja, uma vez que você julga, você não consegue mais experienciar, porque fica ocupado demais achando razões e explicações, defesas e todas essas tolices...
G: Eu acho muito difícil até mesmo sentar aqui. Eu estou me julgando impaciente, que eu deveria fazer alguma coisa.
F: Muito bem, fique na zona intermediária. Torne-se um pouco mais familiarizado com o que se passa ali...
G: Eu nem mesmo estou seguro de como fazer isto. Eu sinto (ri) que estou melhorando. Eu julgo, e então está bem. É aí que eu estou, na zona intermediária. (Riso.) O riso..., me faz sentir melhor. Eu sinto que estou mantendo o pescoço rijo, e com isso penso: “Não é isso que eu deveria fazer”, eu deveria estar relaxado... Minha garganta está tensa... Eu sinto que estou com viseiras, que não posso mexer a cabeça. (Mexe a cabeça.) Mas posso. Eu sinto que de alguma forma estou cavando um buraco, que estou me
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encurralando num canto... não quero fazer isto.., estou começando a sentir que todo mundo está me julgando, que vocês estão me julgando, que bocejando vocês me julgam, que estando inquietos vocês me julgam.
F: Você vê como a zona intermediária se expande mais e mais. Você perde cada vez mais contato consigo mesmo e com o mundo. Você tem uma bela paranoia. (Riso.)
G: É melhor eu restringi-la. Eu realmente estou começando a me sentir tolo. (Riso.) É como se fosse exatamente o contrário. Agora eu estou fazendo o que andei tentando não fazer durante dias — ficar nesta zona intermediária fodida. (Riso contínuo.)
F: Agora o que aconteceu com esta risada? Você colocou a risada no seu quadro de referência? Ela foi interpretada como sendo hostil a você ou...? Eu tive a impressão de que você pulou fora da sua paranoia e gostou da risada.
G: É. Foi gozado. Quase no fim, eu comecei a me reajustar, a julgar. (Gargalhadas.) É. (Com humor.) É como se eu simplesmente não conseguisse deixar ser. Eu tenho que decidir se é positivo ou negativo.
F: Eu acho que nós podemos afirmar seguramente que na sua zona intermediária existe aquilo que nós chamamos de dominador, o superego... julgando você, dizendo-lhe o que fazer.
O mal-estar precisa ser superado, seja ele causado por frustração, ou o outro caso extremo, a situação em que você precisa encarar a experiência de estar morto — o verdadeiro impasse, a verdadeira camada implosiva. Não é agradável entrar em contato com a morte, mas não existe outra saída exceto passar pelo inferno do lamaçal, o extremo sofrimento. Eu não prego o sofrimento. Você sabe disso. Você me conhece bem
Mas eu estou disposto a me envolver sempre que surja um sofrimento, um mal-estar.
Quanto a mim mesmo, eu posso lhe apresentar uma das soluções mais importantes para o mal-estar. Você
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sabe como o tédio é desagradável. Finalmente eu consigo dominar o tédio, e decidi que sempre que o tédio aparece, eu começo a escrever; então o tédio se transformou num tremendo entusiasmo de escrever. Agora, isto sempre é verdade. Se você precisa mijar, isto é desagradável. Se você se segura, torna-se cada vez mais doloroso. E então o mijo vem, e mijar dá prazer. Depois disto, você se sente aliviado. Então, sempre é preciso encarar e trabalhar; ficar realmente em contato com o desprazer é o único meio de crescer e consolidar a posição. Então, o que temos que fazer é compreender cada vez mais onde a gente se torna fóbico, em que momento se quer evitar a dor; e aprender cada vez mais a trabalhar com a situação.

Agora, por exemplo, agora mesmo, entrem neste peso... Olhem para o peso como uma canção, uma poesia, entrem nele, rolem nele se quiserem... Vamos começar com o Glenn. Você acha desagradável estar em contato com gente — então, entre em contato consigo mesmo. Olhe em volta e diga o que existe de desagradável em estar em contato com cada um de nós... Vamos tentar um extremo. Diga a cada um de nós:


“Eu não vou tolerar você. Você é sujo demais, alegre demais...”.
GLEN II
G: Estou na zona intermediária. Eu não... eu não vou tolerar vocês.
F: Você pode me incluir.
G: Eu não vou tolerar você, Fritz. Eu não suporto a sensação de esperar a sua aprovação, então eu o evito.
F: Fique um pouco mais comigo. Você não está disposto a me tolerar porque eu não lhe dou suficiente aprovação.
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G: (Riso nervoso.) Na verdade eu sinto que você me dá muita aprovação. Eu não tenho certeza... /F: Suficiente? / É, é suficiente...
F: Não acredito.
G: Está bem, está bem. Eu também não acredito. Oh! Eu sempre volto para mim mesmo. Eu não consigo suportar a sensação de querer alguma coisa, porque se eu realmente entrar em contato com isto, eu não consigo. A minha expectativa catastrófica é que você não vai vir de encontro. Você fica sentado e fumando o seu cigarro...
F: Diga isto para mim.
G: Você fica sentado, fumando o seu cigarro e....
F: E você não vai tolerar.
G: É... Hum... para mim é muito difícil olhar para você (a fala começa a ficar interrompida), porque você olha para mim com delicadeza, e eu...
F: Não pode tolerar isto.
G: (Fala interrompida.) É isso. Eu não posso tolerar.
F: Solte-se um pouco mais, e torne-se humano. (Glenn chora.) ... Respire.
G: Eu não vou tolerar esta sensação. Eu vou me retrair.
F: Então se retraia. Está bem. Por um momento, se você voltar, vá embora, recue para saltar melhor... Para onde você vai?
G: Eu continuo voltando para você. Ah! ... assim que eu sossego, eu... (Chora.) Eu não posso tolerar... a sensação de... (chora) amar você. (Continua chorando.) De querer agradar você e... agora eu me descubro bloqueando o seu rosto, bloqueando... (Em meio às lágrimas.) Uma das coisas mais dolorosas é que você me olha sem expectativas. Você não faz exigências. E eu acho isto lindo. Eu não tolero a mim mesmo olhando para você..., eu fico tão feliz...
F: Agora tome mais duas...
G: Eu não tolero entrar em contato comigo mesmo. É muito mais fácil se zangar, machucar ou exigir.
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F: Seja um sujeito bruto.
G: Ôôôôôô. Vou dar um jeito para que você não... sorria mais para mim.
F: Eu gostaria de construir um diálogo. Dois sujeitos estão tendo um encontro. Um se chama Brutão, e o outro Moleirão. Faça com que eles se encontrem, que entrem em contato um com o outro. O Moleirão está sentado aqui; o Brutão está sentado ai. Ou você quer o contrário? Vamos colocar o Brutão aí.
G: Isso. É para ele que você olha de cima para baixo. Sentando aqui eu não tenho respeito por você, particularmente.
F: Eu acho que ambos não estão dispostos a tolerar o outro.
G: É... Você não vai aguentar... quando eu ficar pegajoso. Você vai achar que é melhor não demonstrar nada. Eu nem tenho certeza de que você seja tão bruto. Eu acho que você é meio insensível. (Suspira.)
É, mas é muito melhor. Eu... eu... eu não machuco como você. Eu empurro as pessoas e, de vez em quando, dou risada. É. E você não escuta o que eu digo, porque quando você é mole e se sente perto de alguém, não dá para aguentar. Eu fico lhe dizendo, você tem que ir com calma, porque se você já começa se sentindo realmente ligado, as pessoas “dão o fora”. Elas se retraem. Elas não têm mais nada para fazer com você. Ninguém quer por perto uma pessoa que fica se grudando...
(Suspira.) Você, você é tão só! Eu pelo menos sei que sou só. Você pensa que apenas está sozinho. Se eu não sinto..., se você não deixa eu me sentir junto com as pessoas, se você não sente... deixe eu sentir que posso me abrir e tocar...*
F: “Abrir-se e tocar”. O que a sua mão direita está fazendo?
Nota de rodapé
*Reachreaching: querendo alcançar. — (N. do T.)
Fim da nota de rodapé
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G: Está se abrindo.
F: É, está se abrindo. /G: (Suavemente.) Ôôôôô./ Agora mude, mude de mão./ G: Sim.! Diga outra vez, e inverta.
G: Porque eu estava sentindo os meus dedos tremerem, quando abri esta mão.

F: Agora desenvolva isto.


G: Não, eu quero me abrir, mas eu sinto que ninguém quer tocá-las, e eu sinto..., que não sou... tocável, ao mesmo tempo.
F: Agora faça outra vez com a mão direita.
G: Fazer de novo. Eu sou... (A mão direita cerrada.)
F: Ótimo. Comece com isto.
G: É muito bom estar assim.
F: Agora toque-o com a mão cerrada.
G: Isto também funciona, porque o Brutão não faz isto, ou melhor, isto é estranho. Brutão não... o bebê-chorão também é o único que toca alguém com a mão fechada. Ele não faz nada.
F: Agora abra a mão direita, e estenda ambas as mãos.
G: (Respiração difícil.)... É. Eu não quero tolerar isto... (Chorando.) Eu estendo ambas as mãos. Eu as sinto aspirando.
F: Agora toque com as duas mãos fechadas.
G: Acho... Eu não me incomodo com as mãos fechadas.
F: Muito bem. Então seja outra vez o Brutão. Feche o punho outra vez.
G: Eu sinto que eu não sou tanto o Brutão. Eu só não..., eu não. /F: Diga isto de novo! Eu simplesmente não. Isto é — não!
F: Diga isto mais com as suas pernas.
G: Não. Não. Não.
F: O que é que as suas mãos estão fazendo?
G: Estão se segurando.
F: Estão se segurando

.

G: É.


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F: Então fale com a sua cadeira.
G: Cadeira, eu estou me segurando em você... você..., eu quero ter certeza absoluta de que você vai ficar aqui. Eu estou me segurando em você, também, porque isto dói... Eu não sei por que eu estou me segurando tão forte em você. Eu me seguro... eu me seguro... eu me seguro até doer. Você me faz estar onde eu estou. Eu estou sentado em cima de você.
F: Agora machuque a cadeira. (Glenn comprime e aperta a cadeira.) Segure-se na mamãe e machuque-a.
G: É... eu machuco.
F: Hein?
G: Eu machuco. Eu machuco você, mamãe, mesmo que seja só por não fazer nada.
F: O que você está sentindo no ânus?
G: Eu estou tenso.
F: Apegue-se à sua merda.
G: Certo.
F: Agora tenha um encontro entre o seu esfíncter e a merda.
G: (Ri.) Esfíncter, hein? É este cara aqui. Não. Eu disse segurar. Não vou deixar sair. Você não vai conseguir fazer passar. É. Eu fico satisfeito em ficar sentado aqui me segurando.
F: Agora você entende a sua constipação emocional?
G: Entendo...
F: Muito bem. O que você está sentindo agora no ânus?
G: Ainda está muito tenso, mas eu o sinto. Não é só...
F: Feche os olhos e fique com a tensão. Deixe acontecer o que for para acontecer...
G: Eu quero explodir. E eu me sinto bastante doente.
F: É...
G: Eu não presto. (Ri.) É como se meu estômago dissesse: “Não seria bom se você conseguisse relaxar?”.
F: Vamos dizer algumas frases de mentira. Repita:
Eu não quero nascer...
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G: Eu espero que não... ôôôô... eu não quero nascer. (Ri.) Eu não quero nascer! Ah! Agora peguei. Eu... eu NÃO... eu me pergunto se é um nascimento por trás. Eu não quero sair. Eu quero atormentar você. Eu sinto que quero sorrir. Eu quero sentar aqui e dizer: agora eu te peguei. (Respiração forte.)... E agora eu estou em contato com você. (Riso desafiador.) Você ia me fazer passar, e não vai mais fazer isto. Você ia me ensinar a ser bruto. É isto o que você pensa.
F: Muito bem. Volte a nós.
G: Ginny está toda envolta em ar. Você está tão clara. Eu vejo você como uma pessoa separada, linda.
F: Agora você está mais no mundo?
G: (Trêmulo.) Eu estou feliz em ficar..., com esta parte. É muito clara.
F: Eu não penso que nós já tenhamos esvaziado o sintoma. Mas eu acho que o colocamos de novo em foco.
HELENA
Helena: Eu me sinto muito pesada, pesada na cadeira. Eu sinto o chão, a planta do... a planta do pé e o calcanhar no chão, e o chão parece muito duro. Meu pé está se mexendo de cima para baixo... um estalo na bacia. Eu vejo os olhos do Fritz se fecharem. Eu ouço a respiração dele... O rosto de Daniel parece preocupado. Eu sinto as minhas bochechas vermelhas... mão quente debaixo da mão fria..., eu consigo ouvir a máquina; está muito quieto. A sala está muito quieta. Sossego. O Frank parece intrigado, impaciente... julgando. Eu vejo o seu pé. Eu sinto as bochechas muito quentes outra vez. Eu vi que você virou a cabeça para o lado. Eu vejo os seus olhos... (Pausa comprida.)
Teddy: (Delicadamente.) Você está se sentido bem, Fritz?
Fritz: Hum... Maravilhoso! ... (Baixo, profundo, com uma sensação de excitação.) Eu estou passando por
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uma experiência muito intensa. Eu não sei se... se eu me lembro de já ter tido esta experiência..., completamente aqui, sem qualquer representação de papéis, ou qualquer tentativa de me relacionar, e assim por diante. Completa unidade de... houve uma luta para estar totalmente aqui fisicamente... e a integração. Imensa experiência de cores. Não consigo relatar. Foi tão intenso que por instante eu pensei que não ia aguentar. Eu tive um pouquinho disso quando ouvi pela primeira vez o concerto para violino de Bartok, e eu pensei que, ou eu estava enlouquecendo, ou estava compreendendo música.
H: Eu só pensei que qualquer coisa que eu dissesse não teria sentido, porque alguma coisa muito forte estava acontecendo aí.
F: Você sentiu.
H: É. É por isto que eu não consegui falar. Eu simplesmente não consegui falar.
F: Foi realmente a experiência — como se as zonas externa e interna simplesmente se juntassem totalmente, sem nada no meio. Um mundo só... (Longa pausa.)
H: (Retomando.) Eu estou consciente de estar censurando um monte de coisas, e não estou vendo rostos de indivíduos, mas só um grupo — cores, figuras, mas nada específico... eu me sinto deslocada. Não é verdade. É mentira. Eu não me sinto deslocada. Ah! Ah! Eu me sinto muito desconfortável na cadeira — tranquila por dentro. Eu lambi os lábios e eles estão salgados... Eu estou lambendo os lábios e eles estão salgados. Eu noto os olhos de June e eles são como dois mármores pretos, o vestido dela parece uma tapeçaria. E o Dick parece que está saindo de um filme de cowboy — só falta o revólver... Agora o meu coração está batendo mais forte, eu estou ficando mais excitada...
F: Qual é a relação entre este excitamento e a situação anterior, ou seja, que ele parece um cowboy?
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H: Ele ganhou vida para mim — um personagem — não só alguma coisa grudada na parede. De repente, ele saiu da parede com um chapéu de bico, e a June, e depois o Dick... e eu senti o meu coração começando a bater. Eu senti prazer.
F: Ele ganhou vida?
H: Para mim. É. Para mim.
F: Você também ganhou vida?
H: Ganhei. Eu comecei a me sentir mais excitada, olhando..., como se um véu tivesse se levantado. E aí estava só o Dick, fumando um cigarro, mas ele virou todo um personagem. E os olhos e o vestido da June... ela virou um personagem.
F: Então retraia-se para dentro de si mesma.
H: Eu sinto as minhas mãos, os meus braços e as minhas pernas formigando, e a minha cabeça está muito leve..., não a cabeça toda, só a parte de trás é que está leve, mas a frente..., aqui... há uma pressão aqui na testa. O meu coração está com a batida mais regular, mas eu ainda sinto aqui aquela sensação de leveza... a parte de cima e de trás..., muito leve... June parece que vem do Brooklyn — por causa do livro, o livro sobre quadrilhas...
F: Basicamente, eu gosto do que você experiência. O que me perturba é a sensação de que... de que você está fazendo uma reportagem.
H: Hum... Eu estou relatando.
F: Eu sinto mais do que relatar — fazer uma reportagem.
H: Que reportagem?
F: Fazendo tudo para o número da próxima semana, assim-e-assado — Jornal da Gestalt-terapia, ou algo assim. Vamos introduzir um fator um pouquinho diferente. Sempre que você sair, use a palavra você, então volte e use a palavra eu. Balance entre você e eu.
H: Quando eu falo dos outros — você. O fora... E me sinto presa e tenho consciência de estar me julgando, que eu estou como uma “babaca” aqui em cima, não
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sabendo o que dizer em seguida. Tomo consciência de juntar as mãos, de estar impaciente... Ahn! ... Eu descubro que estou muito quente... e que o vestido da Ginny é muito brilhante — seu vestido é muito brilhante. Eu ainda estou fazendo a mesma coisa... (Sarcástica.) Então o seu vestido é brilhante!...
F: Então vamos mudar de repórter para palhaço.
H: Pelo menos, é mais vivo.
F: Fazer palhaçada é sempre uma boa saída. Onde outras pessoas ficam com paranoia, você vira um palhaço... A diferença não é tão grande assim. Veja, o paranoico usa qualquer tipo de material que queira usar, que ele necessita para os seus propósitos agressivos. O paranoico está à procura de briga, então fica buscando ofensas e outras coisas. Da mesma maneira, o palhaço usa tudo que pode para os seus propósitos de entretenimento. Muito bem.
BLAIR
Blair: Eu tenho uma situação inacabada com você, Fritz.
Fritz: É.
B: (Zangado, em voz baixa.) Eu não sei que tipo de blábláblá de Gestalt você estava querendo impingir ontem à noite, quando eu lhe pedi um fósforo; mas, quando eu peço um fósforo, tudo o que eu quero é um simples sim ou não, e não um monte de jogos verbais até eu acertar a combinação de palavras; e aí você vem com o fósforo. E outra coisa..., se eu quiser... se eu quiser um maldito sermão sobre etiqueta social, pode deixar que eu peço. Pelo que eu saiba, você entra no meu espaço vital quando eu me sento nesta maldita cadeira, e em nenhuma outra ocasião. Eu não estou interessado
F: (Delicadamente) Então o que eu devo fazer?
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B: Basta não confundir a minha cabeça quando eu lhe peço um fósforo. É suficiente você dizer sim ou não. E pode deixar que eu aviso quando precisar de você; e isto é só aqui no lugar quente (hot seat).


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