Perls, Frederick S. Gestalt-terapia explicada



Baixar 1,73 Mb.
Página20/26
Encontro27.09.2018
Tamanho1,73 Mb.
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   26
Página 281
F: Muito bem, agora seja de novo o dominador, O que você é? Ele acabou de dizer que você só faz masturbação mental.
J: Eu também, eu estou ficando confuso... eu não consigo trocar tão depressa.
F: Isto significa que a integração está começando. Os dois, um aprende do outro.
J: Ah! Ele acabou de me dizer que eu só faço masturbação mental. É. Ah! (Chora.)... Mas eu não faço masturbação mental, eu não quero ser... eu não quero fazer só masturbação mental. Eu não quero ser tão pomposo, eu não quero ser tão melhor do que os outros. Eu só quero sentir que faço parte das pessoas. Eu não quero fazer parte do... eu quero ser eu mesmo, mas... eu só quero sentir que... eu só quero sentir que eu também sou alguém. Eu não quero ser um cretino pomposo.
F: O que você está sentindo fisicamente agora? E emocionalmente?
J: Ah! Eu estou formigando todo. Cada... cada parte do meu corpo está formigando. Eu também tive uma ereção.
F: Agora, acompanhe simplesmente a transição de ser ninguém (no body: nenhum corpo) para ser alguém (some body: algum corpo) *.
J: Acompanhar... a transição... de ser ninguém para ser alguém.
F: Pense assim: de nenhum corpo (no body) para algum corpo (some body).
J: Oh! Você quer dizer, descrever, dizer o que eu estou sentindo? Ah, não sei! Eu tenho que me sentar em algum lugar aqui n meio.
F: Ah! Ah!
J: Ali não há cadeira. (Ri.) O que é que faço, hein? Precisa ser um diálogo constante? É assim que a vida e? É só um diálogo entre duas partes da gente? Não
Nota de rodapé
* Ver nota anterior referente às palavras somebody e nobody. — (N. do T.)
Fim da nota de rodapé
Página 282
se pode estar em algum lugar no meio? Você não pode se sentir real? Tem sempre que ser duas partes, ou se sentir um nada ou um cretino pomposo?
F: Você não pode ter um centro?
J: O quê?
F: Você não pode ter um centro?
J: Eu quero ter um centro. Eu gostaria de sentar aqui... é isso que eu gostaria de fazer... mas eu quero ser igual, eu não quero sentar no chão. (Risos.) “Tá legal.” (Senta no chão.) Isto não está bom. Eu quero estar aqui (puxa a cadeira para o meio), exatamente aqui no meio. Ah! Eu não quero que vocês pensem que eu sou um cretino pomposo, e eu não quero que vocês pensem que eu não sou nada. Eu não sei onde eu estou.
F: Você está chegando perto... (Uma longa pausa.) Então, o que você está experienciando agora?
J: Eu me sinto um pouco mais real, O corpo todo formigando era algo que eu não estava esperando. Eu tinha medo de que você me perdesse se eu não tivesse sido tão forte como eu fui, mas eu estou contente por ter sido forte, eu me pergunto se alguém... parece o cretino pomposo outra vez... eu me pergunto se alguém mais fraco do que eu teria se soltado, teria sido submisso e encenado um lado de mim.
F: É sempre a mesma coisa, é sempre uma polaridade — você tem essa polaridade. Você também tem outras — o valentão e o bebê-chorão, e assim por diante. E qualquer coisa que você comece a fazer, o oposto sempre está lá para complementar. Eu sabia disto desde o começo. Existe uma velha estória a respeita disto: Um rabino está parado na frente da sua congregação e diz: “Eu era rabino tão bom; agora eu não sou nada. Eu realmente não sou nada. Meu Deus, eu era um rabino tão bom, e agora eu não sou nada” E então, o cantor da congregação entende e diz: “Meu Deus, eu era um cantor tão bom, e não sou mais nada. Não sou realmente nada”. E um alfaiatezinho entendeu.
Página 283
e diz: “Meu Deus, eu era um alfaiate tão bom e agora não sou mais nada, realmente nada”. E o rabino diz para o cantor: “Quem ele pensa que é para achar que não é nada?”. (Risos.)
Por favor, note que os verdadeiros opostos são impotência versus loucura-por-controle. Se você sente que tem que controlar tudo, imediatamente você se sente impotente. Por exemplo, no mesmo instante em que eu quiser subir nesta parede, eu fico propenso a me sentir impotente.
PERGUNTAS II
P: Vendo que eu sabotei, e é isto que eu costumo fazer, como posso me tornar mais consciente para poder parar?
F: Sabotando deliberadamente Mascarando-se: “Eu sou um grande sabotador”. Agora, sabote isto... (Risos.)
Nunca se supera coisa nenhuma resistindo a ela. Apenas se pode superar alguma coisa entrando mais fundo nela. Se você for invejoso, seja mais invejoso. Se você estiver representando, aumente a representação. Seja o que for, se você entrar bastante fundo, a coisa desaparece; é assimilada. Resistência não adianta. Você precisa entrar totalmente — balançar junto. Balance junto com a sua dor, com a sua inquietação, seja o que for. Use a sua inveja. Use o seu meio ambiente. Use tudo aquilo que você combate e rejeita. E vanglorie-se! Vanglorie-se por ser um grande sabotador. Se você estivesse no movimento de resistência na última guerra, você provavelmente seria um grande herói.
P: Bem, isso é.... Eu devo, por exemplo, sabotar você? Ou todo mundo que encontre? Ou...
F: Você vê, você já está sabotando. Eu lhe disse Para se vangloriar do grande sabotador que você é.
P: Eu sou... eu sou um sabotador terrível.
Página 284
F: Continue.
P: Terrível.
F: Vamos lá. Conte para nós.
P: Bem, eu escrevi umas canções que chegaram ao primeiro lugar da parada de sucessos no Canadá, quando eu tinha dezessete anos, e um amigo meu... eu escrevi junto com ele, e ele me roubou as canções, e eu deixei a minha mãe me desencorajar de continuar, e durante algum tempo eu vivi numa felicidade murcha. E eu comecei num clube noturno, em sociedade com o meu pai, e ele me roubou. Eu corri para a minha mãe e ela disse: “Para que você precisa de um clube noturno? Lá só vão vagabundos”; e nesse meio tempo, sabe, muita... bem... gente boa ia lá, e eu entrei numa depressão e continuei “tomando pau” na escola. Isto foi... sabe... muito bom. Eu acreditava que eu era estúpido.
F: Claro, claro.
P: Eu tinha o papel principal em David e Lisa, e me botaram fora só porque eu voltei para Toronto, em vez de ficar lá como o meu empresário tinha me recomendado. Eu sei que tenho talento para as artes, e tenho talento para música. Eu sou uma pessoa talentosa. Eu estou aprendendo a me amar, e isto é... e isto é um jeito de acabar com a sabotagem, porque... e eu... eu ajudo gente, e ajudo gente, e eu concluí que agora eu sei que eu sou gente. Eu quero começar a me ajudar, e...
F: Como você sabota isto?
P: Bem, eu evito..., evito ler..., eu fui aceito na Universidade da Califórnia, mas eu tenho medo de continuar e fazer o exame.
F: Agora, diga aos seus pais: “Tudo o que eu quero fazer na minha vida é desapontar vocês”.
P: Tudo que eu quero fazer na minha vida é desapontar vocês.
F: Agora eu gostaria de sugerir que você reconsiderasse a sua vida. Talvez a sua vida possa ter outro
Página 285
significado, e não somente desapontar os seus pais. Se essa existência vale a pena para você, é você mesmo quem resolve. Em outras palavras, simplesmente jogue seus pais na lata de lixo. Para que você precisa dos seus pais?
P: Sim. Obrigado. Esta é a mão que você tinha dito que não... você disse que ela estava paralisada. Eu gostaria de apertar a sua mão.
F: Frequentemente existe esta grande necessidade de desapontar pais ou outros que jogam muitas ambições sobre a pessoa.
P: Na experiência das duas partes, que nós sempre vemos no palco, em nós mesmos e nos outros; se estas duas partes... se elas estiverem tão distantes que forem, sabe, vozes, ou algo “lá fora”, esta técnica ainda pode ser usada, para integrar?
F: Pode. Se você conseguir as polaridades corretas, e transformar o combater em escutar o outro, então a integração terá lugar. É sempre uma questão de combater versus escutar. Isto é bastante difícil de entender, porque é uma polaridade difícil. Se você tem ouvi- dos, a porta da integração está aberta. Entender significa escutar.
P: E com relação aos possíveis perigos de assumir é que podemos fazer a mesma coisa, seja conosco mesmos, seja com outros. Eu tenho visto um monte de Fritz Perls amadores.
F: Eu também. É isto que eu estou tentando combater — todo o negócio dos charlatães, todo o negócio dos “estimulantes” (turning-on), e qualquer um que tenha tido algumas poucas sessões indo se meter a fazer trabalho de encontro. É tão perigoso quanto fazer psicanálise.
Eu quero falar um pouco sobre o significado histórico do Instituto de Esalen. Esalen é uma colônia espiritual. Esalen é uma oportunidade. Esalen se tornou um símbolo, um símbolo muito similar à Bauhaus alemã, no qual um certo número de diferentes artistas
Página 286
dissidentes se juntaram, e desta Bauhaus surgiu uma recatalisação da arte em todo o mundo. Esalen e gestalt não são a mesma coisa. Nós vivemos numa simbiose, uma simbiose muito prática. Eu vivo e trabalho aqui numa casa maravilhosa, mas eu não sou Esalen e Esalen não é eu. Existe muita gente, muitas formas de terapia: terapia de alma (soul-therapy), espiritual, um pouco de ioga, um pouco de massagem. Qualquer um que queira ser ouvido pode dar seminários em Esalen. Esalen é uma oportunidade, e se tornou um símbolo da revolução humanística que está em andamento.
A segunda coisa que eu quero dizer é que aqui existe uma porção de programas misturados, e eu quero distinguir dois tipos: um é um programa de crescimento, e o outro pode ser condensado na falácia da cura instantânea — alegria instantânea, percepção sensorial instantânea. Em outras palavras, “estimulantes” (turner-onners). Eu quero dizer que não pertenço a eles. Na semana passada arranjamos mais um “instantâneo” — violência instantânea — um chinês que fazia caratê e algumas pessoas se machucaram bastante, e eu acho que nós já temos educação para a violência suficiente na televisão e estórias em quadrinhos. Nós não precisamos de Esalen para reforçar isto.
P: Eu só gostaria de fazer uma pergunta. Eu tentei ler o seu livro Gestalt Therapy, mas eu gostaria que alguém deste grupo de líderes pensadores, etc., escrevesse um livro em linguagem bem simples, se fosse possível, explicando as mesmas teorias de modo que a pessoa média, sem educação técnica, etc., talvez pudesse receber algo mais. Eu sei que, às vezes, é difícil escrever sobre um tema complicado sem usar linguagem técnica.
F: Você achou a minha linguagem aqui técnica demais?
P: Não, mas no livro eu achei.
Página 287
F: Quando foi que eu escrevi o livro? Em 1951. Não, agora eu sou muito mais a favor de se fazer filmes, e assim por diante, para transmitir, e eu acho que encontrei uma linguagem mais simples. Na realidade, acredito que, se eu não consegui transmitir de maneira incomum a minha mensagem, ela não tem valor. Eu estou lentamente aprendendo.
P: Dr. Perls, quando o senhor estava formulando e experienciando o que veio a ser a Gestalt-terapia, eu quero ter certeza, eu quero ouvir o senhor dizer, parece que é um processo de descoberta. Mesmo assim, eu acho que as pessoas podem dar um jeito de se adaptar às expectativas do terapeuta; por exemplo, eu aqui sentado vejo uma pessoa depois da outra ter uma polaridade, um conflito de forças, e eu acho que também consigo. Mas eu não sei até que ponto seria algo espontâneo, embora eu ache que sentiria que é espontâneo. O senhor experiência pessoas há muito tempo; nós estamos nos adaptando ao senhor, ou o senhor nos descobriu?
F: Não sei. Toda a minha definição de aprendizagem é que aprender é descobrir que algo é possível, e se eu os tiver ajudado a descobrir que é possível resolver uma quantidade de conflitos internos, conseguir um armistício na guerra civil dentro de nós mesmos, então teremos conseguido algo.
P: Você sente que o workshop... você sente que a audiência é parte essencial do encontro que se desenrola? Pode ser feito apenas com você, com a pessoa que está encontrando a si mesma?
F: Você pode fazer uma afirmação?
P: Bem, o que eu estou me perguntando é como...
F: Isto não é afirmação, ainda é uma pergunta.
P: Bem, pessoalmente eu acredito que o que se desenrolou no palco pode ser feito sem a audiência.
F: Muito bem, aí está a sua afirmação.
P: Dr. Perls, eu gostei muito de observar o seu trabalho. O que acontece em seguida com as pessoas que
Página 288
chegaram a diferentes pontos de percepção ou superação? O que o senhor sugere que elas façam?
F: Eu não sugiro. Vocês precisam descobrir o seu próprio caminho, assim como descobriram o caminho até mim.
P: Pode-se obter o mesmo benefício com um diálogo com o próprio eu? É possível tirar alguma coisa disto? Ou nós estamos sempre condenados a divagar — associações, etc., — até encontrarmos alguém como você, do lado de fora, para indicar alguns fatos e coisas?
F: Eu acho que respondi a esta pergunta.
P: Não entendo.
F: Depende se as duas partes escutam ou brigam. Pegue qualquer exemplo na História, em você mesmo. Se os Estados Unidos e o Vietnã do Norte se escutassem, se as diferentes facções e grupos da ONU se escutassem, em vez de sair e brigar, se maridos e esposas se escutassem, o mundo seria diferente.
P: Mas, às vezes, existem fatos objetivos, quero dizer, existem duas partes, e uma diz isso e a outra diz aquilo, e se pode definir o escutar dizendo, bem, se o resultado for bom é sinal de que eles se escutaram, mas isto não responde à pergunta. Como se pode dizer de antemão se estão escutando ou não? /F: Não se pode. / Você pode imaginar uma situação em que ambos estivessem se escutando mutuamente, e mesmo assim não sairia nada?
F: Sim. Então a guerra continua.
P: Desculpe. Posso reformular a minha pergunta?
F: Oh! Eu estou certo de que você pode.
P: Então, deixe ver. É possível dizer se eles escutam ou não? Você está julgando pelo resultado, pelo processo de ver o próprio processo. É possível dizer aqui se eles estão se escutando — você ainda não sabe o resultado, mas eles estão se escutando?
F: Sim. Eu posso dizer exatamente pelo tom de voz pelos gestos.
Página 289
P: Mais uma pergunta. Houve alguns casos em que você encerrou depressa — houve gente com quem você encerrou depressa, e outros que foram muito prolongados, e às vezes eu tive a impressão de que você não quer se envolver em certas direções.
F: Você está totalmente certo.
P: Você pode formular o critério de divisão?
F: Posso. Sempre que eu vejo que existe possibilidade de eu não poder acabar a situação, e deixar a pessoa “pendurada”, algo que eu não possa lidar neste contexto, eu me recuso a prosseguir. O único significado deste seminário é demonstrar que a Gestalt-terapia funciona, que não é preciso deitar num divã durante anos, décadas, séculos. É só isto que eu quero demonstrar.
Muito bem. Obrigado.
Página 290 – página em branco
Página 291
“WORKSHOP” INTENSIVO
As transcrições a seguir foram tiradas de gravações audiovisuais, realizadas durante um workshop intensivo de Gestalt-terapia, com a duração de quatro semanas; o workshop teve lugar no Instituto Esalen, no verão de 1968, e envolveu vinte e quatro pessoas. As transcrições ilustram, especialmente através de sessões seguidas com o mesmo indivíduo e interação grupal, alguns aspectos da Gestalt-terapia não trazidos à luz no capítulo anterior, que se baseou em seminários de trabalho com sonhos, realizados em fins-de-semana.
DESEMPENHANDO O PAPEL DO SONHO
Fritz: Agora, quero que todos vocês falem com os seus sonhos, e deixem que eles respondam — não o seu conteúdo, mas como se o sonho fosse uma coisa: “Sonhos, vocês estão me apavorando”, “Eu não quero saber de vocês”, ou algo parecido; deixem que os Sonhos respondam. (Todos conversam com seus sonhos durante alguns minutos.)...
Então, agora eu gostaria que cada um de vocês desempenhasse o papel do sonho, por exemplo: “Eu raramente chego até você; e quando chego, é só em
Página 292
pedacinhos”, ou qualquer outra maneira pela qual vocês experienciam os seus sonhos. Eu quero que vocês sejam o sonho. Invertam o papel, e falem com todo o grupo, como se fossem o sonho conversando com você.
Neville: Eu a faço de boba, não é? Porque estou cheio de fatos importantes sobre você, e não deixo que você se lembre de mim. Isto deixa você louca da vida, não é? Isto confunde você; e eu me divirto muito quando a deprimo, e vejo você se afundar mais e mais à medida que o dia vai passando. Você não teria a mínima dificuldade em se lembrar se se concentrasse um pouquinho em mim. Então, eu brinco de esconde-esconde com você, e eu gosto do seu incômodo. Eu faço você de boba. Eu brinco com você e a iludo, e assim a confundo mais... Eu faço você ver um eu diferente, não é? ...
Glenn: Eu não apareço muito claro, nem com muita frequência, porque você não parece me compreender muito bem. Eu lhe diria coisas espetaculares se você prestasse um pouco mais de atenção; mas, por enquanto, você não presta e eu não te sirvo para nada.
Raymond: Eu sou muito furtivo. Você sabe que eu estou aqui, mas não sabe o que acontece.
Biair: Eu vou mistificar você. Eu vou ser simbólico, impenetrável..., deixar você confuso... sou obscuro.
Bob: Eu estou todo envolto numa névoa, como aquelas montanhas ali. Mesmo que a névoa desapareça, seria difícil saber as coisas de mim.
Frank: Você não deveria ter vergonha de mim. Você deveria sair e se encontrar mais comigo. Eu sinto que posso ajudar você. Eu gostaria de me encontrar mais com você.
Lily: Eu posso ver, ouvir, sentir e falar, e tocar, e fazer tudo que você quer fazer.
Jane: Eu sou feliz, excitante, interessante. Eu vou fazer você realmente “se ligar”; e quando a gente estiver terminando, eu “desligo”, e você não fica sabendo o fim. E então você passa o dia todo de cara fechada por não ter sabido o final.
Página 293
Teddy: Eu sou uma situação muito interessante e criativa. Tramas, justaposições, em que você nunca iria pensar quando está acordado. Eu sou muito mais criativo, muito mais amedrontador, e eu não apareço como figuras. Você sabe o que está acontecendo quando eu estou presente; depois você esquece. Mas eu não sou um filme; eu sou uma espécie de saber. Você gostaria de me ver em imagens, mas eu não apareço.
June: Eu vou tornar você desgraçada, eu vou destruir você, eu vou envolver você e empurrar você para baixo, e fazer você sentir que não pode respirar. Eu vou ficar aqui e me sentar em cima de você!
Fritz: Bem, possivelmente vocês notaram algo muito interessante em alguns, como o sonho simboliza o seu eu oculto. Eu gostaria de trabalhar com isto em grupo, para encenar mais o ser esta coisa que vocês acabaram de imaginar que seria o sonho. Eu não sei até que ponto aqueles que representaram o sonho percebem o quanto de si mesmos saiu, mas estou certo de que a maioria pode facilmente reconhecer que é uma parte sua, que vocês não gostam de trazer à tona. Se vocês tomassem literalmente o que eu lhes pedi para fazer, representar o sonho como se ele fosse uma pessoa, as instruções não teriam o mínimo sentido. Como se pode ser o sonho? E então, quando você o expressa, ele se torna real. Vocês realmente sentiram que ali havia uma pessoa. As vezes ocorre alguma surpresa, no caso de a pessoa ter conseguido usar a máscara com graça e confiança. Por exemplo, vocês notam o quanto saiu de June. Eu não sei quantos de vocês notaram este tremendo poder destrutivo dela. Ele se revelou claramente. Muito bonito.
JUNE
June: O sonho começa num automóvel que está para- do num grande estacionamento subterrâneo, parecido
Página 295
com uma caverna, ao lado de uma estação de trem, e eu sou uma menina pequena. Eu tenho só uns sete anos... Meu pai está sentado ao meu lado, dentro do carro, e ele parece muito grande muito escuro. Não há luz — tudo está escuro, e eu sei que ele está me levando para a estação para me colocar no trem de volta à escola, porque eu estou de uniforme, minha saia comprida azul e a minha blusa, azul também, e está acontecendo um ataque aéreo, e nós temos que ficar sentados no carro, as bombas estão caindo e fazendo muito barulho.
(Voz fina, pequenina.) Eu estou morrendo de medo, papai, eu estou com muito medo. Eu não quero subir no trem, não quero voltar para a escola. (Debilmente.) Eu só quero ficar em casa com você e a mamãe.
(Severamente.) Você está com medo das bombas, June? Ou você está com medo de voltar para a escola? Não tenha medo das bombas, porque isto é um sonho, e o carro vai nos proteger.
(Debilmente.) Eu não quero voltar para a escola. Eu não gosto de lá.
Bem, eu gostaria que você ficasse em casa. Eu gostaria que você voltasse, eu matricularia você numa escola do bairro, mas a sua mãe não quer você de volta...

(Choramingando.) Mas é você quem faz as regras.


Eu não faço regras. Eu tenho que viver com a sua mãe.
Mas estão caindo bombas...
Fritz: Seja o piloto...
J: Dá uma grande sensação de poder, voar num avião e achar gente par. jogar bombas em cima, e então..., apertar um botão. (Confiante.) Eu controlo este avião, e eu posso voar com ele para onde eu quiser, e posso jogar as bombas. Plop. Jogar bombas. Plop. Eu tenho pedais por todo lado, aqui no chão; e toda vez que eu aperto um pedal, uma bomba cai.
Página 296
(Mais débil.) Eu tenho certeza de que meto medo nas pessoas.
F: Muito bem. Fique no bombardeiro, vá para o Vietnã.
J: Eu posso... posso... (voz ofegante, trêmula)... eu posso levar o avião para lá, mas não posso jogar as bombas! Ali há gente de verdade. As pessoas dos meus sonhos não são gente de verdade... Não há... não há botões, não há pedais no chão, e eu não posso bombardear. Eu posso guiar o avião. Eu posso guiar e voar em círculos, eu posso voar baixo e ser atingido, mas eu não posso revidar... eu não quero revidar...
F: Então volte e jogue de novo as bombas sobre o carro.
J: (Quase chorando, voz desamparada.) Ali há uma menininha, dentro do carro. Eu não posso fazer isto... Posso sim... Eu fiz. As bombas estão caindo de todos os lados.
(Sacudindo.) E eu sou o carro, e estou sacudindo e tremendo, mas do lado de dentro está tudo intato, e as pessoas estão seguras. Elas estão apavoradas.
F: Muito barulho por causa de nada. Você não pode fazer nada para si mesma... Você está segura...
J: Você não pode me fazer nada, mas eu posso fazer coisas para mim mesma.
F: Muito bem. Vamos tentar de novo.
J: Sim senhor.
F: Seja um bombardeiro, e jogue bombas de napalm sobre os vietnamitas.
J: Está bem... Agora estou chegando sobre a terra, e eu tenho todo um carregamento de mortíferas bombas de napalm. Material gelatinoso. Agora eu vôo mais baixo, mais baixo, porque desta vez eu vou acertar mesmo, e eu quero ver o que estou atingindo... (Chora, soluça.) Ih, nããããão! ... Eu atingi uma senhora que estava correndo com uma criança nos braços, e um cachorro atrás... (Chora.) E eles estão se contorcendo de dor! ... Eu não os matei..., mas eles estão queimados.
Página 297
F: Encontre alguma outra pessoa para matar.
J: Aqui?
F: Não importa, contanto que você tire o matar de dentro do seu sistema.
J: (Chora.) Minha mãe..., como é que eu posso matá-la. (Suave e intensamente.) Eu quero que doa... Puts, como eu quero que doa... Oh! Eu a matei. (Ainda chorando.) Na piscina, toda cheia de ácido, e ela mergulhou. Não sobrou nada. (Ri.) ... (Baixinho.) Você mereceu. Eu devia ter feito isto há muito tempo. Não sobraram nem os ossos. Ela simplesmente desapareceu.
F: Eu não ouvi o que você ficou aí murmurando. Você está disposta a nos contar? Se não quiser, não precisa.
J: (Calmamente.) Eu enchi a piscina, enchi... eu enchi a piscina deles com ácido, e ela não sabia. Estava tudo limpo.
F: A piscina de quem?
J: A piscina do meu pai e da minha mãe. E ela desceu para nadar, mergulhou... E... ela queimou. Ela caiu no fundo, a carne saiu e se dissolveu, e os ossos começaram a dissolver. E então tudo ficou limpo e azul de novo... E eu fiquei me sentindo bem. Eu devia ter feito isto há muito tempo.
F: Diga isto para o grupo.
J: Eu me senti bem! Eu devia ter feito isto há muito tempo. Muriel, eu me senti bem mesmo, e devia ter feito isto há muito tempo. Eu me senti bem, Glenn. A agonia dela me fez sentir bem. A morte dela me fez sentir bem. Eu devia ter feito isto há muito tempo.


1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   26


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal