Perls, Frederick S. Gestalt-terapia explicada



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frente de pessoas e bum!, não consigo entrar nos meus sentimentos, porque eu me sinto constrangida.
F: Diga isto para o grupo.
M: Eu me afasto de vocês, eu não tenho intenção, mas eu caio fora. E isto..., eu acho que é a “eu zangada” dentro de mim dizendo: “Mary, você não vai conseguir chegar lá”.
F: Muito bem, feche os olhos e caia fora. Vá embora. Vá para onde quiser. Para onde você iria? ...
M: Quer que eu lhe diga onde estou? /F: Quero! No Lago Michigan, olhando — andando pela praia.
F: Sozinha?
M: Sozinha.
F: Sei, e o que... /M: Eu gosto de lá o quê?!... o que você está experienciando ali?
M: (Em voz baixa.) Bem, eu gosto de água banhando os meus..., batendo contra os meus pés e... eu acho que a casa está aí... parte da casa. Nós temos uma cabana lá perto. Eu acho que me sinto inteira quando estou andando pela praia.
F: Agora volte a nós. Como você experiência estar aqui? Você pode comparar as duas experiências? Qual você prefere?
M: Eu gosto de estar aqui.
F: O que você experiência aqui?
M: Uma porção de gente bacana, uma porção de gente interessada.
X: Mary, você quer dizer amigos?
M: É, amigos; acho que sim.
F: Muito bem. Caia fora de novo. Vá embora outra vez...
M: Eu não quero ir embora.
F: Muito bem, você se sente mais confortável aqui? /M: Sinto. / Ainda há algo incompleto. Ah! ... Você acabou de interromper. O que você estava fazendo com as mãos? Não, agora você está fingindo.
M: Isto? (Mexe as mãos.)
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F: Faça a mão esquerda e a direita terem uma conversa.
M: Direita, você está fazendo isto. Oh!
Eu quero esconder você.
Mas eu não quero ser escondida.
Mas eu quero esconder você.
Não. Não me esconda. Eu quero ir embora.
Eu preciso agarrar e esconder você... Bem, vou deixar você solta.
Então eu não preciso me esconder.
F: Diga isto outra vez: “Eu não preciso me esconder”.
M: Eu não preciso me esconder. / F: Outra vez. /
Eu não preciso me esconder. / F: Mais alto. /
Eu não preciso me esconder. / F: Diga isto para a sua mãe. /
Eu não preciso me esconder
F: Você disse isto para ela? Ela está ouvindo?
M: Não sei. Por que eu estou me escondendo dela?
F: Esta pergunta é de menos. É claro que a pergunta mais importante é: Para que você precisa da sua mãe? Por que você ainda a carrega consigo?
M: Você quer dizer, por que eu ainda a carrego comigo? /F: É.! Eu devo estar querendo. Eu devo estar querendo ficar com ela existindo.
X: Mary, você acha que perdeu o seu cartão de identificação, ou você o está escondendo?
M: Eu acho que estou escondendo...
Y: A mulher que estava com você era a sua mãe?
M: Não sei. Acho que e a minha irmã.
F: (Para o grupo.) Por favor. Existe uma coisa que é tabu em Gestalt-terapia: masturbação mental, interpretações. Vocês começaram a fazer isto. Eu sei que esta é a principal ocupação em terapia de grupo. Mas nós queremos a experiência. Aqui nós queremos a realidade.
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O que você está experienciando agora, com toda esta interferência?
M: Eu não gostei muito, não.
F: Mas você não disse que não gostou.
M: (Para o grupo.) Eu não gostei da interferência porque eu estou tentando me concentrar.
F: Você está tentando se concentrar. O que significa isto?
M: Chegar nos sentimentos em relação à minha mãe.
F: Isto precisa de esforço?
M: Às vezes.
F: Agora diga isto à sua mãe.
M: Está bem; mãe, às vezes preciso de muito esforço para chegar nos meus sentimentos em relação a você... que eu realmente não quero me esconder. Eu não quero ser o que você quer que eu seja. Eu quero ser eu mesma. /F: Outra vez. /

Eu quero ser eu mesma, mãe, e se isto significa /F: Mais alto! ... Ser egoísta, então eu sou egoísta, merda! /F: Mais alto!


Está bem. Eu quero ser eu mesma. Eu quero ser eu. Eu quero me soltar e se isto significa ser egoísta, então eu sou egoísta.
F: Agora diga isto com o corpo todo.
M: Está bem. Eu quero ser... eu quero ser eu. Eu preciso ser eu de qualquer jeito. Eu não vou ser o que você quer que eu seja.
F: Você ainda está dizendo quase só com a sua voz
O resto de você ainda está morto e não se envolve.
Levante-se e diga com você inteira. (Ela se levanta)
O que você está experienciando agora?
M: Um pouquinho de vergonha, outra vez.
F: Diga isto para a sua mãe.
M: Mãe, eu estou com vergonha... Eu amo toda gente, mas eu ainda estou com vergonha.
F: Então, volte para a sua cabana no Lago Michigan e diga isto ali... Você pode dizer isto estando ali?
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M: Posso, mas não consigo voltar para a cabana com muita facilidade.
F: Onde você se sentiria suficientemente à vontade para dizer? ...
M: Talvez na praia.
F: Muito bem, você pode ir para lá... Berre para o outro lado do lago.
M: (Berra.) Ei mãe, eu quero ser eu.
F: Ainda soa falso. Você consegue ouvir?
M: É... ainda está mal.
F: Bem, nós vamos ter que pegar alguma outra coisa — a vergonha. Você pode dançar a vergonha?
M: Se eu posso dançar a vergonha?
F: É. Eu quero que você a dance.
M: (Levanta-se e dança.) É assim? É isto que você quer? /F: É! (Dá uma risadinha.) Eu não quero ver todo mundo aí.
F: Como você se sente agora em relação a isto?
M: Ah, muito bem! Eu gosto.
F: Agora tente de novo dizer para a sua mãe...
M: Você quer dizer, berrar...
F: Não me importa que você berre ou não, mas eu quero ter a sensação de que você realmente manda a mensagem...
É difícil porque o amor por ela entra no meio.
F: Diga isto para ela...
M: E há um conflito.
F: Ah! ... Agora você está chegando no seu impasse. /M: É sim. / Agora diga isto para ela.
M: E, também, ela está morta; então, sabe, “já era”.
F: Mas você ainda a carrega. Ela não está morta.
M: Está bem. Ei, mãe, eu não consigo dizer isto para Você porque eu a amo, e também quero que você me ame. E é isso, eu quero que você me ame, então eu faço o que você quer. Merda.
F: Seja ela.
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M: Está certo. Eu quero que você faça o que eu quero. Mas eu amo você, só que era difícil chegar até você, porque você era egoísta. E, além disso, eu queria um menino. Eu não queria uma menina.
Bem, mamãe, eu queria ser um menino.
F: Diga para ela que ela é egoísta.
M: Você é egoísta, porque você não me queria, você queria um menino. E você me teve, e veja o que aconteceu. Você arranjou um peso e não sabia o que fazer. Mas eu tenho que ser eu.
F: Você pode dizer:
M: Eu tenho que ser
F: Diga outra vez.
M: É difícil.
F: É sim. Você está presa de novo.
M: Eu ainda quero ser um menino. Ah! Eu tenho que ser menina, mãe, e eu não me sinto uma menina muito bonita.
X: Eu acho que você é muito bonita.
F: Alguém está querendo “ajudar”. (Risos.)
M: Eu não sinto que eu sou bonita... Às vezes eu não sinto, às vezes sim. (Suspira.)
F: Agora banque de novo a tímida.
M: Envergonhada?
F: Bem, você chama de envergonhada. Eu chamo de tímida. (Risos.)
M: Você quer dizer, olhar para as pessoas? Elas não vêem...
F: Eu vejo. Assim elas não vêem que você não tem pau. Não é?
M: Que eu não tenho... Oh! (Todos riem.) Eu estou embaraçada.
F: Foi o que eu adivinhei. O seu embaraço. /M: O quê? / Foi isto que eu achei, que este era o seu embaraço existencial. Você deveria ser menino, e um menino sem pau não é lá muita coisa. Muito bem.
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JOHN
John: Quando eu descubro a minha mente passando por todo...
Fritz: Fale com a sua mente.
J: Mas eu descubro a minha mente passando por...
F: Fale com a sua mente.
J: Eu quero falar com você.
F: Muito bem. Obrigado. Quem é o próximo?
J: Você não pode ser tão hostil.
F: Eu não sou hostil. Se você não incorporar isto... eu não estou interessado em masturbação mental. Se você quer trabalhar, trabalhe.
J: Está bem. Vou tentar. Eu ainda acho que você está um pouco hostil, mas eu vou tentar.
F: Diga isto para o Fritz. Coloque o Fritz na cadeira. Diga: “Fritz, você parece um pouquinho hostil”...
J: Fritz, você parece um pouquinho hostil. Não só um pouquinho, mas bastante.
F: Seja o Fritz.
J: Ser o Fritz. Saia da minha plataforma — sia já daqui, seu intrometido maldito que tenta agir como ser humano. Por tentar dizer o que você mesmo está pensando, por tentar agir de verdade, por tentar agir como uma pessoa de verdade. Saia já daqui, este não é o seu lugar, porque você não é ninguém. Eu sou alguém. Eu sou Deus. Você não é ninguém. Você é um maldito nada, você não.
F: Diga a mesma frase para a audiência: “Eu sou Deus”...
J: Mas eles existem.
F: Diga a mesma sentença para a audiência.
J: Eu sou Deus. Vocês não existem.
F: Não foi isto o que você disse.
J: Eu esqueci o que disse.
F: Então, por favor, desça da plataforma.
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Esta é a coisa mais hostil que eu já ouvi. Por que não me deixa trabalhar com isto?
Porque você está sabotando a cada passo.
Eu só... você mal me deu uma chance. Eu disse coisas.
F: É.
J: E você já quer puxar a descarga. Por quê? Eu não acho justo.
F: É isso mesmo. Eu não sou justo. Eu estou trabalhando. Note quanta coisa acontece com, qualquer pessoa que traga mesmo que seja apenas um pouquinho de boa vontade. Mas com os sabotadores e envenenadores, etc., eu não vou mostrar paciência nenhuma. Se você quer me controlar, me fazer de bobo — sabotar e destruir o que nós estamos fazendo aqui — eu não vou tomar parte. Se você quer fazer jogos, vá a um psicanalista e fique lá deitado durante anos, décadas, séculos.
J: Eu entendo o que você está fazendo, ou seja, até agora.
F: Hum...
J: E agora, sabe, eu faço algo que... sabe... numa sentença que você não aprova..., e eu vi outros rapazes, e moças, que subiram aqui, e, sabe, eles queriam... sabe, você os deixou trabalhar. Você quer que eu desça daqui imediatamente. Por quê? Isto não me parece justo.
F: Pergunte ao Fritz. Talvez ele lhe responda.
J: Representar o Fritz? Pergunte ao Fritz, foi o que você disse.
F: Ah! Pela primeira vez, você está escutando.
J: Representar o Fritz... Representar você... Hum. Eu não consigo representar você. Eu acho que você é... Eu acho que você é tão onipotente que talvez esteja até insistindo que eu estou bancando Deus, e não você.
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J: Bem, eu posso entender intelectualmente, e eu sei que às vezes eu faço isto, mas... Eu não acho que agora estava fazendo isto...
F: Por favor, toda vez — e isto é para o grupo todo — em vez de dizer “mas” diga “e”. Mas é divisor. E é integrativo.
J: Sinto muito. Eu não entendo o que você diz. Eu quero entender, mas não consigo. Eu perdi... Não... Eu também não estou tão ansioso assim. (Riso curto e seco.) Você pode repetir... o que você quer que eu faça?
F: Não. Se você não quer cooperar, não coopere. Se você sabota a cada passo, como é que eu posso trabalhar com você?
J: Eu quero cooperar. Você me dá uma chance?
F: Eu já lhe dei três chances. Não, já dei seis. Volte para o seu lugar.
J: (Sarcasticamente.) Obrigado. Eu também apreciei a sua cooperação... Eu realmente subi aqui para contar um sonho... mas eu senti que isto seria simplesmente obedecer ao procedimento, em vez de falar da troca de ideias que nós dois tivemos, e os meus sentimentos sobre esta troca.
F: Muito bem, seja o Fritz. O que o Fritz responderia?
J: O que o Fritz perguntaria?
F: Responderia...
J: O que o Fritz responderia... Fritz responderia... (suspira)... eu sou Fritz. Eu estou tentando ser o Fritz... Eu estou lhe dizendo para cooperar. Eu estou lhe dizendo para ser aberto. E estou lhe dizendo para se curvar diante da minha vontade.
F: Diga isto para a audiência.
J: Eu estou lhe dizendo para se curvar diante da minha vontade.
F: Outra vez.
F: Ah! Você está chegando.
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J: Eu estou lhe dizendo para se curvar diante da minha vontade.
F: Muito bem. Troque de lugar. Responda.
J: Eu não quero me curvar diante da sua vontade. Eu acho que você é um pomposo e desgraçado filho da puta.
F: Ah! Obrigado. A primeira cooperação. (Risos.)
J: Você teve cooperação na primeira vez que eu me sentei aqui, seu maldito filho da puta. Só que você não viu.
F: Você pode fazer isto de novo?
J: Seu maldito, certo, eu posso... eu fiquei por causa de mim, não só por causa de você. Você queria me chutar fora, seu velho desgraçado. Eu fiquei porque eu persisti, não porque você tenha feito alguma coisa...
F: Então você ganhou. (Risos.)
J: Isto é uma verdadeira humilhação... eu não gosto da audiência rindo de mim.
F: Diga isto para eles.
J: Eu não gosto que vocês riam de mim. Eu acho que vocês estão rindo de mim. Eu acho que vocês estão aderindo à hostilidade dele.
X: Nós estamos rindo com você.
J: Espero. Eu não acredito, mas eu espero, porque eu não estava rindo (ri), mas vocês estavam rindo de mim.
F: Neste instante você não percebeu que estava rindo?
J: Eu estava rindo?
X: Estava, você também está gostando, não é?
J: Acho que sim. Acho que estou. Bem, eu sei que eu sou competitivo, e sei que a teoria está certa.
F: Você pode continuar mais um pouco com os seus xingamentos? Eu gosto disto.
J: Agora você parece mais humano. Agora que você parece mais humano é mais difícil xingar do que antes, quando você não me deixou ficar aqui.
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F: (Sarcasticamente.) Até onde você consegue cooperar? (Risos.)
J: Você quer que eu o xingue um pouco mais, não é? Muito bem, eu acho que você é um maldito... eu acho que você também é competitivo! Você quer ser Deus, você quer mostrar toda a sua criação para este grupo aqui. Eu não estou convencido de que isto seja melhor do que análise, ou psicoterapia individual, particular e confidencial. Sabe, talvez você não passe de um cretino desgraçado e pomposo, satisfazendo a sua própria onipotência estando aqui...
F: Então, e agora, você pode desempenhar este papel? Represente um cretino pomposo, onipotente. Represente o Fritz com quem você acabou de falar.
J: Deus! Isto é que eu não quero ser! É isto que eu tenho medo de ser. Se eu realmente... sou eu. Um cretino pomposo como você é... Muito bem. Eu vou fazer. Ah! Como é que eu faço? Ah! Está bem, você... você sobe aqui para me contar os seus problemas, e eu vou ajudar você, e vou ajudar todas as pessoas aí sentadas, porque, vocês sabem, eu realmente sei tudo. Certo. Certo. Eu sou Fritz Perls, eu sei tudo. Eu não escrevi uma coleção de livros, mas escrevi algumas coisas, e eu tenho setenta e cinco anos. Vocês sabem, já que eu tenho setenta e cinco anos, eu nasci no século passado, e não neste século, eu realmente devo saber tudo. Vocês sabem, eu realmente sei tudo porque eu, afinal sou o Doutor Fritz Perls que todos vocês deveriam ouvir.
F: Agora, você pode desempenhar o mesmo papel, sendo você mesmo? O mesmo espírito.
J: Deus! Isto é que eu não quero ser. Muito bem. Vocês vieram aqui para me ouvir, eu — John. Eu sou grande, eu sou alguma coisa, vocês todos deveriam me ouvir porque eu tenho algo a dizer. Eu sou importante. Eu sou muito importante. Na verdade, eu sou mais importante do que todos vocês — vocês não são nada. Eu sou importante. Eu sou extremamente importante.
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Vocês deveriam aprender comigo. Eu não preciso escutar vocês. Iiiih, eu não quero dizer isto.
F: Agora você se sente um pouco mais em casa?
J: Um pouco. Sim, um pouco mais.
F: Muito bem, agora vamos para o sonho.
J: Eu... sonhei... fico no presente? Eu sonhei? Eu estou sonhando que estou chegando a Esalen, e entrando aqui eu sonhei com várias pessoas — três homens, três homens jovens, mais ou menos da minha idade, com pouco mais de trinta..., montados a cavalo. Eu me lembro de alguns nomes que eu ouvi antes de vir para cá. Um dos nomes era John Heider, e algum outro, e então havia o Schutz ou você que, sabe, vocês não estavam a cavalo, vocês estavam em algum lugar lá atrás. Era com estes três caras que eu sentia que estava competindo.
F: É. Você teve consciência de que todo mundo, para quem eu pedi para trabalhar com um sonho e contar no presente, fez isto, mas você é o único que sabotou e sabotou — voltando ao passando, fazendo estória...
J: Agora eu tenho, agora que você mencionou — sim.
F: É, mas você não ouve a si mesmo.
J: Eu ouço, eu não sabia como fazer de repente, eu estava tão ansioso para agradar você que pensei que primeiro devia contar no passado e depois no presente. (Risos.) Obviamente isto não o agradou.
F: Eu assumi que qualquer pateta poderia imediatamente entender, mas se você não está acima deste nível, se você precisa de...
J: Eu não sou pateta, mas você é terrivelmente hostil. (Risos.) Eu acho você um grande sujeito, e acho que você tem o que oferecer, mas por que diabos você é tão hostil?
F: (Rindo.) Porque você é um cretino pomposo! (Risos.)
J: Você não percebe que eu também sei ser esperto. “Qual é”? (Risos.) (John retorna ao sonho.) Muito bem,
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Eu sou... Eu sou... hum... não sou nada, ou alguma coisa muito pequena, muito inconsequente. Eu nem mesmo sinto a minha própria existência, eu nem mesmo sinto o meu próprio corpo. Eu nem mesmo sinto o meu próprio eu. Eu não estou a cavalo. Eu sou pequeno. Eu sou menor do que, na verdade, em aparência física, e há estes três homens a cavalo.
F: Ótimo, agora conseguimos uma polaridade. Agora, represente de novo o John insignificante.
J: O John significante?
F: O John insignificante.
J: Representar o John insignificante.
F: O que aparece no sonho.
J: Representar o John insignificante.
F: E depois assuma o outro papel — o John cretino pomposo. E faça com que o insignificante e o cretino pomposo se encontrem.
J: (Rapidamente.) Eu sou..., eu não sou nada. Eu me sinto um nada. Eu nem mesmo sinto que existo. Seu cretino pomposo. Eu nem mesmo sinto meu próprio eu, eu nem mesmo sinto meu próprio corpo... porque você, seu cretino pomposo, não me deixa... (a fala começa a ficar interrompida)... seu puto desgraçado. Você tenta dirigir tudo, e eu sou esmagado. Eu não sinto o meu corpo, eu não sinto o meu pênis, eu não sinto a minha cabeça, eu não sinto meus dedos, eu não sinto meus braços, porque você quer me esmagar. Você não me deixa existir, você não me deixa sentir que eu sou real (quase chorando), você não me deixa sentir como eu funciono, aqui e agora.
F: Seja ele.
J: (Rapidamente.) Você não merece existir, seu pateta desgraçado. Você não tem nada na cabeça, você não passa de um pedaço de merda, você não é nada. Você não deveria existir. Você não ousa existir. Você tem medo demais para existir. Você não quer botar a cabeça fora da água. Você não quer se colocar, para que
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as pessoas possam vê-lo. Você não é nada! Você não é nem um grão de pó. Você não é nem um grão de sujeira. Você não é nem um monte de merda! Você não é nada! Você não está aqui e (a voz se quebra) você nunca esteve aqui, você nunca vai estar aqui, e eu odeio você! (Chora.) Eu não quero odiar você.
F: Seja ele.
J: (Ofegando e chorando.) Eu não sinto isto. Eu não sinto nada, porque você não me deixa existir. Você tenta pisar em cima de mim, você não é nada. Quem não é nada é você. Oh! Você não me deixa. Você não me deixa existir, você tenta pisar em cima de mim. Você é... seu filho da puta, seu... seu... é você quem tem cabeça de merda.
F: Diga isto mais alto: “O filho da puta é você”.
J: Cabeça de merda é você, filho da puta é você!
F: Mais alto.
J: Filho da puta é você! Cabeça de merda é você! Você que é o maldito... o maldito... Deus, metido a Deus, eu odeio você, porque você não me deixa existir. Você me deixa de fora. Mas sou eu. Eu sei que sou eu.
F: Esta é a sua polaridade. Você é ambos.
J: É. Eu sei disso.
F: E não há nada no meio. Onipotência e impotência. Tudo ou nada — nada no meio. Você não tem centro.
J: Eu sei.
F: Então, seja ele outra vez.
J: Eu... ah! ... você não é nada. Você não tem direito de existir. Você não deveria estar aqui. Você não passa de... de uma poça de mijo, de um pedaço de merda, de um grão de sujeira, você... você não é nem mesmo isto, porque você nem existe. Você não é nada! Você nunca esteve aqui. Você nunca vai estar aqui; você nunca poderia estar aqui. Você não está aqui agora. Você nunca vai estar, porque você não é nada.
F: Assuma de novo o outro papel.
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J: Quando você interrompeu, eu fiz uma espécie de interpretação, eu perdi. Até aquela hora eu estava sentindo.
F: Bem, eu sugiro você aceitar o não ser nada. Veja até aonde você consegue entrar no papel de não ser nada: “Eu sou um pedaço de merda”, ou alguma coisa parecida.
J: Eu sou pedaço de merda. Eu não sou nada. Eu não existo. Eu não sou uma pessoa. Eu não tenho unhas, eu não tenho pés, eu não tenho pênis, eu não tenho bolas, eu não tenho dedo, eu não tenho mãos, eu não tenho coração...
F: É tudo mentira, mentira. Diga isto outra vez, mas acrescente cada vez: “. . .e isto é mentira”.
J: Eu não tenho dedos (chorando), e isto é mentira, porque eu tenho. Eu não tenho pés, e isto é mentira, porque eu tenho. Eu não tenho pernas, e isto é mentira, porque eu tenho, merda, elas estão aí. E eu não tenho pênis, mas eu tenho, porque ele está aí, e as minhas bolas estão aí, e o meu traseiro está aí, está tudo aí. Meu estômago está aí. Minhas mãos. Minha cabeça — eu posso pensar! Eu posso pensar tão bem quanto você.
F: Agora fale com o cretino pomposo... do novo ponto de vista.
J: Do novo ponto de vista?
F: Bem, você acabou de descobrir que um nada você não é; que você é alguma coisa.
J: Bem, então você não é um cretino pomposo. Eu não quero que você seja um cretino pomposo... Eu tenho medo de que você inda seja. Eu tenho medo de que na verdade seja eu... você é um cretino pomposo e eu sou um cretino pomposo.
F: Agora assuma novamente a posição do cretino pomposo. Cretino pomposo, como você existe?
J: Como eu existo? Eu existo só por causa do meu nada...
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F: Espere um pouco. Acrescente toda vez, também, “e isto é mentira”. Dê o recado e diga “e isto é mentira”, “Eu sou Deus, e isto é mentira”, “Eu sou um cretino pomposo, e isto é mentira”.
J: Sei. Eu sou Deus, e isto é mentira. Eu sei tudo, e todo mundo deve me escutar. Eu tenho a verdade para dar, eu tenho a verdade para dar a vocês, e vocês deveriam me escutar, e isto é mentira. (Chorando.) Porque então eu não... eu ainda vou estar só. (Choro convulsivo.) Eu não quero estar só. Eu não sei mais o que dizer. Eu sou... eu sei tudo, e vocês não sabem nada, mas isto é mentira, porque muitos de vocês são pessoas “quentes”, me disseram coisas boas, e vocês também são alguma coisa. Eu não sou tudo... Eu não sei mais o que dizer.
F: Muito bem, vamos representar tudo de novo, o dominado e o dominador. Vamos ter um novo encontro. Talvez eles possam descobrir algo.
J: (Baixinho.) O dominado e o dominador — eu sempre me sinto como o dominado, eu sou o dominado. Eu sempre fico quieto, eu não digo nada. Eu não me manifesto. Eu só fico quieto, escutando masturbação mental. Todo mundo fala muita besteira, muita masturbação mental. Parece que eu poderia ser real, mas eu não sou real, eu não digo nada, eu não existo, eu não sou nada, e eu quero existir. E parece que você, seu filho da puta desgraçado, parece que você é quem fica fazendo masturbação mental, e eu sou algo... eu sou alguma coisa real, se desse para eu dizer. Mas você não deixa. Você está sempre falando, você... você está falando, sempre dizendo alguma coisa, você sempre... você nunca diz nada. Eu só fico atrás e escuto mexo a cabeça, e eu sou compassivo e gentil e ajuda você, e digo as coisas certas, e faço as interpretações certas. Eu sou um bom assistente social, sou um bom terapeuta, eu faço as coisas certas. Eu ajudo as pessoas e elas me pagam, e eu saio, mas eu não me sinto real de verdade. Eu não me sinto real com muita frequência,


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