Perls, Frederick S. Gestalt-terapia explicada



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F: Em que situação? Em que ocasião?
B: Em que eu não estou chorando? /F: É.! Foi num funeral. (Voz tremida.) Eu estou num funeral. /F: De quem? / De um velho que morreu, eu gostava muito dele.
F: Volte ao túmulo dele e diga adeus.
B: (Voz muito mole.) Adeus.
F: Qual é o nome dele?
B: Curt.
F: Diga: “Adeus, Curt”.
B: Adeus, Curt. Eu senti mesmo a sua falta. (Quase chorando.) Eu gostaria de ter expressado mais o quanto eu gostava de você, quando havia tempo de expressar.
F: Faça-o responder — dê a ele uma voz.
B: Eu sabia que você gostava de mim. Quando eu estava sozinho, teria sido bom ter visto mais você. Eu gostava das horas que passávamos juntos. Era duro
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viver sozinho. Longe de tudo... Você não precisa se lamentar. Não há nada de errado nisso.
F: Diga um pouco mais o que você apreciava nele.
B: Ele era muito gentil.
F: Diga isto para ele.
B: Você era tão gentil. A pessoa mais gentil que eu já conheci. Não era hostil com ninguém. Incrível.
F: Não havia vulcão?
B: Não. Nenhum vulcão.
F: Você consegue vê-lo? Você consegue ver o seu amigo? Vá, toque nele e diga adeus a ele.
B: Adeus. (Começa a chorar.) Adeus... (Chora.) Adeus. É difícil dizer adeus. É difícil dizer adeus... (Soluço)...
F: Volte para nós. Como você está nos vendo agora?
B: Eu não...
F: Bem, eu não sinto que o seu adeus esteja acabado. Você ainda precisa se lamentar um pouco mais. Tire as suas raízes e torne-se livre para fazer novos amigos.
Esta é uma das situações inacabadas mais importantes: não ter chorado o suficiente por uma pessoa querida que se perdeu. Freud realizou um trabalho magnífico sobre a tarefa do luto que, na Europa, geralmente leva um ano até se conseguir tirar as raízes da pessoa morta e se dedicar aos vivos.
ELLIE
Ellie: Meu nome é Ellie... Bem, eu sinto uma agitação no peito, neste instante, e eu gostaria de me soltar.
F: Isto é um programa.
E: O quê?
F: Isto é um programa — quando você diz: “Eu gostaria de me soltar”.
E: Eu estou tentando, agora.
F: “Eu estou tentando.” Isto também é um programa. Você mistura o que você quer ser com o que é.
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E: Agora eu... estou mexendo meus braços, para me sentir à vontade. E eu gostaria de falar sobre o meu...
F: Deixe-me dizer uma coisa, Ellie. A base deste trabalho é o agora. Você está o tempo todo no futuro. “Eu quero trabalhar nisso”, “Eu quero tentar isso”, e assim por diante. Se você quiser trabalhar, comece cada sentença com a palavra agora.
E: Agora eu estou lhe dizendo, Dr. Peris, que estou desconfortável. Agora, eu sinto meu peito subir e descer. Eu sinto uma respiração profunda. Agora eu me sinto um pouco melhor.
F: Você vê, em vez de tentar fugir para o futuro, você entrou em contato consigo mesma no agora. Então é claro que você se sente melhor..., O que as suas mãos estão fazendo?
E: Reassegurando-me. Elas estão em contato..., eu as sinto tocando em mim mesma. Eu sinto que elas estão me mantendo unida.
F: Converse com elas; “Mãos, vocês estão me reassegurando”.
E: Mãos, vocês estão me reassegurando, Mãos, vocês são algo que eu conheço. É bom mexer os dedos.
F: Bem, minha atenção está mais na audiência. (Para a audiência.) Eu sinto uma inquietação, O que está acontecendo?
X: Nós não conseguimos ouvir muito bem.
F: Então vocês preferem ficar aí, com o desconforto de não ouvir bem — fazendo força — em vez de se manifestarem. Covardes.
X: Você pode se virar para nós podermos ouvir?
Y: Você pode falar mais alto?
E: Eu... vocês me ouvem agora? /X: Sim. / Está bem. (Limpa a garganta.) Aham.
F: (Gozando, como um cantor pegando o tom.) Mi, mi, mi, mi, mi....
E: Eu prefiro que vocês me digam quando não estiverem Ouvindo ao invés de ficarem irrequietos. Mas eu não
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quero ter que ficar pensando conscientemente em vocês eu gostaria de pedir...
F: O que você está fazendo com a mão esquerda?
E: A mão esquerda? ... Está dirigindo.
F: Você tem consciência de estar fazendo isto?
E: Eu não tinha consciência. Agora eu tenho. Eu quero ter....
F: Outro programa.
E: Um programa.
F: (Bruscamente.) Obrigado... Eu não posso trabalhar com você. Eu lhe peço para ficar no agora.
E: Agora eu me sinto inadequada..., eu sinto agora que eu quero alguma coisa. Agora eu sinto medo de não conseguir. Eu sinto...
F: Você vê, você está de novo no futuro: “Eu quero alguma coisa, eu não vou conseguir”. Qual é a sua objeção a estar aqui, estar viva, estar no agora? O que faz você sempre pular para o futuro?
E: Existe tanta coisa que eu quero, e eu tenho medo... de não conseguir.
F: Em outras palavras, você é gananciosa.
E: Sou.
F: Diga isto para a audiência: “Eu quero, eu quero, eu quero”.
E: Eu quero, eu quero, eu sou gananciosa, egoísta. Eu sou insaciável. Eu quero o que eu quero, agora mesmo. Não é bom não conseguir... Agora eu me sinto inadequada.
F: Eu não entendo esta palavra.
E: Agora eu me sinto boba.
F: Talvez você seja boba... ou você banca a boba? Corno você se sente como boba?
E: Eu não sei o que fazer. Eu quero fazer algo, mas eu não sei como começar a fazer.
F: Então faça o papel da incapaz.
E: Por favor, me ajude, Dr. Feris. / F: (Como se não conseguisse ouvir.) Ahn? /
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Por favor, me ajude, Dr. Perls. /F: Ahn? / Por favor, me ajude, Dr. Peris!
F: Eu não trouxe meu talão de cheques. (Risos.)
E: Não é isso que eu quero do senhor.
F: Oh! Você nem disse o que queria — que tipo de ajuda queria.
E: Eu quero que o senhor me ajude a me sentir à vontade como mulher. Eu quero ter mais prazer no sexo com meu marido.
F: Ah! Quando você tem relações sexuais, alguma vez você está no agora? /E: Não. / Onde você está durante o sexo? Você tem um programa — chegar ao orgasmo ou algo assim?
E: Tenho, é isso mesmo.
F: Você quer chegar ao orgasmo. Então, mais uma vez você tem um programa.
E: Certo. E este é o meu problema.
F: Seu problema é que você planeja, faz programas. Em vez de foder, você faz programas. Se você ficar no agora, você poderá ter prazer. Muito bem.
Todos nós nos preocupamos com a ideia de mudar, e a maioria das pessoas tenta conseguir isto fazendo programas. Elas querem mudar: “Eu deveria ser assim”, etc., etc. O que sucede é que a ideia da mudança deliberada nunca, nunca, nunca funciona. Logo que você diz: “Eu quero mudar” — e faz um programa — cria-se uma força contrária que o impede de mudar. As mudanças ocorrem por si mesmas. Se você entrar mais fundo naquilo que você é, se você aceitar o que existe ali, então uma mudança ocorre por si só. Este é o paradoxo da mudança. Talvez eu consiga reforçar isto um pouco com um velho provérbio que diz: “O caminho do inferno está cheio de boas intenções”. Tão logo você tome uma decisão, tão logo você queira mudar, você abre o caminho do inferno, porque você não consegue o que quer, você se tortura, e então começa a fazer o famoso jogo da autotortura, que é tão Popular entre as pessoas de nossa época.
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Enquanto você combater um sintoma, ele se tornará pior. Se você assumir responsabilidade pelo que está fazendo consigo mesmo, como você produz os seus sintomas, como você produz a sua doença, como você produz a sua existência — no instante exato em que você entrar em contato consigo mesmo — começa o crescimento, começa a integração.
DAN
Dan: Eu tenho algo psicossomático no nariz, e eu...
Fritz: Fale com o seu nariz psicossomático.
D: Eu... bem, tá legal... Eu sempre pensei que aqui havia algo do passado que eu não conseguia entender, e trabalhei com isso, e em parte eu consigo controlar...
F: O que a mão direita está fazendo?
D: Perdão?
F: O que foi que eu disse?
D: O que eu devo...
F: Ah! Nós tivemos antes um breve encontro no qual Dan demonstrou a sua falta de vontade em escutar.
D: Eu não ouvi as últimas palavras. Posso continuar? ... Eu tentei controlar e, até certo ponto, eu consigo, ah! temporariamente, e então, na última...
F: Você ouviu o que eu acabei de dizer sobre controle?
D: Eu ouvi o que você disse sobre o meu não escutar?
F: Você ouviu o que eu disse sobre controle? E está querendo mudar?
D: Não senhor.
F: Dá para você voltar uns cinco minutos?
D: Antes de tudo, lá fora eu lhe fiz uma perguntai e você, ah! ...
F: Você ouviu o que eu disse há cinco minutos? ... Note que tudo que eu digo você distorce, vós não escutai em outras palavras, você não está nem um pouco aberto.
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D: Vou tentar me abrir.
F: “Vou tentar me abrir”. Outra promessa. Eu não sei como me comunicar com você.

D: Eu tive uma sensação de que você achava que eu era uma personalidade tóxica, mas se a gente não tenta, o que se pode fazer? ...


F: Que tal se você escutasse, se tivesse ouvidos? Dá para você construir uma fantasia? Qual é o perigo de escutar? ...
D: Bem, se eu não escuto, mas se alguém não tem consciência do escutar, não deve haver perigo em escutar... não deve haver nenhuma ameaça. E eu não vejo ameaça...
F: Qual é o perigo de escutar? ...
D: O único perigo de escutar seria ouvir alguma coisa que não se quer ouvir.
F: Ah! Você pode repetir esta sentença: “Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir”? Você pode repetir esta sentença?
D: Ah! Você disse: “Eu consigo ouvir só o que eu quero ouvir”.
F: Eu disse isto?
X: Não...
F: É isto que você faz na vida, sempre distorcendo completamente as mensagens que vêm de fora?
D: Não deve ser o tempo todo, mas provavelmente algumas vezes.
F: Agora, escute cuidadosamente: “Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir”.
D: Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir.
F: Agora diga isto à audiência.
D: Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir. /F: Outra vez/
Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir.
F: Fale mais alto. Fale com algumas pessoas específicas.
D: Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir. Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir.
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F: Diga isto à sua esposa.
D: Eu ouço só aquilo que eu gosto de ouvir.
F: Então, seja ela. O que ela responderia? ...
D: Às vezes ela diria: “Sim, senhor”, e outras vezes diria: “Você tem razão!”
F: Muito bem. Agora represente uma esposa que diz apenas coisas que você gosta de ouvir...
D: Bem...
F: O que você gosta de ouvir?
D: Eu gosto de ouvir coisas agradáveis.
F: Tais como?
D: Bem..., eu fiz o que você me pediu para fazer, ou eu tentei fazer isso ou aquilo com os meninos, e eu acho que provavelmente você vai gostar, ou...
F: Então você espera que as pessoas o escutem. Tenho razão?
D: Bem, eu espero escutar os outros, e que os outros me escutem também. Porém, pelo que você diz, eu não estou muito seguro de que escuto.
F: É um truque formidável. Se você espera que as pessoas o escutem, mas você não escuta o que as pessoas têm a lhe dizer, então você está sempre no controle.

D: Pode ser que esteja sempre no controle, mas não ficaria muito satisfeito.


F: Exatamente. E você tem os seus sintomas. Muito bem.
DICK
Dick: (Depressa.) Eu tenho um pesadelo repetido. Eu estou dormindo, e ouço alguém gritando, e eu acordo e os guardas estão batendo num garoto. E eu quero me levantar e ajudar o garoto, mas há gente parada na cabeceira e no pé da minha cama, e eles ficam jogando travesseiros de lá para cá, cada vez mais depressa, e eu não consigo mover a cabeça. Eu não consigo
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me levantar. E eu acordo gritando e todo molhado de suor.
F: Você pode encenar isto? Conte o sonho mais uma vez, mas use o corpo junto com a voz.
D: Eu estou dormindo. De repente eu ouço alguém gritando.
F: Espere um pouco. Diga de novo: “Eu estou dormindo”.
D: Eu estou dormindo.
F: Você acredita?
D: Não.
F: Então encene.
D: Eu estou acordado. De repente eu ouço alguém gritando. Eu acordo e vejo alguns guardas batendo num garoto, e eu quero me levantar e ajudar o garoto, e há alguém parado na cabeceira e no pé da minha cama, e eles estão jogando um travesseiro de lá para cá, (falando rápido) mais depressa, mais depressa, mais depressa, e eu não consigo me mover..., eu quero levantar a cabeça, e eles jogam cada vez mais depressa, e eu acordo gritando.
F: Você pode fazer de novo isto com a cabeça?
D: (Rapidamente.) Eles estão, estão jogando o travesseiro de lá para cá, e é tão rápido que eu não consigo mover a cabeça. E cada vez mais depressa, cada vez mais depressa, e eu não consigo mover a minha cabeça, e....
F: Você pode ser o policial e bater no garoto desse jeito — cada vez mais depressa?
D: (Rápido e muito expressivo.) Muito bem, garoto, agora nós o pegamos e você vai em cana. Chega de merda. Você vai direto para um maldito reformatório. Você pensa que vai conseguir se safar com as coisas roubadas, mas não vai conseguir coisa nenhuma. Você vai ter que cumprir, e ser um bom cidadão, e não ficar aí à-toa...
F: Como você se sente neste papel?
D: Não gosto.
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F: Você não gosta?
D: Não.
F: Muito bem, fale com o cara — com o policial.
D: (Implorando.) O garoto não estava tentando roubar porque queria alguma coisa. Ele simplesmente não tinha para onde ir e nem tinha o que fazer. Ele foi pego numa armadilha, e só roubou umas poucas coisas. Vocês não deviam bater nele. Se vocês acham que ele precisa cumprir alguma pena, se precisa pagar alguma coisa, está bem. Mas vocês não precisam dar pancadas nele; vocês não precisam puni-lo assim. Vocês podem ser gentis com ele; poderiam dar algum conforto, mostrar alguma simpatia. Vocês podem muito bem entender o inferno que ele está passando.
F: Seja de novo o policial. Responda.
D: É, mas ele está roubando gente, e é preciso ter respeito. Ele precisa entender como esta gente se sente. Eles trabalham pelo seu dinheiro. Se ele quer alguma coisa ele deve sair, tentar se educar e conseguir um emprego, ser produtivo e ganhar o dinheiro do jeito certo. Se ele fica por aí lesando os outros, ele também tem que se lesar.
F: Ponha o garoto no meio. Você é o policial, e o garoto está na cena.
D: (Representando o garoto.) Eu só queria..., pertencer. Eu só queria fazer parte do bando. Eu não queria lesar ninguém. Eu não queria tirar o dinheiro de ninguém. Eu não queria roubar. Eu só queria fazer parte das pessoas. Eu queria pertencer à multidão. Eu só queria ser aceito pelas pessoas. Só isso. Eu não queria fazer mal nenhum. Eu posso devolver o dinheiro, eu não preciso de dinheiro. Eu não o uso para nada... só para ficar rodando por aí... joguem fora, façam o que quiserem. Eu não estou com ele há muito tempo. Eu não quero lesar ninguém.
F: Então o que o policial responde?
D: Eu não me importo com o que você quer fazer, só com o que você fez. O sujeito não estava lhe fazendo
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nenhum mal, você tinha que roubá-lo só porque queria fazer parte do bando. Bem, existem outros bandos e outra gente. Nem todo mundo faz isso. Se você quer pertencer... bem, pertença às pessoas certas, se não quiser se lesar.
Mas é aqui que eu vivo. Por aqui a vida é assim. Nós não temos outros grupos. Nós não temos clubes. Todo mundo rouba, e se não rouba, não faz parte. Se a gente quer pertencer, se a gente quer fazer parte, é preciso acompanhar. Só isso. E não se trata de sentir alguma coisa contra a pessoa que a gente rouba.
Eu não me importo com o que você sente, o que conta é o que você faz. Se você faz algo errado, você precisa ser punido.
F: Agora diga isto ao grupo.
D: Se você faz algo errado, você é punido.
F: Continue falando conosco deste jeito.
D: Se você quer ser respeitado e tratado gentilmente, você precisa se sujeitar às leis e precisa acompanhar as pessoas. Se você quer ser um homem livre e viver entre as pessoas com um pouco de respeito, então você precisa demonstrar o mesmo respeito que você espera delas. Senão, você acaba recebendo a punição que merece.
F: Agora represente o grupo...
D: Nós sabemos que a vida não é fácil nas favelas; é difícil sair, é difícil descobrir o que há de certo naquilo que se faz. É difícil ir contra o código que todo mundo pensa que é o certo. É difícil ser alguém nesse meio, a menos que se façam as mesmas coisas.
F: Ah! Aqui entra um tema novo. Ser alguém — você quer ser alguém. Diga isto ao guarda.
D: Eu quero ser alguém. Eu quero ser alguém que os outros respeitem. Eu quero ser tão forte quanto os outros. Vocês podem fazer o que quiserem: vocês não vão conseguir nada de mim. Vocês não vão me fazer falar. Eu quero ser um grande homem por aqui.
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F: Troque de lugar outra vez.
D: S ser um grande homem significa sair e roubar, tirar coisas das pessoas e violar a lei, então o grande homem é punido.
D: Eu empatizo com ele.
F: Agora você se sente mais à vontade como policial. /D: É./ Muito bem, continue.

D: Nós não nos importamos se você é grande ou pequeno, magro ou gordo, branco ou preto. Você pode ser o que quiser, mas se você desacatar a lei, o nosso dever é fazer você parar. E nós fazemos isto da melhor maneira que sabemos. Às vezes é preciso um pouco de força, só isso...


F: Agora feche os olhos, tome consciência de si mesmo, O que você está experienciando?
D: Fraqueza nos joelhos e na barriga da perna, latejando — meu olho esquerdo, meio impotente para conseguir fazer o que eu quero.
F: Agora diga isto ao menino.
D: Eu me sinto fraco nas pernas, eu sinto minha cabeça latejando. Eu não me sinto capaz de fazer o que eu quero, eu não me sinto livre..., eu sinto que você me segura, que você não me deixa ir aonde eu quero, ser o que eu quero.
F: Agora assuma de novo o papel do menino. Responda ao guarda.
D: Eu vou “dar o fora” daqui. Eu vou fazer o que eu quero, mas eu preciso de ajuda. Eu não consigo fazer isto sozinho. Eu só quero alguém para entender. É duro.
F: Vejam, no instante em que ele entrou em contato que ele se ligou a si mesmo, notem quanto da agressividade se revelou uma fraude. E o menino, também, é muito menos vingativo, muito menos agressivo. Eles estão se aproximando um pouco. Muito bem, seja de novo o guarda.
F: Como você se sente agora no papel de policial?
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D: Escute, garoto, se você quiser mesmo “dar o fora” deste lugar, existe muita coisa que nós podemos fazer para ajudar você: mil aconselhadores, mil assistentes sociais que estão dispostos. Nós temos as organizações do Grande Irmão; a justiça tem muitos meios de lhe ajudar. Você passa um tempinho na cadeia; eles lhe dizem como fazer para sair de lá.
F: Agora bata nele. Dê uns bofetões.
D: (Gritando, zangado e expressivo.) Você não sabe o que está dizendo, pelo amor de Deus! O que é que eles fazem na cadeia? Eles não dão ajuda nenhuma. Assistentes sociais, porra nenhuma! Tudo o que eles fazem é ficar se gabando, fazendo proselitismo e dizendo que merda você tem que fazer, mas não ajudam nem um pouco!
F: Ah! Agora a raiva está do lado do menino. Você era o menino, você não era o policial.
D: (Baixinho.) É.
F: Ah! O que é que o policial diria agora, depois dessa raiva do menino? Agora os papéis mudaram.
D: (Ríspido.) Escute, garoto, a não ser que você se endireite, a não ser que você entenda que merda está fazendo, ninguém vai ajudar você. Eles tentam ajudar, e se cada vez que eles tentarem você for pensar que eles estão querendo acabar com você, você não vai conseguir ajuda nenhuma. Se você quiser sair desta porcaria é melhor se endireitar, e entender quem é que são os seus amigos. Esses imbecis que se dizem seus amigos — “papo furado”. Eles são capazes de meter a faca nas suas costas sem mais nem menos.
F: Muito bem. Troque e papel.
D: É, mas eles me aceitam. Eles me conhecem e não me pedem nada que eu não possa dar. (Zangado.) Vocês estão sempre pedindo coisas que não conseguem, ou que eu não dar. E vocês querem as coisas do jeito que vocês definem, e não do jeito que eu acho.
F: O que você está experienciando agora?
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D: Violência.
F: A violência não está mais projetada. Você a sente como sua.
D: Sinto...
F: Feche os olhos outra vez. Entre em contato com a sua violência. Como você experiência a violência? ...
D: (Ofegante.) Eu quero des... destruir coisas. Eu quero... eu quero romper o passado. Eu quero me livrar de todas estas coisas que me impedem. Eu quero ser livre. Eu simplesmente quero jogá-las fora.
F: Converse com o passado: “Passado, eu quero me livrar de você”.
D: Passado, você não pode me reter. Muitos garotos passaram pela mesma coisa. Existem todos os tipos de favelas no mundo. Muita gente passou pelo reformatório, pela cadeia. Isto não quer dizer que eles não possam conseguir alguma coisa. Eu estou tirando o meu título de doutor. Eu estou cheio de você. Eu vou deixar você de fora. Eu não quero mais você por perto. Não me aborreça mais. Eu não preciso mais voltar e ver como a vida é aí. Eu não preciso mais sentir o excitamento. Eu posso viver onde eu vivo agora. Eu estou entrando no mundo acadêmico — o verdadeiro mundo!
F: O que o passado responde?
D: É, mas você sabe que nós somos seus amigos, e nós entendemos o que você quer. Nossa vida é mais rica. Ela tem mais excitamento, mais significado, existe mais para se fazer, mais para se ver. Não é uma vida estéril. Você sabe o que você fez. Você não pode sair assim, você não pode ir embora sem nem menos.
F: Em outras palavras, o passado sente o título doutor como algo estéril? Você está...
D: Título... ahh... título de doutor, que merda essa?
F: Diga isto para ele.
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D: Olhe. Você consegue um título de doutor, e daí? Ele coloca você numa posição em que você é capaz de fazer um pouco mais para ajudar a analisar certos problemas; e quando as pessoas recebem o título, na verdade, não vão fazer muita coisa com ele. Na verdade, não vai fazer tanta diferença.
F: Você vê, agora nós entramos no problema existencial. Agora, você chegou ao seu hangup,* o seu impasse.
D: É isso mesmo.
F: Você quer fazer algo mais excitante.
D: Eu não quero só fazer algo mais excitante; eu quero fazer algo mais significativo — algo real. Eu quero tocar, eu quero sentir o que eu faço. Eu quero ver o que faço crescendo e se desenvolvendo. Eu quero me sentir útil. Mesmo de um modo amoroso, quente, eu quero me sentir útil. Eu não quero modificar o mundo... Esta sensação de impotência. Todo aquele trabalho.
F: Esta é uma observação muito interessante, porque toda matança baseia-se na impotência... Então, seja o doutor...
D: Existem três bilhões de pessoas no mundo, e talvez dez mil tomam decisões. E o meu trabalho vai ajudar aqueles que tomam decisões, para que estas decisões sejam mais sábias. Eu não vou abalar o mundo, mas eu vou fazer bem mais do que os outros dois bilhões novecentos e tantos milhões fazem. Vai ser uma Contribuição de valor.
F: Você vê como está ficando cada vez mais racional os opostos se juntando? Como você está se sentindo agora?
D: Eu sinto que quero ser racional.
Nota de rodapé
* Hang-up. O verbo to hang significa pendurar. Hang-up refere-se a algo “pendurado” em psicologia o termo é empregado para designar problemas “pendurados”; ou seja, problemas que geralmente afligem a pessoa durante um período de tempo muito grande, sem que seja encontrada solução. — (N. do T.)
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F: Isso, isso. Eu acho que você fez um trabalho muito bom aqui.
P: Neste caso, nós vimos um monte de violência e agressão que acabou se revelando como o resultado de uma sensação de impotência. Qual é o papel da agressão na personalidade sadia, integrada?
F: Eu acredito que a agressão é uma energia biológica que normalmente é usada para desestruturar o alimento ou qualquer outra coisa que tenhamos que desestruturar para poder assimilar. Temos que distinguir entre agressão, violência, sadismo, e assim por diante. Na psiquiatria moderna eles são todos colocados no mesmo saco. Todos são fenômenos bem diferentes. Se você não tem nenhum outro jeito de enfrentar, então você começa a matar. A agressão é usada para qualquer tipo de trabalho; mas se percebe que muitas vezes ela não é motivada pelo fato de enfrentar, e sim pelo ódio contra um dos pais — não o real — mas o fantasioso. No meu trabalho, faço frequentemente a seguinte pergunta: Para que você precisa de uma mãe? Você não precisa carregá-la com você. Jogue-a na lata de lixo. Não perca seu tempo odiando-a. E é disso que eu estou falando, quando digo esvaziar a zona intermediária da fantasia. Se você a perdoou, você assimilou tudo que projetou nela, então pode abandoná-la. Se hoje você come um bife, o que é que você faz com ele? Você o transforma em parte de si mesmo; e isto também ocorre com qualquer situação inacabada qualquer Gestalt incompleta, uma vez que você a digira e a use para a sua nutrição, O papel da agressão na personalidade bem integrada é como um meio de enfrentar uma situação certas situações requerem agressão. Outras situações requerem, digamos, comportamento racional; outras situações requerem contato-retraimento. Vocês já notaram o quanto eu trabalhei com a situação contato-retraimento, confronto-retraimento. Se você não consegue enfrentar uma situa como ela é, você se retrai para uma posição na qual


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