Perls, Frederick S. Gestalt-terapia explicada



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Aqueles entre vocês que forem terapeutas, se aparecer um paciente tóxico, descubram como ele quer envenenar vocês. Quanta energia você gasta? Você se esforça para ouvir seus pacientes? Você se sente responsável por todas as besteiras que ele diz durante os primeiros quarenta minutos, como ele desperdiça este tempo com bobagens para trazer alguma coisa interessante nos últimos cinco minutos, alguma coisa que prenda você e faça ficar difícil você dispensá-lo? Ou você sente que ele faz você dormir, e como bom terapeuta você adormece até que ele o acorde?
É claro que frequentemente há uma mistura, mas às vezes aparece uma pessoa cem por cento venenoso. Se Você é venenoso, isto significa que você tem um demônio, um dibuk (espírito) dentro de você, alguém que
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envenena você, e você absorveu tudo. A ideia freudiana de que introjetamos a pessoa que amamos está errada. Você sempre introjeta gente que está no controle.

Neste instante eu estou com alguma coisa que tem a ver com veneno e nutrição. Vocês podem ter certeza, se vocês estiverem com uma pessoa ou num grupo, e depois se sentirem totalmente exaustos e ressecados, é que foram ditas muitas sentenças tóxicas. E muitas vezes o tóxico tem uma cobertura doce, cheia de sacarina. Agora, notem como o pai de Maxine está cheio de tóxico. Ele a envenenou com todas essas ameaças... e então ela se mantém longe dele. Mas ela ainda não está imunizada. Você sabe do que eu estou falando?


M: Eu sei do que você está falando.
F: Eu acho que, para a primeira sessão que você teve na vida, você foi muito corajosa e cooperou bastante, mas nós não avançamos muito. Nem sempre a gente pode fazer terapia em vinte minutos.
P: Você disse que se vai da explosão para o nível autêntico. A explosão em alegria, raiva ou sexo não pode ser autêntica? /F: Pode. / E por que você diferencia isso do nível autêntico?
F: Porque o nível autêntico se mostra primeiro nestas explosões.
P: Então, estão relacionados.
F: Decididamente. Foi isto que eu disse. É o elo, a ligação. A implosão sai, as energias conflitantes saem: numa explosão. Em todo caso, você notou aqui como elas se contêm. Aqui, a voz encobre. É sempre a batalha interna. Quando ela se apertava, implodia, se sentia muito desconfortável. Quando explodiu violentamente 1 me apertando — ela é muito forte — se sentiu muito melhor, muito mais ela mesma.

Eu achei muito interessante o que aprendi neste verão com Stan Grof, o que estão fazendo com terapia de LSD na Checoslováquia, e que confirma totalmente a minha teoria sobre a camada implosiva, o centro morte. Apesar de toda a deterioração, aparentemente


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eles tiveram a coragem de ir até o centro de morte e alcançá-lo, e então a recuperação teve lugar, em vez de todos os sintomas voltarem. Eu julgo isto uma linda confirmação da minha teoria — uma espécie de prova além da minha própria experiência.
Fritz: Você está percebendo que alguma coisa está acontecendo no seu corpo?
ELAINE
Elaine: Estou.
F: O que você está experienciando?
E: Meu estômago está se remexendo, meu coração está batendo, mas eu realmente não sinto..., agora eu estou começando a relaxar... Eu tive um sonho que eu queria lhe contar. Eu estava na...
F: Você ouviu as lágrimas na sua voz quando disse:
“Eu estava na...”? Você ouviu as lágrimas? É para isto que eu quero chamar a atenção de vocês — para a voz. A voz conta tudo — a cada segundo.
E: Bem, eu estava na minha cama e, ah!
F: Por favor, conte o sonho no presente.
E: Está bem. Eu estou deitada, e.... estou dormindo, e um padre, um padre católico..., vem, vestido com uma roupa preta, e chega até a cama e ah! e me pede que vá com ele. E no começo eu tenho medo, porque eu não tenho controle da situação. E ele me pede...
F: Posso interromper um momento? Diga para o grupo: “Eu tenho que estar no controle da situação”.
E: Eu tenho que estar no controle da situação.
F: Diga isto para algumas pessoas.
E: Eu tenho que estar no controle da situação. (Chorando hesitantemente.) Eu tenho que estar no controle da situação. Uh, ah! ... ele chega perto de mim envolto naquela roupa preta, e ele pede que eu vá, e eu não estava no controle..., eu não estou no controle.
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F: Notem esta espécie de pressa. Elaine age como se ela tivesse cegueira emocional. Ela experiência algo — chorar ou coisa parecida —, alguma coisa acontece, mas ela precisa voltar para o sonho como se nada pudesse perturbar a sua façanha. Aparentemente ela é dirigida para uma meta. Muito bem.
E: E ele pede que eu vá com ele, e eu estou apavorada, e eu digo: “Agora eu não posso ir”, e ele é muito inflexível e diz: “Você precisa vir agora”. E eu digo:
“Eu não posso, eu ainda não estou pronta”. E então... eu... pareço sair..., enquanto falo com ele. Eu não estou... eu não sinto que estou no meu corpo. (Começa a chorar.) Meu corpo está na cama e eu estou fora... mas eu não posso ir com ele porque sinto que não posso deixar o meu corpo na cama, e então digo para ele que preciso voltar. Eu preciso voltar para o meu corpo, porque ainda não estou pronta. (Menos tensa.) E eu... volto, e ele sai imediatamente. Quando ele sai, eu estou sentada numa mesa com o meu corpo, e esta mesa é meio... é uma mesa comprida, de madeira, e a minha família está toda sentada — minha mãe, meu pai, eu, meu irmão. E primeiro meu irmão levanta e vai para o outro quarto, para morrer (calmamente) e eu não fico afetada com isto. A morte não significa nada para mim, o fato de ele morrer. E eu quase me sinto culpada, no sonho, por não sentir nada com a morte dele. F então, minha mãe e meu pai voltam do quarto, e meu pai... eu tento segurá-lo. Eu o estou levantando, e (a voz se quebra) ele não tem ossos, ele não tem estrutura, ele é apenas uma ameba e eu não consigo levantar, eu levanto, e ele (começa a chorar) não fica em pé. Não há jeito de eu conseguir deixá-lo em pé — eu tentei. E (baixinho) isto acontece com ele... Ele também chega à sua morte (muito depressa), ele se move na direção da morte e então sobram só a minha mãe e eu, e eu estou sentada na mesa, esperando aminha morte...
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F: Bem, vamos começar tendo um encontro entre você e o padre. Você se senta aí, coloque o padre nesta cadeira, e fale com ele.
E: Eu estou com um medo terrível..., de todas as coisas que você me disse, sobre a minha morte, e eu quero compreender, mas você não me deu nada, e (chorando) nenhum meio de entender.., e eu lhe perguntei... e eu não tenho meio de... descobrir, por você, e mesmo assim você insiste em voltar para a minha vida...
F: Seja ele: “Eu sou seu padre” ...
E: (Friamente.) Eu sou seu padre...
F: O que é que você está fazendo agora? Você está ensaiando?
E: Não... Eu estou..., sentindo uma figura autoritária falar com ela.
F: Diga isto para ela: “Eu sou uma autoridade”.
E: (Debilmente.) Eu sou uma autoridade... Eu sou uma autoridade. Eu sou uma autoridade e você precisa ouvir o que eu lhe digo.
F: Diga isto outra vez.
E: Eu sou uma autoridade, e você precisa ouvir o que eu lhe digo.
F: Mais alto.
E: Eu sou uma autoridade (chora) e você precisa ouvir o que eu lhe digo.
F: O padre está chorando?
E: Não, mas eu percebi uma coisa em mim mesma quando eu disse...
F: Então seja você mesmo de novo...
E: Eu... Você sabe o que acabou de me ocorrer?
F: Diga isto para ele.
E: (Debilmente.) Eu sou o padre... Eu sou o padre. Elaine é o padre.
F: Ah! Agora diga isto para a audiência.
E: (Friamente). Eu sou o padre. Elaine é padre.
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F: Realmente... e este é o ponto decisivo..., cada pedaço do sonho é você mesma. Em lugar nenhum a fragmentação da personalidade humana aparece melhor do que no sonho. Se você faz associações livres com um sonho, ou procura fatos reais, você destrói o que pode conseguir de um sonho ou fantasia, ou seja, a reintegração da sua personalidade rejeitada. Eu quero enfatizar isto mais e mais. A Gestalt-terapia tem uma abordagem integrativa. Nós integramos. Nós não temos orientação analítica. Nós não dividimos mais as coisas em busca de razões e insights. A experiência que Elaine acabou de ter é típica. Com este pouquinho, ela já percebeu que ela é o padre. E cada pedaço do material, se for realmente desempenhado, torna-se de novo parte de você; e em vez de se tornar cada vez mais pobre, você se enriquece mais e mais. Então seja o nosso padre. Seja o meu padre...
E: Eu vou dirigir você.
F: É. Você está no controle, não está?
E: Estou. Agora eu estou. E.... e eu vou ajudar você a guiar o seu ser, não eu. Isto quando eu sou o padre... quando eu sou o padre.
F: Você está com medo da sua força, do seu desejo de ser um padre?
E: Estou.
F: Diga isto também para a audiência.
E: Eu tenho medo da minha força (chora) e quero ser um padre... eu sou.
F: Bem, eu não entendo por que você está chorando aí. Vamos dar mais um passo. Qual é a sua força em chorar?
E: Raramente eu choro na frente de pessoas, ou em situações com gente, raramente.
F: O que você consegue chorando? Qual é a sua força em chorar?
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E: Ah! ... Meu poder ao chorar. Eu sou humilde, eu estou sendo humilde, eu quero ter humildade, eu quero ser humilde.
F: Você se põe no papel de um bebê-chorão.
E: Agora eu estou fazendo isto?
F: Eu tenho uma velha piada que diz que as lágrimas são a segunda arma de uma mulher. (Risos.) Sabe qual é a primeira? — Cozinhar. (Risos.) E então, o que você está experienciando agora? /E: Humildade, /F: Humildade. / E: Sim! F: Você pode exagerar a sua humildade — dançá-la, encená-la? ... (Elaine se levanta e se movimenta devagar, com os ombros caídos.) ... Como Você se sente?
E: Eu sei como eu não me sinto — mais do que como eu me sinto. Geralmente eu fico parada, ereta, alta. E aqui eu me sinto muito pequena e baixa.
F: Então vamos continuar um pouco mais no encontro com o padre. Ponha-o ali de novo. Diga a ele: “Eu não estou pronta para você”.
E: Eu não estou pronta para você..., e eu não sei... como me ocupar com você.
Mas eu insisto que você se ocupe comigo, e tem que ser agora, porque você não pode esperar. Você realmente não tem muito tempo para esperar.
F: Diga isto outra vez.
E: Você não tem muito tempo para esperar. Você já esperou demais.
F: Troque de lugar.
E: Ainda existem muitas coisas das quais eu preciso cuidar. Eu... não vou me ocupar com você, porque..., existem muitas coisas práticas das quais eu preciso cuidar. Eu não tenho... eu não tenho tempo.
F: Isso. Você está captando a mensagem existencial
E: Sim, se eu estou captando? ... Se eu estou captando o que está acontecendo?
F: É. Do sonho... você está captando a mensagem, O que o sonho diz? O que o sonho está dizendo?
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E: Ele está me dizendo que eu estou vivendo em dois pólos... nos pólos extremos... e que eu não estou me juntando, no meio. É como, eu estou vivendo no... eu não estou vivendo no agora, como você diz.
F: Você nota que o sonho inteiro se preocupa com o futuro, e principalmente com o final do futuro — a morte. E o medo da morte significa medo da vida. Isto significa algo? Você capta alguma coisa?
E: Capto. Capto, sim. Eu... minha intensidade para a vida se tornou tão grande, emocionalmente... /F: que eu sou muito intensa com tantas coisas com as quais eu me envolvo, por causa da minha preocupação, eu acho, com a morte, que cada momento... hum, com tantas coisas que eu faço, existe tanto tumulto no meu corpo...
F: Muito bem, ponha o tumulto nesta cadeira. Fale com o seu tumulto...
E: Você não tem..., meu tumu... Você não tem... você não tem meio de... eu não tenho meio de lidar com você.
F: Rum.... Diga isto de novo.
E: Eu não tenho meios de lidar com você... Não... tem jeito... de eu conseguir ter contato. Você está me controlando.
F: É. Agora seja o tumulto que a controla: “Elaine, eu sou seu tumulto. Eu controlo você”.
E: Eu faço você se mexer. /F: Diga isto outra vez!
Eu faço você se mexer. /F: Outra vez. /
Uhuh, se mexer. / F: Outra vez./
Eu faço você se mexer. /F: Diga isto à audiência!
Eu faço você se mexer. /F: Diga isto a algumas pessoas. /
Eu faço você se mexer. Eu faço você se mexer.
Eu faço você se mexer. /
F: E como você faz isto? Como você faz a gente se mexer? ...
E: Fazendo com que elas se envolvam... naquilo que eu digo. /F: Hum. . . / E: Mas eu controlo.
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F: Hum... Agora fale de novo com o grupo, e faça um discurso durante um minuto: “Eu sou louca por controle. Eu tenho que controlar o mundo, eu tenho que me controlar...”.
E: Eu sou louca por controle. Eu tenho que controlar as pessoas. Eu tenho que me controlar. Eu tenho que controlar o mundo. Quando eu controlo o mundo, então posso lidar com ele, mas quando eu estou no controle, eu não tenho meios de lidar com ele. Então eu fico perdida, eu...
F: “Então eu fico perdida”. Quero pegar esta frase. Feche os olhos, e se perca... O que acontece quando você se perde?
E: (Relaxada.) Oh! Eu estou... me mexendo devagar, estou em paz comigo mesma.
F: Diga isto outra vez.
E: Eu estou..., me mexendo devagar, em paz comigo mesma! F: É./ Rodopiando... lento... Ausência de tensão.
F: A sensação é boa? ...
E: Em comparação, é.
F: É.... Então, o que aconteceu quando você se perdeu? Quando você não está no controle? ...
E: É.... Eu posso... eu posso descrever..., é um movimento de mar quando a maré e as ondas estão bem lentas, e.... só... eu sou parte do movimento e do balanço, e nada é violento. E eu me mexo devagar, num círculo. Eu estou girando, meu corpo está girando devagar, junto com o mar — é assim que eu me sinto.
F: Então a expectativa catastrófica de que algo terrível acontece quando você não controla não está tão certa assim, está? ..
E: Não. Eu me torno assim....
F: É. Eu senti que você estava sendo muito mais Você mesma, muito menos despedaçada. A loucura-por-controle realmente a impede de ser você mesma.
E: É. Até mesmo com meu corpo.
F: É.... Muito bem.
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JEAN
Jean: Faz muito tempo eu sonhei o seguinte. Não tenho certeza como começou. Eu acho que começou no... uma espécie de metrô como o de Nova Torque, a gente pagava..., colocava uma moeda, e passava pela borboleta, e andava um pouco pelos corredores, e de repente eu viro uma esquina e percebo que de algum jeito, hum... em vez de eu estar no metrô, parecia uma espécie de rampa que descia para o fundo da terra. E ela parecia girar, e eu percebi o que estava acontecendo, e de algum jeito, mais ou menos no ponto em que eu descobria a rampa, a minha mãe estava comigo, ou talvez já estivesse quando eu comecei..., não me lembro.
Em todo caso, havia essa rampa — era meio lamacenta, meio escorregadia, e eu pensei: Ah, a gente pode descer por aqui; e então, assim meio de lado, eu peguei um pedaço de cartolina que estava lá — ou talvez ele tivesse sido jogado fora, ou eu tinha jogado fora. Em todo caso, eu disse: “Vamos sentar aqui”. E eu sentei na borda, e fiz uma espécie de tobogã, e eu disse: “Mamãe, fique sentada atrás de mim”, e nós começamos a descer. E ele começou a girar e girar (falando depressa) e parecia haver outras pessoas, esperando na linha, e então elas, parece que desapareciam, e nós estávamos (alegre) apenas descendo e descendo, e eu estava percebendo que a gente estava descendo e chegando nas entranhas da terra.
E de vez em quando eu me virava e dizia: “Não é divertido?”; parece que eu fazia isto, mas talvez não. Mas parecia divertido. E mesmo assim eu me perguntava o que haveria lá embaixo — no final desse ir, girar e girar; e finalmente chegamos embaixo e eu fiquei pasmada, e pensei: “Meu Deus, as entranhas da terra!”. E em vez de estar escuro, parecia que havia uma luz de sol vinda de algum lugar, e urna espécie de uma linda..., eu nunca estive na Flórida,
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mas pareciam uns pantanais da Flórida, com lagoas, e bambus, e uns pássaros de pernas compridas, muito lindos — garças — e outras coisas assim. E eu não me lembro de ter dito nada especial, exceto algo como:
“Quem ia esperar uma coisa destas?” — algo assim.
Fritz: Sim. Agora, quando o sonhador conta uma estória dessas ela pode ser tomada apenas como um incidente ou uma situação inacabada, ou a realização de um desejo; mas se for contada no presente, como que espelhando a nossa existência, ela assume’ imediatamente outro aspecto. Não é apenas uma ocorrência ocasional. Vejam, o sonho é uma reflexão condensada da nossa existência, O que nós não conseguimos perceber é que dedicamos nossas vidas a um sonho: um sonho de glória, utilidade, benfeitor, bandido, ou qualquer outra coisa. E em muitas vidas, por meio da frustração, o sonho se transforma em pesadelo. A tarefa de todas as religiões profundas, especialmente o Zen Budismo, e de uma terapia realmente boa, é o satori, o grande despertar, o chegar aos sentidos, o despertar do sonho — especialmente do pesadelo. Nós podemos dar início a isto percebendo que desempenhamos papéis no teatro da vida, entendendo que estamos sempre num transe. Nós resolvemos: “Ele é inimigo”, “Ele é amigo”, e fazemos estes jogos enquanto não chegamos aos nossos sentidos.
Quando chegamos aos nossos sentidos, começamos a ver, sentir, experienciar nossas necessidades e satisfações, em vez de desempenhar papéis e precisar de um monte de suportes — casas, automóveis, dúzias e dúzias de roupas, mas, quando chega a hora, a mulher nunca tem o que vestir, então precisa comprar uma roupa nova. Ou o homem precisa de uma roupa nova quando vai trabalhar, e quando vai ver o seu amor — todo o peso desnecessário com o qual nos sobrecarregamos, sem perceber que tudo que temos só nos é dado temporariamente. Não podemos levar tudo conosco, e se temos dinheiro, então temos mais preocupações. O
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que fazer com o dinheiro? Não se pode perdê-lo, ele precisa aumentar, e assim por diante — todos estes sonhos, todos estes pesadelos, que são tão típicos da nossa civilização. Agora, a ideia do despertar e se tornar real, significa existir com aquilo que temos, o verdadeiro potencial total, uma vida rica, experiências profundas, alegria, raiva — ser real, e não estúpido! Este é o significado da verdadeira terapia, da verdadeira maturação, o verdadeiro despertar, em lugar da contínua auto decepção, com fantasias de metas impossíveis, lamentando-nos por não podermos representar o papel que queremos representar, e assim por diante.
Agora voltemos à Jean. Jean, você pode falar de novo, contar o sonho outra vez, vivê-lo como se fosse sua vida, como se você o estivesse vivendo agora, e ver se você consegue entender um pouco mais sobre a sua vida? ...
J: Eu não... o sonho não me parece claro até eu estar... o lugar virou uma espécie de topo de uma rampa. Eu não me lembro se no começo eu estava ou não com medo, é possível..., ah! Eu deveria dizer no presente?
F: Agora você está na rampa. Você está com medo de descer?
J: (Ri.) Eu acho que estou com um pouco de medo de descer. Mas então parece que...
F: Então a mensagem existencial é: “Você precisa descer”.
J: Eu acho que estou com medo de descobrir o que existe ali.
F: Isto indica falsas ambições, que você está voando do muito alto.
J: É verdade.
F: Então a mensagem existencial diz: “Desça”. E.... mais uma vez a sua mentalidade diz: “Aqui em cima é melhor do que lá embaixo”. Você sempre precisa estar em algum lugar mais alto.
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J: Em todo caso, eu estou com um pouco de medo de descer.
F: Converse com a rampa.
J: Por que você é tão lamacenta? Você é lisa e escorregadia, e eu posso escorregar e cair.
F: Agora seja a rampa: “Eu sou lisa e....”.
J: Eu sou lisa e lamacenta, melhor para escorregar, mais rápida para descer. (Ri.)
F: Ah! Ah! Muito bem, qual é a graça?
J: (Continua rindo.) Só estou dando risada.
F: Você consegue se ver sendo escorregadia?
J: Hum. Acho que sim. Sim. Eu pareço nunca... É, sabe, sempre que eu penso que estou quase conseguindo dizer, sabe: “Ah, agora eu te peguei!”, a coisa escorrega; sabe, racionalização. Eu sou lisa e escorregadia. Hum. Em todo caso, eu vou descer porque parece divertido, e eu quero descobrir aonde a rampa chega e o que há lá no fim dela. E parece que, sabe, eu me viro para ver o que poderia usar para proteger minha roupa, (ri) ou talvez deslizar melhor. Eu descubro este pedaço de cartolina...
F: Você pode representar esta cartolina? Se você fosse este pedaço de cartolina..., qual é a sua função?
J: Eu só..., sou para facilitar as coisas. Eu só estava por aí jogado e abandonado, e.... Ah! ... eu sei como usar a cartolina.
F: Ah! ... você pode ser útil.
J: Eu posso ser útil. Eu não estou só jogada, e abandonada e eu posso facilitar a descida.
F: Para você é importante ser útil?
J: (Baixinho.) É. Eu quero ser para o bem de alguém... Isto é suficiente para um pedaço de cartolina? ... Talvez eu também queira que sentem em cima de mim. (Risos.) /F: Oh! / Como é aquela parte do livro, sobre quem deve chutar quem? Eu quero que tenham pena de mim, eu quero ser triturada. / F: Diga isto outra vez. /
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(Rindo.) E quero que sentem em cima de mim e quero ser triturada.
F: Diga isto para o grupo.
J: Bem, é difícil. (Alto.) E quero que sentem em cima de mim e quero ser triturada... Hum. (Alto.) Eu quero que sentem em cima de mim e quero ser triturada. (Dá um soco na coxa.)
F: Em quem você está batendo? / J: Em mim. / E além de você?
J: Acho que na minha mãe, que está girando, que está atrás de mim e eu me viro e a vejo.
F: Ótimo. Agora bata nela.
J: (Alto.) Mãe, eu estou triturando — (bate na coxa) ai! — você (ri) e eu vou levar você para um passeio (risos) em vez de você me dizer aonde eu devo ir, e me levar aonde você quer, eu vou levar você para um passeio comigo.
F: Você notou alguma coisa no seu comportamento com a sua mãe?
J: Neste instante? (Ri.)
F: Eu tive a impressão que foi demais para ser convincente... foi dito com raiva, não com firmeza.
J: Hum. Eu acho que ainda tenho um pouco de medo dela.
F: É isto. Diga isto para ela

.

J: Mamãe, eu ainda tenho medo de você..., mas de qualquer forma vou levar você para um passeio.


F: Muito bem. Vamos colocar a mamãe no tobogã.
J: Você fica sentada atrás de mim. Desta vez é você quem senta atrás... Você está pronta? Vamos lá.
F: Você está assumindo o comando.
J: Eu estou no comando. Eu estou no controle. (Ri.)
F: Você é quem guia.
J: (Triste.) Eu só guio para, sabe, para baixo. (Suspira.)
F: Você já andou de tobogã?
J: Não, nunca andei... mas eu já esquiei. Muito bem, lá vamos nós. Eu não sei para onde nós estamos
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indo... Nós só vamos partir porque existe algum lugar para se ir.
F: Bem, você disse que é uma viagem às entranhas da terra.
J: Sim. Mas eu acho que agora não estou muito certa disto. Eu não..., na verdade isto não me ocorreu antes de eu perceber o quanto a gente estava descendo.
F: Então parta.
J: Agora nós estamos descendo. Estamos deslizando para baixo, e então chegamos a uma curva, e viramos, e damos voltas..., e voltas..., e voltas..., e eu olho para ver se ela ainda está aí. (Ri.) Ela ainda está aí.
F: Sempre provoque um encontro. Isto é o mais importante, transformar tudo num encontro, em vez de divagar sobre. Fale com ela. Se você não fala com alguém, você está representando...
J: Você ainda está aí?
F: O que é que ela responde?
J: Estou. Ainda estou aqui, mas dá medo.
Não se preocupe. Eu cuido de tudo. (Decidida.) Nós estamos nos divertindo, Eu não sei aonde isto vai dar, mas nós vamos descobrir.
Eu estou com medo!
Eu acho que eu... não tenha medo. A gente está descendo, descendo, DESCENDO e DESCENDO... (Suave.) Eu me pergunto o que vai haver lá embaixo. Será tudo preto? ... Eu não sei o que ela diz.
F: O que a sua mão esquerda está fazendo?


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