Perfil florístico e estrutura da comunidade arbórea de uma floresta de vale no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil1



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Perfil florístico e estrutura da comunidade arbórea de uma floresta de vale no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil1


 

JOSÉ ROBERTO RODRIGUES PINTO2 e ARY TEIXEIRA DE OLIVEIRA-FILHO3

 

(recebido em 03/10/97; aceito em 14/10/98)



 

 

ABSTRACT - (Floristic profile and arboreal community structure of a valley-forest in the Chapada dos Guimarães National Park, Mato Grosso, Brazil). The purpose of the present study was to describe the floristic composition and the structure of the arboreal community of a valley-forest in Véu de Noiva waterfalls, Chapada dos Guimarães National Park, Mato Grosso, Brazil. The floristic and phytosociological analyses aimed at assessing, respectively: (a) the influence of the main Brazilian phytogeographic provinces on the floristic composition of the valley-forest studied, and (b) the role of the most important tree species in terms of abundance, ecological group, and stature at maturity. Every tree with stalk circumference at breast height (CBH)  15 cm found within 36 quadrats of 30 x 10 m was sampled. 172 species of trees belonging to 133 genera and 61 families were registered. The floristic profile showed strong links with both the Amazonian and Atlantic (sensu lato) forests, reinforcing the transitional nature of that community. The most important tree species, in terms of value of importance, were also important in other surveys carried out in the region.

 

RESUMO - (Perfil florístico e estrutura da comunidade arbórea de uma floresta de vale no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil). O propósito do presente trabalho foi descrever a composição florística e a estrutura da comunidade arbórea da floresta de vale da queda d'água Véu de Noiva, Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil. A análise florística e fitossociológica procurou avaliar, respectivamente: (a) a influência das principais províncias fitogeográficas brasileiras na composicão florística desta floresta de vale e (b) o papel das espécies mais importantes da comunidade arbórea em termos de sua abundância, grupo ecológico e porte dos indivíduos adultos. Foram amostrados todos os indivíduos arbóreos com circunferência do caule à altura do peito (CAP)  15 cm contidos em 36 parcelas de 30 x10 m. Foram registradas 172 espécies arbóreas pertencentes a 133 genêros e 61 famílias. O perfil florístico apresentou fortes laços tanto com a flora Amazônica como com a Atlântica (sensu lato), evidenciando o caráter transicional desta comunidade arbórea. As principais espécies arbóreas, em termos de valor de importância, se repetem entre as mais abundantes em outros levantamentos realizados na região.

Key words - Floristic composition, phytosociology, valley forest, Mato Grosso, Brazil

 

 

Introdução



As florestas ripárias estão entre as fitofisionomias tropicais que despertam maior interesse em estudos ecológicos, pois apresentam inúmeras características particulares, tanto no aspecto biótico como em relação ao ambiente físico. A alta heterogeneidade do ambiente físico sob a qual se estabelecem as florestas ripárias é citada como a principal responsável pela distribuição das espécies de plantas em mosaicos (Brinson 1990). Outra importante particularidade é a interface das florestas ripárias com as formações vegetais adjacentes, as quais, em geral, contribuem muito para a sua composição florística (Mantovani 1989, Oliveira-Filho et al. 1994b).

As florestas ripárias do Brasil Central são formações higrófilas, que ocorrem no fundo dos vales, associadas às nascentes e cursos d'água, constituindo uma das diversas fisionomias vegetais que completam a paisagem da Província do Cerrado (Mantovani 1989, Oliveira-Filho 1989, Eiten, 1994, Felfili 1995). No entanto, tais florestas apresentam composição florística e fitofisionomia bastante diferenciadas dos cerrados propriamente ditos (Oliveira-Filho et al. 1990, Oliveira-Filho & Martins 1991). Estes encraves florestais inseridos na vegetação do cerrado exercem uma importante função na proteção e manutenção dos mananciais hídricos, além de exercerem papel fundamental no equilíbrio da flora e da fauna silvestres.

Este trabalho teve por objetivo descrever a composição florística e a estrutura da comunidade arbórea da floresta de vale da queda d'água Véu de Noiva, por meio de levantamentos florístico e fitossociológico. A análise florística e estrutural desta comunidade procurou avaliar, respectivamente: a influência das principais províncias fitogeográficas brasileiras na composicão florística da comunidade arbórea e a importância das principais espécies arbóreas em termos de sua abundância, grupo ecológico e porte alcançado pelos indivíduos na fase adulta.

 

Material e métodos

Área de estudos - A floresta estudada está localizada no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães (PNCG), Mato Grosso, Brasil, alojada no fundo da depressão existente abaixo da queda d'água Véu de Noiva, formada pelo córrego Coxipozinho. O Parque está localizado entre as latitudes 15°10'-15°30'S e as longitudes 55°47'-56°00'W (Brasil 1994, Pinto et al. 1997).

No Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, as florestas constituem uma das mais marcantes fisionomias vegetais, normalmente revestindo as fendas e reentrâncias que surgem nas escarpas dos paredões rochosos (Cole 1960). A área florestal contínua mais extensa do Parque, com cerca de 30 ha, é a que se aloja na depressão formada abaixo da queda d'água Véu de Noiva. Como esta floresta estende-se desde o córrego, parte mais baixa da encosta ou talvegue até o paredão arenítico, localizado na parte mais alta da encosta, fica difícil a separação fisionômica entre a floresta ripária e a de encosta, sendo o termo "floresta de vale", na acepção de Eiten (1994), o mais adequado para denominar o tipo de formação vegetal ali existente.

Os tipos climáticos da região em que ocorre o PNCG são Aw e Cw de Köppen (Brasil 1994). O primeiro tipo ocorre na Baixada Cuiabana e o segundo, representa o clima tropical de altitude do alto da Chapada dos Guimarães, ambos caracterizados por apresentarem um inverno seco, que vai de maio a setembro, e verão chuvoso, que vai de outubro a março. A precipitação média anual vai de 1800 a 2000 mm (Oliveira-Filho & Martins 1986, Monteiro 1994).

Os solos que ocorrem na região do Parque são classificados como, predominantemente, areias quartzosas distróficas, nos vales e encostas, e latossolo vermelho-amarelo distrófico, nas planícies e planaltos (Brasil 1982). O solo sob a floresta estudada é pouco profundo, com muitos afloramentos rochosos e topografia acentuadamente íngreme. Isto se deve ao fato de grande parte da floresta recobrir o tálus formado logo abaixo das escarpas, devido à deposição dos escombros resultantes do processo erosivo. Desta forma, os solos são predominantemente litólicos fase arenosa, sendo que manchas de areias quartzosas distróficas e solos aluviais também ocorrem no fundo do vale (Pinto 1997).

A cobertura vegetal do PNCG é representada basicamente pelas seguintes tipologias: as diferentes formas fisionômicas do cerrado sensu lato, as florestas ripárias (matas de galeria), as florestas estacionais deciduais e semideciduais (matas de encosta ou de interflúvio) e os campos rupestres, que ocorrem nos afloramentos rochosos, em altitudes acima dos 800 m (Brasil 1994).

Metodologia - A amostragem da vegetação foi feita ao longo de três transectos paralelos, distribuídos nas seguintes seções do vale: próximo à queda d'água, no meio do vale e na extremidade oposta à queda d'água, de modo que os mesmos ficassem relativamente eqüidistantes. Os transectos foram dispostos perpendicularmente ao córrego e cruzando as duas vertentes até seus limites com o paredão rochoso. Em cada vertente dos transectos, foram instaladas seis parcelas de 30 x 10 m, com seu lado maior perpendicular à inclinação do terreno, e distribuídas aos pares em três setores topográficos: beira do córrego, meia encosta e alta encosta (figura 1). No total, foram instaladas 36 parcelas (1,08 ha de área amostral), arranjadas em 18 blocos formados por duas parcelas contíguas. Os blocos tiveram arranjo de 20 x 30 m, nos setores da meia e alta encosta, e de 10 x 60 m, na beira do córrego, de forma a maximizar, neste último, a representação da comunidade adjacente ao córrego, influenciada pelo curso d'água.



 

Figura 1. Perfil topográfico da depressão da queda d'água Véu de Noiva (Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil) indicando a distribuição das parcelas nos três transectos (próximo à queda d'água, no meio do vale e extremidade oposta à queda d'água) e nos três setores topográficos da floresta de vale (A - beira do córrego, B - meia encosta e C - alta encosta). Os valores numéricos referem-se às cotas altimétricas.

 

O levantamento florístico foi realizado por meio da identificação da flora arbórea amostrada no interior das parcelas, bem como daquela encontrada no restante da área, em caminhadas aleatórias que percorreram toda a extensão da floresta de vale. Foram coletados materiais botânicos férteis e estéreis e, à medida que novas coletas férteis contendo flores e/ou frutos eram encontradas, as coletas estéreis iam sendo substituídas. O material testemunha foi amostrado e herborizado de acordo com as recomendações de Alves & Pavani (1991) e incorporado ao acervo do Herbário do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Lavras (Herbário ESAL), com duplicatas depositadas no Herbário Central da Universidade Federal de Mato Grosso (HCUFMT). As identificações foram realizadas por meio de consultas à literatura e a especialistas, além de comparações com as coleções dos Herbários citados e dos Herbários da Universidade Estadual de Campinas (Herbário UEC) e do Instituto de Botânica de São Paulo (Herbário SP).



As espécies foram classificadas segundo o seu grupo ecológico e porte alcançado pelos indivíduos adultos (reprodutivos). Para atribuir o grupo ecológico às espécies, adotou-se a metodologia descrita por Swaine & Whitmore (1988), com as modificações sugeridas por Oliveira-Filho et al. (1994b), utilizando as seguintes categorias: pioneiras (P), clímax exigente de luz (CL) e clímax tolerante à sombra (CS). Na classificação quanto ao porte, foram utilizadas as categorias: árvore alta (AA), > 17,5 m; árvore média (AM), 8 a 17,4 m; árvore baixa (AB), 2 a 7,9 m e anã (a), < 2 m. Os critérios usados para atribuir o grupo ecológico e porte mais adequados a cada espécie foram baseados em observações de campo, revisão de literatura e comparações com classificações ecológicas apresentadas em outros trabalhos similares (Vilela et al. 1993, Oliveira-Filho et al. 1994a, b, c, Almeida 1996).

A influência das principais províncias fitogeográficas brasileiras - sensu Cabrera & Willink (1973) - na composição desta comunidade foi avaliada através da classificação das espécies de acordo com a sua distribuição geográfica nas Províncias Amazônica, do Cerrado, Atlântica e Paranaense. Para fins deste trabalho, estas duas últimas foram fundidas como província Atlântica sensu lato, de acordo com Oliveira-Filho & Ratter (1995). A informação geográfica sobre as espécies baseou-se no banco de dados de Oliveira-Filho & Ratter (1994), complementado por consultas a herbários, especialistas e literatura.

Para descrever a estrutura fitossociológica da comunidade arbórea, foram registrados nas parcelas todos os indivíduos com CAP (circunferência do caule à altura do peito, ou a 1,30 m do solo) ou média quadrática das ramificações à altura do peito  15 cm, exceto lianas e indivíduos mortos. Os indivíduos que se encontravam inclinados tiveram sua circunferência mensurada a 1,30 m de comprimento do tronco, a partir do solo. Para cada indivíduo, foi medido o CAP, com fita métrica, e estimada a altura, com auxílio de vara graduada. A partir destes dados, foram calculados os parâmetros fitossociológicos para as espécies, segundo Mueller-Dombois & Ellenberg (1974), e os índices de diversidade de Shannon-Wiener (H') e de eqüabilidade de Pielou (J') (Brower & Zar 1984). Os cálculos foram processados com o auxílio do programa FITOPAC (Shepherd 1994).

 

Resultados



A relação das espécies arbóreas encontradas na floresta de vale do Véu de Noiva é apresentada na tabela 1, que contém ainda os seus respectivos nome popular, grupo ecológico, porte alcançado pelos indivíduos adultos e distribuição geográfica, segundo as três principais províncias fitogeográficas brasileiras. No total, foram registradas 172 espécies pertencentes a 133 gêneros e 61 famílias. Dentre estas, 24 espécies, distribuídas em 23 gêneros e sete famílias, foram acrescidas na listagem florística a partir das coletas aleatórias realizadas fora das parcelas.

 





 



 

As famílias que mais contribuíram para a riqueza florística (número de espécies entre parênteses) foram: Leguminosae (21); Melastomataceae (9); Euphorbiaceae (8); Annonaceae, Lauraceae e Myrtaceae (7); Moraceae e Sapotaceae (6); Chrysobalanaceae e Meliaceae (5). Por outro lado, 27 famílias (44,26%) foram representadas por uma única espécie. As famílias que apresentaram maior densidade (número de indivíduos entre parênteses), foram: Sapotaceae (112), Melastomataceae (96), Annonaceae (91) e Monimiaceae (90). Por outro lado, Simaroubaceae, Icacinaceae, Loganiaceae, Styracaceae, Asteraceae, Tiliaceae, Proteaceae e Memecylaceae pertencem ao grupo das raras, ou seja, amostradas por um único indivíduo. O gênero Miconia destacou-se por apresentar o maior número de espécies (8), o dobro dos gêneros seguintes: Inga, Licania e Ocotea. Nesta listagem seguem, ainda, Casearia, Ficus e Protium, com três; e Aegiphila, Alibertia, Anadenanthera, Attalea, Calyptranthes, Chrysophyllum, Cybianthus, Eugenia, Guarea, Heisteria, Jacaranda, Matayba, Piper, Sloanea, Schefflera, Trichilia, Virola e Xylopia, com duas. Os demais 107 gêneros, ou seja, 62,21%, foram representados por uma única espécie cada.



No levantamento fitossociológico, foram amostrados 1336 indivíduos arbóreo-arbustivos, pertencentes a 148 espécies, 114 gêneros e 54 famílias, o que resultou numa densidade de 1237 indivíduos



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