Paulo de tarso: vida e cartas



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CURSO DE TEOLOGIA PARA LEIGOS E LEIGAS

PARÓQUIA NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS

O EVANGELHO DE JESUS CRISTO

SEGUNDO AS CARTAS DE PAULO


PADRE FERNANDO AGUINAGA HUICI, PADRES ESCOLÁPIOS

NÍVEL DE APROFUNDAMENTO

COM ORIENTAÇÃO PASTORAL


PAULO DE TARSO: VIDA E CARTAS

O Evangelho de Jesus Cristo segundo as cartas de Paulo”.




  1. CONVERSÃO E VOCAÇÃO DE PAULO. Página 02

  2. PRIMEIRAS CARTAS. 1 e 2 Tessalonicenses. Página 10

  3. AS GRANDES CARTAS. Gálatas, 1 e 2 Coríntios; Romanos. Página 13

  4. CARTAS DO CATIVEIRO. Filipenses, Colossenses, Efésios e Filemom. Página 24

  5. CARTAS PASTORAIS. 1Timóteo, Tito e 2Timóteo. Página 32

Fontes:


- J.Cambier e L.Cerfaux “Introdução à Bíblia – NT”, Ed. Herder, 1967.

- E.Cothenet, “São Paulo e o seu tempo”, Ed.Paulinas, 1985 (Cadernos Bíblicos, 26).

- C.D.Dodd, “A mensagem de São Paulo para o homem de hoje”, Ed.Paulinas, 1978. (Biblioteca de Estudos Bíblicos, 4).

- Introduções da Bíblia de Jerusalém.

- Introduções da Bíblia Ecumênica Basca (“Elizen arteko Biblia”).


  1. CONVERSÃO E VOCAÇÃO DE PAULO.

Nós não vamos falar principalmente de Paulo. Vamos escutar ele nos falar de Jesus Cristo. Abordaremos a vida e a mensagem do chamado apóstolo dos gentios com este objetivo: conhecer melhor o Filho de Deus que se encontrou com Saulo, perseguidor dos cristãos, no caminho de Damasco porque o amava e o acompanhou em toda a sua missão evangelizadora, consolando-o e fortalecendo-o em todas as circunstâncias. Com Paulo iremos compreender melhor como é grande a graça da misericórdia divina que se revela na morte e ressurreição de Jesus e que é comunicada a nós pelo Espírito Santo, para que levemos uma vida nova de santidade e amor ao próximo.


1.1. Documentos.

Para reconstituir a vida de Paulo nós temos duas fontes: os Atos dos Apóstolos e as notas autobiográficas espalhadas pelas cartas do próprio apóstolo.


- Atos dos Apóstolos:

+ Antes da conversão: 7, 54-8,1.

+ A conversão: 9,1-30; 22,1-21; 26, 1-23.

+ Na Comunidade de Antioquia: 11,19-30.12,24; 13,1-3.

+ Primeira viagem missionária: 13,4-15,35.

+ Segunda viagem missionária: 15,36-18,22.

+ Terceira viagem missionária: 18,23-21,14.

+ Prisioneiro de Jerusalém até Roma: 21,15-28,31.


- As cartas de Paulo:

+ Gálatas 1,11-2,14 (Vocação de Paulo).

+ 1Coríntios 15, 8-9 (O menor dos apóstolos, perseguidor da Igreja).

+ 2Coríntios 11, 22-12, 21 (“Sou israelita. Ministro de Cristo mais do que eles...”).

+ Romanos 11,1 (Paulo se declara israelita, da tribo de Benjamim).

+ Filipenses 3,4-6 (Circuncidado, da tribo de Benjamim, fariseu, perseguidor da Igreja).

+ 2 Timóteo 1,5; 3,10-11 (“Você me acompanhou na missão e nas perseguições...”).


    1. Cronologia.

São datas muito prováveis. Mas não temos condições de afirmar com certeza plena.

Ano 5 a 10 Nascimento de Saulo em Tarso da Cilícia.

Ano 31 Estância em Jerusalém. Estuda a Lei de Moisés com Gamaliel.

Ano 34 Martírio de Estevão e dispersão da comunidade cristã.

Ano 36 Conversão de Saulo perto de Damasco. Retiro no deserto da Arábia.

Ano 39 Visita aos apóstolos em Jerusalém. Volta a Tarso.

Ano 43 Vai a Antioquia a pedido de Barnabé para fortalecer a comunidade.

Ano 45 Primeira viagem missionária.

Ano 49 Assembléia de Jerusalém. Não precisa ser judeu para ser cristão.

Ano 49 Segunda viagem missionária (até o ano 52).

Ano 50 Estância em Corinto até o ano 52.

Ano 51 e 52 Cartas 1 e 2 aos Tessalonicenses. Em Corinto.

Ano 53 Terceira viagem missionária (até o ano 58)

Ano 54 Estância em Efeso até o ano 57

Ano 54/56 Carta aos Gálatas. Em Efeso.

Ano 56/57 Carta Primeira aos Coríntios. Em Efeso. (Talvez, Carta aos Filipenses, no ano 56?).

Ano 57 Visita a Coríntio e a Macedônia (Filipos).

Ano 57 Carta Segunda aos Coríntios. Em Macedônia.

Ano 58 Estância em Corinto.

Ano 58 Carta aos Romanos. (na Páscoa, desde Corinto).

Ano 58 Visita a Filipos. Viagem a Jerusalém.

Ano 58 Paulo é prisioneiro em Jerusalém. Levado a Cesaréia. Até o ano 60.

Ano 60 Viagem a Roma.

Ano 61 Prisioneiro em Roma. Em regime de liberdade vigiada. Até o ano 63.



Carta aos Colosenses, Efésios, Filipenses, Filemon. (Filipenses, talvez, no ano 56).

Ano 63 Viagem a Espanha (?) Ele queria, não sabemos se realizou.

Viagens a Efeso, Creta, Macedônia ? Não temos certeza.

Ano 65 Cartas: Primeira a Timóteo, a Tito

Ano 67 De novo prisioneiro (segunda prissão em Roma)

Carta: Segunda a Timóteo

Morte em Roma. Decapitado no Foro Romano.


    1. Saulo de Tarso.

Saulo nasceu em Tarso de Cilícia, de família israelita da tribo de Benjamim. Foi circuncidado ao oitavo dia e recebeu os ensinamentos da Leis de Moisés. Morou até a juventude em Tarso, cidade de costumes e cultura greco-romanos. Mas como israelita apaixonado que era, fazendo parte do grupo dos fariseus, amante profundo da Lei de Moisés e das tradições do seu povo, conhece também a língua hebraica e a mentalidade bíblica: a Lei e os Profetas. Assim ele possui o domínio das duas culturas: a judaica e a grega. Esta característica será muito importante para a missão que iria desempenhar anos depois no anúncio do Evangelho de Jesus. Não podemos esquecer que nos primeiros anos do Cristianismo a Igreja ainda estava fortemente amarrada ao judaísmo.

Depois do ano 30 (Jesus morreu nesse ano e Saulo não conheceu o ministério nem a paixão de Cristo) foi a Jerusalém para aprofundar sobre o conhecimento da Lei de Moisés com Gamaliel o Velho, neto de Hilel, que era um dos melhores intérpretes da Sagrada Escritura da época. Como fariseu ele mesmo nos diz que seguia a linha mais escrupulosa dos antepassados. Prova disso é que quando Estevão foi apedrejado (no ano 34, provavelmente) Saulo aprovava aquela execução embora ainda não tivesse a idade legal para participar dela. Cumpridos os trinta anos ele tomou a frente da perseguição contra os discípulos do Nazareno.




    1. A Conversão.

Foi-lhe concedida a graça da revelação do Cristo glorioso no caminho de Damasco. Foi um acontecimento muito especial que transformou o rumo da sua vida completamente. Foi como arrebatado por uma força superior e misteriosa, que lhe abriu os olhos da fé e lhe convidou a acreditar naquele que estava perseguindo. Envolvido por uma luz que o deixou cego e interpelado por uma voz que questionava sua atitude :

- “Saulo, Saulo, por que você me persegue?”.

- “Quem és tu, Senhor?”.

- “Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo”.

Saulo obedeceu imediatamente e seguiu as orientações recebidas... Isso não quer dizer que ele tenha compreendido instantaneamente tudo o significado desse fato. Sem dúvida que a mente dele ficou confusa e precisou de tempo para assimilar o acontecido. O momento do encontro com o Senhor Jesus marcou plenamente a vida de Saulo, sinalizando um antes e um depois totalmente diferentes. Paulo reconhece a iniciativa de Cristo nessa ação salvadora porque ele se achava caminhando no sentido contrário. Deus teve misericórdia de Paulo e por pura graça foi ao encontro dele para lhe resgatar da ignorância e das redes do pecado na qual se encontrava amarrado. Paulo jamais esquecerá o gesto amoroso de Deus para com ele e agradecerá entregando a vida toda pela causa do Evangelho.

Partiu para Arábia (o reino dos nabateus, ao sul de Damasco) e depois voltou a esta cidade. Foram mais ou menos três anos de “retiro” e de apostolado cristão (o primeiro que ele exerceu). Serviu também para ir colocando em ordem a sua mente, os seus conhecimentos filosóficos e teológicos, a interpretação das Escrituras, a compreensão da tradição herdada dos antepassados... Agora tudo era interpretado a partir do mistério de Cristo, o Filho do Pai, o Senhor. O Evangelho de Jesus se situava no centro de tudo, ocupava o coração da sua existência.

Teve que fugir de Damasco e foi para Jerusalém para conhecer a Pedro e a Tiago, considerados como os líderes da Igreja. Barnabé teve que intervir em favor de Saulo porque os cristãos desconfiavam dele por causa das suas atitudes anteriores de perseguição. Permaneceu 15 dias lá onde se informou, sem dúvida, sobre o ministério público de Jesus, assim como da sua morte e ressurreição. Houve um gesto de comunhão da parte dos apóstolos para com Saulo e confirmaram a sua fé e missão por meio da imposição das mãos. Voltou para Tarso, sua cidade natal, onde viveu sua fé de forma discreta, oculta.

A conversão de Paulo e a sua vocação é a chave principal para compreender o significado da sua missão. Existem nas cartas às vezes expressões que poderiam nos parecer como sintomas de um certo orgulho pessoal ou de um certo ar de superioridade. Paulo se submeteu absolutamente à vontade divina e se dedicou plenamente, com generosidade incrível, à causa da evangelização dos pagãos. Para ele tudo era Cristo. Só que foi questionado seriamente em relação à autoridade da sua missão, ao exercício do seu ministério. Precisou se defender. Nem tanto por ele, pela sua pessoa. Mas sim para defender a legitimidade da Igreja que acolhia no seu seio os pagãos sem necessidade de os circuncidar, livres, portanto, da obrigação do cumprimento restrito da Lei Mosaica. Paulo se viu obrigado a explicar que também era apóstolo e, como tal, as comunidades que fundara eram legítimas, autênticas. Homem de uma energia imensa e um zelo fora do comum que se colocou por inteiro a serviço da causa de Jesus Cristo.

Quando falamos da conversão de Saulo não podemos esquecer que ele também foi crescendo e amadurecendo na fé como acontece com todos os cristãos. Ele próprio utiliza a comparação dos atletas que vão correndo para a meta... porque a fé é processo, é caminhada. Somos peregrinos nesta terra que vamos progredindo no caminho do Evangelho. Paulo também foi aprendendo, amadurecendo, mudando, deixando que o Espírito realizasse a santificação na sua história pessoal. (Filipenses 1,6.9-11.19-26; 3,7-14). É difícil compreender a atitude de Paulo no início da segunda viagem missionária, quando não quis aceitar João Marcos no grupo pelo fato de que este os tivesse abandonado na metade da primeira viagem. Mas depois, na prisão, pede que venha para o ajudar (2Timóteo 4,9-1). Não temos elementos para analisar estes processos internos da fé, mas certamente se deram na vida de Paulo. Nas relações humanas parece mais fino e delicado no final da sua vida do que no início. A paixão por Cristo, pelo evangelho e pela Igreja não mudaram... a não ser para aumentar. Paulo descreve como ninguém quais as atitudes humanas que se derivam do evangelho, especialmente o amor (1Coríntios 13). Só pode se expressar tão maravilhosamente porque as praticava de forma extraordinária.

A introdução sobre as epístolas de São Paulo da Bíblia de Jerusalém diz que “Paulo é um apaixonado, uma alma de fogo que se consagra sem limites a um ideal. E este ideal é essencialmente religioso. Para ele, Deus é tudo e ele o serve com uma lealdade absoluta, primeiro perseguindo aqueles que ele tem na conta de hereges (1Timóteo 1,13; Atos 24, 5. 14), depois pregando Cristo, após haver entendido por revelação que só nele está a salvação. Este zelo incondicional traduz-se por uma vida de abnegação total ao serviço daquele que ele ama. Trabalhos, fadigas, sofrimentos, privações, perigos de morte (1Coríntios 4,9-13; 2Coríntios 4,8s; 6,4-10; 1,23-27), nada lhe importa, contanto que cumpra a missão pela qual se sente responsável (1Coríntios 9,16s). Nenhuma dessas coisas o poderá separar do amor de Deus e de Cristo (Romanos 8, 35-39); ou melhor, tudo isso é de inestimável valor, por conforma-lo à paixão e à cruz de seu Mestre (2Coríntios 4,10s; Filipenses 3,10s)”.




    1. A comunidade de Antioquia.

O Livro dos Atos dos Apóstolos dedica uma atenção muito especial a esta comunidade cristã, reconhecendo a importância que teve na atividade missionária, não somente desde o aspecto quantitativo, mas, principalmente, qualitativo. Trata-se de uma Igreja nascida a partir do martírio de Estevão. Companheiros dele espalharam-se por várias regiões como conseqüência da perseguição após o apedrejamento do primeiro mártir cristão e levaram o anúncio do Evangelho também à cidade de Antioquia da Síria. Cidade de 500.000 habitantes, a terceira maior do mundo conhecido daquela época, perto do mar e na encruzilhada de caminhos importantes para o Império Romano. Alguns daqueles missionários, imbuídos do espírito livre de Estevão, ousaram anunciar a Boa Nova também aos gregos pagãos. Pedro já tinha aberto as portas da Igreja a Cornélio, que era pagão, mas ainda de uma forma excepcional, não sistemática... e a comunidade custou a entender aquele gesto. Pedro precisou de prestar contas da sua ação porque os fiéis de origem judaica começaram a discutir com ele (Atos 10-11). Em Antioquia a pregação aos pagãos começou a ser sistemática e muitos abraçavam a fé. Formou-se assim uma comunidade cristã que misturava fiéis de procedência judaica e grega. Uma mesma fé para ser celebrada ao redor da mesma mesa litúrgica. Um judeu não podia comer ao lado de um pagão, pois ficaria impuro, violando a Lei. A comunidade de Antioquia, superando este costume que discriminava os pagãos, criava uma situação totalmente nova que desafiava os costumes culturais e religiosos. Pratica assim uma das grandes novidades do Evangelho de Jesus Cristo: a abertura da oferta da salvação a todos os povos. É a Nova Aliança e o Novo Povo de Deus, formado por fieis de todos os povos e raças, conseqüência de Pentecostes.

A comunidade mãe de Jerusalém enviou um representante de coração aberto e compreensivo chamado Barnabé. O Livro dos Atos o elogia porque ele teve a sabedoria de compreender o valor daquela comunidade que simbolizava o novo do Evangelho ao reconciliar no seu seio grupos humanos que se consideravam historicamente adversários. A confirmação daquela experiência por parte do representante da Igreja oficial ajudou ainda mais na conversão de “uma considerável multidão que se uniu ao Senhor” (Atos 11, 24). Antioquia seria assim a plataforma ideal para a missão evangelizadora do mundo pagão. Foi naquela comunidade que os discípulos receberam pela primeira vez o nome de “cristãos”. Comunidade que, sabendo integrar judeus e gregos no convívio da mesma fé, seria como uma semente da Igreja Primitiva que soube superar preconceitos culturais e raciais, gerando um novo modelo de Povo de Deus. Lucas, autor do Livro dos Atos, era de lá. É claro que nada é perfeito e também em Antioquia se reproduziu a tensão que era geral em toda a Igreja: o problema das mesas (Como poderiam se assentar juntos circuncidados e não circuncidados? A Lei não permitia!). Na Carta aos Gálatas (2,11ss.) Paulo relata o incidente que teve com Pedro porque este não participava da mesma mesa que os cristãos procedentes do paganismo. Logicamente que nós temos só a versão paulina cuja intenção é justificar a validade do trabalho evangelizador do apóstolo no meio dos gentios. Mas serve para nós, que não podemos julgar a razão de Pedro ou de Paulo, para compreender a gravidade do problema que afetou à Igreja Primitiva em todas as regiões. A solução não era fácil!

A questão de aceitar na mesma Igreja e na mesma mesa eucarística fiéis de origem pagã, sem circuncidar, junto com fiéis de origem judaica, seria uma das principais fontes de conflito no seio da Igreja Primitiva. Situação que explodiu na Assembléia de Jerusalém (Atos 15) e se resolveu do jeito que já estava se praticando em Antioquia, quer dizer, aceitando os pagãos na comunidade cristã sem precisar da circuncisão. Problema que traria também tantos sofrimentos ao próprio Paulo que defendeu com vigor a superioridade do batismo sobre a circuncisão, do Evangelho de Jesus sobre a Lei Mosaica, tal como ele encontrou que já acontecia na Igreja de Antioquia.

Barnabé, percebendo a importância daquela comunidade foi procurar Saulo que estava em Tarso para que ajudasse na formação da Igreja em Antioquia. As características que definem uma verdadeira comunidade cristã (Atos 2, 42-47; 4,32-37) se cumpriam também naquela Igreja que se solidarizou com os pobres de Jerusalém. Um texto do historiador Flávio Josefo confirma a fome que açoitou a cidade de Jerusalém nessa época: “A chegada de Helena, rainha de Adiabene, foi muito proveitosa para os habitantes de Jerusalém, porque nesta oportunidade a fome campeava na cidade e muitos morriam por falta de recursos. A rainha Helena enviou alguns de seus servos a Alexandria para comprarem a dinheiro uma quantidade de trigo, e outros a Chipre para trazerem de lá um carregamento de figos. Eles voltaram com a maior rapidez, e ela distribuiu esses alimentos aos pobres, deixando em todo o nosso povo, por causa deste benefício, uma recordação eterna. Seu filho Izates, ao tomar conhecimento desta fome, enviou muito dinheiro aos próceres de Jerusalém”. (Do livro “São Paulo e o seu tempo” de Cothenet, pág. 46; Ed. Paulinas, 1985). Saulo e Barnabé, cumprida a missão de ajuda solidária, voltaram para Antioquia. É desta comunidade cristã que partirão as viagens missionárias de Paulo e Barnabé, enviados pelos irmãos para anunciar Jesus aos povos pagãos.

A Igreja de Antioquia é uma comunidade que nasce do acolhimento da Palavra, aceita a instrução apostólica, celebra a sua fé, se abre aos dons do Espírito (profecia, curas, oração e partilha), é comunidade orante, se faz solidária com os irmãos necessitados e se torna missionária enviando membros seus para anunciar o Evangelho aos povos vizinhos. Sabe combinar bem a unidade na mesma fé celebrada na mesma mesa e o reconhecimento dos diversos dons e ministérios para melhor servir à evangelização.

A comunidade mãe de Jerusalém foi gerando assim novas comunidades cristãs que atualizavam entre as nações o testemunho do mesmo Evangelho e que se tornavam, por sua vez, mães de outras novas comunidades cristãs. Segundo o esquema dos Atos a dinâmica da evangelização parte de Jerusalém, passa por Antioquia e chega até Roma, coração do Império Romano. Assim nós compreendemos a preocupação de Paulo em se apresentar à comunidade cristã de Roma por meio da Carta aos Romanos, exprimindo neste escrito a síntese da sua teologia e do Evangelho que ele pregava. Porque, assim como participou na consolidação da Igreja em Antioquia quis também participar na formação da Igreja em Roma.




    1. As três viagens missionárias de Paulo.


Primeira viagem. (Ano 45 a 49). De Saulo para Paulo.

Havia profetas e mestres na Igreja de Antioquia. Eram eles: Barnabé, Simeão, chamado o Negro, Lúcio, da cidade de Cirene, Manaém, companheiro de infância do governador Herodes, e Saulo. Certo dia, eles estavam fazendo uma reunião litúrgica com jejum, e o Espírito Santo disse: ´Separem para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei.´ Então eles jejuaram e rezaram; depois impuseram as mãos sobre Barnabé e Saulo, e se despediram deles.” (Atos 13, 1-3). Em relação a este texto bíblico diz o comentário da Bíblia Pastoral que “começa uma nova etapa na história da Igreja: a difusão do Evangelho em ambiente pagão. A Igreja de Antioquia já se apresenta organizada: funções partilhadas e decisões tomadas pela assembléia, em clima de oração e discernimento, clima referendado pelo Espírito Santo. A missão não nasce por iniciativa de indivíduos, mas a partir de uma comunidade cheia de vida, que escolhe e designa indivíduos para a missão.” Esta primeira viagem missionária é relatada nos capítulos 13 e 14 do Livro dos Atos. Junto com Barnabé e Saulo participou um grupo de colaboradores, entre os quais João chamado Marcos. Iniciaram a missão na ilha de Chipre onde Saulo já começa a ser chamado de Paulo e toma a iniciativa na missão (13,9.13). Da ilha de Chipre partiram para a Asia (na atual Turquia) e, segundo o relato dos Atos, a iniciativa da missão corresponde a Paulo a partir deste momento. João Marcos voltou a Jerusalém. Paulo tem um método de evangelização: Inicia a pregação anunciando a Boa Nova de Jesus aos judeus, no culto sabático nas sinagogas, partindo das Sagradas Escrituras (Antigo Testamento ou Primeira Aliança). O centro do anúncio é o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, princípio de salvação para todos. Depois de anunciar o Evangelho aos judeus anuncia também aos pagãos, que o acolhem com entusiasmo. Vão nascendo assim novas comunidades cristãs constituídas por judeus e pagãos. Os judeus que não aceitam Jesus como Messias se revoltam em cada cidade contra o grupo missionário e provocam a sua expulsão ou perseguição. Paulo é apedrejado, tem que fugir, ... mas aprendem a organizar as comunidades designando responsáveis para que cuidem da fé dos irmãos recém convertidos. A primeira viagem foi relativamente curta no espaço geográfico, porém intensa. Durou mais de três anos e deixou como fruto um bom número de comunidades cristãs formadas, a partir das quais, os companheiros de Paulo e Barnabé, iam fundando outras novas comunidades. O grupo voltou ao ponto original: Antioquia. Reuniram a comunidade e relataram como Deus tinha aberto a porta da fé aos pagãos.

Chegaram alguns homens da Judéia e doutrinavam os irmãos” (Atos 15,1). Diziam que era preciso se circuncidar par alcançar a salvação de Jesus. Paulo e Barnabé discutiram com eles. A comunidade, alarmada, enviou uns e outros a Jerusalém para resolver o problema. Depois de muita discussão tomaram a palavra Pedro, Paulo e Barnabé e, finalmente, Tiago. A decisão foi unânime: os cristãos pagãos não precisam serem circuncidados para fazerem parte do Povo de Deus, quer dizer, não tem obrigação de cumprir a Lei de Moisés. Basta o batismo e seguir o caminho do Evangelho. Paulo lembra na Carta aos Gálatas (2,10) que a única exigência feita aos cristãos de origem pagã foi “apenas que nos lembrássemos dos pobres, e isso eu tenho procurado fazer com muito cuidado”; porque, na realidade, este cuidado com os pobres faz parte inerente do Evangelho, situa-se no coração da Boa Nova de Jesus. A comunidade mãe de Jerusalém, mais uma vez cheia de compreensão e de amor pelas comunidades filhas que foram nascendo para a nova fé, enviou Judas e Silas com a decisão desejada e que trazia paz e liberdade aos cristãos de origem pagã. A missão de Paulo e Barnabé ficava assim reconhecida e aprovada pela cabeça da Igreja. Isto não quer dizer que os cristãos “judaizantes” (judeus que achavam que os pagãos deveriam também ser circuncidados para que o batismo pudesse ser realmente válido, para que os pagãos pudessem participar verdadeiramente do Povo de Deus) não deixassem de importunar as comunidades fundadas por Paulo. Este drama acompanhou o apóstolo praticamente ao longo de toda a sua vida. Depois da destruição de Jerusalém, no ano 70, e a partir da segunda geração na liderança da Igreja (Lucas, Marcos, Timóteo, Tito, etc.) a situação reverteu completamente na direção do trabalho realizado por Paulo.
Segunda viagem. (Ano 49 a 53).

No início da segunda viagem de Paulo e Barnabé houve desacordo sério entre eles por causa de João Marcos. Paulo não quis aceita-lo no grupo porque os tinha abandonado no decorrer da primeira viagem. Barnabé não concordou. Paulo viajou com Silas por um lado e Barnabé com João Marcos pelo outro. Foram visitando as comunidades fundadas na primeira viagem e confirmando a fé dos irmãos, fortalecendo a organização da Igreja. Depois de visitar tais comunidades Paulo e Silas embarcaram para Europa onde fundaram as comunidades de Filipos e Tesalônica. É precisamente neste momento da passagem da Ásia para a Europa que o autor dos Atos (Lucas) se apresenta como membro participante desta missão evangelizadora, por meio da linguagem (“Procuramos partir para Macedônia... embarcamos em Tróade...”, a partir de Atos 16,10). Os açoites e as prisões não os desanimam. O Evangelho vai se espalhando e a semente encontra terra boa. Fundam comunidades. Chegam na Grécia: Atenas e Corinto. Paulo prepara sua melhor pregação, utilizando os recursos da oratória humana, para conquistar a capital da sabedoria e dos filósofos. O resultado foi bem fraco. De Atenas vai para Corinto, cidade cheia de escravos, vícios, exploração e má fama. Apresenta ao povo o Evangelho da cruz de Cristo, loucura para os pagãos, escândalo para os judeus, sabedoria escondida de Deus para os eleitos (1Coríntios 1,18.22-25). Lá constituiu uma comunidade numerosa de fiéis e permaneceu 18 meses fundando e consolidando esta comunidade. Orientou também seus colaboradores que a partir das comunidades já constituídas partiam em novas missões para evangelizar nas regiões vizinhas. Foi-se costurando devagar a rede de pequenas comunidades que ia abrangendo cada vez mais o vasto território do Império Romano. Foi nessa estadia em Corinto que Paulo escreveu as primeiras cartas dele: as duas destinadas aos cristãos de Tessalônica. Mensagens escritas a partir da missão e para fortalecer e iluminar os frutos da missão. De Corinto voltou a Antioquia passando pouco tempo por Éfeso... onde prometeu que voltaria se fosse da vontade divina.

O método evangelizador de Paulo e Barnabé era o seguinte: chegavam a uma cidade e, como israelitas que eram, se apresentavam à comunidade judaica local. Trabalhavam nas suas respectivas profissões para ganhar o pão. Paulo era tecelão que fabricava tendas, naquela época muito usadas pelos exércitos, comerciantes, nômades, etc. Ao sábado, como bons israelitas, participavam do culto na sinagoga e, sendo-lhes dada a palavra, a partir das leituras da Sagrada Escritura (Antigo Testamento) anunciavam Jesus Cristo como o Messias Salvador. Aqueles que acolhiam a Palavra se batizavam. Surgiam, logicamente controvérsias a respeito do Messias porque muitos não aceitavam o evangelho pregado por eles. Aí, os apóstolos, anunciavam o evangelho aos pagãos. Juntavam os convertidos tanto israelitas como pagãos numa mesma comunidade, celebrando ao redor da mesma mesa a fé comum em Jesus Cristo. Isto provocava a ira dos israelitas que estavam proibidos de compartilhar a mesma mesa com os pagãos. Paulo, quando o conflito vai aumentando, é obrigado a partir para outra cidade. Quando chegavam colaboradores para auxiliar na missão, eles se dedicavam por inteiro à Palavra.



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