Patrimônio imaterial: capoeira – arte & manha no espaço escolar



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PATRIMÔNIO IMATERIAL: CAPOEIRA – ARTE & MANHA NO ESPAÇO ESCOLAR
RESUMO: Discutir, preservar e socializar a tradição da capoeira no espaço escolar é o principal objetivo deste trabalho. A leitura é uma prática que se faz presente em nossas vidas desde o momento em que compreendemos o mundo à nossa volta. Os patrimônios culturais também fazem parte desse universo de saber e aprendizado. Valorizando a oralidade como meio de transmissão refletimos sobre os patrimônios imateriais como ferramenta pedagógica. Sob o comando do berimbau e demais instrumentos, a capoeira se mostra uma grande aliada na valorização de nossa memória histórica, salvaguardando os aspectos patrimoniais (arte, expressão, instrumentos, etc.) que apresenta, afirmando-a como manifestação de matriz afro-brasileira. Proibida no Brasil Império e início republicano, tornou-se manifestação folclórica no governo de Vargas (1937) e desporto pelo ministro Marcos Maciel (1972). Através da análise de vídeos, músicas, construções de painéis, da presença de grupos de capoeira na escola e de entrevistas com alguns mestres capoeiristas como Sinhozinho, Valdeci, Zé Luiz, Curió, Zico, Spock, alunos e graduados como Joel Padilha, Gilberto Silva, Marialva, Marcelo Barros e outros, a arte e manha da capoeira que de brincadeira proibida se transformou em patrimônio da humanidade foi desvendada e apreciada pelos alunos. Exemplos que justificam a aplicabilidade da capoeira no contexto escolar são muitos, um deles é desenvolvido na Apae da cidade de Dois Vizinhos, mostrando que não existem obstáculos que não possam ser superados quando o respeito a si mesmo e ao outro é estimulado. Ritmo, respeito e ritual fazem da capoeira o referencial para crianças e jovens de que um mundo melhor é possível. Concluímos que quando aplicado na escola, à educação patrimonial leva os alunos a abraçar a causa como sendo sua. Ela se torna um ponto ou centro de cultura e de arte reunindo jovens, crianças, adultos, homens, mulheres, alunos e profissionais num mesmo ideal. A produção do saber pelos alunos resultou numa experiência potencializadora para o currículo escolar favorecendo a compreensão de normas sociais, usos, costumes e tradições, além de sua ação como continuador da história da humanidade às futuras gerações. O projeto foi desenvolvido na Escola Dr. Fulton Macedo, em Ponta Grossa, PR, com alunos de oito anos, em parceria com Edílson Kordel.
Palavras Chaves: Capoeira, Patrimônio, Memória.

Sabemos que a preservação dos patrimônios ajuda a resguardar nossa identidade cultural, e que isso também está voltado ao nosso direito de garantir a cidadania de nosso povo.

A educação patrimonial está voltada ao despertar da consciência preservacionista valorizando os bens materiais e imateriais de toda a sociedade. Quando aplicada na escola, a educação patrimonial leva os educandos a abraçar a causa como sendo também sua, pois se trata de valorizar a sua ação enquanto continuador da história da humanidade para as gerações futuras.

A produção do saber por alunos tendo os patrimônios como objetivo de estudo, pode ser uma experiência potencializadora para o currículo escolar, favorecendo uma melhor compreensão das normas sociais, usos, costumes e tradições que regem a sociedade onde esteja inserido.

Uller, Carbonar, Uller (2001, p. 26) relatam que:
Pelo fato da cultura estar muito ligada à vida em sociedade, ela reflete muito do processo social, da construção histórica, das lutas e das conquistas e derrotas. (...) Ela traduz produtos, povos, estilos e épocas, dados fundamentais para a compreensão das sociedades contemporâneas.”
A cultura pode ser social (é criada, aprendida, acumulada e transmitida pelos elementos de um grupo enquanto sociedade), é seletiva (incluindo padrões comportamentais), é explícita e manifesta (através de ações e movimentos inclusos nos hábitos, práticas, aptidões) e implícita ou não manifesta (por estarem muitas vezes oculta no inconsciente das pessoas). Ela provoca mudanças, ou seja, inovações. Pode levar a uma integração através da aceitação, ou então pode eliminar, excluir.

Quando nos referimos à cultura, pensamos também em patrimônio. Todos somos responsáveis pela destruição ou preservação de nossos bens patrimoniais, porém só é capaz de entender essa diferença aquele que estiver disposto a parar para refletir, de forma consciente e se colocando como o principal agente de transformação.

Dos vários exemplos de patrimônios materiais e imateriais, fizemos da arte da capoeira e sua aplicabilidade no ambiente escolar o nosso objeto de estudo. Comandado pelo berimbau e demais instrumentos e pelas ladainhas, dois corpos gingam, expressando a malícia, o jogo, a luta, a dança, o esporte que a transformaram de “brincadeira proibida” em “patrimônio da humanidade.”

A origem do nome “capoeira” para alguns etnólogos, vem da língua tupi – guarani: caa, que significa “mato”, e puera, “o que foi”; segundo estudiosos, quando os escravizados fugiam, eles iam para o mato, daí “capoeira”. (SILVA, 2008).

Do tempo da escravidão aos dias de hoje, a capoeira é uma das grandes manifestações de nossa cultura. A falta de registros históricos e da memória oral impede a precisão de informações sobre as raízes africanas da capoeira. Desenvolvida a partir de dois estilos: Angola e Regional recebeu inovações com mestre Bimba, na Bahia, mas sem perder sua originalidade.

Os únicos documentos que retratam a participação dos capoeiras nos centros urbanos do Rio de Janeiro são boletins de ocorrência redigidos pelos escrivões das delegacias de polícia, registros e arquivos da movimentação carcerária da cidade do Rio e poucos literatos que retratam de maneira lúdica e deslumbrada toda a performance dos negros capoeiras, distorções intencionais de uma história de luta e dor” (RODRIGUES FILHO ; BRAGA. 2008: .52).


A origem da capoeira sempre foi controversa. A memória oral não registrava nenhuma prática ancestral igual. Muitos afirmavam (e ainda afirmam) que ela nasceu nas senzalas, outros, que foi criada nos quilombos pelos escravos fugitivos. Se levarmos em consideração o fato de que muitos negros africanos foram enviados para várias colônias americanas, perceberemos que somente no Brasil a ginga da capoeira se desenvolveu. Então ela é uma criação brasileira, com raízes africanas.

Silva (2008) afirma que:


(...) Independentemente de suas origens, a capoeira era uma forma de resistência dos afro-americanos à escravidão. Não se sabe ao certo como a capoeira se desenvolveu no Brasil, se nas senzalas ou quilombos. Sabe-se , no entanto, que foi um instrumento de resistência a um sistema dominante e opressor, uma forma de luta pela liberdade de um povo escravizado e maltratado pelo colonizador europeu.”
Sendo assim, o presente estudo tem o objetivo de discutir, preservar e socializar a tradição da capoeira visando as questões de identidade do capoeirista e da diversidade presente na capoeira, afirmando-a como manifestação de matriz afrobrasileira.

Ao realizarmos ações que levem o mestre de capoeira para dentro das escolas para relatar seus saberes e práticas, estaremos valorizando a oralidade como meio de transmissão desse saber adquirido. A escola se torna um ponto ou centro de cultura e de arte reunindo jovens, crianças, adultos, idosos, homens, mulheres, alunos e profissionais escolares.

A capoeira pode ser entendida como atividade física e ferramenta para o desenvolvimento pessoal e social, além de um recurso cultural lúdico pedagógico para nossas crianças e jovens. Desvendar seus mistérios e sal magia é a nossa meta. Descortinar os olhos para as críticas de leigos e levá-los a entender a malícia, a luta, a ginga também o é.

Vista por muitos anos e por muitas pessoas como algo ruim, sem fundamento, a capoeira caiu no gosto e na apreciação de vários setores da sociedade. O que antes era apenas jogo de escravos para passar o tempo e treinar sem que o patrão desconfiasse, hoje roda o mundo com apresentações e ensinamentos.

Que sejamos nós, através do espaço escolar a levar a capoeira para nossos alunos para que eles aprendam a diversidade da cultura africana, a riqueza de seus mestres com seus saberes adquiridos, a apreciar uma boa “roda de capoeira”, a entoar os cânticos e ladainhas, a valorizar a nossa cultura.

Para Mauro Barreto Dutra, o Mestre Sinhozinho, a capoeira é “educar por meio da arte, da disciplina e organização. É uma filosofia de vida, um amargo na boca, o imprevisível. É uma preparação para a vida cotidiana. É saber que, apesar da rasteira, a vida segue e a roda continua.”.

Já para Marcelo Barros, o professor Careca, a capoeira é “uma alternativa encontrada para tirar os jovens e crianças dos riscos das drogas, da prostituição, do lado errado da vida.”

Tanto Mestre Sinhozinho (Grupo Arte & Manha, de Joinville, SC) como Marcelo Barros (Grupo Ilê de Bamba, Ponta Grossa, PR) desenvolvem projetos com o objetivo de formar integralmente cidadãos a partir da arte e manha da capoeira.

Exemplos que justificam a aplicabilidade da capoeira como formação de jovens são muitos. No caso da Arte & Manha podemos citar a história de Joel Padilha e Zico, os quais de aprendizes se transformaram em exemplos de caráter e ensinamentos para outros jovens, podemos citar ainda o caso de Gilberto Silva, aluno do Mestre Sinhozinho e que hoje desenvolve projetos com várias crianças e jovens (entidades e Apae) na cidade de Dois Vizinhos, no Paraná, demonstrando que não existem obstáculos que não possam ser vencidos quando o respeito a si próprio e ao outro é estimulado.

Em Ponta Grossa, no Paraná, o professor Careca trabalha com crianças e jovens da periferia, desenvolvendo projetos similares ao de Joinville. Na comunidade Ouro Verde, fizeram um mutirão para erguer as paredes do barracão, transformando um antigo sonho em realidade, tirando várias crianças e jovens da rua dando um horizonte, uma visão melhor da vida. Atualmente cerca de 80 crianças participam do projeto.

Reprimida violentamente no Brasil Império e Brasil República (como na promulgação da Lei n. 437, de 11 de outubro de 1890, de autoria de Sampaio Ferraz), a capoeira se transforma em manifestação folclórica em 1937, no governo de Getúlio Vargas e em desporto, em 1972, com o ministro Marcos Maciel. Hoje, a capoeira é considerada como Patrimônio da Humanidade.

Em 2010, realizou-se o Encontro Pró-Capoeira (Programa Nacional de Salvaguarda e Incentivo à Capoeira), em Recife, Rio de Janeiro e Brasília, reunindo mestres, professores, pesquisadores e outros para ouvir os capoeiristas e possibilitar o repasse dos saberes, desejos e frustrações, salvaguardando os aspectos patrimoniais da capoeira: arte, expressão, instrumentos, etc.

Valorizando e promovendo a cultura e o saber dos mestres de capoeira dentro do espaço escolar, levaremos as crianças e jovens ao mundo mágico dessa arte, entendida como uma prática que implementa principalmente o respeito para si próprio e para o mundo que o rodeia.

“No jogo/luta/dança o corpo capoeira que se torna um só corpo com o berimbau, já traz na cabaça parte de sua essência africana” (RODRIGUES FILHO; BRAGA, 2008).

Que grandes mestres como Bimba, Pastinha, Canjiquinha, Sinhozinho, Serpente, Corró, Kinkas, Curió, Zico, Canelão, Churrasco, Cavalieri, Crispim, Valdeci, Sergipe e outros, além de formados, monitores, instrutores, contramestres e outros que fazem da capoeira a sua vida e a sua arte, possam ter suas histórias e saberes respeitados e preservados para não se somarem a outros tantos sujeitos ocultos que ajudaram na construção de nossa memória histórica.

A seguir, relatamos parte de uma música do Mestre Sinhozinho (Mauro Barreto Dutra) intitulado “Ser Mestre” para ilustrar um pouco do que a capoeira nos transmite em sua arte:



Ser Mestre de Capoeira

É bonito de dizer

Bater no peito e gritar alto oiaia

E dizer quem é você.

Ser Mestre de Capoeira

Não basta só querer

É preciso ser humilde

Quando quiser crescer

É ter sempre na memória

Lembranças da escravidão

Cicatrizes do açoite

Eeeee, do negro escravo nosso irmão

(....)

Ser Mestre de Capoeira

É ser amigo é ser irmão

É sentir na boca o amargo da ingratidão

É sentir no ombro o peso dessa vocação

E só tem um golpe certeiro

Que bota o mestre no chão

Não é benção nem rasteira

Eeeee, esse golpe é ingratidão

(...)
Quando o ser humano tem consciência do lugar que ocupa no espaço, melhor é o seu relacionamento com o grupo social a que pertence, tem maior clareza de suas relações com as demais pessoas e condições de se situar historicamente.

“O Brasil é resultado de muitas culturas e civilizações provenientes de vários continentes. Desse encontro, resultaram diversas contribuições étnicas que influenciaram a construção de nossa cultura e de nossa identidade” (SILVA, 2008).

Em seguida, apresentamos um relato de Mestre Pastinha no qual faz referências a capoeira em seu livro:

"É muito raro sair acidentado algum capoeirista em conseqüência da prática da capoeira em demonstrações esportivas, porém, tratando-se de enfrentar um inimigo, a capoeira não é dotada somente de grande poder agressivo, mas possui uma qualidade que a torna mais perigosa - é extremamente "maliciosa". O capoeirista lança mão de inúmeros artifícios para enganar e distrair o adversário: Finge que se retira e volta rapidamente; deita-se e levanta-se; avança e recua; finge que não está vendo o adversário para atraí-lo; gira para todos os lados e se contorce numa "ginga" maliciosa e desconcertante.



Não tem pressa em aplicar o golpe, ele será desferido quando as probabilidades de falhar sejam as mínimas possíveis.O capoeirista sabe aproveitar de tudo o que o ambiente lhe pode proporcionar".

Podemos concluir que a capoeira é muito mais do que ginga, malícia, jogo ou esporte. Ela faz parte de nossa cultura e de nossa memória. Saibamos valorizá-la, respeitando seus mestres e seus saberes, levando-os para socializar seus conhecimentos nas escolas e registrar suas memórias, antes que eles se tornem mais um dos muitos sujeitos ocultos de nossa história.

Essa postura supõe, por parte dos educadores, novas relações da escola com a comunidade: amplo conhecimento dos bens culturais existentes, clareza quanto a capacidade de sua utilização (como ponto de partida e não como simples ilustração), estabelecimento de redes explicativas/contexto histórico-social em que está inserida (cf. MANIQUE; PROENÇA, 1994).

Esse trabalho é desenvolvido com alunos do ensino fundamental e médio das escolas Fulton e Epaminondas, sendo também meu objeto de estudo no Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE).

REFERÊNCIAS

DUTRA, M.B. Curso de Capoeira Escolar. Apostila complementar. Joinville, 1996.

MANIQUE, A. P.; PROENÇA, M.C.; Didática da História. Lisboa: Texto Editora, 1994.

PASTINHA, V. F. Capoeira Angola. 3ª ed. Salvador; Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1998.

PINSKI, J. A Escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2006.

Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº30, março de 2008.

RODRIGUES FILHO, G; BRAGA, P.P. de F. O Movimento Capoeira: dos boletins de ocorrência do séc. XIX ao doutorado do Mestre João Pequeno no séc. XXI. In: Educação, História e Cultura da África e Afro-Brasileira: teorias e experiências. São Paulo: Ribeirão Gráfica e Editora, 2008.

SILVA, A. M. História e cultura afro-brasileira e indígena. Curitiba:Ed. Gráfica Expoente, 2008.

ULLER, A.S; CARBONAR, M.A; ULLER, W. Preservação do Patrimônio Local: Uma Questão Para a Educação Mundial? Retratando nossa Realidade em Ponta Grossa. Apucarana: Gráfica Diocesana, 2001.



Urbe, o Jornal da Manhã em Revista. Cidadão Ponta- grossense. Dezembro de 2009.








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