Para além da redundância? Robert Merton e a nova sociologia da ciência



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Para além da redundância?

Robert Merton e a nova sociologia da ciência

Introdução

Este artigo tem um duplo objetivo: aquilatar o papel de Robert Merton na sociologia da ciência, isto é, perguntar-se em que medida as abordagens dos autores pertencentes as mais diversas tradições do estudo de ciências – sócio-construtivismo, análise do discurso, teoria do ator rede, abordagem relativista – são tributárias de algum problema ou método colocado por Merton pela primeira vez; avaliar a pertinência do posicionamento de Thomas Gieryn, segundo o qual a toda a produção dos Science Studies diferente de um tratamento “institucional” da ciência, ou figura como uma redundância, ou um recuo diante de certas agendas de pesquisa sugeridas por Merton.

No que concerne ao primeiro móbil deste trabalho, tratar-lo-ei averiguando em que medida autores como Karin Knor Cetina, Harry Collins, Michel Callon, recorreram a obra sociológica de Merton. No curso do texto, ficará evidente que as referências a Merton se resumem a uma função: distanciar-se dele.

Já no que diz respeito ao segundo objetivo, encontraremos a chave para atingi-lo na argumentação em torno das teses de Gieryn acerca das “redundâncias e retrocessos”. Depois de apresentá-las, a questão será definir sua pertinácia tendo em vista duas abordagens muito distintas sobre a ciência: a discussão acerca das controvérsias científicas empreendida por Harry Collins e a teoria do ator rede, exposta, entre outros, por Bruno Latour.

Argumentar-se-á, que embora a sociologia de Harry Collins e da Bath Scholl possa ser reduzida a um mero traço do empreendimento sociológico de Merton para a compreensão da ciência, a ANT (Actors-Network-Theory) não apenas se distingue de qualquer coisa que Merton tenha dito, como se apresenta em tenaz contraposição a ele.

A sociologia da ciência de Robert Merton

A primeira obra de Merton em sociologia da ciência a que devemos nos ater se quisermos compreender suas incursões nos domínios da prática científica é Science, Technology and Society in Seventeenth Century England (MERTON,1938) . Nesta obra de juventude, o autor esboça o que virá a ser a sua compreensão sociológica da ciência que se desenvolverá com a maturidade.

Suas preocupações neste texto , publicado pela primeira vez em 1938, são com as raízes da moderna aprovação e patrocínio da ciência, isto é, com os elementos sociológicos implicados no nascimento da ciência moderna no século XVII e, por conseguinte, com as bases que lhe oferecem sustentáculo – leia-se aprovação –ainda hoje.

Paralelamente, um segundo problema parece permear esta obra, a saber, a pergunta pelos fatores sociológicos implicados na mudança de interesse entre ramos da prática científica. Isto significa se perguntar, por exemplo, pelos determinantes de um câmbio de atenção demasiada das humanidades para as “artes técnicas”.

Curiosamente, esta sociologia das ocupações – caracterizada pelo segundo problema – aparece na obra de Merton como um epifenômeno do primeiro. Isto se justifica quando nos apercebemos do fato de que a mudança de atenção dos savants das humanidades, das letras e da teologia, para disciplinas mais afins com o que posteriormente viria ser caracterizado com ciência moderna, determinou o nascimento desta última.

Ainda que o valor concedido às profissões com maior caráter empírico e valor utilitário possa ser considerado um fator importante na explicação do nascimento das ciências modernas, ele não pode figurar como o explicadum exclusivo para o despontar de tal atividade. De acordo com Merton, Rickert e Max Weber, já lhe haviam atentado para o fato de que apenas o desenvolvimento interno da ciência, isto é, os câmbios de interesse entre disciplinas, não são suficientes para explicar seu surgimento. Inspirado nestes autores, Merton nota que os problemas escolhidos para a investigação pelos cientistas estão vitalmente vinculados aos valores e interesses dominantes da época.

A partir desta constatação, as questões colocadas pelo autor passam a ser: Que valores foram tão determinantes para esta mudança de atenção para disciplinas, cujo valor utilitário e o caráter empírico nos parecem tão evidentes? São estes valores suficientes para imprimir mudanças de tal monta no campo científico?

A estas duas perguntas Merton as responderá afirmando que a ciência do século XVII é fruto de um longo período de incubação cultural. Como qualquer atividade, a ciência só passa a atrair adeptos para si na medida em que passa a ser considerada com bons olhos pela sociedade. Portanto, o incremento do número de cientistas, que teve lugar no século XVII, é um sintoma de uma mudança de disposição da época.

Contudo, falta ainda explicar o que determinou esta mudança de disposição, ou de outra maneira, que valores influíram para que a ciência se tornasse “ uma atividade de cavaleiros?”

Segundo Merton, não foi outra fonte de valores, senão o Puritanismo, que despertou e modelou os sentimentos de sua época. No entanto, cabe lembrar que o que se faz efetivo no que concerne ao Puritanismo não são fundamentalmente as crenças nele embutidas, mas antes, as orientações éticas para a ação que dão significado a certas fontes de conduta.

Vejamos que tipo de orientações o Puritanismo despertou: a) O puritanismo reforça o sentimento de salvação pela ação no mundo; b) No puritanismo assistimos o florescer de um idéia que equacionava a glorificação de Deus à utilidade social, isto é, à obras de utilidade para o “semelhante”; c) De acordo com a doutrina da predestinação, o sinal da salvação se manifesta através das boas obras, que são um signo do estado interior de graça; d) O puritanismo estabelece regras para a seleção da vocação, que se manifestam nas orientações para a escolha de um emprego que possa ser mais útil a Deus, que mais contribua para o bem comum e que mais se assemelhe às profissões doutas; e) O puritanismo valoriza incondicionalmente a razão1, pois apenas o homem, ser eleito por Deus, a possui. Outra fonte de valorização da razão é que apenas ela pode refrear e restringir o apetite que leva ao pecado e limitar a tendência à idolatria; f) O Puritanismo prevê que a educação deve ser orientada para o “ estudo de Deus em suas obras”, de modo que o estudo dos fenômenos naturais é uma maneira de por em releve a glória de Deus.

Esta lista de orientações para a conduta, apresentada por Merton como as derivações éticas da crença Puritana, apenas no serve a uma função, a saber: tornar evidente como ética Puritana sancionava a ciência e elevava a estima social daqueles que efetuavam investigações científicas.

Tal contribuição para o reforço de sentimento em relação à prática científica se torna mais evidente quando acompanhamos ponto a ponto cada uma das orientações éticas puritanas. Veja-se, por exemplo, que o argumento da utilidade social da ciência baseado na idéia de que o estudo da natureza tende a aumentar o domínio do homem sobre ela e, por conseguinte, contribuir para a bem-aventurança dos semelhantes,carecia de valor nos quadros de uma ética dos chefes religiosos medievais, que certamente, considerariam fúteis os interesses mundanos deste gênero.

Como tivemos oportunidade de constatar, as raízes da aprovação da ciência no século XVII encontram-se na convergência entre a orientação ética puritana e a conduta científica perante o mundo. A ética puritana não apenas sancionava a prática científica, como direcionava as forças dos savants no sentido desta prática.

Assim, temos a justificação da instituição ciência por valores que lhe eram, até então, totalmente estranhos. Contudo, a ciência não se vê dependente da religião indefinidamente. Há um momento em que uma própria ordem de valores capazes de justificá-la começa a se formar. É partindo deste ponto que Merton desenvolverá a tese da diferenciação institucional, que prescreve a desvinculação de uma instituição de certos valores antigamente sancionados por outra instituição – que no presente caso é a religião puritana.

A medida em que a ciência se institucionaliza, os atrativos para ingressar em tal atividade passam a ser fundamentalmente dois: oportunidades geralmente apreciadas de entrar em pautas socialmente aprovadas de associação com colegas e a conseguinte criação de produtos culturais que são estimados pelo grupo.Desta forma, o móbil para ingressar na atividade científica deixa de estar vinculado a fins religiosos e passa a se tornar latente à própria prática científica.

No momento em que a ciência ainda não se institucionalizara, suas pautas de conduta ainda precisavam ser justificadas pela ética puritana, no entanto, quando o processo de institucionalização, de fato, se concretiza, esta prática independe de valores de outras ordens para se converter em focos de interesse e sentimentos sociais. Neste percurso, se a ciência tinha como fim básico a “glorificação da obra do criador”, seu processo de institucionalização faz dela seu próprio fim.

O que é curioso neste processo é que as mesmas forças sociais – refiro-me às orientações éticas do puritanismo – que instilaram e difundiram o interesse pela ciência, assistiriam, mais tarde, ao desenvolvimento de disciplinas científicas que, de alguma forma, parecem refutar a teologia ortodoxa promovida pela ética puritana. A ciência passa a se encontrar agora, não como meio de justificação de valores teológicos, mas como o ponto alto da crítica à teologia.

Depois desta última asserção, é inevitável o seguinte questionamento: como poderia a criatura voltar-se contra aquilo que cimentou as bases para seu desenvolvimento?

Merton ocupa-se deste questionamento, respondendo que a indignação desta indagação é dissolvida quando observamos uma distinção muito cara a ele: aquela entre os interesses ou objetivos da ação dos líderes religiosos e suas conseqüência objetivas. Quando a intenção de líderes, como Baxter, foi incitar o nascimento da prática científica, com o objetivo de fazê-la serva de orientações religiosas, a conseqüência desta ação foi criar um “monstro” que fugiu a seu próprio controle e que independe dos cordões que mantinham de pé esse títere. Temos aí a descrição do que Merton concebeu com a teoria da diferenciação institucional.

Como afirmei no início desta sessão, as preocupações esboçadas no livro Science, Technology and Society in Seventeenth Century Englan(Merton,1938), são extensivas a sua obra posterior, de maneira que a questão das raízes da aprovação social da ciência passa a compor a agenda de problemas da maioria de seus textos.

A questão das raízes da aprovação da ciência e das bases culturais favoráveis a seu desenvolvimento, pode ser vislumbrada em uma série de textos. Em Ciência e Ordem Social, Merton antecipa um problema semelhante ao colocado em Science, Technology and Society in Seventeenth Century England:

“ El desarollo persistente de la ciencia sólo tiene lugar em sociedades de cierto orden, sometidas a un complejo peculiar de supuestos prévios tácitos y de coaciones institucionales. Lo que es para nosostros um fenómeno normal que no pide explicacíon y afianza muchos valores culturales evidentes por si mismos, fue em otros tiempos, y aún lo es em muchos lugares, anormal y infrecuente. (Merton,1992,p623)

Também em A ciência e a estrutura social democrática(Merton,1992), Merton parece se bater com problemas de ordens semelhantes daqueles colocados acima. A particularidade do referido artigo é o fato de aqui estarem expostas não apenas a teoria da diferenciação funcional, como também as orientações éticas capazes de regular a atividade dos cientistas em um período posterior ao seu “desligamento” da justificação religiosa. Também estão expostas neste texto quais são as novas metas desta instituição, depois de ter seus fins deslocados dos fins religiosos já, largamente, descritos.

De acordo com Robert Merton, a meta da ciência deixa de ser glorificar a Deus através do estudo de suas obras e passa a ser “ a ampliação dos conhecimentos comprovados”. Esta meta passa a orientar a estrutura de normas técnicas e morais desta instituição, de tal forma que tal estrutura é orientada para a consecução do objetivo final. A estrutura, a que me refiro, pode ser descrita através de quatro preceitos de orientação ética, quais sejam, o comunismo, o ceticismo organizado, o desinteresse e o universalismo.

Uma ramificação do tratamento da ciência enquanto uma instituição dotada não apenas de metas, mas também de normas e objetivos próprios, também aparece em um texto intitulado de As prioridades nos descobrimentos científicos(Merton,1985). Neste artigo, assistimos a uma discussão sobre a violação das normas institucionais da ciência, manifestada nas disputas sobre prioridade do descobrimento científico.

Já em Puritanismo, Pietismo e Ciência(Merton,1992), a discussão também se apresenta como uma reedição das teses apresentadas em Science, Technology and Society in Seventeenth Century England. A preocupação fundamental deste texto consiste em apresentar como a ética puritana pode canalizar o interesse dos ingleses do século XVII, de modo que a atividade científica, nascente neste período, pudesse ganhar sustentação em valores morais há muito tempo assentados.

Até aqui, esbocei algumas das principais preocupações de Robert Merton concernentes ao domínio da sociologia do conhecimento e apresentei brevemente suas soluções para estes problemas. No próximo tópico traçarei a relação de alguns sociólogos da ciência contemporâneos com a obra de Merton, procurando assim, definir a posição deste autor na sociologia da ciência.

A posição de Robert Merton na sociologia da Ciência

David Bloor, em sua obra seminal, Knowledge and Social Imagery (Bloor,1998), inicia seu trabalho com a seguinte pergunta: A sociologia do conhecimento pode investigar o conteúdo e a natureza do conhecimento científico?

A esta colocação, Bloor respondeu que ainda que muitos sociólogos acreditem que tal tarefa supere as forças de qualquer interpretação ou compreensão sociológica, de fato a sociologia do conhecimento pode estudar o real conteúdo do conhecimento científico e que a questão de alguns de seus colegas de profissão evitarem adentrar neste meandro de investigação, representa uma traição ou uma recuada em sua disciplina.

Ora, se tal resistência a estudar o conteúdo das teorias científicas realmente existe, Bloor também tem de se haver com a questão da localização desta resistência. Segundo ele, uma das fontes que inibem ou inibiram o deslanchar da sociologia da ciência anteriormente ao seu programa, e que ainda aparece como uma força reversa diante do esforço de estudar o conteúdo da ciência sociologicamente, é a idéia de que algumas crenças não requerem explicação. Isto é, que certas crenças na medida em que são tomadas como “verdadeiras, racionais, científicas ou objetivas”, parecem ser auto-explicáveis.

O exemplo disto que Bloor chama de crenças aparentemente auto-explicativas pode ser encontrado em qualquer raciocínio lógico. Se nos comportamos de uma maneira lógica ou racional, que tipo de elementos são capazes de explicar esta atitude, ou ainda, a que tipo de explicações recorreríamos? Bloor argumenta que, em uma situação como esta, normalmente afirmamos que chegamos a determinadas conclusões com base na validade das premissas e nas inferências realizadas.

De acordo com ele, este tipo de explicação é claramente tautológica. Ela sugere que se comportamos logicamente em determinado momento isto ocorreu por que obedecemos sem titubear as regras da lógica. Diante deste exemplo, Bloor conclui que não será mais o sociólogo ou o psicólogo aquele que proporcionará uma explicação das crenças, mas, ao contrário, o lógico.

Mas, por outro lado, se ocorre um erro de raciocínio não mais serão as regras da lógica a serem suscitadas como possíveis explicações para determinada crença. Recorrer-se-á, em um evento como este, às explicações sociológicas ou psicológicas para o desvio.2

É baseado nesta crítica das tradições anteriores em sociologia da ciência que Bloor formulará o Programa Forte em sociologia da ciência. Tal programa consiste em um corpo de orientações de ordem normativa para possibilitar aos sociólogos uma compreensão mais precisa dos fenômenos científicos. São quatro os imperativos do programa de Bloor: causalidade, imparcialidade, simetria e reflexividade.3

É assentado nestes enunciados, nestas orientações capazes de conformar uma metodologia, que Bloor pretende estudar o conhecimento sociologicamente em oposição a toda uma tradição de pensamento que se formou na década de 30, na Universidade de Columbia, e supostamente teve sua “derrocada” na década de 70. Refiro-me à sociologia do conhecimento de Robert Merton.

David Bloor propõe definir seu programa em relação aos esforços anteriores de teorização em sociologia da ciência e, até onde sei, foi ele o primeiro a definir a abordagem institucionalista de Merton, como uma teoria incapaz de explicar o conteúdo das teorias científicas.

Seguindo o rastro de Bloor, alguns autores que hoje se consideram clássicos neste domínio de investigação, parecem ter adotado a mesma posição em relação a Merton.

Steven Shapin, no artigo Understandig Merton Thesis afirmou que:
Nem em seu texto de 1938, como em escritos subseqüentes Merton esteve preocupado em aduzir fatores sociais para explicar a forma ou o conteúdo do conhecimento ou do método científico (Shapin,1988.p.594).

Shapin prossegue afirmando que, para Merton, o que havia para explicar não era o método ou o conhecimento científicos, mas, de outra feita, a dinâmica e a posição social da empreitada científica na sociedade. De acordo com Shapin, era esta a caixa preta a ser desvelada.

Harry Collins, em um texto muito conhecido em resposta a um ataque de um discípulo de Merton a seu “Programa Empírico Relativista”, afirma o seguinte:

A escola relativista está principalmente preocupada com a natureza do conhecimento humano, enquanto os pesquisadores Mertonianos, da maneira que vejo, estão preocupados com a natureza da comunidade científica. (Collins, 1982,p. 300)

Pablo Kreimer (Kreimer,2005), um dos mais importantes investigadores em STS da argentina, afirmou na introdução à tradução espanhola do livro “A fabricação da Ciência”, de Knorr Cetina, que Robert Merton ao tratar a ciência como uma instituição em processo de autonomização progressiva em relação às outras esferas da sociedade, ao concebê-la como uma atividade acumulativa – e não preenchida de conflitos e rupturas – e por fim, ao realizar um “recorte social” desta instituição, onde os aspectos relativos ao conhecimento são completamente excluídos da mirada do sociólogo, acaba fazendo uma sociologia dos cientistas e não uma sociologia da ciência.

A própria Karin Knorr Cetina (Cetina,1982), apesar de ir um pouco além dos autores supracitados – no sentido do amplitude da discussão que enseja4 – argumenta que tanto Merton, quanto autores como Manheim e Marx, só são incapazes de fazer sua discussão passar pelo próprio conteúdo das teorias científicas porque adotam uma perspectiva macro-sociológica. Segundo ela apenas uma abordagem contrária – e portanto, micro-sociológica – seria capaz de mostrar como as relações entre sistema social e conteúdos da ciência, ou em outros termos, entre bases existenciais e universos mentais se dão.

A última prova textual da tentativa dos Science Studies de tratar a sociologia de Robert Merton como um pensamento que se esquivou da tarefa de explicar o conteúdo e a forma do conhecimento científico, aparece em uma resposta à crítica de Harry Collins e Steven Yarley à teoria do ator rede, levada a cabo por Bruno Latour e Michel Callon . Diante da afirmação dos dois primeiros autores, de que Callon não era um biólogo marinho e, portanto, não poderia estudar a vida de animais marinhos como, tampouco, Latour não conheceria nada que dissesse respeito à tecnologia e, desta forma, deveria centrar seus esforços sobre os humanos, Callon e Latour respondem do seguinte modo:
Esta acusação, quando advinda do status quo científico é freqüente. Por que ela foi afirmada por sociólogos da ciência? Se eles fossem mertonianos isto seria aceitável, pois a orientação de Merton é que nos limitemos à sociologia dos cientistas e deixemos a ciência segura nas mãos dos especialistas (Callon, Latour. 1992, p.357).

O desafio lançado por Thomas Gieryn

Até aqui, minha tentativa consistiu em apresentar o problema da definição de tarefas da sociologia da ciência, pela primeira vez trazido à tona por David Bloor, ao formular o Programa Forte e, posteriormente, como procurei mostrar no último tópico, afirmado e reafirmado por vários sociólogos importantes.

Entre estes autores seguros de que o Programa mertoniano representa uma espécie ultrapassada de sociologia, justamente por não tocar naquele que é considerado o problema fundamental da disciplina – explicar o conteúdo e a natureza do conhecimento científico – desponta um autor que, até onde sei, foi o primeiro a irromper com uma reação a esta espécie de mainstream na sociologia da ciência.

Estou me referindo a Thomas Gieryn, aluno e continuador da sociologia de Merton nos Estados Unidos. Gieryn em dois textos foi capaz de causar uma enorme polêmica entre os maiores representantes da “nova” sociologia da ciência por defender a tese de que todo o desenvolvimento desta disciplina após a década de 60, ou consistiu em uma “redundância” em relação ao que Merton havia proposto ou um recuo no que diz respeito às questões constitutivas da sociologia.

Gieryn (Gieryn,1982) comenta que a pretensa novidade dos programas relativistas e construtivistas5 em sociologia da ciência é um pleito injustificado. Ele nos mostra que vários dos supostos descobrimentos da “nova” sociologia da ciência eram, de fato, resultados ou derivações que se poderia esperar da leitura da obra de Merton. É nesse sentido que ele é capaz de tratar esta nova classe de sociologia, que se costuma designar pós-kuhniana6, ou como um projeto redundante em relação à obra de Merton, pois suas orientações metodológicas não são essenciais para tratar dos problemas colocados por eles e obter alguma resposta, ou como um recuo, na medida em que qualquer questão que se pretenda uma novidade nos programas relativistas e construtivistas representa uma dissimulação em relação à questão constitutiva da sociologia da ciência.

Antes de passar ao problema da questão constitutiva deste campo, é preciso reconhecer no texto de Gieryn quais são as fontes de redundância nos programas relativista/ construtivista. A primeira delas é a afirmação de que os fatores culturais e sociais são fundamentais para a construção do conhecimento científico, colocação que para o autor é um verdadeiro truísmo para qualquer sociólogo da ciência. Gieryn não apenas reconhece como esta afirmação é recorrentemente tratada como uma novidade nos programas posteriores à Merton, como é capaz de nos trazer evidências textuais na obra deste último autor que já denotam sua preocupação com este problema na metade da década de 50.

No que diz respeito à segunda fonte de redundância, Gieryn a define do seguinte modo:

O conhecimento científico é aproximado, e desde que os cientistas raramente estão certos sobre suas crenças, eles tendem a se divergir sobre elas, negociá-las e ter dúvidas sobre a presumida validade dos seus achados. Por causa da falibilidade do conhecimento científico a atitude dos cientistas diante de teorias (e até de fatos duros) é de hesitação: elas são objeto de negociação[...]( Gieryn,1982,p.284)

Novamente, Gieryn aponta que é difícil encontrar algum sociólogo que não concordasse com as idéias expressas nas linhas anteriores. Além disso, os escritos de Merton acerca da ambivalência dos cientistas entre o “ceticismo organizado” e a convicção da verdade ou validade de suas teses, parecem sugerir os mesmos tipos de explicação que aquelas mobilizadas pela “nova” sociologia da ciência.

A terceira e última redundância localizada por Gieryn nas propostas construtivistas e relativistas é aquela concernente à afirmação de que as crenças e pressupostos dos cientistas constrangem o que pode ou será conhecido. Para este terceiro apontamento, o autor traz à baila os mesmos tipos de explicação das “redundâncias anteriores”, ou seja, a afirmação ou de que Merton já tinha iniciado esse debate, ou ainda, que seu trabalho inevitavelmente levaria a estas conclusões.

No que diz respeito aos recuos da “nova” sociologia da ciência Gieryn afirma serem estes apenas dois: a idéia segundo a qual, se os elementos sociológicos parecem relevantes para a construção do conhecimento científico, eles são a única explicação para este fenômeno. Esta primeira conclusão Gieryn deriva da afirmação de Harry Collins de acordo com o qual o “ mundo natural tem pouca ou nenhuma importância na construção de teorias científicas”, apontamento este que parece ir contra àquela que Gieryn estabelece como a questão constitutiva da sociologia da ciência – que segundo autor, pode ser desdobrada em duas, a saber: o que explica as origens da ciência moderna no século XVII e sua ascendência em quatro séculos à posição de monopólio cognitivo em relação às outras esferas do saber? A segunda questão é : o que torna a ciência única entre as outras instituições produtoras de conhecimento?

De acordo com Gieryn, a afirmação de Collins representa um recuo em relação a estes dois problemas porque uma das formas de respondê-los, isto é, de mostrar como a ciência é uma instituição única entre seus pares, seria estudar quais os processos institucionalizados que definem a relação entre o mundo natural e o mundo social. Isto significaria mostrar como é que a o “mundo natural” interage com a ciência de uma maneira diferente daquela que acontece em outras instituições.

O segundo e último recuo da sociologia da ciência posterior a Merton pode ser encontrada no fato da “nova” sociologia da ciência - e aqui Gieryn se refere fundamentalmente à Knorr Cetina – reduzir o campo de investigação à situações locais de análise, isto é, à análise de produção de conhecimento no contexto do laboratório. De acordo com o autor da tese das “redundâncias e retrocessos”, ao fato de escolher o laboratório como o único espaço onde é possível realizar uma investigação, está impregnada a suposição de que as atividades dos cientistas são indiosincráticas e estão apenas determinadas pelo contexto onde trabalham. Isto é claramente um retrocesso diante da tentativa de estudar a “instituição” ciência como um todo.

As críticas de Gieryn à nova sociologia da ciência, como já deve ter ficado evidente, representam uma leitura diferente daquelas apresentadas anteriormente, tanto no que concerne à importância da sociologia da ciência de Robert Merton, quanto no que diz respeito à capacidade das teses deste autor para lidarem com o desafio, que como vimos, foi pela primeira vez, antecipado por Bloor.

O trabalho que pretendo realizar nas seções seguintes, não procurará discutir se ,de fato, coube a Merton empreender não apenas uma sociologia dos cientistas, mas, também uma sociologia da ciência. O objetivo das seguintes sessões, em conformidade com o que foi exposto logo na introdução, é avaliar a asserção de Gieryn, segundo a qual, toda a produção dos Science Studies posterior a obra de Merton, figura como uma redundância em relação ao que este autor escreveu.

Para lidar com este problema, elegi dois dos principais representates dos Science Studies: Harry Collins e Bruno Latour. Argumentarei que se aquilo que Gieryn chama de “um truísmo para qualquer sociólogo da ciência” - a idéia segundo a qual fatores sociais e culturais são fundamentais para a construção do conhecimento científico – certamente é uma afirmativa válida para Harry Collins, ela não é, de nenhuma maneira para Bruno Latour.

O principal guia para tal argumentação reside na constatação que nos informa que se Harry Collins é um representante – ainda que não totalmente fiel, pois incorre nos recuos apontados por Gieryn – do que se poderia chamar de escola sociológica “Mertoniana”, Bruno Latour e a ANT, ao promoverem uma reformulação ontológica, que passa a conferir agência às coisas, não apenas são totalmente estranhos a qualquer coisa que Merton tenha dito, como soaria absurdo para este último filiar-se, ainda de que maneira fraca, à ele.

A agenda de Robert Merton retomada: A sociologia de Harry Collins

Definitivamente, não faz parte da agenda de pesquisas de Harry Collins se perguntar pelas raízes da moderna aprovação da ciência moderna. Tampouco é um tema caro a ele, descobrir na própria organização científica, padrões de orientação prática para a ação, vinculados a certos objetivos definidos de antemão, pela instituição.

A principal preocupação da sociologia de Harry Collins consiste em estudar a prática científica a despeito de qualquer “quadro formal” onde possamos enquadrar as ações dos cientistas. Para tanto, cabe ao autor não averiguar se os cientistas se comportam com respeito a certas regras de orientação, mas antes, verificar através de estudos de caso, como os cientistas procedem em sua prática cotidiana. É apenas seguindo a máxima, que nos prescreve a abandonar definições que precedem o estudo de caso, que podemos, de fato, fazer uma boa sociologia da ciência.

Isto, todavia, não nos impede de estabelecer certos padrões e ordenamentos. Contanto que eles sejam posteriores aos estudos de caso e sejam produzidos com respeito ao próprio account dos cientistas sobre a atividade científica, podemos apresentá-los. Algo que demonstra esta idéia com muita clareza, é a descrição da circularidade do experimento – experimenter’s regress :

Tal idéia pode ser resumida da seguinte maneira: em tempos de controvérsia no interior da comunidade científica aquilo que conta como uma resultado experimental correto, depende da existência ou não do fenômeno descrito pelo experimento. Contudo, para conhecermos a existência de tal fenômeno é necessário encontrar um experimento ou um artefato capaz de detectá-lo. Mas não saberemos se realizamos um bom experimento (leia-se, se foi criado um artefato adequado para detectar um evento) até que o tenhamos testado e obtido o resultado correto. No entanto, não saberemos o que o resultado correto é até encontrarmos uma boa maneira de medi-lo. (Almeida, 2007)

Tal como a idéia de experimenter’s regress, é possível aduzir outras máximas para o estudo da conduta dos cientistas, como são, os três imperativos sugeridos por Collins em Stages in the empirical Programme of the relativism(Collins,1982). Como procurei proceder na análise da “sociologia das controvérsias ceintíficas” de Harry Collins, em Chismorreos sociológicos: Por uma crítica a la sociologia de lãs controvérsias científicas, irei me dirigir novamente para os predicados da prática científica estabelecidos naqueles três estágios. Contudo, agora com um novo objetivo: avaliar em que medida estes predicados são tributários da sociologia de Merton.

O primeiro predicado nos informa que, em tempos de controvérsia, a flexibilidade interpretativa do experimento previne que ele figure como um experimentum crucis, isto é, como a instância decisiva para dirimir uma querela. Tal como Gieryn já havia antecipado, a flexibilidade interpretativa dos cientistas diante de um experimento não é uma assertiva que se difere em grande medida da posição de Merton segundo a qual, uma vez que os cientistas raramente estão certos sobre suas crenças, ele tendem a divergir sobre elas. A orientação pautada na idéia de “ceticismo organizado” parece nos sugerir justamente os apontamentos para um padrão de conduta como este. Ou não seria, como diz Merton, a suspensão do juízo até que os fatos estejam em nossas mãos e o escrutínio imparcial das crenças de acordo com critérios empíricos e lógicos, a representação do predicado, apontado por Collins, da flexibilidade interpretativa?

Ainda que as similitudes sejam evidentes, é necessário fazer uma observação para, de alguma maneira, moderar a comparação entre a idéia de flexibilidade interpretativa e o “ethos” do ceticismo organizado. Ao contrário do que afirma Merton, para Collins, o final da flexibilidade interpretativa de um experimento só tem lugar quando os cientistas decidem coletivamente parar de discutir. Merton, por seu turno, nos informa que “ o escrutínio imparcial das crenças” termina quando “os fatos são apresentados”.

O segundo predicado da análise relativista de Collins, nos sugere que os sociólogos devem reconhecer os mecanismos que limitam a flexibilidade interpretativa do experimento e permitem que a controvérsia chegue a um fim. Quando a este segundo ponto, não tentarei procurar correspondentes da obra de Merton. Reconheço que, até onde sei, trata-se de uma idéia inteiramente inovadora em relação ao que propôs este último. Pois, em meu entender, o único elemento, para Merton, capaz de limitar o escrutínio imparcial de teorias é apresentação da evidência, que como sabemos, é estranha para Collins a idéia de uma evidência que não fora previamente “ negociada como evidência”.

Ainda que não seja possível encontrar qualquer relação entre o segundo ponto e a obra de Merton, o terceiro predicado da análise relativista nos sugere uma verdadeira correspondência com as orientações teóricas deste autor. A afirmação de Collins segundo a qual, uma sociologia da ciência que se preze deve tentar conectar o processo de fechamento de controvérsias à estrutura política e social da época – leia-se, se quisermos explicar a ciência, devemos fazer referência ao contexto onde ela é produzida – como disse Thomas Gieryn, é não apenas um verdadeiro truísmo para a maioria dos sociólogos da ciência. Acredito que este truísmo, ainda que tenha sido estabelecido como tal por Merton, encontra seus fundamentos sediados tanto nos pensamentos de Marx, como no de Durkheim.

A tentativa de “reduzir” a sociologia da ciência de Harry Collins a uma série de problemas colocados por Merton é uma ação complicada, que, como tal, exige precauções. O fato de haver ou não similitude entre os dois programas de pesquisa, deve ser procurado não nos aspectos particulares das obras dos dois autores, mas, ao contrário, em seus caracteres gerais. É senão, com atenção a características desta ordem, que podemos afirmar que a sociologia de Collins, de alguma maneira, representa uma continuação em relação à sociologia Mertoniana.

Talvez, os argumentos trazidos até aqui para tentar explicar esta última proposição, não sejam suficientes para tornar evidente a similaridade entre os dois programas de pesquisa. Contudo, a apresentação a ser feita em seguida, que compreende o pensamento de Bruno Latour, desfará quaisquer objeções embrionárias que porventura se formarem.

A argumentação no próximo tópico procurará mostrar como o programa de Bruno Latour para a “sociologia da ciência” representa uma ruptura qualitativa, não apenas com Merton, mas também com Collins. Mostrando esta ruptura, a relação entre Collins e Merton saltará, de maneira mais evidente, às vistas.

A reformulação ontológica da ANT

Recentemente entrei em contato com uma obra que, para muitos, apenas pelo título, causará escárnio e riso. Trata-se de Thinking Through Things, trabalho coletivo de alguns pesquisadores de Cambridge, que logo na primeira frase de sua introdução nos brinda com um questionamento que, de alguma maneira, orientará este último tópico de minha exposição:

What would an artefact-oriented anthropology look like if it were not oriented to material culture? (Henare, Hoolbraad,Wastell,2007,p.10)

Este questionamento pode ser reconfigurado, de modo a adequá-lo aos nossos objetivos:

What would an artefact-oriented sociology of science look like if it were not a matter of laugh ?

Diante da primeira pergunta – que aparece originalmente na obra citada – os autores responderam afirmando que uma antropologia orientada para os objetos ou artefatos ,que não se vincule aos estudos sobre cultura material, tão caros aos antropólogos marxistas, deve promover uma suspensão da angústia epistemológica, em direção a uma virada ontológica. Vale dizer, ao invés de se dirigir para elaborações de perspectivas teóricas capazes de reconfigurar nosso conhecimento, de modo a adequá-lo as representações de nossos informantes sobre a realidade, deve voltar-se para compreender como certos objetos , encontrados no campo, são capazes de deslocar perspectivas teóricas primeiras.

Respondida a primeira pergunta, voltemo-nos para a segunda colocação. O que seria uma sociologia da ciência orientada para os objetos, que não fosse apenas uma questão de escárnio e riso. Como seria possível levar a sério colocações como as seguintes: Os objetos têm história! A ação dos objetos....! ?

O presente tópico deste trabalho procurará lidar com estas questões, conectando-os àqueles pontos que, logo na introdução, ofereciam o norte deste artigo. Nesse sentido, a proposta aqui é mostrar que ruptura pode ser atribuída ao pensamento de Bruno Latour e, extensivamente, aos pensadores da ANT, de modo a mostrar a não convergência de suas preocupações com as de Robert Merton. Argumentar-se-á que o que Gieryn chamou de um verdadeiro truísmo para a sociologia da ciência, não passa de um pressuposto a ser abandonado, quando nos dirigimos com mais atenção ao pensamento de Bruno Latour.

Isto porque, este autor, ainda em Jamais fomos modernos(1994), apresenta-nos uma tenaz contraposição a toda explicação da ciência, ou da prática científica, que se reclame exclusivamente sociológica. Antecipando qualquer falha de memória, lembremo-nos da reformulação do princípio de simetria, avançando no sentido de uma simetria generalizada, que fosse capaz de levar a cabo não apenas uma sociologia dos erros, desvios, incongruências, mas, de outra feita, da ação dos objetos.

Este mesmo autor, no terceiro capítulo de A esperança de Pandora(2001), tenazmente bombardeia a operação moderna de criar uma abismo entre fatos e contexto, ou ainda, entre explicações epistemológicas e sociológicas, asseverando que embaixo deste falso precipício, certos agentes se reproduzem, escapando a concessão exclusiva a qualquer um deste pólos. Não é então sem motivos que no mesmo capítulo, quando a atenção de Latour se volta para o trabalho de Joliot, que o modelo baseado na suposição da existência de dois domínios – contextos e fatos – seja substituído por um mito mais vascularizado, isto é, pelo que o próprio autor chamou de sistema circulatório da ciência.

A oposição ao conhecido clichê “explicação social da ciência”, se torna mais veemente em sua última grande obra, a saber, Reassembling the Social.

Neste texto, a proposta de Latour é abandonar a noção de social como substância. A explicação social, não pode ser concebida como um domínio à parte, isto é, um domínio que explica a si mesmo, mas também temas com as quais as ciências sociais parece ter certa afinidade, tais como a economia, a ecologia e a história. De acordo com Latour, é preciso reconfigurar a noção de social, para retomar o objetivo primeiro da sociologia: ser uma ciência da vida coletiva, ou ainda, uma ciência dos coletivos.

Ao invés de permitir ao social a possibilidade de figurar como o domínio no qual podemos recorrer para explicar outros domínios, devemos entendê-lo como mais um dos elementos que circulam em frágeis condutores. O social passa a ser então um tipo de conexão entre coisas que não são elas mesmas sociais. A sociologia sobrevive então, não explicando que forças estranhas há por trás de qualquer atividade, porque não há nada por trás delas.

Recorrer a uma explicação social, nada mais é que confundir o que está sendo explicado com o a explicação. Além do mais, as associações – novo objeto da sociologia – podem não ser constituídas de elementos exatamente sociais.

Como foi dito no penúltimo parágrafo, não é mais tarefa da sociologia revelar a substância presente por trás de qualquer atividade. Isto se revela em certas máximas:

a)Os atores não são apenas meros informantes

b) A tarefa não é mais impor a ordem, mas deixar que os atores ordenem o mundo.

Antes de nos perguntarmos o que compreende tais atores, e dirigirmos nossa atenção para o que posteriormente chamarei de “reformulação ontológica, vinculada a uma transmutação do conceito de ação, é importante que nos atenhamos a máxima b).

No primeiro capítulo de Reassembling the Social, podemos ter uma idéia do que Latour se refere quando nos informa que a tarefa da sociologia não é mais impor a ordem, mas deixar que os atores ordenem o mundo. Neste capítulo, o autor nos propõe operar da seguinte maneira: ao invés de trabalharmos com sentenças como: “Agregados sócias são fundamentalmente feitos de X”, ou “São compostos, fundamentalmente, de X substância”, devemos, ao contrário, seguir os ordenamentos de grupos realizados pelos nossos próprios informantes. Devemos, antes de definir agregados, seguir as formações de grupos, que se revelam, de maneira mais fundamental, pelos traços deixados ao longo do caminho. Também constitui trabalho legítimo operar o estudo das controvérsias sobre as definições de grupo, local onde possamos assistir o trabalho para manter vivos certos agrupamentos.

Exemplificada a idéia segundo a qual, devemos seguir os ordenamentos do mundo pelos atores, cabe agora nos perguntar o que o pensamento de Latour compreende como tais.

Para que se torne claro a noção de ator no pensamento deste autor, é importante, como apontei nas linhas acima, definir o que ele concebe como agência, ou ação. Sem esta primeira definição, a tentativa de explicação da assertiva que concebe os objetos ou não-humanos como agentes, é inócua.

Para Latour, a ação só pode ser definida de uma maneira: Agir é imprimir diferença. Uma ação, só é digna de receber este nome, caso ela cause alguma diferença. A noção de agência, passa assim a estar desconectada de qualquer definição que a tome como “ ação compreensiva”, ou “ ação por forças desconhecidas” – ditas sociais. Quando a noção de agência ganha amplitude de uma conceituação como a realizada acima, passa a ser possível falar de uma ação do martelo, da porta, do micróbio.

By contrast, If we stick to our decision to start from controversies about actors and agencies, than any thing that modify a state of affairs by making a difference is an actor. (Latour,2005, p.71)

Esta reconfiguração da noção de ação é o que permite a Latour afirmar que os objetos agem e que, se quisermos compreender a prática científica de maneira mais “realista” – mas aqui, trata-se, como disse o próprio autor, de um realismo histórico sem substância – temos de nos haver com as ações – leia-se modificações ou translações – dos meios de cultura, dos microscópios, dos pedocomparadores e das máquinas de tomografia computadorizada.

Depois desta breve exposição do pensamento de Bruno Latour, penso ter deixado clara o abismo que separa a compreensão de Harry Collins e também de Merton do pensamento da ANT. Merton e Harry Collins se inscrevem justamente naquilo que Latour chamou de “sociologia do social” e, para eles, é valida a máxima, concebida por Gieryn como um truísmo, de que a sociologia da ciência é uma disciplina que tem como principal móbil promover uma explicação social dos fenômenos científicos.

Quando no segundo tópico deste trabalho, mostrei que a crítica mais comum a sociologia de Merton, se baseia na idéia segundo a qual, ele teria se voltado muito mais para os cientistas do que, propriamente, para a ciência, gostaria de concluir que esta afirmação também é válida para Collins. Para este último autor, descrever algo como, por exemplo, a descoberta de uma fato científico, é nada mais que descrever que ações humanas estiveram por trás deste descobrimento. Pretende-se, ao descrever a ação dos cientistas ao descobrir determinada substância, ou elemento químico, descrever o nascimento do próprio fato.

A sociologia de Latour não recai neste mesmo problema. Descrever o nascimento de um fato científico, como por exemplo, a fissão nuclear, é descrever a rede de conexões traçadas para que tal fato apareça. Tal rede de conexões, como já pode ter ficado claro, não compreende apenas os jogos políticos dos cientistas, suas negociações, suas intrigas, mas, sobretudo, os deslocamentos que a fissão nuclear, ainda em estágio embrionário, tem de fazer para que ela própria possa aparecer.

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1 De acordo com Robert Merton, para os puritanos “razão” significa considerar racionalmente os dados empíricos.

2A crítica à idéia segundo a qual algumas crenças são auto-evidentes, e por isso não requerem qualquer tentativa de compreensão sociológica, não é particular a David Bloor. Steven Shapin e Simon Schaffer argumentaram em “Leviathan and the air pump: Hobbes, Boyle and the experimental life” que tratar crenças como não sendo “auto-evidentes” significa julgar-se estranho em relação ao que se analisa, isto é, colocar-se em posição de saber que há alternativas às crenças e práticas tomadas como auto-explicativas. Segundo eles, um dos modos de efetuar este exercício é identificar e examinar episódios de controvérsias.

3 Não me detive na explicação dos quatro pontos do programa forte em sociologia da ciência por economia de espaço.

4Refiro-me ao maior vigor da discussão de Knorr Cetina não apenas por ela inserir o debate entre a sociologia da ciência propugnada por Merton, e aquela característica da nova sociologia da ciência na discussão muito presente na sociologia entre abordagens macrosociológicas e microsociológicas. Knorr Cetina, além de fazer referência a este ponto abre em diversos momentos canais de discussão tanto com o realismo científico, como com outras tradições mais clássicas de pensamento na filosofia da ciência, além de efetuar certas distinções quanto ao tipo de relativismo a ser adotado por uma abordagem construtivista para a ciência.

5O expoente do Programa empírico relativista em sociologia da ciência é Harry Collins. Enquanto a principal proponente do construtivismo é Karin Knorr Cetina. Para uma introdução a estas duas abordagens ver “ The empirical Program of Relativism” de Collins e “ The manufacture of knowledge” de Knorr Cetina.

6Para uma discussão em termos das heranças deixadas por Kuhn para os teóricos em sociologia da ciência, ver PINCH, Trevor. Kuhn – The conservative and radical interpretations: Are some Mertonians “Kuhnians” and some Kuhnians “ Mertonians”? Social Studies of Science, Vol 27, Nº 3 (Jun,1997)




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