Para a “popularização” do ideal da Ciência Aplicada no decorrer do século XVIII, de acordo com Margaret C



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JEAN-THÉOPHILUS DESAGULIERS: UM NEWTONIANO

ENTRE A PATRONAGEM E O MERCADO.
LUIZ CARLOS SOARES

(Departamento de História /UFF - luizcsoares@globo.com)

INTRODUÇÃO
Na Inglaterra do século XVIII, verificou-se um processo de disseminação da Filosofia Mecânica e Experimental Newtoniana, que criou um clima de fascinação em relação às possibilidades de aplicação deste novo conhecimento às necessidades da vida produtiva e ao bem-estar geral da população. Para esta disseminação da Filosofia Newtoniana e a emergência de um ideal de Ciência Aplicada, foi fundamental a atuação de muitos Professores Independentes e/ou Itinerantes que percorriam toda a Inglaterra, ministrando cursos de 10 a 16 sessões ou aulas. Estes cursos, com exposição de conteúdos e atividades experimentais, eram ministrados para uma clientela bastante diversificada e cada vez mais crescente, que incluía também uma audiência mais especializada, formada por industriais, engenheiros civis, mecânicos, além de cavalheiros e damas diletantes, cujo único objetivo era conhecer os novos ensinamentos que emanavam dos Principia e da Optica de Newton, na interpretação destes Professores Independentes.

Neste trabalho, procuraremos focalizar especificamente a trajetória intelectual de Jean-Theóphilus Desaguliers (ou John Theophilus Desaguliers,) que foi “Curador” ou “Experimentador Oficial” da Royal Society de Londres e se tornou um pioneiro na divulgação do Newtonianismo e um dos maiores e mais respeitados Professores Independentes de Filosofia Mecânica e Experimental da primeira metade do século XVIII.

1) A TRAJETÓRIA DE VIDA DE DESAGULIERS.
Jean-Théophilus (ou John Theophilus) Desaguliers nasceu em 13 de março de 1683, na cidade francesa de La Rochelle, em uma família de Huguenotes (Calvinistas franceses). A própria cidade de La Rochelle era um grande reduto Huguenote desde os primeiros momentos da penetração das idéias reformistas em território francês.

Entretanto, em 1685, com dois anos de idade, o pequeno Desaguliers foi obrigado a deixar a sua cidade natal e a França em virtude da revogação do Edito de Nantes, por Luiz XIV. Com esta revogação, os Huguenotes tiveram seu culto proibido e os religiosos desta denominação protestante foram obrigados a deixar a França num período máximo de 15 dias, sendo terminantemente proibido retirar seus filhos do país, pois estes deveriam ser educados em conformidade com os princípios Católicos.1

Apesar desta proibição, o pai do pequeno Desaguliers, o Reverendo Jean-Theóphilus Desaguliers, saiu da França e levou seu filho para Guernsey, escondido num barril transportado por um navio, de acordo com alguns relatos. A residência dos Desaguliers em Guernsey não durou mais do que nove anos, indo pai e filho residir na Inglaterra em 1694. Chegando a Londres, o Reverendo Desaguliers se ordenou na Igreja Anglicana e se tornou ministro da Capela Francesa, de Swallow Street.2

Desaguliers (filho) foi educado por seu pai até os 16 anos, quando então ingressou na Escola de Sutton Coldfield, em Warwickshire. Posteriormente, ele ingressou no Christ Church College, em Oxford, onde ele se graduou, obtendo o título de Bachelor of Arts (Bacharel em Artes). Em 4 de junho de 1710, ele se ordenou Diácono da Igreja Anglicana e, no mesmo ano, ingressou no Hart Hall College de Oxfrod, como Lecturer (leitor) de Filosofia Natural e Experimental, substituindo o Dr. John Keill. Em maio de 1712, Desaguliers obteve o título de Master of Arts (Mestre em Artes) e, pouco tempo depois, em 14 de outubro deste ano, ele se casou com Joanna Pudsey (natural de Kidlington, nas cercanias de Oxford), na Shadwell Church.3

Desaguliers lecionou no Hart Hall College até o ano de 1713, quando, então, decidiu viver na região metropolitana e foi residir, com sua esposa, na casa de Channel-Row, em Westminster. Nesta casa, ele viveu até pouco tempo antes de sua morte, quando foi obrigado a se mudar em virtude do início das obras para a construção de nova ponte de Westminster, sobre o Rio Tamisa. Desaguliers foi residir, então, na Bedford Coffee-House, em Covent Garden, onde faleceu em 29 de fevereiro de 1744.4

Como Desaguliers tivera a experiência anterior como Lecturer de Filosofia Natural e Experimental no Hart Hall College de Oxford, ensinando principalmente os princípios da Física Newtoniana, não foi difícil sua entrada na Royal Society de Londres, presidida pelo próprio Isaac Newton. Em 29 de julho de 1714, ele foi eleito Fellow da Royal Society, sendo isento do pagamento das taxas de admissão em reconhecimento pelo trabalho realizado em Oxford. Pouco tempo depois, em substituição a Francis Hauksbee (que falecera em abril do ano anterior), Desaguliers foi nomeado Curador (Curator) da Royal Society, o que correspondia de fato a uma espécie de “Experimentador Oficial” da entidade. Embora não tivesse um salário fixo, Desaguliers recebia periodicamente um pagamento que variava de acordo com o grau de complexidade dos experimentos feitos e das comunicações apresentadas por ele à entidade. Apesar de ter diversificado muito suas atividades, com sua atuação profissional religiosa e ministrando aulas públicas de Filosofia Natural e Experimental, Desaguliers conservou o posto de Curador da Royal Socitey até 1743, um ano antes de sua morte.5

Segundo Pierre Boutin, o ingresso de Desaguliers na Royal Society e sua nomeação para o cargo de Curador, ou Experimentador Oficial, deveram-se a uma articulação encabeçada pelo próprio Newton (seu presidente perpétuo) e à “vontade” da instituição “de afirmar a hegemonia newtoniana”. Isso porque estes acontecimentos coincidiram com a ascensão ao trono de George I, de Hanover, e os rumores de que o filósofo alemão Leibniz (o maior desafeto intelectual de Newton) chegaria à Inglaterra, acompanhando a comitiva do novo monarca. Na realidade, a candidatura de Desaguliers como Fellow da Royal Society tinha sido apresentada à instituição por Sir Hans Sloane, em julho de 1713 (pouco depois do falecimento de Francis Hauksbee), que recebeu recomendações do Dr. John Keill sobre a capacidade e competência de seu antigo discípulo como “Filósofo Experimental”. Inclusive, na ocasião da apresentação de sua candidatura, Desaguliers apresentou aos membros da Royal Society diversos experimentos sobre o prisma que Newton incorporaria, posteriormente, à quarta edição da Opticks, como resultados do trabalho de seu colaborador. Entretanto, foram os rumores da possível chegada de Leibniz e a necessidade de reafirmação do Newtonianismo no seio da Royal Society que apressaram a eleição de Desaguliers e sua nomeação como Curador da instituição, cuja maior tarefa seria, na realidade, trabalhar pela legitimação e propagação das teorias do seu presidente perpétuo, desenvolvendo junto a ele uma sólida relação de amizade e fidelidade.6

Meses depois da sua nomeação, na sua primeira viagem à França, em fevereiro de 1715, Desaguliers se encontrou com Pierre Coste, que era reconhecido como um grande divulgador da obra de Locke na Europa Continental, e solicitou-lhe a tradução da Opticks para a língua francesa. Tratava-se de dar uma maior dimensão às idéias Newtonianas, sobretudo aquelas que integravam a Opticks, que era considerada a obra mais acessível de Newton, e sua tradução francesa poderia contribuir para uma maior aceitação do Newtonianismo nos círculos filosóficos da França e da Europa Continental. A tradução de Pierre Coste só viria a público cinco anos depois de seu encontro com Desaguliers (em 1720), em Amsterdam, contribuindo, assim, para uma maior divulgação do Newtonianismo entre os muitos intelectuais continentais conhecedores da língua francesa.7

A mudança para a casa de Channel-Row abriu novas possibilidades de trabalho para Desaguliers, que começou a ministrar cursos de Filosofia Natural e Experimental (incluindo, aí, a Astronomia) para uma clientela variada, pois ele percebera que, na região metropolitana (formada pelas cidades contíguas de Londres e Westminster), “a Filosofia Newtoniana [era] recebida tão generalizadamente entre as Pessoas de todas as Classes e Profissões, e mesmo entre as Mulheres”.8

Na realidade, Desaguliers foi a primeira pessoa a ministrar aulas e cursos públicos de Filosofia Natural e Experimental na região metropolitana (e em toda a Inglaterra) para uma audiência diversificada. Através destes cursos e do auxílio de experimentos, ele procurou, numa linguagem simples, difundir amplamente os princípios mecânicos, pneumáticos, hidrostáticos e hidrodinâmicos anunciados pela Filosofia Newtoniana, como assinalou a historiadora Margaret C. Jacob.9 Desse modo, ele introduzia um novo tipo de atuação profissional para os estudiosos da Filosofia Natural e Experimental, como Professor Independente e não vinculado às instituições oficiais de ensino (sobretudo as universidades de Oxford e Cambridge). Desaguliers pôde ver alguns de seus alunos e amigos abraçarem a atividade de Professores Independentes, que, ao longo do século XVIII, possibilitou a obtenção de meios de vida para muitos homens, em toda a Inglaterra, que ministravam cursos em suas próprias casas ou percorriam incessantemente as diversas cidades do país.10 Desaguliers dizia que, provavelmente nos anos 1710 e 1720, existiam “onze ou doze Pessoas, que ministravam Cursos Experimentais, naquele tempo, na Inglaterra e outras Partes do Mundo”, das quais “Eu tive a Honra de ter Oito deles como meus Alunos, cujas Descobertas posteriores se tornaram uma Vantagem para mim mesmo”.11

O ingresso de Desaguliers na Royal Society possibilitou-lhe não apenas uma maior aproximação com o próprio Sir Isaac Newton, como também com diversos e poderosos aristocratas. A partir desses contatos e relacionamentos, Desaguliers foi apontado, em 3 de novembro de 1716, Capelão de James Brydges, então Conde de Carnavon (Earl of Carnavon) e posteriormente 1º. Duque de Chandos, que se tornou um dos principais patronos do “Filósofo Newtoniano”. Em 8 de dezembro de 1717, ele foi ordenado padre da Igreja Anglicana pelo Bispo de Ely e, em seguida, foi contemplado com um benefício eclesiástico (living) em Bridgeham, na cidade de Nowfolk, com o valor de 70 libras anuais, que lhe foi concedido pelo Lorde Chanceler (Lord Chancelllor). Embora já fosse reconhecido como um eminente Filósofo Natural e Experimental, Desaguliers recebeu, em 16 de março de 1718, o grau de Doutor em Direito pela Universidade de Oxford, o que, evidentemente, aumentaria mais ainda o seu prestígio junto à aristocracia e aos círculos do poder.12

Como conseqüência do aumento de seu prestigio, em 28 de agosto de 1719, Desaguliers foi nomeado Reitor (Rector) da Igreja de Saint Lawrence, também conhecida por Whitchurch ou Little Stanmore (na localidade de Edgworth, depois Edgware, em Middlesex), que ficava nos limites da propriedade do seu patrono James Brydges, cuja influência muito pesou para esta nomeação. O Filósofo Newtoniano e religioso manteve este cargo praticamente até a sua morte, embora, a partir de 1731, com menor presença física em virtude de suas viagens e diversas atividades. Entre 1719 e 1721, Desaguliers pôde conviver com George Frederick Handel, que era organista da capela particular de James Brydges (Canons Park Chapel) e também atuou em Whitchurch. Certamente, o Filósofo Newtoniano foi um dos expectadores das primeiras apresentações dos celebrados Chandos Anthems, compostos por Handel em homenagem ao então patrono de ambos.13

Estrategicamente, Desaguliers procurou estabelecer relações de compadrio com aristocratas e pessoas de prestígio, que pudessem reforçar os laços de confiança com seus patronos. Seu terceiro filho, Jean Isaac, teve como padrinhos o Marquês de Carnavon (filho do Duque de Chandos) e o próprio Isaac Newton, a quem procurou homenagear no nome deste filho. Seu quarto filho, Thomas, teve como padrinhos e protetores Thomas Parker (Conde de Macclesfield e Lorde Chanceler Maior da Inglaterra), Archibald Campbell (Conde de Islay) e a Condessa de Clifton.14

Paralelamente as suas diversas atividades profissionais, Desaguliers passou a atuar na Maçonaria, na região metropolitana, tornando-se muito respeitado no ambiente maçônico e ocupando diversos postos. De acordo com Wilfred R. Hurst: “Seu amor natural pela mecânica e o papel proeminente que a ciência desempenhava na maçonaria operativa o induziram, sem dúvida, a logo se tornar Membro da Sociedade”. Sua atuação na Maçonaria, que se estenderia até a sua morte, foi fundamental para o fortalecimento de seus laços com os homens poderosos da época, pois dela faziam parte muitos aristocratas, ricos comerciantes e membros do Parlamento. Inclusive, muitos membros da Royal Society ingressaram na Maçonaria pelas mãos de Desaguliers, convencidos da importância desta associação pelo seu carisma e ação persuasiva, o que indicava o reconhecimento do seu prestígio nos meios filosóficos, científicos e aristocráticos. Seu primeiro posto importante foi o de Terceiro Grande Mestre da Loja existente na Goose and Gridiron Ale-House (Casa de Cerveja Goose and Gridiron), para o qual foi eleito em 24 de junho de 1719, dois meses antes de ser nomeado Reitor de Whitchurch. Em 24 de junho de 1723, ele foi eleito Deputado Grande Mestre desta mesma Loja e, em 27 de dezembro de 1725, foi indicado (pelo Grande Mestre, Lorde Paisley) Deputado Grande Mestre da recém-constituída Primeira Grande Loja da Inglaterra, que se tornou a mais importante de todo o país.15

Ainda nos anos 1720, há indícios de que Desaguliers tenha circulado por diversas Lojas Maçônicas metropolitanas, sem que se tornasse membro efetivo de nenhuma delas, principalmente as que existiam na Duke of Chandos’ Arms em (Edgworth ou Edgware), e na Horn Tavern, em Westminster. No final dos anos 1730, obrigado a freqüentes visitas a Bath, em virtude de seu sofrimento com a gota, Desaguliers também participou (sem que se tornasse um membro efetivo) das atividades da Loja existente na taverna Bear Inn, chegando a atuar como Mestre em algumas ocasiões. Em 1731, numa de suas viagens à Holanda, Desaguliers chegou a atuar como Mestre de uma Loja em Haia e, em 1737, como Mestre da “Loja Ocasional” ou “Emergencial” que se constituiu no Palácio de Kew, na ocasião em que Frederick, Príncipe de Gales (filho do monarca George II e herdeiro do trono inglês e britânico), começou o seu aprendizado maçônico, certamente orientado por ele.16

O prestígio adquirido por Desaguliers como Curador da Royal Society, o sucesso dos seus cursos públicos de Filosofia Natural e Experimental e suas estreitas ligações com patronos poderosos permitiram-lhe uma aproximação com a Família Real, inicialmente através das aulas particulares ministradas para Frederick, Príncipe de Gales. Em 1737, Desaguliers foi nomeado Capelão do Príncipe de Gales, deixando o serviço do Duque de Chandos, e, em 1738, também foi nomeado Capelão do Regimento de Dragões Bowles (Bowles’ Regiment of Dragoons), que eram um dos mais destacados regimentos de cavalaria da Inglaterra.17

Nos anos 1730, aproveitando seu prestígio e respeitabilidade como um grande “Filósofo Experimental” e um dos maiores divulgadores do Newtonianismo, Desaguliers ministrou diversos cursos públicos de Filosofia Natural e Experimental no exterior. Entre 1730 e 1732, ele foi seguidamente à Holanda, cujos professores da Universidade de Leyden e os círculos intelectuais das grandes cidades batavas já eram grandes admiradores das idéias de Newton, e, em 1736, seria a vez dele lecionar em Paris, num momento crucial para a afirmação do Newtonianismo na França, que já tinha entre seus grandes adeptos e divulgadores o filósofo Voltaire. Por três vezes, em 1734, 1736 e 1741, Desaguliers seria agraciado pela Royal Society com a sua distinção máxima, que era a Copley Medal (Medalha Copley). A medalha de 1734 coincidiu com a publicação do primeiro volume do seu grande livro, A course of experimental philosophy, enquanto a de 1736 se relacionou ao reconhecimento de sua trajetória como “Filósofo Experimental”. A medalha de 1741 estava relacionada ao reconhecimento da sua “descoberta das propriedades da eletricidade”, que seria anunciada em sua memória premiada pela Academia de Bordeaux, em 1742.18

Depois de grande sofrimento, provocado pela gota e suas seqüelas, Desaguliers veio a falecer aos 61 anos, em 29 de fevereiro de 1744, nos seus aposentos da Bedford Coffee-House, em Covent Garden, sendo enterrado (em 6 de março), não muito distante dali, na Savoy Chapel (Capela de Savoy). Seus amigos e admiradores fizeram-lhe as devidas homenagens, lamentando sua perda, e o periódico General Evening Post, de 1º. de março daquele ano, assim registrou seu falecimento: “Ontem faleceu, em seus aposentos na Bedford Coffee-House, em Covent Garden, o Dr. Desaguliers, um cavalheiro universalmente conhecido e estimado”. 19

II – OS CURSOS MINISTRADOS POR DESAGULIERS E SUAS PUBLICAÇÕES.
Jean-Théophilus Desaguliers foi talvez o maior e mais respeitado Professor Independente de Filosofia Mecânica e Experimental da primeira metade do século XVIII. Diferentemente de outros Professores Independentes de Filosofia Natural e Experimental contemporâneos, que se lançavam pelas cidades do interior da Inglaterra, transformando-se em autênticos “Professores Itinerantes” ou “Viajantes”, Desaguliers tinha uma vida agitada e cheia de atividades, mas concentrava todos os seus afazeres em Londres e Westminster e, no máximo, em suas cercanias como Edgeworth. Suas viagens eram de outra natureza e não ligadas a sua sobrevivência mais imediata, como aquelas feitas a países europeus, onde ia para ministrar cursos e contatar os círculos filosófico-científicos locais (Holanda e França), ou as viagens a Bath para tratamento de saúde.

Com um leque bastante variado de relações pessoais e profissionais-religiosas, Desaguliers capitalizou o seu prestígio para desenvolver o trabalho complementar de Professor Independente de Filosofia Natural e Experimental, ou Filosofia Mecânica e Experimental. A fama e a respeitabilidade de Desaguliers funcionaram como fatores de atração para uma grande clientela que, mediante o pagamento de uma taxa de inscrição individual de dois ou três guinéus, procurava freqüentar os cursos ministrados em sua casa (em Channel Row, Westminster) ou em casas de café de Londres e Westminster, como a Bedford Coffee-House, de Covent Garden, que era um reduto de políticos e intelectuais Whigs). De acordo com o próprio Desaguliers, no prefácio da primeira edição da sua obra mais importante, A course of experimental, philosophy, desde que começara em Oxford (no Hart-Hall College) até 1734, ele chegou a ministrar 121 cursos de Filosofia Natural e Experimental. Como continuou esta atividade de Professor Independente até pouco tempo antes de sua morte, certamente o número de cursos por ele ministrados foi muito maior.20

Segundo o próprio Desaguliers, seus cursos procuravam seguir a mesma metodologia de ensino estabelecida pelo Dr. John Keill, em suas aulas no Hart-Hall College, entre os anos 1704 e 1710, pois o seu mestre foi “o primeiro que ensinou publicamente Filosofia Natural através de Experimentos, num Modo matemático”. Para isso,

“(…) ele apresentava Proposições muito simples, as quais provava através de Experimentos, e, destas, ele deduzia outras mais complexas, que também confirmava através de Experimentos, até que ele instruísse sua Audiência nas Leis do Movimento, nos Princípios da Hidrostática e da Óptica, e algumas das principais Proposições de Sir Isaac Newton acerca da Luz e das Cores”.21

Assim, o Dr. John Keill não apenas introduzia, nos meios acadêmicos, “o Amor pela Filosofia Newtoniana”, como também procurava diferenciar os seus cursos das atividades realizadas em Londres, na mesma época, por Francis Hauksbee (então Curador da Royal Society), que, ainda de acordo com Desaguliers, ministrava “Cursos de Experimentos” e não “Cursos de Filosofia Experimental”22, como fazia o Dr. Keill, em Oxford. Na realidade, os cursos dados por Hauksbee se constituíam numa série de experimentos “elétricos, hidrostáticos e pneumáticos” para curiosidade do público, sem grandes conseqüências para o desenvolvimento da Filosofia Natural e Experimental. Sobre isso, Desaguliers complementava:

“Mas, como [estes experimentos] eram vistos e explicados apenas como muitos Fenômenos curiosos, e não se fazia Uso deles como Meios de provar uma Série de Proposições filosóficas numa Ordem matemática, eles não assentaram nenhuma Base sólida para a verdadeira Filosofia, como os Experimentos feitos pelo Dr. Keill, embora fossem executados mais habilmente e com um Aparato mais refinado”. 23

Por outro lado, mesmo seguindo esta orientação metodológica em seus sucessivos cursos para um grande público, Desaguliers não se fechou às novidades e aos inúmeros avanços do campo da Filosofia Natural e Experimental, incluindo em seus programas de aulas, “a Mecânica (estritamente denominada, ou seja, a Explicação sobre os Órgãos Mecânicos e a Razão de seus Efeitos) e diversas Proposições Ópticas”. Além disso, ele sempre procurou aperfeiçoar os cursos ministrados, “através da Incorporação de novas Proposições e novos Experimentos, alterando e modificando [suas] Máquinas”, com o objetivo de tornar os conteúdos “mais inteligíveis para [seus] Ouvintes que não eram familiarizados com a Matemática, ou mais satisfatoriamente para aqueles que já o eram; especialmente no que se relacionava às Causas dos Movimentos dos Corpos celestes, e aos Fenômenos de nosso Sistema”.24

Desaguliers também encontrou um outro meio de obter recursos de sua clientela através da venda de opúsculos (syllabus), que eram, na realidade, catálogos dos cursos ou programas das aulas ministradas (que também serviam como peças de divulgação das suas atividades de ensino), e manuais (textbooks) que reuniam os conteúdos desas aulas e dos experimentos realizados.

Alguns opúsculos, com programas e roteiros das aulas ministradas sobreviveram e nos dão muito bem a dimensão dos conteúdos e objetivos dos cursos de Desaguliers. Um destes opúsculos, numa edição em inglês e francês, tinha 14 páginas e intitulava-se A course of mechanical and experimental philosophy (Cours de philosophie mécanique & experimentale), sendo editado em Londres, talvez pelo próprio autor, por volta de 1719, e depois reeditado em 1725, em 8 páginas.25 No seu subtítulo interno, Desaguliers procurava indicar qual era o seu público alvo e os objetivos gerais do curso:

“Pelo qual, qualquer pessoa, mesmo não habilitada nas Ciências Matemáticas, pode ser capaz de entender todos aqueles Fenômenos da Natureza, que têm sido descobertos através de Princípios Geométricos, ou explicados através de Experimentos; e os Matemáticos podem se divertir ao ver as Máquinas utilizadas e as Operações Físicas executadas, relacionadas aquilo que eles têm lido”.26

Numa espécie de nota explicativa, ele apresentava a metodologia geral utilizada nas suas aulas, reforçando a centralidade do seu método matemático e experimental:

“O Método deste Curso é inteiramente Matemático, quer dizer. uma Cadeia de Proposições provando cada uma delas sucessivamente; mas ao invés de Definições, Axiomas, e Postulados, puramente Geométricos, os Experimentos executados na Primeira Aula provam os Preceitos apresentados na Segunda, e assim sucessivamente: Coisas que, por si próprias, seriam meramente Especulativas, se tornam Objetos realmente Inteligíveis por este Método, e melhor compreendidos em uma Mês ou Seis Semanas, do que em Um Ano de Aplicação exclusiva aos Livros”.27



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