Panorama do novo testamento



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FILEMOM: APELO EM FAVOR DE UM ESCRAVO FUGIDO




Tema


Na epístola a Filemom, o apóstolo solicita a certo cristão, pro­prietário de escravos, que acolhesse gentilmente, e talvez até conferisse a liberdade, a um escravo fugido que apenas recente­mente se convertera, e que agora retornava à presença de seu se­nhor. Dificilmente há um exemplo mais notável dos salutares efeitos sociológicos do evangelho, em todo o Novo Testamento.

Filemon, proprietário de escravos


Filemom, residente de Colossos, tornara-se cristão por inter­médio de Paulo ("tu me deves até a ti mesmo", versículo 19). Mui provavelmente isso sucedeu na cidade vizinha de Éfeso, du­rante o ministério efetuado ali por Paulo. Uma congregação cos­tumava reunir-se na residência de Filemom (vide o segundo

versículo). Os primitivos cristãos não contavam com templos, e, por isso mesmo, se reuniam nas residências de seus membros. (Se o número de crentes fosse grande demais para acomodá-los, usa­vam diversas residências.)



Onésimo, o escravo


Um escravo de Filemom, de nome Onésimo, fugira levando consigo algum dinheiro de seu senhor e se refugiara em Roma, onde, de algum modo, entrou em contacto com Paulo. (Vide as discussões às págs. 340ss. acerca do lugar de origem das epístolas aos Efésios e aos Colossenses, escritas ao mesmo tempo que a epístola a Filemom.) O apóstolo foi o agente da conversão de Onésimo, tendo-o convencido que, na qualidade de cristão, ele deveria retornar à companhia de seu senhor e viver à altura do significado de seu nome próprio, porquanto "Onésimo" significa "útil" (vide os versículos 10 - 12). Com grande tato e cortesia cristã, pois, Paulo escreveu a fim de persuadir a Filemom não somente a aceitar Onésimo de volta sem puni-lo ou tirar-lhe a vida (o usual tratamento conferido a es­cravos que fugissem), mas também a acolher a Onésimo como "irmão caríssimo... no Senhor" (vide o versículo 16). Paulo de­sejava reter Onésimo como um auxiliar (vide o versículo 13). Tem sido sugerido que as palavras que transandam a confiança. "farás mais do que estou pedindo" (vide o versículo 21), dão a entender que Filemom deveria mesmo dar a carta de alforria a Onésimo, mas talvez Paulo estivesse sugerindo apenas que Filemom permi­tisse que Onésimo se ocupasse do trabalho missionário. Paulo também se comprometeu a pagar a Filemom pela perda finan­ceira causada pelo furto praticado por Onésimo; entretanto, a menção imediata da dívida espiritual maior ainda de Filemom ao apóstolo convida aquele a cancelar a dívida financeira que Paulo acabara de assumir (vide os versículos 18 - 20).

Ler Filemom.

Arquipo


Os professores John Knox e E. J. Goodspeed têm sugerido que Filemom tornou-se superintendente das igrejas do vale do rio Lico, onde estavam localizadas as cidades de Colossos, Laodi­céia e Hierápolis; que mui provavelmente ele fixara residência em Laodicéia, e não em Colossos; que Arquipo, e não Filemom, era o verdadeiro proprietário de Onésimo, pelo que teria sido o real endereçado da epístola; mas que Paulo enviara a Onésimo de volta com a carta, via Filemom, a fim de que este importante ministro do evangelho exercesse pressão sobre Arquipo, ao qual Paulo não conhecia, no sentido de que liberasse a Onésimo para servir como missionário em companhia de Paulo. A epístola "a Filemom", por conseguinte, torna-se a "epístola aos "de Laodi­céia", mencionada em Colossenses 4.16, porquanto fora primeiramente ter nas mãos de Filemom, em Laodicéia, e em seguida foi encaminhada a Arquipo e à igreja que se reunia em sua residência. O "ministério" que Arquipo deveria cumprir, conforme a exortação constante em Colossenses 4:17, não é outra coisa além da anuência ao pedido do apóstolo para que Onésimo fosse liberado da servidão, para poder tornar-se auxiliar de Paulo. (Goodspeed, New Solutions of New Testament Problems, University of Chicago, 1927; Knox, Philemom among the Letters of Paul, 2ª edição, Nashvilie: Abingdon, 1959.) Contrariamente a essa teoria, entretanto, parece que o "ministério" de Arquipo, que ele recebera “do Senhor” e deveria "cumprir", era algo mais ativo e oficial do que a soltura de um simples escravo. Outrossim, a menção de Filemom em primeiro lugar, e não de Arquipo, parece que faz de Filemom o endere­çado primário da carta (vide os versículos 1,2: Filemom, sua es­posa, Áfia, Arquipo, o líder da igreja e talvez filho de Filemom, e a congregação que costumava reunir-se na residência de File­mom). Paulo dirigiu-se a outros, incluindo a congregação, a fim de exercer sobre Filemom certa pressão pública.
ESBOÇO SUMÁRIO DE FILEMOM
Tema: misericórdia por em escravo fugido que se tornara cristão.

INTRODUÇÃO: Saudação (1-3)

I. Ação de Graças por Filemom (4-7)

II. Apelo em favor de Onésimo (8-22)

CONCLUSÃO: Saudações e bênção (23-25)
Para investigarão posterior:
Blaiklock, E. M. From Prison in Rome. Grand Rapids: Zondervan, 1964.

Carson, H. M. The Epistles of Paul to the Colossians and Philemom. Grand Ra­pids: Eerdmans, 1960.

Moule, C. F. D. The Fpistles of Paul the Apostle to the Colossians and to Phile­mom. Cambridge Universitv Press, 1958


COLOSSENSES: CRISTO, O CABEÇA DA IGREJA




Tema


Em sua epístola aos Colossenses, Paulo enfoca a pessoa divina e a obra criadora e remidora de Cristo, em contra-ataque à des­valorização de Cristo, conforme vinha sendo feito por certa variedade particular de heresia, que ameaçava a igreja de Colossos. Em seguida, Paulo extrai as implicações práticas dessa exaltada cristologia no tocante à vida e à conduta diárias dos crentes.

Origem em Éfeso


O antigo prólogo marcionita (Uma introdução à epístola, escrita da perspectiva marcionita, uma variedade gnóstica.) anexado à epístola aos Colossen­ses, diz que Paulo escreveu a epístola em apreço quando se en­contrava em Éfeso. Contudo, tal tradição é digna de dúvidas, por­quanto também afirma que Paulo escreveu em Roma a epístola a Filemom. Não obstante, Colossenses e Filemom estão inseparavelmente ligadas entre si, pois ambas essas epístolas mencionam Timóteo, Aristarco, Marcos, Epafras, Lucas, Demas, Arquipo e Onésimo (vide Colossenses 1:1 e Filemom 1; Colossenses 4:10-14 e Filemom 23 e 24; Colossenses 4:17 e Filemom 2; Colossenses 4:9 e Filemom 10 ss.). A duplicação de tantos nomes sem dúvida indica que Paulo escreveu e enviou ambas as epístolas ao mesmo tempo e do mesmo lugar.

Acresça-se a isso que se Paulo escreveu as epístolas aos Colos­senses e a Filemom, estando encarcerado em Éfeso, então o escravo Onésimo surripiara o dinheiro de seu senhor a apenas cento e sessenta quilômetros distantes



de Éfeso; no entanto, isso é improvável, pois Onésimo sem dúvida teria reconhecido que poderia ser facilmente recapturado, se ficasse em local tão pró­ximo de casa. É muito mais provável, pois, que Onésimo tenha fugido para a imensa cidade de Roma, a fim de melhor ocultar-se entre as multidões de habitantes da capital. Outrossim, Lucas achava-se em companhia de Paulo quando este último escreveu a epístola aos Colossenses (vide Colossenses 4:14); mas a descrição do ministério de Paulo em Éfeso não faz parte de uma das seções "nós" do livro de Atos. Por conseguinte, deveríamos rejeitar um período de aprisionamento em Éfeso como ocasião e lu­gar de origem da epístola aos Colossenses, a despeito do apoio parcial que essa idéia recebe da tradição marcionita.

Origem em Cesaréia


Ainda é menos provável que a epístola aos Colossenses tenha sido escrita durante o aprisionamento de Paulo em Cesaréia. Ce­saréia era, igualmente, uma cidade menor e menos provável que Roma, como localidade para onde um escravo fugido ter-se-ia dirigido, a fim de evitar ser apanhado. Dificilmente, além disso, Onésimo teria podido entrar em (contato com Paulo em Cesa­réia, porque somente os amigos de Paulo receberam permissão de entrevistar-se com ele ali (vide Atos 24:23). Outrossim, a ex­pectativa que Paulo tinha de ser solto em breve (pediu a File­mon que lhe preparasse hospedagem! - vide Filemom 22), não se coaduna com um aprisionamento em Cesaréia, onde Paulo pôde perceber que sua única esperança consistia de apelar ao tribunal de César.

Origem em Roma


Diversas considerações favorecem o aprisionamento em Ro­ma: (1) o mais provável é que para ocultar sua identidade, Onésimo tivesse fugido para Roma, a cidade mais populosa do império;(2) a presença de Lucas, que acompanhara a Paulo até Roma, se­gundo se vê no livro de Atos: (3) a diferença no que concerne à ênfase doutrinária entre a epístola aos Colossenses, onde Paulo não estava preocupado com a controvérsia judaizante, e as epís­tolas aos Gálatas, aos Romanos e aos Coríntios, nas quais ele res­saltou fortemente a nossa liberação da legislação mosaica, sugere que Paulo escreveu a epístola aos Colossenses durante o período posterior de aprisionamento em Roma, quando à controvérsia judaizante já não ocupava tanto de suas preocupações.

Fundação da igreja de Colossos


A cidade de Colossos ficava no vale do rio Lico, em um distrito montanhoso a cerca de cento e sessenta quilômetros de Éfeso. Vide o mapa à pág. 252. As cidades vizinhas de Laodicéia e Hierá­polis ultrapassavam a Colossos em escala de importância. A ma­neira distante com que Paulo diz que "ouvira" a respeito da fé cristã de seus leitores (vide 1:4), e a inclusão desses leitores entre aqueles que nunca o tinham visto face a face (vide 2:1) subenten­dem que Paulo nem fundara a igreja de Colossos e nem a visitara ainda. E visto que os crentes colossenses tinham aprendido sobre a graça de Deus por intermédio de Epafras (vide 1:6,7), este úl­timo é que deve ter sido fundador daquela igreja. Não obstante, Epafras estava em companhia de Paulo, quando o apóstolo es­creveu esta epístola (vide 4:12,13). Podemos concluir disso que Epafras se tornara cristão através do ministério de Paulo em Éfeso, que ele então se pôs a evangelizar a região circunvizinha de Colossos, Laodicéia e Hierápolis, e que depois visitara a Paulo na prisão, a fim de solicitar seus conselhos acerca de uma peri­gosa heresia que ameaçava tragar a igreja de Colossos (vide abaixo). Evidentemente Arquipo fora deixado encarregado da igreja local (vide 4:17). De conformidade com essa hipótese, po­demos entender por qual razão Paulo assumira autoridade sobre a igreja de Colossos, embora nunca antes tivesse estado ali; ele era o "avô" da igreja, através de seu convertido, Epafras, e, como tal, seu juízo fora solicitado.

Uma igreja gentílica


Os crentes de Colossos eram predominantemente gentios. Paulo os classifica entre os incircuncisos (vide 2:13). Em Colos­senses 1:27, as palavras "entre os gentios" e "em vós" parecem expressar pensamentos paralelos e eqüivalentes. E a descrição dos colossenses como quem outrora foram "estranhos e inimigos no entendimento" (vide 1:21) faz-nos lembrar de fraseologia similar, em Efésios 2:11 ss., onde Paulo indubitavelmente se re­porta a gentios.

A heresia colossense


A epístola aos Colossenses gira em torno da chamada "heresia colossense". Podemos inferir certas características daquela falsa doutrina com base no contra-ataque de Paulo. De fato, provavelmente Paulo toma por empréstimo palavras e expressões utilizadas pelos falsos mestres, como "conhecimento" e "plenitude", fazendo-as voltar-se contra a heresia, ao preenchê-las com um conteúdo ortodoxo. Essa heresia detratava a pessoa de Cristo, razão pela qual o apóstolo frisa a proeminência de Cristo (vide 1:15-19); dava ênfase à filosofia humana, isto é, especulações vazias, à parte da revelação divina (vide 2:8); continha elementos próprios do judaísmo, como a circuncisão (vide 2:11 e 3:11), as tradições rabínicas (vide 2:8), regulamentos sobre alimentos e a observância do sábado e de festividades religiosas (vide 2:16); incluía a adoração aos anjos, como intermediários, a fim de que o Deus altíssimo (puro Espírito) fosse conservado incontaminado do contato com o universo físico (vide 2:18) - ca­racterística tipicamente pagã, pois apesar de terem os judeus desenvolvido uma hierarquia angelical, eles não os adoravam e nem consideravam má a natureza física do universo; e alardeavam um ar exclusivista de segredo e superioridade, contra o que Paulo ressaltou a natureza toda-inclusa e pública do evangelho (vide 1:20, 23, 28 e 3:11).

A heresia colossense, por conseguinte, era mescla do lega­lismo judaico, das especulações filosóficas dos gregos e do misti­cismo oriental. É possível que a localização de Colossos, na importante via comercial que ligava o Oriente ao Ocidente, tenha contribuído para o caráter misto da doutrina espúria em pauta. A maior parte de seus característicos aparece no posterior gnosticismo plenamente desenvolvido, bem como nas religiões miste­riosas gregas e orientais. Todavia, a presença de características judaicas nos impede que simplesmente equiparemos a heresia colossense, com aquela que mais tarde veio a ser intitulada de gnosticismo, ou mesmo com as religiões misteriosas, todas as quais eram anti-judaicas ou inteiramente desvinculadas do judaísmo. A heresia de Colossos representou antes a tentativa de invasão do cristianismo por parte de um judaísmo gnóstico sin­cretista, ao qual faltava o motivo redentor de um posterior gnos­ticismo, calcado sobre conceitos anti-judaicos.



Doutrina, sobretudo Cristologia


A epístola aos Colossenses conta com duas seções: (1) a seção de doutrinas (capítulos 1 e 2), e a seção de exortações (capítulos 3 e 4). Paulo acentua o aspecto doutrinário da cristologia. A epístola abre com uma saudação, ações de graças e oração. Então ele dá início à grande discussão cristológica (Ler Colossenses 1 e 2).

As declarações elogiosas de Paulo acerca de Cristo mencio­nam:

Seu reino (vide 1:13),

Sua obra remidora (vide 1:14),

O fato de ser Ele a representação externa ("imagem") de Deus, em forma humana (vide 1:15)

Sua supremacia sobre a criação, como seu Senhor e Herdeiro (porquanto os filhos primogênitos recebiam o dobro da herança de outros filhos, o termo "primogênito" veio a de­notar prioridade e supremacia, pelo que "primogênito da criação" (1:15) não precisa ser entendido como se quisesse afirmar ter sido Jesus o primeiro ser criado),

Sua posição de criador (vide 1:16),

Sua preexistência e coesão do universo (vide 1:17),

Sua preeminência sobre a nova criação, a Igreja, e

Seu primado por haver ressuscitado dentre os mortos para nunca mais morrer (vide 1:18).


Alguns eruditos tomam os versículos quinze a vinte como se fossem uma citação de um antigo hino de louvor a Cristo. A "plenitude de Deus", que em Cristo habita, é a totalidade da natureza divina. Quando Paulo assevera que seus próprios sofrimentos completavam "o que resta das aflições de Cristo" (vide 1:24), não quis dizer que Jesus não conseguiu consumar a obra da redenção. Mas seu intuito foi o de mostrar que os sofrimentos por que passamos para propagar o evangelho também são necessários se os homens tiverem de ser alvos, e também que Cristo continua a sofrer em companhia de Suas testemunhas persegui­das, por motivo de sua união e solidariedade com Ele. O termo "mistério" (em "glória deste mistério... Cristo em vós", vide 1:27) alude à verdade espiritual oculta dos incrédulos, mas revelada aos crentes.

Em sua polêmica contra a heresia colossense (vide 2:8-23), Paulo esclarece acusadoramente que aquele falso ensino obscurecia a preeminência de Cristo, que as suas observâncias rituais, extraídas do judaísmo, servem somente para prefigurar as realidades espirituais em Cristo, e que seu ascetismo e adoração a anjos fomentam o orgulho humano e diminuem a glória de Cristo.



Exortação


A união do crente com Cristo, em Sua morte, ressurreição e ascensão, forma o alicerce das exortações práticas existentes na epístola. Aos cristãos convém adquirirem a perspectiva divina, reputando-se mortos para o pecado, em Cristo, e vivos para a justiça, também em Cristo. Ler Colossenses 3 e 4. Os "citas" (vide 3:11) eram considerados bárbaros especialmente indomáveis. Porquanto o sal retarda a corrupção dos alimentos, a linguagem "temperada com sal" (vide 4:6) provavelmente indica a linguagem impoluta e sem obscenidades.
ESBOÇO SUMÁRIO DE COLOSSENSES

Tema: a proeminência de Cristo

INTRODUÇÃO 1:1-12)

A. Saudação (1:1,2)

B. Ações de graças (1:3-8)

C. Oração (1:9-12)

I. A PREEMINÊNCIA DE CRISTO NA DOUTRINA CRISTÃ (1:13 - 2:23)

A. Sua obra criativa e remidora (1:13 -2:23)

B. Sua proclamação por Paulo (1:24 - 2:6)

C. Sua suficiência em contraste com a heresia colossense (2:8 - 23)

II. A PREEMINÊNCIA DE CRISTO NA CONDUTA CRISTA (3:1 - 4:6)

A. União com Cristo em Sua morte, ressurreição e exaltação (3:1-4)

B. Aplicação do fato de nossa morte com Cristo em relação a ações pecaminosas (3:5-11)

C. Aplicação do fato de nossa ressurreição com Cristo em relação a ações retas (3:12 - 4:6)

CONCLUSÃO (4:7-18)

A. A chegada de Tíquico e Onésimo (4:7-9)

B. Saudações e instruções finais (4:10-17)

C. Despedida e bênção (4:18).


Para investigação posterior:
Simpson, E.K., e F.F. Bruce. Commentary on the Epistles to the Ephesians and the Colossians. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

Carson, H. M. The Epistles of Paul to the Colossians and Philemon. Grand Ra­pids: Eerdmans, 1960.



Moule, C.F.D. The Epistles of Paul the Apostle to the Colossians and to Philemon. Cambridge University Press, 1958.


EFÉSIOS: A IGREJA - O CORPO DE CRISTO




Tema


A epístola aos Efésios não foi escrita em resposta a alguma circunstância específica ou controvérsia, conforme se verificou no caso da maioria das epístolas paulinas. Ela tem uma qualidade quase meditativa. No tema compartilhado com a igreja aos Colossenses - Cristo, o cabeça da Igreja, que é Seu corpo - a epístola aos Efésios encarece a Igreja como o Corpo de Cristo ao passo que Colossenses ressalta o fato que Cristo é o cabeça. Colossen­ses adverte contra falsas doutrinas que subestimam a Cristo, ao passo que Efésios expressa louvor por causa da unidade e das bem-aventuranças usufruídas por todos os crentes em Cristo.

Tíquico


A indicação que Tíquico haveria de acrescentar pormenores a respeito das circunstâncias de Paulo, mediante suas próprias pa­lavras, subentende que Tíquico foi o portador da epístola que veio a ser intitulada "aos Efésios" aos seus destinatários (vide Efésios 6:21,22). O fato que Paulo se identifica como "o prisioneiro do Senhor" demonstra tanto que ele se achava prisioneiro, quando escreveu a epístola, como o fato que ele tinha consciência do propósito do Senhor em seu encarceramento.

Relações com os Colossenses


Paulo deve ter escrito as epístolas aos Efésios e aos Colossen­ses aproximadamente ao mesmo tempo, porque o tema das duas epístolas é extremamente similar (Cristo, o cabeça da Igreja, que é Seu corpo), e porque os versículos concernentes a Tíquico se repetem em forma quase idêntica em Colossenses 4:7,8. Por conseguinte, Tíquico deve ter levado consigo ambas as cartas numa mesma oportunidade. (Colossos ficava a cerca de cento e sessenta quilômetros a leste de Éfeso.)

Origem em Éfeso, em Roma ou em Cesaréia


Apesar de que a epístola aos Efésios possa ter sido dirigida à região circunvizinha a Éfeso, e não à própria cidade de Éfeso (vide abaixo), há pouca probabilidade de que Paulo a tenha escrito em algum cárcere em Éfeso. No que tange ao aprisionamento em Cesaréia, a referência paulina ao fato que ele pregava ousada­mente como "embaixador em cadeias" subentende que ele continuava a proclamar o evangelho a despeito de ser um prisioneiro (vide Efésios 6:20); todavia, em Cesaréia somente os seus amigos tinham permissão de visitá-lo (vide Atos 24:22,23). Em Roma, não obstante, Paulo pregava a um cortejo constante de visitantes que vinham entrevistar-se com ele em sua prisão domiciliar (vide Atos 28:30,31). A epístola aos Efésios, por conseguinte, foi escrita durante o período de aprisionamento em Roma, tal como as epístolas intimamente relacionadas aos Colossenses e a File­mon.

Teoria de Goodspeed


O erudito norte-americano E.J. Goodspeed postulou a teoria que algum admirador de Paulo foi o autor da epístola aos Efésios, próximo do fim do primeiro século da era cristã. Goodspeed che­gou ao extremo de sugerir que esse admirador foi Onésimo, o es­cravo convertido a respeito de quem Paulo escreveu a Filemom. (The Key to Ephesians, University of Chicago Press, 1956, e outras obras de Goodspeed ou seus continuadores.) Em harmonia com essa teoria, o autor planejou a epístola aos Efésios para servir de sumário da teologia de Paulo, como se a mesma fosse introdução de uma coletânea das epístolas genuínas de Paulo. A coletânea da correspondência paulina foi impulsionada pela proeminência de Paulo no livro recém-escrito de Atos. Entretanto , as evidências dos manuscritos em parte alguma confirmam que a epístola aos Efésios alguma vez houvesse encabeçado a coletânea das epístolas paulinas, conforme poderíamos esperar se a hipótese de Goodspeed estivesse com a razão. Acresça-se que a tradição eclesiática mais antiga atribui ao próprio Paulo a epístola aos Efésios.

Endereçada não a Éfeso


As palavras, "em Éfeso", que se referem ao local da residência de seus leitores originais (vide 1:1), não se encontram na maioria dos mais antigos manuscritos. Assim sendo, Paulo omitiu inteiramente a localização geográfica dos destinatários dessa epístola. Outrossim, o tom distante com que o apóstolo fala sobre o ter "ouvido" acerca da fé de seus leitores (vide 1:15), e sobre o terem eles "ouvido" falar de seu ministério (vide 3:2), bem como a ausência dos termos usuais de carinho e afeto, eliminam Éfeso como o destino da epístola, pois Paulo labutara ali por mais de dois anos e conhecia intimamente aos cristãos efésios, e eles também o conheciam.

Os laodicenses?


Certa tradição antiga identifica a igreja de Laodicéia como a destinatária dessa epístola. O erudito alemão Harnack sugeria que antigos copistas suprimiram o nome Laodicéia por causa da condenação da igreja de Laodicéia em Apocalipse 3:14-22, e que copistas posteriores acrescentaram o nome Éfeso por causa da íntima associação de Paulo com a igreja daquela cidade. De fato, Paulo menciona uma carta que escrevera a Laodicéia, em Colossenses 4:16. Porém visto que nenhum manuscrito menciona Laodi­céia em Efésios 1:1, a alteração de "Éfeso" para "Laodicéia", na tradição antiga, mui provavelmente foi apenas a tentativa de identificar a epístola dirigida a Laodicéia, mencionada na epístola aos Colossenses.

Uma epístola circular


Há maiores probabilidades que "Efésios" tenha sido redigida como uma epístola circular, dirigida a diversas igrejas locais da Ásia Menor, nas vizinhanças gerais de Éfeso. De acordo com esse ponto de vista, a menção de Paulo à epístola aos laodicen­ses, em Colossenses 4:16, quiçá aponte para a nossa epístola aos "Efésios", mas não deixa entendido que a epístola foi endereçada exclusivamente a Laodicéia. Pelo contrário, em sua circulação pelas igrejas espalhadas naquela área geral, essa epístola chegou a Laodicéia e mais tarde chegou a Colossos, como o passo seguinte. A natureza circular dessa epístola, portanto, aclara a omissão do nome de qualquer cidade, no endereço (vide 1:1). Bastaria uma única cópia da carta que circulara de Éfeso, e que voltasse a Éfeso, para fazer com que o nome daquela cidade ficasse facilmente vinculada à epístola.

Estrutura


Tal como Colossenses, Efésios se divide em duas porções. Os capítulos 1 - 3 têm natureza doutrinária: os privilégios espirituais da Igreja. Os capítulos 4 - 6 são exortatórios: as responsabilidades espirituais dos crentes.

Bênçãos celestiais


Após a saudação (vide 1:1,2), Paulo se lança a uma doxologia de louvor a Deus, por causa das nossas bênçãos espirituais em Cristo, "nas regiões celestiais" (vide 1:3-14). Em outras palavras, a união do crente com Cristo envolve a participação em Sua exaltação, tanto quanto em Sua morte, sepultamento e ressurreição. A doxologia delineia o papel desempenhado por todos os três membros da Trindade, na salvação: o Pai seleciona os crentes (a doutrina da eleição, versículo 4); o Filho os redime (versículo 7); e o Espírito Santo os "sela", ou seja, o dom do Espírito é a garantia ou penhor de que Ele completará a salvação dos remidos, quando da volta de Jesus Cristo (vide os versículos 13 e 14). Uma ação de graças com oração para que os cristãos possam çompreender e apreciar a imensidade da graça e da sabedoria divinas, segue-se à doxologia (1:15-23). Ler Efésios 1.

A graça divina


A fim de ajudar seus leitores a apreciarem a magnitude da graça divina, o apóstolo contrasta o domínio que o pecado exercia sobre eles, antes de se converterem, e sua libertação de tal tirania, após a sua conversão. Também ressalta o fato que a salvação é algo totalmente desmerecido; ela é dada mediante a graça divina, através da fé, e à parte de boas obras meritórias. O ato divino da salvação produz boas obras, mas estas são conseqüências e não meio, de salvação. A graça divina manifesta-se sobretudo na redenção dos gentios, arrancando-os do paganismo, bem como na sua igualdade com os judeus, no seio da Igreja. A mura­lha divisória de hostilidade entre os dois grupos, simbolizada pelo muro existente nos átrios do templo, para além do qual os gentios não eram permitidos passar, não existe mais na Igreja.(Alternativamente, o muro divisório representa a antiga barreira entre Deus e o homem, agora derrubada em Cristo.) Porém, apesar de ser tão grandioso o plano de salvação, Paulo e os seus leitores estavam enfrentando a desagradável realidade das perseguições presentes. Não obstante, ele registra que sua consciência da graça de Deus e de seus privilégios pessoais na propagação das boas novas impediam-lhe o desânimo. Uma similar consciência, por parte de seus leitores, por igual modo haveria de obstar o esmorecimento deles. Portanto, a seção se encerra com uma outra doxologia e oração, no sentido que os leitores de Paulo fossem estabilizados através de um crescente conhecimento espiritual. Ler Efésios 2 e 3.

Unidade e diversidade


As exortações práticas começam com um apelo em prol da unidade externa crescente, alicerçada sobre a unidade espiritual já existente na Igreja. No entanto, essa unidade inclui certa diversidade de funções que visam ao crescimento do corpo, a Igreja. Cada cristão recebe uma função ministerial, para a qual os líderes da Igreja precisam equipá-lo. Ler Efésios 4:1-16.

A conduta santa


Seguem-se instruções miscelâneas sobre a santificação: Dizei sempre a verdade. Mostrai-vos indignados com justiça, quando isso se fizer necessário; mas não permitais o pecado, não controlando a ira. Não furteis. Evitai a linguagem obscena e o humor malicioso. A seção termina com um verso em tercilho e métrico, que pode ter-se originado em algum primitivo hino batismal, entoado no momento em que o candidato ao batismo emergia das águas:
"Desperta, ó tu que dormes,

Levanta-te de entre os mortos,

E Cristo te iluminará."
Ler Efésios 4:17 - 5:14.

O enchimento com o Espírito Santo


A exortação paulina para que nos enchamos com o Espírito Santo indica que tal enchimento se manifestará por intermédio da abstenção de bebidas alcoólicas (tão diferentes do entusiasmo orgíaco dos cultos gregos), e na prática dos cânticos jubilosos e da sub­missão mútua entre os crentes. A submissão mútua envolve as obrigações sociais da subordinação de uma esposa ao seu esposo, mol­dada no exemplo da subordinação da Igreja e Jesus Cristo, o cabeça, envolve o amor de um marido para com a sua mulher, mol­dado no amor de Cristo pela Igreja, Seu corpo, envolve a obediência dos filhos a seus pais, envolve a paciência paterna para com os filhos, a obediência dos escravos a seus senhores e a gentileza dos senhores para com seus escravos.

Depois disso, Paulo vincula as metáforas da cabeça e do corpo com um quadro sobre a Igreja que a apresenta como a noiva de Cristo, o qual é o noivo e marido dela. Tal como marido e mulher se tornam "uma carne" (um corpo só), no relacionamento marital, assim também Cristo e a Igreja são espiritualmente um só. Os eruditos têm sugerido várias fontes para a metáfora paulina da Igreja como o corpo de Cristo; a noção estóica de que o universo é um corpo com muitos membros diversos, a idéia rabínica de que os homens são membros do corpo de Adão em um sentido extremamente literal, a união simbólica ou sacramental do crente com o corpo de Cristo, quando aquele ingere o pão, na Ceia do Senhor. Qualquer que tenha sido a fonte ou fontes originárias - se é que algo assim seria necessário para um homem de tanta originalidade quanto Paulo - o certo é que o conceito hebraico de uma personalidade combinada sublinha a metáfora e, na verdade, a doutrina paulina inteira da união entre o crente e Cristo.



A armadura de Deus


Antes da despedida, Paulo exortou a seus leitores a que se aprestassem com a armadura espiritual provida por Deus e a que combatessem contra as forças satânicas que dominam o mundo. Talvez a visão do soldado a quem estava acorrentado, enquanto ditava a epístola aos Efésios, em sua prisão domiciliar, houvesse sugerido ao apóstolo a idéia de "toda a armadura de Deus". A palavra aqui traduzida por "escudo" denota aquela modalidade de escudo que encobria o corpo todo, e não o pequeno escudo circular dos gregos. "Dardos inflamados" aludem aos dardos e flechas, mergulhados em piche ou algum outro material combustível, o qual era então aceso, e lançado na direção do inimigo. Ler Efésios 5:15 - 6.24.
ESBOÇO SUMÁRIO DE EFÉSIOS
Tema: privilégios e responsabilidades espirituais da Igreja

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

I. PRIVILÉGIOS ESPIRITUAIS DA IGREJA (1:3 - 3:21)

A. Louvor pelas bênçãos espirituais originadas no plano de Deus Pai, na realização de Deus Filho e na aplicação de Deus Espírito (1:3 - 14)

B. Ação de graças e oração pela compreensão crescente acerca da graça divina (1:15-23)

C. Regeneração dos pecadores exclusivamente pela graça divina (2:1-10)

D. A reconciliação dos gentios com Deus e com os judeus na Igreja (2:11-22)

E. Paulo sentia seu privilégio por proclamar o evangelho (3:1-13)

F. Oração pedindo estabilidade através da compreensão crescente (3:14-19)

G. Doxologia (3:20,21)

II. RESPONSABILIDADES ESPIRITUAIS DA IGREJA (4:1 - 6:20)

A. Manutenção da unidade através da diversidade de ministérios edificadores (4:1-6)

B. A conduta moral (4:17 - 5:14)

C. O enchimento com o Espírito (5:15-20)

D. Submissão mútua entre os crentes (5:21 - 6:9)

1. Submissão das esposas a seus esposos, tal como a Igreja se submete a Cristo (5:22-24)

2. Amor dos esposos às suas esposas, como Cristo ama à Sua Igreja (5:25-33)

3. Obediência dos filhos a seus pais (6:1-3)

4. A autoridade paterna exercida com paciência (6:4)

5. Obediência dos escravos para com seus senhores (6:5-8)

6. Eqüidade dos senhores para com seus escravos (6:9)

E. A luta espiritual com a utilização de toda a armadura de Deus contra as forças satânicas (6:10-20)

CONCLUSÃO: a chegada de Tíquico, uma saudação final e bênção (6:21-24)
Para investigação posterior:
Foulkes, F. The Epistle of Paul to the Ephesians. Grand Rapids: Eerdmans, 1963.

Bruce, F.F. The Epistle to the Ephesians. Londres: Pickering and Inglis, 1961.



Simpson, E.K., e F.F. Bruce. Commentary on the Epistle to the Ephesians and the Colossians. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

FILIPENSES: AMIGÁVEL NOTA DE AGRADECIMENTO

Tema e motivos


Segundo as aparências, a igreja de Filipos era a favorita de Paulo. Ele recebia apoio financeiro regular da parte dela (vide Filipenses 4:15 ss.; II Coríntios 11:8 ss.) A epístola aos Filipenses, pois, é a mais pessoal de qualquer das epístolas que Paulo escreveu a uma igreja local. Na verdade, é uma nota de agradecimento pelo mais recente respaldo financeiro que aqueles crentes tinham enviado ao apóstolo (vide 4:10,14), que fora enviado por meio de Epafrodito (vide 2:25). Durante a viagem, ou depois de sua chegada com a oferta, Epafrodito caíra doente de maneira quase fatal (vide 2:27). Os crentes de Filipos ouviram falar de sua enfermidade, e chegou recado de volta a Epafrodito de que aqueles irmãos muito se preocupavam com ele. Paulo sentiu que Epafrodito desejava retornar a Filipos, e por isso o enviou de volta como portador da epístola (vide 2:25-30).

Propósitos secundários


O regresso de Epafrodito não somente capacitou Paulo a escrever aos filipenses acerca de sua gratidão pela ajuda financeira, mas também lhe deu a oportunidade de contra-atacar a tendên­cia para o cisma, que se manifestara na igreja dos filipenses (vide 2:2 e 4:2), de adverti-los a respeito dos judaizantes (capítulo 3), e de preparar aqueles crentes para as visitas, em futuro próximo, de Timóteo, e, quem sabe, do próprio Paulo (vide 2:19-24).("Epafrodito" é a forma completa de "Epafras, que aparece na epístola aos Colossenses. Porém, não dispomos de evidências suficientes para ìdentificar Epafras, fundador da igreja de Colossos, com Epafrodito. mensageiro da igreja de Fi­lipos.)

Origem em Cesaréia


Paulo era prisioneiro quando escreveu a epístola (" ... minhas algemas... minhas cadeias..." 1:7 e 13). Porém, a qual de seus períodos de aprisionamento Paulo se refere? Provavelmente não àquele de Cesaréia, porque ali Paulo não teria podido pregar tão abertamente como fica implícito em 1:12,13 (comparar com Atos 24:23). Além disso, Paulo teria reconhecido que se fosse solto em Cesaréia, disso resultaria quase instantâneo linchamento, por parte dos judeus da área, pelo que também sua única possibilidade de segurança consistia de apelar para César, e assim partir para Roma sob custódia. No entanto, lê-se em Filipenses 1:25: 2:24 (e também em Filemom 22) que Paulo esperava ser solto em breve.

Origem em Éfeso


Éfeso representa melhores probabilidades, e isso por uma série de razões. Paulo escreveu que esperava enviar Timóteo a Filipos (vide 2:19,23): e Lucas escreveu que Paulo enviou Timóteo e Erasto a Filipos de Éfeso (vide Atos 19:22). (Todavia, se essas duas passagens são verdadeiramente paralelas, por que Paulo omite a menção a Erasto, em Filipenses 2:19 ss.?) Um outro argumento que favorece a idéia de um aprisionamento em Éfeso é o que observa que a polêmica contra os judaizantes, no terceiro capítulo, é similar ao anterior padrão de pensamento de Paulo. (Permanece de pé a possibilidade, contudo, de que um posterior avanço dos judaizantes tinha revivado a anterior polêmica de Paulo contra os mesmos.)

Há inscrições que testificam do fato que um destacamento da Guarda Pretoriana esteve, de certa feita, postado em Éfeso, e Paulo menciona a Guarda Pretoriana em 1:13. Por semelhante modo, "os da casa de César" (4:22) são palavras que poderiam aludir aos servos civis imperiais que se encontravam em Éfeso.

Em consonância com o livro de Atos, Lucas acompanhou Paulo a Roma, mas não esteve em sua companhia em Éfeso. O fato que Paulo não menciona Lucas em Filipenses, conforme o faz em Colossenses 4:14 e Filemom 24, por conseguinte, sugere-­nos que ele escreveu a epístola aos Filipenses estando aprisionado em Éfeso. (Mas, se Filipenses foi escrita perto do fim do período de seu aprisionamento em Roma [ver abaixo], então Lucas poderia ter deixado a companhia de Paulo naquela altura dos acontecimentos, pelo que esse argumento do silêncio não é decisivo).

Também tem sido argumentado, na defesa de um aprisiona­mento em Éfeso, de que se Paulo tivesse escrito a epístola aos Fi­lipenses mais tarde, em Roma, dificilmente ele poderia ter afiançado que aos seus leitores, por algum tempo, "faltava oportunidade" para enviar-lhe assistência financeira (vide 4:10). Tanto tempo ter-se-ia escoado, pelo tempo em que foi aprisionado em Roma, que eles teriam tido uma mui prolongada oportunidade; todavia, uma anterior detenção em Éfeso teria dado margem a tal afirmativa. Entretanto, não conhecemos todas as circunstâncias financeiras de Paulo e dos crentes filipenses. A fim de evitar a acusação de extravio, talvez Paulo tivesse recusado receber sis­tematicamente quaisquer dádivas de ordem pessoal, durante o período em que estava coletando dinheiro para a igreja de Jerusalém. Essa pode ter sido a razão pela qual aos crentes filipenses “faltava oportunidade”.

Geralmente tido como o mais incisivo argumento em favor de um aprisionamento em Éfeso, em contraposição a Roma, é que a epistola aos Filipenses pressupõe um grande número de viagens entre Roma e Filipos (que ficavam a cerca de um mês de viagem de distância entre si), ao passo que a curta distância entre Éfeso e Filipos permite conhecermos as numerosas viagens que houve entre as duas cidades, dentro de um breve período de tempo. As viagens pressupostas na epístola aos Filipenses são as seguintes:

(1) a mensagem levada de Roma a Filipos, de que Paulo fora aprisionado lá;

(2) o transporte da ajuda financeira por meio de Epafrodito;

(3) as notícias dadas, chegadas a Filipos, de que Epafrodito ha­via caído doente: e

(4) as notícias de volta de que os filipenses muito se preocupa­vam com Epafrodito.

Na realidade, porém, esse argumento em prol de Éfeso às expensas de Roma não é substancial. O tempo para as jornadas entre Roma e Filipos teria sido apenas de quatro a seis meses, no total. Se permitirmos algum intervalo entre essas viagens, mesmo assim ainda restará prazo suficiente para o mínimo de dois anos (ou mais) que Paulo, ao que sabemos, passou em Roma (vide Atos 28:30). Ora, Paulo escreveu a epístola aos Filipenses quase no fim do período de certo aprisionamento, pois declarou que esperava receber a liberdade em breve (vide 1:19-26) e que visitaria aos fi­lipenses (vide 2:23,24). A sua transferência, da casa que ele mesmo alugara (vide Atos 28:16,23,30) para as barracas da Guarda Pretoriana, no Palatinado (vide Filipenses 1:13), indica que seu julgamento, afinal, estava em andamento e, na verdade, quase se concluíra.

Outrossim, os crentes Filipenses podem ter sabido de antemão que Paulo seguia aprisionado para Roma, pelo que Epafrodito já poderia ter partido para Roma. Ou então, visto que o naufrágio fez Paulo demorar-se em Malta, Epafrodito pode ter chegado em Roma antes de Paulo. Os cristãos de Roma sabiam da vinda de Paulo, desde antes de sua chegada, porquanto vieram encontrar-­se com ele fora da cidade, tendo-o escoltado pelo resto do caminho (vide Atos 28:15,16). Teriam eles sido informados por Epafrodito? Dentro da lista acima, somente as jornadas de número dois e quatro são necessariamente pressupostas, e o fator temporal sob hipótese alguma serve de entrave ao ponto de vista de que Paulo escreveu a epístola aos Filipenses quando estava em Roma.

Militando contra a idéia de um aprisionamento em Éfeso há a consideração que Paulo não menciona a coleta para os crentes de Jerusalém (o que jamais saiu de sua mente no decurso de toda a sua terceira viagem missionária, e durante a qual ele ministrara em Éfeso), e ao aludir a questões financeiras, na epístola aos Filipenses, sem dúvida teria feito referência à citada coleta, se por­ventura tivesse escrito durante aquele período em Éfeso. Não nos devemos olvidar, por semelhante modo, que um período de aprisionamento de Paulo em Éfeso é algo inteiramente conjectu­ral, não tendo sido mencionado no livro de Atos, a despeito de Lucas ter entrado em grandes detalhes no tocante ao ministério de Paulo em Éfeso (vide Atos 19).

Em apoio a Roma como lugar da escrita da epístola, a "Guarda Pretoriana" (vide 1:13) e a "casa de César" (vide 4:22) são declarações que mais provavelmente apontam para Roma.(Visto que a Guarda Pretoriana em Roma alcançava o número de cerca de nove mil homens, mas em Éfeso eram muito menos, o fato que "toda" a Guarda Pretoriana ouvira da detenção de Paulo por causa de Cristo (vide 1:13) tem sido aceito como elemento favorável a Éfeso, e não a Roma. Mas o bom êxito de Paulo por toda a parte sugere que a Guarda Pretoriana de Roma, em sua intei­reza, ouvira as notícias, sobretudo se Paulo conseguiu levar à conversão a alguns deles. Ou então, a palavra "praetorium" pode referir-se ao palácio do imperador, e não a tão numeroso grupo de soldados, como os que compunham a Guarda Pre­toriana.)

Segundo Filipenses 1:19 ss., a vida de Paulo correu perigo durante o julgamento. Por conseguinte, tal julgamento deve ter ocorrido na presença de César, em Roma, porquanto em qualquer outro lugar Paulo poderia ter sempre apelado para César, como era de seu direito. A antiga tradição constante no prólogo marcionita, por igual maneira, atribui essa epístola a Roma, como local onde foi escrita. Por todas essas razões, e devido à debilidade dos argumentos em contrário, o ponto de vista tradicional, que diz que Paulo escreveu de Roma a epístola aos Filipen­ses, continua sendo o melhor.



Alegria na adversidade


A informalidade de sua nota de agradecimento dificulta o seu esboço. Do princípio ao fim a nota emocional dominante é a do júbilo. No primeiro capítulo, após a saudação habitual, às ações de graças e a uma oração, Paulo descreve o ministério que ele vinha efetuando, apesar de seu aprisionamento, e mesmo por causa dele. A guarda palaciana e o oficialato romano de modo geral, estava ouvindo o evangelho. Outrossim, a coragem demonstrada no testemunho dado por Paulo inspirava a outros cristãos, incluindo aqueles que não gostavam do apóstolo. Estes últi­mos, todavia, não eram mestres falsos, pois o apóstolos os chama "irmãos" (vide 1:14,15): Ler Filipenses 1.
O hino da “Kenosis”

Ler Filipenses 2. Este capítulo é famoso por causa da passagem sobre o auto-esvaziamento de Jesus, ou Sua humilhação e poste­rior exaltação (vide 2:6-11). Muitos eruditos pensam que Paulo estava citando um antigo hino cristão. Tal ensinamento é inci­dental, entretanto, pois faz parte da exortação a respeito da uni­dade eclesiástica mediante a humildade, da qual atitude Jesus é o maior exemplo. O mundo antigo mofava da humildade; a doutri­na cristã, porém, exaltava-a como uma virtude. O trecho suben­tende claramente a preexistência de Cristo antes de Sua encar­nação. Porém, do que Cristo se esvaziara? De conformidade com a teoria da Kenosis, (Kenosis é o termo grego que significa esvaziamento,) Ele se esvaziou de atributos divinos metafísi­cos (mas não dos morais), como, por exemplo, a onipotência, a onisciência e a onipresença. Entretanto, visto que com freqüen­cia Jesus exibiu esses atributos, a crermos nas narrativas dos evangelhos sobre o Seu ministério, uma melhor resposta àquela indagação é que Jesus se esvaziou exclusivamente do exercício independente daqueles atributos (comparar com João 5:19), ou, simplesmente, da glória externa de Sua deidade. Ou talvez o auto-esvaziamento referido no sétimo versículo não faça alusão à encarnação, sob nenhuma hipótese, mas ao fato que Jesus expi­rou na cruz, em paralelismo sinônimo com a referência à morte de Jesus, no versículo a seguir. De acordo com esta última inter­pretação, Paulo estaria citando alusivamente o trecho de Isaías 53:12, que diz:"... porquanto derramou [esvaziou!] a sua alma [o que, com frequência eqüivale ao pronome reflexivo "se"] na morte ..."


Contra os judaizantes

As palavras, "Quanto ao mais, irmãos meus...", em Filipenses 3:1, soam muito como a porção de encerramento de uma epístola - e, no entanto, seguem-se mais dois capítulos - e Paulo altera tão subitamente o seu tom que alguns eruditos têm postulado aqui uma longa interpolação, a começar por Filipenses 3:2, extraída de alguma outra epístola. Todavia, a tal opinião faltam evidên­cias comprobatórias nos manuscritos. Melhor é supormos ter ha­vido uma interrupção no ditado, talvez devido a notícias frescas chegadas de Filipos, acerca da ameaça representada por falsos mestres que tinham começado a atuar ali. Paulo tencionara fe­char a epístola, mas então sentiu ser mister prolongar a epístola a fim de incluir avisos a respeito dos judaizantes.

O terceiro capítulo contém uma outra passagem famosa. Trata-se da nota auto-biográfica na qual Paulo repassa o seu pas­sado formativo no judaísmo e a revolução que ocorreu, em sua escala de valores, quando Cristo se tornou o grande alvo da sua vida (vide 3:3-14). Não obstante, uma vez mais o ensino cons­tante nessa passagem é incidental - dessa vez é parte de uma ad­vertência acerca dos judaizantes, os quais, conforme a sarcástica afirmativa de Paulo, praticavam a "mutilação" (ou mesmo "emasculação"), ao invés da circuncisão (vide 3:2). Paulo tam­bém intitula os tais de "cães", que então eram tidos por criaturas irracionais desprezíveis, sendo o próprio termo pelo qual os judeus regularmente se referiam aos gentios. Uma outra designa­ção é "maus obreiros", um contra-ataque irônico que alvejava a crença que os tais tinham de que a salvação vem por meio das boas obras A verdadeira circuncisão, no entanto, consiste da fé íntima em Cristo Jesus, independentemente de qualquer mérito pessoal.

O passado formativo de Paulo, no judaísmo, fora impecável: (1) fora circuncidado ao oitavo dia, exatamente conforme fora prescrito pela legislação mosaica (vide Levítico 12:3): (2) seus antepassados eram israelitas: (3) era originário da tribo de Benjamim, do qual saíra o primeiro rei de Israel, Saul (o qual, com pouca variedade em português, também era o nome de Paulo): (4) era ele um hebreu não-helênico, de conformidade com a prática e a cultura herdada; (5) pertencera ao grupo dos fariseus: (6) fora tão zeloso pela sua religião que chegara a perseguir a Igreja; (7) mostrara-se impecável na observância formal da lei. No en­tanto, a entrada de Jesus Cristo em sua vida levou Paulo não me­ramente a desprezar, mas também a renunciar a todas as vanta­gens de seu judaísmo prévio, como se fossem desvantagens. E ele continuou a crescer nessa atitude, chegando a considerá-las mero "refugo" (vide 3:8), a fim de que pudesse experimentar uma crescente experiência de união com Cristo, nos sofrimentos, na morte e na ressurreição do Senhor.

Percebendo que os seus leitores haveriam de entendê-lo erro­neamente, como se ele estivesse reivindicando para si mesmo a perfeição, Paulo a desmente no seu caso e exprime o seu ardor com que, esquecendo-se do passado, prosseguia em direitura ao alvo celeste (vide 3:12-16). "Esquecendo-me" não significa banir da memória (se isso fosse possível), mas desconsiderar algo como destituído de qualquer poder presente.

Uma vez mais a discussão gira em torno dos judaizantes, os quais se faziam contrários à cruz de Cristo ao requererem as obras da lei, adoravam a seu próprio ventre ao insistirem ser ne­cessária a aderência às restrições dietéticas da lei, jactavam-se de sua vergonha ao se despirem para receber o rito de circuncisão e que fixavam a mente nas coisas terrenas ao se ocuparem de for­malidades externas e cerimônias (vide 3:17-19). (Alguns estudiosos pensam que o alvo dessas observações seja o gnosticismo antinomiano e/ou perfeccionista: mas o apelo que Paulo faz a seu próprio pas­sado judaico, e mesmo farisaico, favorece a identificação dos judaizantes através deste capítulo inteiro.) O terceiro capí­tulo termina com uma alusão à "comunidade" ou "cidadania" cristã, nos céus, uma figura de linguagem que se revestia de signi­ficação toda especial para os filipenses, cuja cidade era uma co­lônia populada principalmente com cidadãos romanos que vivam distantes de sua própria pátria, na Itália. Ler Filipenses 3 e 4.


Exortações

As diversas exortações que encontramos no quarto capítulo in­cluem um apelo em defesa da unidade entre duas mulheres que eram membros da igreja local, Evódia e Síntique, que anteriormente haviam sido ajudadoras de Paulo. O irmão a quem compe­tia ajudá-las nessa reconciliação era um "fiel companheiro de jugo", cujo nome nos é desconhecido, a menos que nessas pala­vras esteja oculto o seu nome, com um jogo de palavras, a saber: "Sízigos forma grega para "companheiro de jugo" ou "cama­rada", verdadeiramente assim chamado". Seja como for, Paulo roga que ele vivesse à altura do significado de seu nome ou des­crição, promovendo a reconciliação entre aquelas duas crentes. Seguem-se exortações atinentes à alegria, à paciência, à con­fiança, à oração, às ações de graças e à nobreza de pensamentos - juntamente com promessas de presença divina, da paz e do re­torno de Jesus.

Finalmente, Paulo expressa sua gratidão pelo presente que bem recentemente lhe fora enviado pela igreja de Filipos, como também pelas contribuições anteriores. Por toda esta seção, Paulo conserva uma atitude indiferente para com as questões monetárias propriamente ditas ou no tocante a seus benefícios pessoais, mas indica seu interesse e confiança no que dizia res­peito aos galardões que os crentes filipenses haveriam de rece­ber, por lhe terem feito ofertas tão generosas. Finalmente, sauda­ções e uma bênção concluem a epístola.
ESBOÇO SUMÁRIO DE FILIPENSES
Tema: agradecimento pela ajuda financeira, com notícias pessoais e exortações.

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

1. QUESTÕES PESSOAIS (1:3-26)

A. A gratidão de Paulo, oração e expressão de afeto pela igreja em Filipos

B. Prédica de Paulo na prisão, a possibilidade de soltura e a prontidão em morrer (1:12-26)

II. EXORTAÇÕES (1:27 - 2:30)

A. A conduta digna 1:27-30)

B. A unidade através da humildade, com o exemplo do esvaziamento de Cristo, por ação espontânea (2:1-18)

III. ENVIO DE TIMÓTEO E EPAFRODITO A FILIPOS (2:19-30)

IV. ADVERTÊNCIA CONTRA OS JUDAIZANTES, COM FAMOSA PAS­SAGEM AUTOBIOGRÁFICA (3:1-21)

V. EXORTAÇÕES (4:1-9)

A. Unidade entre Evódia e Síntique (4:1-3)

B. Alegria e confiança (4:4-7)

C. Nobreza de pensamentos (4:8,9)

VI. GRATIDÃO PELA AJUDA FINANCEIRA (4:10-20)

CONCLUSÃO: Saudações e bênção (4:21-23)


Para discussão posterior:
- Paulo e os cristãos primitivos deveriam ter feito uma cruzada contra a escravatura? Por que não o fizeram? Qual deveria ser o envolvimento ou não-envolvimento da Igreja na cura dos males sociais - dentro da igreja, fora da Igreja, oficialmente e por ini­ciativa individual?

- Compare os atuais neo-misticismo e intelectualismo com a heresia colossense.

- Por que as pessoas tendem por reagir contra a ênfase sobre a salvação por meio da pura graça de Deus, que se lê na epístola aos Efésios, erigindo os seus próprios sistemas de salvação mediante obras meritórias?

- Qual era a chave para o júbilo de Paulo, em meio às dificulda­des por que passava, segundo ele exprimiu na epístola aos Fili­penses?


Para investigação posterior:
Blaiklock, E.M. From Prison in Roma. Grand Rapids: Zondervan, 1964.

Martin, R.P. The Epistle of Paul to the Philippians. Grand Rapids: Eerdmans. 1959.



CAPÍTULO 17 - As Epístolas Pastorais de Paulo
Perguntas Normativas:
- Quais são os prós e os contras acerca da autoria paulina das epístolas pastorais?

- Em que ponto as epístolas pastorais se encaixam na cronolo­gia da vida de Paulo?

- Quais foram as instruções de Paulo para a vida progressista da Igreja e para a manutenção das crenças cristãs?
I e II TIMÓTEO, E TITO:
CONSELHOS A PASTORES JOVENS
Tema

I e II Timóteo, e Tito compreendem as chamadas epístolas pastorais, assim denominadas porque Paulo as escreveu para jovens pastores. Elas contêm instruções concernentes às responsabilidades administrativas de Timóteo e Tito nas igrejas locais.


Autenticidade

Os eruditos da moderna alta crítica lançam maiores dúvidas sobre a autenticidade dessas epístolas do que sobre quaisquer ou­tras obras que se declaram de autoria paulina. De consonância com essa opinião que nega a autoria paulina das epístolas pasto­rais, o seu autor pseudônimo teria lançado mão da autoridade do nome de Paulo a fim de combater o gnosticismo incipiente no segundo século de nossa era. Essa opinião afirma ou que as epísto­las pastorais são obras inteiramente pseudônimas (mas, por quê, então, a presença de itens tão pessoais a respeito de Paulo, que trazem sinais de autenticidade?) ou, mais freqüentemente, que algum admirador de Paulo incorporou observações paulinas au­tênticas em epístolas que escreveu depois de Paulo já ter falecido.


Teoria dos fragmentos Paulinos

Há certa variedade de opiniões sobre quais seções das epístolas pastorais contêm supostos fragmentos de material que, na re­alidade, foram escritos por Paulo. (Os fragmentos comumente tidos como tais são II Timóteo 1.16-18; 3:10,11; 4 1.2a.5b-22 e Tito 3:12-15.) Em adição, é improvável que meros fragmentos de genuínas epístolas paulinas houvessem sido preservados, sobretudo porque a maioria deles é de natureza pessoal, não se revestindo de atrativos teológicos. Ainda é mais improvável que tenham sido incorporados mais tarde em epísto­las pseudepigráficas mais longas, de forma desordenada, ao acaso. E por que o suposto forjador teria concentrado quase to­dos esses fragmentos na segunda epístola a Timóteo, ao invés de distribuí-los de maneira regular pelas três epístolas pastorais? E, pensando nisso, por que ele teria escrito três epístolas pastorais? O conteúdo das mesmas não difere de modo suficiente para indi­car por qual razão ele teria escrito três epístolas, em nome de Paulo, ao invés de apenas uma.


Pseudônimo

Em apoio à autoria paulina há a declaração, constante no pri­meiro versículo de cada epístola pastoral, no sentido de que Paulo foi o seu autor. Contra tal reivindicação argumenta-se que escrever com a autoria oculta por um pseudônimo era uma prá­tica literária bem aceita ("contrafação piedosa") nos tempos an­tigos e até na Igreja primitiva. Os fatos, todavia, demonstram que usar de um pseudônimo era prática apenas ocasional, a qual não era praticada pela Igreja primitva. O apóstolo Paulo adverte con­tra as falsificações em seu nome (vide II Tessalonicenses 2:2 e 3:17). A Igreja antiga excluiu um ancião de seu ofício eclesiástico por haver escrito sob um pseudônimo (Vide Tertuliano, Sobre o Batismo xvii. Quanto a uma completa discussão sobre pseudônimos, vide D. Guthrie, New Testament lntroduction: Pauline Epistles (Chicago: Inter-Varsity. 1961), apêndice C, "Epistolar, Pseudepigraphy", págs. 282-294.) e se mostrava intensa­mente preocupada com questões de autoria, segundo se de­preende, por exemplo, do debate sobre a autoria da epístola aos Hebreus e da hesitação em adotar um livro de autoria desconhe­cida na coletânea do Novo Testamento.

Outrossim, é altamente improvável que um admirador do já fa­lecido Paulo tivesse chamado o apóstolo de "o principal" dentre os pecadores. (Vide I Timóteo 1:15.) As epístolas pastorais são muito mais semelhantes, em estilo e conteúdo, às demais epísto­las de Paulo do que o são os livros não-canônicos e indubitavel­mente pseudônimos, em relação aos escritos autênticos daqueles em cujos nomes foram forjados. Em acréscimo à reivindicação constante nas próprias epístolas pastorais de que elas foram es­critas por Paulo e à preocupação da Igreja antiga com questões que envolvem a autoria, temos a fortíssima e antiga tradição que diz que o próprio Paulo escreveu as epístolas pastorais. Somente Romanos e I Coríntios contam com confirmações mais decisivas.
Vocabulário e estilo

As dúvidas a respeito da autoria paulina se originam primaria­mente de diferenças de vocabulário e do estilo gramatical que fi­guram nas epístolas pastorias, quando postas em confronto com outras epístolas paulinas. O cotejo consiste de tabelas estatísticas, algumas vezes traçadas com o auxílio de computadores. No entanto, essa objeção "científica" à autoria paulina não leva em conta as diferenças de vocabulário e estilo causadas pelas dife­renças de assuntos e de pessoas endereçadas, além das alterações causadas no estilo de um escritor por considerações como meio ambiente, mais idade, maior experiência e a mera passagem do tempo. Talvez ainda mais significativa seja a possibilidade que as divergências de estilo se tenham originado dos diferentes amanuenses, ou do fato que Paulo deu maior ou menor liberdade a seus amanuenses para usarem um fraseado de acordo com seus pensamentos, no que algumas vezes se mostrou mais exigente do que em outras. A explicação que leva em conta os amanuenses é, ocasionalmente, desprezada, porquanto supostamente seria ex­plicação fácil demais. No entanto, é uma explicação realista, por­que sabemos positivamente que Paulo costumava ditar as suas epístolas.

Além disso, as epístolas geralmente aceitas sem contestação como paulinas, ou passagens mais ou menos longas nelas existen­tes, exibem as mesmas formas de variedade estilística que ser­vem, nas mãos de alguns, para disprovar a autoria paulina das epístolas pastorais. E a maioria dos vocábulos que ocorrem so­mente nas epístolas pastorais, entre aquelas que são de autoria paulina, também figuram na Setuaginta e na literatura grega extra-bíblica do primeiro século cristão, pelo que tais palavras sem dúvida faziam parte do vocabulário de Paulo e dos seus ama­nuenses.
A omissão de Márciom

Aqueles que duvidam da autoria paulina também afirmam que o herege gnóstico Márciom também omitiu as epístolas paulinas de seu "cânon" do Novo Testamento porque elas não seriam da autoria de Paulo. Todavia, Márciom tinha a tendência de rejeitar porções do Novo Testamento aceitas pelos cristãos ortodoxos. Por exemplo, ele repelia os evangelhos de Mateus, Marcos e João, e retirava porções do evangelho de Lucas. A assertiva de que "a lei é boa" (1 Timóteo 1:8) deve ter ofendido a Márciom, que rejeitava radicalmente o Antigo Testamento, e a referência depreciativa àquilo que Paulo intitula de "as contradições do sa­ber [no grego gnosis], como falsamente lhe chamam" (I Timóteo 6:20) deve ter antagonizado a Márciom, o qual chamava o seu próprio sistema doutrinário de gnosis - tudo o que serviria de am­plas razões para Márciom haver omitido as epístolas pastorais de seu cânon, sem que isso desse a entender que elas são obras pseu­dônimas.


Gnosticismo

Por igual modo, alguns asseveram que as epístolas pastorais atacam certa variedade de gnosticismo que só surgiu após o período da vida de Paulo. Para dizermos a verdade, o ascetismo criticado no trecho de 1 Timóteo 4:3 ("que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos") se parece bastante com o gnosticismo de período posterior. Não obstante, o proeminente elemento judaico que havia nas falsas doutrinas combatidas - “especialmente os da circuncisão”, "fábulas judaicas" e "deba­tes sobre a lei" (rito 1:10,14 e 3:9, respectivamente) - comprova que as epístolas pastorais não atacavam, necessariamente, o gnosti­cismo posterior; pois característicos judaicos, apesar de terem passado até ao segundo século, caracterizavam melhor a fase ini­cial do movimento. As epístolas pastorais, bem pelo contrário, atiram-se contra o tipo misto de heresia que já fora combatido an­tes na epístola aos Colossenses, o que, conforme se sabe hodiernamente, teve origem em um judaísmo sincretista da variedade gnóstica pré-cristã. Por conseguinte, é preferível pensarmos numa data mais antiga para as epístolas pastorais; e uma data mais remota favorece a autoria paulina, porquanto um falsifica­dor piedoso não teria ousado utilizar-se do nome do apóstolo numa época ainda bem próxima da vida de Paulo.


Estrutura eclesiástica

Também se tem dito que as epístolas pastorais refletem uma estrutura eclesiástica mais bem organizada do que aquela que já se desenvolvera durante a vida de Paulo. Entretanto, as epístolas pastorais mencionam somente os anciãos (ou bispos), os diáco­nos e as viúvas, todas as quais classes já figuravam desde antes no Novo Testamento. Vide, por exemplo, os trechos de Atos 6:1; 9:39,41 ; I Coríntios 7:8 e Filipenses 1:1. Outrossim, os Papiros do Mar Morto, que pertencem a dias anteriores ao cristianismo, descrevem um oficial da comunidade de Qumran que se asseme­lha de forma notável aos bispos que são mencionados nas epísto­las pastorais. As instruções dadas a Timóteo e a Tito (vide I Ti­móteo 5:22 e Tito 1:5), a respeito da nomeação de anciãos, não se devem a um governo eclesiástico hierarquicamente evoluído, mas ao fato que novas igrejas locais foram iniciadas sob condições missionárias, tal e qual Paulo e Barnabé, logo desde o início de sua missão fizeram nomear anciãos para as novas igrejas do sul da Galácia (vide Atos 14:23).


Ortodoxia

Por igual modo, argumentam alguns, a ênfase posta sobre a or­todoxia doutrinária, nas epístolas pastorais, implica em um está­gio pós-paulino do desenvolvimento teológico, quando a doutrina cristã já era considerada como completa, e, quando, por conseguinte, era mister defendê-la da corrupção, ao invés de ampliá-la em seu escopo. Entretanto, a defesa à tradicional orto­doxia cristã caracteriza as epístolas de Paulo desde os primórdios de suas atividades. Exemplos disso são a epístola aos Gálatas como um todo e o décimo quinto capítulo da primeira epístola aos Coríntios.


Informes cintilantes

Finalmente, alguns afiançam que as epístolas pastorais forne­cem informes históricos e geográficos que não se coadunam com a carreira de Paulo, conforme ela ficou registrada no livro de Atos e nas suas outras epístolas. Supostamente, esse teria sido o erro crasso de algum falsificador piedoso. Os informes conflitan­tes são que Paulo deixara Timóteo em Éfeso, quando viajou para a Macedônia (vide I Timóteo 1:3 - contrastar com Atos 20:4-6), que Demas abandonara a Paulo (vide II Timóteo 4:10 - Demas continuava em companhia do apóstolo, em Filemom 24), e que Paulo deixara Tito em Creta (vide Tito 1:5) e fora para Nicópolis (vide Tito 3:12), ao mesmo tempo que Tito continuara jornada até a Dalmácia (vide II Timóteo 4:10 - ao passo que, no livro de Atos. Paulo não visitara nem Creta e nem Nicópolis).


Dois aprisionamentos em Roma

A resposta a esse argumento é a hipótese que Paulo fora de­clarado inocente e fora solto de seu primeiro período de aprisio­namento em Roma, que então ele usufruiu de certo período de liberdade, durante o qual se encaixam os informes dados pelas epístolas pastorais acerca de seus passos, e que, algum tempo de­pois, foi novamente detido e condenado à morte, como mártir da fé cristã, a qual, nesse ínterim, fora declarada religião ilícita. Assim, pois, os informes históricos e geográficos das epístolas pas­torais não entram em conflito com o livro de Atos, mas aludem a eventos que tiveram lugar após o encerramento do livro de Atos. As próprias epístolas pastorais constituem uma evidência em favor da hipótese de dois períodos separados de aprisionamento em Roma. Outro tanto sucede no caso da expectação de Paulo de que seria libertado, em Filipenses 1:19,25 e 2:24, epístola essa es­crita durante seu primeiro aprisionamento em Roma, em contraste com o fato que Paulo não entretinha a menor esperança de ser solto, consoante se lê em II Timóteo 4:6-8 epístola essa es­crita durante o seu suposto período de novo aprisionamento em Roma.


Ordem de escrita

Concluímos que Paulo escreveu I Timóteo e Tito entre esses dois períodos de aprisionamento, ao passo que II Timóteo foi es­crita durante seu segundo aprisionamento, pouco antes do seu martírio. Permanecerá para sempre desconhecido se Paulo ja­mais chegou à Espanha, conforme ele planejara e registrara em Romanos 15:24 e 28. Clemente de Roma, pai da Igreja primitiva, escreveu que Paulo "atingiu os limites do Ocidente" (I Clemente 5:7), declaração essa que pode ser interpretada como alusão ou a Roma ou à Espanha, no extremo ocidental da bacia do Mediter­râneo.


Propósitos secundários

Em acréscimo às instruções atinentes às responsabilidades ad­ministrativas de Timóteo e Tito nas igrejas, Paulo convocou a Tito para que viesse reunir-se a ele em Nicópolis, na costa oci­dental da Grécia. Vide o mapa à pág. 252. E, em II Timóteo, Paulo, rememorando sua carreira passada e aguardando a sua execução para breve, solicita a Timóteo que viesse ter com ele em Roma, antes da chegada do inverno (vide 4:6-9,21 e 1:17). Paulo temia que, doutra sorte, jamais veria novamente a Timó­teo, porquanto a navegação sofria solução de continuidade du­rante o inverno e a sua execução poderia ocorrer antes disso.


I TIMÓTEO
Ortodoxia

Após a saudação, a primeira epístola a Timóteo começa com uma advertência a respeito dos mestres falsos, que manipulavam erroneamente a lei. Em seguida Paulo relembra a sua própria experiência de conversão e a sua remissão ao apostolado e exorta a Timóteo para que se aferre tenazmente à fé cristã ortodoxa. Ti­móteo precisava usar de cautela no caso de dois mestres falsos, que Paulo excluíra da Igreja, para que ficassem, no mundo, que é território de Satanás ("os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem", 1:20). Ler I Timóteo 1. A cláusula. "Fiel é a palavra e digna de toda aceitação", que conduz à assertiva, "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores" (versículo 15), é uma fórmula que introduzia antigas confissões, motos e hinos cristãos (o que também se vê em I Ti­móteo 3:1; 4:9,10: II Timóteo 2:11-13 e Tito 3:5-8a).


Oração e modéstia

O segundo capítulo começa com uma exortação a que se fa­çam orações públicas em favor de todos os homens, mormente as autoridades governamentais. Seguem-se instruções que ensinam às mulheres cristãs a se vestirem com modéstia, sem extravagân­cias, bem como a não ocuparem posições em que ensinem ofi­cialmente a homens. A declaração, "será preservada através de sua missão de mãe" (2:15), provavelmente significa que, apesar das dores sofridas durante o parto, um resultado restante da mal­dição original contra o pecado humano (vide Gênesis 3:16), a mulher crente será salva do juízo eterno de Deus contra o pe­cado. Noutras palavras, o doloroso do parto não contradiz a sal­vação das mulheres cristãs. Segundo esse ponto de vista, "através de" significa "em meio à", e não "por meio de (sua missão de mãe) "(Outras interpretações são: (1) as mulheres crentes são salvas mediante o parto supremo, o de Cristo: (2) elas realizam sua própria salvação dando à luz e criando filhos piedosamente: e (3) Paulo não promete aqui salvação espiritual, mas isen­ção dos perigos físicos do parto (conforme aparentemente dá a entender a New American Standard Bible).)


Bispos e diáconos

Em prosseguimento, Paulo alista as qualificações necessárias aos bispos e diáconos. "Bispo (episecopos) "significa "supervisor, superintendente", referindo-se ao ofício preenchido por homens também chamados "anciãos (presbuteroi)". Portanto, embora "bispo" e "ancião" retrocedam a diferentes vocábulos gregos, são termos sinônimos. "Diácono", por sua parte, quer dizer "servo, ajudador", aludindo aos assessores dos bispos, os quais cuidavam das questões seculares da vida eclesiástica, particular­mente a distribuição de caridades. A lista das qualificações para as "mulheres", em 3:11, pode simplesmente subentender a or­dem feminina das diaconisas, ou então aludem às esposas dos diáconos, das quais se esperava que ajudassem a seus esposos na distribuição de caridades. A seção se encerra com a citação de um antigo hino ou credo cristão, o qual traça. a carreira de Cristo desde a encarnação à ascensão ("Aquele que foi manifestado na carne... recebido na glória" 3:16) Ler 1 Timóteo 2 e 3.


Propriedade

Um outro aviso concernente às doutrinas falsas (no quarto capítulo) é seguido, no capítulo cinco, por observações acerca do relacionamento apropriado entre Timóteo e diferentes faixas etárias na igreja, acerca da posição ocupada pelas viúvas e acerca do tratamento que se deve dar aos anciãos. Sendo ainda jovem, Timóteo deveria tratar com outros jovens como irmãos seus, com homens de mais idade como se fossem seus pais, com mulheres idosas como a mães, e com as donzelas como se fossem suas próprias irmãs.


As viúvas

As viúvas deveriam ser sustentadas por seus próprios familia­res. Porém, viúvas que vivessem piedosamente e tivessem ses­senta anos de idade ou mais, se não contassem com a ajuda finan­ceira de parentes, deveriam receber assistência econômica por parte da igreja. As viúvas mais jovens deveriam contrair novo matrimônio, para não caírem na tentação de apelar para uma vida imoral, como meio de sustento.


Os anciãos

Os anciãos fiéis, em especial aqueles que pregam e ensinam, merecem sustento financeiro. Não devem ser impugnados os pas­tores, exceto se houver duas ou três testemunhas de acusação; mas aqueles cujos erros fossem comprovados deveriam ser publi­camente repreendidos. Timóteo não deveria consagrar (“impor as mãos”) a nenhum homem ao ofício ministerial apressadamente, mas antes deveria provar o caráter de tal homem, e isso por um período de certo tempo (a menos que a referência seja à restau­ração de membros disciplinados da igreja). Esta epístola se fecha no sexto capítulo, com instruções miscelâneas a respeito de es­cravos cristãos, de falsos mestres, de crentes abastados e das res­ponsabilidades espirituais do próprio Timóteo. Ler 1 Timóteo 4-6.


ESBOÇO SUMÁRIO DE I TIMÓTEO
Tema: organização e administração de igreias locais por parte de Timóteo.

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

I. AVISO CONTRA A HERESIA, COM REMINISCÊNCIAS PESSOAIS (1:3-20)

II. ORGANIZAÇÃO DA IGREJA POR TIMÓTEO (2:1 - 3:13)

A. Orações públicas (2:1-8)

B. A modéstia e a subordinação das mulheres (2:9-15)

C. As qualificações dos bispos (3:1-7)

D. As qualificações dos diáconos (3:8-13)

III. ADMINISTRAÇÃO DA IGREJA POR TIMÓTEO (3:14. 6:19)

A. Preservação da Igreja como baluarte da ortodoxia e contra a heterodoxia (3:14 - 4:16) (Assim como ortodoxia significa "crença correta", ortopraxia significa "con­duta correta".)

B. Como pastorear os membros da igreja (5:1 - 6:26)

1. Homens e mulheres, jovens e velhos (5:1,2)

2. Viúvas (5:3-16)

3. Anciãos, com um reparo acerca do próprio Timóteo (5:17-25)

4. Escravos (6:1-2b)

C. Como ensinar e exortar os crentes ao dever (6:2c-10)

D. Como servir de exemplo (6:11-16)

E. Como advertir aos ricos (6:17-19)

CONCLUSÃO: incumbência final a Timóteo e bênção (6:2(1,21)
TITO
Paulo escreveu esta epístola quando estava em Nicópolis, na costa ocidental da Grécia. Endereçou-a a Tito, a quem deixara na ilha de Creta, a fim de organizar a igreja local dali. Tal como o faz em I Timóteo, o apóstolo adverte no tocante aos mestres fal­sos e baixa instruções acerca da conduta conveniente de várias classes de cristãos. A base doutrinária de tais instruções é a graça de Deus, a qual confere a salvação, conduz à vida piedosa e ofe­rece a "bendita esperança" da volta de Jesus (vide 2:11-14). A base experimental dessas instruções é a regeneração operada pelo Espírito Santo (vide 3:3-7). Ler Tito 1 - 3.
ESBOÇO SUMÁRIO DE TITO
Tema: organização e administração das igrejas locais de Creta, por parte de Tito

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1-4)

I. NOMEAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DOS BISPOS (1:5-9)

II. SUPRESSÃO DOS FALSOS MESTRES (1:10-16)

III. ENSINANDO A BOA CONDUTA (2:1 - 3:8a)

CONCLUSÃO: (3:8b-15)

A. Sumário (3:8b-11)

B. Solicitação a Tito para vir a Nicópolis, e outras instruções (3:12-14)

C. Saudações e bênção (3:15)

II TIMÓTEO
Reminiscências e exortação

A última epístola de Paulo tem início com reminiscências da chamada divina de Timóteo e de Paulo, entremeadas com exor­tações e uma observação lateral acerca de alguns que haviam deixado Paulo desamparado na prisão, e acerca de outros, que se tinham colocado a seu lado. As demais instruções dadas a Timó­teo extraem comparações com o trabalho árduo e a auto­disciplina requeridos da parte de soldados, atletas e agricultores. Em contraposição ao ensino herético, Paulo frisa que "Toda Es­critura é inspirada por Deus e útil..." (3:16). Uma incumbência final, a de pregar a Palavra de Deus, uma declaração sobre a dis­posição de ir até à morte, notícias pessoais e solicitações concluem a despedida constante nesta epístola de Paulo. Ler II Ti­móteo 1 - 4.

Janes e Jambres (vide 3:8) eram dois mágicos de Faraó, que se opuseram a Moisés, de conformidade com o Targum de Jônatan, sobre Êxodo 7:11, e primitiva literatura cristã fora do Novo Tes­tamento. Os pergaminhos que Paulo rogou fossem trazidos por Timóteo (vide 4:13) por certo tinham um conteúdo importante, pois o pergaminho era material dispendioso. Talvez fossem os documentos legais de Paulo, como o seu certificado de cidadania romana, ou cópias de Escrituras do Antigo Testamento, ou regis­tros da vida e dos ensinamentos de Jesus.

Provavelmente cumpre-nos compreender o livramento de Paulo "da boca do leão" de forma figurada, e não literal, pois usava-se a figura do leão como metáfora indicativa de extremo perigo (vide 4:17; comparar com Salmo 22:21). Mais especifica­mente, o leão tem sido empregado como símbolo do diabo, con­forme se vê em I Pedro 5:8, ou do imperador Nero.


ESBOÇO SUMÁRIO DE II TIMÓTEO
Tema: a comissão de Timóteo para levar avante a obra realizada por Paulo.

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

I. EXORTAÇÃO À INTENSIDADE NO MINISTÉRIO, EM CONTRAPOSI­ÇÃO AO PENDOR À TIMIDEZ, QUE TIMÓTEO REVELAVA (1:3 - 2:7)

II. EXORTAÇÃO À ORTODOXIA, EM CONTRAPOSIÇÃO A ENSINOS E PRÁTICAS FALSOS (2:8 - 4:8)

CONCLUSÃO (4:9-22)

A. Pedido sobre a vinda imediata de Timóteo (4:9-13)

B. Notícias sobre o julgamento de Paulo (4:14-18)

C.Saudações, com outro apelo sobre a vinda de Timóteo e uma bênção (4:19-22)


Para discussão porterior:
- Quais diferenças se percebem entre a estrutura das modernas igrejas locais e a da Igreja primitiva, segundo se reflete nas epís­tolas pastorais? Como você justifica essas diferenças?

- Até que ponto a Igreja moderna está na obrigação de moldar-­se segundo a estrutura eclesiástica e o estilo de funcionamento da Igreja primitiva? Por outro lado, as circunstâncias modifica­das e a cultura diferente permitem à Igreja a liberdade de opera­ção e de inovação? e, nesse caso, dentro de quais limites, se por­ventura há limites?

- Avalie o acerto da acusação de que a preocupação de Paulo com a ortodoxia, nas epístolas pastorais, soa mais como algo ne­gativo e exageradamente defensivo.
Para investigação posterior:
Guthrie, D. The Pastoral Epistles and the Mind of Paul. Londres: Tyndale, 1956.

-- The Pastoral Epistles. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

Kelly, J.N.D. I e II Timóteo e Tito. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983

EXCURSO: RESUMO DA TEOLOGIA PAULINA
Origens

Visto que a teologia de Paulo acha-se distribuída por certo nú­mero de epístolas, escritas sob circunstâncias tipicamente missio­nárias, a nós resta a tarefa de sumariar seu pensamento. Antigamente, alguns eruditos chegaram a pensar que Paulo tivesse feito profundos empréstimos dos conceitos gregos e das religiões misteriosas, quanto ao conteúdo e à forma de sua teologia. Atualmente, entretanto, o consenso geral assevera que a sua dí­vida ao Antigo Testamento e ao judaísmo rabínico em muito ex­cede à sua dívida a fontes gregas e misteriosas. Aqueles mesmos eruditos igualmente criam que Paulo fora um notável inovador, que transformara Jesus daquilo que Ele realmente era, um rabino e mártir carismático, em um Salvador cósmico, revestido de atri­butos divinos. Porém, um estudo mais acurado da literatura pau­lina tem demonstrado que Paulo se estribou pesadamente sobre a primitiva tradição cristã - hinos, credos, confissões batismais e instruções catequéticas - sobre a conduta cristã, além de haver-­se respaldado nas tradições orais e escritas acerca da vida e dos ensinamentos de Jesus, antes dos evangelhos terem sido registra­dos. O estudo dos evangelhos, do livro de Atos e das epístolas paulinas conduz à mesma conclusão: Paulo desenvolveu uma teologia cristã já existente, que se originara com Jesus e que cres­cera baseada sobre as Escrituras do Antigo Testamento, reputa­das como plenamente autoritativas.


Deus e a criação

Do judaísmo e do Antigo Testamento é que procede o con­ceito paulino de um só verdadeiro Deus, o qual é onipotente, santo e gracioso. Esse Deus é uma pessoa. Aqueles que chegam a conhecê-Lo por intermédio de Cristo, podem dirigir-se a Ele afe­tuosamente, tratando-o de Pai ("Aba"). Porém, há multiplici­dade dentro da personalidade do Deus único: razão por que Paulo escreve nos termos trinitarianos de Pai, Filho e Espírito Santo. Deus Pai criou o universo e todos os seres nele existentes, através de Seu Filho e para Ele. Por conseguinte, o universo ma­terial é inerentemente bom; o pecado é que é um intruso. Todos os homens pecaram em Adão, e o pecado mantém um domínio de tal modo imperioso sobre os homens que a boa lei de Deus provoca-os à transgressão, e não à obediência. E disso re­sulta a morte, tanto a física quanto a espiritual. Fazendo parte da criação material, o corpo humano é inerentemente bom; mas, visto que o pecado se manifesta através do corpo, Paulo intitula o impulso pecaminoso de "a carne".(“Carne” nem sempre alude à propensão ao pecado. Outros sentidos incluem o corpo de carne, a humanidade, a descendência humana natural ou algum relacio­namento humano natural, e a natureza humana como tal (fraca, pecaminosa ou não).)

Jesus, o eternamente preexistente Filho de Deus, veio dos céus a fim de redimir os homens da servidão ao pecado e de suas conse­qüências. Para tanto, Ele se fez um ser humano e entregou-se à morte, a fim de satisfazer tanto a ira divina contra o pecado como para satisfazer o amor divino pelos pecadores. Deus res­suscitou a Jesus dentre os mortos e O exaltou como Senhor (pala­vra essa que traduz "Javé" ou "Jeová"), nos céus, a fim de demonstrar a Sua plena satisfação. Agora, pois, o "chama­mento" de Deus é feito àquelas pessoas que por Ele foram esco­lhidas previamente. Não obstante, a eleição divina de algumas pessoas não contradiz o convite sincero à salvação, estendido a todos os seres humanos. Os homens acatam esse convite através de uma sincera tristeza ante o pecado (arrependimento) e a fé em Jesus Cristo; e essa fé envolve assentimento mental ao que o cristianismo diz sobre a identidade de Jesus, confiança exclusiva em Sua morte e ressurreição com vistas à remissão (ou remoção) de pecados, e submissão moral ao tipo de vida que Ele requer daí por diante. O crente penitente imediatamente passa a estar "em Cristo", em razão do que o seu pecado é transferido a Cristo e a retidão de Cristo é transferida a ele. A solidariedade com Cristo, pois, substitui a solidariedade com Adão. Dessa maneira, Deus pode tratar amorosamente ao crente como pessoa reta (justifica­ção), ao mesmo tempo que conserva Seu próprio padrão de jus­tiça. Como Senhor, Jesus "redime" aos crentes, ou seja, Ele os li­bera da servidão ao pecado, mediante o pagamento de certo preço, tal e qual Javé redimiu a nação de Israel da servidão egípcia, por ocasião do êxodo. Deus e o crente são reconciliados entre si; a comunhão entre Deus e o homem é restaurada. Ora, tudo isso ocorre devido à graça divina, ao favor de Deus para com homens desmerecedores, sem qualquer boa obra meritória de sua parte.
O Espírito, os cristãos e a Igreja

Deus confere o Seu Espírito ao crente, como garantia de uma glória futura e eterna, mas também para ser poderosa ajuda ao viver individual e coletivo dos crentes. O Espírito Santo capacita os crentes a dominarem o impulso pecaminoso ("a carne"), a vi­verem virtuosamente, a orarem e a ministrarem a outros. O corpo, antes dominado pela carne, torna-se santuário sagrado do divino Espírito, fica destinado à ressurreição para a vida eterna. Além disso, tal como o corpo do cristão individual é templo do Espírito Santo, assim também o é a Igreja como um todo. Na ver­dade, o corpo com suas diversas porções é a grande metáfora usada por Paulo para doutrinar sobre a Igreja em sua unidade or­gânica, na diversidade de suas funções e na sua subordinação a Cristo, o seu cabeça. E as igrejas locais (palavra derivada do termo grego ecclesia) não são os templos de alvenaria, mas são as assembléias de remidos que se reúnem em um dado local, aqueles cuja cidadania superior pertence ao reino de Deus. Esses são também os "santos", os "irmãos", em cujos corações rebrilham os segredos revelados ("mistérios") do evangelho do reino. Esses confessam a sua unificação com Cristo, em Sua morte, sepulta­mento e ressurreição, através da Ceia do Senhor, a qual também lança vistas ao futuro banquete messiânico, que terá lugar quando da parousia ou segunda vinda de Cristo.


Escatologia

As forças do mal - Satanás, espíritos demoníacos e seres huma­nos por eles dominados - controlam a era presente. Mas isso não prosseguirá nessas condições para sempre; aproxima-se célere a vinda do Senhor. E então Ele assumirá o controle de tudo. Quando o homem do pecado (o anticristo) tiver encabeçado uma grande revolta contra Deus, Cristo, o Senhor, haverá de re­tornar a fim de julgar aos ímpios, vindicar aos piedosos e restau­rar a nação de Israel. Aos crentes cabe o dever de manterem-se vigilantes quanto a esse grande acontecimento. Trata-se de sua "esperança" confiante, uma possibilidade franqueada a cada ge­ração de remidos. Após o dia do Senhor, terá começo a era vin­doura, uma sucessão interminável de eras, chamadas de eterni­dade, na qual Deus se comprazerá em Seu povo, e eles no seu Deus - para sempre. (Paulo tomou por empréstimo essas três expressões, "esta época (presente)", "o dia do Senhor" e "aquela era (ou era vindoura)", do Vocabulário rabínico, injetando nelas pensamentos cristãos.)


Para discussão posterior:
- Por que Paulo e outros primitivos autores cristãos não escre­veram obras teológicas, em forma sistemática, ao invés de epísto­las e tratados ocasionais?

- Quais aspectos particulares de sua teologia impediram a Paulo de tornar-se um teólogo de escrivaninha, mas antes, compeliram-no a viajar por muitos lugares, em meio a grandes sacrifícios pessoais, por amor ao evangelismo?


Para investigação posterior:
Machen, J. G. The Origin of Paul's Religion. Grand Rapids: Eerdmans, 1925.

Bouttier, M. Christianity According to Paul. Traduzido por F. Clarke. Londres: SCM, 1966.

Scott, C. A. A. Christianity According to St. Paul. Cambridge University Press, 1961.

Barclay, W. The Mind of St. Paul. Nova Iorque: Harper & Row, 1958.

Hunter, A M. Paul and His Predecessors. Filadélfia: Westminster, 1961.

------, The Gospel According to St. Paul. Filadélfia: Westminster, 1967.

Whiteley, D.E. H. The Theology of St. Paul. Filadélfia: Fortress, 1964.

Stewart, J. S. A Man in Christ. Nova Iorque: Harper & Row, n. d.

Longenecker, R. N. Paul, Apostle of Liberty. Nova Iorque: Harper & Row, 1964.

Davies, W. D. Paul and Rabbinic Judaism. Londres: S.P.C.K., 1962. Para um estudo mais avançado.



CAPÍTULO 18 Hebreus: Jesus, Nosso Grande Sumo Sacerdote
Perguntas Normativas:
- Quais são os candidatos mais prováveis à autoria da epístola aos Hebreus?

- A quem foi escrita a epístola aos Hebreus, onde viviam eles e quais eram suas condições espirituais?

- Qual é a distintiva ênfase cristológica da epístola aos He­breus, e como isso se relaciona ao esforço de dissuadir seus leitores de seguirem a apostasia?

Tema


O autor da epístola aos Hebreus retrata distintivamente a Jesus Cristo como o grande Sumo Sacerdote que, tendo oferecido nada menos que a Si mesmo, como o sacrifício totalmente suficiente pelos pecados, agora ministra no santuário celestial. O propósito desse retrato, que exibe a superioridade de Cristo sobre todo aspecto e sobre todo herói da religião revelada no Antigo Testamento, foi o de impedir que os leitores originais da epístola revertessem ao judaísmo.

Autoria. Paulo


A tradição da Igreja primitiva manifesta-se em tons incertos quanto à autoria do livro anônimo dirigido aos Hebreus. Sem embargo, em data bastante recuada (cerca de 95 D. C.), a epístola aos Hebreus já era conhecida e usada, conforme se vê em I Clemente. Na porção oriental do império romano, Paulo era usualmente reputado seu autor. A teologia do tratado aos He­breus realmente se assemelha à de Paulo, quando se coteja a preexistência e a posição de Cristo como criador, em Hebreus 1:1-4 e Colossenses 1:15-17; a humilhação de Cristo, em Hebreus 2:14-17 e Filipenses 2:5-8; a nova aliança, em Hebreus 8:6 e 11 Coríntios 3:4-11; e a distribuição de dons do Espírito Santo, em Hebreus 2:4 e I Coríntios 12:11. Não obstante, o segmento ocidental da Igreja duvidava da autoria paulina, tendo chegado mesmo a excluir o livro aos Hebreus do cânon, pelo menos a princípio, por causa de dúvidas quanto à autoria do mesmo. Esse fato mostra-nos que a Igreja primitiva não aceitava credulamente a quaisquer obras no cânon neotestamentário sem primeiramente examinar as credenciais comprobatórias no tocante à autoria, à natureza fidedigna e à pureza doutrinária.

A Igreja ocidental tinha bons motivos para duvidar da autoria paulina. Nenhuma das epístolas reconhecidamente pertencentes a Paulo é anônima como a epístola aos Hebreus. O polido estilo grego de Hebreus difere radicalmente do estilo rude desse após­tolo, muito mais do que pode ser explicado pelo emprego de um amanuense diferente. E, se por um lado Paulo apelava constante­mente para sua própria autoridade apostólica, por outro lado o escritor da epístola aos Hebreus apela para autoridade daqueles que tinham sido testemunhas oculares do ministério de Jesus (vide Hebreus 2:3).



Barnabé


Outros estudiosos têm sugerido Barnabé, cujo passado como levita (vide Atos 4:36) se harmoniza com o interesse pelas funções sacerdotais que se manifesta por todo o livro aos Hebreus, e cuja associação com Paulo poderia explicar as similaridades com a teologia paulina. No entanto, por ter sido residente em Jerusalém (vide Atos 4:36,37), provavelmente Barnabé chegara a ouvir e ver a Jesus, ao passo que o autor da epístola aos Hebreus inclui a si mesmo entre aqueles que dependiam de outros quanto ao testemunho ocular (vide Hebreus 2:3).

Lucas


Lucas, um outro companheiro de Paulo, também é candidato à autoria da epístola aos Hebreus, devido à semelhança de estilo do livro aos Hebreus, em grego culto e polido, e o de Lucas-Atos. Todavia, Lucas-Atos se reveste de uma perspectiva tipicamente gentílica, ao mesmo tempo que o livro aos Hebreus manifesta-se altamente judaico.

Apolo


Martinho Lutero sugeria a autoria de Apolo, cuja familiaridade com Paulo (vide 1 Coríntios 16:12), além de ter sido melhor instruído por Priscila e Áqüila (vide Atos 18:26), pode ser justificativa para a semelhança com a teologia paulina que se vê em Hebreus. A eloqüência de Apolo (vide Atos 18:24,27,28) poderia ter produzido o estilo elevadamente literário da epístola aos He­breus. Outrossim, seu passado formativo alexandrino se adapta ao uso exclusivo da Setuaginta, na epístola em apreço, quando de citações extraídas do Antigo Testamento, porquanto a Setua­ginta foi produzida em Alexandria, no Egito.(Alguns eruditos traçam o paralelo entre as interpretações alegóricas do Antigo Testamento, pelo filósofo judeu Filo, contemporâneo de Apolo e também nativo de Alexandria, e o manuseio das revelações do Velho Testamento em Hebreus. Todavia, Hebreus trata o Antigo Testamento como história simbólica, e não como alegoria.) Porém, a ausência de tradições antigas em favor de Apolo deixa-nos na dúvida a esse respeito.

Silvano


A suposição de que Silvano (ou Silas), companheiro de Paulo, tenha sido o autor de Hebreus, também pode explicar as suas similaridades com a teologia paulina. Mas não muito mais do que isso pode ser dito em favor ou contra a autoria de Silvano.

Felipe


Outro tanto se pode dizer no que tange à sugestão de que Filipe escreveu a epístola ao Hebreus.

Priscila


Harnack sugeriu Priscila, devido às íntimas associações entre ela e Paulo, e engenhosamente argumentou que ela escrevera a obra no anonimato porque a autoria da parte de uma mulher não era aceitável pelo público.

Clemente de Roma


As semelhanças entre Hebreus e I Clemente permitem a possibilidade que seu autor tenha sido Clemente de Roma. Entre­tanto, há muitas diferenças quanto à perspectiva, e o mais provável é que Clemente tenha feito empréstimos da epístola aos He­breus, e nada mais. Juntamente com Orígenes, pai da antiga Igreja, concluímos que somente Deus sabe quem escreveu a epístola aos Hebreus.

Destinatários


A despeito do tradicional apêndice do título "aos Hebreus", alguns têm pensado que esse livro foi originalmente endereçado a crentes gentílicos. Em apoio a essa opinião, apela-se ao estilo polido no grego e ao contínuo uso da Setuaginta, havendo apenas um desvio ocasional em relação à tradução grega do Antigo Testamento. Todos esses fenômenos, entretanto, nada deixam implícito quanto aos destinatários originais da epístola. Indicam tão-­somente o passado formativo de seu autor. O uso freqüente do Antigo Testamento, o pressuposto conhecimento dos rituais judaicos, a advertência para seus leitores não reverterem ao judaísmo, além do título tradicional e antiquíssimo do livro, tudo aponta para o fato que o livro foi endereçado originalmente a judeus cristãos.

Destinação


À primeira vista, poderia parecer mais verossímil que esses judeus cristãos viviam na Palestina. Mas, levando-se em conta o trecho de Hebreus 2:3, seus leitores não tinham visto nem ouvido a Jesus, pessoalmente, durante Seu ministério terreno, conforme muitos cristãos palestinos sem dúvida o tinham feito; e, em consonância com Hebreus 6:10, eles haviam ajudado financeira e materialmente a outros cristãos, ao passo que os cristãos palestinos eram pobres e tinham recebido ajuda externa (vide Atos 11:27-30; Romanos 15:26 e II Coríntios 8 e 9). Outrossim, o conhecimento que os seus leitores dispunham sobre os rituais judaicos ao que parece provinha do Antigo Testamento segundo a versão da Septuaginta, e não porque freqüentassem aos cultos no templo de Jerusalém. E a declaração, "Os da Itália vos saúdam­(13:24), soa como se italianos distantes da Itália estivessem enviando saudações de volta à sua pátria. Nesse caso, Roma seria o destino provável da presente epístola. Consubstanciando essa conclusão, temos de considerar o fato que a evidência em prol do conhecimento da epístola aos Hebreus nos chega, antes de tudo, de Roma (vide I Clemente). (vide ainda W. Manson, The Epistle to the Hebreus (Londres: Hodder & Stough­ton, 1951).)

Recentemente, H. Montefiore propôs que Apolo escreveu a epístola aos Hebreus em Éfeso, à igreja de Corinto, especial­mente a seus membros judeus cristãos. (A Commentary on the Epistle to the Hebrews (Londres: Black, 1964).) em 52-54 D, C. Ele traçou numerosos paralelos entre Hebreus e a correspondência de Paulo com os crentes coríntios. De acordo com essa posição, as palavras "Os da Itália vos saúdam" (13:24) seriam Priscila e Áqüila, os quais originalmente se tinham mudado de Roma para Corinto, mas depois acompanharam Paulo de Corinto a Éfeso. Poderíamos inquirir, entretanto, por qual motivo o autor da epístola aos Hebreus não mencionou por nome a Priscila e Áquila, mas preferiu usar uma expressão generalizadora, sobretudo diante do fato que acabara de mencionar a Timóteo por nome. Não obstante, os argumentos de Montefiore merecem séria consideração.



Propósito


Onde quer que habitassem os destinatários da epístola, eram bem conhecidos do seu autor. Ele escreve a respeito da generosidade deles (vide 6:10), das perseguições que vinham sofrendo (vide 10:32-34 e 12:4), da imaturidade deles (vide 5:11 - 6:12) e de sua esperança de que em breve haveria de visitá-los novamente (vide 13:19,23). Dois detalhes adicionais podem ser muito significativos: (1) os leitores da epístola são exortados a saudar não somente os líderes e demais membros de sua própria congregação, mas também "a todos os santos" (13:24); (2) eles são repreendi­dos por não se reunirem com a necessária freqüência (vide 10:25). O mais provável, portanto, é que fossem um grupo de cristãos judeus que se reuniam em algum domicílio e que se tinham separado do corpo central de cristãos da localidade em que viviam, e que agora corriam o perigo de retornar ao judaísmo, a fim de evitarem as perseguições. (O desaparecimento tão repentino de uma tradição segura quanto à autoria do livro pode dever-se ao separatismo dos destinatários originais. Outras identificações quanto aos destinatários são que eles eram um grupo de sacerdotes judeus convertidos (vide Atos 6:7), ou um grupo de convertidos da seita de Qumram, a qual produziu os papiros do Mar Morto.) O propósito funda­mental da epístola é justamente o de entravar tal apostasia, trazendo-os de volta ao caudal da comunhão cristã.

Data


O uso da epístola aos Hebreus, em I Clemente, requer que tal epístola tenha sido escrita antes de 95 D. C., data de I Clemente. Também se tem argumentado que os verbos no tempo presente, que se vêem na epístola aos Hebreus, ao descrever a mesma os rituais expiatórios, subentendem uma data anterior ao ano 70 D. C., ano em que Tito destruiu o templo de Jerusalém e os sacrifícios deixaram de ser oferecidos ali pelos judeus. Todavia, outros escritos que por certo datam de após o ano 70 D. C., continuam a usar verbos no tempo presente ao aludirem aos rituais mosaicos (vide I Clemente, Josefo, Justino Mártir e o Talmude). Além disso, a epístola aos Hebreus não faz a descrição dos rituais efetuados no templo, e, sim, dos rituais do "tabernáculo" pré­salomônico, pelo que os verbos no tempo presente consistem tão só de um vívido estilo literário, não podendo subentender coisa alguma no tocante à data em que foi escrito o livro aos Hebreus. O que realmente favorece uma data anterior a 70 D. C., para a escrita do livro, é a ausência a qualquer alusão, nessa epístola, à destruição do templo de Jerusalém, como indicação divina de que o sistema de holocaustos do Antigo Testamento se tornara obsoleto. Não há que duvidar que o autor sagrado ter-se-ia valido de um argumento histórico dessa magnitude, se aquele aconteci­mento já houvesse ocorrido.

Forma literária


Tal como no caso de outras epístolas, Hebreus termina com alusões pessoais, mas, divergentemente de outras epístolas, ela não conta com saudações introdutórias. O estilo de oratória e observações como "Certamente me faltará o tempo necessário para referir..." (11:32), parecem indicar mais um sermão. Porém, a assertiva: "...vos escrevi resumidamente" (13:22), requer que pensemos que o livro de Hebreus é uma epístola, afinal de contas, embora escrita segundo o estilo de um sermão.

A superioridade de Cristo


A fim de impedir seus leitores de retornarem ao judaísmo, o autor de Hebreus ressalta a superioridade de Cristo em relação a tudo o mais, especialmente em relação a várias características do judaísmo originadas do Antigo Testamento. A expressão "melhor que" epitoma o tema predominante da superioridade de Cristo, um tema reiterado enfaticamente por toda a obra, mediante exortações para que seus leitores não apostatassem da fé cristã.

Superior aos profetas


Cristo é superior aos profetas do Antigo Testamento por­quanto é Ele o próprio Filho de Deus, o herdeiro do universo, o criador, o reflexo exato da natureza divina, o sustentador da vida no mundo, o purificador dos pecados, o Ser exaltado - e, por conseguinte, a última e mais excelente palavra de Deus ao homem (vide 1:13a).

Superior aos anjos


Cristo é também superior aos anjos, a quem os contemporâneos judeus do autor sagrado reputavam mediadores da legislação mosaica, no Monte Sinai (vide Atos 7:53 e Galátas 3:19); porque Cristo é o Filho divino e criador eterno, mas os anjos são apenas servos e seres criados (vide 1:3b – 2:18). E mesmo o fato que Ele se tornou menor que os anjos, mediante a encarnação e a morte, foi uma ocorrência meramente temporária. Era mister que Ele se tivesse tornado um ser humano a fim de estar qualificado como aquele que, por Sua morte, pudesse elevar o homem decaído àquela dignidade que originalmente lhe fora propiciada por Deus, quando da criação. Por causa de Seu ato expiatório, Cristo foi revestido de imensa honra. Na metade dessa seção é que ocorre uma exortação que insta para que os leitores originais da epístola não declinassem da sua profissão cristã (vide 2:1-4). Ler Hebreus 1 e 2.

Superior a Moisés


Na posição de divino Filho sobre a casa de Deus, Jesus Cristo é superior a Moisés, um servo na casa de Deus(vide 3:1-6). A exortação, pois, visa a evitarmos incorrer no juízo de Deus, em resultado da incredulidade. A geração de israelitas que saiu do Egito sob a liderança de Moisés, mas morreu no deserto por causa da indignação divina contra a rebelião deles provê um terrível exemplo de advertência (vide 3:7-19).

Superior a Josué


Cristo é melhor do que Josué; pois embora Josué tenha feito Israel entrar na terra de Canaã, Cristo conduzirá aos crentes ao lugar de repouso eterno, nos céus, onde Deus descansa de Sua obra criativa (vide 4:1-10). É óbvio que Josué não conseguiu fazer Israel entrar nesse repouso celestial; porquanto muito tempo de­pois de Josué ter vivido e morrido, Davi falou do lugar de re­pouso de Israel como lugar ainda não atingido (vide Salmo 95:7,8).(Outra interpretação é que o "descanso" ao qual Jesus conduz os crentes não é o futuro repouso celeste, após as boas obras do viver cristão, mas é o presente repouso espiritual, ou cessação da justiça própria mediante as obras da lei, ante a redenção já realizada por meio de Cristo. Todavia, o aviso intimamente relacionado acerca da apostasia, com suas temíveis conseqüências, e o paralelo entre o fato que Deus descansou de Sua (boa) obra da criação e nosso repouso do trabalho favorecem a interpretação acima. Ainda uma outra opinião diz que o descanso do crente não é a própria salvação (quer presente quer futura), mas um vi­ver cristão bem sucedido, tipificado pela conquista de Canaã por Josué. Nova­mente, porém, essa interpretação tende por cortar a conexão entre a passagem e os avisos contra a apostasia.) A comparação entre Jesus e Josué é bem mais impressionante no Novo Testamento grego, pois o apelativo hebraico "Josué" assume a forma "Jesus", no grego. Noutras palavras, o texto grego desconhece a distinção entre o nome próprio Josué, do Antigo Testamento, e o nome próprio Jesus, do Novo Testa­mento.

Em prosseguimento, o autor exorta os seus leitores a entrarem no descanso celestial, através da fidelidade à sua profissão cristã (vide 4:11-16). Essa ênfase posterior sobre a total suficiência da obra expiatória de Jesus elimina qualquer implicação de que a continuação das boas obras, na vida do crente, merece a salvação. Entretanto, as boas obras e o desviar-se da apostasia são coisas necessárias para demonstração da genuinidade da profissão de fé cristã. O décimo segundo versículo contém a famosa comparação da Palavra de Deus com uma espada de dois gumes, que penetra e desnuda o ser mais interior do homem. Por conseguinte, os crentes devem provar que sua externa profissão de fé se origina de uma realidade interna. Ler Hebreus 3 e 4.



Superior Arão


Cristo é superior a Arão e seus sucessores no ofício sumo sacerdotal (vide 5:1 - 12:29). O autor da epístola aos Hebreus primeiramente destaca dois pontos de semelhança entre os sacerdotes arônicos e Jesus Cristo: (1) à semelhança de Arão, Cristo foi divinamente nomeado ao sumo sacerdócio, e (2) ao compartilhar de nossa experiência humana, Cristo adquiriu por nós uma simpatia pelo menos igual àquela de Arão (vide 5:1-10). O mais proeminente exemplo desses sentimentos de Jesus foi que Ele instintivamente procurou furtar-se da morte, quando orava no jardim do Getsêmani (embora jamais do terror da morte, como se fosse culpado, e, obviamente, também não houve a recusa de aceitar a cruz).

Em seguida há uma longa exortação (vide 5:11 - 6:20) com vis­tas ao progresso que nos leva da infância à maturidade espirituais, se avançarmos para além das doutrinas elementares da fé judaica, que formam o alicerce da fé cristã e que adquirem uma nova significação no seu contexto cristão. Quando o crente não se desenvolve espiritualmente, isso aumenta o perigo de vir a apostatar. E se um cristão renunciar a Cristo de maneira pública, voluntária e final, deixará de existir para sempre toda e qualquer possibilidade de salvação. O autor sagrado descreveu os seus leitores como cristãos falando do ponto de vista de sua presente profissão de fé (não conhecendo os seus corações, de que outra maneira poderia tê-los descrito?), mas continua e salienta que a apostasia tanto haveria de demonstrar a ilegitimidade de sua profissão cristã como os levaria a incorrer em irrevogável julga­mento, por motivo de falsa profissão. Deve-se notar que a apostasia envolve um sentido muito mais grave do que no caso de desobediência temporária. Ler Hebreus 5 e 6.

Os itens frisados da superioridade de Cristo sobre Arão são: (1) Cristo se tornou sacerdote em virtude de um juramento divino, mas não assim com os aronitas (Arão e seus descendentes sacerdotais); (2) Cristo é eterno, ao passo que os aronitas morriam e tinham de ser substituídos; (3) Cristo é impecável, ao passo que os aronitas não o eram; (4) as funções sacerdotais de Cristo envolvem as realidades celestiais, mas as dos aronitas dizem respeito somente a símbolos terrenais; (5) Cristo ofereceu-se a Si mesmo voluntariamente como um sacrifício que jamais precisará ser repetido, ao passo que as repetitivas ofertas de animais desmascaram a sua ineficácia, pois animais inferiores não podem tirar os nossos pecados; e (6) o próprio Antigo Testamento, escrito durante o período do sacerdócio arônico, predizia que sobreviria uma nova aliança, que tornaria obsoleto ao antigo pacto, segundo o qual funcionava o sacerdócio arônico (vide Jeremias 31:31-34).

Muito se tem disputado sobre a interpretação correta da advertência que aparece em Hebreus 6:1-12, a saber:

(1) Aqueles que ensinam que a passagem fala de aterrorizante possibilidade de um verdadeiro crente reverter à condição de perdição, têm de ver-se a braços com a declarada impossibilidade de restauração (vide 6:4), e isso contrariamente àqueles trechos neotestamentários que asseguram a eterna segurança para os crentes, para os eleitos (vide João 6:39,40; 10:27-29; Romanos 11:29: Filipenses 1:6; 1 Pedro 1:5 e 1 João 2:1), e também em desacordo com a doutrina inteira da regeneração.

(2) Aqueles que sentem que o autor da epístola aos Hebreus postula aqui uma hipótese, e não uma possibilidade realista, descobrem que a reiteração dessa urgente advertência, aqui e alhures nesta epístola (vide especialmente 10:26-31), é algo muito embaraçador.

(3) Aqueles que diluem a severidade do juízo ameaçador, da perda da salvação para a perda de galardões (em que a salvação por um triz não se perdera - comparar com 1 Coríntios 3:12-15), descobrem-se antagonizando o que fica implícito em Hebreus 6:9, isto é, que o juízo aqui ameaçado é o oposto da salvação: `...estamos persuadidos das cousas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira." (Comparar isso com Hebreus 10:27: "... certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários".)

(4) Aqueles que encaram essa advertência como se ela houvesse sido dirigida a quase cristãos, e não a cristãos no mais alto sentido da palavra, são forçados a minimizar a força das expressões "... aqueles que uma vez foram iluminados (comparar com 10:32; II Coríntios 4:4,6; I Pedro 2:9; et passim), e provaram do dom celestial (comparar com o fato que Cristo `provou' a morte a favor de todo homem (vide 2:9), certamente uma experiência plena), e se tornaram participantes do Espírito Santo (comparar com o fato que Cristo se tornou participante da natureza humana (vide 2:14), certamente não uma encarnação parcial), e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro (comparar com I Pedro 2:3)". Esses também sentem grande dificuldade ante o apelo em favor da maturidade, e não da conversão, ante a advertência a respeito da "apostasia" (vide 6:6), e não a respeito de não se haver confessado a Cristo no princípio, e ante o título conferido aos leitores da epístola, "amados", um termo distintivamente cristão (vide 6:9; comparar com 10:30: "O Senhor julgará o seu povo").

(5) A interpretação mais promissora é aquela que encara essa advertência como uma aviso dirigido a cristãos professos, ficando entendido que esses devem demonstrar a genuinidade de sua profissão resistindo à pressão tendente à apostasia. Se, por uma parte, as passagens que nos asseguram a eterna segurança do crente refletem a perspectiva divina (Deus, que conhece perfeitamente aos corações dos homens, resguardará para sempre aos que Lhe pertencem), por outra parte a presente advertência, juntamente com outras que lhe são correlatas, reflete a perspectiva humana (os cristãos, que conhecem imperfeitamente aos seus corações, devem demonstrar a si mesmo e a outros, me­diante exteriorizações na forma de correta conduta, que a sua profissão de fé é real, não mediante uma perfeição impecável, mas mediante a perseverança contra a oposição e a tentação). Dessa forma, o autor do livro aos Hebreus dirige-se a seus leitores como cristãos, como não poderia mesmo ser diferente, por­quanto ao escrever-lhes todos se professavam crentes. Todavia, diferentemente de Deus, ele não poderia conhecer seu estado espiritual interno. Por isso, viu-se forçado a adverti-los contra o perigo da profissão falsa, contra a apostasia final que vem mediante a negação voluntária, e finai da fé cristã anteriormente professada, e contra o julgamento irrevogável disso tudo resultante. Na verdade, não é possível alguém ser salvo e depois perder-se, mas isso é aparentemente possível, e essa "aparência" deve ser tratada com toda a gravidade, porquanto os seres humanos se movimentam principalmente no nível do que é aparente.

Quanto à distinção entre a perspectiva divina e a perspectiva humana, podemos consultar o trecho de I Samuel 16:7b ("O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração"), confrontando­o com a doutrina paulina da justificação pela fé (à vista de Deus), e também com a doutrina de Tiago da justificação comprovada pelas obras (à vista dos homens). É importante reconhecermos a validade e a seriedade de ambas perspectivas. Finalmente, o propósito de advertências como essa não é perturbar os crentes conscienciosos, e, sim, acautelar os crentes negligentes, para que não terminem por nem ser cristãos, afinal de contas.



Melquisedeque


Alicerçando-se sobre a sugestão da assertiva em Salmo 110:4, de que o rei messiânico seria sacerdote segundo o padrão de Melquisedeque, o autor da epístola aos Hebreus descobre diversos paralelos entre Cristo e aquela misteriosa personagem do Antigo Testamento, a quem Abraão deu uma décima parte dos despojos, depois da batalha na qual resgatou a Ló de seus captores (vide Gênesis 14). Ora, Melquisedeque era sacerdote de Deus; assim também o é Cristo. O nome "Melquisedeque" significa "Rei da Justiça" (ou, mais literalmente ainda, "meu rei é justo"); o homem que tinha esse nome era rei de "Salém" (provavelmente uma forma abreviada de "Jerusalém"), que significa "paz" (no sentido de completa bênção divina); e justiça e paz são características e resultados do ministério sacerdotal de Cristo. A ausência, nas páginas do Antigo Testamento, de qualquer genealogia registrada de Melquisedeque ou de narrativas sobre seu nas­cimento e morte (naturalmente, ele teve pais e antepassados, nasceu e morreu), tipifica a real eternidade de Cristo como Filho de Deus, em contraste com a morte que atingia a todos os sacerdotes da linhagem de Arão. A superioridade de Cristo sobre Arão é ainda retratada pelo fato que Abraão deu a Melquisede­que a décima parte dos despojos tomados em batalha, sendo que Arão era descendente de Abraão. A solidariedade de uma pessoa com seus ancestrais fica assim pressuposta. Idêntica superioridade aparece, novamente, no fato que Melquisedeque abençoou a Abraão, e não vice-versa, pois o maior é quem abençoa ao menor. Ler Hebreus 7:1 - 10:18.

Exortação


A epístola aos Hebreus se encerra com longa seção exortatória e algumas saudações finais (vide 10:19 - 13:25). O autor dela exorta seus leitores a usarem o método superior de aproximação a Deus por intermédio de Cristo, e não através do método ultrapassado do Antigo Testamento, mormente na adoração coletiva, a qual estavam abandonando (vide 10:19-22). E adverte-os novamente, tal como no sexto capítulos, a respeito do terrível julgamento que sobrevém àqueles que, aberta e terminante­mente, repudiam a sua profissão cristã, apesar do que, expressa a sua confiança, baseada na constância anterior de seus leitores, sob a perseguição, de que não haveriam de cair na apostasia (vide 10:23-31).

Em seguida, encoraja-os a uma contínua perseverança, citando, como exemplos, os heróis da fé do Antigo Testamento, (O capítulo 11 é, às vezes, considerado o grande capítulo da fé do Novo Testa­mento, assim como I Coríntios 13 é o capítulo do amor e I Coríntios 15 o capítulo da ressurreição.) vinculando a estes os seus leitores, e, finalmente, citando a pessoa de Jesus como o mais extraordinário exemplo de paciente perseverança sob os sofrimentos, após o que recebeu o seu galardão (vide 10:32 - 12:3). O sofrimento é uma excelente disciplina, além de ser um sinal de filiação (vide 12:4-13). Por outro lado, Esaú se torna um exemplo negativo, que adverte acerca do fim dos apóstatas infiéis (vide 12:14-17).

Em conclusão, o escritor sagrado novamente põe em relevo a superioridade do novo pacto, fundamentado como está sobre o sangue de Cristo (vide 12:18-29), e exorta os seus leitores ao amor mútuo, à hospitalidade (especialmente necessária naqueles dias, para os pregadores itinerantes), à simpatia, ao uso saudável e moral do sexo, dentro dos liames do matrimônio, à necessidade de evitar a avareza, à imitação do exemplo dado pelos líderes eclesiásticos piedosos, à necessidade de evitar os ensinamentos distorcidos, à aceitação conformada diante da perseguição, às ações de graças, à generosidade, à obediência aos líderes eclesiásticos e à oração. Ler Hebreus 10:19 - 13,25.
ESBOÇO SUMÁRIO DE HEBREUS
Tema: a superioridade de Cristo como impediente da apostasia, ou seja, a rever­são do cristianismo ao judaísmo

I. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE OS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO (1:1-3a)

II. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE OS ANJOS (1:3b - 2:18), E AVISO QUANTO À APOSTASIA (2:1-4)

III. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE MOISÉS (3:1-6), E AVISO QUANTO À APOSTASIA (3:7-19)

IV. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE JOSUÉ (4:1-10), E AVISO QUANTO À APOSTASIA (4:11-6)

V. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE OS ARONITAS E AVISOS QUANTO À APOSTASIA (51 - 12:29)

A. A Simpatia humana de Cristo e Sua divina nomeação ao sumo sacerdócio (5:1-10)

B. Aviso quanto à apostasia com uma exortação acerca da busca pela maturidade (5:11 - 6:10)

C. Melquisedeque, modelo do sumo sacerdócio de Cristo (7:1-10)

D. Caráter transitório do sacerdócio arônico (7:11-28)

E. Realezas celestiais do sacerdócio de Cristo (8:1 - 10:18)

F. Advertência contra a apostasia (10:19-39)

G. Encorajamento derivado dos heróis da fé do Antigo Testamento (11:1-40)

H. Encorajamento derivado do exemplo dado por Cristo (12:1-11)

I. Advertência acerca da apostasia, com o mau exemplo de Esaú (12:12-29)

VI. EXORTAÇOES PRÁTICAS (13:1-19)

CONCLUSÃO: Saudações, notícia da libertação de Timóteo, e bênção final (13:20-25)
Para discussão posterior.­
- É importante determinar a autoria da epístola aos Hebreus, bem como sua data, destino geográfico e leitores originais da mesma?

- Qual teria sido a provável apologia do autor da epístola aos Hebreus, se defrontado pela moderna denúncia de que a salvação mediante o sangue sacrificial é um conceito religioso primitivo?

- Se Deus percebe com exatidão o estado espiritual íntimo de um crente professo, enquanto outras pessoas julgam-no apenas com uma relativa certeza, através das aparências externas, de que modos um crente pode informar-se sobre seu próprio estado espiritual, e com que grau de certeza?
Para investigação posterior:
Bruce, F.F. The Epistle to the Hebrews. Grand Rapids: Eerdmans, 1964.

Hewitt, T. The Epistle to the Hebrews. Grand Rapids: Eerdmans, 1960.

Manson, W. The Epistle to the Hebrews. Londres: Hodder & Stoughton, 1951.

Filson, F.V. ‘Yesterday’: A study of Hebrews in the Light of Chapter 13. Londres: SCM, 1967.


CAPÍTULO 19 - Epístolas Católicas ou Gerais

Perguntas Normativas:


- Por que as epístolas gerais ou católicas são chamadas assim?

- Qual Tiago escreveu a epístola que tem esse nome ? A quem ele a endereçou? Qual é o valor prático da epistola de Tiago? Como comparar a sua doutrina de obras da fé com o ponto de vista paulino da fé?

- Qual era a natureza da perseguição por que passavam os primeiros leitores de I Pedro? De que modo Pedro os encorajou? Onde ficava a "Babilônia" de onde ele escreveu essa epístola?

- De que maneira devemos avaliar as dúvidas modernas no que concerne à autoria petrina e à canonicidade de II Pedro? Qual tema comum e qual relação há entre essa epístola e a de Judas?

- Quem foi Judas? Por que ele mudou de idéia no tocante ao conteúdo de sua epístola? Como deveríamos compreender o fato que ele extraiu uma citação de fontes pseudepigráficas?

- A quem e contra quem João endereçou a sua primeira epístola?

- Quais são os critérios joaninos no que tange ao genuíno cristianismo?

- Quais eram "a senhora eleita e seus filhos", a quem João dirigiu a advertência de que não entretivessem falsos mestres?

- Quais papéis foram desempenhados por Gaio, Diótrefes e Demétrio, na disputa eclesiástica em torno da qual gira a terceira epístola de João?
O vocábulo "católico", cujo significado é "geral, universal", veio a ser aplicado pela Igreja primitiva às epístolas de Tiago, I e II Pedro, I - III João e Judas porque, excetuando II e III João, elas não contam com indicações de terem sido endereçadas a alguma única localidade. Deve-se observar que receberam nome de seus autores tradicionais, no que se parecem com os evangelhos, mas, diferentemente das epístolas paulinas e de Hebreus, que derivam seu nome dos seus destinatários tradicionalmente atribuídos.


TIAGO: SALVAÇÃO PELAS OBRAS

A epístola de Tiago é a menos doutrinária e mais prática de to­dos os livros do Novo Testamento. (Esse fato, todavia, não nos deveria levar nem a subestimar e nem a superestimar o valor da obra, pois doutrina e prática são aspectos igualmente importantes.) Portanto, estamos manuseando um manual de conduta cristã, o qual pressupõe um alicerce de fé por parte de seus leitores.



O autor


Esta epístola traz o nome de seu autor, Tiago (forma grega do apelativo hebraico "Jacó"), líder da primitiva igreja de Jerusalém (vide Atos 15:12 ss.; 21:18; Gálatas 2:9,12) e usualmente considerado meio-irmão de Jesus.(Tiago filho de Zebedeu e um dos doze, foi martirizado em 44 A.D. (vide Atos 12:2), talvez cedo demais para aceitarmos que ele escreveu a epístola. O tom autoritário da mesma elimina os menos conhecidos Tiagos do Novo Testamento, o filho de Alfeu o mais jovem e filho de Maria (não a mãe de Jesus) e o pai de Judas (não o Iscariotes). Vide uma concordância quanto às referências.) É possível, não obstante, que Tiago tivesse sido meio-irmão de Jesus através de um casamento (conjecturado) anterior de José, antes de ter este contraído matrimônio com Maria. Este último ponto de vista, que excluiria qualquer relacionamento de sangue com Jesus, talvez explique melhor por qual razão os irmãos de Jesus não creram Nele durante Seu período de vida terrena (vide Marcos 3:21 e João 7:2­8); e também explanaria melhor a falta de interesse deles por Maria, que seria apenas sua madrasta, além de também explicar melhor por que Jesus, estando na cruz, entregou Sua mãe aos cuidados do apóstolo João (vide João 19:25-27). Entretanto, a razão pode ter sido que o discipulado de Maria a alienara de seus outros filhos, que continuavam não crendo em Jesus.

A fim de manter a doutrina da perpétua virgindade de Maria, o ponto de vista tradicional da Igreja Católica Romana é que o termo "irmãos" significa "primos". Porém as associações que se depreendem ter havido entre Jesus e Seus irmãos, em trechos como Mateus 13:55; Marcos 6:3; João 2:12 e 7:2-10, subentendem que havia laços de sangue mais íntimos do que o de meros irmãos de criação. A opinião de que o Tiago que escreveu esta epístola era meio-irmão de Jesus, por conseguinte, permanece como a mais provável.

Embora não fosse crente em Jesus, durante o ministério público do Senhor, Tiago foi testemunha do Cristo ressurreto (vide 1 Coríntios 15:7) e se encontrava entre aqueles que esperavam pela descida do Espírito Santo, no dia de Pentecostes (vide Atos 1:14). Isso dá a entender que Tiago e os demais irmãos de Jesus tornaram-se crentes em algum tempo durante o último estágio da carreira terrena de Jesus. Embora o próprio Tiago fosse praticante zeloso da legislação mosaica (vide Gálatas 2:12 e Atos 21:17-26), quando do concílio de Jerusalém ele apoiou a posição de Paulo, no sentido de que os convertidos dentre os gen­tios não deveriam ser forçados a guardar a lei mosaica (vide Atos 15:12-21).

O tema da epístola de Tiago tem tons fortemente judaicos, destacando-se a saliência dada à lei, o que se harmoniza com aquilo que sabemos sobre Tiago, irmão do Senhor, através dos livros de Atos e Gálatas, e outras fontes. Outrossim, há alguns sig­nificativos paralelos verbais entre a epístola de Tiago e as pala­vras proferidas por Tiago, no capítulo 15 do livro de Atos, como o termo "saudações" (no grego. chairein, usado no Novo Testa­mento somente em Tiago 1:1 e Atos 15:23, o decreto redigido sob a liderança de Tiago), o vocábulo "visitar", ou seja, “preocupar-­se com” (vide Tiago 1:27 e Atos 15:14, dentro do discurso de Tiago perante o concílio de Jerusalém) e outros (comparar Tiago 2:5,7 com Atos 15:13,17). Aqueles que reputam a epístola como obra posterior pseudepigráfica, pertencente ao fim do primeiro ou aos primórdios do segundo século da era cristã, afiançam que um galileu simples, como era Tiago, não poderia ter escrito no grego estilizado que se observa nessa epístola. Entretanto, a obje­ção superestima a qualidade literária do estilo grego e, o que ainda é mais importante, não leva em conta o fato que os judeus da Palestina, especialmente os galileus, que viviam em uma re­gião ocupada predominantemente por gentios, conheciam e usa­vam o grego, paralelamente ao aramaico e hebraico. (Vide o artigo citado à pág. 23 e J. N. Sevenster. Do You Know Greek? Leiden: Brill, 1968.)


Canonicidade

A epístola de Tiago encontrou algumas dificuldades para ad­quirir lugar no cânon do Novo Testamento. Diversos fatores ajudam-nos a explicar a hesitação da Igreja primitiva quanto a isso: (1) a brevidade da epístola, sua natureza proeminentemente prática, e não doutrinária e a limitação do seu endereço a cris­tãos judeus - tudo o que, sem dúvida, retardou uma mais ampla circulação da mesma: (2) o fato que Tiago não fora um dos doze apóstolos originais; e (3) a incerteza a respeito da identidade de Tiago, em Tiago 1:1, porquanto aparecem diversos homens com esse nome, nas páginas do Novo Testamento. A impressão equi­vocada (expressa por Martinho Lutero) de que a doutrina de obras, na epístola de Tiago, contradiz a doutrina paulina da fé não perturbou a Igreja primitiva, pelo menos até onde podemos averiguar. Quando se chegou a perceber que o autor quase certa­mente era Tiago, irmão do Senhor, o veredito final foi favorável para com a canonicidade da epístola de Tiago.


Destinatários judeus cristãos

Tiago escreveu às "doze tribos que se encontram na Dispersão" (1 :1 ). Essa designação pode ser compreendida metaforicamente, tal como se vê em I Pedro 3, indicando a Igreja predominantemente gentílica, espalhada por todo o império romano. Na epístola de Tiago, sem embargo, a referência mais provável é aos cristãos judeus que viviam fora da Palestina, posição essa favorecida por certo número de itens existentes na epístola: a referência específica às "doze tribos", o emprego, em Tiago 2:2, do vocábulo grego que significa sinagoga, traduzido por sentido não­técnico de "assembléia", em algumas versões, mas mantido como "sinagoga" em nossa versão portuguesa; as cinco citações e as numerosas alusões ao Antigo Testamento, expressões idiomáticas hebraicas, como "Senhor dos Exércitos" (5:4); a ênfase posta sobre diversos princípios permanentes da lei judaica (2:8­13 e 4:11,12) e sobre o monoteísmo (2:19); e a omissão de qual­quer alusão à escravatura e de qualquer polêmica contra a idolatria, ambas as quais coisas não caracterizavam aos judeus do primeiro século cristão, embora ambas fossem práticas comuns entre os gentios.



Data


Josefo data o martírio de Tiago em 62 D. C.(Antiguidades XX, ix. l. Menos provável é a data de 68 D.C., de Hegesipo, con­forme ficou registrado por Eusébio. História Eclesiástica II. xxiii. 18.), pelo que a sua epístola precisa ser datada antes desse prazo. Há eruditos que argumentam em prol de uma data tão recuada (45-50 D. C.) que a epístola de Tiago poderia ser considerada o primeiro livro do Novo Testamento a ser escrito. Por exemplo, a ausência de qual­quer alusão à controvérsia judaizante é tomada como prova implícita de uma data antes do surgimento daquela controvérsia, imediatamente antes do concílio de Jerusalém, que teve lugar em cerca de 49 D. C.; e o tom tipicamente judaico da epístola é tido como prova implícita de que, ao ser escrita a epístola, o cristianismo ainda não se expandira para fora da Palestina. No entanto, a limitação do endereço a cristãos judeus, e a perspectiva decisivamente judaica do próprio Tiago poderiam justificar ambos esses fenômenos, em razão do que só nos resta contentarmo-nos com uma data indeterminada para o martírio de Tiago.

Relação com o ensino de Jesus


É notável que a epístola de Tiago contém numerosas alusões a afirmações de Jesus, também registradas nos evangelhos, sobretudo material associado ao Sermão da Montanha. Por exemplo, o contraste em Tiago 1:22, entre ouvintes e praticantes da palavra faz-nos lembrar a parábola do homem sábio, que edificou sua residência sobre um sólido alicerce, por ter ouvido e posto em prática as palavras de Jesus, e do homem insensato, que edificou sobre a areia, por ter ouvido mas não praticado as Suas palavras (vide Mateus 7:24-27 e Lucas 6:47-49).

Estrutura literária


É bastante difícil traçar o esboço da epístola de Tiago. Pois ela compartilha do estilo desconexo e moralista do livro de Provérbios e de outra literatura de sabedoria; porém, os preceitos são proferidos aos moldes de um sermão profético esbraseado. Após a saudação inicial (1:1), pode-se tão somente alistar a série de exortações práticas que versam sobre diversos tópicos:

Regozijo ante as tribulações (1:2-4).

Petições confiantes a Deus, pedindo-Lhe sabedoria (1:5-8).

Necessidade de não desejar riquezas materiais (1:9-11).

Distinção entre os testes que procedem de Deus e as tentações, as quais procedem das paixões humanas, porque Deus só nos outorga boas dádivas (1:12-18).

Necessidade de pôr em prática a Palavra, no uso da língua e nas ações, para não sermos meros ouvintes (1:19-27).

Necessidade de não exibir parcialidade em prol dos ricos, mas amar igualmente a todos como a nós mesmos (2:1-13). Tal como no Antigo Testamento, a ênfase sobre "os ricos" recai muito mais sobre sua ímpia perseguição contra os piedosos do que mesmo sobre sua abastança, tal como "os pobres" freqüentemente indica "piedosos e perseguidos" mais que “necessita­dos”.

As obras e a fé


Demonstração da genuinidade da fé mediante as boas obras produzidas pela fé (2:14-26). Tiago escreve acerca da justificação pelas obras como evidência externa, perante os homens, daquela fé interna. Não contradizia a Paulo, o qual escreveu sobre a justificação mediante a fé, perante Deus. Conhecedor que é dos corações de todos os homens, Deus não precisa ver e evidência ex­terna dada pelas obras. Alguns dos eruditos que pensam que Tiago escreveu sua epístola já nos últimos anos de sua vida argumentam que ele estava corrigindo a distorção antinomiana do ensino paulino da justificação pela fé. Outros estudiosos, não percebendo que Tiago e Paulo se complementam mutuamente (Paulo, por igual modo, salienta as boas obras como conseqüência da verdadeira fé!), asseveram que Tiago ou um falsificador posterior estava atacando não uma mera distorção da doutrina paulina, mas a formulação paulina propriamente dita. Ler Tiago 1 e 2.

Controlando a língua


Produção das qualidades da sabedoria genuína, requeridas da parte dos mestres cristãos: o controle da língua, isto é, do linguajar: a mansidão, que evita a inclinação para a desavença; e a pureza, que evita o mundanismo (3:1 - 4:10).

Necessidade de não nos caluniarmos uns aos outros (4:11,12).

Necessidade de não traçar planos alicerçados sobre confiança própria excessiva, sem levar em conta a vontade de Deus e a possibilidade da morte (4:13-17).

Necessidade da paciência até o retorno de Jesus, pois então é que Deus punirá aos ricos e poderosos perseguidores (5:1-11).

Necessidade de ser adquirida a reputação de honestidade, para que ninguém tenha de reforçar suas palavras com juramentos (5:12).

Ungindo aos enfermos


Necessidade de compartilhar com outros crentes de nossas preocupações e alegrias (5:13-18). Em particular, que os anciãos da igreja orem confiantemente pela cura dos enfermos, ungindo-­os com óleo em nome do Senhor. Se a pessoa enferma cometeu algum pecado e o confessa, a cura demonstrará que Deus a per­doou. (O reverso - que a enfermidade sempre é uma punição direta por causa de pecado, e que o não recuperar-se subentende que Deus não perdoou - não é uma conclusão lógica.) Visto que o azeite de oliveira era um remédio caseiro comum, Tiago pode­ria ter tido em mente suas propriedades medicinais, como que a dizer: "Tratai com um medicamento e orai pela recuperação do doente". A ordem para a unção com óleo forma a base do sacramento católico-romano da extrema unção, segundo o qual o padre unge os olhos, as orelhas, as narinas, as mãos e os pés de uma pessoa moribunda, como meio de perdão se tal indivíduo está impossibilitado de confessar conscientemente os seus pecados a fim de receber a absolvição sacerdotal. Porém, Tiago fala sobre "anciãos", e não sobre padres. E também não alude a pessoa à beira da morte.

Confissão de pecados


Similarmente, o mandamento: "Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros..." (5:16), é um texto de prova utilizado pelos católicos-romanos em apoio à confissão auricular. Mas Tiago registra "uns aos outros" (um estranho nome para um padre, conforme o comentário de Martinho Lutero), e mui provavelmente ele se referia à solução de divergências entre os crentes, e não à prática de segredar alguém os seus próprios pecados aos ouvidos de um padre ou da igreja inteira.

Arrancando irmãos na fé da apostasia


Necessidade de impedir que companheiros de profissão cristã venham a apostatar e incorrer no juízo eterno (5:19, 20). (Vide as observações sobre a apostasia, em conexão com a epístola aos He­breus, às págs. 374) Ler Tiago 3 - 5. Aquele que "converte o pecador do seu caminho errado" salva da morte não a sua própria alma, e, sim, a alma do crente desviado (crente por profissão de fé), e cobre “multidão de pecados” da pessoa que tendia à apostasia, e não de si mesmo.
ESBOÇO SUMÁRIO DE TIAGO (Devido ao estilo de Tiago, é duvidoso se o esboço usual, que salienta apenas alguns poucos pontos principais, pode ser imposto à sua epístola sem violar a sua natureza.)
Tema: A conduta cristã na vida diária

INTRODUÇÃO: Saudação aos crentes judeus da dispersão (1:1)

I. ALEGRIA NAS TRIBULAÇÕES (1:2-4)

II. ORAÇÃO PEDINDO SABEDORIA (1:5-8)

III. DESINTERESSE PELAS RIQUEZAS MATERIAIS (1:9-11)

IV. DISTINÇÃO ENTRE PROVAS E TENTAÇÕES (1:12-I8)

V. A OBEDIÊNCIA À PALAVRA (1:19-27)

VI. AMAR SEM SER PARCIAL PARA COM OS RICOS (2:1-13)

VII. AS OBRAS COMO PROVA DE FÉ (2:14-26)

VIII. A SABEDORIA (3:1 - 4:10)

A. Sabedoria no controle da língua (3:1-12)

B. Sabedoria na mansidão e na ausência da atitude mundana (3:13 - 4:10)

IX. EVITANDO A CALÚNIA (4:11,12)

X. A CONFIANÇA SEM BASE (4:13-17)

XI. A PACIÊNCIA (5:1-II)

XII. A HONESTIDADE (5:12)

XIII. A ATITUDE DF COLETIVIDADE, INCLUINDO A ORAÇÃO PELOS DOENTES E A MÚTUA CONFISSÃO DE PECADOS (5:13-18)

XIV. RECUPERAÇÃO DE CRENTES QUE ERRAREM (5:19,20)


Para investigação posterior:
Tasker, R. V. G. A Commentary on the General Epistle of James. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

Robertson, A. T. Studies in the Epistle of James. Nova Iorque: Doran, 1915.

Ross, A. The Epistles of James and John. Grand Rapids. Eerdmans, 1954.

Mitton, C. L. The Epistle of James. Grand Rapids: Eerdmans, 1966.



Romanos 4, em comparação com Tiago 2:14-16, acerca da fé e das obras produzidas pela fé.


I PEDRO: A SALVAÇÃO E OS SOFRIMENTOS




Tema


Os leitores a quem esta epístola foi endereçada originalmente estavam sendo perseguidos. Portanto, ela se concentra no tema da conduta cristã apropriada em face de hostilidades anticristãs, bem como no tema do dom compensador da salvação, o qual atingirá seu estágio culminante no futuro.

Autoria


O autor da epístola identifica-se como Pedro (1:1). Essa identificação concorda de modo notável com dois fenômenos: (1) certo número de expressões em 1 Pedro faz-nos lembrar da fraseologia do sermão de Pedro, registrado no livro de Atos, (Comparar, por exemplo, com Atos 2:23 e I Pedro 1:20, acerca de ter sido preordenada a morte de Cristo; comparar Atos 10:42 e I Pedro 4:5 sobre o julga­mento dos "vivos e mortos"; e o uso distintivo do termo grego xylon (literalmente, "madeira"), para indicar a cruz, em Atos 5:30, 10:39 e I Pedro 2:24.) e (2) as alusões às declarações e aos feitos de Jesus, conforme eles se acham registrados nos evangelhos, procedem de situações nas quais Pedro desempenhou papel especial, ou nas quais ele tinha um interesse especial. (Por exemplo, a exortação, em 2:13-17, para vivermos como libertos, mas ao mesmo tempo vivermos em sujeição às autoridades civis, para não causarmos ofensa, recua ao incidente registrado em Mateus 17:24-27, onde Jesus disse que Ele e Seus discípulos estavam isentos realmente da autoridade humana; mas que, para evitar escandalizá-las, Ele pagava a taxa do templo, com a "moeda" achada por Pedro na boca de um peixe. Quanto a outros exemplos, vide R. H. Gundry, Verba Christi" in I Peter: Their Implications Concerning the Authorship of I Pe­ter and the Authenticity of the Gospel Tradition, "New Testament Studies, 13 (1967), págs. 336-350.) Portanto, embora alguns eruditos modernos tenham postulado a teoria de que originalmente I Pedro fora um sermão ou liturgia batismal (vide 1:3 - 4:11), que foi transformado em uma epístola mediante a adição dos trechos de 1:1,2 e 4:12 - 5:14, e, assim sendo, provavelmente não sendo de origem petrina, é melhor aceitarmos a declaração constante na própria epístola, a qual assegura ter sido escrita pelo apóstolo Pedro, reivindicação essa respaldada na tradição da Igreja antiga.

Data


O tema da perseguição aos cristãos, que percorre essa epístola toda, sugere que Pedro a escreveu por volta de 63 D. C., pouco antes de seu martírio em Roma, por ordens de Nero, o que sucedeu em 64 D. C.

Perseguição


A perseguição pressuposta em I Pedro parece não ter-se originado de uma proscrição do cristianismo, por decreto imperial, porquanto Pedro continuava falando do governo como um protetor (vide 3:13 e 2:13-17). Essa proscrição que se estendeu por todo o império, só teve lugar mais tarde. Tal perseguição, pelo contrário, assumira a forma de acusações caluniosas, ostracismo social, levantes populares e ações policiais locais. Os eruditos que negam a autoria petrina da epístola usualmente datam a epístola como pertencente ao período de perseguições movidas por Domiciano (81-96 D. C.) ou as movidas por Trajano (98-117 D. C.). Não obstante, durante esses citados períodos de perseguição a questão dominante era a recusa dos cristãos em oferecer sacrifícios em honra ao imperador. Mas, visto não figurar esse tópico em I Pedro, torna-se preferível a data mais antiga, junta­mente com a aceitação da autoria petrina.

Silvano, o amanuense


Silvano atuou como amanuense de Pedro nesta epístola ("Por meio de Silvano... vos escrevo...", 5:12), e ele pode ter sido o responsável pelo estilo bastante aceitável do grego em que foi vazada a epístola, embora não devamos imaginar que judeus palestinos, como era Pedro, fossem incapazes de usar bem o idioma grego. "Silvano" talvez seja outra forma (quiçá latina) de "Silas", alusiva ao Silas que acompanhara ao apóstolo Paulo quando de sua segunda viagem missionária, pois Paulo menciona um certo "Silvano" como seu companheiro, por ocasião da segunda jornada missionária (vide I Tessalonicenses 1:1; II Tessalonicen­ses 1:1 e II Coríntios 1:19), ao passo que na narrativa lucana sobre a segunda viagem missionária, o nome que ali figura é "Silas" (por nove vezes no trecho de Atos 15:40 - 18:5). A similaridade entre as exortações éticas de Pedro e aquelas que figuram na literatura paulina sugere que Pedro foi influenciado pelos escritos de Paulo, os quais talvez tivessem chegado a seu conhecimento por intermédio de Silvano; ou então ambos os apóstolos se fundamentaram sobre um tesouro comum de instruções catequéticas mais ou menos estereotipadas - orais ou escritas, para antes ou para depois de conferido o rito do batismo.

Origem em Roma


Pedro escreveu de "Babilônia" (vide 5:13), provavelmente não a cidade desse nome na Mesopotâmia, mas Roma. (A Babilônia da Mesopotâmia estava quase deserta de habitantes nos primórdios da era cristã.) "Babilônia" ocorre como nome simbólico para Roma, em Apocalipse 17:4-6,9,18, como é óbvio, porquanto Roma era a cidade dominante no período do Novo Testamento (vide o versículo 18), a cidade de sete colinas (vide o versículo 9 - a Babilônia da Mesopotâmia ficava em uma planície, e suas ruínas são visíveis até hoje) que perseguia à Igreja (versículo 6). Roma foi chamada "Babilônia" por ser a capital mundial da idolatria, posição essa em tempos remotos ocupada pela cidade da Mesopotâmia. (Comparar o título dado a Jerusalém, "Sodoma e Gomorra". por causa de sua iniqüidade (vide Apocalipse 11.8).) As referências extra-bíblicas a Roma como "Babilônia" também sugerem que Pedro se valeu de uma designação bem conhecida da capital do império. Outrossim, os primeiros pais da Igreja entenderam que "Babilônia", nesse caso, era uma referência a Roma.

A tradição desconhece a existência de qualquer igreja em Babilônia da Mesopotâmia e nada sabe de alguma visita ali feita por Pedro; todavia, a tradição indica que Pedro morreu em Roma. Quando o fato que João Marcos estava em Roma ao tempo do aprisionamento de Paulo ali (vide Colossenses 4:10) é conectado à sua presença com Pedro, ao ser escrita a primeira epístola de Pedro (vide I Pedro 5:13 ), então aparece um outro formidável argumento em favor da origem romana dessa epístola. Final­mente, a ordem em que as províncias são citadas no endereço (vide 1:1) sugere que o portador da epístola partira de Roma, no Ocidente, fizera um circuito por certas províncias da Ásia Menor com a epístola, e retornou para Roma, voltando para o oeste. Isso pode ser averiguado se acompanharmos as províncias de Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia no mapa. Vide as págs. 256 e 257.



Destinatários


As frases “eleitos que são forasteiros da Dispersão” (vide 1:1 ), "no meio dos gentios" (vide 2:12) e "gentios" (como um terceiro grupo, vide 4:3) à primeira vista parecem implicar em que os destinatários originais da epístola eram cristãos judeus. Porém, as alusões ao seu pecado de idolatria, anterior à sua conversão (vide 4:3 - os judeus dos dias do Novo Testamento não praticavam a idolatria) e as expressões "paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância" e "vosso fútil procedimento" (vide 1:14,18;

comparar com Efésios 4:17, onde uma fraseologia similar é aplicada a gentios) indicam claramente o fundo predominantemente gentílico dos leitores em mira. Essa conclusão é confirmada por I Pedro 2:10, que diz: "vós, sim, que antes não éreis povo (dificilmente isso poderia ter sido dito a respeito de judeus, a nação em relação de pacto com Deus], mas agora sois povo de Deus". Tal como Pedro utiliza-se do termo "Babilônia" para representar a cidade de Roma, também usa o vocábulo "gentios", figurada­mente, para indicar não-cristãos, e igualmente "forasteiros da Dispersão" para indicar os cristãos espalhados por todo o


mundo. Visto que a Igreja tem substituído a Israel (pelo menos pelo presente), as designações atribuídas antes aos judeus podem agora ser aplicadas à Igreja, que se compõe predominantemente de gentios.



Os sofrimentos e os galardões


Após a saudação, Pedro exalça o nome de Deus ante a expectativa da gloriosa herança celestial, a qual torna suportável a presente perseguição. Cristo também teve de sofrer antes de Sua glorificação, algo que os profetas do Antigo Testamento não puderam entender, porquanto não discerniam a distinção que há entre o primeiro advento de Jesus, a fim de provar a morte, e o Seu segundo advento, para impor o Seu domínio universal. Ler I Pedro 1:1-12.

Conduta


Em face da glória futura, é imperativo que os crentes tenham uma conduta santa. Eles foram liberados ("remidos") pelo sangue de Jesus da servidão ao pecado, redenção essa que evidencia que Ele sacrificou a Sua vida em favor dos pecadores. Também é imperativo que os crentes se amem mutuamente, com base no fato que todos eles nasceram na família de Deus através de Sua Palavra, a fim de crescerem como infantes recém-nascidos e de serem edificados qual templo, tendo a Cristo como pedra angular ou pedra de arremate. Acresça-se que os crentes estão na obrigação de impor ao mundo uma impressão favorável ao evangelho, mediante seu ordeiro comportamento. Isso envolve uma cidadania exemplar, a obediência dos escravos para com seus senhores, sem desrespeito nas palavras, o adorno das esposas cristãs com a obediência a seus esposos, ao invés de seguirem modas espalhafatosas, o respeito das mulheres para com seus maridos, e, uma vez mais, o amor mútuo dentro da comunidade cristã. Ler I Pedro 1:13 - 3:22.
A descida ao hades A pregação de Cristo aos espíritos aprisionados (vide 3: 18 ss.) mui provavelmente significa que durante o intervalo entre a Sua morte e a Sua ressurreição Cristo desceu em Seu espírito ao ha­des, (Leve variação é a idéia que a prisão não seria o hades mas a atmosfera terres­tre, à qual os espíritos demoníacos estão agora confinados. Comparar com Efésios 2:2: 6:12; mas, quanto à idéia acima, vide II Pedro 2:4 e Judas 6.) a fim de proclamar o Seu triunfo sobre os espíritos de­moníacos que ali haviam sido acorrentados por Deus, por causa da sua influência corruptora entre os homens, na época de Noé, imediatamente antes do dilúvio. Não é necessário pensarmos que essa prédica era oferta de salvação. Quando o vocábulo não é qualificado, "espíritos", na Bíblia refere-se a seres sobrenaturais, e não a espíritos humanos daqui saídos. O ponto frisado pela pas­sagem é que assim como o Senhor Deus vindicou a Cristo pe­rante os espíritos mesmos que tinham procurado distorcer o pro­pósito divino na história, assim também Deus, algum dia, vindi­cará os crentes na presença de seus perseguidores.

Interpretação alternativa é aquela que afiança que o Cristo preencarnado ofereceu a salvação por meio da prédica de Noé à geração ante-diluviana, a qual estaria agora confinada ao hades por terem rejeitado aquela mensagem. Segundo essa interpreta­ção fica salientado nesta passagem o paralelo entre a vindicação divina de Noé (e não de Cristo) e a vindicação divina dos cris­tãos. Porém, a sucessão de frases verbais que aludem principal­mente a Cristo - "Cristo morreu", "vivificado no espírito", "foi", "pregou", "ressurreição de Jesus Cristo", "depois de ir para o céu" e "está à destra de Deus" - torna extremamente estranha uma possível referência às atividades de Cristo nos milênios an­tes de Sua encarnação.,


Batismo

Ao comparar o batismo com o dilúvio, Pedro indica cuidado­samente que o contato do batizando com a água não remove o pecado ("não sendo a remoção da imundícia da carne"); antes, a atitude interna de arrependimento e fé, que se exibe mediante a submissão ao rito batismal ("a indagação de uma boa consciên­cia para com Deus", vide 3:21), é que conduz à remissão de peca­dos.


Exortações

A seção próxima começa com uma exortação sumariada para não pecarmos, mas para nos amarmos uns aos outros. A assertiva que estipula, "aquele que sofreu [= morreu (Vide 2:21 e, segundo muitos manuscritos antigos, 3:18, onde sofrimento e morte são idéias equivalentes.)] na carne deixou o pecado" (4:1), lança mão do duplo sentido da palavra "carne", a saber: (1) o corpo e (2) o impulso pecaminoso. Quando Jesus mor­reu no Seu corpo, a natureza pecaminosa dos crentes também morreu, até onde Deus está envolvido. Todo crente, portanto já mor­reu para o pecado, mediante a união com Jesus Cristo em Sua morte. Resta ainda, porém, traduzir o ponto de vista divino para a realidade da conduta diária. Comparar com Romanos 6:1-14. Os "mortos", aos quais o evangelho fora anunciado (vide 4:6), não seriam "os espíritos em prisão", referidos em 3:18 ss. Mas seriam os crentes que tinham sido martirizados ("julgados na carne [por seus perseguidores]"), os quais, como resultado, agora desfrutam da vida nos céus ("vivam no espírito"). As exor­tações finais conclamam-nos ao regozijo quando sofrermos por amor a Cristo, a termos a certeza de sofrermos somente por causa do testemunho cristão, e não devido à má conduta, a ser­mos humildes e a resistirmos corajosamente ante as perseguições inspiradas por Satanás. Ler I Pedro 4:1 - 5:14.


ESBOÇO SUMÁRIO DE I PEDRO

Tema: a salvação e a conduta dos crentes que sofrem

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

1. LOUVOR PELA HERANÇA CELESTE DOS CRENTES PERSEGUIDOS (1:3-12)

II. EXORTAÇÃO QUANTO À SANTIDADE PESSOAL (1:13-21)

III. EXORTAÇÃO QUANTO AO AMOR MÚTUO (1:22-25)

IV. EXORTAÇÃO AO AVANÇO QUANTO À SALVAÇÃO (2:1-10)

V. EXORTAÇÃO QUANTO À CONDUTA CRISTÃ, NUMA SOCIEDADE NÃO CRISTÃ (2:11 - 4:19)

A. Ações corretas (2:11,12)

B. Boa cidadania (2:13-17)

C. Submissão dos escravos, com o exemplo dado por Cristo (2:18-25)

D. Submissão das esposas (3:1-6)

E. Consideração dos esposos para com suas esposas (3:7)

F. Unidade caracterizada pela simpatia e pelo amor (3:8-12)

G. Os crentes sofrem inocentemente com o exemplo de Cristo e Sua vindica­ção no hades (3:13 -4:6)

H. Sofrendo com alegria (4:12-19)

VI. EXORTAÇÃO À HUMILDADE NO SEIO DA IGREJA E À RESISTÊN­CIA ANTE A PERSEGUIÇÃO (5:1-11)

CONCLUSÃO: A função de Silvano como amanuense, saudações e bênção final (5:12-14)


Para investigação posterior:
Stibbs, A.M., e A.F. Walls. The First Epistle General of Peter. Grand Rapids, Eerdmans, 1959.

Thomas à Kempis. The Imitation of Christ. Para comparar com o mesmo tema em I Pedro.

Foxe, John. Book of Martyrs

Lewis, C.S. The Problem of Pain. Nova Iorque: Macmillan, 1962.

I Enoque 6-21, 67-69: Jubileus 10, na edição de R.H. Charles de The Aprocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament. Para comparar com a pregação de Cristo aos espíritos em prisão, segundo I Pedro 3:19.

II PEDRO: DEFENDENDO A ORTODOXIA
Tema

Mestres heréticos, que mascateavam com doutrinas falsas e praticavam uma moralidade frouxa, começavam a lançar sérias investidas contra a Igreja, penetrando nela. A segunda epístola de Pedro é uma polêmica contra os tais, e, particularmente con­tra o ensino deles, no qual negavam a realidade da volta de Jesus. Pedro assevera o verdadeiro conhecimento da fé cristã a fim de fazer frente aquela doutrinação herética.


Autenticidade e canonicidade

Entre os eruditos modernos há uma dúvida generalizada de que o apóstolo Pedro foi o autor desta epístola. A Igreja primi­tiva demonstrou alguma vacilação por aceitá-la no cânon do Novo Testamento. Entretanto, isso poderia ser explicado me­diante a comparativa brevidade da carta, e, quiçá, por uma limi­tada distribuição da mesma, que assim ficou relativamente des­conhecida. Não nos devemos esquecer, contudo, que a Igreja primitiva finalmente a aceitou como genuína e como escrito ca­nônico saído da pena de Pedro. Também é digno de nota que dois livros apócrifos do Novo Testamento, a saber, o Evangelho da Verdade e o Apócrifom de João, contêm prováveis citações ou alusões extraídas da segunda epístola de Pedro, comprovando-se desse modo que desde os primórdios II Pedro era aceita como obra autoritativa, isto é, já no segundo século da era cristã. (Vide A. Helmbold, The Nag Hammadi Gnostic Texts and the Bible (Grand Ra­pids: Baker, 1967), págs. 90 e 91.) Por igual modo, o antiquíssimo (século III D. C.) papiro Bodmer, designado P72, mostra que II Pedro era livro aceito como canônico; pois naquele manuscrito, II Pedro compartilha, com I Pedro e com Judas, de uma bênção invocada sobre os leitores desses livros sagrados, e chega mesmo a receber um apoio mais elaborado que as duas outras epístolas citadas. O estilo de II Pedro é diferente do de I Pedro; mas o trabalho de dois amanuenses diversos pode explicar isso. Todavia, destacadas similaridades na fraseologia, entre II Pedro, I Pedro e os sermões de Pedro no livro de Atos, apontam para uma origem comum, o apóstolo Pedro.(Vide E. M. B. Green, 2 Peter Reconsidered (Londres: Tyndale, 1961), págs. 12­14, e o monógrafo interior quanto a uma plena discussão sobre todos os aspectos do problema. Vide também D. Guthrie, Nem Testament Introduction. Hebrews to Revelation (Chicago:; Inter-Varsity, 1962), págs. 137-185; e quanto a similaridades de conceito com os Papiros do Mar Morto, anteriores à era cristã, vide W. F. Al­bright, From the Stone Age to Christianity, 2ª edição (Garden City, Nova lorque: Doubleday, 1957), págs. 22 e 23.)



Relação com Judas


Tem-se igualmente argumentado que II Pedro fez alguns em­préstimos da epístola de Judas, mormente na descrição acerca dos falsos mestres, e que um homem da estatura apostólica de Pedro não teria buscado subsídios de um escritor comparativa­mente insignificante como foi Judas. Todavia, poderíamos sub­meter à apreciação crítica a última porção desse argumento. A história literária está prenhe de exemplos de escritores proeminentes que se valeram de fontes obscuras (Shakespeare é um desses). Outrossim, certo número de estudiosos tem argumentado, mui abalizados em fatos, que Judas escreveu sua epístola mais tarde, e que foi ele quem se escudou na segunda epístola de Pedro. Por exemplo, o fato que II Pedro fala do aparecimento de falsos mestres predominantemente com verbo no tempo futuro, mas Judas o faz com verbos no passado, parece servir de indicação que II Pedro foi escrita antes da heresia ter-se propalado, e que Judas escreveu sua epístola depois de tal propagação. E também é possível que sua fraseologia similar se tenha derivado de alguma fonte informativa comum, que não chegou até nós.

Alusão às epístolas de Paulo


Uma outra objeção à autoria petrina é que a referência feita às epístolas de Paulo, em II Pedro 3:15, dá a entender que todas elas já haviam sido escritas, coligidas e publicadas; e que isso só poderia ter sucedido depois do martírio de Pedro e Paulo, por­quanto Paulo continuou escrevendo até o fim de sua vida terrena. Porém, a alusão às epístolas paulinas precisam implicar na existência somente daquelas epístolas escritas por Paulo até ao tempo em que Pedro escreveu sua segunda epístola. O conheci­mento que Pedro teve delas provavelmente se deve às suas viagens, à circulação das epístolas paulinas e a Silvano (ou Silas), que foi tanto companheiro missionário de Paulo quanto amanuense de Pedro (vide 1 Pedro: 5:12).A descrição petrina de Paulo como "o nosso amado irmão Paulo" (II Pedro 3:15) reflete o que um igual e contemporâneo apostólico teria escrito, e não o que um autor pseudônimo teria escrito sobre um grande herói eclesiástico de uma geração anterior. A despeito das dúvidas modernas, portanto, podemos acatar o veredicto final da Igreja primitiva, que afiança que pouco depois do apóstolo Pedro ter escrito a sua primeira epístola, e pouco antes do seu martírio, que teve lugar em 64 D.C., ele escreveu esta segunda epístola que es­tampa o seu nome.

A ortodoxia é fidedigna


A segunda epístola de Pedro afirma o verdadeiro conheci­mento da crença cristã em oposição aos ensinamentos falsos. Terminada a saudação, Pedro se ufana da magnitude das promessas de Deus aos crentes, por meio das quais eles chegam a participar da natureza divina, e ressalta a necessidade, daí resultante, de desenvolverem os crentes as virtudes cristãs. Relembra então a seus leitores de quão digna de crédito é a fé cristã, apoiada como está sobre o testemunho de testemunhas oculares dos eventos da vida de Jesus (Pedro singulariza o fato que ele mesmo contemplara a transfiguração, vide 1:16-18), tudo com­provado pelo cumprimento de profecias divinamente inspiradas. Ler II Pedro 1. "...nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação" (1:20), mui provavelmente é afirmativa que significa que as predições vetero-testamentárias sobre os eventos messiânicos não se originaram da interpretação dada pelos próprios profetas acerca do futuro, e, sim, da influência do Espírito Santo. Comparar com II Pedro 1:21: "porque nunca jamais qual­quer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo".(Outras interpretações são: (1) as predições proféticas não devem ser interpretadas isoladamente de outras. Escrituras: (2) as predições proféticas não eram endereçadas somente à geração contemporânea dos profetas: (3) o Espírito de Deus é o interprete real das profecias, bem como o seu inspirador; e (4) o crente individual não tem a capacidade de interpretar corretamente as escrituras sozinho, mas precisa do norteamento eclesiástico.)

Juízo contra a heterodoxia


A menção à profecia autêntica, no final do primeiro capítulo, leva o apóstolo a condenar as profecias fictícias. Os mestres falsos, presentes e futuros, encontram-se na mesma posição de condenação em que eram tidos os profetas falsos do Antigo Testa­mento, e terão de sofrer o mesmo juízo divino condenatório que aqueles. Sua vida licenciosa demonstra a sua depravação e escravidão às concupiscências, embora eles mesmos prometam liberdade a seus ouvintes. Os crentes autênticos, todavia, deveriam relembrar as predições de juízo, quando da segunda vinda de Cristo, segundo os moldes do dilúvio, embora através do fogo, e não da água. A demora aparente do retorno de Jesus não deve ser erroneamente interpretada como um cancelamento. Antes, essa postergação se deve à paciência de Deus, que deseja dar a cada geração mais tempo para arrependimento. Pois, em última análise, o que representa mil anos para a Deus eterno? Mas, visto que o presente esquema das coisas será destruído, os crentes deveriam viver retamente, à luz dos valores eternos, em antecipação à volta de Jesus. A classificação das epístolas de Paulo entre "as demais Escrituras" (3:15,16) mostra-nos que elas já eram então consideradas Escrituras inspiradas. Ler II Pedro 2 e 3.
ESBOÇO SUMÁRIO DE II PEDRO
Tema: o verdadeiro conhecimento da fé cristã contra os falsos mestres e a sua negação da Parousia.

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

I. O VERDADEIRO CONHECIMENTO DA FÉ CRISTÃ (1:3-21)

A. O fundamento moral da fé cristã em relação à conduta certa (1:3-11)

B. A fidedignidade histórica da fé cristã, sustentada pelo testemunho ocular (particularmente da transfiguração) e a profecia cumprida (1:12-21)

II. MESTRES FALSOS (2:1-22)

A. O seu futuro aparecimento na Igreja (2:1-3)

B. O seu futuro julgamento (2:4-10a)

C. Os seus costumes imorais (2:10b-22)

III. A PAROUSIA E A DISSOLUÇÃO FINAL (3:1-18a)

A. A certeza destes acontecimentos a despeito da demora e as negações dos falsos mestres (3:1-10)

B. A chamada destes acontecimentos a uma vida santa (3:11-18a)

CONCLUSÃO: doxologia (3:18b)
Para investigação posterior:
McNab, A. "II Pedro", em O Novo Comentário da Bíblia. Editado por F. Davidson, A. M. Stibbs, e E. F. Kevan. Edições Vida Nova, São Paulo, 1976. Pp. 1418-­1427.

Paine, S. W. The Second Epistle of Peter", em The Wycliffe Bible Commentary. Editado por C. F. Pleiffer e E. F. Harrison. Chicago: Moody, 1963. Pp. 1453-1462.




JUDAS: PERIGO! FALSOS MESTRES !




Tema


Da mesma forma que II Pedro, a epístola de Judas polemiza contra os falsos mestres que se haviam intrometido na Igreja - em maior número, ao que parece, que na época em que fora escrita a segunda epístola de Pedro. (O ponto é disputado; vide a pág. 396.) Suas heresias particulares não merecem uma descrição detalhada ou refutação na epístola, mas os próprios hereges são veementemente assediados.

O autor


O autor da epístola identifica-se como Judas "irmão de Tiago" (vide o versículo primeiro). O mais certo é que ele não estivesse aludindo ao apóstolo Tiago do bem conhecido trio, Pedro, Tiago e João. Herodes Agripa I havia martirizado ao apóstolo Tiago quase no começo do movimento cristão (vide Atos 12:1,2). O escritor sagrado refere-se antes a Tiago, líder da igreja de Jerusalém (vide Atos 15 e Gálatas 1 e 2), meio-irmão de Jesus. Dessa maneira, Judas também era meio-irmão de Jesus, mas, por modéstia, descreveu a si mesmo como um "servo de Jesus Cristo" (vide 1:1) . A data em que a epístola foi escrita está cercada de in­certezas, mas é suficientemente tardia para pertencer a um tempo em que os hereges já tinham invadido seriamente a Igreja.

Os falsos mestres


Judas tinha tencionado escrever um tratado doutrinário , mas a infiltração da Igreja por parte de falsos mestres o compelira a alterar a natureza de sua epístola para uma exortação a que os cristãos contendessem vigorosamente em defesa da verdade do Evangelho. Ele descreve em termos vívidos tanto a iniqüidade dos mestres falsos quanto a condenação deles, ao citar exemplos de juízo divino no passado: a geração de israelenses que perecera no deserto, por causa de sua infidelidade; os anjos caídos (provavelmente os espíritos demoníacos que tinham corrompido a raça humana imediatamente antes do dilúvio (vide Gênesis 6:1 ss. e I Pedro 3:18 ss. 1 ; e Sodoma e Gomorra. Os falsos mestres eram destituídos de reverência pelas realidades espirituais e por seres so­bre-humanos, o que contrasta com a cautela com que o arcanjo Miguel disputara com Satanás em torno do cadáver de Moisés. A epistola termina com uma doxologia. Ler Judas.

Referências a obras pseudepígrafas


Nos versículos 14 e 15, Judas cita o livro apocalíptico pseudepígrafo de I Enoque ("... profetizou Enoque... Eis que veio o senhor entre suas santas miríades", trecho extraído de I Enoque 1:9). Na alusão à disputa havida entre Miguel e Satanás (verso 9) ele parece referir-se a outro pseudepígrafo, Assunção de Moisés. Embora o texto completo da Assunção de Moisés não tenha sobrevivido até nós e os fragmentos existentes não contenham tal relato, parece provável que Judas tenha citado tal fonte. Não nos deveríamos surpreender que um escritor canônico tivesse citado escritos não-canônicos. Paulo se refere a uma certa midrash (exposição) rabínica sobre a rocha da qual manava água e que "seguia" a Israel no deserto (vide I Coríntios 10:4), cita a poetas pagãos no sermão que pregou em Atenas (vide Atos 17:28 e aparentemente tomou por empréstimo, de alguma fonte informativa não-canônica os nomes dos mágicos de Faraó que se opuseram a Moisés (Janes e Jambres, vide II Timóteo 3:8) . As citações extraídas de tal material não implicam, necessariamente, na crença de que fosse divinamente inspirado; e também não precisa subentender na historicidade desse material, porquanto os escritores do Novo Testa­mento poderiam estar simplesmente ilustrando um ponto qual­quer, da mesma forma que João Milton (somente para citarmos um dentre tão numerosos exemplos) se utilizou de mitos gregos, sem que isso quisesse dar a entender que cria nos mesmos como história literal.
ESBOÇO SUMÁRIO DE JUDAS
Tema: Advertência sobre os falsos mestres na Igreja.

INTRODUÇÃO: Saudação (1,2)

I. PENETRAÇÃO DE FALSOS MESTRES NA IGREJA (3,4)

II. CARÁTER ÍMPIO E JULGAMENTO FUTURO DOS FALSOS MES­TRES (5-16)

III. RESISTÊNCIA CONTRA OS FALSOS MESTRES (17-23)

CONCLUSÃO: Bênção final (24,25)


Para investigação posterior.
Robertson, R. "A Epístola Geral de Judas", em O Novo Comentário da Bíblia, editado por F. Davidson, A.M. Stibbs e E.F. Kevan. São Paulo; Edições Vida Nova, 1976, Pp. 1441 - 1447.

Wallace , D.H. "Jude", em The Wycliffe Bible Commentary. Editado por C.F. Pfeiffer e E. F. Harrison. Chicago: Moody, 1963, pp 1487 - 1490.

Henry, C. F. H. Frontiers in Modern Theology. Chicago: Moody, 1966.

Para correntes teológicas que se enquadrem nas advertências de II Pedro e Judas.



I JOÃO: INSTRUÇÕES PATERNAIS AOS "FILHINHOS"




Tema


Para os cristãos primitivos, as heresias na Igreja postulavam o problema de distinguir a ortodoxia da heterodoxia, os legítimos mestres da Palavra dos mestres falsos. A primeira epístola de João formula diversos critérios primários - retidão, amor e uma correta cristologia - pelos quais os crentes pudessem testar a pro­fissão cristã dos mestres e de si mesmos.

Forma literária e endereço


Tendo sido mui provavelmente escrita nos fins do século primeiro da era cristã, pelo apóstolo João, a primeira epístola de João não inclui introdução, saudações da parte do autor e nem saudações concludentes. Contudo, as declarações: "...vos es­crevo..." e "Isto que vos acabo de escrever..." (vide 2:1 e 26), demonstram que, originalmente, I João não fora um sermão oral, mas uma composição escrita. Talvez fosse um panfleto geral para uso da Igreja inteira. Entretanto, o tratamento afetuoso, "filhinhos meus", mediante o qual o escritor reiteradamente se dirige a seus leitores, subentende um circulo limitado de cristãos com os quais o autor sagrado estava intimamente vinculado. De acordo com uma tradição da Igreja antiga, João viveu em Éfeso nos últimos anos de sua vida. Por conseguinte, I João mui provavelmente foi uma epístola geral, escrito em estilo homilético, para cristãos que ele conhecera na Ásia Menor, na área que circundava Éfeso (comparar com a epistola circular de Paulo aos "Efésios", e com o estilo homilético da epístola aos Hebreus).(Também é possível que I João seja uma nota asiática ocidental, à qual não se adicionava endereço nem saudações.) João assevera claramente qual o seu propósito ao escrever: fortalecer a seus leitores no conhecimento, na alegria e na certeza da fé cristã (vide 1:3,4 e 5:13), em contraposição ao falso doutrina­mento (vide 2:1 ss. e 4:1 ss.).

Polêmica anti-gnóstica


A heresia gnóstica sem dúvida se desenvolvia no seio da cristandade ao tempo em que João escreveu. De fato, consoante a uma antiquíssima tradição, João teria deixado precipitadamente a um banho público, em Éfeso, ao inteirar-se de que Cerinto, o líder gnóstico, acabara de entrar. (Irineu, Contra Heresias III.3.4: "Também há quem ouviu dele (Policarpo) que João, discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso, e notando que Cerinto ali estava, saiu de imediato das termais sem banhar-se, exclamando: "Fujamos. para que não caiam as termais, porque Cerinto, o inimigo da verdade, esta lá dentro" (tradução da edição de Roberts e Donaldson).) Fundamentando-se sobre a noção errônea que a matéria é inerentemente má, Cerinto distinguia entre um Cristo-espírito divino e imaterial e um Jesus humano, dotado de corpo físico, asseverando que o Cristo-espírito descera sobre o Jesus humano por ocasião de Seu batismo, tendo-O abandonado por ocasião de Sua crucificação.

Contra essa doutrina de Cerinto é que João ressalta que foi a pessoa única, "Jesus Cristo", que deu início à Sua manifestação pública ao ser batizado e que a encerrou com Sua crucificação: "Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas com a água e com o sangue..." (vide 5:6). Em outras palavras, Jesus Cristo realmente morreu, tal como dera inicio a Seu ministério através do batismo na água. A água referida também aponta para a água e o sangue que fluíram do lado traspassado de Jesus, como comprovação da realidade de Sua morte.

Partindo da mesma errada pressuposição de que tudo quanto é material e físico deve ser, forçosamente, mau, outros gnósticos também tentaram evitar a encarnação e a morte física de Jesus Cristo afirmando que Ele era humano apenas na aparência (posição essa intitulada docetismo, proveniente do verbo grego dokeo, parecer). Daí é que João encareceu a realidade da encarnação: "... o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam... e nós a temos visto..." (vide 1:1 e 2). Ironicamente, a primeira grande heresia do cristianismo atacou a humanidade, e não a deidade de Jesus Cristo.

Critérios da experiência cristã


No intuito de cumprir o seu propósito de fortalecer a seus leitores, combatendo a heresia por meio da verdade, João discute três critérios pelos quais se pode determinar a genuína profissão de fé cristã: (1) a vida reta; (2) o amor por outros crentes; e (3) a fé em Jesus como o Cristo que veio em carne. Da mesma forma que o critério da fé em Jesus como o Cristo que veio em carne visa ao gnosticismo, assim também o critério da conduta reta tem por alvo a lassidão moral dos gnósticos e o critério do amor para com outros crentes alveja o exclusivismo altivo do gnosticismo.

Após ter-se declarado possuidor de conhecimento em primeira mão sobre a vida de Jesus (vide 1:1-4), João insiste em que os verdadeiros crentes, apesar de não serem impecáveis, vivem reta­mente (vide 1:5 - 2:6), amam-se mutuamente, ao invés de amar ao mundo (2:7-17) e confiam na verdade atinente a Cristo. Portanto, rejeitam aos falsos mestres, aqui intitulados "anticristos". por serem es precursores do verdadeiro Anticristo (vide 2:18-28), o qual entrará no palco da história durante o período da tribulação, pouco antes do fim da presente dispensação. Em seguida, João discorre novamente sobre os critérios que apresentara: a retidão (vide 2:29-110a); o amor (vide 3:10b-24a); a verdade (vide 3:24b - 4:6); o amor (uma vez mais, vide 4:7 - 5:3); e a retidão (uma vez mais, vide 5:4-21). Ler I João 1 - 5.



Impecabilidade


No terceiro capítulo, a vigorosa linguagem acerca do fato que os crentes não vivem no pecado, não pode denotar impecabilidade, segundo se verifica em confronto com I João 1:8: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós" (comparar com I João 1:10 e 2:1). Os verbos no tempo presente, no terceiro capitulo, no original grego, sem dúvida indicam que a conduta dos crentes autênticos não é predominantemente pecaminosa. E talvez João também quisesse dar a entender que o crente não pode pecar como um crente. Quando ele peca, nega temporariamente a sua nova natureza. Isso não significa que ele tenha deixado de ser um crente, mas que ele deixou de agir como um crente que é. Ora, os gnósticos se jactavam de sua "liberdade cristã", pela qual podiam praticar qualquer coisa que desejassem, incluindo a liberdade de pecar.

O pecado para a morte


A menção enigmática de certo pecado que conduz à morte, um pecado que desmerece toda oração intercessória (vide 5:16,17), provavelmente alude à apostasia definitiva, sobre o que somos advertidos na epístola aos Hebreus e na qual vinham caindo os mestres gnósticos, com o resultado de uma irrevogável condenação. Alternativamente, João se refere à morte física (e não eterna) como castigo aplicado a crentes desobedientes (com­parar com I Coríntios 5:5 e 11:27-34).
ESBOÇO SUMÁRIO DE I JOÃO
Tema: critérios da verdadeira crença e prática cristã, em contraste com o gnosticismo

PRÓLOGO: A encarnação de Cristo, a Palavra da vida, confirmada por testemunho ocular, que serve de base da comunhão entre os cristãos

I. O CRITÉRIO DA CONDUTA RETA (1:5 - 2:6)

II. O CRITÉRIO DO MÚTUO AMOR CRISTÃO (2:7-17)

III. O CRITÉRIO DO CRISTO MANIFESTADO EM CARNE (2:18-28)

IV. O CRITÉRIO DA CONDUTA RETA (2:29 - 3:10a)

V. O CRITÉRIO DO MÚTUO AMOR CRISTÃO (3:10b - 24a)

VI. O CRITÉRIO DO CRISTO MANIFESTADO EM CARNE (3:24b - 4:6)

VII. O CRITÉRIO DO MÚTUO AMOR CRISTÃO (4:7 - 5.3)

VIII: O CRITÉRIO DA CONDUTA RETA (5:4-21)



II e III JOÃO: INSTRUÇÃO PATERNAL AO POVO CRISTÃO




Canonicidade e autoria de II e III João


A confirmação da segunda e da terceira epístolas de João, nos escritos patrísticos é um tanto débil, sem dúvida por causa da brevidade das mesmas. Os mais antigos pais da Igreja, todavia, não exibiram qualquer dúvida sobre a autoria joanina dessas epístolas. Em ambas João se identifica como "o ancião", não no sentido de ser um oficial eclesiástico de alguma igreja local, mas no sentido de ser um idoso estadista da Igreja, isto é, um apóstolo (comparar com I Pedro 5:1). Esse vocábulo faz contraste com a designação favorita de João para designar os seus leitores, "filhinhos" ou "filhinhos meus".

Temas, propósitos e destinatários de II João


A segunda epístola de João é dominada pelos temas do amor e da verdade cristãos. Seu propósito é advertir acerca da hospitalidade outorgada a qualquer mestre falso ("não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas", versículo 10). Os destinatários da epístola são "à senhora eleita [ou escolhida] e aos seus filhos" (primeiro versículo). Alguns intérpretes consideram que essas pessoas eram bem conhecidas pelo apóstolo. Porém, é bem mais provável que a "senhora eleita" seja aqui a personificação de uma igreja local, ao passo que os "seus filhos" sejam os membros individuais de dita igreja; e assim pensamos porque a senhora eleita e seus filhos são amados por "todos os que conhecem a verdade" (primeiro versículo). É altamente improvável que uma única família desfrutasse de tão ampla reputação por toda a cristandade, mas é perfeitamente concebível que assim acontecesse com alguma igreja local proeminente. Acresça-se também que nem os filhos daquela senhora e nem os seus sobrinhos (vide o décimo terceiro versículo) são mencionados por nomes próprios, (Alguns têm aceito as palavras "eleita" e "senhora" como se fossem nomes próprios de uma mulher, a saber, "Electa", "Kina", ou ambos. Mas "eleita" dificilmente pode ser aqui um nome próprio, porque a irmã dessa senhora também era "eleita" (vide o versículo treze). Duas irmãs dificilmente teriam o mesmo nome, "Electa"! Além disso, as considerações feitas no texto acima militam contra tomar-se a palavra "senhora" como nome próprio ou como descrição de uma mulher cristã individual.) e o pronome "vós", usado nos versículos oito, dez e doze, está obviamente no plural. Ora, todos esses informes, junto à advertência concernente aos falsos mestres e ao manda­mento para nos amarmos uns aos outros, são mais apropriados a uma igreja do que se tivessem em mira uma família (comparar com I João). Não sabemos, contudo, onde estava localizada essa igreja local. Ler II João.
ESBOÇO SUMÁRIO DE II JOÃO
Temas: o amor cristão e a verdade cristã

INTRODUÇÃO: Saudação (I-3)

I. EXORTAÇÃO AO AMOR CRISTÃO (4-6)

II. ADVERTÊNCIA CONTRA AS DOUTRINAS FALSAS E CONTRA O ACOLHIMENTO DADO A FALSOS MESTRES (7-11)

CONCLUSÃO: esperança de uma futura visita, e outra saudação (12 e 13).


Tema, endereço e propósitos e II João


O enfoque da atenção, na terceira epístola de João, é sobre certa disputa eclesiástica. O lugar da residência dos destinatários é desconhecido, mas o mais provável é que fosse na região em torno de Éfeso. João enviou a epístola a Gaio a fim de: (1) elogiar a hospitalidade de Gaio pelos "irmãos" (provavelmente mestres itinerantes enviados por João); (2) exprobrar a Diótrefes, um mestre da igreja local que se impunha qual superior, por sua falta de hospitalidade para com os "irmãos", por seus métodos ditatoriais e por sua oposição à autoridade apostólica de João; e (3) elogiar a Demétrio, provável portador da epístola. Demétrio pode ter tido necessidade dessa recomendação, porquanto es­tava de mudança da igreja de Éfeso, com a qual o apóstolo João estava associado, para a igreja onde Gaio era membro (comparar com a recomendação proporcionada a Febe, em Romanos 16:1,2), ou então por ser Demétrio um dos pregadores itinerantes a quem Diótrefes costumava recusar hospitalidade. Na verdade, Diótrefes expulsara da igreja local os membros que ousassem oferecer alimentos e abrigo àqueles pregadores itinerantes. João também indica que havia escrito uma outra epístola à igreja inteira da qual Gaio fazia parte (vide o nono versículo). Essa outra epístola pode ser a segunda epístola de João, ou a epístola circular de I João, ou então uma epístola que não chegou até nós. O décimo versículo contém a ameaça de uma visita pessoal de João, para efeito de uma confrontação direta com Diótrefes. Ler III João.
ESBOÇO SUMÁRIO DE III JOÃO

Lema: uma disputa eclesiástica

INTRODUÇÃO: Saudação (1)

I. ELOGIO A GAIO POR SUA HOSPITALIDADE PARA COM PREGADORES CRISTÃOS ITINERANTES (2-8)

II. CONDENAÇÃO DA REBELDIA DE DIÓTREFES CONTRA A AUTORIDADE APOSTÓLICA DE JOÃO E A SUA RECUSA DE ACOLHER PREGADORES CRISTÃOS ITINERANTES (9-11)

III. ELOGIO A DEMÉTRIO, PROVÁVEL PORTADOR DA EPÍSTOLA E ENVIADO DE JOÃO (12)

CONCLUSÃO: expectativa de uma visita futura e saudações finais (13-15)
Para discussão posterior:

- Existe algo de especificamente cristão (e não meramente judaico) na epístola de Tiago? Se há, por que tão pouco?

- Que relevância pode ter para a Igreja moderna, que vive em uma sociedade livre, uma epístola que se originou da perseguição, como I Pedro?

- Como devem ser tratados na Igreja os falso mestres? E quão sério é mister que seja um desvio doutrinário para merecer o epíteto ignominioso de "mestre falso "ou "herege"?

- Quais são as conexões lógicas entre a retidão, o amor e a ortodoxia em I João?
Para investigação posterior:
Ross, A. The Epistles of James and John. Grand Rapids: Eerdmans, 1954.

Law, R. The Tests of Life. Edimburgo: T. & T. Clarck, 1909.



CAPÍTULO 20 Apocalipse: Ele Vem Vindo!
Perguntas Normativas:

- Por qual motivo o estilo do livro de Apocalipse difere do es­tilo do evangelho de João e das epístolas de João, se João foi o autor de todas essas obras?

- Qual circunstância histórica provocou a escrita do Apoca­lipse?

- Quais são as principais abordagens interpretativas do Apo­calipse, e quais são seus pontos fortes e suas deficiências?

- Qual é o pano-de-fundo local que aviva nossa compreensão das sete mensagens às igrejas da Ásia?

- Quais são os significados dos símbolos apocalípticos do Apo­calipse?

- Quais serão as fontes originárias das pragas descritas no A­pocalipse?

- Quem são os cento e quarenta e quatro mil, as duas testemu­nhas, a mulher com dores de parto, o menino, a besta e o falso profeta?

- Com quais acontecimentos a história presente chegará ao seu ponto final e terá começo o estado eterno?
Tema

O Apocalipse (termo grego que significa "desvendamento") contém profecias mais extensas sobre o futuro do que qualquer outra porção do Novo Testamento. Essas profecias projetam luz sobre o triunfo escatológico de Cristo sobre as forças do Anti­cristo deste mundo - a começar pela tribulação e atingindo seu clímax na parousia e chegando ao término com a plena concreti­zação do reino de Deus - tudo para decisivo encorajamento dos crentes que enfrentem o antagonismo de uma sociedade incré­dula.


Canonicidade e autoria

O Apocalipse é fortemente atestado como obra canônica e apostólica desde o mais antigo período pós-neotestamentário da história da Igreja, a começar por Hermas, no início do século II D.C., até Orígenes, na primeira metade do século III D.C. As dú­vidas surgiram somente mais tarde, mormente por causa do argu­mento de Dionísio, no sentido que as diferenças existentes entre


o Apocalipse e o Evangelho e as epístolas de João excluem uma autoria comum: o apóstolo João, assim sendo, não poderia ter es­crito o livro de Apocalipse. É verdade que do ângulo gramatical e literário, o estilo grego do Apocalipse é inferior ao do evange­lho joanino e ao das três epístolas de João. Sem embargo, R.H. Charles, quiçá o maior perito sobre literatura apocalíptica, consi­derava a "gramática deficiente" como algo deliberado, com pro­pósitos enfáticos e para aludir a trechos vetero-testamentários em estilo hebraico, e não por motivo de ignorância ou descuido. (R H. Charles, A Critical and Exegetical Commentary on the Revelation of St. John. The International Critical Commentary (Edimburgo T & T Clarck, 1920), vol. l, págs. cxvii-clix.) Outros estudiosos têm pensado que a "gramática deficiente" re­sultou de um estado emocional de êxtase por parte de João, quando recebeu suas profecias na forma de visões. A solução mais simples consiste de dizermos que, na qualidade de prisio­neiro na ilha de Patmos, no mar Egeu, o apóstolo João não con­tava com o assessoramento de um amanuense que suavizasse o seu estilo impolido, conforme, aparentemente, sucedeu com o seu evangelho e com as suas epístolas. Não é mesmo impossível que todos os três fatores, acima citados, tenham contribuído para o estilo diferente que se nota no livro de Apocalipse.


Data

No que diz respeito à data em que o livro foi escrito, há um ponto de vista que afirma que a perseguição promovida por Nero contra os cristãos, após o incêndio de Roma, em 64 D.C., evocou a produção do Apocalipse como um encorajamento dos perse­guidos cristãos. Em apoio a essa idéia temos a observação de que o valor numérico das letras hebraicas com que se escreve o nome Nero César totaliza seiscentos e sessenta e seis, o número exato que aparece em apocalipse 13:8 como cifra simbólica da "besta". Não obstante, certos problemas técnicos lançam sombras de dú­vida sobre o valor numérico do título de Nero.

Tem sido igualmente argumentado, em favor de uma data an­terior (da época de Nero), que o estilo literário mais suave do Evangelho e das epístolas de João exibe o aprimoramento do seu domínio do idioma grego, ficando assim implícito que o livro de Apocalipse pertence a uma data mais antiga, do tempo em que ele ainda lutava por dominar o grego, por ser-lhe um idioma ainda pouco familiar. Todavia, há outras explicações para o es­tilo áspero do Apocalipse (vide a seção anterior); e as descober­tas arqueológicas e os estudos literários têm demonstrado, ainda recentemente, que, paralelamente ao aramaico e ao hebraico, o grego era comumente falado entre os palestinos do primeiro sé­culo cristão. Assim, pois, João sem dúvida conhecia e usava o grego desde a sua juventude.

A data tradicional e mais provável do livro Apocalipse é o rei­nado de Domiciano (81-96 D.C.). A despeito do fato que Domi­ciano não perseguiu aos cristãos em larga escala, a sua tentativa de pôr em vigor a adoração ao imperador foi um presságio das violentas perseguições que se seguiriam. O Apocalipse teve por desígnio, portanto, preparar os crentes para a resistência. Irineu, um dos primeiros pais da Igreja, datou explicitamente a redação do Apocalipse como pertencente à época do reinado de Domi­ciano. (Irineu. Contra Heresias V. xxx.3.) O testemunho de Irineu é deveras impressionante, por­quanto ele era um dos protegidos de Policarpo (60-155 D.C.), o bispo de Esmirna que aprendera a doutrina cristã sob a tutela do apóstolo João.


O estilo apocalíptico

O estilo típico da literatura apocalítica empregado no Apoca­lipse exibe uma linguagem exaltadamente simbólica na descrição de suas visões. Essas visões retratam o final da história, quando o mal houver atingido seu limite máximo e Deus tiver feito inter­venção para dar início ao Seu reino, para submeter os ímpios ao julgamento e para galardoar os justos. E tudo isso é exposto não a fim de satisfazer mera curiosidade quanto ao futuro, mas a fim de encorajar o povo de Deus e não fraquejar diante de um mundo dominado pela iniqüidade. Mui freqüentemente, João se utiliza da fraseologia típica do Antigo Testamento, especialmente dos livros de Daniel, Ezequiel e Isaías.

As estravagantes figuras de linguagem usadas por todo o Apo­calipse poderão parecer estranhas aos nossos ouvidos modernos, mas elas transmitem aos leitores as proporções cósmicas dos eventos descritos de maneira muito mais eficaz do que jamais po­deria tê-lo feito a linguagem prosaica. Deveras interessante é o fato que essas estranhas figuras de linguagem podem ser compara­das, quanto ao estilo, às criações de nossos caricaturistas con­temporâneos, as quais prontamente aceitamos e entendemos.
Interpretações

Os intérpretes usualmente seguem alguma dentre as quatro principais abordagens do Apocalipse:


(1) Idealista

O ponto de vista idealista despe a linguagem simbólica de qual­quer valor como predição de acontecimentos futuros, pois reduz a profecia a um quadro simbólico sobre o conflito contínuo entre o bem e o mal, entre a Igreja e o paganismo, com o triunfo even­tual do cristianismo. Essa interpretação encerra certo âmago de verdade, porém, origina-se principalmente da pressuposição de que é impossível a profecia genuinamente preditiva, bem como do embaraço ante a extravagância da linguagem apocalíptica.


(2) Preterista

O ponto de vista preterista, que compartilha da mesma pressu­posição que a posição idealista, limita o Apocalipse à mera des­crição das perseguições contra o cristianismo movidas pela an­tiga Roma e ao que se poderia esperar que acontecesse, me­diante a destruição do império romano e a vindicação dos cris­tãos quando da volta de Cristo, supostamente iminente. Natural­mente, segundo esse prisma interpretativo, o Apocalipse estaria equivocado - Jesus não retornou prontamente, apesar da derro­cada do império romano e de haver continuado o cristianismo. Em conseqüência, os preteristas procuram redimir o resíduo de significação da obra para os tempos modernos apelando, igual­mente, para o ponto de vista idealista. Os preteristas tendem por inferir que houve a utilização da mitologia pagã por todo o Apo­calipse.


(3) Historicista

O ponto de vista histórico interpreta o Apocalipse como uma simbólica narrativa prévia da história da Igreja, a contar da era apostólica até ao retorno de Cristo e ao juízo final. Assim, pois, o quebrar dos selos representaria a queda do império romano, os gafanhotos saídos do abismo simbolizariam as invasões muçul­manas, a besta apontaria para o papado (de acordo com os reformadores Protestantes), e assim por diante. Porém, as explica­ções sobre os símbolos individuais variam de tal maneira, entre os intérpretes pertencentes a essa escola que a dúvida acaba maculando esse próprio método de interpretação. Porque embora a linguagem profética possa ser um tanto opaca, antes de sucede­rem os eventos preditos, o cumprimento dessas profecias deveria aclarar suficientemente a linguagem usada de forma a ficar impe­dida a gama de variações interpretativas que se vê entre os histori­cistas. (Por exemplo, os historicistas têm identificado variegadamente os gafanhotos saídos do abismo, em 9:1 ss.. como os vândalos, os godos, os persas, os islamitas, os hereges. etc.) Geralmente falando, os historicistas aferram-se ao pós-­milenismo, isto é, a idéia utópica de que Cristo voltará após um prolongado período áureo (o milênio), resultante da conversão do mundo ao cristianismo - conceito esse muito popular no século XIX; ou então esposam o amilenismo (posição mais usual desses intérpretes em nossos dias), o qual nega que haverá um rei­nado literal de Cristo durante mil anos, sobre a restaurada nação de Israel e sobre os gentios, transmutando o reinado milenar de Cristo em Seu presente domínio espiritual, estando assentado à mão direita de Deus Pai.


(4) Futurista

O ponto de vista futurista reconhece que o Apocalipse teve co­meço motivado pela pressão exercida por Roma sobre a Igreja, durante o primeiro século cristão, e que o livro falava direta­mente àquela situação; mas também assegura que o volume maior da obra descreve um período futuro angustioso e caótico, que recebe o título de "tribulação", seguido de perto pelo re­torno de Cristo, pela inauguração do reino de Deus, pelo julga­mento final e pelo estado eterno. Os futuristas normalmente cal­culam que a tribulação, ou septuagésima semana de Daniel (vide Daniel 9:24-27), terá a duração de sete anos, e que talvez so­mente os últimos três anos e meio desse período é que sejam re­almente angustiosos. Outrossim, usualmente também afiançam ser veraz o ponto de vista pré-milenial, o qual afirma que, quando de Sua volta, Cristo reestabelecerá o reinado davídico sobre Israel e governará o mundo por mil anos paradisíacos (o milênio), esmigalhará a rebelião inspirada por Satanás que terá lugar perto do fim do milênio, e presidirá sobre o julgamento fi­nal, antes de ter início o estado eterno.


A questão do arrebatamento

Não há consenso geral entre os futuristas (ou pré-milenistas) os quais opinam ou que a Igreja continuará na terra durante todo o período de tribulação (pós-tribulacionismo), ou que ela será evacuada da terra mediante uma vinda preliminar de Cristo, antes da tribulação (pré-tribulacionismo), ou que ela será evacuada quando a tribulação estiver pela metade (mid-tribulacionismo), ou que ela será evacuada somente quanto à sua porção piedosa, antes da tribulação (arrebatamento parcial). (Quanto ao termo arrebatamento. vide a Pág. 301) As posições do pré­tribulacionismo e do pós-tribulacionismo são as perspectivas mais largamente advogadas entre os futuristas. Falando em ter­mos amplos, quanto mais estritamente um intérprete separa as relações divinas com a Igreja das relações divinas com Israel, mais inclinado se sente ele por pensar que a Igreja será removida àntes da tribulação, pois nesse período Israel figuraria com proe­minência. Os pós-tribulacionistas, por sua parte, encaram a tri­bulação como um período durante o qual Deus, paralelamente, estará dando os retoques finais de Suas relações com a Igreja e estará tratando novamente com a nação de Israel, a fim de prepará-la para o reino milenar. (Nota do Tradutor: Sendo judeu pelo lado paterno, tenho examinado a ques­tão. À guisa de contribuição, sugiro estes pontos: (1) Quando um judeu se volve para Cristo, não é mais contado como judeu, mas como parte da Igreja (vide Ro­manos 10:12,13). (2) Deus reservou um remanescente seleto na última geração ju­daica (vide Romanos 11:25-29 e Apocalipse 7:4-8). (3) O restabelecimento da na­ção judaica, mediante a conversão em massa a Cristo, será o prenúncio da glória (vide Romanos 11: 12 e 15). Portanto, no fim da dispensação os judeus serão parte integrante da Igreja. Não há necessidade de se interpretar as profecias escatológi­cas como se suas ameaças dissessem respeito a Israel e suas bênçãos à Igreja. Se agora há distinção entre judeus e cristãos, devido ao abismo da incredulidade, no fim essa distinção desaparecerá em virtude da fé dos judeus em Jesus Cristo, o Senhor. Vide Romanos 11:32.) O olvido da distinção (ou quase) entre a Igreja e Israel usualmente resulta no historicismo, ou seja, a negação que haverá um período futuro de sete anos de tri­bulação, tornando descabida a indagação se o arrebatamento ocorrerá antes, durante ou após a tribulação. Alguns historicis­tas, não obstante, acreditam em um milênio literal após a volta de Jesus.


Perspectiva

O ponto de vista aqui adotado é primariamente o futurista, mas sem esquecer que João estava escrevendo não somente para o fim desta era, mas também para os cristãos a ele contemporâneos e, de fato, para os crentes de cada geração. Em particular, o conflito entre o cristianismo e os césares corresponde à peleja entre o povo de Deus durante a tribulação (quer a Igreja ou outra porção desse povo) e o Anticristo, o qual governará sobre o redi­vivo império romano. O Apocalipse retém sua relevância de modo perene por causa da possibilidade que tem cada geração sucessiva de ver o cumprimento do livro em suas predições.

Após o endereço, o primeiro capítulo contém a narrativa da vi­são que João teve de Cristo em certo dia ("dia do Senhor", 1:10), quando se achava exilado na ilha de Patmos devido a seu testemunho cristão. A tradição da Igreja antiga parece subentender que João mais tarde pôde deixar o exílio e passou em Éfeso seus últimos anos de vida. Os capítulos dois e três encerram sete mensagens ditadas a João pelo próprio Jesus, endereçadas a sete igre­jas da Ásia Menor, em Éfeso e cercanias. (Essas mensagens são incorretamente intituladas "cartas", porque tal epíteto implicaria em comunicações distintas para cada igreja local, ao passo que a João competia escrever e enviar o conteúdo inteiro do Apocalipse, no qual as sete mensagens estão inclusas (vide 1: 11 ).) "Ásia" refere-se à província romana daquele nome, na Ásia Menor, parte da atual Tur­quia. Segue-se uma visão sobre a majestade de Deus, Sua corte celestial e o aparecimento de Cristo como um cordeiro, trazendo ainda as cicatrizes da morte expiatória (capítulos quatro e cinco). Os capítulos 6 a 19 descrevem, principalmente, as pragas da época da tribulação, com o conseqüente retorno de Cristo. Fi­nalmente, João revela que se instaurará o reinado de Cristo na terra, com Seus santos, pelo espaço de mil anos, terá lugar o jul­gamento final e descerá dos céus a Nova Jerusalém (capítulos 20 a 22).
Introdução e visão inicial

Ler Apocalipse 1 - 3. Os sete espíritos de Deus, mencionados nas observações iniciais (vide 1:4; conf. 4:5), provavelmente não são sete espíritos diversos, mas o único Espírito Santo, em conformidade com Sua sétupla relação para com as sete igrejas en­dereçadas, ou de acordo com a sétupla caracterização de Isaías concernente ao Espírito (1) do Senhor, (2) da sabedoria, (3) do entendimento, (4) de conselho, (5) de poder, (6) de conheci­mento, e (7) de temor ao Senhor (vide Isaías 11:2). João não ten­cionava que sua descrição de Cristo fosse tomada rigidamente li­teral, o que, neste caso, seria uma descrição grotesca. As figuras de linguagem devem antes ser traduzidas nas várias característi­cas e funções de Cristo. Suas vestes representam Seu sacerdócio real, Seus cabelos alvos simbolizam a Sua eternidade, Seus olhos chamejantes a visão penetrante da onisciência, Seus pés seme­lhantes a bronze a atividade julgadora que a tudo subjuga, a Sua voz trovejante a autoridade divina, a espada de dois fios a Sua Palavra, e o Seu rosto resplendente a glória de Sua deidade.

Os sete candeeiros de ouro simbolizam as sete igrejas locais endereçadas no livro, das quais Jesus cuida. E as sete estrelas em Sua mão representam os "anjos" dessas sete igrejas, os quais podem ser ou anjos guardiães de cada assembléia local, ou "mensa­geiros humanos" (outra tradução possível) que tivessem sido en­viados pelas igrejas para visitarem a João, na ilha de Patmos. A tradução "mensageiros" adquire ainda maior plausibilidade pelo fato que por todos os capítulos dois e três a palavra lhes é dirigida e eles são exortados - pois como João poderia escrever a anjos e exortá-los?

A ordem dada a João: "Escreve, pois, as cousas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas" (1:19), algumas vezes é aceita como um tríplice e embutido esboço do livro: (1) As coisas passadas, ou a visão que João teve sobre o Cristo (capí­tulo 1); (2) as coisas presentes, ou seja, as mensagens às sete igre­jas, que representariam a dispensação inteira da Igreja (capítulos 2, 3); e (3) as coisas futuras, ou a volta de Cristo, juntamente com acontecimentos precedentes e posteriores (capítulos 4 - 22). Po­rém, quando Jesus proferiu as palavras citadas, registradas em Apocalipse 1:19, as coisas "que são" estavam vinculadas à visão de Cristo, pois não tivera ainda começo o ditado das mensagens. Os capítulos 1 - 3 descrevem uma única visão. Por conseguinte, a declaração de Apocalipse 1:19 não deveria ser tomada como um esboço formal do livro, mas como simples assertiva de que João deveria fazer o registro das coisas que acabava de ver, que estava vendo e que ainda viria a ver.


As sete mensagens

Cada uma das sete mensagens contém um endereço, uma auto designação de Cristo, uma análise (com elogio e/ou reprimenda), uma exortação e uma promessa. Cristo selecionou criteriosamente os títulos com que designou a Si mesmo, em harmonia com a situação reinante em cada uma das igrejas. Por exemplo, à igreja de Esmirna, que passava por um período de sofrimento, Ele é o que "esteve morto e tornou a viver" (2:8).


Éfeso

Os nicolaítas, aos quais a igreja em Éfeso oferecia resistência, supostamente seriam os seguidores heréticos de Nicolau de An­tioquia (suposição essa alicerçada sobre a similaridade de nomes), um dos sete homens escolhidos para servirem às mesas na primitiva igreja de Jerusalém (vide Atos 6:5). Se essa opinião está correta, então ele se tornou um apóstata. Podemos deduzir de afirmações dispersas pelos capítulos dois e três do Apocalipse que os nicolaítas participavam da adoração e da imoralidade dos pagãos. É possível que a elogiosa oposição que lhes fazia a igreja de Éfeso tenha produzido alguma luta intestina naquela comuni­dade cristã, o que levou os cristãos ortodoxos dali a perderem seu amor ("primeiro amor") uns pelos outros.


Esmirna

A perseguição de "dez dias" que sobreviria à igreja de Esmirna (vide 2:10) refere-se a um breve período de perseguição, ou então a dez ondas sucessivas de perseguição.


Pérgamo

O "trono de Satanás", em Pérgamo (vide 2:13) alude aos fatos que aquela cidade era o centro do culto ao imperador na provín­cia da Ásia, e que a cidade era dominada por um gigantesco altar dedicado a Zeus na colina próxima. O "maná" prometido aos vencedores simboliza a vida eterna (vide 2:17). Compare-se com isso a autodesignação de Jesus como "o pão da vida", em cum­primento tipológico do maná historiado no Antigo Testamento (vide João 6). O simbolismo da "pedra branca", inscrita com um novo nome e conferido aos vencedores (vide igualmente 2:17) significa o direito que eles têm de entrar na vida eterna, embora o pano-de-fundo especifico seja difícil de determinar (vide os co­mentários a esse respeito).


Tiatira

As numerosas guildas comerciais da cidade industrial de Tia­tira levaram os muitos cristãos que eram membros de tais corpo­rações a participar dos festejos pagãos que anteriormente faziam parte das atividades das mesmas. Parece que havia uma profetisa falsa, sarcasticamente apelidada de "Jezabel", conforme o nome da iníqua esposa tíria do rei Acabe, de Israel, a qual encorajava essa forma licenciosa de "liberdade" (vide 2:20).






Sardes

Sardes era cidade notável por sua imoralidade; e o efeito disso sobre a igreja cristã dali era que somente "... umas poucas pes­soas ... não contaminaram as suas vestiduras" (vide 3:4). A ci­dade também era famosa pela sua indústria de tinturaria de lãs; por conseguinte, Cristo prometeu aos vencedores que andariam em Sua companhia, fazendo contraste com os vencidos, ou seja, vestidos "de vestiduras brancas" (vide 3:4,5).


Filadélfia

A população da cidade de Filadélfia era pequena devido a ter­remotos freqüentes. Por isso mesmo, a igreja cristã dali era cor­respondentemente pouco numerosa ("tens pouca força", vide 3:8). Na qualidade de Quem tem a autoridade de admitir ou ne­gar entrada no reino messiânico ("aquele que tem a chave de Davi", vide 3:7), o Senhor promete admissão aos crentes filadel­fianos, contra os quais não dirige nenhuma crítica. Os pré­tribulacionistas tomam a promessa feita à igreja de Filadélfia, "também eu te guardarei da hora da provação que há de vir so­bre o mundo inteiro" (vide 3:10), como uma indicação de que os crentes autênticos serão removidos deste mundo antes da tribu­lação. Mas os pós-tribulacionistas, comparando isso com a fra­seologia de João 17:15 ("Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal"), reputam haver neste passo bíblico uma promessa de proteção contra a ira divina, ainda na face da terra.


Laodicéia

Laodicéia era um próspero centro banqueiro, localidade onde se manufaturavam vestes com a lã negra como um corvo dos re­banhos de carneiros que ali eram criados; e também era um cen­tro de estudos de medicina. Em particular, um famoso pó frígio, usado para a cura de enfermidades oftalmológicas, provinha da­quela região. Tão auto-suficiente era Laodicéia que, após um destrutivo sismo, ocorrido em 60 D. C., a cidade não precisou da ajuda financeira dada por Roma a cidades do império para a sua reconstrução. Em clara alusão a esses fatos, Cristo increpa os cristãos laodicenses por causa de sua pobreza e nudez espirituais em meio à abastança, aconselhando-os a adquirir os tesouros es­pirituais. e se vestirem de vestiduras brancas (da justiça), e a tra­tarem de sua visão espiritual deficiente, ou seja, um distorcido senso de valores, com medicamento espiritual (vide 3:18). Água fria é refrigerante; água quente é útil. Mas os crentes laodicenses se assemelhavam à água que manava das fontes termais das pro­ximidades, a qual, fluindo através de um aqueduto, tornava-se té­pida - portanto, um vomitório.


As sete igrejas e a história eclesiástica

As igrejas às quais foram dirigidas as sete mensagens existiam como assembléias locais na Ásia Menor, durante o primeiro século de nossa era. Mas também representam tipos de igrejas que tem existido por toda a história da Igreja. E tem sido mesmo su­gerido - embora nem todos concordem com isso - que os carac­terísticos dominantes das sete igrejas, na ordem em que elas são mencionadas. simbolizam os característicos distintivos e desenvolvimentos históricos dentro da cristandade, durante as sucessi­vas eras da história eclesiástica, a saber:

- Éfeso, a igreja apostólica que trabalhava arduamente:

- Esmirna, a igreja pós-apostólica que foi duramente per­seguida;

- Pérgamo, a igreja crescentemente mundana de depois do imperador Constantino, que virtualmente fez do cristia­nismo a religião oficial de Roma;

- Tiatira, a igreja corrupta da Idade Média;

- Sardes, a igreja da Reforma, com sua reputação de ortodo­xia, mas ausência de vitalidade espiritual;

- Filadélfia, a igreja dos reavivamentos modernos e dos em­preendimentos missionários globais; e

- Laodicéia, a igreja contemporânea que tem ficado morna por causa da apostasia e da abastança.

No entanto, essa interpretação se ressente da crítica que Tia­tira, na carta à igreja existente ali, recebe maiores encômios do que geralmente seriam atribuídos á Idade Média; que a igreja da Reforma dificilmente merece uma mensagem de quase total re­preensão, como a que foi dirigida a Sardes; que a porta aberta, mencionada na carta à igreja de Filadélfia mais provavelmente alude à entrada do crente no reino messiânico, e não ao em­preendimento missionário; e que o prolongamento da história eclesiástica vai exigindo reiterados ajustamentos nos detalhes dessa interpretação. Não obstante, algumas das similaridades continuam mostrando-se mui atrativas.


O transporte de João

Existe certa diferença de opinião a respeito do fato que João foi chamado para subir ao céu, em Apocalipse 4:1. Os pós-­tribulacionistas encaram esse informe como uma experiência pu­ramente pessoal de João, em preparação para o recebimento de outras visões. Mas muitos pré-tribulacionistas julgam haver aqui um símbolo do arrebatamento da Igreja toda, antes da tribula­ção. Outrossim, os pré-tribulacionistas usualmente reputam os vinte e quatro "anciãos", no salão do trono celeste como repre­sentantes da Igreja recém-arrebatada. Para os pós-tribulacionistas, entretanto, essas personagens não passam de lí­deres humanos ou angelicais da adoração celestial a Deus, na pessoa de Cristo. Ler Apocalipse 4 e 5.


O rolo

O livro ou rolo com sete selos contém as profecias que se se­guem, no Apocalipse, profecias essas que só poderão concretizar-se através de atos voluntários de Cristo. O fato que Cristo tomou o rolo entre as mãos, rompeu os seus selos e o de­senrolou representa, por conseguinte, que Ele começará a arreba­tar o controle deste mundo das mãos das forças satânicas da per­seguição e da iniqüidade, ao cumprir essas profecias. Essa ativi­dade atingirá seu zênite quando da parousia e do estabeleci­mento do reino de Deus na terra.


Selos, trombetas e taças

Os capítulos seguintes (6 - 16) apresentam três séries de sete pragas em cada série: selos, trombetas e taças. Alguns intérpretes opinam que o cumprimento das mesmas será consecutivo. Assim, as pragas das trombetas sucederão depois de terem ocorrido as pragas dos selos, e as pragas das taças depois das pragas das trombetas. A segunda vinda de Cristo e a batalha de Armagedom formariam o ponto culminante. Segundo esse esquema, as trom­betas constituem o sétimo selo; e as taças constituem a sétima trombeta; e a parousia (segunda vinda de Cristo) e a batalha do Armagedom constituem a sétima taça:


Selos 1 2 3 4 5 6 7

Trombetas 1 2 3 4 5 6 7

Taças 1 2 3 4 5 6 7

"Parousia"


Porém, o fato que o conteúdo da sétima ocorrência de cada uma dessas séries é praticamente idêntico em todos os casos pa­rece indicar um ponto final - trovões, relâmpagos, um terremoto e várias indicações sobre a chegada do fim - sugere que os selos, as trombetas e as taças são paralelos, pelo menos em parte, quanto ao seu cumprimento. Assim, as pragas dos selos seriam espalha­das por todo o período da tribulação, as pragas das trombetas se concentrariam na parte final desse período, e as pragas das taças se acumulariam no fim mesmo do período, e, dessa forma, a sé­tima ocorrência de cada uma das três séries seria idêntica, con­duzindo diretamente à "parousia":
"Parousia"

Selos 1 2 3 4 5 6 7

Trombetas 1 2 3 4 5 6 7

Taças 1 2 3 4 5 6 7


Em sua maior parte, o conteúdo dos selos parece originar-se da depravação dos homens:

- Selo 1: militarismo, talvez por parte do ímpio Anticristo, que dominará durante o período da tribulação;

- Selo 2: guerra, resultante do militarismo;

- Selo 3: fome, resultante da guerra;

- Selo 4: morte, resultante da fome e de outras devastações da guerra (os quatro primeiros selos retratam os famosos "Qua­tro Cavaleiros do Apocalipse").

- Selo 5: perseguição aos santos e seu martírio (temos aqui a última geração da Igreja, conforme postulam os pós-tribula­cionistas; mas haveria aqui a menção a outros que se volta­ram para Deus, após o arrebatamento da Igreja, segundo os pré-tribulacionistas);

- Selo: 6: os fenômenos celestiais, que Jesus predisse para imediatamente antes de Sua volta (vide Marcos 13:24-26; Ma­teus 24:29,30 e Lucas 21:25-27);

- Selo 7: silêncio nos céus, trovões, relâmpagos e um terre­moto.

Ler Apocalipse 6:l - 8:5.
Os 144 mil

Alguns intérpretes consideram que os 144 mil israelitas, que serão assinalados a fim de serem protegidos durante o período da tribulação seriam símbolos representativos da Igreja. Contra esse parecer, todavia, precisamos levar em conta a enumeração explícita das doze tribos, em contraste com o caráter internacio­nal declarado da inumerável multidão de santos que procede vi­toriosamente da tribulação, na visão imediatamente seguinte. Os pré-tribulacionistas usualmente atribuem aos 144 mil o papel de evangelistas judeus que espalhariam o evangelho por todo o mundo na ausência da Igreja, com o resultado que uma vasta multidão de gentios crê e é salva. Há aqueles que reputam os 144 mil como judeus ortodoxos a quem o Senhor protegerá durante a tribulação, sobretudo quando estiverem sendo perseguidos por não aceitarem a adoração à imagem do Anticristo, a qual será exibida no templo reconstruído em Jerusalém. Em resultado da proteção divina, esse remanescente judaico sobreviverá para tornar-se o núcleo do reestabelecido reinado davídico, durante o milênio.


Trombetas

As trombetas parecem anunciar primariamente a atividade sa­tânica e demoníaca:

- Trombeta 1: saraiva, fogo (ou relâmpagos) e sangue, o que re­sultará na consumição de urna terça parte da terra;

- Trombeta 2: lançamento de um vulcão em erupção ("grande montanha ardendo em chamas") no mar, com o resultado que a terça parte do mar se transformou em sangue ao mesmo tempo que pereceram uma terça parte da vida mari­nha e dos navios que navegavam nos oceanos;

- Trombeta 3: a queda de um meteorito, descrito como uma estrela ardente chamada "Absinto", em uma terça parte do suprimento de água potável (rios e fontes de água), tornando-a amargosa e venenosa, em razão do que muitas vi­das se perderam;

- Trombeta 4: escurecimento do Sol , da lua e das estrelas em um terço de seu resplendor;

- Trombeta 5: abertura do abismo por parte de uma estrela (provavelmente Satanás) caída dos céus à terra, do que re­sultou o tormento demoníaco imposto a seres humanos, es­ses demônios se assemelhavam a gafanhotos e eram dotados de caudas como os escorpiões;

- Trombeta 6: uma outra praga, na qual cavaleiros demonía­cos fazem sucumbir uma terça parte da humanidade;

- Trombeta 7: os reinos deste mundo tornam-se o reino de Cristo, com relâmpagos, trovões, um terremoto e a chegada do tempo para impor o julgamento e doar os galardões. É evidente que muito da linguagem usada nessas descrições tem por escopo ser entendido simbolicamente. Não obstante, a linguagem simbólica transmite verdades literais, pelo que o intér­prete deve evitar a exagerada espiritualização. A montanha ar­dendo em chamas, ou vulcão, e a estrela ardente, ou meteorito, mui provavelmente aludem a anjos caídos, quiçá o próprio Sata­nás, tal como se dá também no caso da estrela caída dos céus à terra, quando da sexta trombeta. Satanás e as suas hostes de­moníacas estravasam a sua ira sobre a terra de maneiras que nos são impossíveis antecipar com certeza. Ler Apocalipse 8:6 - 11:19.
As duas testemunhas

As duas testemunhas, na primeira parte do décimo primeiro capítulo, provavelmente ministrarão durante os últimos três anos e meio (1.260 dias ou quarenta e dois meses) da tribulação, por­quanto, durante o tempo em que estiverem profetizando, os gen­tios "calcarão aos pés a cidade santa" (vide 11:2). Não há que du­vidar que isso se refere à perseguição contra a nação judaica, o que ocorrerá na segunda metade do período da tribulação, de­pois que o Anticristo houver rompido a sua aliança com Israel (vide Daniel 9:27).

Os futuristas geralmente identificam as duas testemunhas como Moisés e Elias, os quais reaparecerão na cena terrestre como representantes da lei e dos profetas. O retorno de Elias para ministrar a Israel foi predito por Malaquias 4:5, o que foi confirmado por Jesus (vide Mateus 17:11 e Marcos 9:12a). Moi­sés e Elias apareceram juntos no monte da Transfiguração, du­rante o primeiro advento de Jesus; e os milagres operados pelas duas testemunhas, em Apocalipse 11:6, correspondem aos mila­gres registrados no Antigo Testamento a respeito de Moisés (transformação da água em sangue e invocação de pragas contra a terra - comparar com Êxodo 7 - 12) e de Elias (o qual feriu seus inimigos com relâmpago ou "fogo" - comparar com II Reis 1:9­12 - e determinou a seca - comparar com I Reis 17:1). Outros estudiosos identificam as duas testemunhas como Enoque e Elias, as únicas personagens bíblicas que evitaram a morte física (por terem sido arrebatados aos céus) e que, por esse motivo, se­rão reenviados à terra, durante a tribulação, a fim de testificarem até tombarem como mártires. Entretanto, a última geração da igreja não experimenta a morte física, em razão do que não pre­cisamos supor que Enoque e Elias terão fatalmente de vir mor­rer, a fim de manterem a regra geral da morte física, como parte integrante da maldição imposta ao pecado. Interpretadas de modo ainda diferente de tudo isso, talvez em moldes por demais simbólicos, as duas testemunhas representariam o testemunho coletivo do povo de Deus sobre a terra durante o período da tri­bulação.
A mulher e o menino

No décimo segundo capítulo, a mulher representa Israel (ou, alternativamente, a Igreja), as doze estrelas de sua coroa seriam as doze tribos de Israel (alternativamente, os doze apóstolos da Igreja), e o nascimento de seu filho representa o nascimento do Messias Jesus, o qual procedeu da nação de Israel. O dragão re­trata a Satanás. A terça parte das estrelas significa os anjos caídos, os quais, por haverem seguido a Satanás, transformaram-se em seres demoníacos. O arrebatamento do menino nascido aos céus representa a ascensão de Jesus ao término de Sua carreira terrena. E a proteção outorgada à mulher, defendendo-a dos ata­ques do dragão durante os 1.260 dias que ela passará no deserto, representa a proteção dada ao remanescente judaico (os 144 mil?), o que os livrará da perseguição satanicamente inspirada e encabeçada pelo Anticristo, durante a última metade da tribula­ção. Ler Apocalipse 12.


A besta e o falso profeta

No décimo terceiro capítulo, a besta e o falso profeta têm sido




interpretados como representações do reavivado império ro­mano e do Anticristo, respectivamente. Mais provavelmente, contudo, a besta representa o reavivado império romano perso­nificado em seu cabeça, o Anticristo, ao passo que o falso profeta seria o sumo-sacerdote judeu do culto ao Anticristo, o qual man­dará colocar a imagem do Anticristo (uma "imagem" do império romano restaurado é difícil de conceber) no templo reedificado pelos judeus em Jerusalém e tentará forçar os israelitas a adorá-­la (comparar com II Tessalonicenses 2:3,4,9; Marcos 13:14; Ma­teus 24:15 e Daniel 9:27). Em Apocalipse 19:20, tanto a besta quanto o falso profeta parecem ser indivíduos, porquanto ambos terminam sendo lançados no lago de fogo: "Mas a besta foi apri­sionada, e com ela o falso profeta que, com os sinais feitos diante dela, seduziu aqueles que receberam a marca da besta... Os dois foram lançados vivos dentro do lago do fogo que arde com enxo­fre". Ler Apocalipse 13 e 14.


Os 144 mil

Os 144 mil aparecem de novo no décimo quarto capitulo, dessa vez sobre o monte Sião, em companhia de Cristo, o Cordeiro, ce­lebrando sua passagem triunfal pela tribulação. Isso subentende um ponto de tempo perto do final da tribulação, após a descida de Cristo, e também constitui uma indicação (entre outras) de que as visões de João saltavam para frente e para trás cronologi­camente.


Colheitas

As duas colheitas, referidas em 14:14 ss. podem simbolizar am­bas o juízo divino, por ocasião da segunda vinda de Cristo. Ou então, de conformidade com os pós-tribulacionistas, a primeira colheita, a "ceifa", recolhida por alguém "semelhante a filho de homem", que estava assentado sobre uma nuvem branca, repre­senta o arrebatamento da Igreja, quando da volta de Jesus, termi­nada a tribulação; e, por causa da expressão "cólera de Deus", a segunda colheita, a "vindima", representa a explosão que se se­guirá imediatamente depois da ceifa, na forma do julgamento da batalha de Armagedom.


Taças

João afirma explicitamente que as taças representam pragas originadas na cólera de Deus, provavelmente concentradas todas nos momentos finais da tribulação ("os sete últimos flagelos, pois com estes se consumou a cólera de Deus", 15:1):

- Taça 1: úlceras malignas;

- Taça 2: transformação do mar em sangue, resultando na morte de toda a vida marinha (uma itensificação da praga anunciada pela segunda trombeta);

- Taça 3: todos os rios e fontes de água são transformados em sangue (intensificação da terceira trombeta);

- Taça 4: calor escaldante;

- Taça 5: trevas e dores;

- Taça 6: convocação das hordas provenientes do Oriente para a batalha de Armagedom, com a convergência das nações gentílicas na direção da Palestina, ou para combaterem unidas contra Israel ou para se digladiarem entre si, visando a Pales­tina como a sua presa - mas Cristo voltará a fim de livrar Is­rael no último instante;

- Taça 7: "Está feito", um terremoto, trovões, relâmpagos e a derrocada das potências pagãs.

Ler Apocalipse 15 e 16.
A queda de Babilônia

O colapso do reavivado império romano é celebrado a seguir. "Babilônia" simboliza a cidade de Roma, porquanto Roma to­mara o lugar daquela cidade mesopotâmica como o centro idóla­tra, imoral e perseguidor do povo de Deus no mundo.(Vide a discussão às págs. 391s, acerca da aplicação do termo "Babilônia" a Roma, em I Pedro.) O capítulo dezessete frisa a religião falsa de Roma pagã; o capítulo dezoito, destaca o comercialismo e o materialismo de Roma. Grande parte de fraseologia desses capítulos se deriva das profecias con­tra Babilônia, em Isaías 13, 14, 46 - 48 e (especialmente), Jere­mias 50 e 51, como também da profecia contra Tiro, em Eze­quiel 26 - 28. Ler Apocalipse 17 e 18.


As bodas

O banquete das bodas do Cordeiro figura a união dos santos com seu Salvador, por ocasião do banquete messiânico, milenar­mente esperado. Os pré-tribulacionistas pensam que esse acontecimento terá lugar nos céus, durante a tribulação, porque toda a Igreja já teria sido recolhida aos céus por aquela altura. Os pós-­tribulacionistas, por seu turno, encaram essas coisas como à beira do seu cumprimento, o que se dará por ocasião da volta de Cristo, terminada a tribulação, visto que a última geração da Igreja continuará viva à face da terra até então.


A “parousia”

Na oportunidade de Seu regresso, Cristo destruirá os exércitos concentrados das nações ímpias. A besta e o falso profeta serão lançados vivos no lago de fogo. Satanás será confinado à prisão pelo espaço de mil anos. Os mortos justos haverão de ressuscitar e compartilharão do reinado milenar de Cristo sobre a terra. João põe em evidência os mártires, mencionando-os de maneira especial, a fim de encorajar a boa disposição do povo de Deus para arrostarem o martírio, se necessário, conservando-se fiéis a Cristo. Satanás, liberado após os mil anos de prisão, instigará à revolta contra o governo de Cristo os muitos seres humanos que terão sido forçados a se submeterem ao domínio político de Je­sus, sem que se tivessem submetido ao Seu senhorio espiritual. Porém, tal levante é esmagado, e então terá lugar o juízo final. Ler Apocalipse 19 e 20. (Os amilenistas atribuem a prisão de Satanás à obra de Cristo em Seu primeiro advento, a primeira ressurreição ao reavivamento espiritual daqueles que crêem em Cristo, o reinado de mil anos com Cristo ao domínio espiritual presente de Cristo e os santos (mil anos por ser número redondo e indicativo de muito tempo), a derrota da revolta à Segunda Vinda, e a segunda ressurreição à ressur­reição física geral, dos justos e injustos igualmente, quando da segunda vinda de Cristo.)


A nova Jerusalém

A nova Jerusalém, a imaculada noiva e esposa do Cordeiro, faz nítido contraste com a meretriz , Babilônia (Roma), retratada nos capítulos precedentes. O fato que as "nações andarão mediante a sua luz, e os reis da terra lhe trazem a sua glória" (21:24) pode indicar que a nova Jerusalém descerá dos céus à terra no começo do reino milenar de Cristo. Porém, a abolição da morte, da tristeza, do luto, da dor e de todas "as primeiras coisas", associadas ao mundo no qual reside o mal (vide 21:4) aponta para o estado eterno, o qual será inaugurado depois do milênio, com a elimina­ção final do pecado e seus resultados maléficos.

E assim se encerra o Novo Testamento, mencionando a visão beatífica ("contemplarão a sua face", vide 22:4), apresentando um convite à vida-eterna (vide 22:17), uma maldição contra todo aquele que adicionar ou subtrair qualquer coisa das profecias do Apocalipse (vide 22:18,19), uma promessa sobre o retorno de Je­sus e uma oração a esse respeito (vide 22:20) e, finalmente, uma bênção (vide 22:21). Ler Apocalipse 21 e 22.
ESBOÇO SUMÁRIO DO APOCALIPSE
Tema: visões sobre o triunfo escatológico de Cristo sobre as forças anti-cristãs deste mundo.

INTRODUÇÃO (1:1-8)

A. Título e meios de revelação (1:1,2)

B. Bênção conferida à leitura pública do livro (1:3)

C. Saudação (1:4,5a)

D. Doxologia (1:5b,6)

E. Declaração do tema (1:7,8)

I. CRISTO O SACERDOTE REAL, COM OS SETE CANDEEIROS (IGRE­JAS) E AS SETE ESTRELAS (ANJOS OU MENSAGEIROS DAS IGRE­JAS) (1:9-20)

II. AS SETE MENSAGENS ÀS IGREJAS DA ÁSIA (2:1 - 3:22)

A. Mensagem à igreja em Éfeso (2:1-7)

B. Mensagem à igreja em Esmirna (2:8-11)

C. Mensagem à igreja em Pérgamo (2:12-17)

D. Mensagem à igreja em Tiatira (2:18-29)

E. Mensagem à igreja em Sardes (3:1-6)

F. Mensagem à igreja em Filadélfia (3:7-13)

G. Mensagem à igreja em Laodicéia (3:14-22)

III. O TRIBUNAL CELESTE (4:1 - 5:14)

A. Adoração a Deus pelas quatro criaturas viventes e pelos vinte e quatro an­ciãos (4:1-11)

B. Aparecimento de Cristo como o Cordeiro, para tomar nas mãos o rolo com sete selos, e novos louvores (5:1-14)

IV. AS PRAGAS DA TRIBULAÇÃO (6:1 - 16:21)

A. Os primeiros seis selos, derivados da depravação humana (6:1-17)

1. Primeiro selo: militarismo (6:1,2) Os quatro

2. Segundo selo: guerra (6:3,4) Cavaleiros

3. Terceiro selo:tome (6:5,6) do

4. Quarto selo: morte (6:7,8) Apocalipse

5. Quinto selo: perseguição e martírio (6:9-11)

6. Sexto selo: fenômenos celestes (6:12-17)

B. Selagem protetora dos 144 mil (7:1-8)

C. A multidão de branco dos santos vindos da tribulação (7:9-17)

D. Sétimo selo: silêncio nos céus, trovões relâmpagos e um terremoto (8:1-5)

E. As primeiras seis trombetas derivadas das atividades de Satanás e seus demônios (8:6 - 9:21)

1. Primeira trombeta: saraiva, fogo (ou relâmpago), sangue e queima da terça parte da verdura da terra (8:7)

2. Segunda trombeta: queda do vulcão em erupção no mar, transfor­mação em sangue de uma terça parte do mar, com destruição da terça parte da vida marinha e dos navios (8:8,9)

3. Terceira trombeta: queda de um meteorito sobre a terça parte do suprimento de água potável da terra, tornando-a venenosa e cau­sando enorme número de mortes (8:10,11)

4. Quarta trombeta: escurecimento de um terço do Sol, da lua e das estrelas (8:12)

5. O anúncio das três últimas trombetas, que constituirão os três "ais" (8: 13)

6. Quinta trombeta: os gafanhotos saídos do abismo (9:1-12)

7. Sexta trombeta: matança de um terço da humanidade pelos cava­leiros demoníacos (9:13-21)

F. Cancelamentos dos sete trovões, para evitar maior demora (10:1-7)

G. João ingere um rolo de profecias sobre as nações (10:8-II)

H. As duas testemunhas (11:1-13)

I. Sétima trombeta: transferência do governo mundial para Cristo, relâmpagos, trovões, um terremoto, julgamento e galardões (11: 14-19)

J. Proteção dada à mulher (Israel) que deu à luz a um menino (Cristo), para ela escapar do dragão (Satanás) (12:1-17)

L. As duas bestas (13:1-18)

1. A besta saída do mar, com sete cabeças e dez diademas (o revi­vido império romano e seu líder, o Anticristo) (13:1-10)

2. A besta saída da terra (da Palestina), com dois chifres (um colabo­rador sumo-sacerdotal judaico do Anticristo) (13:11-18)

M. Os 144 mil com Cristo no monte Sião, entoando cânticos (14:1-5)

N. Três mensagens angelicais (14:6-12)

1. O evangelho eterno (14:6-12)

2. A queda de Babilônia (Roma) (14:8)

3. A advertência para não se adorar a besta (14:9-12)

O. As duas colheitas (14:14-20)

1. Por alguém "semelhante a filho de homem" (14:14-16)

2. Por um anjo em meio a muito derramamento de sangue (14:17-20)

As sete taças, derivadas da cólera divina (15:1 - 16:21)

1. Preparação (15:1 - 16:1)

2. Primeira taça: úlceras malignas (16:2)

3. Segunda taça: transformação do mar em sangue e morte de toda a vida marinha (16:3)

4. Terceira taça: transformação de todos os rios e fontes de água em sangue (16:4-7)

5. Quarta taça: calor escaldante (16:8,9)

6. Quinta taça: trevas e dores (16:10,11)

7. Sexta taça: convocação das hordas do Oriente para a batalha do Armagedom (16:12-16)

8. Sétima taça: "Está feito", um terremoto, trovões, relâmpagos e a queda das potências pagãs (16:17-21)

V. QUEDA DA BABILÔNIA (ROMA) E VOLTA DE CRISTO (17:1 - 19:21)

A. Descrição da Meretriz, Babilônia, com ênfase sobre seu paganismo, e predição de sua queda (17:1-18).

B. Destruição de Babilônia, com ênfase sobre o seu comercialismo (18:1 - 19:5)

C. O banquete das bodas do Cordeiro (19:6-10)

D. A descida de Cristo (19:11-16)

E. A derrota das hordas ímpias e o lançamento da besta e do falso pro­feta no lago de fogo (19:17-21)

VI. O REINO DE CRISTO E DE DEUS (20:1 -22:5)

A. Satanás é amarrado por mil anos (20:1-3).

B. O reinado milenar de Cristo e de Seus santos (20:4-6)

C. A soltura de Satanás, e a rebeldia geral e abafamento da mesma (20:7­10)

D. O julgamento do grande trono branco (20:11 -15)

E. Nová Jerusalém, novos céus e nova terra (21:1 - 22:5)

CONCLUSÃO (22:6-21)

A. O Apocalipse é uma revelação fidedigna, com advertências e um con­vite (22:6-20)

B. Bênção final (22:21).


Para discussão posterior:

- Como deveríamos entender as frases "as cousas que em breve devem acontecer" e "o tempo está próximo" (1:1,3), em face da passagem de quase dois mil anos de história da Igreja?

- Por qual razão as profecias preditivas são opacas, quanto ao seu significado, pelo menos até depois de seu cumprimento?

- Distribua os diversos ramos da cristandade, incluindo as de­nominações evangélicas, entre as categorias representadas pelas sete igrejas da Ásia.

- Quais diretrizes poderiam ajudar-nos a encontrar solução para a questão da interpretação literal versus interpretação figu­rada do Apocalipse?

- Quais acontecimentos, na história recente e atual, podem ser aduzidos como uma armação do palco para os eventos preditos no Apocalipse - ou deveríamos ao menos tentar engajar-nos em especulações dessa ordem?

- Por que existem tão poucos detalhes claramente com­preensíveis a respeito dos céus e da terra nas Escrituras ? Tal su­posição é falsa?
Para investigação posterior:
Tenney, M. C. Interpreting Revelation. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

Beasley-Murray, G.R. "O Apocalipse", em O Novo Comentário da Bíblia. Editado por F. Davidson, A. M. Stibbs, e E. F. Kevan. 1ª edição. São Paulo: Edi­ções Vida Nova, 1976. Págs. 1449-1487.

Walvoord, John G. The Revelation of Jesus Christ. Chicago: Moody, 1966.

Pentecost, J. D. Things to Come. Grand Rapids: Zondervan, 1958. Quanto a uma ampla pesquisa sobre a escatologia bíblica do ponto de vista pré-milenar e dispensacional.

Allis, O. T. Prophecy and the Church. Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1945. Quanto a um ponto de vista amilenar e anti-dispensacional.

Ludwigson, R. Bible Prophecy Notes. 3ª edição. Grand Rapids: Zondervan, 1951. Quanto aos prós e contras de vários esquemas de interpretação profética.

Morris, Leon, The Biblical Doctrine of Judgment. Grand Rapids: Eerdmans, 1960.

Smith, Wilbur M. The Biblical Doctrine of Heaven. Chicago: Moody, 1968.

Lewis, C. S. The Great Divorce, A Dream. Londres: Bles, 1945. Quanto a uma moderna alegoria atinente ao céu e ao inferno.

CAPÍTULO 21 - Em retrospecto
Jesus Cristo veio a este mundo em uma época de enfermidade religiosa e filosófica. O Seu próprio povo pátrio, os judeus, estava sob o tacão do domínio romano e aguardava o aparecimento de um Messias político. Quando Jesus pôs-se a repelir em termos gerais o vocábulo "Messias", carregado de nuanças políticas, e apresentou-se como um Redentor espiritual (o Filho do Homem que deveria sofrer e morrer como Servo do Senhor, antes de ser exaltado à Sua posição de hegemonia), nem os Seus próprios dis­cípulos puderam compreendê-Lo. Os judeus de maneira geral e os membros do Sinédrio em particular, rejeitaram-No, trocando-O por Barrabás, que era um político revolucionário. Dessa forma, Jesus morreu mediante a crucificação aos moldes roma­nos.

Mas a ressurreição vindicou a Jesus perante os Seus discípulos. Após a Sua ascensão e o derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecoste, começaram a proclarná-Lo Senhor e Salvador. Sem embargo, aparentemente esperavam que Ele retornasse à terra no espaço de pouco tempo, e em um espírito contínuo (mas compreensível) de nacionalismo judaico, puseram-se a evangeli­zar a sua própria nação, em preparação para um reino que esta­ria prestes a ser estabelecido, segundo o qual Israel seria o ca­beça das nações gentílicas. Todavia, a "parousia" foi adiada, e judeus helenistas convertidos (mormente em Antioquia da Síria), imbuídos de menor preconceito anti-gentílica que a maioria dos judeus cristãos da Palestina, enviaram a Barnabé e Paulo para o primeiro esforço conjunto para a conquista dos gentios para a cruz. O sucesso inspirou outras missões entre os gentios, e even­tualmente o evangelho se propagou por todo o império romano.

O sucesso evangelístico exigia organização de grupos locais de convertidos, para fins de instrução e adoração. A estrutura da igreja institucional começou a tomar forma. A instrução doutrinária e ética foi ampliada por meio daqueles elementos do Antigo Testamento que não tinham ficado obsoletos através do cumpri­mento neotestamentário, como também por meio da rememorização, aplicação e extensão dos ensinos e exemplos de Jesus. Isso abriu caminho, sob a orientação norteadora do Espírito Santo, a uma mais profunda reflexão sobre a natureza da pessoa e da obra de Cristo, sobre a significação da Igreja e sobre o futuro escato­lógico.

Excetuando alguns poucos dispersos e atualmente perdidos es­critos, a primitiva comunicação da doutrina e da ética cristã se fa­zia pela via oral. A propagação geográfica do evangelho criou a necessidade de serem instruídos os cristãos à distância. Foi as­sim que teve início a redação da literatura epistolar do Novo Tes­tamento. Algo mais tarde, teve começo a escrita dos evangelhos (O livro de Atos deveria ser considerado, na realidade, como a segunda parte do evangelho de Lucas.) como um meio literário de evangelizar os incrédulos, de confir­mar a fé dos crentes e de prover um registro escrito autoritativo acerca da vida e do ministério de Jesus, porquanto já decrescia o número das testemunhas oculares desses fatos, por causa da morte física e da simples passagem do tempo. Finalmente, já pró­ximo ao fim do primeiro século cristão, o último apóstolo sobre­vivente, João, contribuiu com os escritos finais do Novo Testa­mento, tendo-se utilizado das formas literárias de evangelho e epístola, acrescentando um livro sem par, no concernente à sua forma, em todo o Novo Testamento - o visionário e prospectivo livro de Apocalipse. Depois disso começou o processo da cole­ção e canonização dessas obras escritas. Quanto a um sumário fi­nal da literatura neotestamentária, vide o quadro às págs. 430, 431.










GRÁFICO

DOS LIVROS DO

NOVO TESTAMENTO




Livro

Autor

Data (A D.) 1

Local de Escrita

Endereçados

Temas e Ênfases Distintivos

Gálatas

Paulo

49, logo depois da 1ª viagem missionária de Paulo

Antioquia da Síria

Cristãos de Antioquia da Psídia, Icônio, Listra e Derbe, sul da Galácia.

Justificação pela graça divina mediante a fé em Cristo

contra a doutrina judai­ zante das obras meritórias da lei.



I Tessalonicenses

Paulo

50-51, durante a 2ª viagem missionária

Corinto

Cristãos de Tessalônica

Congratulação ante a conversão e o crescimento cristão e

exortação a maior progresso, com ênfase sobre o consolo e a expectação pela "parousia".­­­



II Tessalonicenses

Paulo

50-51, durante a 2ª viagem missionária

Corinto

Cristãos de Tessalônica

Eliminação de uma crença fanática (em gendrada

pela perseguição), ante a imi­­nencia da "Parousia'



I Coríntios

Paulo

54, durante a 3ª viagem missionária

Éfeso

Cristãos de Corinto

Problemas de maneiras, moral e crenças no seio da igreja.

II Coríntios

Paulo

55, durante a 3ª viagem missionária

Macedônia

Cristãos de Corinto

Sentimentos íntimos de Paulo sobre seu ministério

apostólico; oferta à igreja de Jerusalém.



Romanos

Paulo

55, durante a 3ª viagem missionária

Corinto

Cristãos de Roma

Justificação pela graça divina mediante a fé em Cristo.

Tiago

Tiago, meio-irmão de Jesus

40s ou 50s começo dos 60s

Jerusalém

Cristãos judeus da Dispersão

Exortações sobre a conduta cristã na vida diária.

Marcos

João Marcos

fim dos 50s ou

Roma

Romanos não-cristãos

Atividade remidora de Jesus.

Filemom

Paulo

60

Roma

Filemom, sua família e a igreja de sua casa

- tudo em Colossos



Piedade por um escravo fugido, Onésimo, que

se tornara cristão



Colossenses

Paulo

60

Roma

Cristãos de Colossos

A preeminência de Cristo.

Efésios

Paulo

60

Roma

Cristãos da região em torno de Éfeso

Privilégios espirituais e responsabilidades da Igreja.

Lucas

Lucas

60

Roma

Gentios não-cristãos, com alguma cultura e interesse pelo guma cultura e interesse pelo cristianismo

A certeza histórica do evangelho.

Atos

Lucas

61

Roma

Gentios não-cristãos, com alguma cultura e interesse pelo guma cultura e interesse pelo cristianismo

O avanço irresistível do evangelho, de Je­rusalém a Roma

Filipenses

Paulo

61

Roma

Cristãos de Filipos

Gratidão pela ajuda financeira, com notí­cias pessoais e exortações

I Timóteo

Paulo

62

Macedônia

Timóteo, em Éfeso

Organização e administração de igrejas
















por parte de Timóteo.

Tito

Paulo

62

Nicópolis

Tito, em Creta

Administração das Igrejas de Creta, por Tito.

II Timóteo

Paulo

63

Roma

Timóteo , em Éfeso

Comissão dada a Timóteo para levar avante a obra de Paulo.

I Pedro

Pedro

63

Roma

Cristãos da Ásia Menor

A salvação e a conduta dos cristãos que sofrem.

II Pedro

Pedro

63-64

Roma

Cristãos da Ásia Menor

Verdadeiro conhecimento da crença cristã versus os mestres falsos e sua nega­ção da "parousia".

Mateus

Mateus

60s

Antioquia da Síria

Judeus na Síria

O Messias e o novo povo de Deus.

Hebreus

desconhecido (Apolo?)

60s

Desconhecido

Cristãos judeus em Roma

A superioridade de Cristo como impediente

contra a apostasia do cristianismo para o judaísmo.



Judas

Judas, meio-irmão de Jesus

60s ou 70s

Desconhecido

Cristãos em toda a parte

Aviso contra os falsos mestres no seio da Igreja.

João

João

fim dos 80s ou começo dos 90s

Éfeso

Cristãos e/ou não-cristãos na região ao redor de Éfeso.

A fé em Jesus como o Cristo e o Filho de Deus,

visando à vida eterna.



I João

João

fim dos 80s ou começo dos 90s

Éfeso

Cristãos na região em redor de Éfeso

Critérios da verdadeira crença e prática cristã,

em contraste com o gnosticismo.



II João

João

fim dos 80s ou começo dos 90s

Éfeso

Uma igreja local próxima de Éfeso.

O amor cristão e a verdade cristã.

III João

João

fim dos 80s ou começo dos 90s

Éfeso

Gaio, um cristão da região ao redor de Éfeso

Disputa eclesiástica que envolvia a Gaio,

Diótrefes, Demétrio e o próprio João.



Apocalipse

João

fim dos 80s ou começo dos 90s

Patmos

Sete igrejas da parte ocidental da Ásia Menor

Visões do triunfo escatológico de Cristo

sobre as forças anticristãs no mundo.







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