Panorama do novo testamento



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CAPÍTULO 13 - Atos do Espírito de Cristo Por Toda Parte, por Meio de Paulo

VIAGENS MISSIONÁRIAS DE PAULO

Sumário das Escalas e dos Eventos Principais em Sincronia com as Epístolas Paulinas
Ano - Todas as datas são aproximadas
30 Jesus morreu e ressuscitou.

34 Paulo se converte e prega em Damasco e Arábia por três anos, e escapa de um conluio dos judeus, arriado por sobre a muralha de Damasco.

Barnabé apresenta Paulo à igreja de Jerusalém.

Paulo volta a Tarso.

Barnabé leva Paulo à Antioquia da Síria.

47 Barnabé e Paulo levam víveres a Jerusalém.


I. PRIMEIRA VIAGEM MISSIONÁRIA Antioquia da Síria.

Chipre - Bar-Jesus (Elimas) é cegado e o pro­consul Sérgio Paulo se converte.

Perge e Panfília - João Marcos recua.

Antioquia da Psídia - Paulo prega na sinagoga.

Icônio.

Listra - Paulo cura um aleijado; Barnabé e Paulo são adorados como Zeus e Hermes, respectiva­mente; Paulo e apedrejado.

Derbe

Listra

Icônio

Antioquia da Psídia

49 GÁLATAS (sob a data antiga da teoria do sul da Galácia)

Perge na Panfília

Antioquia da Síria

Concílio de Jerusalém (Atos 15)


50-51 II. SEGUNDA VIAGEM MISSIONÁRIA

(Paulo e Barnabé discordam quanto à companhia de João Marcos: Paulo leva consigo a Silas.) Frigia e sul da Galácia

Antioquia da Síria

Derbe


Listra - Paulo leva Timóteo

Icônio


Antioquia da Psídia

Trôade - Paulo tem a visão do homem da Mace­dônia.

Filipos - Lídia se converte, libertação da escra­va endemoninhada: Paulo e Silas encarcerados; terremoto à meia-noite; conversão do carce­reiro.

Tessalônica - uma turba instigada por judeus as­salta a casa de Jasom, onde Paulo estava hospe­dado.

Beréia - os bereanos "investigam as Escrituras (do A. T..)", confrontando-as com a mensagem de Paulo.

Atenas - Paulo sozinho; prega no Areópago (co­lina de Marte); Timóteo e Silas reúnem-se a Paulo, mas Timóteo é enviado de volta a Tessalô­nica e Silas vai para algum outro lugar.

Corinto - Paulo fabrica tendas com Priscila e A­qüila; Timóteo e Silas reúnem-se de novo a Paulo; Paulo muda o local de pregação da sina­goga para a casa de Tito Justo; conversão de Crispo, chefe da sinagoga; em visão, Jesus diz a Paulo para ficar ali: Gálio governador ro­mano, recusa-se a condenar a Paulo por haver pregado; Paulo permanece em Corinto por ano e meio.

Cencréia - Paulo rapa a cabeça.

Éfeso - Priscila e Áqüila acompanham a Paulo até este ponto, mas ficam em Éfeso.

Cesaréia

Jerusalém

Antioquia da Síria

I e II TESSALONICENSES
III. TERCEIRA VIAGEM MISSIONÁRIA

Antioquia da Síria

Galácia e Frígia (Derbe, Listra, Icônio e Antio­quia da Psídia).

Éfeso - discípulos de João Batista recebem o Es­pírito; Paulo prega na escola de Tirano; os sete filhos de Ceva (judeus incrédulos ten­tam o exorcismo em nome de Jesus; os convertidos queimam seus livros mágicos; Demóste­nes encabeça o levante dos ourives em defesa de Artemis (Diana); Paulo passa dois anos e três meses em Éfeso.

I CORÍNTIOS

II CORÍNTIOS

ROMANOS

Macedônia (Filipos, Tessalônica, Beréia).

Grécia ou Acaia (Atenas e Corinto) os judeus pla­nejam matar a Paulo em uma viagem à Palestina.

Macedônia

Trôade - Êutico cai da janela durante um sermão de Paulo.

Mileto - Paulo se despede dos anciãos de Éfeso.

Tiro - Paulo avisado a não ir a Jerusalém.

Cesaréia - Paulo se hospeda na casa de Filipe; Ágabo avisa a Paulo simbolicamente do que lhe sucederia em Jerusalém.

56 Jerusalém - Paulo presta relatório à igreja; en­volve-se num voto judaico para mostrar que não era contra a lei mosaica; é agarrado no templo; é livrado por soldados romanos; fala a judeus da escadaria do castelo; fala ao Sinédrio; os judeus planejam para matar a Paulo; Cláudio Lísias envia Paulo a Félix, em Cesaréia.

Paulo é julgado diante de Félix, Festo e Agripa, em Cesaréia, e então apela para César.


IV. VIAGEM A ROMA

Cesaréia

Creta - rejeitado o conselho de Paulo para não se encetar viagem por mar.

Tempestade no mar Mediterrâneo.

59 Malta (Melita) - naufrágio; Paulo sacode da mão uma víbora e não sofre maus efeitos

FILEMOM

COLOSSENSES ­

EFÉSIOS

FILIPENSES

Roma - Paulo aluga uma casa-prisão; prega a judeus e gentios; e por dois anos aguarda julgamento perante Nero.

61 Paulo é solto da prisão e faz mais algumas viagens.

I TIMÓTEO

TITO

II TIMÓTEO



64 Paulo novamente Preso. Martírio de Paulo.
Primeira viagem missionária de Paulo

O décimo terceiro capítulo de Atos dá início à narrativa dos extensos empreendimentos missionários de Paulo. Sendo escritor habilidoso, Lucas preparava os seus leitores para a descrição da propagação do evangelho, mediante a prédica de Estêvão aos judeus helenistas de Jerusalém, mediante a dispersão dos cristãos por causa de perseguição, com o resultado da expansão do testemunho cristão, mediante‑a evangelização de Samaria e a conversão do etíope eunuco, pelos labores de Filipe, mediante a prédica de Saulo (ou Paulo) em Damasco e aos helenistas de Jerusalém, mediante a missão de Pedro a Lida, Jope e Cesaréia, na última das quais ele foi o agente da conversão de uma família de gentios, e mediante a propagação do cristianismo até Antioquia da Síria. Além disso, Lucas já havia apresentado a Barnabé e Paulo como colegas, pois Barnabé havia apresentado a Paulo à Igreja de Jerusalém, e ambos tinham ministrado em Antioquia e tinham viajado juntos, levando víveres para aliviar a fome, enviados da Igreja de Antioquia à Igreja de Jerusalém. E, finalmente, o contraste estabelecido entre a morte de Herodes Agripa I, que se opunha ao cristianismo, e a bem sucedida propagação do evangelho, arma o palco para as viagens missionárias e evangelísticas de Paulo, as quais tiveram um caráter internacional.


Antioquia da Síria

Ler Atos 13 e 14, seguindo a viagem pelo mapa (pág. 251). Lucas atribui o envio de Barnabé e Saulo tanto à igreja de Antioquia quanto ao Espírito Santo, o qual impulsionara aquela igreja a enviá‑los. A imposição de mãos não serviu de consagração formal (Barnabé e Saulo tinham estado a pregar já desde muito tempo), mas foi indicação de que a igreja sustentava a missão deles.


Chipre: Elimas e Ségio Paulo

Foi apenas natural que Barnabé e Paulo se dirigissem, primeiramente, à ilha de Chipre, por tratar‑se da terra natal de Barnabé. Paulo tomou a iniciativa quando o mágico judeu Elimas (Bar‑Jesus) procurou influenciar o procônsul romano Sérgio Paulo, para que este se afastasse do evangelho (sem dúvida porque o mágico entendeu que seus serviços não mais seriam solicitados se Sérgio Paulo adotasse o cristianismo). É a partir desse ponto da narrativa que Lucas registra o nome de Paulo antes do de Barnabé. A única exceção a isso ocorre no contexto que envolve Jerusalém, em Atos 15:12, onde Lucas retrocede à ordem anterior, "Barnabé e Paulo", porque na mente dos cristãos de Jerusalém, Barnabé continuava sendo o cristão de mais experiência e pai espiritual de Paulo. Lucas aplica a Saulo o designativa "Paulo", pela primeira vez, em Atos 13:9. A sua missão entre os gentios tornou mais apropriado o seu nome grego do que o seu nome semita.


Perge

Em Perge da Panfília, João Marcos, primo de Barnabé e assessor tanto deste quanto de Paulo, resolveu não seguir avante. Não sabemos dizer por quê. As sugestões vão desde as saudades de casa até ao temor. Sem importar qual o seu motivo, Paulo reputou‑o inválido, mas Barnabé julgou‑o pelo menos desculpável.


O padrão paulino

Paulo adotou a estratégia de pregar nas principais cidades. Partindo desses epicentros, o evangelho reverberava por todas as aldeias e os interiores circunvizinhos. Paulo adotou, por igual modo, o padrão de pregar primeiro nas sinagogas judaicas (onde houvesse alguma), em qualquer localidade em que chegasse. Ele mantinha profundo interesse por seus compatriotas judeus. Na qualidade de povo do antigo pacto, cabia‑lhes o direito de ouvir o evangelho em primeiro lugar. E as sinagogas eram os melhores lugares para alguém encontrar uma audiência preparada, porquanto era costume das sinagogas convidar visitantes qualificados, como era o caso de Paulo, para que usassem da palavra. Outrossim, entre os ouvintes das sinagogas havia sempre um avantajado número de prosélitos e homens piedosos gentios, além dos próprios judeus. Na verdade, Paulo usualmente obtinha grande êxito entre esses gentios, porquanto o interesse deles pelo judaísmo os havia preparado para a sua mensagem. Em resultado, os judeus incrédulos consideravam Paulo um intrujão, que procurava seduzir os gentios a fim de que passassem do judaísmo para o cristianismo, oferecendo‑lhes a salvação sob condições mais suaves do que as da observância da lei de Moisés.


Antioquia da Psídia

O sermão de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia(Essa Antioquia. menor e menos importante que a da Síria, ficava perto das fronteiras da Psídia, embora não exatamente na Psídia.Todavia, tornou‑se conhecida como Antioquia da Psídia.) passou em revista a história de Israel, com o intuito de proclamar as boas novas de que a história e a profecia do Antigo Testamento tinham achado cumprimento em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo fazia soar a nota da justificação mediante a fé em Cristo, à parte da obediência meritória à legislação mosaica. Essa é uma das teses familiares de suas epístolas. E assim, quando os judeus daquela cidade retornaram à sua sinagoga, no sábado seguinte, encontraram multidões de gentios que ocupavam seus assentos e que aguardavam ansiosamente que Paulo lhes dirigisse outro sermão. Indignados, os judeus instigaram a perseguição, e Paulo e Barnabé partiram dali, após terem ministrado aos gentios às carreiras. Isso, por semelhante modo, também se tornou habitual: pregação nas sinagogas ‑ sucesso entre os prosélitos e homens piedosos entre os gentios ‑ hostilidades por parte dos judeus retirada da sinagoga ‑ posterior ministério bem sucedido entre os gentios ‑ perseguição ‑ fuga.
A questão legal

A perseguição quase sempre partia de fontes judaicas, e não romanas, pelo menos durante aquele período inicial. Pois o governo romano continuava reputando o cristianismo como um ramo lateral do judaísmo, e, portanto, como uma religio licita (religião legal). A norma política de Roma era conceder liberdade a todas as religiões existentes no império, mas interditar novas religiões, por temer agitações sociais, provocadas por essas invasões religiosas. Somente já em data posterior, quando os romanos perceberam que o cristianismo era distinto do judaísmo, é que interditaram o cristianismo como religio illicita.


Listra e retorno

Os habitantes de Listra confundiram Barnabé e Paulo com as divindades gregas Zeus e Hermes, respectivamente. Quando Paulo e Barnabé se recusaram a deixar‑se adorar, a reação adversa das multidões volúveis resultou no apedrejamento de Paulo, o qual por pouco escapou da morte. Na viagem de retorno de Derbe, passando por Listra, Icônio e Antioquia da Psídia, Paulo e Barnabé evitaram pregar publicamente (pois ainda bem recentemente haviam sido expulsos daquelas cidades), mas preocuparam‑se em fortalecer aos crentes e a organizar igrejas locais, mediante a eleição de anciãos encarregados das mesmas. Dessa forma, pois, as igrejas locais foram organizadas ao molde de sinagogas, cada uma das quais contava com uma "junta de anciãos". A caminho de volta através de Perge, Paulo e Barnabé pregaram ali, pois aparentemente tinham feito uma passagem por demais rápida por ali, da primeira vez.
A controvérsia judaizante

No relatório que apresentaram à igreja pátria de Antioquia da Síria, Paulo e Barnabé ressaltaram a bem sucedida evangelização dos gentios. Isso arma o palco para a disputa historiada no décimo quinto capítulo de Atos, sobre a situação dos crentes gentílicos. Até este ponto, Lucas vinha exibindo o desdobramento do plano divino de entregar o evangelho tanto a gentios quanto a judeus. O capítulo 15 de Atos mostra‑nos como o problema dos crentes gentios provocou a separação cristã do redil do judaísmo, como uma religião nova e separada, contra todos os esforços dos judaizantes. Os judaizantes eram cristãos judeus (e seus seguidores gentios) que ensinavam que os crentes gentios precisavam ser circuncidados e precisavam prometer observar a lei mosaica, ou seja, era mister que entrassem na Igreja do mesmo modo que os gentios prosélitos eram acolhidos no judaísmo. Paulo e Barnabé discordavam disso. E a igreja de Antioquia entregou o problema à apreciação da igreja de Jerusalém. Ler Atos 15:1.‑35.



O concílio de Jerusalém

Com o apoio outorgado pelos líderes Pedro e Tiago, meio‑irmão de Jesus, o parecer da influente igreja mãe de Jerusalém favorecia a idéia da isenção dos crentes gentios quanto aos preceitos da lei mosaica, apesar de exortá-los a evitar as práticas que ofenderiam desnecessariamente aos judeus: a ingestão de carne que fora dedicada a algum ídolo, antes de ser posta à venda; o consumo de carne de animais mortos por sufocação; o comer carne que ainda contivesse o sangue do animal morto; e, finalmente, a "fornicação", ou seja, a imoralidade de modo geral, embora talvez encontramos aqui um termo técnico que indicava o incesto (casamento com parentes mais próximos do que aqueles permitidos no décimo oitavo capítulo de Levítico). A igreja de Jerusalém enviou a dois dentre seu próprio número, Judas (Barsabás) e Silas, em companhia de Paulo e Barnabé, a fim de confirmarem, na presença dos cristãos de Antioquia da Síria, que Paulo e Barnabé não estavam apresentando um relatório falso, que favorecesse a sua posição. Quanto à natureza crucial da controvérsia judaizante, vide ainda a discussão a respeito, na epístola aos Gálatas, às págs. 285 s.


Segunda viagem missionária de Paulo

Ler Atos 15:36 ‑ 18.22, seguindo os movimentos constantes no mapa (pág. 229). A despeito do fato que Paulo se recusou a levar novamente a João Marcos em sua companhia, e apesar da separação resultante entre Paulo e Barnabé, mais tarde Marcos figura como um dos companheiros de Paulo, em Roma (Colossenses 4:10 e Filemom 24), tendo merecido um comentário favorável da parte de Paulo (vide II Timóteo 4:11).


Silas

Silas, o companheiro selecionado por Paulo, era proveniente da igreja de Jerusalém. Era vantajoso para Paulo contar com alguém vindo dali, o qual pudesse refutar os judaizantes ao afirmarem‑se representantes da igreja mãe. No relato acerca do encarceramento de Paulo e Silas, em Filipos, chega‑se a ter a impressão de que Silas também era cidadão romano.


Timóteo

Em Listra, Paulo passou a contar com um outro companheiro, Timóteo. Aos olhos dos gentios, Timóteo era judeu porque sua mãe o criara no judaísmo. Aos olhos dos judeus, o fato que Timóteo era o filho incircunciso de um pai gentio, fazia dele um gentio. A fim de regularizar a situação de Timóteo e para evitar escândalo desnecessário para os judeus, aos quais desejava evangelizar, Paulo ordenou a circuncisão de Timóteo. Porém, a fim de evitar a impressão resultante de que o apóstolo estava recuando, diante da controvérsia judaizante, Lucas apressa‑se a ressaltar que Paulo ia entregando a decisão anti‑judaizante, ditada pelo concílio de Jerusalém, por todas as igrejas cristãs por onde passava.


O homem da Macedônia

Alguns estudiosos têm identificado o homem da Macedônia, da visão de Paulo, com Lucas. Mas isso é improvável, pois Lucas usa a primeira pessoa do plural, "nós", ao narrar a partida de Trôade para a Macedônia; não obstante, o homem da Macedônia clamara do outro lado do estreito de Dardanelos, "Passa à Macedônia. . ."


Filipos

Filipos era uma cidade pertencente ao primeiro dos quatro distritos administrativos da Macedônia. Antônio e Otávio (mais tarde intitulado Augusto) fizeram fixar resisdência em Filipos um

certo número de veteranos do exército romano, transformando a cidade em colônia romana, após a vitória que obtiveram, em 42 A. C., sobre Bruto e Cássio, assassinos de Júlio César. Otávio estabeleceu maior número ainda de colonos, em Filipos, depois de haver derrotado a Antônio e Cleópatra, em Ácio (31 a.C..) Os judeus da cidade dispunham apenas de um lugar de oração à beira do rio, evidentemente porque o seu número exíguo não provia os necessários dez homens adultos para que fosse estabelecida uma sinagoga. (Alternativamente, “lugar de oração” é expressão sinônima de “sinagoga”)

Em Filipos, a acusação assacada pelos proprietários da jovem escrava pitonisa escorou‑se em preconceitos anti‑semitas, ao ressaltar que Paulo e Silas eram judeus e ao asseverar, mentirosamente, que advogavam práticas contrárias às leis e aos costumes dos romanos. Dessa forma, foram lançados no cárcere.


O carcereiro

O carcereiro tinha a responsabilidade de apresentar seus prisioneiros em qualquer ocasião, sob pena de morte. E essa foi a razão de seu quase suicídio, ao imaginar que os prisioneiros teriam fugido, em resultado do terremoto. Provavelmente, os supersticiosos prisioneiros ficaram assustados diante dos cânticos estranhamente jubilosos de Paulo e Silas, no cárcere, aos quais se seguiu o terremoto; e assim puderam ser facilmente persuadidos por Paulo e Silas de que não deveriam escapar. Era algo perfeitamente legítimo para o carcereiro o entreter a Paulo e Silas em sua própria casa, contanto que os apresentasse, se fosse solicitado a fazê‑lo. O batismo dos familiares do carcereiro levanta a possibilidade de ter havido batismo de infantes naquela ocasião. Mas, contrariamente à suposição, temos o argumento de que a crença em Cristo foi requerida, da parte dos membros da família, antes de receberem o batismo.

Visto que uma das chamadas seção"nós" termina quando se chega ao final da narrativa sobre os acontecimentos em Filipos, mas é ela reiniciada no ponto em que se narra o retorno de Paulo a Filipos, em data posterior, conclui‑se que Lucas deve ter permanecido em Filipos, talvez como pastor ou evangelista.
Tessalônica, Beréia, Atenas

Os judeus incrédulos de Tessalônica se mostraram especialmente hostis. Não somente expulsaram a Paulo da cidade, mas igualmente viajaram até Beréia, a fim de repetir os seus atos. Em Atenas, aqueles que ouviram os sermões de Paulo chegaram a pensar que Jesus e "ressurreição" fossem duas divindades com as quais não estavam familiarizados. (Talvez tenham confundido o nome Jesus com a palavra grega parecida que significa "cura", tendo assim entendido que Paulo se referia aos deuses da cura e da ressurreição.) Paulo foi forçado a expor a sua doutrina defronte do Areópago, o conselho da cidade de Atenas, que licenciava mestres. Durante aquele período da história, esse conselho se reunia na colina de Marte somente em casos de homicídio, pelo que o título que aparece em algumas versões, "Sermão de Paulo na Colina de Marte", provavelmente é uma designação incorreta. Alguns atenienses zombaram da idéia de ressurreição dentre os mortos. A mais reluzente esperança dos gregos era a imortalidade da alma, mas mesmo quanto a isso se mostravam em grande parte céticos. É duvidoso que eles se inclinassem por crer na ressurreição do corpo, porquanto para eles o corpo serviria de entrave para a alma. (Vide J. B. Skemp, The Greeks and the Gospel (Londres: Carey Kingsgate, 1964), págs. 78‑89, quanto a um bem eqüilibrado estudo sobre conceitos gregos.) No entanto, segundo os conceitos bíblicos, Deus criou assim o corpo como a alma. Esses dois se completam ‑ o que explica o caráter sagrado do corpo e sua ressurreição por vir.




Corinto; Priscila e Áqüila

Corinto era uma cidade portuária famosa por sua devassidão. "Agir como um coríntio" era o mesmo que praticar imoralidades. "Moça de Corinto" equivalia a "meretriz". Contando com poucos recursos financeiros quando chegou em Corinto, Paulo pôs‑se a fabricar tendas, em sociedade com colegas judeus, Áqüila e Priscila. Visto que Lucas não menciona a conversão deles, sem dúvida já eram cristãos quando conheceram a Paulo. Em cerca de 49 ou 50 D. C., o imperador Cláudio expulsara a eles e outros judeus da cidade de Roma, devido a agitações havidas na colônia judaica dali, devido a "Chrestus", o que sem dúvida foram querelas entre judeus, por motivo da prédica cristã sobre "Christus" (forma latina de Cristo, mas mal soletrada como "Chrestus"). (Suetônio, Cláudio xxv.4, citado em C. K. Barrett, The New Testament Background, Págs 14,15. Suetônio parecia pensar que o próprio Cresto teria instigado o levante. Porém, tendo escrito setenta anos depois dos acontecimentos, provavelmente ele confundiu a pregação sobre Cristo com a pregação (ou as arruaças) feita por Cristo. Chrestus (no latim) e Chrêstos (no grego) era nome muito comum dado a escravos, pois tinha o sentido de "útil" pelo que é fácil compreendermos a má soletração, em lugar de Christus.)


Gálio

Em Corinto, a decisão de Gálio que permitiu a evangelização cristã se revestiu de tremenda importância. Decisões adversas, baixadas por magistrados civis, só tinham legalidade nas cidades onde fossem decretadas. E uma decisão adversa, da parte do governador de uma província, como Gálio, teria proibido o testemunho cristão por toda uma província, e, pior ainda, teria estabelecido um precedente que poderia ser seguido por outros governadores da província por todo o império romano. Os judeus tentaram persuadir a Gálio que o cristianismo era contrário ao judaísmo, e, por isso mesmo, que era uma religião nova, e, por conseguinte, ilegal. Sem embargo, Gálio recusou‑se a tratar da questão, como caso típico de disputa intestina do judaísmo. E quando os judeus iam deixando o tribunal, o grupo de gentios circunstantes tirou vantagem do pouco caso feito por Gálio aos judeus, espancando o chefe da sinagoga, Sóstenes, em uma demonstração anti‑semita. (Outros pensam que os judeus espancaram seu próprio líder, por não ter sido bastante vigoroso na acusação contra Paulo. Mas essa opinião é duvidosa.) Gálio com nada disso se importou. De acordo com uma inscrição latina, encontrada em Delfos, na Grécia, o período em que Gálio serviu como procônsul foi mais ou menos de 51 a 53 D. C. Paulo rapou a cabeça em Cencréia, pouco antes de sua viagem de volta, a fim de assinalar o fim de um voto de nazireado que, ao que parece, ele impusera a si mesmo em Corinto. Vide Números 6:1‑21.


Terceira viagem missionária de Paulo

Ler Atos 18:23 ‑ 19:41, seguindo os movimentos no mapa (pág. 252). O circuito da terceira viagem missionária de Paulo começou, uma vez mais em Antioquia da Síria. Exatamente como fizera durante a segunda viagem missionária, Paulo revisitou, antes de mais nada, a Galácia e a Frígia, regiões onde estavam localizadas cidades como Derbe, Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia.


Apolo

A fim de preparar os leitores para o relato do ministério de Paulo em Éfeso, Lucas insere um parágrafo a respeito da pregação de Apolo em Éfeso (vide Atos 18:24‑28). Esse eloqüente judeu alexandrino pregava a Jesus, mas conhecia apenas o batismo de João Batista, o batismo condicionado ao arrependimento. Noutras palavras, Apolo não batizava os seus convertidos em nome de Jesus. E depois que Priscila e Áqüila informaram‑no melhor sobre a doutrina e a prática cristã, Apolo se dirigiu para Acaia (Grécia).



Éfeso

Finalmente, Paulo conseguiu cumprir seu antigo desejo de evangelizar a importante cidade de Éfeso. Ali ele conheceu alguns discípulos que, à semelhança de Apolo, conheciam apenas o batismo de João. Provavelmente eram convertidos de Apolo. E aqueles discípulos também não sabiam que Deus vinha outorgando o Espírito Santo a todos os crentes, desde o dia de Pentecoste. Tendo esclarecido mais detalhadamente o evangelho, Paulo rebatizou aqueles discípulos. Por Sua vez, Deus outorgou a eles o Espírito Santo, evidenciado pelo falar em línguas. É digno de nota que as quatro ocasiões, no livro de Atos, em que o Espírito Santo foi concedido de maneira espetacular, isso teve a ver com a entrada de diferentes grupos na Igreja: os crentes judeus originais (capítulo 2), os samaritanos (capítulo 8), os gentios (capítulo 10) e os discípulos parcialmente instruídos de Êfeso (capítulo dezenove). E Deus indicou a Sua aprovação a cada um desses grupos mediante manifestação especial do Seu Espírito.

De conformidade com uma antiga tradição, Paulo se utilizava da escola de Tirano das onze horas da manhã às quatro horas da tarde. Talvez Paulo gastasse suas manhãs fabricando tendas, e as suas tardes ensinando pessoas suficientemente interessadas no evangelho para se olvidarem de seu período de sesta do meio‑dia.

O exorcista judeu Ceva era "sumo sacerdote" (19:14) somente por sua própria aclamação. Os judeus eram altamente considerados como exorcistas, porque se pensava que somente eles eram capazes de pronunciar corretamente o potente nome de Yahweh, e o sucesso na expulsão de demônios supostamente dependia em larga escala da correta pronúncia da fórmula apropriada. Os sete filhos de Ceva, aprendizes da arte do exorcismo, procuraram usar o nome de "Jesus", mas descobriram que os resultados eram um tanto desconcertantes, pois o autêntico exorcismo cristão não depende da recitação de nomes mágicos. E quando os convertidos de Éfeso lançaram no fogo os seus compêndios de mágicas, eles divulgaram as fórmulas mágicas. Tais fórmulas tornaram‑se então inúteis para os pagãos, pois estes acreditavam que o segredo também era necessário para a eficácia dos encantamentos mágicos. (Comparar com o Papiro Mágico de Paris, citado em C. K. Barrett, The New Testament Background, págs. 31‑35.)


Agitação popular

Na narrativa acerca de Demétrio e os ourives, Diana era uma deusa local da fertilidade, que fora identificada com a divindade grega Artemis (nossa versão portuguesa dá o nome romano: Diana). Sua imagem, no templo de Éfeso, aparentemente era um meteorito que os efésios imaginavam assemelhar‑se a uma mulher com muitos seios. O próprio templo, uma das sete maravilhas do mundo antigo, tinha uma área de quase três mil metros quadrados. Quando a turbamulta encheu o anfiteatro, que acomodava cerca de vinte e cinco mil pessoas, os judeus não‑cristãos temeram que haveriam de sofrer, devido à associação com os cristãos, porquanto os judeus também pregavam contra a idolatria. Assim sendo, instigaram um homem de nome Alexandre para que esclarecesse à multidão que os judeus nada tinham a ver com os cristãos. Mas a voz de Alexandre não era páreo para o rugido da turba. Somente quando o escrivão da cidade os acalmou, advertindo que a perturbação civil poderia provocar a perda das liberdades cívicas é que a assembléia raivosa se dispersou.



Viagem a Jerusalém

Ler Atos 20:1‑21:16 em conjunção como mapa (vide pág. 252). Após dois anos e três meses em Éfeso, Paulo viajou para a Macedônia e a Acaia, ao mesmo tempo que recolhia a oferta para a igreja de Jerusalém, ao passo que avançava. Tencionava ele ir a Roma, após fazer a entrega da oferta em Jerusalém. Foi efetivamente a Roma, mas sob circunstâncias bem diferentes daquelas que havia concebido; pois chegou ali em cadeias, como um prisioneiro. Entrementes, aparentemente ele planejava embarcar em um navio de peregrinos judeus, da Grécia à Palestina, para participar da festa da Páscoa, que se aproximava. Os judeus, entretanto, conspiraram por livrar‑se dele durante a viagem. Alterando seus planos, ele voltou a cruzar a Macedônia. A caminho pela costa ocidental da Ásia Menor, na direção sul, ele se despediu dos anciãos de Éfeso, que vieram encontrar‑se com ele em Mileto. Ao mesmo tempo que prosseguia a sua jornada na direção de Jerusalém, repetidas advertências foram sendo dadas, de que ele seria detido e perseguido ali. É motivo de debates se essas advertências tinham o intuito divino de impedi‑lo de ir a Jerusalém, se ele estava laborando em erro, ao insistir na viagem, e se a sua participação em sacrifícios judaicos, após sua chegada em Jerusalém, seria coerente com a sua teologia.


Detenção de Paulo em Jerusalém

De acordo com os rumores, Paulo não somente ensinara aos gentios cristãos que não eram obrigados a observar a lei do Antigo Testamento; também encorajara aos crentes judeus a não circuncidarem a seus filhos e nem guardarem a lei. Quando da chegada de Paulo a Jerusalém, quatro cristãos judeus haviam contraído impureza cerimonial, durante o período de um voto temporário de nazireado, e agora passavam por um período de sete dias de purificação (vide Números 6:9‑11). De conformidade com a lei mosaica, aqueles homens deveriam rapar a cabeça ao sétimo dia e deveriam trazer ofertas ao oitavo dia, antes de poderem dar reinício a seu voto de nazireado. Visto que a semana de purificação estava prestes a completar‑se, os anciãos da igreja de Jerusalém sugeriram a Paulo que se unisse àqueles homens na observância dos ritos de purificação e que pagasse as despesas das ofertas deles, a fim de demonstrar que não era contra a lei mosaica como tal. E Paulo concordou.

Certos judeus vindos da Ásia Menor, no entanto, já tinham visto que, em companhia de Paulo, em Jerusalém, havia um colega gentio de nome Trófimo, um efésio. Equivocadamente, pensaram que Paulo teria feito seu companheiro gentio penetrar nos átrios do templo onde só judeus tinham permissão de tanto. Aos gentios era proibido entrar nos átrios mais interiores do templo, sob pena de morte, mesmo no caso de cidadãos romanos. Os clamores daqueles judeus provocaram grande agitação, e os soldados do tribuno romano Cláudio Lísias tiveram de vir socorrer a Paulo. A fortaleza de Antônia, para onde Paulo foi conduzido, ficava a noroeste do recinto fechado do templo. A cidadela era guarnecida por soldados romanos, e um duplo lance de escadas ligava a mesma com o átrio mais exterior do templo. Ler Atos 21:17 ‑ 23:35.

Três anos antes desse incidente, um judeu egípcio apareceu em Jerusalém, declarando‑se profeta. Ele conduziu um numeroso grupo de pessoas até ao monte das Oliveiras e determinou que esperassem até que as muralhas de Jerusalém desabassem por ordem sua. Em seguida, entrariam marchando na cidade e desbaratariam a guarnição militar romana. Mas o governador Félix enviou tropas, matou a diversos judeus e encarcerou a outros. Não obstante, o judeu egípcio conseguiu escapar. A princípio, Cláudio Lísias pensou que Paulo pudesse ser o mesmo impostor, contra quem os judeus agora procuravam tirar vingança, por havê‑los iludido.

Em sua defesa perante o populacho judaico, Paulo salientou quão bom judeu ele era e quão devoto judeu era Ananias, o cristão que o ajudara em Damasco. Também ressaltou a miraculosa visão de Cristo, por ele recebida na estrada de Damasco. Os judeus continuaram a ouvi‑lo até que ele disse que Deus lhe ordenara ir pregar aos gentios. Incapazes de tolerar o pró‑gentilismo, os judeus clamaram exigindo o sangue de Paulo, tal e qual haviam exigido a morte de Jesus.
Jornada a Cesaréia

A fim de determinar a razão do levante, Cláudio Lísias conduziu Paulo à presença do Sinédrio; mas a sessão terminou em confusão. Quando o jovem sobrinho de Paulo ouviu falar que uma emboscada cujo intuito era assassinar a Paulo, quando estivesse este sendo retirado de lugar para lugar, dentro da cidade, foi informar a Cláudio Lísias. Imediatamente o tribuno enviou Paulo para Cesária, sob a cobertura da noite, escoltado por um numeroso contingente de soldados, encarregados de protegê‑lo. De conformidade com a carta que escreveu ao governador Félix, que se achava em Cesaréia, Cláudio Lísias teria socorrido a Paulo ao descobrir ser ele um cidadão romano. Na verdade, ele só descobrira a cidadania romana de Paulo quando o apóstolo estava prestes a ser açoitado,( Os açoites eram aplicados com o flagellum (latim), tiras de couro ligadas a um cabo de madeira e dotadas de pedacinhos de osso e metal cortantes. As vítimas quase sempre morriam sob o castigo.) e isso com o propósito de extrair dele alguma informação, o que era um procedimento ilegal contra um cidadão romano não‑condenado.


Cidadania romana

O diálogo que houve entre Paulo e Cláudio Lísias (vide 22:2729) revela que Paulo era cidadão romano por nascimento, e que Cláudio Lísias havia adquirido a dinheiro a sua própria cidadania, "me custou grande soma de dinheiro", o que pode ter sido um suborno. A cidadania de Paulo por direito de nascimento era superior em ordem de escala. Os nomes dos cidadãos estavam registrados em Roma e nos locais de suas residências respectivas. Os cidadãos propriamente dito possuíam certificados de cera, de madeira ou de metal, com os nomes de testemunhas do fato. A execução era a penalidade imposta por falsa reivindicação de cidadania. Se um cidadão não levava consigo o seu certificado, ou se este fosse suspeito de contrafação, as autoridades podiam então pedir que ele apresentasse as suas testemunhas. Quiçá essa tenha sido uma das razões por que Paulo, que viajava constantemente e até lugares distantes, não apelou com maior freqüência para a sua cidadania romana. (Vide ainda H. J. Cadbury, The Book of Acts in History (Nova Iorque: Harper, 1955), págs. 67 ss.; A. N. Sherwin‑White, Roman Society and Roman Law in the New Testament (Oxford; Clarendon, 1963), págs. 144‑171.)


Perante Félix

Um homem de nome Tértulo atuou como promotor, em favor dos judeus, ao assacar acusações contra Paulo, em Cesaréia. As suas palavras lisonjeiras para com o governador Félix e a promessa de que seria breve, fizeram parte da forma tradicional de iniciar discursos. A acusação feita contra Paulo é que ele vivia perturbando a paz. A perturbação da paz era um crime elasticamente definido, que os imperadores tirânicos costumavam usar como arma de terrorismo político. Quase qualquer coisa podia ser colocado dentro dessa categoria. Em sua réplica, Paulo asseverou que em parte alguma fizera agitação entre o povo. De fato, ele viera a Jerusalém não no espírito de contenção, mas trouxera uma oferta para ajudar a judeus residentes em Jerusalém. E observou enfaticamente que os judeus da Ásia Menor, que tinham provocado a bulha e que o haviam acusado originalmente, não tinham comparecido em tribunal para depor contra ele.

Em seguida, Paulo argumentou que o cristianismo não era antagônico ao judaísmo, e, sim, um cumprimento de princípios mais profundos do judaismo. E perante o Sinédrio, em Jerusalém, o seu único "crime", do qual possivelmente poderia ser acusado, fora a sua declaração de fé na ressurreição. Até a facção farisaica do Sinédrio tinha dado apoio à posição paulina, embora, naturalmente, não acreditassem na ressurreição de Jesus, conforme Paulo cria. Em todas as suas apologias, registradas na porção final do livro de Atos, Paulo pôs em destaque a ressurreição como um elemento crucial da fé cristã e como terreno comum entre o cristianismo e o judaísmo ortodoxo (apesar do fato que os saduceus negavam essa doutrina). Vide Atos 24:15 e 26:8,22,23. Adiando uma decisão imediata a respeito de Paulo, Félix conservou‑o sob custódia mas ouviu‑o novamente, em particular, em companhia de Drusila. Ler Atos 24.
Perante Félix e Drusila

Drusila era uma jovem noiva que nem chegara ainda aos vinte anos de idade. Quando ainda bem criança, fora prometida em casamento a um príncipe da Ásia Menor, presuntivo ao trono daquele país; mas o casamento não tivera lugar porque o tal príncipe se recusara a adotar o judaísmo. Posteriormente, Drusila contraiu matrimônio com um rei vassalo de certo estado sírio. Quando ela tinha dezesseis anos de idade, entretanto, Félix, com a ajuda de um mágico de Chipre, conseguiu conquistá‑la e afastá‑la de seu marido, para tornar‑se a sua terceira esposa. É perfeitamente compreensível, pois, que quando Paulo pôs‑se a raciocinar, com Félix e Drusila, a respeito da justiça, do auto‑controle e do julgamento futuro, Félix, que havia esperado uma discussão meramente abstrata sobre o cristianismo, julgou que o sermão era desconfortavelmente incisivo e pessoal. Deixou Paulo ir‑se da presença deles, mas manteve Paulo sob custódia, na esperança de que Paulo oferecer‑lhe‑ia suborno, a fim de ser libertado. Todavia, a esperança de receber peitas da parte de Paulo não foi o único fator que impediu Félix de soltar ao apóstolo, apesar de estar convencido da inocência de Paulo. O fato que já ofendera aos judeus por certo número de vezes, e certas modificações administrativas no governo central de Roma, fizera a posição política de Félix, como governador, ser bastante precária. Não ousava ofender novamente aos judeus, dando liberdade a Paulo.


Perante Festo

Um indivíduo de nome Festo, sucedeu a Félix na governança da província. Seu primeiro ato foi subir a Jerusalém a fim de travar conhecimento com os principais judeus, os membros do Sinédrio. Imediatamente eles renovaram as suas acusações contra Paulo, perante o novo governador; e solicitaram‑lhe que transferisse Paulo para Jerusalém, a fim de ali ser levado a tribunal. Talvez estivessem planejando assassinar a Paulo no caminho, tal como já haviam conspirado antes. Mas, visto que Festo não tencionava permanecer por muito tempo em Jerusalém, sugeriu ele aos judeus que enviassem uma delegação de acusadores a Cesaréia. Mas Festo pouco se importava se esse julgamento teria lugar em Cesaréia ou em Jerusalém, porque o que lhe interessava era estabelecer relações amigáveis com os judeus. Ao retornar a Cesaréia, por conseguinte, sugeriu a Paulo que aceitasse ser julgado em Jerusalém.

Paulo, entretanto, talvez temesse ser assassinado no caminho. Ou talvez tivesse percebido que o Sinédrio convenceria a Festo, um novato em questões judaicas, de que eles é que deveriam ter jurisdição sobre Paulo. E poderiam respaldar à sua reivindicação argumentando que Paulo supostamente teria cometido sacrilégio contra o templo, o tipo de crime por causa do qual os romanos com freqüência cediam jurisdição aos judeus. E com facilidade o apóstolo poderia calcular o veredito, caso Festo o entregasse aos judeus para ser julgado. Qualquer que tenha sido o seu raciocínio, o fato é que Paulo exerceu o direito que tinha, na qualidade de cidadão romano, de apelar para César, em Roma, o tribunal superior. Ler Atos 25 e 26.
Perante Festo e Herodes Agripa II

Herodes Agripa II era bisneto de Herodes o Grande e irmão de Drusila (esposa do ex‑governador Félix), além de ser o rei de pequena região próxima do Líbano. Sua irmã mais jovem, Berenice, vivia com ele em Cesaréia de Filipe durante esse tempo. E quando Agripa veio fazer a Festo uma visita oficial de boas vindas, em honra à sua nova governança, Festo decidiu tirar vantagem da situação, fazendo Agripa, conhecedor que era das questões judaicas, ouvir a Paulo e ajudar a ele mesmo a preparar uma lista de acusações contra o apóstolo. E Festo haveria de enviar tal lista, juntamente com Paulo, quando este tivesse de comparecer perante César.

A fim de provar a realidade de sua visão transformadora, na estrada de Damasco, Paulo frisou o papel que desempenhara na sua perseguição contra os cristãos. Mas também sublinhou o fato que anteriormente fora um fariseu e que então já cria na ressurreição. Agora estava sendo ridiculamente acusado de crer e de pregar o cumprimento, em Jesus Cristo, da doutrina mesma na qual sempre crera como fariseu. E dentre todos os povos, eram exatamente os judeus, com a única exceção dos saduceus, que também acreditavam na ressurreição. Mas Festo, o juiz hospedeiro, interrompeu a defesa de Paulo com a acusação que ele perdera o juízo através do excessivo estudo. Paulo entretanto, apelou para Agripa, o juiz convidado, observando que as questões relativas aos judeus eram de conhecimento geral e indagando de Agripa se ele acreditava ou não nas profecias messiânicas.

O apelo de Paulo deixou Agripa embaraçado. Dificilmente ele poderia afirmar que concordava com Paulo, depois que seu hospedeiro, Festo, acabara de acusar o apóstolo de insanidade mental. Mas também não podia asseverar que não acreditava nos profetas, sem danificar sua reputação de ortodoxia entre os judeus. Astutamente, pois, ele indicou que uma maior persuasão que aquela seria necessária para fazer dele um cristão. O propósito de Lucas, ao relatar esse episódio, foi o de demonstrar que a opinião de Agripa, perito como era sobre as questões judaicas, concordava com as opiniões de Félix e de Festo, no sentido que Paulo não era culpado de qualquer crime real.


Viagem tempestuosa de Paulo a Roma

Ler Atos 27 e 28, seguindo a viagem de Paulo, desde Cesaréia até Roma, no mapa (pág.253). O recolhimento do bote, durante a tempestade (vide 27:15‑17) alude ao fato que um pequeno bote, que em bom tempo era rebocado atrás da embarcação maior, fora recolhido a bordo. Os marinheiros passaram cabos por baixo e em volta do navio, amarrando‑os bem apertados, para impedir que as tábuas se desconjuntassem devido à inclinação do mastro. A referência ao arriar dos aparelhos provavelmente indica que retiraram as velas mais altas, as quais eram empregadas somente durante bom tempo. Mas as velas que podiam ser usadas em ocasiões tempestuosas continuaram enfunadas. Em seguida foi alijada a carga, e, finalmente, foram lançados ao mar todos os aparelhos restantes do navio. Durante todos os onze cansativos dias e noites, sem dúvida o navio ia fazendo água perigosamente. A única esperança é que viessem a dar em alguma praia, mas os marinheiros não sabiam em que direção deveriam dirigir o barco. As nuvens tempestuosas haviam encoberto o sol e as estrelas, e, naquela época não se tinha ainda inventado a bússola. O desespero se apossou daqueles que estavam a bordo. O enjôo do mar impedia‑os de se alimentarem. Mas no fim, o propósito divino a respeito de Paulo resultou na segurança de todos.


Em Roma

Perante os líderes judeus de Roma, Paulo deixou bem claro que ele estava ali em pura auto‑defesa. Não era intensão sua acusar a nação judaica e nem os seus líderes. Os judeus de Roma negaram ter qualquer conhecimento de Paulo ou ter algum conhecimento direto do movimento cristão, apesar de admitirem que tinham ouvido relatos negativos a respeito da reputação desse movimento. O mais provável, entretanto, é que notícias atinentes a Paulo já tivessem chegado até aos judeus de Roma. E não se pode duvidar que estes já tivessem entrado em contato com cristãos de Roma, porque a igreja cristã dali já se achava fortemente estabelecida. Ao que parece, os representantes da comunidade judaica não‑cristã de Roma estavam fingindo ignorância. Algum tempo depois, em dia adredemente marcado, um grande número de judeus veio ouvir Paulo explicar‑lhes o evangelho. Alguns lhe deram crédito, mas a maioria o repeliu. Como já era de hábito, Paulo voltou sua atenção para a evangelização dos gentios.

A demora de pelo menos dois anos, para que Paulo fosse julgado, pode ter‑se devido a um ou mais dentre diversos fatores: (1) a necessidade de seus acusadores virem desde a Palestina; (2)


a destruição, durante o naufrágio, da documentação que fora preparada por Festo a respeito das acusações feitas contra Paulo, com a conseqüente necessidade de serem enviadas duplicatas desde Cesaréia; e (3) o atraso em que se encontrava a agenda forense de Nero, por causa do enorme número de casos que ele precisava julgar.

Durante esse período de adiamento, Paulo desfrutou de considerável liberdade como prisioneiro. Embora constantemente agrilhoado a um soldado romano e confinado à casa que alugara, Paulo podia receber visitante e qualquer outra espécie de atenção proveniente de seus amigos. A razão para essa lassidão é que ele era cidadão romano contra quem nenhuma acusação fora ainda comprovada. E Paulo aproveitava sua semi‑liberdade para pregar. Lucas queria que os seus leitores notassem o fato que mesmo em Roma, a capital do império, o evangelho não fora proibido como religião ilegal. Dessa maneira, portanto, Lucas traçou a marcha triunfal do evangelho, de Jerusalém a Roma.


ESBOÇO SUMÁRIO DE ATOS
Tema: o irresistível avanço do evangelho de Jerusalém a Roma
I. ATOS DO ESPÍRITO DE CRISTO EM JERUSALÉM E CERCANIA (1:1 12:25)

A. Em Jerusalém (1:1 ‑ 8:3)

1. Ministério pós‑ressurreição e ascensão de Jesus (1:1‑11)

2. Substituição de Judas Iscariotes por Matias (1:12‑26)

3. O dia de Pentecoste: o derramamento do Espírito Santo, o falar em línguas, o sermão de Pedro, as conversões em massa e o companheirismo cristão (2:1‑47)

4. A cura do aleijado e o sermão de Pedro (3:1‑26)

5. Aprisionamento e soltura de Pedro e João (4:1‑31)

6. Comunhão de bens na igreja de Jerusalém e a morte de Ananias e Safira (4:32 ‑ 5:11)

7. Milagres, conversões e aprisionamento e soltura dos apóstolos (5:12‑42)

8. A disputa por causa de rações e a escolha dos sete "diáconos" (6:1‑7)

9. Sermão e martírio de Estêvão, e a perseguição geral que se seguiu (6:8 8:3)

B. Em redor de Jerusalém (principalmente) (8:4 ‑ 12:25)

1. Evangelização de Samaria por Filipe, os samaritanos recebem o Espírito, e o relato sobre Simão, o mágico (8:4‑25)

2. Conversão do etíope eunuco, sob Filipe (8:26‑40)

3. A conversão de Saulo‑Paulo, sua pregação e fuga de Damasco, seu retorno a Jerusalém e fuga para Tarso (9:1‑31)

4. Pedro cura a Enéias e ressuscita a Tabita (9:32‑43)

5. Salvação de Cornélio e sua família gentílica, incluindo a visão de Pedro sobre um lençol e o seu sermão sobre o recebimento do Espírito pelos gentios (10:1 ‑ I 1:18)

6. Propagação do evangelho até Antioquia da Síria (11:19‑26)

7. Barnabé e Saulo‑Paulo trazem víveres de Antioquia a Jerusalém, para aliviar a fome (11:27‑30)

8. Herodes Agripa I executa a Tiago, o apóstolo, e encarcera a Pedro; a miraculosa libertação deste e a morte de Herodes (12:1‑25)



II. ATOS DO ESPIRITO DE CRISTO, MEDIANTE PAULO, EM LUGARES DISTANTES (13:1 ‑ 28:31)

A. Primeira viagem missionária (13:1 ‑ 14:28)

1. Partida de Antioquia da Síria (13:1‑3)

2. Chipre: Elimas e sua cegueira temporária e a conversão de Sérgio Paulo (13:4‑12)

3. Perge: João Marcos retorna (13:13)

4. Antioquia da Pisídia: sermão de Paulo na sinagoga (13:14‑52)

5. Icônio, Listra e Derbe: cura de um aleijado, Barnabé e Paulo são adorados como Zeus e Hermes, e apedrejamento de Paulo, em Listra (14:1‑18)

6. Regresso a Antioquia da Síria, com pregação em Perge (14:19‑28)

B. A controvérsia judaizante (15:1‑35)

1. Debates em Antioquia da Síria (15:1,2)

2. O concílio de Jerusalém: a decisão em prol da liberdade gentílica da lei mosaica (15:3‑35)

C. Segunda viagem missionária (15:36 ‑ 18:21)

1. Disputa com Barnabé por causa de João Marcos e a partida de Antioquia da Síria em companhia de Silas (15:36‑41)

2. Jornada pelo sul da Galácia: a escolha de Timóteo (16:1‑5)

3. Trôade: a visão do homem da Macedônia (16:5‑10)

4. Filipos: conversão de Lídia, libertação da jovem escrava pitonisa, o encarceramento de Paulo e Silas, o terremoto e a conversão do carcereiro e sua família (16:11‑40)

5. Tessalônica: os judeus atacam a casa de Jasom, hospedeiro de Paulo (17:19)

6. Beréia: averiguação da mensagem de Paulo, mediante o Antigo Testamento (17:10‑15)

7. Atenas: sermão de Paulo diante do Areópago; mais comumente, colina de Marte (17:16‑34)

8. Corinto: Paulo fabrica tendas com Áqüila e Priscila, decisão favorável do governador romano, Gálio, e o sucesso geral do evangelho (18:1‑17)

9. Regresso a Antioquia da Síria através de Cencréia (18:18‑21)

D. Terceira viagem missionária (18:22 ‑ 21:26)

1. Jornada pela Galácia e Frigia (18:22,23

2. Ministério preparatório de Apolo, em Efeso (18:24‑28)

3. Éfeso: discípulos de João Batista recebem o batismo cristão, evangelização bem sucedida e levante encabeçado por Demétrio e os ourives (19:141)

4. Jornada através da Macedônia até à Grécia, e daí de volta à Macedônia (20:1‑5)

5. Trôade: Êutico cai de uma janela, durante um sermão de Paulo (20:6‑12)

6. Jornada a Mileto e discurso de despedida de Paulo, perante os anciãos do Éfeso (20:13‑38)

7. Viagem até Cesaréia e predições de infortúnios de Paulo em Jerusalém (21:1‑14)

8. Viagem até Jerusalém (21:14‑16)

E. Acontecimentos em Jerusalém (21:17 ‑ 23:35)

1 Paulo faz votos judaicos (21:17‑26)

2. Agitação na área do templo, detenção de Paulo, sua defesa perante a multidão e diálogo com Cláudio Lisias (21:27 ‑ 22:29)

3. Defesa de Paulo perante o Sinédrio (22:30 ‑ 23:11)

4. Conspiração dos judeus contra Paulo e sua transferência para Cesaréia (23:12‑35)

F. Acontecimentos em Cesaréia (24:1 ‑ 28:31)

1. Julgamento de Paulo perante Félix (24:1‑23)

2. Audição particular de Paulo perante Félix e Drusila (24:24‑27)

3. Julgamento de Paulo perante Festo, e apelo a César (25:1‑12)

4. Audição de Paulo perante Festo e Herodes Agripa II (25:13 ‑ 26.32)

G. Viagem acidentada de Paulo a Roma, incluindo o naufrágio em Malta (27:1 ‑ 28:16)

H. Paulo prega a judeus e a gentios, em sua prisão domiciliar em Roma (28:17-31)


Para discussão posterior:

‑ Confronte as tensões e discórdias que surgiram na Igreja primitiva com aquelas da cristandade contemporânea, no tocante às suas origens, tipos e soluções experimentadas.

‑ Identifique as similaridades e diferenças entre a estrutura da Igreja primitiva e aquela da Igreja moderna. O que explica tais diferenças?

‑ Trace o desenvolvimento da Igreja, de um corpo tipicamente judaico a um corpo inter‑racial e internacional. As igrejas evangélicas de hoje são realmente inter‑raciais em seu caráter? A Igreja de hoje é realmente internacional?

‑ Os métodos correntes de evangelismo, empreendimento missionário e levantamento de igrejas seguem ou divergem dos métodos paulinos? e em quais sentidos?

‑ As atividades da Igreja de nossos dias não contam com evidências visíveis da presença do Espírito Santo, o que merece repetidas menções no livro de Atos?

‑ A Igreja retratada no livro de Atos seria considerada bem sucedida pelos padrões contemporâneos?
Para investigação posterior:
(Comentários sobre Atos e livros relacionados)
Blaiklock, E, M. The Acts of the Apostles. Grand Rapids: Eerdmans, 1959.

Bruce, F. F. Commentarv on the Book of Acts. The international Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1954.

Ramsay, Sir William M. St. Paul the Traveller and the Roman Citizen. 3ª edição. Grand Rapids: Baker, 1949.

‑ The Cities of St. Paul and their Influence on His Life and Thought. Grand Rapids: Baker, 1949.

Van Unnik, W.C.. Tarsus or Jerusalem, the Citv of Paul's Youth. Naperville, III.: Allenson, 1962.
(Livros sobre o empreendimento missionário cristão)
Cable, M., e F. French. Ambassadors for Christ. Chicago: Moody, n.d.

Allen, Roland Missionarv Methods: St. Paul's or Ours? Grand Rapids: Eerdmans, 1962.

‑ The Spontaneous Expansion of the Church. Grand Rapids: Eerdmans, 1962.

Lindsell, H. Missionarv Principles and Practice. Westood, Nova Jersei: Revell, 1955.

Cook, H. R. Strategy of Missions. Chicago: Moody, 1963.

Fife, E. S., e A. F. Glasser. Missions in Crisis. Chicago: Inter‑Varsity, 1962.

The Church's Worldwide Mission. Editado por H. Lindsell. Waco, Texas: Word Books, 1966.

Mason, David. Reaching the Silent Billion. Grind Rapids: Zondervan, 1967.

McGavran, D. Church Growth and Christian Mission. Nova lorque: Harper & Row, 1965.

Elliott, E. Through Gates of Splendor. Nova Iorque: Harper & Row, 1957.

Hitt, R. T. Jungle Pilot: The Life and Witness of Nate Saint, Nova Iorque: Harper & Row 1959.

Pollock, J. C. Hudson Taylor and Maria. Nova Iorque: MacGraw‑Hill, 1962.

The Journal of John Wesley. Para comparar com a descrição lucana sobre as viagens missionárias de Paulo.


CAPÍTULO 14 - As Primeiras Epístolas de Paulo
Perguntas Normativas:

- Quais eram o estilo, o conteúdo e as técnicas utilizadas na redação de cartas, nos tempos antigos? Em que as epístolas de Paulo se equiparam a isso?

- Por que a epístola aos Gálatas é crucial na história do cristia­nismo?

- Quais são os endereçados, e quais são as datas, os motivos, os propósitos e o conteúdo das primeiras epístolas de Paulo?


AS EPÍSTOLAS DE PAULO E A REDAÇÃO DE CARTAS NO MUNDO GRECO-ROMANO
No mundo greco-romano, as cartas particulares contavam, em média, com quase noventa palavras. Missivas literárias, como aquelas compostas pelo orador e estadista romano Cícero, ou aquelas de Sêneca, o filósofo, orçavam, em média, pelas duzen­tas palavras. Visto que a usual folha de papiro media cerca de 34 cm x 28 cm (aproximadamente as dimensões de nossas comuns cadernetas de anotações), podendo acomodar entre 150 a 250 pa­lavras, dependendo do tamanho da escrita, e a maioria das cartas antigas não ocupava mais que uma página de papiro. Todavia, as dimensões médias das epístolas de Paulo se elevavam a cerca de 1.300 palavras, variando desde 335 palavras em Filemom até 7.101 palavras em Romanos. É óbvio, portanto, que as epístolas de Paulo são várias vezes maiores do que as cartas médias da an­tiguidade, pelo que também, em certo sentido, Paulo foi o inven­tor de uma nova forma literária, a epístola - uma novidade por ser carta tão prolongada, devido à sua natureza teológica, e, usualmente, na natureza comunitária dos endereçados. De outro ângulo, todavia, as epístolas de Paulo são cartas verdadeiras, por­quanto possuem endereçados genuínos e específicos, no que di­vergem das antigas epístolas literárias, que eram escritas para o público em geral, a despeito de seus endereçados artificiais.

No caso de documentos longos, como as epístolas de Paulo, as folhas soltas de papiro eram coladas beirada com beirada a fim de formarem um rolo. Visto que a granulação áspera do papiro fazia o ato de escrita tornar-se tedioso, era costumeiro ditar as cartas a um escriba profissional chamado amanuense, que usava uma espécie de estenografia durante o ditado rápido. A rudeza do estilo literário de Paulo - o que se verifica, por exemplo, em inúmeras sentenças incompletas - sugere que, às vezes, Paulo di­tava por demais rapidamente para que desse a devida atenção à correta estrutura das sentenças, e também que seu amanuense sentia dificuldades em acompanhá-lo. Interrupções súbitas do pensa­mento sugerem, semelhantemente, suspensão temporária do dita­do, talvez até o dia seguinte, ou mesmo por períodos mais cur­tos ou mais longos. Algumas vezes; um autor simplesmente dei­xava instruções orais, uma observação qualquer ou anotações que deveriam ser seguidas pelo seu amanuense. Sob tais circuns­tâncias, o próprio amanuense burilava o fraseado exato, fator esse que pode explicar algumas diferenças no estilo, entre epísto­las atribuídas a um só autor. Finalmente, o autor editava a carta. Sabemos com certeza que Paulo empregava os serviços de ama­nuenses pelo fato que seu amanuense se identificou uma vez por nome ("Tércio" - Romanos 16:22). Além disso, as declarações paulinas freqüentes de que ele escrevia a saudação final com o próprio punho subentendem que as porções maiores das suas epístolas eram escritas mediante o emprego de um amanuense (vide I Coríntios 16:21; Gálatas 6:11; Colossenses 4:18; II Tessalonicenses 3:17; comparar com Filemom 19).

As cartas antigas tinham início com uma saudação, a qual in­cluía o nome de quem as enviava e o nome do endereçado, e, usualmente, expressões atinentes à boa saúde e ao bom êxito do endereçado, e a certeza de que quem as enviava orava por aquele a quem se dirigia. Seguia-se o corpo principal da carta, e, final­mente, a despedida, e, ocasionalmente, a assinatura. Por muitas vezes a despedida incluía saudações enviadas por outras pessoas, juntamente com o autor, além de votos de prosperidade finais. Por temer que documentos estivessem sendo ou pudessem ser forjados em seu nome, Paulo adotou a prática de escrever de próprio punho as linhas de despedida e também a sua assinatura, a fim de garantir a autenticidade. Usualmente as cartas não eram datadas. A inexistência de um serviço postal público tornava mis­ter enviar as cartas por meio de viajantes.

Paulo encerrou diversas de suas epístolas com uma seção que contém instruções de natureza ética. Tais instruções aparecem espalhadas por outras de suas epístolas, ou nas epístolas de ou­tros escritores neotestamentários. Os eruditos têm notado notá­veis semelhanças com os códigos éticos dos judeus e dos estóicos daquele mesmo período histórico. Entretanto, os escritores do Novo Testamento vinculavam a conduta cristã ao dinamismo da fé cristã, ao invés de publicarem algum exaltado mas inerme conjunto de preceitos, que não têm o poder de efetivar o seu pró­prio cumprimento. O fato que as exortações constantes nas epís­tolas são muito parecidas entre si, sugere que os seus autores se estribavam em um tesouro comum de tradições exortatórias e doutrinárias, de posse da Igreja cristã, originalmente designado para a catequese de candidatos recém-convertidos ao batismo. Por outra parte, Paulo simplesmente pode ter desenvolvido as suas próprias instruções éticas para novos convertidos, tendo influen­ciado a escritores posteriores, como Pedro, o qual pelo menos lera algumas das epístolas paulinas (vide II Pedro 3:15,16). Uma coisa é indubitável. Os autores das epístolas alicerçavam-se pesa­damente sobre os ensinamentos éticos de Jesus, os quais com fre­qüência se refletem na fraseologia e nos conceitos emitidos nas epístolas.

A ordem de apresentação das epístolas paulinas, em nosso atual Novo Testamento, depende das dimensões, a começar pela mais longa (Romanos) e terminando pela mais curta (Filemom) - excetuando-se apenas as epístolas pastorais (I e II Timóteo e Tito), que interrompem esse arranjo imediatamente antes da epístola a Filemom. Haveremos de considerar as epístolas de Paulo na ordem cronológica em que foram escritas, até onde isso puder ser determinado com certeza razoável.
GÁLATAS: CONTRA OS JUDAIZANTES
As questões e o tema cruciais

A epístola de Paulo aos Gálatas diz respeito à controvérsia ju­daizante, por causa da qual se reuniu o concílio de Jerusalém (vide Atos 15). (Alguns eruditos pensam que os adversários de Paulo na Galácia eram sincre­tistas semi-pagãos (-gnósticos) e semi-judeus.) Tal como se dá com aquele concílio, também é quase impossível superestimarmos a natureza histórica crucial das questões teológicas envolvidas na epístola aos Gálatas. Mui­tos dos primeiros cristãos, por serem judeus, em grande medida continuaram a viver segundo seus moldes judaicos, incluindo a freqüência à sinagoga e ao templo de Jerusalém, oferecendo ho­locausto, observando os rituais e os tabus dietéticos da legislação mosaica, e mantendo-se socialmente distantes dos gentios. Mas a conversão dos gentios forçou a Igreja a ver-se diante de diversas importantes questões. Deveriam os cristãos gentios ser obrigados a submeter-se à circuncisão e a praticar o modo judaico de vida, conforme era exigido dos prosélitos gentios que entravam no ju­daísmo? Para o caso daqueles gentios cristãos que não estavam dispostos a tornar-se totalmente judeus, deveria haver uma cida­dania de segunda classe no seio da Igreja, como sucedia no caso dos "tementes a Deus" gentios, dentro do judaísmo? E o mais importante de tudo, aquilo que torna cristão a um indivíduo - a fé em Cristo, com exclusividade, ou a fé em Cristo mais a aderência aos princípios e às práticas do judaísmo?

As respostas dadas pelos judaizantes (incluindo judeus e gen­tios que se tinham tornado judeus) insistiam sobre os moldes ju­daicos como algo necessário para os cristãos. Tivessem prevalecido os seus pontos de vista, não somente teria sido subvertido o evangelho de salvação como uma dádiva gratuita da parte de Deus, mas também o movimento cristão bem poderia ter-se divi­dido para formar uma igreja judaica - pequena, laboriosa, mas que finalmente se dissiparia - e uma igreja gentílica, teologicamente de­sarraigada e tendente ao sincretismo pagão. Ou mais provavelmente ainda, a missão cristã entre os gentios quase certamente teria ces­sado, e o cristianismo haveria de experimentar a morte de muitas das seitas judaicas; porquanto a maioria dos gentios se mostrava indis­posta a viver como judeus, além de reputar a circuncisão como uma abominável mutilação do corpo humano, cuja beleza os gregos os ti­nha ensinado a apreciar. Deus, entretanto, não permitiria que os Seus propósitos fossem distorcidos pelo sectarismo. E a epístola aos Gálatas é a grande carta patente da liberdade cristã, que nos livra de todas as opressivas teologias de salvação através dos esforços huma­nos, e que, por outro lado, serve de grandiosa afirmação da unidade (não uniformidade) e igualdade de todos os crentes, dentro da Igreja de Jesus Cristo.
Destinatários: norte ou sul da Galácia?

Paulo escreveu sua epístola aos Gálatas a pessoas residentes na região conhecida por Galácia. Sem embargo, o uso que Paulo fez do vocábulo Galácia tem provocado debates que afetam a data

em que foi escrita essa epístola. De conformidade com seu sen­tido original, tal termo pode aludir exclusivamente ao território ao norte das cidades de Antioquia da Pisídia, Icônio e Listra; mas também pode incluir aquelas cidades, pois os romanos haviam acrescentado alguns distritos sulistas quando transformaram a Galácia (do norte) em província romana.

Segundo a teoria da Galácia do Norte, Paulo teria endereçado essa epístola a cristãos que viviam na Galácia do Norte, aos quais ele não visitou senão já em sua segunda viagem missionária, a caminho de Trôade, tendo vindo de Antioquia da Psídia. Conforme essa opinião, a epístola em apreço não pode ter sido escrita senão algum tempo após o começo da segunda viagem missionária, e, por conseguinte, depois do concílio de Jerusalém, historiado no décimo quinto capítulo de Atos, que antecedeu a segunda via­gem missionária de Paulo. Nesse caso, a visita a Jerusalém, que Paulo descreve no segundo capítulo daquela epístola, mui prova­velmente se refere ao bem recente concílio de Jerusalém. É pro­vável que o mais forte argumento em favor da teoria da Galácia do Norte, com sua data posterior, seja a restrição original do termo "Galácia" ao território mais ao norte e a similaridade das declarações de Paulo concernentes à justificação pela fé, com aquilo que ele diz na epístola aos Romanos, a qual por certo ele escreveu somente mais tarde (vide a pág. 325).

Militando contra a teoria da Galácia do Norte temos o fato que Lucas em parte alguma sugere que Paulo tivesse evangeli­zado a Galácia do Norte. É duvidoso que Paulo tenha visitado aquele território por ocasião de sua segunda viagem missionária, pois "a região frígio-gálata", referida em Atos 16:6, mais natural­mente se refere ao território mais ao sul - a travessia da Galácia do Norte teria requerido um desvio proibitivamente grande para o nordeste. E noutros trechos de suas epístolas Paulo coerente­mente lança mão de termos geográficos em um sentido imperial, o que indicaria a Galácia do Sul como o lugar para onde ele en­viou a sua epístola aos Gálatas.

Em consonância com a teoria da Galácia do Sul, Paulo teria endereçado a sua primeira epístola às igrejas do Sul da Galácia, imediatamente após sua primeira viagem missionária, mas antes do concílio de Jerusalém. Assim sendo, a visita que ele fez a Jerusa­lém, descrita no segundo capítulo da epístola aos Gálatas, não pode aludir ao concílio de Jerusalém, o qual ainda não tivera lu­gar, mas, pelo contrário, é alusiva à visita na qual se levaram ví­veres para aliviar a fome, o que se menciona em Atos 11:27-30. O mais decisivo argumento em favor da Galácia do Sul, com sua data mais recuada, é aquele que diz que se Paulo houvesse escrito es­sa epístola depois do concílio de Jerusalém, certamente ter-se-ia va­lido do decreto do mesmo concílio em prol da liberdade dos gen­tios cristãos em relação aos preceitos mosaicos, o principal tó­pico de discussão em Gálatas. No entanto, o apóstolo não faz menção alguma a tal decreto. A improvável omissão subentende que essa epístola foi escrita antes daquele concílio ter-se reu­nido, e, assim sendo, em um tempo em que Paulo tinha visitado somente a Galácia do Sul, e não também a Galácia do Note. Também é duvidoso que Pedro tivesse vacilado, conforme vaci­lou e segundo se aprende em Galátas 2,11 ss., após o concílio de Jerusalém, durante o qual defendeu acérrimo a posição de liber­dade que nos livra da lei de Moisés. Outrossim, Paulo menciona a Barnabé por nada menos de três vezes no segundo capítulo de Gálatas, como se Barnabé fosse figura bem conhecida de seus leitores. No entanto, Barnabé viajara com Paulo somente pela Galácia do Sul. Pelo tempo em que Paulo atravessou a Galácia do Norte, por ocasião de sua segunda viagem missionária, aque­les dois líderes cristãos já se haviam separado, por terem discor­dado no tocante a João Marcos.


Introdução

A epístola é iniciada com uma saudação na qual Paulo ressalta o seu apostolado, porquanto queria estabelecer firmemente a sua autoridade, em contraposição aos judaizantes. Em lugar das usuais ações de graças por seus leitores, Paulo, imediata e violen­tamente, introduz a razão pela qual havia escrito. Ele se sentia chocado porque os cristãos gálatas estavam se bandeando para um outro evangelho, o qual, na verdade, nem era evangelho ("boas novas”). Ler Gálatas 1:1-10.


Argumento autobiográfico

Em seguida, Paulo redige um argumento autobiográfico que defende o evangelho da graça de Deus, em contraste com a men­sagem judaizante, a qual requeria a aderência à lei mosaica como condição de salvação. Paulo assegura que o evangelho da livre graça lhe fora dado por revelação direta da parte de Jesus Cristo. Por certo não poderia ter-se originado em seus dias passados, ar­gumenta ele, porque fora um judeu zeloso de sua religião, antes de converter-se ao cristianismo. Por semelhante modo, não fora aprendiz dos apóstolos, em Jerusalém, visto que nem ao menos se encontrara com eles, senão depois de três anos a contar da data de sua conversão. E quando, finalmente, visitou Jerusalém, entrevistou-se somente com Pedro e Tiago (meio-irmão de Je­sus), tendo permanecido ali pelo espaço de somente quinze dias, e não tendo ficado conhecido pessoalmente dos cristãos judeus de maneira geral. E visto que o evangelho da graça não pode ter tido origem no seu passado ou em seus contactos pessoais em Je­rusalém, sem dúvida provinha do próprio Deus. E ao visitar no­vamente a cidade de Jerusalém, catorze anos mais tarde (a con­tar ou de sua conversão ou de sua primeira visita a Jerusalém), os líderes cristãos dali - Tiago, Pedro e João - formalmente reco­nheceram a correção do evangelho da graça que ele pregava en­tre os gentios, estendendo-lhe a destra de comunhão. Acresça-se a isso que nem ao menos exigiram que Tito, companheiro gentio de Paulo, fosse circuncidado.

Ao chegar em Antioquia da Síria, a princípio Pedro comia em companhia de cristãos gentios; mas depois cedeu sob a pressão exercida pelos judaizantes. E Paulo repreendeu publicamente a Pedro. O que fica implícito é que Pedro retrocedeu diante da re­primenda. Caso contrário, dificilmente Paulo teria usado do inci­dente como um argumento em seu favor. E o fato que até Pedro foi repreendido por Paulo exibe a autoridade do evangelho da graça ensinado por Paulo. Ler Gálatas 1:1 - 2.21.
Argumento teológico

O sumário exposto por Paulo quanto à reprimenda a Pedro contém o germem de seu argumento teológico, que aparece logo depois. O termo "justificar", que é utilizado por reiteradas vezes, significa "considerar justo", e apenas mui raramente "fazer justo". (Para dizer-se a verdade, a justificação conduz à santificação, à mudança na conduta moral, pelo que a linha demarcatória entre a posição legal e a conduta real nem sempre é muito visível - embora a distinção tenha de ser mantida.) No grego clássico significava "tratar com alguém se­gundo a justiça", quase o oposto do uso paulino, o qual recua até ao Antigo Testamento (mormente a Isaías), e onde Deus inter­vém graciosamente para retificar as coisas entre Ele mesmo e os homens. O ato gracioso de Deus, não obstante, não perde seu ca­ráter justo, porquanto Cristo sofreu a pena imposta a nossos pe­cados, pena essa exigida pela santidade divina, além do que a im­putação da retidão divina ao crente agora faria Deus tornar-se injusto se o condenasse.

Os versículos dezessete a vinte e um, do segundo capítulo, po­deriam ser parafraseados como segue: "Se temos de abandonar a lei a fim de sermos justificados pela fé em Cristo, encorajaria Cristo ao pecado? Não. Antes, se eu voltar à lei, deixarei enten­dido que pecara quando a abandonei. Mas eu não pequei ao as­sim fazer, pois Cristo morreu sob o juízo da lei contra o pecado. Na qualidade de crente, morri juntamente com Cristo. Esse é o ponto de vista de Deus a meu respeito. A lei não exerce autori­dade sobre um homem morto, especialmente um homem que morrera sob sua penalidade, de tal forma que eu não mais estou sob a obrigação de guardar a lei. Mas Cristo ressuscitou e vive em mim, de tal modo que, embora eu tenha morrido em Cristo quando Ele morreu, e assim fiquei livre em Cristo. Portanto, se os homens pudessem tornar-se justos através da observância da lei, então Cristo não precisaria ter morrido."

A partir desse ponto. Paulo desenvolve o seu argumento teoló­gico. Já que alguém se converteu mediante a fé, por que não continuar vivendo pela fé, e não pela lei? Abraão foi justificado antes de ter a lei sido promulgada, pelo que, mesmo no Antigo Testamento, a justiça vinha pela fé, e não pela lei. A lei pode so­mente amaldiçoar ou condenar, posto que ninguém a obedece em sua inteireza. Ora, Cristo morreu para libertar-nos da lei, jun­tamente com sua irresistível maldição. O fato que Deus estabele­ceu a Sua aliança com Abraão, antes de haver dado a lei por in­termédio de Moisés, sugere que o pacto abraâmico é mais fun­damental do que a lei. Portanto, a lei não anulou aquele pacto. A natureza do pacto abraâmico - segundo o lado divino - visara a abençoar ao descendente de Abraão, e - segundo o lado humano - visava a aceitação da promessa divina por meio da fé. O descendente de Abraão é Cristo, juntamente com todos aqueles que Nele se vão incorporando, por seguirem o exemplo da fé de A­braão.

A lei se revestia de certo propósito, mas de cunho apenas tem­porário. Era o propósito de conduzir-nos a Cristo, à guisa de um antigo escravo-tutor que costumava levar uma criança à escola. A lei conseguiu realizar isso tornando-nos incisivamente cônscios da incapacidade do homem de tornar-se justo por seus pró­prios esforços. Estar sob a lei, por conseguinte, equivalia a ser um menor de idade ou um escravo. Em Cristo, porém, somos adultos livres, adotados na família de Deus como filhos e herdei­ros, com privilégios e responsabilidades de pessoas adultas. Por que reverteríarnos a um estado inferior?

Paulo, então, relembra como os gentios tinham aceitado a sua mensagem, ao se converterem, e pleiteia diante deles para que aceitassem sua presente mensagem, tal como o tinham feito a principio. E respalda também o seu argumento, ao estilo dos ra­binos, mediante uma alegoria baseada sobre um relato do Antigo Testamento. Hagar, a escrava, representa o monte Sinai, isto é, a lei mosaica com seu centro de operações em Jerusalém, na Pa­lestina. Ismael, seu filho nascido escravo, ilustra aqueles que es­tão escravizados à lei. Sara simboliza o cristianismo, com sua ca­pital na Jerusalém celestial. Isaque, seu filho prometido e livre de nascimento, representa todos os filhos espirituais de Abraão, isto é, aqueles que seguem o exemplo da fé de Abraão, e que, por isso mesmo, são libertados da lei em Cristo Jesus. Ler Gálatas 3.1 - 5:12.


Responsabilidade na liberdade

A última seção maior da epístola adverte contra as atitudes li­bertinas, ou antinomismo (literalmente, "contra-leísmo"), aque­la atitude negligente que diz que estar isento da lei equivale à licença para praticar a iniqüidade. Estar livre da lei não significa ter a liberdade de pecar. O crente não deve moldar sua conduta de acordo com a carne (o impulso para pecar), mas em harmonia com o Espírito Santo. Além disso, cumpre-lhe ajudar amorosamente aos seus semelhantes, sobretudo seus irmãos na fé, contribuindo liberalmente para aqueles que ministram o evangelho. Ler Gálatas 5:13 - 6:10.

É apenas aparente a contradição entre Gálatas 6:2: "Levai as cargas uns dos outros", e Gálatas 6:5: "Porque cada um levará o seu próprio fardo". Na primeira instância, Paulo ensina que os crentes deveriam ajudar-se mutuamente em suas atuais dificulda­des, e na segunda que, quando do juízo vindouro, cada qual res­ponderá a Deus exclusivamente pela sua própria conduta.

O fato que Paulo anexou numerosos preceitos que governam a conduta cristã ao seu prolongado ataque contra o legalismo dos judaizantes serve para mostrar que o legalismo não consiste de re­gras como tais. Os livros do Novo Testamento encerram muitas regras de comportamento. O legalismo consiste antes da imposi­ção de regras errôneas, e, particularmente de maior número de regras que o exigido por uma dada situação, a tal ponto que, em meio à teia confusa de minúcias, as pessoas perdem a capacidade de distinguir os elementos mais importantes dentre os menos im­portantes, os princípios fundamentais de suas aplicações. O lega­lismo também envolve o senso de mérito devido à própria obe­diência do indivíduo (em contraposição ao reconhecimento do fato que a obediência é tão-somente um dever) com a conse­qüente perda da dimensão pessoal de comunhão com Deus, ali­cerçada única e exclusivamente sobre a Sua graça.


Conclusão

Paulo escreveu a conclusão da epístola com sua própria caligrafia. As "letras grandes" por ele traçadas podem ter sido feitas para efeito de ênfase, embora alguns alvitrem que a deficiência visual do apóstolo tenha exigido tal maneira de escrever. E ele acusa que os judaizantes eram motivados pelo desejo de escapar das perseguições movidas pelos judeus incrédulos, como também pela ambição de se jactarem de ser capazes de arrebatar da leal­dade a Paulo os convertidos do apóstolo. De forma contras­tante, Paulo chama a atenção para os sofrimentos que ele vinha suportando jubilosamente, na defesa de sua mensagem, e, final­mente, roga aos crentes da Galácia que eles mesmos julguem quem era impelido pelos motivos mais puros, ele ou os judaizan­tes. Ler Gálatas 6:11-18.


ESBOÇO SUMÁRIO DE GÁLATAS
Tema: a justificação dos pecadores que confiam em Jesus Cristo, mediante a graça divina, totalmente à parte da obediência à lei.
INTRODUÇÃO: Saudação aos gálatas e anátema aos judaizantes, que perver­tiam ao verdadeiro evangelho (1:1-10)

I. ARGUMENTO AUTOBIOGRÁFICO EM FAVOR DO EVANGELHO DA LIVRE GRAÇA DE DEUS (1,11 - 2,21)

A. Revelação direta do evangelho a Paulo, por Jesus Cristo (1:11,12)

B. Impossibilidade de sua origem no passado extremamente judaico de Paulo (1:13)

C. Impossibilidade de Paulo tê-lo aprendido de fontes meramente humanas, os apóstolos, a quem Paulo não conhecera senão três anos após sua conversão, e por pouquíssimo tempo (1:14-24)

D. Reconhecimento posterior do evangelho paulino da parte dos líderes da igreja de Jerusalém (2:1-10)

E. Paulo repreende (com êxito) a Pedro, por haver este cedido às pressões dos judaizantes, em Antioquia da Síria (2:11-21)

II. ARGUMENTO TEOLÓGICO EM FAVOR DO EVANGELHO DA LIVRE GRAÇA DE DEUS (3:1 - 5:12)

A. A suficiência da fé (3:1-5)

B. O exemplo de Abraão (3:6-9)

C. A maldição imposta pela lei (3:10-14)

D. O divino pacto da promessa a Abraão e seu descendente (Cristo e aqueles que a Ele se unem pela fé), anteriores à lei das obras (3:15-18)

E. O propósito da lei: não o de prover a salvação através do mérito humano, mas o de demonstrar a necessidade de graça divina, por meio da fé em Cristo (3:19 - 4:7)

F. Apelo para que se confie somente na graça divina, com uma alegoria sobre a liberdade cristã, baseada sobre Abraão e seus dois filhos, o escravo Ismael e o livre Isaque (4:8 - 5:12)

III. ADVERTÊNCIA CONTRA O ANTINOMISMO (5:13 - 6:10)

A. Liberdade cristã: o viver pelo Espírito, e não segundo a carne (5:13-24)

B. O amor cristão (5:25 - 6:5)

C. A liberalidade cristã (6:6-10)

CONCLUSAO: contraste entre o temor que os judaizantes tinham da persegui­ção e seu orgulho jactancioso, por um lado, e as perseguições humilhantes sofri­das por Paulo, por outro lado - e uma bênção final (6:11 - 18).
Para discussão posterior:
- Quais manifestações de legalismo existem dentro da cristan­dade contemporânea?

- Quais são as formas modernas assumidas pelo antinomia­nismo?

- Confronte o conceito paulino da liberdade cristã e a ética si­tuacional corrente, e também a ética cristã do amor e a ética se­cular do amor.

- De que modo a ênfase paulina sobre o amor se coaduna com seu anátema contra os judaizantes?

- Como podem os pais crentes evitar tanto o legalismo quanto a excessiva permissividade, na criação de seus filhos? Como po­dem as instituições educacionais, as igrejas e as agências missionárias evangélicas evitar tanto o legalismo quanto o liberti­nismo?

- Compare a narrativa paulina de sua visita a Jerusalém (vide Gálatas 2:1-10) com o relato lucano sobre o concílio de Jerusa­lém (vide Atos 15:1-29). Em que se assemelham? Em que dife­rem? Podem ser facilmente harmonizados entre si?


Para investigação posterior:
Cole, A. Commentary on the Epistle of Paul to the Galatians. Grand Rapids: Eerdmans, 1965.

Neil, W. The Letter of Paul to the Galatians. Cambridge Universit y Press, 1967

Ridderbos. H. N. The Epistle of Paul to the Churches of Galatia. Grand Rapids: Eerdmans, 1953.

Luther, M. "The Argument of St. Paul's Epistle to the Galatians. "Luther's Works”. Vol. 26. Lectures on Galatians 1535 Chapters 1-4. Editado e traduzido por J. Pelikan. Editor associado, W. A. Hansen. St. Louis: Concordia, 1963. Pgs. 4-12.

- "The Freedom of a Christian". Luther's Works. Vol. 31. Career of the Reformer: I. Traduzido por W.A. Lambert. Editado e revisado por H. I. Grimm. Editor geral, H.T. Lehmann. Filadélfia: Muhlenherg, 1957- Pags. 328-377.

Bunyan, J. Grace Abounding to the Chief of Sinners. Chafer, L. S. Grace. Grand Rapids: Zondervan, 1922.

Genesis 15 - 17; 211-21- Quanto a passagens do Antigo Testamento citadas por Paulo.

Danby, H. The Mishnah. Oxford University Press, 1933. Quase qualquer porção dessa tradução da Mishnah dará o sabor do legalismo rabínico.


I TESSALONICENSES: CONGRATULAÇÕES E CONSOLO
Tema

As epístolas de Paulo à igreja de Tessalônica são famosas de­vido ao ensino que encerram sobre a Segunda Vinda de Jesus Cristo e eventos associados. Essas duas epístolas, o discurso do monte das Oliveiras, por Jesus, e o Apocalipse de João formam as três principais porções proféticas do Novo Testamento. Em I Tessalonicenses, a nota escatológica está vinculada com o se­gundo desses dois temas todo-importantes: (1) as congratulações aos crentes tessalonicenses, pela sua conversão e progresso na fé cristã, e (2) exortações tendentes a um maior progresso, com ên­fase particular sobre o consolo derivado da expectação acerca da parousia.


Passado formativo

Tessalônica, capital da Macedônia, ficava na Via Egnácia, a principal artéria que ligava Roma ao Oriente. A cidade contava com seu próprio governo, encabeçado por politarcas e também tinha uma colônia judaica. Paulo evangelizara a cidade quando de sua segunda viagem missionária. Alguns judeus e muitos gre­gos e mulheres de alta posição social tinham abraçado a fé cristã. A assertiva de Paulo: "... deixando os ídolos, vos convertestes a Deus..." (I Tessalonicenses 1:9), subentende que a maioria dos crentes dali se compunha de gentios, antes de sua conversão, porque os judeus daquela época não eram idólatras. (O exílio assírio-babilônico curara-os da idolatria). Os judeus incrédulos residentes em Tessalônica se opuseram encarniçadamente contra o evangelho, assaltando a casa de Jasom, onde Paulo se hospe­dara, e posteriormente viajando até à cidade de Beréia, a fim de tentar expulsar a Paulo daquela cidade, igualmente.

De acordo com Atos 17:2, Paulo passou três sábados pregando na sinagoga de Tessalônica. A narrativa lucana parece dar a en­tender que a turbulência que forçou a partida do apóstolo ocor­reu imediatamente depois de seu ministério na sinagoga, e o tre­cho de Atos 17:10 indica que os cristãos enviaram Paulo para fora da cidade, assim que a agitação se acalmou. Não obstante, alguns estudiosos inserem um hiato entre o ministério paulino na sinagoga dali e o levante, porquanto Paulo menciona ter tido de trabalhar para sustentar-se em Tessalônica (vide I Tessalonicen­ses 2:7-11), além de ter recebido uma ou duas doações vindas de Filipos, durante a sua permanência em Tessalônica (vide Filipen­ses 4:16). Porém, é possível que Paulo tenha começado a traba­lhar com as mãos assim que chegou a Tessalônica, tendo continuado nesse mister por três ou quatro semanas. Por semelhan­te modo, duas doações poderiam ter chegado de Filipos, no es­paço de um mês.

Um outro argumento que apóia uma mais longa permanência em Tessalônica é aquele que assevera que a primeira e a segunda epístolas aos Tessalonicenses pressupõem mais ensinamentos doutrinários do que Paulo poderia ter ministrado em cerca de um mês, pouco mais ou menos. O mais provável, entretanto, é que Paulo tivesse por hábito ensinar intensivamente a seus converti­dos, durante os dias da semana, fora das reuniões das sinagogas. E Timóteo, que ficou por mais tempo em Tessalônica, e que de­pois de haver partido dali retornou à cidade para outro período de permanência, pôde ensinar-lhes a doutrina cristã com maiores detalhes ainda. Portanto, deveríamos limitar o ministério de Paulo em Tessalônica ao espaço mais provável de cerca de um mês.


Motivos

Timóteo se tinha juntado a Paulo em Atenas, fora enviado de volta a Tessalônica, e mais tarde se reunira ao apóstolo em Co­rinto. O relato de Timóteo proveu o motivo para Paulo escrever I Tessalonicenses (comparar I Tessalonicenses 3:1,2 com Atos 18:5). Isso implica em que Paulo escreveu I Tessalonicenses em Corinto, no decorrer de sua segunda viagem missionária, não muitas semanas depois de haver evangelizado os endereçados da epístola.


Congratulações

A primeira seção maior de I Tessalonicenses consiste de con­gratulações aos crentes de Tessalônica, por motivo de sua con­versão e progresso na vida cristã (capítulos 1-3). A fidelidade que demonstraram, mesmo em meio à perseguição, estava servindo de excelente exemplo para os demais cristãos, na Macedônia e na Grécia (Acaia). O relatório de Timóteo a respeito deles, realmente fora favorável (2:17 - 3:9). Ler I Tessalonicenses 1 - 3.

Como de praxe, Paulo combinou a típica saudação grega, em forma cristã modificada ("graça"), com a típica saudação semita ("paz") (1:1). A forma da palavra "graça", empregada por gregos não-cristãos, simplesmente significa "Alô!". Mas Paulo modifi­cou o vocábulo para assumir as reverberações do favor divino outorgado a todos os pecadores desmerecidos, por intermédio de Jesus Cristo. "Paz" significa mais do que a ausência de guerras; pois também envolve a conotação positiva de prosperidade e bên­ção. Uma bem conhecida tríada de virtudes figura em I Tessalonicenses 1:3: fé, amor e esperança. A fé produz as boas obras. O amor resulta em labor, ou seja, feitos de gentileza e mi­sericórdia. E a esperança, uma palavra escatológica referente à expectação confiante quanto à volta de Jesus, gera a constância debaixo dos testes e das perseguições. No meio dessa seção con­gratulatória, Paulo rememora detalhadamente para os seus leito­res o seu ministério entre eles, caracterizado pelo amor e pela abnegação. Alguns têm aventado a hipótese, nesta altura, que Paulo se defendia contra alguma calúnia cujo intuito era o de destruir a sua influência sobre os seus convertidos. Mais prova­velmente, entretanto, Paulo simplesmente ressaltou quão gratifi­cante lhe era o fato que os tessalonicenses tinham reagido favo­ravelmente ao evangelho, visto que labutara tão ferventemente entre eles.
Exortações

A segunda seção principal de I Tessalonicenses (capítulos qua­tro e cinco) consiste de exortações: contra a conduta imoral (4:1-8); acerca de um crescente amor mútuo (4:9,10); acerca do consolo e da vigilância, em face da volta de Cristo (4: I I - 5:11 ) e acerca de certa variedade de questões práticas atinentes à conduta cristã (5:12-28).

Ler I Tessalonicenses 4 e 5. Em I Tessalonicenses 4:1, Paulo, com grande habilidade, passa das congratulações para as exorta­ções, ao animar os crentes dali a continuarem a progredir. Os mandamentos que há em 4:11,12, para que eles vivessem em tranqüilidade e continuassem em trabalho ativo, servem de repri­menda contra aqueles que acreditavam tão fortemente no re­torno imediato de Jesus, que estavam abandonando suas ocupa­ções. O fato que Paulo advoga sem pejo o trabalho manual con­trasta com o típico ponto de vista dos gregos, que costumavam torcer o nariz ante tal sorte de trabalho.

Arrebatamento é o vocábulo comumente usado para designar a retirada súbita dos crentes, quando da segunda vinda de Cristo, conforme a descrição paulina, em I Tessalonicenses 4:16,17. Mas há também a idéia da imortalização e glorificação dos corpos dos crentes que continuarem vivos na terra, ao tempo do retorno de Cristo. O fato que os corpos desses últimos não serão ressuscita­dos dentre os mortos, requer que essa transformação ocorra quando ainda estiverem em seus corpos vivos, mas mortais. Os cristãos tessalonicenses entristeciam-se ante a morte física de ou­tros crentes, aparentemente por não perceberem que seus com­panheiros de fé haveriam de compartilhar do júbilo que haverá quando da volta de Cristo. Quiçá imaginassem que a morte física, antes da parousia, equivalesse a castigo pelo pecado, ou mesmo fosse indicação da perda da salvação da alma. Paulo reassegurou a seus leitores a verdade escatológica, explicando-lhes que os cren­tes mortos haverão de ressuscitar imediatamente antes do arre­batamento, a fim de poderem ser arrebatados juntamente com os cristãos que porventura continuarem vivos até então.

No quinto capítulo, Paulo passa das palavras de consolo para as de advertência. Aos cristãos convém esperar, vigilantes, pelo dia do Senhor (a Segunda Vinda e os eventos que se seguirão), para não serem apanhados de surpresa. Não vigiar é o mesmo que colocar-se na categoria dos iníquos, os quais serão apanha­dos inesperadamente. Por outro lado, o estado de prontidão para o dia do Senhor é mais que um estado de alerta mental. Tam­bém consiste de uma maneira de conduzir-se caracterizada pela obediência aos mandamentos, tais como aqueles com que esta epístola é encerrada.
ESBOÇO SUMÁRIO DE I TESSALONICENSES
Temas: congratulações aos crentes tessalonicenses devido à sua conversão e progresso na fé cristã, e exortações atinentes a um maior progresso, com desta­que particular da expectativa relacionada à parousia.
INTRODUÇÃO: Saudação (1:1)

I. CONGRATULAÇÕES (1:2 - 3:13)

A. Ação de graças pela conversão exemplar dos crentes de Tessalônica (1:2-10)

B. Reminiscência de Paulo acerca de seus ministério em Tessalônica (2:1-16)

C. Excelente relatório de Timóteo sobre o progresso dos crentes de Tessalô­nica (2:17 - 3:10)

D. Oração em favor dos crentes de Tessalônica (3:11-13)

II. EXORTAÇÕES (4:1 - 5:22)

A. Moralidade (4:1-8)

B. Amor mútuo (4:9-12)

C. Consolo ante a morte de irmãos na fé, em face do fato que participarão da parousia (4:13-18)

D. Prontidão na espera pelo dia do Senhor (5:1-11)

E. Exortações miscelâneas (5:12-22)

CONCLUSÃO: bênção e instruções finais (5:23-28)

II TESSALONICENSES: CORREÇÃO DE IDÉIAS SOBRE A SEGUNDA VINDA


Motivos e tema

Paulo escreveu a segunda epístola aos Tessalonicenses estando em Corinto, quando de sua segunda viagem missionária, pouco depois de haver escrito I Tessalonicenses. (Alguns eruditos preferem reverter a ordem entre I e II Tessalonicenses, mas essa opinião não dispõe de evidências nos manuscritos, e (entre outras considera­ções): II Tessalonicenses 2:15 ("as tradições que vos foram ensinadas... por epís­tola nossa"), parece pressupor I Tessalonicenses.) Durante o intervalo que mediou entre as duas epístolas, o fanatismo tinha crescido na igreja cristã de Tessalônica. Tal fanatismo era originado pela crença no retorno imediato do Senhor. E essa crença, por sua vez, aparentemente resultava do desejo que aqueles crentes embalavam de ser livrados da perseguição. Paulo, portanto, escre­veu esta segunda epístola aos tessalonicenses a fim de aquietar o fanatismo deles, corrigindo as suas idéias escatológicas.


Encorajamento

Após a saudação inicial (II Tessalonicenses 1:1,2), Paulo nova­mente agradece a Deus pelo progresso espiritual dos crentes de Tessalônica, bem como por sua constância paciente sob a perseguição; mas os elogios são bem mais breves do que se vira na pri­meira epístola àqueles crentes. Passando prontamente para o tema escatológico, Paulo descreve vividamente a Segunda Vinda, quando os perseguidores serão julgados e os perseguidos serão aliviados em seus sofrimentos. O propósito do apóstolo foi o de encorajar aos tessalonicenses a uma perseverança contínua, para o que mostrou que a situação haveria de ser revertida, quando Cristo retornasse ao mundo. Em 2:1 ss., Paulo começa a abordar os pontos que aqueles crentes entendiam mal no que concerne à parousia, explicando-lhes que ela não seria imediata. Assim sendo, deveriam retornar às suas ocupações e negócios. Porque esperar a volta de Cristo não envolve cessar a vida diária normal. Pois Ele poderia não retornar por algum prolongado período de tempo. Ler II Tessalonicenses 1 - 3.


Correção

O aviso de Paulo, de que aqueles crentes não se deixassem en­ganar por alguma profecia falsa ou por alguma instrução oral ou escrita, forjada em seu nome (2:1,2), sugere que os mentores da posição fanática que havia em Tessalônica se vangloriavam de contar com o apoio do apóstolo. A expressão, "o homem da ini­qüidade" (2:3), alude ao anticristo, um líder mundial que se ca­racterizará pela iniqüidade e pela perseguição, nos dias finais de nossa era. Essa personagem maligna haverá de exigir adoração à sua própria pessoa, ostentando-se no templo de Deus. Em outras palavras, ele procurará obrigar o povo judeu a adorar à sua ima­gem, a qual ele mandará erigir no templo (reconstruído) de Jeru­salém (vide 2:4,5; comparar com Marcos 13:14. Mateus 24:15 e Apocalipse 13). A sugestão esposada por alguns, de que o con­ceito de anticristo emanou do mito do Nero-redivivo, que dizia que Nero haveria de retornar de entre os mortos, tropeça no fato que o conceito do anticristo é anterior à época de Nero, conforme se vê em outras obras literárias, além do que ela nos forçaria a re­jeitar, sem razões suficientes, a autenticidade de II Tessalonicen­ses, a qual teria de ser datada após o martírio de Paulo e a morte de Nero. Também tem sido sugerido por alguns que Paulo tinha em mente a ordem baixada mas não cumprida pelo imperador Calígula, em 40 D. C., no sentido que uma estátua sua fosse le­vantada e adorada no templo de Jerusalém. Talvez tenha sido as­sim, mas a profecia de Daniel concernente à abominação desola­dora (vide Daniel 9:27; 11:31 e 12:11), a poluição do templo por parte de Antíoco Epifânio, em 168 A. C., e a alusão de Jesus a uma ainda futura abominação desoladora (vide as referências acima) é que provêem as fontes primárias das declarações de Paulo a esse respeito.

O que ou quem estaria impedindo o anticristo de manifestar-se, até que chegue o tempo certo, Paulo sentiu ser desnecessário identificar, pois os crentes tessalonicenses já conheciam a identi­dade do tal, por meio do doutrinamento oral de Paulo (vide 2:5­8). As duas sugestões mais prováveis são: (1) essa força restringi­dora é a instituição do governo humano - personificada em go­vernantes, como os imperadores romanos e outros - ordenada por Deus para a proteção da lei e da ordem (pois o anticristo será um iníquo, um "desregrado" que não obedecerá a lei alguma), e (2) essa força restringidora é a ativa atuação do Espírito Santo no mundo, no tempo presente, o que impede o surgimento do anti­cristo, ou diretamente ou por meio da Igreja. Outros pensam que Paulo se referia à pregação missionária como se fora esse poder restringidor, e que ele mesmo, como principal missionário, seria aquele que "detém" o anticristo. Entretanto, é difícil pensarmos que Paulo antecipava sua própria remoção especial como a con­dição do aparecimento do anticristo, porquanto noutras passa­gens ele expressa sua expectação pela parousia tanto quanto ou­tros cristãos o fazem. Finalmente, a ênfase que se vê em 3:17 so­bre a escrita com o próprio punho de Paulo subentende que al­guma epístola já havia sido forjada, em nome de Paulo, em res­paldo daquela posição fanática.
ESBOÇO SUMÁRIO DE II TESSALONICENSES
Tema: a pacificação de uma crença fanática, evidentemente engendrada pelas perseguições de que a parousia haveria de ter lugar imediatamente.
INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

I. A PERSEGUIÇÃO (1.3-12)

A. Ação de graças pelo progresso dos crentes de Tessalônica em meio à per­seguição (1:3,4)

B. Certeza do livramento da perseguição e do juízo divino contra os perse­guidores, por ocasião da parousia (1:5-10)

C. Oração em favor dos crentes de Tessalônica (1:11,12)

II. A PAROUSIA/ARREBATAMENTO/DIA DO SENHOR (2:1-15)

A. Negação de que já havia chegado o dia do Senhor (2:1,2)

B. Lista dos precedentes necessários (2:3-15)

1. A rebelião (2:3a)

2. O homem da iniqüidade (2:3b-15)

a. Sua reivindicação de divindade (2:3b-5)

b. A atual força restringidora de seu aparecimento (2:6,7)

c. Sua condenação (2:8)

d. Seus ludíbrios (2:9-12)

e. Os crentes de Tessalônica estavam isentos de tal ludíbrio e conde­nação (2:13- 15)

C. Bênção (2:16,17)

III. EXORTAÇÔES (3:1-15)

A. Oração, amor e estabilidade (3:1,5)

B. Um trabalho industrioso (3:6-13)

C. Ostracismo disciplinador aplicado a membros desobedientes da igreja local (3:14,15)

CONCLUSÃO: outra bênção e saudação final, com ênfase sobre a escrita pelo próprio punho de Paulo, nas últimas e poucas linhas da epístola, como garantia de sua autenticidade (3:16-18).
Para discussão posterior:
- Quais doutrinas (e com qual profundeza) as epístolas aos Tes­salonicenses pressupõem já terem sido ministradas oralmente por Paulo? Compare essas doutrinas com o nível da pregação evangelística de hoje em dia.

- Prepare um esboço dos futuros acontecimentos escatológi­cos, com base nas epístolas aos Tessalonicenses. Por que esse esbo­ço é tão incompleto? Procure confrontá-lo com o discurso de Jesus no monte das Oliveiras (vide Marcos 13; Mateus 24 e 25 e Lucas 21) e com o livro de Apocalipse.

- Trace a inferência sobre a reação dos crentes de Tessalônica à primeira epístola aos Tessalonicenses, por meio daquilo que Paulo escreveu na segunda epístola aos Tessalonicenses. Então imagine qual teria sido a reação deles à segunda dessas epístolas.
Para investigação posterior:
Morris,. L. The Epistles of Paul to the Thessalonians. Londres: Tyndale, 1956.

- The First and Second Epistles to the Thessalonians. Grand Rapids: Eerdmans, 1959.

Walvoord, J. F. The Thessalonians Epistles. Grand Rapids: Zondervan (Du­nham), 1958.

- The Rapture question. Grand Rapids: Zondervan (Dunham), 1957. Em defesa da posição que o arrebatamento da Igreja ocorrerá antes da tribulação.

Ladd, G. E. The Blessed Hope. Grand Rapids: Eerdmans, 1956. Em defesa da po­sição que o arrebatamento da Igreja ocorrerá depois da tribulação.

CAPÍTULO 15 - As Epístolas Principais de Paulo
I CORÍNTIOS: PROBLEMAS ECLESIÁSTICOS
Perguntas Normativas:

- Quais tinham sido as conexões e comunicações de Paulo com a igreja de Corinto, antes de ter-lhes escrito a primeira epístola aos Coríntios?

- Como foi que a igreja de Corinto se afundou nas deploráveis condições que Paulo procura corrigir na sua primeira epístola aos Coríntios?

- Quais eram os problemas específicos da igreja de Corinto e quais os remédios prescritos por Paulo para os mesmos?


Tema

A primeira epístola de Paulo aos Coríntios demonstra o fato que condições lamentáveis na Igreja não são um apanágio exclu­sivo da Igreja pós-apostólica. Crenças e práticas aberrantes, dotadas da mais espantosa variedade e vulgaridade, floresciam na igreja de Corinto. Foi a fim de contrabalançar esses problemas que Paulo escreveu esta epístola.


Ministério anterior em Corinto

Não contando com fundos suficientes, quando de sua pri­meira chegada em Corinto, Paulo se pusera a fabricar tendas em companhia de Priscila e Áqüila. Nos dias de sábado ele pregava na sinagoga local. Depois que Silas e Timóteo vieram juntar-se a ele, então escreveu a primeira e a segunda epístolas aos Tessalo­nicenses, mudou suas atividades evangelizadoras para a casa de Tito Justo ao lado da sinagoga, foi o agente da conversão de Crispo, chefe da sinagoga, recebeu do governador romano, Gálio, uma afortunada absolvição ante as falsas acusações dos judeus incrédulos contra sua pessoa, e, ao todo, ministrou por nada menos de um ano e meio naquela cidade.


Uma carta anterior perdida

A declaração que se acha em I Coríntios 5:9: "Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros", permite-nos entender que Paulo já havia escrito uma epístola anterior à igreja de Corinto, mas que depois se perdeu. Aqueles crentes haviam compreendido mal ao apóstolo, como se ele tivesse querido dizer que eles deveriam separar-se de todos os impuros. Mas Paulo esclarece aqui que tivera em mente a separação somente dos cristãos professos, que vivem em pecado flagrante e aberto.


Tempo e lugar de escrita

A primeira epístola aos Coríntios, pois, é a segunda das epísto­las que o apóstolo escreveu à igreja de Corinto. Ele escreveu da Cidade de Éfeso, por ocasião de sua terceira viagem missionária. E isso sucedeu perto do fim de sua permanência ali, porque ele até já planejava retirar-se da cidade (vide 16:5-8)- Alguns têm opinado, com base em 16:10, que assevera: "E, quando Timóteo for ..." (consoante a tradução inglesa RSV, aqui vertida para o português), que Timóteo foi o portador da epístola aos coríntios. Entretanto, o trecho de Atos 19:22 (Atos 19.22: "Tendo enviado a Macedônia... Timóteo ... permaneceu ele mesmo algum tempo na Ásia [a província na qual Éfeso estava localizada].") sugere-nos que Timóteo es­tava na Macedônia por aquele tempo. Nossa Bíblia portuguesa, tal como a New American Standard Bible, dá a tradução mais correta de I Coríntios 16:10: "E, se Timóteo for..." (vindo da Macedônia). Dificilmente Paulo teria escrito a palavra "se", no caso de Timóteo ter sido o portador da epístola. Paulo procurara induzir Apolo, figura importantíssima, a que visitasse Corinto, provavelmente tencionando enviar por meio dele a primeira epístola aos Coríntios. Mas Apolo recusou-se a ir (vide 16:12). E em resultado, não sabemos quem levou a epístola a Corinto.


Motivos

O motivo pelo qual foi escrita a primeira epístola aos Coríntios é duplo: (1) relatórios orais provenientes dos familiares de Cloé, acerca das desavenças havidas na igreja (vide 1:11); e (2) a che­gada de uma delegação da parte da igreja de Corinto - Estéfanas, Fortunato e Acaico - ambas as visitas trazendo uma oferta (vide 16:17) e uma carta solicitando o parecer de Paulo sobre diversos problemas, aos quais ele aborda na epístola, sucessivamente, com a expressão introdutória: "Quanto ao que me escrevestes...", ou simplesmente, "No que se refere ..." (vide 7:1,25: 8:1; 11:2; 12:1; 15:1 e 16:1). Pelo menos isso é o que mais provavel­mente se pode inferir de 16:17 ("porque estes supriram o que da vossa parte faltava") e de 7:1 ("Quanto ao que me escrevestes"); de outro modo, aqueles homens meramente mitigaram o desejo de Paulo por ver pessoalmente aos crentes de Corinto, e a carta enviada de Corinto chegou a ele através de outras mãos. Cloé é um nome feminino. Os membros de sua casa, mencionados na epístola, provavelmente eram escravos. Não temos certeza se eles visitaram a Paulo em Éfeso, tendo chegado de Corinto, ou se de Éfeso tinham ido visitar Corinto, enviando relato disso a Paulo.


Ambiente da cidade

A cidade de Corinto estava localizada em um estreito istmo, entre os mares Egeu e Adriático. A viagem em torno do extremo sul da Grécia era perigosa. Muitos navios, por conseguinte, eram puxados ou tragados sobre toras rolantes, para o lado oposto do istmo, e novamente eram lançados ao mar. Diversos projetos que visavam à abertura de um canal foram abandonados por várias razões. Sendo cidade portuária, Corinto era extremamente cos­mopolita. Os jogos atléticos de Corinto só perdiam em importân­cia para os jogos olímpicos. O teatro aberto acomodava vinte mil pessoas, e o teatro fechado três mil. Templo, santuários e altares pontilhavam a cidade. Mil prostitutas sagradas se punham à dis­posição de qualquer um no templo da deusa grega Afrodite. O lado sul do mercado era ocupado por tabernas equipadas com cisternas subterrâneas, para esfriar as bebidas. Os arqueólogos têm descoberto muitas taças para servir beberagens, nessas adegas de licores; e algumas delas trazem inscrições como "Saúde", "Segurança", "Amor", ou nomes de divindades diversas.
Problemas da igreja

Era natural que uma igreja cristã em meio a uma socie­dade extremamente paganizada, como era a de Corinto, se achasse eivada de dificuldades. Em conseqüência, a primeira epístola aos Coríntios trata quase inteiramente dos problemas que serviam de praga para aquela igreja. Após a saudação inicial, em 1 Coríntios 1:1-9, onde Paulo agradece a Deus pela fé cristã de seus leitores, e, mais especialmente, pelos seus dons espiri­tuais, ele se atira a:

(1) Reprimendas em resposta ao relatório prestado pelos escravos de Cloé, acerca de:

Divisões - a igreja deveria unificar-se, mediante a humil­dade, à luz da cruz (1 - 4),

Um caso específico de imoralidade - a igreja deveria disci­plinar ao ofensor (5),

Pendências judiciais entre os crentes - a igreja precisava resolver tais litígios fora dos tribunais seculares (6:1-8), e

Imoralidade em geral - os crentes precisam viver virtuosa­mente (6:9-20).

(2) Respostas às indagações feitas na carta enviada pelos co­ríntios, concernentes a estas questões.

Matrimônio - casar-se é bom, mas nem sempre é o melhor para o crente (7),

Alimentos, particularmente carnes dedicadas aos ídolos - os crentes podem comê-los, mas deveriam refrear-se na presença daqueles em cujas mentes tais carnes estão reli­giosamente contaminadas (8:1 - 11:1),

Ordem na adoração pública, especificamente:

- Uso do véu pelas mulheres, nos cultos - as mulheres crentes devem demonstrar sua submissão mediante o uso do véu (11:2-16),

- Celebração da Ceia do Senhor - todos devem participar juntos em espírito de reverência e exame próprio (11:17­34), e

- Dons espirituais, sobretudo o falar em línguas - a igreja deveria dar menor importância ao falar em línguas e dar ênfase à profecia, mormente com o acompanhamento da virtude do amor (12 - 14)

Ressurreição - a crença na passada ressurreição de Cristo e na futura ressurreição dos crentes é crucial para a fé cristã (15), e

A coleta - a igreja deveria começar imediatamente a reco­lher a coleta para os crentes de Jerusalém, para que esti­vesse pronta quando da chegada de Paulo (16:1-9).

As observações, concludentes consistem de exortações mis­celâneas, saudações e notícias acerca das circunstâncias de Paulo e seus planos, juntamente com notícias sobre Timóteo e Apolo (vide 16:10-24).
Desunião

Ler 1 Coríntios 1-4. As facções existentes na assembléia cristã de Corinto se derivavam de sua veneração a heróis (vide 1:12). Os admiradores de Paulo eram-lhe leais como o fundador origi­nal da igreja local, mas Paulo não se aliou nem mesmo com seus próprios seguidores (vide, especialmente, 1:13). Os adeptos de Apolo aparentemente ficavam boquiabertos ante a sua grande eloqüência. Os seguidores de Cefas (Pedro) talvez formassem o segmento judaico da igreja, ou então fossem os tradicionalistas, que se escudavam na autoridade do primeiro líder do grupo apostólico. Os chamados seguidores de Cristo bem podem ter sido aqueles que não queriam sujar as mãos com aquelas desavenças, e, por isso mesmo, adotavam uma atitude distante e de superioridade espiritual. Alternadamente, a posição do próprio Paulo é expressa pelas palavras "Eu (sou) de Cristo", que conde­nava aqueles que seguiam meros líderes humanos. Os detalhes não são perfeitamente claros, mas parece que aquelas facções ti­nham sido originadas pelo culto a personalidades, e não devido a diferenças doutrinárias. Pelo menos todas as facções continua­vam reunindo-se num mesmo lugar, pois Paulo foi capaz de diri­gir a eles uma única epístola.

Em I Coríntios 1:14-17, Paulo afirma que se alegrava por não ter batizado a muitos dos coríntios. Não queria que as pessoas se sentissem orgulhosas por haverem sido batizadas por ele. Paulo não estava negando a validade do batismo - porquanto admite haver batizado a alguns - mas negava peremptoriamente que ele ou qualquer outro evangelista cristão deveriam batizar convertidos a fim de obter um grupo de adeptos. Pelo contrário, a tarefa propriamente dita dos evangelistas cristãos dificilmente chega a ser popular, porque a pregação acerca de um Salvador que mor­reu como se fora um criminoso ofende o orgulho humano e a sa­bedoria deste mundo. Em conseqüência a maioria dos crentes procede das camadas mais humildes da sociedade. Porém, o que a maioria deles não conta, no que concerne a passado formativo e a realizações, Cristo contrabalança: Ele é a sabedoria, a reti­dão, a santificação e a redenção deles (vide 1:18-31).

No segundo capítulo desta epístola, Paulo relembra que quando chegara a Corinto, vindo de Atenas, onde os filósofos, sábios à maneira mundana, tinham-no rejeitado, ele pregara a cruz de Cristo em fraqueza e tremor, e não com os artificiais mé­todos retóricos empregados pelos filósofos sofistas. Tais méto­dos, calculados a impressionar os ouvintes com a erudição e as habilidades do orador, destroem a eficácia da pregação do evan­gelho. Sem embargo, Paulo insiste em que ensinava uma genuína sabedoria. Tal sabedoria procede do Espírito Santo, o único que conhece a mente de Deus.

Por causa das facções existentes em Corinto, Paulo acusa de carnalidade, uma atitude pecaminosa, aos crentes dali. Explica ele ser errado jactarmo-nos de líderes humanos, porquanto os tais são meros homens. Adicione-se a isso que aqueles líderes são co­legas de labor, e não rivais (capítulos 3, 4). A seção se encerra com uma admoestação cujo escopo é a unidade entre os crentes. Fica implícito que os crentes podem preservar a unidade espiri­tual, se assim o quiserem e se esforçarem nesse sentido.
Imoralidade

Ler I Coríntios 5-7. Paulo ventila aqui o caso do indivíduo que estava convivendo com a mulher de seu próprio pai. Presumivel­mente era ela a madrasta do tal homem, porque Paulo não a identifica com mãe do mesmo. E aparentemente ela não era cristã, porquanto Paulo não prescreve qualquer punição para ela. Paulo repreende os crentes de Corinto devido à sua altivez arrogante, por tolerarem tão flagrante pecado em seu próprio meio, e ordena que fosse exercida disciplina na forma de exclu­são da comunhão da igreja, isto é, o ostracismo social e a exclu­são da Ceia do Senhor. O sexto capítulo inclui uma seção que proíbe os cristãos de ir a tribunal uns contra os outros. É possível que tal situação tivesse algum vínculo com o caso de incesto, pois a discussão ocorre no meio da reprimenda de Paulo a respeito da imoralidade. Paulo acautela seus leitores no sentido que a liberdade cerimonial não implica em libertinagem moral, e ressalta o fato que o corpo é sagrado, por ser templo do Espírito Santo.


Casamento e divórcio

Consoante o sétimo capítulo, o celibato voluntário é bom, mas, por causa do impulso sexual, Deus proveu o matrimônio para que se evitem as relações sexuais ilícitas, pelo que também, dentro do casamento, cada um dos cônjuges deveria dar-se total­mente ao outro. Paulo exprime o desejo que todos fossem livres de responsabilidades maritais, tal como ele mesmo o era, não porque o ascetismo seja espiritualmente superior, mas porque o crente solteiro pode devotar todas as suas energias na prédica do evangelho. No entanto, ele chega a reconhecer que, quanto a esse particular, a vontade de Deus varia de crente para crente. No tangente ao divórcio, Paulo já não se mostra tão flexível. O divórcio atingira proporções epidêmicas em algumas classes da sociedade no império romano. Paulo reitera o ensinamento de Jesus contra o divórcio até o ponto em que estão envolvidos os casais cristãos. Todavia, as palavras de Jesus não cobrem o pro­blema de esposos ou esposas que só se converteram após estarem casados, e cujos cônjuges não se associaram a eles na pro­fissão cristã. Por conseguinte, Paulo aconselha que o esposo ou a esposa crente, continue no convívio com seu cônjuge sem­pre que exeqüível, pelo menos em parte, pois o cônjuge incré­dulo, e quaisquer filhos que o casal venha ter, em certo sentido são separados por Deus, devido ao fato que o testemunho evan­gélico se faz bem presente naquele lar. Todavia, se o cônjuge in­crédulo insistir em romper os laços matrimoniais, então o côn­juge crente "não fica sujeito à servidão" (versículo 15). Quer es­sas palavras signifiquem que o crente não está obrigado a buscar reconciliação, quer elas queiram dizer que o crente está livre para casar-se novamente, dentro da comunidade cristã (comparar com a fraseologia do versículo 39), o fato é que não sabemos opinar entre as duas possibilidades. O esclarecimento dado por Paulo de que essas instruções eram dele mesmo, e não do Senhor (versículos 10 e 12) não subentende que lhe falta autoridade, mas tão-somente que Jesus não lhe revelara sobre tais pormenores, e, por conseguinte, Paulo se via forçado a apresentar sua própria doutrina, como alguém que recebera do Senhor "a misericórdia de ser fiel", possuidor do Espírito Santo (versículos 25 e 40).

A porção final do sétimo capítulo, mormente os versículos 36 ss., está prenhe de difíceis problemas de interpretação. Estaria Paulo aludindo a matrimônios espirituais, que jamais se concretizaram? Estaria falando a noivos? ou apenas a namorados? Ou se dirigia a um pai crente, sua filha e o noivo dela? Não obstante, as lições principais são claras. Por uma parte, o matrimônio não pode ser condenado com base no ascetismo. Por outra parte, não deve ser contraído o matrimônio somente por motivo de pressão social. Pessoas solteiras geralmente podem ter vidas mais plenas, mais ricas e mais produtivas do que pessoas casadas. Em tudo isso Paulo frisa a natureza crítica do período em que os cristãos estão vivendo. Talvez o apóstolo tivesse em mente a possibili­dade da volta do Senhor, uma possibilidade que daria um senso de urgência a cada geração de cristãos.
Alimentos dedicados a ídolos

Muito importa compreender o pano-de-fundo da discussão paulina a respeito dos alimentos associados à adoração idólatra. No antigo mundo pagão, os santuários eram os principais supri­dores de carne verde para consumo humano. Portanto, a maior parte da carne que se vendia nos açougues fora dedicada a algum ídolo. Os deuses pagãos recebiam uma porção simbólica, ofere­cida em holocausto sobre um altar - e usualmente não era um "pedaço seleto", para dizer a verdade! Após uma refeição sacra­mental em companhia do adorador, os sacerdotes ofereciam à venda ao público a carne restante. Os judeus, contudo, usual­mente adquiriam carne nos açougues de judeus, onde podiam ter a certeza que a carne não fora consagrada a alguma divindade pagã. Deveriam os cristãos ser tão escrupulosos quanto os ju­deus? Ler I Coríntios 8:1 - 11:1.

Paulo defendia a liberdade do crente de comer tais carnes, mas faz uma advertência a seus leitores, para que não permitissem que o exercício de tal liberdade viesse a produzir dano a pessoas sem consciência bem formada. Em outras palavras, um cristão que perceba que os ídolos não tem existência divina real, pode comer carnes dedicadas a ídolos sem qualquer prejuízo para a sua consciência. Porém se pessoas que imaginam que os ídolos possuem real existência divina estiverem observando, então um crente melhor informado deveria refrear-se de comer tal carne, para não suceder que fique danificada a vida cristã de cristãos desinformados, e para que não venha ele a perder seu testemu­nho perante os incrédulos.

Deve-se notar que o equilíbrio entre a liberdade e a "lei do amor" envolve somente questões cerimoniais e outras, as quais são neutras da perspectiva da moralidade. Paulo adverte que em­bora ele estivesse permitindo o consumo judicioso de carnes de­dicadas a ídolos, sob hipótese alguma ele permitia a participação em festividades idólatras, vinculadas que estão à adoração pagã. (Os templos pagãos com freqüência contavam com salas de jan­tar auxiliares, onde havia refeições sociais e de cunho religioso.) Seria uma crassa incoerência para um crente participar tanto da Ceia do Senhor como das ceias associadas a uma adoração a fal­sas divindades, inspirada pelos próprios demônios. Paulo destaca que quando, nos dias do Antigo Testamento, Israel se associou a festividades pagãs, também caiu em formas de adoração pagã que só conduzia à imoralidade.


O uso do véu

As instruções de Paulo concernentes ao uso do véu pelas mu­lheres também requerem conhecimento sobre os costumes que prevaleciam na antigüidade. Era apropriado que uma mulher de respeito, no império romano, usasse véu em público. Tarso, a ci­dade natal de Paulo, se notabilizara por sua aderência estrita a essa regra de decoro. (Dio de Prusa, Tarsica prior § 48.) O véu cobria a cabeça, e não o rosto. Era, ao mesmo tempo, símbolo da subordinação da mulher ao homem e do respeito que a mulher merece. As mulheres cristãs de Co­rinto, no entanto, mui naturalmente estavam seguindo os costu­mes das mulheres gregas, as quais conservavam a cabeça desco­berta quando adoravam. (Vide Viewes of the Biblical World (Jerusalém: Internacional, 1961),vol. 5, p.228.) Por conseguinte, Paulo assevera que é vergonhoso uma mulher cristã orar ou profetizar na igreja com a cabeça sem véu. Por outro lado, Paulo se manifesta contraria­mente à prática dos homens judeus e romanos, os quais oravam com a cabeça coberta, e ordena que os varões crentes orem e profetizem de cabeça descoberta, como sinal da autoridade de que estão investidos. Ler I Coríntios 11.2-34.


Ceia do Senhor

Na metade final do capítulo 11, Paulo assevera que as divi­sões faccionárias existentes na igreja de Corinto transmutavam em escárnio os seus cultos de comunhão, os quais deveriam ser ocasiões de companheirismo cristão. Os coríntios celebravam a Ceia do Senhor em conjunção com um banquete de amor cristão, uma espécie de ceia trivial na igreja, correspondente à refeição da Páscoa, durante a qual Jesus instituiu a Ceia do Senhor. Alguns deles chegavam mais cedo ao lugar de reunião, ingeriam sua re­feição e tomavam da Ceia antes de haverem chegado os outros, que talvez tivessem de trabalhar por mais horas. Alguns daqueles estavam mesmo ficando embriagados. Por conseguinte, Paulo or­denou a descontinuação desses banquetes de amor, ordenou que se esperasse até à chegada dos atrasados, e aconselhou a intros­pecção e a reverência. Sua repetição a respeito da Última Ceia se deriva da tradição anterior aos evangelhos sinópticos, tradição essa apoiada sobre o ato do próprio Senhor Jesus. "...eu re­cebi..." (11:23) era a forma técnica de expressar o recebimento de uma tradição da parte de outrem.


O flar em línguas

Os charismata (dons) e a glossolalia (falar em línguas) compõem o tema dos capítulos doze a catorze. Muitos asseguram que a glossolalia aqui ventilada por Paulo consistia de falar em estado de êxtase, não se parecendo com idiomas humanos bem arquite­tados. De fato, Paulo afirma que sem o dom da interpretação nem mesmo aquele que fala em línguas sabe o que está dizendo. Entretanto, "interpretação" usualmente significa tradução. Assim sendo, ao que parece, o falar em línguas era um falar mira­culoso, em um idioma qualquer não previamente aprendido. E assim, as línguas algumas vezes eram ininteligíveis, não por se­rem balbucios estáticos e não puros idiomas, mas porque, em al­gumas ocasiões, nem aquele que falava e nem qualquer pessoa da audiência possuía o dom igualmente miraculoso da tradução. (Vide ainda R. H. Gundry, " 'Ecstatic Utterance' (N- E- B.)? "Journal of Theological Studies. N.S., 17 (1966), págs. 299-307)

Por valorizarem em demasia a glossolalia, os crentes de Co­rinto abusavam desse dom. Paulo o desvaloriza, e insiste em que seu uso deveria ser ordeiro e limitado. Às expensas da glossolalia, ele exalta dons espirituais superiores, sobretudo a profecia, que era alguma direta revelação de Deus, necessária na Igreja primi­tiva, em lugar das Escrituras do Novo Testamento. Acima de tudo, Paulo exalça a ética cristã do amor, na prosa-poema do fa­moso décimo terceiro capítulo. Ler I Coríntios 12 - 14.

O conceito paulino da Igreja como o corpo de Cristo se evi­dencia com grande proeminência no capítulo doze. Em 14:34,35, dificilmente pode ser tomada em sentido absoluto a proibição das mulheres falarem na igreja, porquanto Paulo acabara de dar instruções, no décimo primeiro capítulo, acerca do uso do véu pelas mulheres, quando orassem ou profetizassem durante a ado­ração pública. "Se, porém, querem aprender alguma coisa, inter­roguem, em casa, a seus próprios maridos..." (14:35), são pala­vras que sugerem que Paulo estava proibindo a interrupção do culto na igreja, por parte de mulheres indagadoras, e que talvez também se entregassem a conversas capazes de quebrar a aten­ção, se porventura se sentassem separadas dos homens, con­forme se vê nas sinagogas judaicas.


Ressurreição

Paulo aborda em seguida o tópico da ressurreição do corpo, um conceito estranho para o pensamento grego. Alguns atenien­ses, inteiramente céticos ou quando muito esperançosos quanto à imortalidade da alma, tinham escarnecido de Paulo ao aludir o apóstolo à ressurreição do corpo. Pois pensavam que o corpo serve de empecilho para a alma, e assim não haveriam de querer acreditar na ressurreição. (Ver Atos 17:32 e pág. 265) Essa predisposição contra a doutrina da ressurreição física estava levando alguns crentes coríntios a duvidar e mesmo a negar a futura ressurreição. Por enquanto não negavam ainda a ressurreição de Cristo, mas Paulo podia perce­ber que esse seria o resultado lógico daquela maneira de pensar. Por conseguinte, argumenta ele com base na passada ressurrei­ção de Cristo, como um fato comprovado, e daí passa para a fu­tura ressurreição dos homens. E ele tinha os crentes particular­mente em mira.

O grande capítulo sobre a ressurreição tem início com um fa­moso sumário do evangelho, bem como uma lista de aparições do Cristo ressurreto, o que Paulo jamais teria ousado incluir com tão desabrida confiança, a menos que, de fato, houvesse testemu­nhas disponíveis. Ao registrar. "...eu recebi...", no tocante a esse material, Paulo indica que estava citando uma declaração con­fessional extraída da tradição cristã, mais antiga que a data da es­crita de I Coríntios. Avança o apóstolo para a descrição do corpo ressuscitado e para uma analogia entre a morte em Adão e a vida em Cristo. Alguns rabinos ensinavam que o corpo ressuscitado será exatamente idêntico ao corpo físico atual. Paulo afirma que não - e o corpo ressuscitado terá continuidade com o corpo pre­sente, mas estará adaptado às condições espirituais da existência eterna e celestial. Esse capítulo chega a seu zênite em uma explo­são de louvor triunfal. Ler I Coríntios 15.

Várias explicações têm sido aventadas para a alusão ao ba­tismo pelos mortos, no versículo vinte e nove. Talvez se refira meramente àqueles que se convertiam e eram batizados impul­sionados pelo desejo de se reunirem a seus entes amados e ami­gos crentes, por ocasião da ressurreição. Ou talvez Paulo aludisse a um batismo vicário no sentido mais prenhe, embora tenha lan­çado mão da idéia apenas como um argumento, sem jamais ter querido dar a entender uma prática real ("...que farão eles ...?" e “...por que se batizam eles por causa deles?", em oposição a "nós", que figura no próximo versículo). Noutras palavras, Paulo estava frisando a incoerência daqueles que se submetiam a ba­tismo em favor dos próprios mortos cuja futura ressurreição eles negavam. O combater "com feras", no versículo trinta e dois, mui provavelmente é conceito usado como metáfora. (Comparar com a carta de Inácio a Roma, v.1.)


A oferta e miscelâneas

O capítulo que forma a conclusão encerra diversas exortações, tal como a de separar algum dinheiro para a oferta que Paulo ha­veria de coletar, quando de sua chegada, e que levaria a Jerusa­lém, em companhia de delegados autorizados da igreja. O versí­culo vinte e dois contém uma importante expressão aramaica, "Maranata'!", a qual quer dizer "Ó nosso Senhor, vem!" (com­parar com Apocalipse 22:20). E isso, por sua vez, demonstra que a designação de Jesus como Senhor retrocede até aos dias em que os discípulos de Jesus se comunicavam em aramaico, não po­dendo, por isso mesmo, ser atribuída ao cristianismo posterior, que falava o grego - contrariamente à opinião de alguns eruditos modernos, que afirmam que o conceito de Jesus como figura di­vina foi um desenvolvimento bastante tardio, não fazendo parte original das idéias nem de Jesus e nem da igreja mais primitiva. Ler I Coríntios 16.


ESBOÇO SUMÁRIO DE I CORÍNTIOS
Tema: os problemas da igreja de Corinto e as suas soluções.

INTRODUÇÃO: Saudação à igreja de Corinto e ações de graças a seu respeito (1:1-9)

I. REPRIMENDAS ANTE O RELATÓRIO DE ESCRAVOS DA CASA DE CLOÉ (1:10 - 6:20)

A. As divisões e a necessidade de sua cura, mediante o reconhecimento da débil humanidade dos líderes cristãos e seus seguidores, em confronto com o poder de Deus no evangelho (1:10 - 4:21)

B. O caso do homem que convivia com sua madrasta e a necessidade de disci­plinar o ofensor através do ostracismo (5:1-13)

C. Pendências judiciais entre os crentes e a necessidade de solucioná-las pela igreja, fora dos tribunais seculares (6:1-8)

D. A imoralidade em geral e a necessidade dos crentes viverem virtuosa­mente, mediante o Espírito Santo que neles habita (6:9-20)

II. RESPOSTAS ÀS PERGUNTAS FEITAS EM CARTA ENVIADA A PAULO PELOS CORÍNTIOS (7:1 - 16:9)

A. Matrimônio, sua excelência essencial, apesar de ser vantajoso a alguns permanecerem solteiros, a restrição ao divórcio e uma exortação à recon­ciliação de cônjuges separados (7:1-40)

B. Alimentos, sobretudo carne, oferecidos a ídolos, permitidos aos crentes, contanto que não abusem da permissão para prejudicar as consciências dos débeis espirituais ou para participar de banquetes idólatras (8: I - 11: I )

C. A ordem na adoração pública (11:2 - 14:40)

1. Uso de véu pelas mulheres que participam do culto nas igrejas, sua e­xigência em sinal de submissão ao homem (11:2-16)

2. A Ceia do Senhor era desonrada na igreja de Corinto pela desunião e devassidão, e também a necessidade de reverência e de desconti­nuar as festas de amor (11:17-34)

3. Os dons espirituais (12:1 - 14:40)

a. Diversidade de funções dentro da unidade da Igreja, como Corpo de Cristo (12:1-31)

b. A supremacia do amor (13:1-13)

c. Superioridade da profecia e inferioridade do falar em línguas, com regras tendentes à boa ordem, incluindo a proibição de interrupção dos cultos por mulheres (14:1-40)

D. A ressurreição, tanto a de Cristo, no passado, quanto a dos crentes, no futuro, e sua importância crucial para a fé cristã (15:1-58)

E. A coleta para a igreja de Jerusalém, seu modo de recolhimento e sua en­trega (16:1-9)

CONCLUSÃO: Visita vindoura de Timóteo a Corinto, a negativa, de Apolo, exortações miscelâneas, saudações e bênção finais (16:10-24).


Para discussão posterior:
- Como será possível obter o equilíbrio certo entre a unidade e a pureza da Igreja, sem fazer que uma coisa cancele a outra?

- Como deveríamos avaliar o moderno movimento ecumênico, que visa à unidade da Igreja?

- Em que se comparam os estritos preceitos paulinos contra a imoralidade e a sua ênfase sobre o amor, em relação à "nova moralidade"?

- Como é possível a disciplina eclesiástica, aplicada a membros rebeldes, quando hoje em dia alguém excluído de uma igreja pode ser admitido por outra? Qual é a "seriedade" necessária para que um pecado leve à exclusão do ofensor?

- Quais questões correntes sobre a conduta cristã se encaixam com razão dentro da área da liberdade privada e da responsabili­dade pública?

- Por que a maioria das igrejas não requerem que as mulheres participem dos cultos públicos usando seus véus?

- O Espírito Santo continua outorgando os dons da profecia e da glossolalia, e, nesse caso, seus recebedores exercem-nos segundo a maneira prescrita por Paulo?

- Do ponto de vista da ciência moderna, como poderia haver continuidade entre o corpo mortal e o corpo ressuscitado?


Para investigação posterior:
(Comentários sobre I Coríntios)
Morris, L. The First Epistle of Paul to the Corinthians. Grand Rapids: Eerdmans, 1958.

Grosheide, F.W. Commentary on the First Epistle to the Corinthians. Grand Ra­pids: Eerdmans, 1953.

Thrall, M. E. The First and Second Letters of Paul to the Corinthians. Cambridge University Press, 1965.
(Livros sobre tópicos que figuram em I Coríntios)
Bromiley, G.W. The Unity and Disunity of the Church. Grand Rapids: Eerdmans, 1958.

Bainton, R.H. What Christianity Says About Sex, Love and Marriage. Nova Ior­que: Association, 1957. Do ponto de vista de uma pesquisa histórica.

Lewis, C.S. The Four Loves. Nova Iorque: Harcourt, Brace,1960. Para compa­rar com I Coríntios 13

Martin, R.P., Worship in the Early Church. Westwood, Nova Jérsei. Revell, 1964.

Hoekema, A.A. What About Tongue-Speaking? Grand Rapids: Eerdmans, 1966.

Dahl, M.E. The Resurrection of the Body. Londres: SCM, 1962. Uma interpreta­ção de 1 Coríntios 15 que levanta algumas provocativas perguntas.



II CORÍNTIOS: CONCEITOS DE PAULO SOBRE SEU PRÓPRIO MINISTÉRIO
Perguntas Normativas:
- Após ter sido escrita a primeira epístola aos Coríntios, que si­tuações entre aquela igreja e Paulo deram azo à escrita da se­gunda epístola aos Coríntios?

- Qual era a atitude sentimental da igreja em Corinto e de Paulo ao tempo em que ele escreveu II Coríntios?

- Qual era a imagem apostólica que Paulo tinha de si mesmo, conforme se pode apreciar em sua apologia em II Coríntios?
Tema

Mais do que qualquer das demais epístolas de Paulo, II Corín­tios permite-nos entrever os sentimentos íntimos do apóstolo so­bre si mesmo, sobre seu ministério apostólico e sobre seu relacionamento com as igrejas que fundava e nutria. Conforme certas considerações, portanto, esta epístola é autobiográfica em seu tom, embora não em seu arcabouço e nem quanto a seu conteúdo total.


A visita dolorosa

Após ter escrito de Éfeso a primeira epístola aos Coríntios, Paulo sentira ser necessário fazer uma "visita dolorosa" a Co­rinto e voltar - dolorosa por causa das relações tensas entre Paulo e os crentes dali, naquele tempo. Lucas não registra essa visita no livro de Atos. Entretanto, ela pode ser deduzida dos trechos de II Coríntios 12:14 e 13:1,2, onde Paulo alude à sua futura visita com a "terceira" que faria. Se não levarmos em conta essa inferida vi­sita dolorosa, então até aquela altura Paulo só visitara Corinto por uma vez. A declaração constante em II Coríntios 2:1: "Isto delibe­rei por mim mesmo: não voltar a encontrar-me convosco em tris­teza", subentende que houvera no passado uma visita dolorosa, a qual dificilmente pode ser identificada com a primeira vez em que Paulo permaneceu com aqueles crentes, levando-lhes as ju­bilosas boas novas da salvação por intermédio de Jesus Cristo.


A carta triste perdida

Sem importar com que razão Paulo fizera aquela breve e dolo­rosa visita, parece que ele não alcançou êxito em suas tentativas de trazer a igreja de volta à conduta reta. Ao retornar a Éfeso, pois, ele escreveu a agora perdida "carta triste" a Corinto, a qual a princípio ele se lamentava por ter enviado (vide II Coríntios 2:4 e 7:8 - as descrições dificilmente se harmonizam com I Coríntios). Essa é a segunda carta perdida que Paulo escrevera aos corín­tios. A carta dolorosa determinava a disciplina eclesiástica con­tra certo indivíduo desregrado e estrepitoso, que encabeçava a oposição a Paulo na igreja de Corinto (vide II Coríntios 2:5-10). Tito fora o portador dessa carta a Corinto. Entrementes, sabendo que Tito retornaria por meio da Macedônia e de Trôade, e an­sioso por saber, da parte de Tito, qual tinha sido a reação dos crentes de Corinto, Paulo partiu de Éfeso e foi esperar a Tito em Trôade. E como Tito se demorasse muito, Paulo prosseguiu via­gem até a Macedônia, onde finalmente se encontrou com Tito, o qual lhe deu as boas novas que a igreja coríntia, como um todo se arrependera de sua insubmissão contra Paulo, tendo discipli­nado o líder da oposição ao apóstolo (vide II Coríntios 2:12,13 e 7:4-16).


Motivos de II Coríntios

Paulo escreveu a segunda epístola aos Coríntios estando na Macedônia, no decurso de sua terceira viagem missionária, a fim de (1) expressar seu alívio e satisfação ante a reação favorável da maioria da igreja de Corinto, e ao fazê-lo descreve seu ministério em termos pessoais os mais vívidos (capítulos 1 - 7); (2) ressaltar a coleta que recolheria dentre eles para levá-la aos crentes de Jeru­salém (capítulos 8 e 9); e (3) defender sua autoridade apostólica diante da ainda recalcitrante minoria (capítulos 10 - 13).


SUMÁRIO DAS RELAÇÕES ENTRE PAULO E A IGREJA DE CORINTO
Paulo evangelizou Corinto em sua segunda viagem missio­nária.

Paulo escreveu uma carta perdida a Corinto, na qual ordenava que os cristãos se separassem de crentes profanos que vives­sem na imoralidade.

Paulo escreveu I Coríntios em Éfeso, durante a sua terceira viagem missionária, a fim de abordar diversos problemas da­quela igreja.

Paulo fez uma breve e "dolorosa" visita a Corinto, tendo par­tido de Éfeso e para ali voltado, afim de corrigir problemas em Corinto, mas não conseguiu realizar o seu propósito.

Paulo enviou outra carta perdida, chamada a "carta triste", na qual ordenava aos coríntios que disciplinassem seu principal oponente na igreja.

Paulo deixou Éfeso e ansiosamente aguardou Tito em Trôade, e então na Macedônia.

Tito finalmente chegou com as boas novas de que a igreja dis­ciplinara ao oponente de Paulo, e que a maioria dos crentes coríntios se submetera à autoridade de Paulo.

Paulo escreveu II Coríntios estando na Macedônia (ainda du­rante a terceira viagem missionária), em resposta ao relatório favorável de Tito.


Integridade de II Coríntios

Tem-se argumentado que o trecho de II Coríntios 10 - 13 é, pelo menos, uma porção da carta triste que se "perdeu", por­quanto Paulo muda de tom, pois fala jubilosamente nos capítulos um a nove, mas passa para a defesa própria nos capítulos dez a treze. Porém, essa distinção não se verifica com toda a coerên­cia, pois também há auto-defesa nos capítulos um a nove (vide 1:17 ss.: 2:6,17; 4:2-5 e 5:12,13). A diferença de ênfase se deve ao fato que Paulo dirigia a palavra primariamente à maioria peni­tente, nos capítulos primeiro e nono, e à minoria ainda recalci­trante, nos capítulos dez a treze. (Outros têm sugerido que novas notícias de uma reavivada oposição forçaram Paulo a mudar seu tom, do décimo capítulo em diante.) Certo número de considera­ções milita contra a divisão da segunda epístola aos Coríntios em duas epístolas originalmente separadas: (1) deveríamos esperar que os capítulos 10 - 13 teriam precedido os capítulos 1 - 9, se ti­vessem sido escritos antes, como a carta triste; (2) embora firme em seu tom, os capítulos 10 - 13 dificilmente exprimem tristeza; (3) os capítulos dez a treze nada contêm acerca de um insultuoso comportamento do cabeça da oposição a Paulo, e, no entanto, esse foi o tema da carta triste, conforme II Coríntios 2:1 ss.: (4) o trecho de II Coríntios 12:18 menciona uma visita anterior feita por Tito, a qual deve ter sido feita para entregar a carta triste, mas, de acordo com a teoria da divisão da epístola em duas, o trecho em apreço faz parte da epístola triste!


Repasse das relações passadas e presentes

Paulo dá início à epístola com saudação e ações de graças pelo conforto dado por Deus em meio a perseguições e adversidades. Então começa a descrever seu ministério como caracterizado pela sinceridade e pela santidade. Defende-se contra a acusação de vacilação - por não ter cumprido a promessa ameaçadora de uma outra visita - afirmando que suas palavras eram justas e tão positivas quantas são as promessas divinas em Cristo e expli­cando que ele adiara um pouco a sua visita a fim de dar-lhes tempo de se arrependerem, pois isso lhe permitiria chegar em meio a circunstâncias mais felizes do que se tivesse partido ime­diatamente para Corinto. Satisfeito porque a igreja coríntia dis­ciplinara seu principal oponente, Paulo aconselha que fosse res­taurado à comunhão o tal indivíduo. Isso ficaria demonstrado es­pecialmente através da permissão para ele participar novamente da Ceia do Senhor. A seção se encerra com uma metáfora de Cristo como um general vitorioso à testa de um cortejo triunfal, a entrar em Roma, além de uma outra metáfora na qual os crentes coríntios, convertidos de Paulo como eram, figuram como uma carta de recomendação em favor de Paulo, escrita pelo próprio Cristo, Ler II Coríntios 1:1 - 3:3.


O ministério do Evangelho

Ato contínuo, Paulo descreve a superioridade do evangelho em relação à lei de Moisés. O fato que a glória de Deus, estam­pada no rosto de Moisés, já se ia dissipando quando ele descia do monte Sinai, representa a natureza temporária do pacto mosaico. Agora estamos desvinculados da lei e de sua condenação. Mas, tal e qual Moisés refletia a glória passageira da antiga aliança, nós deveríamos refletir a glória maior, crescente e permanente do novo pacto. Quão admirável é que Deus tenha confiado a prega­ção de Seu glorioso evangelho do novo pacto a pobres e fracos seres humanos! Todavia, a despeito de sentirmos nossa própria debilidade, conforme escreve Paulo, não desesperamos. Pois a es­perança da ressurreição faz-nos olvidar nossos atuais perigos físi­cos quando pregamos o evangelho. Sentindo profundamente a imensidade do privilégio e da responsabilidade que lhe cabia, como ministro da nova aliança, Paulo reivindica para si uma ati­tude consciente e íntegra, sem importar quão adversas ou quão favoráveis forem as condições de seu ministério. Ler II Coríntios 3:4 - 7:16.


Separação

Na digressão existente em II Coríntios 6:11 - 7:1, Paulo retrata a vida separada do pecado como uma experiência que amplia nossos horizontes, ao invés de estreitá-los. Alguns estudiosos têm pensado que essa digressão faz parte da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, que se perdeu, a qual é aludida em I Corín­tios 5:9: "Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros." Mas, por que um excerto daquela carta teria sido inse­rido aqui é difícil de entender; e a evidência fornecida pelos manuscritos em nada indica que o trecho de II Coríntios 6:11 - 7:1 não pertencia originalmente à segunda epístola de Paulo àqueles crentes.


A oferta

Pleiteando em favor de uma oferta generosa em prol da igreja de Jerusalém, Paulo alude à liberalidade dos crentes macedô­nios como digna de imitação, e mais digno ainda de emulação é o auto-sacrifício de Cristo. Noutra oportunidade talvez vós é que estejais precisando de ajuda, argumenta Paulo. Outrossim, vós vos apegastes intensamente a essa idéia de uma oferta, quando eu a mencionei diante de vós pela primeira vez, há algum tempo atrás. Não queirais provar ser infundada a minha ufania diante dos macedônios, por causa de vosso zelo. Ler II Coríntios 8 e 9.


Apologia

Os oponentes de Paulo tinham-no acusado de ser ousado quando ausente, mas de ser covarde quando presente. Por esse motivo, relembra ele a seus leitores que a mansidão é virtude de Cristo; mas, à semelhança de Cristo, ele poderia ser ousado na presença deles, se assim o quisesse, e assim realmente faria, se necessário, embora no Senhor, e não por iniciativa própria. Ler II Coríntios 10 -13. Nesses capítulos, o apóstolo apresenta as cre­denciais de seu ministério apostólico a saber: sua sinceridade como pregador (nem mesmo aceitava salário da parte dos cren­tes de Corinto), seus variegados sofrimentos, as revelações espe­ciais que recebera de Deus e os prodígios miraculosos que ope­rava. Porém, Paulo procurou resguardar-se ciosamente do orgu­lho jactancioso, reiterando com insistência que os recalcitrantes de Corinto é que o forçavam a escrever daquela maneira, e tam­bém mencionando suas debilidades, mormente seu "espinho na carne " (12:7-10). Entre as opiniões propostas acerca da identifi­cação desse espinho, podemos mencionar a epilepsia, alguma doença dos olhos, a malária, a lepra, a enxaqueca, momentos de depressão, a gagueira, ou os falsos mestres. A epístola se fecha com um apelo para que sua visita vindoura não se tenha de tor­nar em ocasião para repreender novamente àqueles crentes. (Alguns identificam os oponentes de Paulo em Corinto, pelo menos em parte, com os gnósticos, por ter ele enfatizado o autêntico conhecimento espiritual na sua réplica; mas o fato de ter apelado para seu passado judaico (11:21,22) parece mostrar que esses oponentes eram os judaizantes.)


ESBOÇO SUMÁRIO DE II CORÍNTIOS
Tema: conceito paulino sobre seu próprio ministério, conforme se vê em seu relacionamento para com a igreja de Corinto

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

I. RELAÇÕES ENTRE PAULO E A IGREJA DE CORINTO COM ALUSÃO ESPECIAL A MAIORIA A ELE AGORA FAVORÁVEL (1:3 - 7:16)

A. Ação de graças pelo consolo e proteção divinos (1:3-11)

B. Paulo explica por que não visitara ainda Corinto, não por vacilação teme­rosa, mas por não querer fazer outra visita dolorosa (1:12 - 2:4)

C. Instrução para restauração do opositor de Paulo, agora penitente, por haver sido disciplinado, e o perdão dado por Paulo (2:5-11)

D. Descrição interna do ministério de Paulo (2:12 - 6:10)

1. Ansiedade por não ter vindo Tito a Trôade (2:12,13)

2. Ação de graças pela confiança triunfante em Cristo (2:14-171

3. A carta viva de recomendação sobre o ministério de Paulo: os próprios convertidos de Corinto (3:1-3)

4. Superioridade do novo pacto em relação ao antigo (3:4-18)

5. A determinação de Paulo por cumprir o seu ministério (4:1 - 6:10)

E. Apelo em prol do afeto mútuo e para que os crentes de Corinto se separas­sem dos incrédulos (6:11 - 7:4)

F. Satisfação ante o relatório de Tito, trazido à Macedônia, de que a maioria da igreja de Corinto se arrependera de sua oposição a Paulo (7:5-16)

II. EXORTAÇÃO SOBRE A CONTRIBUIÇÃO PARA A COLETA PARA A IGREJA DE JERUSALÉM (8:1 - 9:15)

A. O exemplo dos crentes da Macedônia (8:1-7)

B. O exemplo de Jesus (8:8,9)

C. O ideal de igualdade (8:10-15)

D. Chegada de Tito e outros, para receberem a coleta (8:16 - 9:5)

E. A recompensa divina pela liberalidade (9:6-15)

III. RELAÇÕES ENTRE PAULO E A IGREJA CORÍNTIA, MORMENTE A MINORIA AINDA RECALCITRANTE (10:1 - 13:10)

A. Defesa de Paulo contra as acusações de fraqueza e covardia (10:1-11)

B. A justa reivindicação de Paulo sobre os coríntios como seus convertidos (10:12-18)

C. Preocupação de Paulo quanto ao perigo dos falsos mestres em Corinto (11:1-6)

D. Paulo recusava-se a aceitar apoio financeiro dos coríntios (11:7-15)

E. Vantagens paulinas por seus antepassados judeus e por seus serviços cris­tãos, incluindo seus sofrimentos por motivo de perseguições (11:16-33)

F. As visões de Paulo e o espinho na carne (12:1-10)

G. Os milagres apostólicos de Paulo (12:11-13)

H. A futura visita de Paulo a Corinto, com a ameaça de mostrar-se severo e um apelo em prol do arrependimento (12:14 - 13:10)

CONCLUSÃO: exortações e saudações de despedida, e uma bênção (13:11-14).


Para discussão posterior
- Por quais razões históricas e teológicas duas das cartas de Paulo à igreja de Corinto podem ter-se perdido? É possível que, se tivessem sido preservadas, teriam sido aceitas no "cânon" pela Igreja? Como deveriam elas ser acolhidas agora, no caso de vi­rem a ser descobertas?

- Em que as observações paulinas sobre a mordomia cristã do dinheiro (vide II Coríntios 8 e 9) podem ser comparadas com a lei do dízimo do Antigo Testamento?

- Por que Paulo "não virou a outra face", ao invés de defender-se de ataques pessoais?

- Reconstitua o perfil da personalidade de Paulo com base na mais reveladora de suas epístolas, quanto ao seu próprio caráter.


Para investigação posterior:
Tasker, R. V.G. The Second Epistle of Paul to the Corinthians. Londres: Tyndale, 1958.

Hughes, P.E. Paul's Second Epistle to the Corinthians. Grand Rapids: Eerdmans, 1962.

Thrall, M. E. The First and Second Letters of Paul to the Corinthians. Cambridge University, Press, 1965.

ROMANOS: O DOM DA RETIDÃO DIVINA POR MEIO DA FÉ EM CRISTO
Perguntas Normativas:
- Qual foi a origem da igreja em Roma, e de que pessoas se compunha ela?

- O que levou Paulo a escrever à igreja de Roma, embora ja­mais a tivesse visitado?

- Qual é a progressão, passo a passo, dessa explanação mais sistemática de todas que Paulo escreveu do evangelho?
Tema

O grande tema da epístola aos Romanos é a justificação pela graça divina, mediante a fé em Jesus Cristo. Jesus deixou implí­cita essa doutrina nas parábolas do filho pródigo, do fariseu e do publicano, dos trabalhadores da vinha que receberam igual salário, e da grande ceia. Subentendido idêntico jaz por detrás de Sua as­sertiva: "... não vim chamar justos, e, sim, pecadores" (Marcos 2:17), como também por detrás do modo como tratou com Za­queu (vide Lucas 19:1-10). Por conseguinte, Paulo não inovou a doutrina do perdão gratuito, apesar de havê-la desenvolvido segundo seu estilo todo pessoal. Essa doutrina recebe sua aborda­gem mais sistemática exatamente nesta epístola de Paulo à igreja de Roma.


Fundação da Igreja de roma

Clemente de Roma, pai da Igreja primitiva, sugeriu que Paulo e Pedro foram martirizados em Roma. Pela época de Tertuliano (primórdios do século III D.C.). a Igreja de modo geral, já tinha aceitado essa tradição. Entretanto, a igreja local de Roma mui provavelmente não foi fundada por apóstolo nenhum, certa­mente não por Paulo e quase tão certamente nem por Pedro. Conforme já pudemos observar, o historiador romano Suetônio escreveu que o imperador Cláudio baniu de Roma aos judeus, em 49 ou 50 D.C., por motivo das agitações havidas por instiga­ção de alguém chamado "Chrestus", provavelmente uma errô­nea soletração de "Christus" (forma latina de Cristo). Se assim realmente sucedeu, então por esse tempo já chegara a Roma o cristianismo. No entanto, Pedro continuava em Jerusalém por ocasião do concílio de Jerusalém, que se desenrolou em cerca de 49 D.C. Outrossim, Paulo não faz alusão alguma a Pedro, e nem envia saudações ao apóstolo Pedro, em sua epístola aos Roma­nos. Quiçá alguns dos judeus e prosélitos residentes em Roma, que tinham estado em Jerusalém no dia de Pentecoste e ali se tornaram cristãos, levaram de volta a Roma o evangelho, no al­vorecer mesmo da história cristã (vide Atos 2:10).


Judeus ou gentioss?

Alguns eruditos sustentam que a igreja de Roma era composta, principalmente de cristãos judeus. Argumentam esses que a ên­fase dada à nação judaica, nos capítulos nono a décimo primeiro, que o apelo ao exemplo dado por Abraão, que as citações extraí­das do Antigo Testamento e que as passagens nas quais Paulo pa­rece argumentar contra certas objeções tipicamente judaicas (vide Romanos 2:17 - 3:8; 21-31: 6:1 - 7:6 e 14:1 - 15:3) subenten­dem que se tratava de uma congregação judaica. No entanto, de conformidade com os capítulos nove a onze, Deus pôs de lado, temporariamente, à nação judaica, por causa dos gentios, e por essa razão tais capítulos podem, bem pelo contrário, indicar que os leitores originais desta epístola eram, principalmente, gentios. O uso que Paulo faz de Abraão e do Antigo Testamento, como ilustrações, pode refletir antes a sua própria formação intelec­tual, e não a de seus leitores. E suas réplicas a objeções tipica­mente judaicas podem ter-se originado de seus freqüentes deba­tes com judeus incrédulos ou com judaizantes, não sendo obje­ções feitas por seus leitores judeus.

Certo número de passagens demonstra que a igreja de Roma se compunha principalmente de elementos gentios. Escreve Paulo, em 1:5,6: "... entre todos os gentios, de cujo número sois também vós..." Em 1:13, registra o apóstolo: "...para conseguir igualmente entre vós algum fruto, como também entre os outros gentios". E as palavras "Dirijo-me a vós outros, que sois gen­tios!" (11: 13) caracterizam a igreja romana de modo geral, e não como uma minoria no seio da congregação; pois em 11:28-31 é dito que os leitores de Paulo haviam sido alvos da misericórdia divina, devido à incredulidade dos judeus. Em 15:15,16, Paulo alude ao que escrevera aos romanos como algo vinculado a seu ministério "entre os gentios".
Tempo e lugar de escrita

Paulo acabara de completar o recolhimento da coleta para os crentes de Jerusalém, durante sua terceira viagem missionária (vide 15:25,26). Paulo escreveu estando em Corinto, porquanto Gaio era de Corinto e, na ocasião, era o hospedeiro do apóstolo (vide 16:23 e I Coríntios 1:14). A menção de Erasto, o tesoureiro da cidade (vide 16:23), confirma que Corinto foi o lugar de onde Paulo escreveu esta epístola. Há uma inscrição, descoberta em Corinto e datada do primeiro século da era cristã, que diz: "Erasto, comissário. das obras públicas, lançou este pavimento às suas próprias custas". Estritamente falando, "comissário das obras públicas" não é a mesma coisa que "tesoureiro da cidade", mas é natural pensarmos que Erasto subiu do posto de comis­sário para o de tesoureiro, ou que foi rebaixado de tesoureiro a comissário, por causa de sua fé cristã. Também permanece como uma possibilidade a idéia que esses dois títulos sejam sinônimos virtuais. Outra confirmação de que Paulo escreveu em Corinto a epístola aos Romanos nos vem das suas recomendações acerca de Febe, a qual pertencia à igreja de Cencréia, perto de Corinto. Essa recomendação provavelmente indica que Febe foi a porta­dora da epístola, tendo-a levado de Corinto a Roma (vide 16:1,2).


Propósito

Paulo escreveu a epístola aos Romanos como preparação para a sua primeira visita àquela cidade e à comunidade cristã dali. Desde há muito ele vinha tencionando visitar Roma, mas sempre havia algum empecilho (vide 1:13 e 15:22 - 24a). O propósito dessa visita era o de fortalecer na fé aos cristãos romanos (vide 1:11, 15), além de obter a ajuda financeira deles, para sua proje­tada missão à Espanha, depois de ter visitado Roma (vide 15:24,28). A epístola aos Romanos, por conseguinte, é um tra­tado a respeito do evangelho e cujo desígnio foi o de preparar os leitores de Paulo para seu futuro ministério oral entre eles.


Saudações pessoais

Em face do fato que Paulo conhecia pessoalmente apenas cer­tos dentre os cristãos de Roma - aqueles que para ali se tinham mudado depois que o apóstolo os conhecera - essa epístola é mais formal que qualquer outra das epístolas paulinas. Entre­tanto, as saudações pessoais que há no décimo sexto capítulo e que Paulo enviou a determinadas pessoas, embora ele nunca antes houvesse visitado a cidade, têm levado alguns eruditos a pensar que esse décimo sexto capítulo da epístola constitua uma epístola ou parte de uma epístola que originalmente fora enviada a Éfeso. Tal capítulo, entretanto, dificilmente perfaz uma epís­tola inteira (pois consiste quase inteiramente de saudações), a­lém do que não há qualquer evidência, entre os manuscritos, de que jamais tenha tal capítulo circulado independentemente, como epístola inteira ou como parte de alguma epístola. A única outra longa série de saudações nas epístolas paulinas ocorre em Colossenses, enviada para outra cidade que Paulo nunca antes visitara. O mais provável é que Paulo quisesse enfatizar assim seu conhecimento anterior, de outras cidades, com cristãos que se tinham mudado e se tornado membros de outras igrejas, as quais nunca haviam sido visitadas por Paulo, a fim de estabelecer relações amistosas com aquelas igrejas, além de querer omitir sau­dações individuais nas epístolas dirigidas a igrejas que ele visita­ra, a fim de evitar a idéia de favoritismo. Há motivo insuficiente, portanto, para alguém pensar que o capítulo décimo sexto tivesse sido parte, originalmente, de alguma outra epístola.


Confusão textual

Os antigos manuscritos variam imensamente, todavia, quanto à posição ocupada pela doxologia de 16:25-27 (em nossa Bíblia portuguesa), bem como quanto à posição da bênção constante em 16:20. Tal confusão pode ter sido devida ao herege Márciom, o qual talvez tivesse omitido aos capítulos quinze e dezesseis, de­vido a referências ao Antigo Testamento e a questão judaicas, que pareciam desagradáveis para sua maneira de pensar anti­judaica. Essa confusão também pode ter-se originado numa forma truncada da epístola, isto é, sem o décimo sexto capítulo, acerca do que há evidências textuais antigas. É provável que al­gumas edições tenham omitido o citado capítulo com suas sauda­ções pessoais, a fim de adaptar a epístola à circulação geral por toda a Igreja.


DESENVOLVIMENTO LÓGICO DO PENSAMENTO NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS
Introdução e tema

Na abertura da epístola, Paulo saúda a seus leitores e men­ciona a esperança que ele tinha de visitá-los, a fim de que pu­desse pregar o evangelho em Roma, como já o fizera noutros lu­gares (vide 1:1-15). Em seguida, Paulo declara seu tema, em 1:16,17:as boas novas da libertação do pecado, através da dádiva divina da retidão, a todos quantos crêem em Jesus Cristo.


Necessidade: pecaminosidade

A primeira seção maior delineia a necessidade da justificação, em face da pecaminosidade dos homens (vide 1:18 - 3:20). A me­tade final do primeiro capítulo descreve a iniqüidade do mundo gentílico, o segundo capítulo fala sobre a atitude de justiça própria do mundo judaico, e a primeira metade do terceiro capítulo sumaria a culpa da humanidade em geral. Deve-se destacar que, para Paulo, os pecados (plural) são apenas sintomas do problema real, que é o pecado (singular), na forma de um princípio domi­nante na experiência humana.


O remédio: justificação

A justificação é o remédio de Deus, de acordo com a segunda se­ção maior da epístola (vide 3:21 - 5:21). A última metade do capí­tulo terceiro apresenta a morte expiatória de Cristo como base de nossa justificação, bem como a fé como o meio pelo qual nos apropriarmos dos benefícios advindos de Sua morte. O quarto capítulo retrata Abraão como o grande exemplo de fé, em contraposição à doutrina rabínica do tesouro de merecimentos de Abraão, que seria tão superabundante que os judeus podiam valer-se do excesso. O quinto capítulo alista as multiformes bên­çãos resultantes da justificação - paz, alegria, esperança, o dom do Espírito Santo, e outras - além de contrastar a posição dos in­crédulos em Adão, onde há pecado e morte, com a posição dos crentes em Cristo, onde há justiça e vida eterna.


O resultado: santificação

Na terceira porção principal, a discussão progride ao tema da santificação, ou santo viver cristão (vide os capítulos 6 - 8). Ha­veríamos de continuar pecando para que Deus pudesse exercer mais ainda a Sua graça, e assim pudesse obter maior louvor para Si mesmo? Não! O batismo ilustra a nossa morte para o pecado e o nosso reviver para a retidão (vide o capítulo 6). Contudo, a santificação nada tem a ver com a guarda da lei do Antigo Testa­mento, a qual era capaz tão-somente de conferir ao indivíduo um senso de derrota, sem transmitir qualquer capacidade de vencer ao demoníaco controle do pecado sobre a nossa conduta (vide o capitulo 7). Pelo contrário, o Espírito de Cristo é que nos outorga o poder para sermos vitoriosos, pelo que também o oitavo capítulo atinge o ponto culminante com uma grande explosão de lou­vor: "Quem nos separará do amor de Cristo?" Paulo alista as possibilidades e nega uma por uma.


O problema: incredulidade de Israel

A discussão volta-se para o problema de Israel, na quarta se­ção maior da epístola aos Romanos (vide os capítulos 9 - 1 ] ). Por causa de seu próprio passado e formação judaicos, Paulo se mos­trava agudamente preocupado diante da incredulidade da grande maioria de seus compatriotas judeus. No que tange a isso, Paulo enfrentava um problema de lógica. Ele sempre afirmava que o evangelho não é uma inovação, mas antes, deriva-se do Antigo Testamento e constitui o cumprimento de tudo quanto Abraão, Davi e os profetas esposavam. Mas, se assim são as coi­sas realmente, por qual razão os judeus, considerados como um povo, não reconheciam a veracidade dessas reivindicações? Por­ventura a rejeição geral do evangelho, da parte dos judeus, impli­cava em alguma falha no argumento do apóstolo? Em resposta, o nono capitulo frisa a doutrina da eleição, isto é, o direito que Deus tem de selecionar a quem quer que deseje. Isso é perfeita­mente legítimo, argumenta Paulo: Deus fazer com o povo de Is­rael e com os gentios o que Ele bem quiser. E é prerrogativa de Deus escolher agora os gentios, tal como Lhe coubera o direito de escolher previamente aos judeus. Todavia, a atual rejeição de Israel por parte de Deus não se deve a algum capricho, pois Is­rael assim o merece, devido à sua justiça própria e sua recusa em crer no que tanto ouvira quanto entendera do evangelho (vide o capítulo 10). Outrossim, Israel foi posto para um lado de modo apenas parcial e temporário. Um judeu pode obter a salvação tão facilmente quanto um gentio, bastando-lhe confiar em Cristo; e Deus haverá de restaurar a nação de Israel inteira ao Seu favor, no futuro. Entrementes, os gentios usufruem de igualdade diante de Deus, em relação aos judeus (vide o capítulo 11).


A obrigação: preceito cristãos

A quinta seção principal contém exortações práticas relacio­nadas à vida diária dos crentes, incluindo mandamentos atinen­tes à obediência às autoridades civis e a permissão de liberdade no que concerne às questões cerimoniais (vide capítulos 12 - 14).


Conclusão

Paulo conclui essa epístola traçando os seus planos para o fu­turo e enviando diversas saudações (vide os capítulos 15 e 16).


AS PRINCIPAIS DOUTRINAS DA EPÍSTOLA AOS ROMANOS
A culpa humana

Ler Romanos 1:1 - 3:20. Paulo observa cuidadosamente, por meio da citação que faz de Habacuque 2:4, que o Antigo Testa­mento respalda a verdade fundamental de que a justiça nos vem por intermédio da fé (vide 1:17). E também afirma que a própria natureza revela o poder e a majestade de Deus, em razão do que os pagãos são indesculpáveis (vide 1:19,20). O restante do primeiro capítulo descreve a natureza retrógrada do pecado. A de­claração: "... Deus os entregou..." vibra como sinos de morte por três vezes, por toda esta passagem (vide versículos 24,26 e 28).

No capítulo dois, Paulo descreve o judeu justo aos próprios olhos, que se deleitava em pôr em destaque os pecados do mundo pagão. Os judeus têm tanta culpa quanto aqueles, embora à sua maneira, argumenta Paulo. Outrossim, para que alguém se­ja judeu genuíno, não basta que seja descendente físico de Abraão ou que tenha recebido o rito da circuncisão, porquanto para tanto é mister que goze da apropriada relação espiritual para com Deus. De fato, os gentios que seguem a lei de Deus, escrita em suas consciências, demonstram possuir aquela correta rela­ção com Deus que falta a muitos judeus. O vocábulo "judeu" si­gnifica "louvor". O verdadeiro judeu, portanto, é aquele cuja vida é digna de louvor, segundo os critérios divinos (vide 2:17).

Em Romanos 3:1, Paulo antecipa certa objeção judaica: Se os judeus não são melhores que os gentios, por que Deus escolheu a nação judaica? Não deixa claro o Antigo Testamento que Deus favoreceu especialmente aos judeus? E no entanto, ó Paulo, afir­mas que Deus trata judeus e gentios da mesma maneira! Paulo admite abertamente que os judeus têm a decisiva vantagem de estar mais próximos da divina revelação, através das Escrituras. Porém, um privilégio superior não implica em menor pecamino­sidade. Com uma fieira de citações tiradas do Antigo Testa­mento, Paulo encerra essa seção acusando a raça humana inteira de estar culpada diante de Deus.


Propiciação

O parágrafo seguinte forma o cerne mesmo do livro. As pala­vras "pela lei e pelos profetas" apontam para o Antigo Testa­mento. Paulo frisa que embora a justiça nos venha mediante a fé em Jesus Cristo, e não através da observância da lei, contudo, a lei e o restante do Antigo Testamento confirmam o fato que a jus­tiça procede da fé. A “glória de Deus”, da qual carecem todos os seres humanos (vide 3:23), é o esplendor do caráter de Deus. O termo "propiciação" (vide 3:25) alude à morte expiatória de Je­sus, como aquilo que apaziguou a santa ira de Deus contra a iniqüidade humana. "Expiação" é palavra sinônima que, entre­tanto, não encarece o elemento da justa indignação de Deus. Mas, quer traduzido por "propiciação" quer por "expiação", o vo­cábulo também pode referir-se ao propiciatório, a tampa de ouro posta sobre a arca da aliança e sobre a qual o sumo sacerdote dos judeus aspergia o sangue do holocausto, uma vez por ano, a fim de fazer expiação pelos pecados de Israel. Paulo indica que Deus perdoava aos pecados, durante o período do Antigo Testamento, somente em antecipação à morte de Cristo. Quando ele assevera que Deus é o "justo" e o “justificador daquele que tem fé em Je­sus", quis dizer que a santidade de Deus ficou satisfeita porque Jesus pagou a penalidade pela culpa humana, e também que o amor de Deus foi satisfeito, porquanto a morte de Cristo provê o modo pelo qual o pecador pode agora exigir que a penalidade seja imposta àqueles que detêm a justiça, como igualmente é su­ficientemente elástica para permitir que o "justo" que é Deus atue em benefício dos injustos (nós mesmos), no exercício da mi­sericórdia. Ler Romanos 3.21-31


Uma vez mais Paulo antecipa determinada objeção judaica: se alguém obtém a justiça meramente pela fé em Cristo, não há van­tagem alguma em ser alguém judeu ou em cumprir a lei como ju­deu. Paulo concorda essencialmente com essa conclusão, em­bora tenha argumentado que o próprio Antigo Testamento in­dica que a justiça vem pela fé, segundo se vê nos exemplos de Abraão e Davi. Ler Romanos 4 e 5.


Bênçãos

Nos primeiros versículos do quinto capítulo, Paulo apresenta uma lista das bênçãos que acompanham a justificação: a paz com Deus por intermédio de Jesus Cristo; a introdução na esfera da graça divina; a alegria na esperança da glória de Deus ("espe­rança" significa expectação confiante de que Jesus retornará, e "a glória de Deus", neste caso, significa o divino esplendor que será experimentado pelos crentes, quando da segunda vinda de Cristo); a alegria diante das perseguições da vida presente; a per­severança; o caráter comprovado; a esperança (reiteração da idéia); e o amor de Deus, derramado em nossos corações pelo dom do Espírito Santo. Os termos "reconciliar" e "reconcilia­ção", nos versículos 10 e 11, referem-se à meia-volta dada pelo pecador, que era contrário a Deus, por sua ira, mas que agora se volve amorosamente para Deus.


Pecado original. Adão versus Cristo

Nos versículos 12 - 14, Paulo argumenta que o reinado da morte, antes mesmo de Deus haver dado a lei por meio de Moi­sés, provava que a raça humana inteira está implicada no pecado original de Adão; pois antes da época de Moisés não havia qual­quer lei escrita para ser quebrada. Segue-se o contraste entre o "um" e os "muitos": um homem (Adão) pecou no Éden - os mui­tos (expressão semítica que indica "todos") pecaram e morreram em Adão; por igual modo, um homem (Jesus Cristo) realizou um ato de justiça sobre a cruz - os muitos (todos quantos O recebem) são reputados justos e vivem eternamente.


União com Cristo

A objeção primária a esse fácil caminho da salvação, isto é, o caminho da justificação exclusivamente pela fé, diz que, logica­mente, tal raciocínio implica em uma conclusão patentemente falsa e ridícula: quanto mais pecamos, mais Deus exerce Sua graça e maior glória Ele adquire para Si mesmo - pelo que tam­bém deveríamos pecar o máximo possível, visando à glória de Deus! Paulo repudia horrorizado tal raciocínio, estribado na doutrina da união do crente com Cristo, o que se vê dramatizado no batismo cristão. No batismo, o crente confessa a sua morte para o pecado através da sua identificação com Jesus Cristo, em Sua morte, além de confessar que reviveu para a justiça, me­diante a sua identificação com Cristo e a Sua ressurreição. Até onde Deus está envolvido, por conseguinte, o crente morreu quando Cristo morreu, e ressuscitou quando Cristo foi soerguido dentre os mortos. Esse fato coloca o crente debaixo da obrigação de viver para a retidão. Assim sendo, compete-lhe conformar sua auto-imagem de conformidade com a perspectiva divina. Ler Romanos 6 - 8.


A liberdade cristã

Na porção final do sexto capítulo, Paulo esclarece que o estar livre da lei não significa estar livre para pecar, porquanto liber­dade e servidão são termos relativos. Um incrédulo está livre das restrições próprias da vida de um crente, mas está escravizado ao controle exercido pelo pecado. Por outra parte, o crente está li­vre do controle do pecado, mas serve às restrições próprias da vida santa. Na realidade, o cativeiro à santidade é a mais autêntica forma de liberdade, a saber, a liberdade de não pecar, a li­berdade de viver retamente.

No sétimo capítulo, o apóstolo ilustra o seu argumento com base na lei do matrimônio. Um cônjuge qualquer está livre para casar-se com outra pessoa, uma vez que seu primeiro cônjuge seja colhido pela morte, porquanto a morte cancela o vínculo matrimonial. Similarmente, a morte de Cristo anula o relaciona­mento entre o crente e a lei mosaica, liberando-o para pertencer a Cristo e para produzir fruto para Deus. Nesse caso, por que foi baixada a lei? Foi dada para impulsionar os homens a depender de Cristo quanto à retidão de que precisam, e isso por terem sido suas conciências despertadas para a realidade do pecado e de sua incapacidade moral. Paulo não nega que Deus tencionava que a lei mosaica fosse um caminho de vida, para os crentes do Antigo Testamento. Mas, no que concerne ao perdão dos pecados, ja­mais houve o propósito de fazer da lei um sistema de mérito hu­mano, mas tão-somente para que servisse de meio que indu­zisse os homens a se entregarem à graça divina misericordiosa.
Da frustração ao triunfo

A porção final do sétimo capítulo é uma descrição clássica que descreve as frustações de um indivíduo que quer praticar o bem, mas não pode, em face do demoníaco poder do pecado, agra­vado pela lei. No caso de crentes, entretanto, tal frustração se transmuta em triunfo, porquanto eles possuem o Espírito de Cristo (vide o capítulo 8). Tal como o faz na epístola aos Gálatas, Paulo contrasta a carne com o Espírito. O Espírito de Cristo dá forças aos crentes, para que conquistem os impulsos pecamino­sos, assegurando-lhes a salvação, glorificando-os futuramente e ajudando-os a orar. O capítulo oitavo atinge o ponto culminante da epístola, em meio a expressões de louvores e confiança. O único que tem o direito de acusar-nos - por ser Ele santo - é exa­tamente aquele que nos justifica. Deus não seria justo se nos condenasse, agora que estamos em Cristo!


A eleição e a rejeição de Israel

Ler Romanos 9 - 11. Ao díscutir sobre o problema de Israel, Paulo sustenta que Deus tem o direito de escolher ou rejeitar, se­gundo Ele quiser fazer. Os pecadores não têm direito a quaisquer méritos que Deus se veja forçado a reconhecer. Todavia, Deus não exerce arbitrariamente Suas prerrogativas. O Senhor rejei­tou a Israel por causa da atitude de justiça própria dos judeus, e porque não buscavam a justiça divina. O convite para a salvação, pois, está franqueado a todos, judeus e gentios igualmente. Po­rém, a presente rejeição divina a Israel não se reveste de aspecto tão terrível como poderia parecer à primeira vista. Há diversos fatores que mitigam tal severidade: (1) um remanescente judaico continuaria crente; (2) a rejeição divina a Israel, como nação, proveria aos povos gentílicos uma melhor oportunidade do que a que tinham antes; (3) o ciúme sentido pelos judeus, devido a sal­vação generalizada dos gentios, haveria de compelir os judeus ao arrependimento; e (4) a nação de Israel haveria ainda de ser salva como um todo, por ocasião do retorno de Cristo, a saber, os ju­deus que continuarem vivos, quando de Sua volta, aceitá-Lo-ão como o Messias, e dessa maneira receberão a salvação.


A dedicação cristã

Exortações práticas ocupam a próxima seção principal da epís­tola, pois a teologia paulina sempre afeta a vida diária, e, a fim de ser mantido um elevado nível de conduta cristã nas igrejas o apóstolo nunca permitiu que os seus leitores atinassem sozinhos com o corolário prático de seus ensinamentos doutrinários. Após ter feito um apelo aos crentes, para que se oferecessem como "sacrifício vivo" (em oposição a animais mortos para o sacrifício) a Deus, Paulo exorta seus leitores a não imitarem a conduta ex­terna dos incrédulos, mas a viverem de modo agradável a Deus, em resultado da renovação de sua atitude mental (vide 12:1,2).

A consagração do indivíduo a Deus abre caminho para diver­sos ministérios, como a prédica, o doutrinamento, o serviço, a li­beralidade e a liderança - tudo em harmonia com as habilida­des particulares que Deus houver dado a cristãos individuais e tudo realizado como convém, isto é, modesta e harmonicamente (vide 12:3-8). A harmonia no seio de uma igreja local, entretanto, depende do amor cristão mútuo, o que inclui a sinceridade, o repú­dio ao mal, a retenção de corretos padrões (a bondade), o afeto, o respeito, a industriosidade, a devoção a Deus, a alegria na esperança, a paciência, as orações, a generosidade e a hospitali­dade (vide 12:9-13).

Por semelhante modo, os crentes devem manter boas relações com os não-crentes, mediante a oração pelo bem estar dos mes­mos, mediante a simpatia com suas alegrias e com suas tristezas e mediante atitudes respeitosas e perdoadoras para com eles. Se os incrédulos derem prosseguimento às suas perseguições, então o próprio Deus haverá de julgá-los, vindicando o Seu povo (vide 12:14-21). Paulo também ordenou a submissão ao estado através da obediência e do pagamento de impostos, embora tais reco­mendações não devam ser confundidas com um cego apoio ao totalitarismo. A pressuposição declarada é que as autoridades go­vernamentais estão mantendo a justiça ao punirem os malfeitores e ao elogiarem os que se conduzem corretamente. Dessa forma, a resistência por razões puramente egoístas ou políticas merece a censura, embora não a resistência devido a motivos morais­-religiosos (vide 13:1-7). Deus requer que amemos não só a nossos irmãos na fé, mas também aos nossos semelhantes humanos de maneira geral. Isso inclui o pagamento das nossas dividas (Paulo não proíbe que incorramos em dívidas, mas determina que elas não se­jam deixadas sem pagamento.) e a ne­cessidade de evitar o adultério, o homicídio, o furto, e a cobiça (vide 13:8-10). A expectativa pelo retorno de Cristo aguça o fio de todos esses mandamentos éticos (vide 13:11-14). Finalmente, tal como na primeira epístola aos Coríntios, Paulo indica que os crentes devem permitir, uns aos outros, a liberdade de diferirem sobre questões cerimoniais, contando que os crentes mais fracos, desinformados, não sejam prejudicados (vide 14:1 - 15:3). Ler Ro­manos 12:1 - 15:13.


Observações concludentes

Descortinando os seus planos com maiores pormenores do que no primeiro capítulo, Paulo agora revela a sua esperança de en­tregar uma oferta enviada à igreja de Jerusalém e de poder ir evangelizar a Espanha, depois de ter visitado Roma. As reco­mendações relativas a Febe, em Romanos 16:1,2, refletem a prá­tica cristã segundo a qual uma igreja local qualquer recomen­dava a outra igreja, de outra localidade, que acolhesse a um dos membros da primeira, que se mudava para a segunda ou lhe fazia uma visita. A saudação a Prisca (forma abreviada de Priscila) e Áqüila, em Romanos 16:3, subentende que aquele casal retorna­ra a Roma. Por meio de fontes seculares também estamos infor­mados de que o edito de Cláudio que expulsava da cidade de Roma aos judeus não entrou em vigor de maneira permanente. Saudações, advertências contra os falsos mestres, uma bênção, outras saudações e uma doxologia, completam a epístola. Ler Ro­manos 15:14 - 16:27.


ESBOÇO SUMÁRIO DE ROMANOS
Tema: o evangelho da justificação pela fé ou o dom da justiça divina a peca­dores que confiem em Jesus Cristo.

INTRODUÇÃO (1:1-17)

A. Saudação (1:1-17)

B. Planos de uma visita a Roma (1:8-15)

C. Declaração do tema (1:16,17)

1. A PECAMINOSIDADE DE TODOS OS HOMENS (1:18 - 3:20)

A. A pecaminosidade dos gentios (1:18-32)

B. A pecaminosidade dos judeus (2:1 - 3:8)

C. A pecaminosidade tanto dos judeus quanto dos gentios, igualmente (3:9-20)

II. JUSTIFICAÇÃO DOS PECADORES QUE CONFIEM EM JESUS CRISTO (3:21 - 5:21)

A. A morte expiatória de Jesus é a base da justificação (3:21-26)

B. A fé é o meio de obter-se a justificação (3:27 - 4:25)

1. Fica excluída a jactância humana devido às boas obras (3:27-31)

2. Seus exemplos vetero-testamentários em Abraão (especialmente) e Davi (4:1-25)

C. As muitas bênçãos da justificação (5:1-11)

D. Contraste entre Adão, em quem há pecado e morte, e Cristo, em quem há justiça e vida (5:12-21)

III. SANTIFICAÇÃO DOS PECADORES JUSTIFICADOS PELA FÉ EM JESUS (6:1 - 8:39)

A. O batismo como símbolo da união do crente com Cristo, em Sua morte, no tocante ao pecado, e a sua nova vida, no tocante à justiça (6:1-14)

B. Escravidão ao pecado e isenção quanto à justiça, versus a servidão à justi­ça e isenção quanto ao pecado (6:15-23)

C. Morte para a lei, mediante a união com Cristo, em Sua morte, ilustrada pelo anulamento do casamento através da morte de um dos cônjuges (7:1-6)

D. A lei não produz a justiça por causa da incapacidade dos seres humanos em vencer suas próprias tendências pecaminosas (7:7-25)

E. O viver reto por meio do Espírito, da parte dos justificados pela fé em Je­sus Cristo com uma descrição da vida no Espírito (8:1-27)

F. Uma declaração de confiança e triunfo (8:28-39)

IV. A INCREDULIDADE DE ISRAEL (9:1 - 11:36)

A. A preocupação de Paulo com Israel (9:1-5)

B. A incredulidade de Israel pelo plano predeterminado de Deus (9:6-33)

C. A incredulidade de Israel devido à sua justiça própria (10.1-21)

D. O atual remanescente crente em Israel (11:1-10)

E. Restauração e salvação futuras de Israel (11:11-32)

F. Doxologia ante os sábios caminhos de Deus (11:33-36)

V. EXORTAÇÕES PRÁTICAS (12-1 - 15:13)

A. A consagração a Deus (12:1,2)

B. Os ministérios na Igreja (12:3-8)

C. O amor no seio da comunidade cristã, com virtudes acompanhantes (12:9­13)

D. Relacionamento com os não-cristãos (12:14-21)

E. Obediência ao estado (13:1-7)

F. O amor (13:8-10)

G. A vigilância escatológica (13:11-14)

H. A liberdade e a necessidade de não ofendermos a outros sobre questões cerimoniais, como a ingestão de certos alimentos e a observância de dias santificados (14:1 - 15:13)

CONCLUSÃO (15:14 - 16:27)

A. O plano de Paulo de visitar Roma, após levar uma oferta em dinheiro aos cristãos de Jerusalém (15:14-33)

B. Recomendações sobre Febe (16:1,2)

C. Saudações (16:3-16)

D. Avisos sobre os falsos mestres (16:17-20a)

E. A bênção final (16:20b)

F. Outras saudações (16:21-23)

G. Doxologia (16:25-27)
Para discussão posterior:
- A doutrina paulina da pecaminosidade humana degrada a dignidade e nobreza do homem?

- Porventura Paulo se contradiz ao apelar para as boas obras realizadas pelos gentios por motivo de consciência (vide 2:12-16), e ao contender pela depravação total de judeus e gentios igual­mente (vide 3:9-20)?

- A transferência de uma penalidade, de uma pessoa culpada para uma pessoa inocente, é algo legalmente defensável?

- Como pode Deus, com justiça, culpar a raça humana inteira pelo pecado original de Adão?

- Como pode Deus, com justiça, atribuir a retidão de Cristo a todos os crentes?

- A justificação é possível sem a santificação?

- A luta íntima entre o certo e o errado, retratada em Roma­nos 7:7-25, caracteriza os crentes ou os incrédulos? Comparar com Romanos 8.

- Como é que Deus pode manter a Sua soberania, ao mesmo tempo que permite ao homem suficiente liberdade de ação para considerá-lo responsável?

- Os homens são salvos porque eles decidem crer em Cristo, ou porque Deus resolve levá-los a crer? Haverá alguma outra al­ternativa?

- Relacione as declarações de Paulo a respeito do futuro de Is­rael (vide Romanos 11) com os recentes acontecimentos do Oriente Médio.

- Qual deveria ser a atitude do crente para com o seu governo, em face dos atuais problemas sociais e da política internacional?
Para investigação posterior:
(Comentários sobre a epístola aos Romanos)
Bruce, F.F. The Epistle of Paul to the Romans. Londres: Tyndale, 1963.

Murray, J. The Epistle to the Romans. 2 vol. Grand Rapids: Eerdmans, 1959 - 65.


(Livros sobre tópicos que figuram na epístola aos Romanos)
Agostinho, Confissões. Sobretudo os primeiros diversos "livros" que falam so­bre o problema da culpa.

Lewis C.S. The Case for Christianity. Parte I. Nova Iorque: Macmillan, 1950. Ou A Razão do Cristianismo, Livro I. São Paulo, Edições Vida Nova, 1964. Sobre a consciência moral humana.

Lutero, M. Commentary [ou Lectures] on Romans. Sobre 3:21-31

Calvino, J., e J. Sadoleto Reformation Debate: Sadoleto's Letter to the Genevans and Calvin's Reply. Editado por J.C. Olin, Nova Iorque: Harper & Row, 1966. Acerca da justificação pela fé como ponto debatido durante a reforma.

Calvino, J. Institutas da Religião Cristã, livro I, capítulo 15: livro II, capítulos 1 - 5; livro III, capítulos 21 - 24. Quanto à posição calvinista sobre a soberania divina e o livre arbítrio humano.

Armínio, J. Declaração de Sentimentos, I-IV e Apologia Contra Trinta e um Arti­gos Difamatórios, artigos I, IV-VIII, XIII-XVII. Acerca da posição arminiana so­bre a soberania divina e o livre arbítrio humano.

Chafer, L.S. He That Is Spiritual. Grand Rapids: Zondervan Dunham, 1918. So­bre a santificação.

Walvoord. J. F. Israel in Prophecy - Grand Rapids: Zondervan, 1962. Para com­parar com a discussão paulina sobre Israel, em Romanos 9 - 11.



Capítulo 16 - As Epístolas Paulinas da Prisão
Perguntas Normativas:

- Em qual de seus diversos períodos de encarceramento Paulo, provavelmente, escreveu suas chamadas epístolas da prisão?

- Quais são as relações existentes entre as epístolas da prisão?

- Quais circunstâncias levaram Paulo a pleitear junto a File­mom em favor de um escravo fugido?

- Por que Paulo escreveu para a igreja de Colossos, apesar de não estar familiarizado com ela? Qual era a natureza da "heresia colossense", segundo se pode inferir das medidas corretivas de Pau­lo?

- Qual seria o destino da epístola que provavelmente foi erro­neamente atribuída aos "Efésios"? Como poderíamos comparar sua estrutura e sua distintiva ênfase teológica com a epístola aos Colossenses?

- O que impeliu Paulo a escrever a epístola aos Filipenses? Quais eram as atitudes e as expectativas de Paulo naquele tempo - e quais eram suas preocupações com a igreja de Filipos?
Aprisionamento de Paulo

Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom compreendem as chamadas epístolas da prisão (ou do cativeiro), assim denomina­das porque Paulo se achava encarcerado quando as escreveu. Há dois períodos conhecidos de aprisionamento de Paulo, um em Cesaréia, durante o período de governo de Félix e de Festo (vide Atos 23 - 26), e outro em Roma, enquanto Paulo esperava ser julgado perante César (vide Atos 28). Com apoio de escassa tra­dição da Igreja antiga, alguns eruditos têm conjecturado um ou­tro período de aprisionamento em Éfeso, durante o prolongado ministério de Paulo ali. Paulo menciona "freqüentes" aprisiona­mentos em II Coríntios 11:23, mas provavelmente ele aludia a en­carceramentos de uma noite ou pouco mais, como se verificou em Filipos (vide Atos 16:19-40). A posição tradicional atribui to­das as chamadas epístolas da prisão ao período de aprisiona­mento em Roma, mas a possibilidade que isso tenha ocorrido em Éfeso ou Cesaréia pelo menos não deve ser varrida da mente, no caso de cada uma das epístolas da prisão.





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