Panorama do novo testamento



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PARTE III - Conseqüências Triunfais De Jerusalém a Roma

CAPÍTULO 12 - Atos do Espírito de Cristo, Mediante os Apóstolos, em Jerusalém e Cercanias



Perguntas Normativas:

‑ Qual é a relação entre o livro de Atos e o evangelho de Lucas quanto à autoria, estilo, data e propósito do autor?

‑ Onde Lucas obteve os informes históricos que registrou no livro de Atos, e qual o valor histórico do mesmo?

‑ Por que o livro de Atos termina tão abruptamente?

‑ Em quais direções geográficas e teológicas se desenvolveu o cristianismo ‑ em relação ao império romano, ao judaísmo e às religiões pagãs ‑ e sob quais líderes?

‑ Como foi que o cristianismo se separou do judaísmo?

‑ Qual era a situação legal do cristianismo, e de qual ou quais origens vieram as primeiras perseguições?

‑ Como e por que Paulo foi tão importante para a história da Igreja primitiva?



Autoria lucana


De acordo com a tradição da Igreja primitiva, Lucas foi o autor do livro de Atos. Assim. sendo, esse livro é seqüência do evangelho de Lucas. As evidências internas do próprio livro de Atos confirmam a autoria lucana. O livro tem início com uma dedicatória a Teófilo, tal como sucede ao evangelho de Lucas. Vocabulário e estilo são extremamente parecidos em ambos os livros. O uso freqüente de termos médicos concorda com o fato que Lucas era médico (vide Colossenses 4:14). (Esse argumento não é tão decisivo como antes alguns pensavam que fosse, mas continua válido.) Com o uso do pronome "nós" (às vezes subentendido), ao descrever diversas das jornadas de Paulo, o autor do livro de Atos deixa entendido que ele mesmo era um dos companheiros de viagem do apóstolo. Outros companheiros de viagem não se ajustam dentro dos informes dos textos. Por exemplo, Timóteo e vários outros são mencionados à parte do "nós" e do "nos", em Atos 20:4‑6. De conformidade com as epístolas de Paulo, nem Tito nem Silas o acompanharam a Roma, e nem estiveram ali em sua companhia. Não obstante, a narrativa de sua viagem a Roma é uma daquelas chamadas seções ‑ "nós". Por meio desses processos de eliminação, Lucas é o único candidato provável para a autoria do livro de Atos.
Técnica literária.

O livro de Atos, juntamente com o evangelho de Lucas e o tratado aos Hebreus, contém a redação grega mais culta de todo o Novo Testamento. Por outra parte, onde Lucas aparentemente seguia fontes informativas semíticas, o estilo grego às vezes é áspero. Alguns eruditos têm afirmado que os discursos e sermões constantes em Atos são criações literárias improvisadas pelo próprio Lucas, a fim de preencher suas narrativas com algum estofo. É verdade que alguns historiadores antigos seguiram tal modo de proceder, mas não tão constantemente como esses eruditos querem fazer‑nos crer. E embora Lucas não tenha transmitido necessariamente palavra por palavra os discursos e sermões que historiou, sem dúvida nos brinda com o cerne acurado do que fora dito. Isso é comprovado pelo paralelismo de expressões entre os sermões de Pedro, no livro de Atos, e a primeira epístola de Pedro, ou entre os sermões de Paulo, no livro de Atos, e as suas próprias epístolas. Esses paralelismos dificilmente poderiam ter ocorrido por acidente, além de não haver outra evidência que nos indique que Lucas imitara ou usara em qualquer outro sentido as epístolas dos apóstolos, ou, vice‑versa, que Paulo e Pedro imitaram o livro de Atos ao escreverem suas respectivas epistolas. A única explicação adequada é que Lucas não compôs ele mesmo os discursos e sermões que registrou, mas que sumariou seu conteúdo com exatidão, de tal modo que a fraseologia característica de Pedro e de Paulo se evidencia nos relatos de Lucas, tanto quanto nas epístolas daqueles apóstolos.


Material informativo.

Quanto ao material histórico de Atos, Lucas se valeu de suas próprias memórias, sempre que possível. É possível que ele fosse registrando os acontecimentos em um diário, à proporção em que se desenrolavam. Em adição a isso, não há que duvidar que obteve informações da parte de Paulo, dos cristãos de Jerusalém, de Antioquia da Síria e de outros companheiros de jornadas de Paulo, como Silas e Timóteo, como Filipe, o diácono e evangelista, e como um antigo discípulo de nome Mnasom, em cujas residências ele ficara hospedado (vide Atos 21:8 e 16). Também havia à sua disposição informes escritos, como o decreto do Concílio de Jerusalém (vide Atos 15:23‑29), e talvez documentos em aramaico e hebraico, relatando os primeiros eventos do cristianismo, em Jerusalém e circunvizinhanças.


Exatidão histórica.

As descobertas arqueológicas têm confirmado a exatidão histórica de Lucas, de maneira surpreendente. Por exemplo, sabe‑se atualmente que o uso que Lucas fez dos títulos de vários escalões de oficiais locais e governamentais de províncias ‑ procuradores, cônsules, pretores, politarcas, asiarcas e outros ‑ mostra‑se acuradamente correto; correspondentes às ocasiões e lugares acerca dos quais Lucas estava escrevendo. A sua exatidão torna‑se duplamente notável porque o emprego desses vocábulos se mantinha em constante estado de fluxo, devido às alterações de situação política de várias comunidades. (A confirmação da exatidão histórica do livro de Atos tornou obsoleta a "hipótese de Tübingen" do século XIX, que dizia que um autor do século II D. C. escreveu o livro de Atos, a fim de reconciliar perspectivas conflitantes do cristianismo de Pedro e de Paulo. Inexistem evidências quanto a tal divisão, porém, e um escritor posterior não poderia ter escrito com tanta exatidão sobre condições do primeiro século. F. C. Baur, da Universidade de Tübingen, Alemanha, foi o mentor daquela escola de pensamento. Segundo a mesma hipótese, o cristianismo petrino seria legalista, e o cristianismo paulino, anti‑legalista.)


Final e data.

A maneira abrupta pela qual termina o livro de Atos quase nos espanta. Lucas descortina a história de Paulo até ao ponto em que o apóstolo, aprisionado em Roma, já esperava por dois anos ser julgado na presença de César. Nisso, o livro se encerra. Que teria sucedido a Paulo? Teria comparecido diante de César? Em caso positivo, teria sido condenado? martirizado? absolvido? solto? Lucas não nos informa. Muitas sugestões têm sido oferecidas para explanar esse fim tão abrupto. É possível que Lucas tencionasse escrever um terceiro volume, no qual teríamos as respostas para essas indagações. No entanto, o seu primeiro volume, o evangelho de Lucas, termina com um senso de história terminada, embora sem dúvida também tencionasse escrever o livro de Atos. Ou talvez Lucas tenha chegado ao fim de seu rolo de papiro. Todavia, sem dúvida ele poderia ter percebido que seu espaço disponível estava ficando curto, e poderia ter escrito um final apropriado. Uma catástrofe pessoal pode ter impedido Lucas de concluir o seu livro. A verdade, porém, é que esse livro já é suficientemente longo para ocupar um ponderoso rolo de papiro. E talvez Lucas tivesse conseguido cumprir o seu propósito, isto é, mostrar o progresso do cristianismo, a partir de Jerusalém, o lugar de sua origem, até Roma, a capital do império. Contudo, o ministério de Paulo na prisão dificilmente foi um coroamento; já existia ali uma comunidade cristã, e permanece de pé o problema de por qual razão Lucas não registrou o que aconteceu a Paulo, a personagem dominante em Atos 13 ‑ 28.

A melhor solução é aceitar que Lucas escreveu sobre os eventos até onde eles tinham tido lugar. Em outras palavras, ao tempo em que ele escreveu, Paulo continuava esperando julgamento. Por certo teria sido irrelevante a Lucas provar a inocência política do cristianismo (vide abaixo), se porventura escrevia o livro de Atos depois que o imperador Nero se voltara contra os cristãos (64 D. C.). Pois seria tarde demais, então, apelar para decisões favoráveis da parte de oficiais governamentais subalternos! Por conseguinte, Lucas escreveu o livro de Atos quando Paulo já se encontrava em Roma há dois anos (cerca de 61 D. C.).( Também favorece uma data antiga do Livro a ausência de alusões à persegui­ção sob Nero, na década de 60 D. C., ao martírio de Tiago, irmão do Senhor, na mesma década, e à destruição de Jerusalém, em 70 D. C. A teologia ainda pouco desenvolvida e a controvérsia acerca da situação dos cristãos gentios talvez apon­tem na mesma direção, mas também reflitam, ao invés disso, a exatidão de Lucas ao descrever o estado da Igreja primitiva, sem que haja nisso implicações quanto à data em que ele escreveu seu livro.) O pró­prio final abrupto do livro de Atos sugere que a tarefa da evange­lização mundial estava incompleta. O que a Igreja primitiva co­meçou, pois, compete a nós terminar.
Propósitos.

Ler Atos 1. "O primeiro livro" (1:1) é o evangelho de Lucas. Teófilo talvez tenha arcado com a responsabilidade financeira pela publicação das duas obras de Lucas. O propósito do evange­lho de Lucas foi o de narrar a vida de Jesus, com ênfase sobre a sua certeza histórica. Já o propósito central do livro de Atos foi o de traçar o triunfal progresso do evangelho, a partir de Jerusa­lém, onde teve início, até Roma, a capital do império. Assim sendo, Atos é uma história seletiva, e não compreensiva, da Igreja primitiva. Por exemplo, Lucas não escreve sobre a propa­gação do cristianismo até o Egito e ao Oriente. Mas podemos ler reiteradas afirmativas que sumariam o sucesso do evangelho por onde quer que os cristãos o proclamassem: "Crescia a palavra de Deus e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos..." (Atos 6:7; vide também 9:31; 12:24; 16:5; 19:20; 28:30,31). Por detrás desse sucesso havia a atividade do Espírito Santo, a Quem Lucas repetidamente dá o crédito. O propósito geral de Lucas-­Atos, pois, é fazer a exposição dos primórdios do cristianismo, na vida de Jesus e na extensão do cristianismo, dentro da história da Igreja primitiva, a fim de convencer aos seus leitores sobre o avanço irresistível do evangelho, mostrando que Deus, mediante o Seu Espírito, verdadeiramente está operando na história da hu­manidade, visando à redenção de todos os homens.

Um propósito secundário do livro de Atos é o de demonstrar que o cristianismo merece continua liberdade, visto ter‑se deri­vado do judaísmo, que tinha direitos legais, e também por não ser politicamente desleal a Roma. Por conseguinte, com freqüência Lucas cita juízos favoráveis concernentes ao cristianismo e seus proponentes, por vários tipos de oficiais locais e provinciais do governo. Essa apologética se fazia necessária porque o cristia­nismo começou com a desvantagem do fato que seu fundador morrera como criminoso condenado sob um governador ro­mano. Acresça‑se a isso que por onde quer que o cristianismo fosse chegando, estouravam perturbações da ordem. Mas, em seu evangelho, Lucas já havia demonstrado que tanto Pilatos quanto Herodes Antipas haviam pronunciado a inocência de Jesus, e que foi a pressão exercida pela turbamulta que originou a falha da justiça. No livro de Atos, igualmente, Lucas prova que as per­turbações por causa do cristianismo se tinham originado devido à violência das multidões e devido a acusações falsas, freqüente­mente assacadas pelos judeus, e não por causa de quaisquer transgressões praticadas pelos cristãos propriamente ditos. Dessa maneira, portanto, Lucas esperava poder dissipar os preconcei­tos contra o cristianismo, conquistando a simpatia de pessoas como Teófilo, cujo título, "excelentíssimo", em Lucas 1:3, quiçá indique que ele ocupava posição aristocrática e até influência política, ou, pelo menos, fazia parte da classe média social (Compare com as palavras "excelentíssimo Festo", em Atos 26:25.).


Esperando pelo Espírito.

A instrução baixada por Jesus, para que Seus discípulos espe­rassem a vinda do Espírito Santo (1:4), estava vinculada à pro­messa anteriormente feita, por Ele mesmo e por João Batista, de que Ele concederia o Espírito Santo a todos os discípulos, e apontava para o futuro cumprimento dessa promessa, o que se deu no dia de Pentecoste. Não há mais necessidade de espera, mas tão‑somente de nos apropriarmos do dom que já foi dado. Os discípulos estavam curiosos por saber se o reino seria restau­rado a Israel, ou seja, se o reino messiânico sobre a terra, com Israel em posição favorecida, seria prontamente inaugurado. Pensavam eles nessa possibilidade porque o Antigo Testamento associava o derramamento do Espírito de Deus a esse tempo (vide Isaías 44:3; Ezequiel 36:24‑27; 39:29; Joel 2:28,29, em seus contextos maiores). Com efeito, Jesus respondeu que os Seus discípulos não deveriam desperdiçar energias a indagar quando essas coisas teriam lugar, mas antes, competia‑lhes evangelizar o mundo (1:6‑8).


A Grande Comissão.

Atos 1:8 é um versículo chave: "mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra." Na verdade; esse versículo contém um esboço, em linhas gerais, do livro inteiro de Atos: (1) nos capítulos 1 ‑ 7, o evangelho se propala por toda Jerusalém e a Judéia; (2) nos capítulos 8 ‑ 12, a Samaria e outras regiões das proximidades; e (3) nos capítulos 13 – 28, a terras distantes, através dos esforços missionários de Paulo. Tal como Pedro foi a figura dominante da evangelização primariamente entre os judeus, nos capítulos 1-12, assim Paulo é a personagem de maior destaque na evangelização primariamente entre os gentios , nos capítulos 13 ‑ 28.


A Ascensão.

Em sua narrativa sobre a ascensão de Cristo (1:9‑11), Lucas pode ter querido dizer que os dois homens que predisseram o retorno de Jesus devem ser tidos como anjos em aparência humana, ou talvez fossem Moisés e Elias, os mesmos indivíduos que tinham aparecido em companhia de Jesus, no monte da transfiguração. A nuvem na qual Jesus ascendeu representa a presença de Deus Pai, tal como aconteceu quando do batismo e da transfiguração de Cristo, e tal como sucederá quando da Segunda Vinda. A ascensão de Jesus deve ter surpreendido aos discípulos, que esperavam, para quase imediatamente, a inauguração do reino messiânico na terra.


A Escolha de Matias.

Tem sido motivo de debates se a escolha de Matias mediante o lançamento de sorte, a fim de substituir a Judas, teria sido uma providência equivocada, em confronto com o fato que, mais tarde, Deus escolheu a Saulo de Tarso. De maneira certa ou errada, o fato é que os discípulos eram da opinião que o número de seu próprio grupo, doze, não deveria permanecer incompleto, porquanto esse grupo representava o novel povo de Deus, que estava tomando o lugar das doze tribos de Israel. Levanta‑se igualmente a questão se o método da escolha de Matias não teria laborado em erro. Mas os discípulos tinham a intenção que o uso de sortes indicaria a vontade do Senhor e não a deles mesmos. (É possível, não obstante, que as palavras "e os lançaram em sortes" devessem ser traduzidas por "'e lançaram votos".)


O dia de Pentecoste.

Embora os primórdios embrionários da Igreja retrocedam até antes da escolha dos Doze, o Pentecoste, após a ascensão de Jesus, assinala a data do nascimento da Igreja. O ruído de vento, quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, representa o fato que o texto grego conta com uma palavra somente para indicar "vento e "Espírito". As chamas em forma de lingüeta, por cima das cabeças dos discípulos, simbolizaram a capacidade de falar miraculosamente, em idiomas que não haviam aprendido, em reversão da "confusão das línguas", por ocasião da construção da torre de Babel. Os peregrinos não residentes na Palestina, tanto judeus quanto prosélitos gentios, reconheceram , admirados, que estavam sendo falados os idiomas de suas próprias terras de origem. Todavia, os palestinos não as entendiam, e assim assacaram a acusação de que os cristãos estavam embriagados. Ler Atos 2.


O sermão de Pedro.

O fluxo da argumentação do sermão de Pedro, no dia de Pentecoste, é que os judeus haviam tirado a vida de Jesus, mas que Deus O ressuscitara dentre os mortos e O exaltara até à Sua própria mão direita. O derramamento do Espírito comprovava a exaltação de Jesus. O miraculoso falar em "línguas" (idiomas estrangeiros) comprovava, por sua vez, o derramamento do Espírito. Por conseguinte, que se arrependessem e fossem batizados. Embora Pedro houvesse citado a profecia de Joel, como predição ali cumprida, tal cumprimento teve a ver somente com a porção referente à outorga do Espírito e à salvação que seria dada a quantos invocassem o nome do Senhor. Os fenômenos celestes, preditos por Joel, aguardam cumprimento para quando do retorno do Senhor Jesus. O fraseado de Atos 2:38 ‑ "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados" ‑ parece dar a entender que o batismo em água seja necessario para que se receba o perdão de pecados. Mas visto que muitas outras passagens requerem tão somente o arrependimento e a fé em Jesus Cristo, é melhor considerarmos o batismo como a maneira usual de demonstrar o arrependimento e a fé. O problema de crentes não‑batizados jamais surgiu nas páginas do Novo Testamento. (Alternativamente, poderíamos traduzir: "cada um de vós seja batizado... em resultado da remissão dos vossos pecados". Comparar com Mateus 3:11; 12:41; Lucas 12:32; e H. E. Dana e .1. R. Mantey, A Manual Grammar of lhe Greek New Testament, Nova Iorque: Macmillan, 1946, págs. 104 s.)


Aprisionamento.

Ler Atos 3:1 ‑ 4:31. Os saduceus negavam a doutrina da ressurreição, e, por isso mesmo, encarceraram aos apóstolos, por estarem estes proclamando a ressurreição de Jesus como fato já realizado e como garantia da ressurreição de outras pessoas.
Vida Comunitária.

Ler Atos 4:32 ‑ 5.42. Intitular a participação comum nos bens, conforme se verificou na igreja de Jesus, de "comunismo cristão" não é uma designação feliz. O comunismo de nossos dias é ateu e coercitivo. Mas em Jerusalém se compartilhava das coisas por motivo de devoção a Deus, tratando‑se de uma atitude inteiramente espontânea, que jamais teve por intuito tornar‑se uma instituição permanente. Foi uma medida meramente temporária, que permitiu aos convertidos chegados de outras regiões para participarem da festa do Pentecoste, em Jerusalém, ficarem por mais tempo do que lhes seria possível de outro modo, e a fim de que recebessem maiores instruções acerca de sua recém‑achada fé cristã.
Ananias e Safira.

Barnabé, que vendera um campo e doara todo o dinheiro obtido com a venda, aparece na narrativa como exemplo contrastante ao de Ananias e Safira, os quais , similarmente, venderam um campo, mas fingiram, hipocritamente, que haviam doado a importância total, mas na realidade tinham retido para si mesmos uma parte do dinheiro. A morte de Ananias e Safira pode parecer‑nos muito dura, ou pelo menos, incomum. Porém, tal como no começo mesmo da história de Israel como nação redimida Deus fez morrerem os sacerdotes desobedientes, Nadabe e Abiú (vide Levítico 10), também nos primórdios da História da Igreja Deus puniu a Ananias e Safira com a morte. Em ambas oportunidades Deus estava demonstrando Seu profundo interesse pela pureza fundamental de Seu povo. Por conseguinte, deveríamos interpretar o fato que Deus não continua a aplicar essa espécie de punição com regularidade como um sinal de graça, e não como indicação de que Ele tolera o pecado na Igreja.


Os sete “diáconos”.

Os helenistas eram judeus que haviam adotado o estilo grego de viver. Os hebreus, por sua parte, eram judeus que tinham preferido reter a maneira tipicamente judaica de vida.( Alguns eruditos pensam que os helenistas eram prosélitos e tementes a Deus gentios, ao passo que outros opinam que os hebraístas eram samaritanos. Entretanto, é difícil imaginar que muitos indivíduos, dessas categorias, já tivessem entrado na Igreja.) Quando os cristãos judeus helenistas se queixaram de que suas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de alimentos, os cristãos hebreus graciosamente escolheram homens helenistas, o que é demonstrado por seus nomes gregos, e não hebraicos ou aramaicos; a fim de supervisionarem essa distribuição. Talves o posterior ofício eclesiático dos diáconos ("servos, ajudadores"), que tem a ver com as questões materiais, seculares da vida diária das igrejas, sobretudo a ministração de atos caridosos, se tenha desenvolvido dessa situação. Ler Atos 6:1‑8:1a.


O sermão de Estevão.

Estêvão não se contentou em limitar‑se ao ministério de coisas materiais. A acusação levada contra ele, devido à sua prática, nos deixa entrever que ele deduziria estarem obsoletos o templo e seu cerimonial, por motivo da obra redentora de Cristo. É possível que Estêvão tivesse sido o primeiro cristão a chegar a essa conclusão. O seu sermão, que ficou registrado, passa em revista a história de Israel, com destaque bem claro sobre o fato que tal como os antepassados dos israelitas tinham repelido, por reiteradas vezes, os mensageiros de Deus, nos dias do Antigo Testamento, assim também agora, eles mesmos haviam rejeitado a seu supremo mensageiro, Jesus Cristo, o Justo. Aquele sermão também frisa a natureza progressiva da revelação divina ‑ Deus revela‑se a Si mesmo em diferentes lugares e em grande variedade de modos ‑ razão pela qual os judeus incorriam em erro ao considerarem o templo como a totalidade e a finalidade da verdadeira religião.


O martírio de Estevão.

Segundo a narrativa sobre o julgamento de Jesus, aos romanos estava reservado o direito de infligir a pena capital. Todavia os governadores romanos passavam a maior parte do tempo em Cesaréia, no litoral do mar Mediterrâneo. O apedrejamento de Estêvão, portanto, pode ter sido uma ação ilegal, efetuada por uma multidão de linchadores, ou pode ter sido uma execução formal, decretada pelo Sinédrio, que assim ultrapassou aos limites de sua autoridade, em face da ausência de Pilatos. O método de apedrejamento consistia, antes de tudo, de solicitar do condenado que fizesse uma confissão de sua culpa, a fim de poder "compartilhar do mundo vindouro". Então era desnudado. Uma testemunha de acusação empurrava a vítima, de rosto voltado para baixo, do alto de uma plataforma ou beirada com cerca de duas vezes a altura de um homem, para que se estatelasse no chão abaixo. Então a vítima era virada de rosto para cima. Se não tivesse morrido por ação da queda, uma segunda testemunha jogava uma pedra em seu peito. Se depois disso ainda não tivesse ocorrido a morte, outras pessoas se ajuntavam ao apedrejamento. (Ver o Talmude Babilônico, Sanhedrin 6.1‑4, citado em C. K. Barrett, The Nex Testament Background, págs. 171, 172.) Quando Estêvão estava sendo apedrejado, moribundo que estava, viu a Jesus, de pé à direita de Deus Pai, a fim de recepcioná‑lo.


Perseguição por Saulo-Paulo.

O martírio de Estêvão foi o estopim de uma perseguição geral contra os cristãos, por parte de judeus incrédulos. À testa dessa perseguição achava‑se Saulo, natural de Tarso, cidade da Ásia Menor. Seu outro nome era Paulo. Saulo e Paulo não eram nomes pré e pós‑conversão, respectivamente. Saulo era meramente o nome hebraico, e Paulo o nome de som similar, um comum sobrenome romano (nome de família), que às vezes era adotado como nome próprio de um indivíduo. (Como cidadão romano, Paulo também devia ter recebido um praenomen e um nomen gentile, que não sobreviveram.)


Felipe em Samaria.

A dispersão dos cristãos, por motivo de perseguição, resultou em um evangelismo generalizado, conforme se vê exemplificado no caso de Filipe, em Samaria. Filipe era outro "diácono" pregador, como Estêvão. Ler Atos 8:1b‑40.


Simão o Mago.

A professada conversão de Simão, o mágico, provavelmente não era real; pois ele desejava reter sua influência lucrativa sobre o povo, comprando a dinheiro a capacidade de outorgar o Espírito Santo, a fim de que, ele mesmo, pudesse exigir pagamento para assim fazer. Uma antiga tradição cristã atribui a Simão Magus, conforme ele era chamado, o herege movimento gnóstico que houve na cristandade.



Os samaritanos recebem o Espírito.

O Espírito Santo não desceu sobre os crentes samaritanos enquanto Pedro e João não oraram e impuseram as mãos sobre eles, em sinal de solidariedade entre os crentes judeus e os crentes samaritanos. As antigas antipatias estavam se esboroando no seio da comunidade cristã. O adiamento da dádiva do Espírito permitiu os representantes apostólicos do grupo cristão predominantemente judaico a averiguar, por si mesmos, que Deus havia aceito os samaritanos, o que ficou demonstrado pelo fato que receberam o Espírito na presença dos apóstolos.


O eunuco etíope.

O episódio que envolveu o eunuco etíope prefigurou as missões de Paulo entre os gentios. O eunuco estivera presente a alguma das festividades religiosas dos judeus, em Jerusalém. Por conseguinte, pelo menos ele era um homem temente a Deus, se não era mesmo um prosélito declarado. Aos eunucos eram vedados privilégios religiosos no judaísmo, de conformidade com Deuteronômio 23:1, mas essa disposição pode ter sido abandonada naquela época (comparar com Isaías 56:3 ss.); ou, então , "eunuco", no livro de Atos, serve apenas de título oficial, não sendo uma descrição literal. Era costume que viajores solitários, como Filipe, se juntassem a alguma caravana, como a do eunuco. Ler em voz alta (conforme fazia o eunuco) era de praxe nos tempos antigos, mesmo nos estudos particulares.


Conversão de Saulo-Paulo.

Em seguida somos levados de volta à perseguição encetada por Saulo contra "O Caminho" (o primeiro nome dado ao movimento cristão, por causa de sua forma distintiva de fé e conduta), e, em continuação, à conversão de Saulo. Ler Atos 9:1‑31. Quando Jesus disse a Saulo: "Saulo, Saulo, por que me persegues?", deixou o Senhor entendida a união entre Ele mesmo, nos céus, e Seus perseguidos discípulos, na terra. A união entre Cristo e o crente veio a tornar‑se parte vital do ensino teológico de Paulo. De conformidade com Atos 9:7, os acompanhantes de Paulo ouviram a voz de Jesus, mas de acordo com Atos 22:9, não a ouviram. Todavia, a construção grega difere entre uma e outra dessas passagens, e talvez signifiquem que os companheiros de Paulo ouviram o som da voz de Jesus, embora não tivessem compreendido as palavras. Alternativamente, os companheiros de Paulo ouviram a voz dele (9:7), mas não a de Jesus (22:9).


Primeiras pregações de Paulo.

À conversão de Paulo seguiu‑se uma missão de pregação em Damasco e pela região árabe circunvizinha (vide Gálatas 1:17,18). Alguns têm conjecturado que a permanência na Arábia incluiu um período de meditação, durante o qual Paulo teria recebido revelações divinas, mas os próprios textos bíblicos não indicam tal coisa. Mais tarde, Barnabé apresentou Paulo à igreja de Jerusalém. O trecho de Gálatas 1:22 esclarece, entretanto, que Paulo continou sendo um desconhecido de rosto por toda a grande área judaica em volta de Jerusalém.


O passado formativo de Paulo.

Paulo nasceu em Tarso, cidade da porção suleste da Ásia menor, e era cidadão romano. Vide o mapa à pág. 250. Como seu pai obtivera a cidadania romana ‑ se ela foi adquirida a dinheiro, por causa de algum serviço prestado ao estado, ou por outro meio qualquer ‑ não sabemos dizê‑lo. Porém, a cidadania romana conferia privilégios e uma proteção que serviram muito bem a Paulo durante seus empreendimentos missionários. O pai de Paulo fora um fariseu (vide Atos 23:6) (As palavras "filho de fariseus" (plural), em Atos 23:6, subentende que os antepassados de Paulo eram fariseus, mesmo antes de seu progenitor imediato.) que criara a seu filho segundo o judaísmo mais estrito (vide Filipenses 3:5,6). Paulo passou a maior parte de sua juventude em Jerusalém, onde estudou sob o famoso rabino Gamaliel (vide Atos 22:3). Também não estamos informados se Paulo chegou alguma vez a encontrar‑se com Jesus, ou se fora casado alguma vez. Ele jamais menciona uma esposa sua, em suas epístolas; porém, visto que o celibato era extremamente raro entre os judeus, poderíamos inferir que ele fora casado, mas que depois a sua mulher falecera.


Os milagres e a visão de Pedro.

Ler Atos 9:32 ‑ 11:18. O propósito de Lucas, ao narrar a cura miraculosa de Enéias e a ressurreição de Tabita (ou Dorcas), pelo ministério de Pedro, foi o de comprovar que Deus estava presente com Pedro, durante o período mesmo em que aquele apóstolo pregava aos gentios e os acolhia como partícipes da Igreja, ações essas que judeus cristãos de visão estreita mais tarde censuraram. O fato que Pedro se hospedou na casa de um curtidor de nome Simão, mostra‑nos que ele já se despira de alguns de seus escrúpulos tipicamente judaicos, porquanto os curtidores eram tidos por cerimonialmente imundos, devido a seu contínuo contacto com animais mortos, razão pela qual sua companhia devia ser evitada. Não obstante, foi necessária uma visão para que Pedro se deixasse convencer de que era permissível o contato com os gentios. Ele viu um lençol, talvez sugerido por um toldo, debaixo do qual Pedro dormia a sesta ao meio‑dia, no pátio formado pelo telhado plano. Esse lençol estava repleto de criaturas cerimonialmente imundas. E então houve a ordem de Deus para que Pedro as matasse e comesse, o que serviu de indicação de que as restrições dietéticas de Moisés, e, de fato, todas as demais restrições cerimoniais mosaicas agora estavam obsoletas. Finalmente persuadido, Pedro foi pregar a gentios, na casa de Cornélio, centurião romano e homem temente a Deus.
Salvação dos gentios na casa de Cornélio.

O sermão de Pedro na casa de Cornélio é o exemplo mais patente oferecido por C.H. Dodd acerca do kerygma (vide pág. 80). Mui apropriadamente para ouvintes gentios, esse sermão faz soar a nova nota da universalidade."...todo o que nele cré..." ‑ o evangelho não se destina somente a judeus; é para todos! Em contraste com o que sucedera em Samaria, um apóstolo já estava presente como testemunha. Por conseguinte, Deus concedeu imediatamente do Seu Espírito a gentios, assim que foi exercida a fé, antes mesmo que Pedro terminasse a sua pregação e antes do batismo ou da imposição das mãos terem sido administrados. Foi dessa maneira dramática que Deus demonstrou que aceitava na Igreja a crentes gentios, e sob condições iguais ás que aceitara os crentes judeus ou samaritanos. Posteriormente, Pedro foi capaz de usar esse súbito ato de Deus em sua própria defesa contra cristãos judeus de atitudes paroquiais, em Jerusalém, os quais o criticavam porque ele tivera contacto pessoal com gentios. Foi preciso muito mais tempo para que a Igreja percebesse os corolários a longo termo do fato que a lei mosaica fora repelida em sua inteireza (embora muitos de seus preceitos morais tenham sido promulgados novamente para os cristãos), que as sinagogas e o templo não eram mais necessários como lugares de adoração, e que os convertidos dentre os gentios não precisavam ser circuncidados. Contudo, o incidente na casa de Cornélio assinalou um significativo passo, na separação entre o cristianismo e o judaísmo.


Até Antioquia.

A partir daí, Lucas historia a propagação do evangelho até Antioquia da Síria. Ele queria introduzir Antioquia como futura base de operações das viagens missionárias de Paulo, a fim de mostrar como Paulo se associara àquela igreja e a fim de estabelecer o elo entre as igrejas de Antioquia e Jerusalém. Jerusalém estava suficientemente interessada por Antioquia, ao ponto de enviar‑lhe a Barnabé; e Antioquia estava suficientemente preocupada por Jerusalém ao ponto de enviar‑lhe doações que a ajudasse num período de escassez. O apelido "cristãos", pela primeira vez aplicado aos crentes, por incrédulos, em Antioquia, era um termo pejorativo. Mas também ilustra o fato que gradualmente a Igreja estava sendo reconhecida como algo mais que uma seita judaica ‑ era um movimento distinto do judaísmo. Mediante sua conduta diária santa e graciosa, os cristãos, eventualmente, transformaram essa derrisão em termo de respeito e admiração. Ler Atos 11:19 ‑ 12.25.


Perseguição por Herodes Agripa I.

O Herodes que figura nessa passagem foi Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Fingindo‑se defensor máximo do judaísmo, martirizou ele a Tiago, apóstolo e irmão de João, além de encarcerar a Pedro. O historiador judeu do primeiro século, Josefo, confirma a narrativa lucana sobre a morte de Herodes Agripa, como uma enfermidade que, segundo a sua descrição, muito se assemelha ao câncer dos intestinos. (Josefo, Antiguidades XIX. v.1 e VIII.2.) A morte de Herodes Agripa ocorreu em cerca de 44 D.C., pelo que o relato representa um retrocesso cronológico em relação à visita que visava a aliviar a fome (cerca de 46 D.C.; vide Atos 11:27‑30).



Para discussão posterior

Vide as perguntas para discussão e as leituras colaterais sugeridas, no final do capítulo seguinte, às págs. 279, 280.














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