Panorama do novo testamento



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PARTE I - O CENÁRIO: ANTECEDENTES POLÍTICOS, CULTURAIS E RELIGIOSOS

1 História Política Intertestamentária e do Novo Testamento

2 O Ambiente Secular do Novo Testamento

3 O Ambiente Religioso do Novo Testamento

4 O Cânon e o Texto do Novo Testamento
PARTE II - O EVENTO CRUCIAL: A CARREIRA DE JESUS
5 A Vida de Jesus

6 Os Quatro Evangelhos

7 Introdução Panorâmica da Vida e do Ministério Público de Jesus

8 Estudo Harmonístico dos Evangelhos: Os Primórdios

9 O Grande Ministério Galileu

10 Ministério Posterior na Judéia e Peréia

11 O Desfecho
PARTE III - CONSEQÜÊNCIAS TRIUNFAIS: DE JERUSALÉM A ROMA
12 Atos do Espírito de Cristo Mediante os Apóstolos, em Jerusalém e Cercanias

13 Atos do Espírito de Cristo por Toda Parte, por Meio de Paulo


PARTE IV - A EXPLICAÇÃO E AS IMPLICAÇÕES: AS EPÍSTOLAS E O APOCALIPSE
14 As Primeiras Epístolas de Paulo

15 As Epístolas Principais de Paulo

16 As Epístolas Paulinas da Prisão

17 As Epístolas Pastorais de Paulo

18 Hebreus: Jesus, Nosso Grande Sumo Sacerdote

19 Epístolas Católicas ou Gerais

20 Apocalipse: Ele Vem Vindo

21 Em Retrospecto


Índice Geral

Índice das Passagens Tratadas no Estudo Harmonístico dos Evangelhos




Ilustrações, Mapas, e Gráficos




ILUSTRAÇÕES



Alexandre o Grande, Museu Britânico

Setuaginta, Matson Photo Service

Antíoco Epifânio, Koninklijk Kabinet van Munten, Penningen en gesneden Stenen, Hague

Modein, Matson Photo Service

Jope, Matson Photo Service

Ruínas Termais Hasmoneanas, Palestine Exploration Fund

César Augusto, J.H. Kok

Nero, Museu Britânico

Cesaréia, Jack Lewis

Itens da Rebelião de Bar Cochba, The Department of Antiquities, Jerusalém

Via Romana, Matson Photo Service

Moradias Palestinas, Three Lions

Pátio Palestino, Matson Photo Service

Vestuário Palestino, Matson Photo Service

Estádio Romano, Levam Photo Service

Teatro Romano de Amã, Levam Photo Service

Delfos, Grécia, Levant Photo Service

Santuário de Mitra, E.M. Blaiklock

Eleusis, Grécia, Levant Photo Service

O Rolo de !saías, American School of Oriental Research, Jerusalém

A Sinagoga de Cafarnaum, John F. Walvoord

Área do Templo, Jerusalém, Levam Photo Service

Texto Hebraico, American School of Oriental Research, Jerusalém

As Cavernas de Qumran, B. Van Elderen

Qumran, Levam Photo Service

Setuaginta, British Broadcasting Corporation

Bíblia de Coverdale, British and Foreign Bible Society

Fragmentos de Papiro, J. H. Kok

Pella, Levam Photo Service

Fragmento do Evangelho de João, John Rylands Library

Belém, Levant Photo Service

Nazaré, Consulate General of Israel

O Rio Jordão, Levant Photo Service

O Deserto da Judéia, Levam Photo Service

Próximo do Poço de Jacó, Samaria, Matson Photo Service

Cafarnaum. Three Lions

O Tanque de Betesda, Levam Photo Service

Campo de Trigo. Levam Photo Service

Chifres de Hattin, Matson Photo Service

Agricultor Palestino, Matson Photo Service

Pescadores da Galiléia, Matson Photo Service

Gerasa, Levant Photo Service

Denário de Prata, Museu Britânico

Estrada Jerusalém‑Jericó, Levam Photo Service

Moeda de Bronze da Palestina, Museu Britânico

A Jericó do Novo Testamento, Levant Photo Service

Jerusalém, Levam Photo Service
Denário de César Augusto, Museu Britânico
Lâmpadas da Palestina, Andrews University
Getsêmani, Levam Photo Service

O Calvário de Gordon, Matilda Alexander

Igreja do Santo Sepulcro, Levant Photo Service

Túmulo Palestino, Levant Photo Service

A Estrada de Emaús, Levant Photo Service

Os Portões Cilicianos, Levant Photo Service

Monte das Oliveiras, Levam Photo Service

Rua Direita, Damasco, Matson Photo Service

Salamina, Levam Photo Service

Antioquia da Psídia, B. Van Elderen

Derbe, B. Van Elderen

Filipos, Levam Photo Service

Atenas, Levant Photo Service

O Partenon, Atenas, Ralph W. Harris

Templo de Apoio, Corinto, Levant Photo Service

Éfeso, Levant Photo Service

Teatro de Éfeso, Levam Photo Service

Inscrição do Templo de Herodes, B. Van Elderen

Aqueduto Perto de Cesaréia, Levam Photo Service

Via Ápia, Levant Photo Service

O Coliseu de Roma, Ralph W. Harris

Arco de Tito, Levam Photo Service

Cartas Escritas em Papiro, J.H. Kok

Icônio, Levant Photo Service

Arco de Galério, Tessalônica, Levant Photo Service

Canal Perto de Corinto, Levant Photo Service

Ruínas de Sinagoga Perto de Roma, Keystone Press Agency

Portão de São Paulo, Roma, Levam Photo Service

Colossos, Levant Photo Service

Ribeiro Perto de Filipos, Levam Photo Service

Ruínas de Babilónia, J. Ellwood Evans

Forum de Roma, Levant Photo Service

Patmos, British Broadcastin Corporation

Pérgamo, Levam Photo Service

Altar de Zeus, Staatliche Museen Zu Berlin

Sardes, Levam Photo Service

Hierápolis, Levant Photo Service

Planície de Esdrelom, Matson Photo Service

MAPAS

Impérios Helênicos Reino Hasmoneano

Império Romano

Reinos Herodianos

Área de Qumran

Palestina ao Tempo de Jesus

Viagens dos Primeiros anos de Paulo

Primeira Viagem Missionária de Paulo

Segunda Viagem Missionária de Paulo

Terceira Viagem Missionária de Paulo

Viagem de Paulo a Roma

GRÁFICOS

Lista dos Governadores Romanos da Judéia, 6 D.C. ‑ 70 D.C.

Revisão da História Posterop Veterotestamentária, Intertestamentária e Neotestamentária

Genealogia Parcial da Família Herodiana

Calendário Religioso dos Judeus

Comparação dos Quatro Evangelhos

Viagens Missionárias de Paulo: Sumário das Escalas e dos Eventos Principais em Sincronia com as Epístolas Paulinas

Os Livros do Novo Testamento: Autores, Datas, Origens, Destinatários, Temas e Ênfases




Prefácio

Um compêndio que se proponha a fazer o levantamento do conteúdo do Novo Testamento deveria reunir em si os pontos mais salientes do pano de fundo, da introdução técnica e dos comentários acerca do Novo Testamento. Sem embargo, quase todas as obras que vistoriam o Novo Testamento sofrem a deficiência de parcos comentários sobre o texto bíblico. Daí resulta que estudos dessa natureza, amiúde, acabam por deixar de lado a leitura do manancial primário e mais importante ‑ o próprio Novo Testamento. Trata‑se de séria omissão, mormente porque muitos estudantes principiantes nunca leram o Novo Testamento de modo sistemático ou completo.

Nesta vistoria, foi envidado o esforço para impelir o estudante a examinar o âmago do texto bíblico, mediante um contínuo diálogo com o mesmo, na forma de comentários e referências às porções escriturísticas de leitura pertinente. Por esse intermédio, visto poder acompanhar o fluxo de pensamento de seção para seção, o estudante vê‑se capaz de obter o senso de progressão lógica. Outrossim, por esse meio também foi possível transferir do início para as seções finais do livro ao menos parte do material de pano de fundo a respeito da história intertestamentária, do judaísmo e de outros problemas, tudo o que parece tortuoso, difícil, para tantos estudiosos. Isso representa um método superior, visto que reduz a introdução desanimadoramente longa a um típico curso de nível colegial sobre vistoria neotestamentária, que melhor capacita o estudante a ver a relevância do material de pano de fundo como auxílio para interpretação do texto, e acima de tudo, que impede que o compêndio venha a suplantar o Novo Testamento.

A bem da verdade, tal maneira de proceder forçosamente abrevia o exame da história intertestamentária e da história romana. Mas isso não faz diferença para o estudante iniciante, porquanto ao menos não obscurecemos o quadro principal por não nos demorarmos sobre os detalhes secundários a respeito das querelas da família dos Hasmoneanos, das intrigas políticas dentro da dinastia dos Herodes e de similares questões incidentais.

Após o necessário material de introdução, os evangelhos são pesquisados tanto em separado quanto em harmonia, a fim de nos valermos das vantagens de ambas essas abordagens. A despeito do fato que não foram esses os primeiros livros do Novo Testamento a serem escritos, os evangelhos são considerados em primeiro lugar porque o seu assunto fornece a base para tudo quanto se lhe segue. Com o propósito de evitar a descontinuidade, o estudo do livro de Atos vem em seguida, sem interrupção. As epístolas de Paulo, Hebreus, as epístolas gerais e o Apocalipse aparecem em prosseguimento, seguindo uma aproximada ordem cronológica (até onde esta pode ser determinada), juntamente com indicações de seu entrosamento com episódios do livro de Atos. Do começo ao fim, os comentários sobre o texto bíblico (em adição às discussões de cunho introdutório) não servem meramente para sumariar ou passar em revista o que por si é auto‑evidente, mas concentram a atenção sobre aquilo que não se faz prontamente claro para o leitor desabituado.

Perguntas bem colocadas introduzem capítulos e seções, como artifícios didáticos que despertam a atitude de expectativa, que induzem o estudante a inquirir corretamente o material, dirigindo os seus pensamentos aos canais apropriados. Os cabeçalhos das seções e os tópicos postos à margem de parágrafos ou de grupos de parágrafos relacionados entre si, conservam o estudante bem orientado. Esboços sumariadores sistematizam o material repassado. Indagações tendentes a discussões mais profundas ajudam não só a passar em revista o material dado, mas também a utilizar o mesmo e aplicá‑lo à vida contemporânea. Sugestões quanto a posteriores investigações (leitura colateral) incluem comentários e outras obras modelares, como antigas fontes informativas primárias, estudos acerca de tópicos variados e outra literatura pertinente.

A perspectiva teológica e crítica deste compêndio é evangélica e ortodoxa. Em uma obra de levantamento, considerações de volume e a própria finalidade da obra eliminam a plena comprovação de pressuposições e de metodologia, além de uma mais completa crítica sobre pontos de vista contrários. Não obstante, fazemos menção freqüente a outras posições; e algumas vezes aparece alguma literatura não‑ortodoxa, sempre indicada como tal, entre as sugestões sobre leituras colaterais. Os instrutores poderão guiar seus estudantes a avaliarem mais plenamente essas fontes suplementares.

Na tradução portuguesa da obra temo‑nos alicerçado sobre a versão de João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Atualizada no Brasil, da Sociedade Bíblica do Brasil, o que inevitavelmente influencia parte da terminologia teológica, embora tenhamos seguido as nuanças do pensamento do autor da presente obra em seu original inglês, sempre que isso se fez necessário para não haver distorções.

Meu preito de gratidão aos professores F. F. Bruce, Clark Pinnock e Marchant King, que fizeram a leitura do manuscrito no seu todo ou em parte, oferecendo gentilmente sugestões para melhoria do mesmo, como igualmente à Sra. Christine Gouldy e à Srta. Jill Dayton, as quais contribuíram para aprimorar o estilo do original em inglês. As deficiências que restarem são de responsabilidade exclusiva do autor. Finalmente, meus alunos do Westmont College merecem o crédito pela inspiração que deram para que se coligisse e escrevesse este material.

ROBERT H. GUNDRY

Santa Bárbara, Califórnia.



INTRODUÇÃO




Abordando o Novo Testamento

O Novo Testamento forma a Parte II da Bíblia. É ele uma antologia de vinte e sete livros de várias dimensões, mas tem somente um terço do volume da Parte I, o Antigo Testamento. (Antigo e Novo Testamento são designações cristãs, e não judaicas, pois os judeus só aceitam como Escritura os livros do Antigo Testamento.) Isso é compreensível, todavia, pois o Antigo Testamento cobre um período de milhares de anos de história, mas o Novo Testamento menos de um século. A fração do século I D. C., coberta pelo Novo Testamento, foi o período crucial durante o qual, em conformidade com as crenças cristãs, começaram a ter cumprimento as profecias messiânicas, foi realizado o divino plano da redenção dos homens, por intermédio do encarnado Filho de Deus, Jesus Cristo, e o novel povo de Deus, a Igreja, se formou e tudo isso estribado sobre o novo pacto, segundo o qual Deus se ofereceu para perdoar os pecados daqueles que crêem em Jesus Cristo, em virtude de Sua morte vicária.

"Novo Testamento" quer dizer, de fato, "Novo Pacto", em contraste com a antiga aliança (de acordo com a qual Deus perdoava transgressões à vista de sacrifícios de animais, à guisa de antecipação provisória daquele verdadeiramente adequado sacrifício de Cristo). O vocábulo "testamento" transmite‑nos a idéia de uma última vontade, e um testamento que só passa a ter efeito na eventualidade da morte do testador. Assim é que o novo pacto entrou em vigor em face da morte de Jesus (ver Hebreus 9:15‑17).

Escrita originalmente em grego, entre 45‑95 D. C., a coleção dos livros do Novo Testamento é tradicionalmente atribuída aos apóstolos Pedro, João, Mateus e Paulo, bem como a outros antigos autores cristãos, João Marcos, Lucas, Tiago e Judas. Em nossas Bíblias modernas, os livros do Novo Testamento não estão arranjados na ordem cronológica em que foram escritos. Exemplificando, as primeiras epistolas de Paulo foram os primeiros livros do Novo Testamento a ser escritos (com a única exceção possível da epístola de Tiago), e não os evangelhos. E mesmo o arranjo das epístolas paulinas não segue a sua ordem cronológica, porquanto Gálatas (ou talvez I Tessalonicenses) foi a epístola escrita bem antes daquela dirigida aos Romanos, a qual figura em primeiro lugar em nossas Bíblias pelo fato de ser a mais longa das epístolas de Paulo; e entre os evangelhos, o de Marcos, não o de Mateus, parece ter sido aquele que primeiro foi escrito.

A ordem em que esses livros aparecem, por conseqüência, é uma ordem lógica, derivada somente das tradições cristãs. Os evangelhos estão postos em primeiro lugar porque descrevem os eventos cruciais da carreira de Jesus. Entre os evangelhos, o de Mateus vem apropriadamente antes de todos devido à sua extensão e ao seu íntimo relacionamento com o Antigo Testamento, que o precede imediatamente. (Mateus amiudadas vezes cita o Antigo Testamento e principia com uma genealogia que retrocede ao mesmo.) Ato contínuo encontra‑se a triunfal colheita da vida e do ministério de Jesus, no livro de Atos dos Apóstolos, uma envolvente narrativa do bem sucedido surgimento e expansão da Igreja na Palestina e daí por toda a Síria, Ásia Menor, Macedônia, Grécia e até lugares distantes como Roma, na Itália. (No ato mesmo de sua composição, o livro de Atos foi a segunda divisão de uma obra em dois volumes, Lucas‑Atos.) Bastam‑nos essas idéias quanto aos livros históricos do Novo Testamento.

As epístolas e, finalmente, o livro de Apocalipse, explanam a significação teológica da história da redenção, além de extraírem dai certas implicações éticas. Entre as epístolas, as de Paulo ocupam o primeiro lugar ‑ e entre elas, a ordem em que foram arranjadas segue primariamente a idéia da extensão decrescente, levando‑se em conta a grande exceção formada pelas Epístolas Pastorais (I e II Timóteo e Tito), as quais antecedem a Filemom, a mais breve das epístolas paulinas que chegaram até nós. A mais longa das epístolas não‑paulinas, aos Hebreus (cujo autor nos é desconhecido), aparece em seguida, depois da qual vêm as epístolas Católicas ou Gerais, escritas por Tiago, Pedro, Judas e João. E por fim, temos o livro que lança os olhos para o futuro retorno de Cristo, o Apocalipse, livro esse que leva o Novo Testamento a um mui apropriado clímax.

Mas, por qual razão estudaríamos tão antigos documentos como esses contidos no Novo Testamento? A razão histórica disso é que, no Novo Testamento, descobrimos a explicação do fenômeno que é o cristianismo. E a razão cultural é que a influência do Novo Testamento tem permeado a civilização ocidental de tal maneira que ninguém poderia ser tido por bem educado a menos que conheça o conteúdo do Novo Testamento. E a razão teológica é que o Novo Testamento é aquela narrativa divinamente inspirada sobre a missão remidora de Jesus neste mundo, sendo ainda o padrão de crenças e de práticas da Igreja. E, finalmente, a razão devocional é que o Espírito Santo utilizase do Novo Testamento a fim de conduzir pessoas a um vivo e crescente relacionamento com Deus, através de Seu Filho, Jesus Cristo. Todas essas são razões suficientes!

PARTE I - O Cenário Antecedentes Políticos, Culturais e Religiosos

CAPÍTULO 1 - História Política Intertestamentária e do Novo Testamento




Perguntas Normativas:

‑ Que aconteceu no Oriente Próximo desde o fim do período do Antigo Testamento e dai até ao período intertestamentário e ao do Novo Testamento?

‑ Qual era a situação dos judeus?

‑ Quais desenvolvimentos culturais tiveram lugar?

‑ Quais facções entre os judeus foram produzidas pelas pressões políticas, pelas modificações culturais e pelas questões religiosas?

‑ Quais foram os líderes desses desenvolvimentos, e que contribuição tiveram eles para os sucessos históricos?


O PERÍODO GREGO



Alexandre o Grande


A história do Antigo Testamento se encerrou com o cativeiro que a Assíria impôs ao reino do norte, Israel, com o subseqüente cativeiro babilônico do reino do sul, Judá, e com o regresso, à Palestina, de parte dos exilados, quando da hegemonia persa, nos séculos VI e V A.C. Os quatro séculos entre o final da história do Antigo Testamento e os primórdios da história do Novo Testamento compreendem o período intertestamentário. (ocasionalmente chamados "os quatrocentos anos de silêncio", devido ao hiato, nos registros bíblicos, e ao silenciamento da voz profética). Durante esse hiato é que Alexandre o Grande se tornou senhor do antigo Oriente Médio, ao infligir sucessivas derrotas aos persas, quando das batalhas de Granico (334 A. C.), Isso (333 A. C.) e Arbela (331 A. C.).

Helenização


A cultura grega, intitulada helenismo, há tempos se vinha propagando mediante o comércio e a colonização gregos, mas as conquistas de Alexandre proveram um impulso muito maior do que havia antes. O idioma grego tornou‑se a língua franca, a língua comumente usada no comércio e na diplomacia. Ao aproximar‑se a época do Novo Testamento, o grego era a língua comumente falada nas ruas até da própria Roma, onde o proletariado indígena falava o latim, mas onde a grande massa de escravos e de libertos falava o grego. Alexandre fundou setenta cidades, moldando‑as conforme o estilo grego. Ele e os seus soldados contraíram matrimônios com mulheres orientais. E assim foram misturadas as culturas grega e oriental.

Ante o falecimento de Alexandre, com a idade de trinta e três anos (323 A. C.), seus principais generais dividiram o império em quatro porções, duas das quais são importantes no pano‑de-fundo do desenvolvimento histórico do Novo Testamento, a porção dos Ptolomeus e a dos Selêucidas. O império dos Ptolomeus centralizava‑se no Egito, tendo Alexandria por capital. A dinastia governante naquela fatia do império veio a ser conhecida como os Ptolomeus. Cleópatra, que morreu no ano 30 A. C., foi o último membro da dinastia dos Ptolomeus. O império selêucida tinha por centro a Síria, e Antioquia era a sua capital. Alguns dentre a casa ali reinante receberam o apodo de Seleuco, mas diversos outros foram chamados Antíoco. Quando Pompeu tornou a Síria em província romana, em 64 A. C., chegou ao fim o império selêucida.



Os Ptolomeus.


Premida entre o Egito e a Síria, a Palestina tornou‑se vitima das rivalidades entre os Ptolomeus e os Selêucidas. A princípio os Ptolomeus dominaram a Palestina por cento e vinte e dois anos (320‑198 A. C.). Os judeus gozaram de boas condições gerais durante esse período. De acordo com uma antiga tradição, foi sob Ptolomeu Filadelfo (285‑246 A. C.) que setenta e dois eruditos judeus começaram a tradução do Antigo Testamento hebraico para o grego, versão essa que se chamou Setuaginta. No começo foi feita a tradução do Pentateuco, e mais tarde foi feita a tradução das porções restantes do Antigo Testamento. A obra foi realizada no Egito, aparentemente em benefício de judeus que compreendiam o grego melhor que o hebraico; e, contrariamente à tradição, provavelmente foi efetuada por egípcios, e não por judeus palestinos. O numeral romano LXX (pois setenta é o número redondo mais próximo de setenta e dois) tornou‑se o símbolo comum dessa versão do Antigo Testamento.
Os Selêucidas.

As tentativas dos Selêucidas para conquista da Palestina, quer por invasão quer por alianças matrimoniais, deram em fracasso, até que Antíoco III derrotou o Egito, em 198 A. C. Entre os judeus surgiram duas facções, "a casa de Onias" (pró‑Egito) e "a casa de Tobias'" (pró‑Síria). Antíoco IV ou Epifânio (175‑163 A. C.), rei da Síria, substituiu ao sumo sacerdote judeu Onias III pelo irmão deste, Jasom, helenizante, o qual planejava transformar Jerusalém em uma cidade grega. Foi erigido um ginásio com uma pista de corridas adjacente. Ali rapazes judeus se exercitavam despidos, à moda grega, para ultraje dos judeus piedosos. As competições de corredores eram inauguradas com invocações feitas às divindades pagãs, e até sacerdotes judeus chegaram a participar de tais acontecimentos. O processo de helenização incluía ainda a freqüência aos teatros gregos, a adoção de vestes do estilo grego, a cirurgia que visava à remoção das marcas da circuncisão, e a mudança de nomes hebreus por gregos. E os judeus que se opunham à paganização de sua cultura eram chamados Hasidim, "os piedosos", o que a grosso modo equivale a puritanos.


Antes de desfechar a invasão do Egito, Antioco Epifânio fez a substituição de Jasom, seu próprio escolhido para o sumo sacerdócio, por Menelau, um outro judeu helenizante, o qual oferecera a Antíoco um tributo mais elevado. É possível que Menelau nem tenha pertencido a alguma família sacerdotal. Mui naturalmente, os judeus piedosos se ressentiram da simonia, em que o sagrado ofício sumo sacerdotal foi dado a quem pagava mais.



Apesar de alguns êxitos iniciais, a tentativa de Antíoco de anexar o Egito terminou falhando. A ambiciosa Roma não desejava que o império selêucida se tornasse mais forte. Fora de Alexandria, por conseguinte, um embaixador romano traçou um círculo no chão, em redor de Antíoco, e exigiu que antes de pisar fora do círculo ele prometesse abandonar o Egito com as suas tropas. Tendo aprendido a respeitar o poderio romano, quando fora refém por doze anos em Roma, tempos antes, Antíoco aquiesceu.
Perseguição por Antíoco Epifânio.

Entrementes, aos ouvidos de Jasom, o sumo sacerdote, chegaram rumores de que Antíoco fora morto no Egito. Retornando de imediato a Jerusalém, onde chegou vindo de seu refúgio na Transjordânia, Jasom retirou de Menelau o controle da cidade para si mesmo. O amargurado Antíoco, espicaçado pela derrota psicológica que sofrera às mãos dos romano, interpretou a atitude de Jasom como uma revolta, e enviou seus soldados para punirem os rebeldes e reintegrarem a Menelau no ofício sumo sacerdotal. Nesse processo, saquearam ao templo de Jerusalém e passaram ao fio da espada a muitos de seus habitantes. O próprio Antíoco regressou à Síria. Dois anos mais tarde (168 A.C.), enviou seu general, Apolônio, com um exército de vinte e dois mil homens para coletar tributo, tornar ilegal o judaísmo e estabelecer o paganismo à força, como um meio de consolidar o seu império e de refazer o seu tesouro. Os soldados saquearam Jerusalém, derrubaram suas casas e muralhas e incendiaram a cidade. Varões judeus foram mortos em bom número, mulheres e crianças foram escravizadas. Tornou‑se ofensa capital circuncidar, observar o sábado, celebrar as festividades judaicas ou possuir cópias do Antigo Testamento. Muitos manuscritos do Antigo Testamento foram destruídos. Os sacrifícios pagãos tornaram‑se compulsórios, tal como os cortejos em honra a Dionísio (ou Baco), o deus grego do vinho. Um altar consagrado a Zeus, e quiçá também uma estátua sua, foram erigidos no templo. Animais execrados pelos preceitos mosaicos foram sacrificados sobre o altar, e a prostituição "sagrada" passou a ser praticada no recinto do templo de Jerusalém.


O PERÍODO DOS MACABEUS
Revolta dos Macabeus.

A resistência judaica fez‑se sentir prontamente. Na aldeia de Modim, um agente real de Antíoco instou com um já idoso sacerdote, de nome Matatias, a que desse exemplo aos habitantes da aldeia oferecendo um sacrifício pagão. Matatias se recusou a tal. E quando um outro judeu deu um passo à frente em anuência, Matatias tirou‑lhe a vida, matou o agente real, demoliu o altar e fugiu para a região montanhosa na companhia de cinco de seus filhos e de outros simpatizantes. E foi assim que teve início a Revolta dos Macabeus, em 167 A.C., sob a liderança da família de Matatias, coletivamente chamados de Hasmoneanos, por causa de Hasmom, bisavô de Matatias, ou de Macabeus, devido ao apelido "Macabeu" ("Martelo"), conferido a Judas, um dos filhos de Matatias.

Judas Macabeu encabeçou uma campanha de guerrilhas de extraordinário sucesso, até que os judeus se viram capazes de derrotar os sírios em campo de batalha regular. A Revolta dos Macabeus, entretanto, foi também uma guerra civil deflagrada entre os judeus pró‑helenistas e anti‑helenistas. O conflito prosseguiu mesmo após a morte de Antíoco Epifânio (163 A.C.). Finalmente, os Macabeus recuperaram a liberdade religiosa, consagraram novamente o templo, conquistaram a Palestina e expeliram as tropas sírias da cidadela que ocupavam em Jerusalém.
Independência dos Macabeus.

Depois que Judas Macabeu foi morto em batalha (160 A.C.), seus irmãos, Jônatas, e posteriormente Simão, sucederam‑no na liderança. Declarando‑se herdeiros presuntivos do trono selêucida, um em oposição ao outro, puderam obter concessões favoráveis aos judeus. Jônatas começou a reconstruir as muralhas danificadas e os edifícios de Jerusalém. Assumiu, igualmente, o ofício sumo sacerdotal. Simão conseguiu o reconhecimento da independência judaica da parte de Demétrio II, um dos que competiam pela coroa dos Selêucidas, tendo renovado um tratado com Roma que originalmente fora firmado por Judas. Tendo sido proclamado como "o grande sumo sacerdote, comandante e líder dos judeus", Simão passou a reunir oficialmente em sua pessoa a liderança religiosa, militar e política do estado judeu.









A história subseqüente da dinastia hasmoneana.(142 ‑ 37 A.C.) consiste de um relato de contendas internas, derivadas da ambição pelo poder. Os propósitos políticos e as intrigas dos Hasmoneanos alienaram muitos dos Hasidim, de inclinações religiosas, os quais vieram a ser mais tarde os fariseus e os essênios, semelhantes àqueles que produziram os Papiros do Mar Morto, estabelecidos em Qumran. Os partidários aristocráticos, de pendores políticos, do sacerdócio hasmoneano, vieram a ser os saduceus. Finalmente, porém, o general romano Pompeu subjugou a Palestina (63 A.C.), de modo que, durante o período do Novo Testamento, a Palestina estava dominada pelo poderio romano.


O PERÍODO ROMANO


Expansão romana.

O século VIII AC viu a fundação de Roma, e no século V A.C. houve a organização de uma forma republicana de governo ali sediada. Dois séculos de guerras com a cidade rival de Cartago, na África do Norte, chegaram ao fim com a vitória romana (146 A.C.). As conquistas feitas na extremidade oriental da bacia do Mediterrâneo, sob o comando de Pompeu, como também na Gália, por Júlio César. Expandiram o domínio romano. Após o assassinato de Júlio César, Otávio, que mais tarde veio a ser conhecido como Augusto, derrotou as forças de Antônio e Cleópatra, na batalha naval de Ácio, na Grécia, em 31 A.C., tornando‑se então o imperador de Roma. Dessa maneira, pois, Roma passou de um período de expansão territorial para outro, de paz, o que se tornou conhecido como Pax Romana. A província da Judéia interrompeu essa tranqüilidade mediante grandes revoltas, que os romanos esmagaram nos anos de 70 e 135 D.C. Contudo, a unidade prevalente e a estabilidade política do mundo civilizado sob a hegemonia de Roma facilitaram a propagação do cristianismo, quando de seu aparecimento.


Administração romana.

Augusto estabeleceu um sistema provincial de governo, cujo desígnio era impedir que os procônsules administrassem territórios estrangeiros visando ao seu engrandecimento pessoal. Havia dois tipos de províncias, as senatoriais e as imperiais. Os procônsules, nomeados pelo senado romano para governar as províncias senatoriais, usualmente pelo termo de apenas um ano, prestavam contas ao senado. Paralelamente aos procônsules havia os delegados, nomeados pelo imperador, os quais de modo geral se ocupavam de questões financeiras. Os procuradores governavam as províncias imperiais. Nomeados pelo imperador, os procuradores eram responsáveis perante ele, e exerciam a sua autoridade civil e militar por meio de exércitos permanentes.





Imperadores romanos


Os imperadores romanos seguintes, alistados com as datas de seus respectivos governos, estão vinculados às narrações do Novo Testamento:

‑ Augusto (27 A.C. ‑ 14 D.C.), sob quem ocorreram o nascimento de Jesus, o recenseamento ligado ao Seu nascimento, e os primórdios do culto ao imperador;

‑ Tibério (14‑37 D.C.), sob quem Jesus efetuou o Seu ministério público e foi morto;

‑ Calígula (37‑41 D.C.), que exigiu que se lhe prestasse culto e ordenou que sua estátua fosse colocada no templo de Jerusalém, mas veio a falecer antes que sua ordem fosse cumprida;

‑ Cláudio (41‑54 D.C.), que expulsou de Roma os residentes judeus, entre os quais estavam Áqüila e Priscila, por motivo de distúrbios civis;

- Nero (54 68 D.C.), que perseguiu os cristãos, embora provavelmente somente nas cercanias de Roma, e sob quem Pedro e Paulo foram martirizados;

‑ Vespasiano (69‑79 D.C.), o qual, quando ainda general romano começou a esmagar uma revolta dos judeus, tornou‑se imperador e deixou o restante da tarefa ao encargo de seu filho, Tito, numa campanha que atingiu seu clímax com a destruição de Jerusalém e seu templo, em 70 D. C.;

- Domiciano (81‑96 D.C.), cuja perseguição contra a Igreja provavelmente serviu de pano‑de‑fundo para a escrita do Apocalipse, como encorajamento para os cristãos oprimidos.



Herodes O Grande.

Os romanos permitiam a existência de governantes nativos vassalos de Roma, na Palestina. Um desses foi Herodes o Grande, que governou o país, sob os romanos, de 37 a 4 A.C. Seu pai, Antípater, tendo subido ao poder contando com o favor dos romanos, lançara‑o numa carreira militar e política. O senado romano aprovou o ofício real de Herodes, mas ele foi forçado a obter o controle da Palestina mediante o poder das armas. Tendo por antepassados os idumeus (descendentes de Edom, ou Esaú), por isso mesmo não era visto com bons olhos pelos judeus. Herodes era indivíduo astuto, invejoso e cruel; assassinou a duas de suas próprias esposas e pelo menos a três de seus próprios filhos. Foi ele quem ordenou a matança dos infantes de Belém, em consonância com a narrativa da natividade por Mateus. De certa feita Augusto disse que era melhor ser um porco de Herodes que um filho seu (jogo de palavras, porquanto no grego as palavras que significam porco e filho são muito parecidas). Mas Herodes era igualmente um governante eficiente e um consumado político, tendo conseguido sobreviver às lutas pelo poder nas camadas mais altas do governo romano. Por exemplo, ele trocou de lealdade a Marco Antônio e Cleópatra em prol de Augusto, e conseguiu convencer a este último de sua sinceridade. A administração de Herodes se caracterizava por polícia secreta, toque de recolher e pesados impostos, apesar de também ser distribuído cereal gratuito em períodos de fome e vestes grátis quando de outras calamidades. Entre seus muitos projetos de edificação, sua maior contribuição para os judeus foi o embelezamento do templo de Jerusalém. Isso não expressava sua participação na fé judaica (ele não acreditava nela), mas foi uma tentativa de conciliar seus súditos. O templo de Jerusalém, decorado com mármore branco, ouro e pedras preciosas, tornou‑se proverbial devido ao seu esplendor: "Quem jamais viu o templo de Herodes, nunca viu o que é belo." Herodes o Grande morreu de hidropsia e câncer nos intestinos, em 4 A.C. Ele baixara ordens para que fossem executados determinados líderes judeus por ocasião de seu falecimento, a fim de que, embora não houvesse lamentações por motivo de sua morte, pelo menos as houvesse quando de sua morte. Mas tal ordem pereceu juntamente com ele.







Dinastia de Herodes.

Destituídos das habilidades e ambições de seu pai, os filhos de Herodes passaram a governar porções separadas da Palestina. Arquelau tornou‑se etnarca da Judéia, Samaria e Iduméia; Herodes Filipe, tetrarca da Ituréia, Traconites, Gaulanites, Auranites e Batanéia; e Herodes Antipas tetrarca da Galiléia e Peréia. João Batista repreendeu a Antipas por haver‑se divorciado de sua esposa para casar‑se com Herodias, esposa de seu meio-irmão. Quando Herodias induziu sua filha dançarina a que pedisse a cabeça de João Batista, Antipas acedeu à horrenda solicitação (vide Marcos 6:17‑29 e Mateus 14:3‑12). Jesus chamou a Herodes Antipas de "essa raposa" (Lucas 13:32), e mais tarde teve de enfrentar o juízo deste em tribunal (vide Lucas 23:7‑12). Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande, executou o apóstolo Tiago, filho de Zebedeu, e também encarcerou Pedro (vide Atos 12). Herodes Agripa II, bisneto de Herodes o Grande, ouviu Paulo em sua auto‑defesa (vide Atos 25 e 26).





Governadores romanos.

Os desmandos de Arquelau na Judéia, em Samaria e na Iduméia provocaram sua remoção do ofício e seu banimento por ordens de Augusto, em 6 D.C. Esses mesmos desmandos tinham sido a causa pela qual José, Maria e Jesus, ao regressarem do Egito, tiveram de estabelecer‑se em Nazaré da Galiléia, ao invés de fazê‑lo em Belém da Judéia (vide Mateus 2:21‑23). Após a remoção de Arquelau, o território passou a ser dirigido por governadores romanos, exceto por breves períodos. Um desses governadores, Pôncio Pilatos, foi o juiz de Jesus. Os governadores Félix e Festo ouviram a exposição do caso de Paulo (vide Atos 23‑26). E quando o governador Floro pilhou o tesouro do templo, isso foi o estopim da revolta dos judeus, em 66‑73 D.C. Devemo‑nos lembrar, entretanto, que a despeito dos Herodes e dos governadores romanos, o sacerdócio judaico e o Sinédrio (uma modalidade de Tribunal Superior dos Judeus) é que controlavam boa parte das questões locais que afetavam a vida diária.






Da Primeira à Segunda guerrada dos Judeus.

A adoração no templo de Jerusalém, com seu sistema de sacrifícios, cessou com a destruição de Jerusalém, em 70 D.C. Como medida substitutiva, os rabinos judeus estabeleceram uma escola na cidade costeira mediterrânea de Jamnia, onde se fizessem estudos mais intensivos da Torá, ou lei do Antigo Testamento. A incerta situação continuou na Palestina até aos dias do imperador Hadriano, o qual mandou erigir um santuário dedicado a Júpiter, deus romano, no local exato em que estivera o templo, além de ter proibido o rito da circuncisão. Os judeus se revoltaram uma vez mais, agora sob a liderança de Bar Cochba, (A segunda parte do nome de Bar Cochba está sujeita a certa variedade de formas.) O qual foi saudado por muitos como se fora o Messias (132 D.C.). Mas os romanos abafaram o levante em 135 D.C., reconstruíram Jerusalém como uma cidade romana e baniram os judeus, proibindo‑os de entrar na cidade. Dessa forma, pois, deixou de existir o estado judaico, até que foi reavivado, em 1948.


Para discussão posterior:

‑ De que maneiras providenciais os eventos do período intertestamentário constituem uma preparação para a vinda de Cristo e para o surgimento da Igreja?

‑ Quais paralelos podem ser traçados com razão entre a controvérsia havida entre os judeus helenistas e os judeus hasidim e a controvérsia que tem havido durante a história da Igreja, especialmente na época contemporânea?
REVISÃO DA HISTÓRIA POSTERIOR VETEROTESTAMENTÁRIA
Século - Poder Dominante - Eventos Importantes
A.C. VIII (700 s) - Assíria - Cativeiro do reino nortista de Israel, com destruição da capital, Samaria, em722 A.C.
VII (600s)
VI (500s) - Babilônia - Cativeiro do reino sulista de Judá, com destruição de Jerusalém em 586 A.C.

VI (500s) - Pérsia - Retorno de alguns judeus à Palestina, para reconstruir a nação, o templo e Jerusalém, nos começos de 537 A.C.


V (400s)
IV (300s) – Grécia‑Macedônia - Conquista por Alexandre o Grande e helenização intensa do Oriente Médio

IV (300s) - Morte de Alexandre o Grande, em 323 A.C. e divisão do seu império.

IV (300s) - Egito - Hegemonia dos Ptolomeus sobre a Palestina, 320-198 AC.
III (200s) - Primórdios da Setuaginta, com tradução do Pentateuco do hebraico para o grego
II (100s) - Síria - Hegemonia dos Selêucidas sobre a Palestina, 198 ‑ 167 A.C.

II (100s) - Desenvolvimento dos partidos helenista e hasidim, dentro do judaísmo

II (100s) - Antíoco Epifânio fracassa em anexar o Egito.

II (100s) - Tentativa violento de Antíoco Epifânio por forçar a completa helenização ou paganização dos judeus, em 168 A.C.

II (100s) - Irrompimento da revolta dos Macabeus, em 167 A.C., e obtenção da independência judaica, sob a liderança sucessiva de Matatias, Judas Macabeu, Jônatas e Simão.
I (100s) - Independência judaica - Dinastia Hasmoneana, 142 ‑ 17 A.C.
I (99‑1) - Inquietações intestinas

I (99-1) - Desenvolvimento das seitas judaicas Saduceus, Fariseus e Essênios.

I (99-1) - Roma - Subjugação da Palestina pelo general romano Pompeu, em 63 A.C.

I (99-1) - Antipater e seu filho, Herodes o Grande, ascendem ao poder na Palestina,


INTERTESTAMENTÁRIA E NEOTESTAMENTÁRIA


Século - Poder Dominante - Eventos Importantes
I (99-1) – Roma - Assassinato de Júlio César

I (99-1) – Roma - Augusto torna‑se imperador romano (27 A.C. ‑ 14 D.C.), às expensas de Marco Antônio e Cleópatra

I (99-1) – Belém - Nascimento de Jesus, cerca de 6 A.C.

I (99-1) – Judéia - Morte de Herodes, o Grande, em 4 A.C.


DC I (1-99) - Roma - Imperador Tibério (14 ‑ 37 D.C.); Pilatos, governador da Judéia.

DC I (1-99) - Ministério público, morte e ressurreição de Jesus (cerca de 27 ‑ 30 D.C.)

DC I (1-99) - Primórdios da Igreja Cristã, sob a liderança de Pedro, Paulo e outros.

DC I (1-99) - Imperadores Calígula e Cláudio (37 ‑ 41 e 41 ‑ 54 D. C., respectivamente)

DC I (1-99) - Expansão da Igreja Cristã

DC I (1-99) - Primórdios da literatura do Novo Testamento

DC I (1-99) - Imperador Nero (54 ‑ 68 D.C.)

DC I (1-99) - Perseguição aos cristãos, em escala limitada

DC I (1-99) - Martírio de Pedro e Paulo (64 ‑ 68 D.C.)

DC I (1-99) - Galba, Oto e Vitélio, imperadores por breve tempo (68 ‑ 69 D.C.)

DC I (1-99) - Imperador Vespasiano (69 ‑ 79 D.C.)

DC I (1-99) - Primeira Guerra dos Judeus (66 ‑ 73 D.C.)

DC I (1-99) - Destruição de Jerusalém e seu Templo por Tito, em 70 D.C.

DC I (1-99) - Imperador Tito (79 ‑ 81 D.C.)

DC I (1-99) - Imperador Domiciano (81 ‑ 96 D.C.)

DC I (1-99) - Reconstituição do Judaísmo em Jamnia, com quase total ênfase sobre a Torá, após a perda do Templo.

DC I (1-99) - Produção final da literatura neotestamentária com os escritas joaninos

DC I (1-99) - Primórdios de outras perseguições dos romanos contra a Igreja


II (100s) - Imperadores Nerva e Trajano (96 ‑ 98 e 98 ‑ 117 D.C., respectivamente)

II (100s) - Imperador Hadriano (117 ‑ 138 D.C.)

II (100s) - Segunda Guerra dos judeus, sob o líder rebelde Bar Cochba (132 ‑ 135 D.C.)

II (100s) - Reconstrução de Jerusalém, como cidade romana e banimento dos judeus da cidade.


LISTAS DOS GOVERNADORES ROMANOS DA JUDÉIA
Do banimento de Arquelau, 6 D.C. à Destruição de Jerusalém, 70 D.C.

(Os nomes daqueles que figuram no Novo Testamento estão em letras maiúsculas)


D.C.

6 - Copónio

10 - M. Ambívio

13 - Anio Rufo

15 - Valério Grato

26 - PONCIO PILATOS

36 - Marcelo

38 - Marilo


(De 41 a 44 D.C., Herodes Agripa I governou como rei da Judéia e da Palestina toda)
44 - Cuspius Fados

46 - Tibério Alexandre

48 - Ventídio Cumano

52 - M. Antônio FÊLIX

59 - Pórcio FESTO

61 - Albino



65 - Géssio Floro






Para investigação posterior:
(Material primário)
Barret, C.K. The New Testament Background: Selected Document.s. Londres: S.P.C.K., 1958. Mormente as págs. 1‑21, 105‑138, 190‑196, 208‑216, 223‑226.

l & ll Maccabees. Em The Oxford Annotated Apocrypha. Editados por B. M. Metzger. Oxford University Press, 1965.

Josefo, Antiquitates Judicae. 2 vols. Loeb Classical Library. Harvard University Press, 1957.

‑‑‑‑‑‑‑‑, Bellum Judaicum. 2 vols. Loeb Classical Library. Harvard University Press, 1956.

Políbio. Histories XXIX 27. Sobre o encontro entre Antíoco Epifânio e o enviado romano, fora de Alexandria.

Yadin, Y. Herod's Fortress and the Zealot.s' Last Stand. Nova Iorque: Random, 1967. Quanto a recentes descobertas arqueológicas que confirmam a dramática narrativa de Josefo sobre a luta até o fim dos zelotes, em Masada, no fim da Primeira Guerra Judaica.

‑‑‑‑‑‑‑‑, The Finds from the Bar Kokhba Period in lhe Cave of Letters. Jerusalém: Israel Exploration Society, 1963. Quanto a uma descrição técnica de uma escavação arqueológica e descobertas em uma caverna que continha cartas de Bar Cochba, durante a Segunda Guerra Judaica.
(Tratados modernos)
Pfeiffer, Charles. Between the Testaments. Grand Rapids: Baker, 1959.

Russell, D.S. Between lhe Testaments. Londres: S.C.M., 1960.

Bruce, F.F. Israel and lhe Nations. Grand Rapids: Eerdmans,

Tenney, M.C. New Testaments Times. Grand Rapids: Eerdmans, 1956.




CAPÍTULO 2 - O Ambiente Secular Do Novo Testamento



Perguntas Normativas:
‑ Como é que as pessoas do primeiro século D.C. viviam, pensavam, falavam, trabalhavam, comiam, vestiam‑se, viajavam, estudavam e divertiam‑se?

‑ Quais diferenças havia entre a vida diária dentro e fora da Palestina?


A POPULAÇÃO JUDAICA
Tem‑se calculado que mais de quatro milhões de judeus viviam no Império Romano durante os dias do Novo Testamento, talvez 7% da população total do mundo romano. Mas dificilmente o número de Judeus que viviam na Palestina atingia a setecentos mil. Havia mais judeus em Alexandria, no Egito, do que em Jerusalém; e mais na Síria do que na Palestina! E mesmo em certas porções da Palestina (na Galiléia, onde Jesus se criou, e em Decápolis) os gentios eram mais numerosos do que os judeus.
IDIOMAS
O latim era a língua oficial do império romano, mas era o idioma usado principalmente no ocidente. No oriente, a língua franca (idioma comum) era o grego. Além do grego, os habitantes da Palestina falavam o aramaico e o hebraico, pelo que também Jesus e os primeiros discípulos provavelmente eram trilingües. (Uma opinião comum, mas provavelmente errada é que Jesus falava quase exclusivamente o aramaico. As evidências arqueológicas e literárias apontam para o trilingüismo. Ver R. H. Gundry, "The Language Milieu of First‑Century Palestine", Journal of Biblical Literature. 83 (1964), ps. 404‑408.)
TRANSPORTES, COMÉRCIO E COMUNICAÇÕES

No campo dos transportes, do comércio e das comunicações a Palestina era bem pouco desenvolvida. Provavelmente o país não possuía estradas pavimentadas, embora houvesse diversas estradas principais. Uma dessas estradas partia de Jerusalém, na direção sudoeste, para Belém e Gaza, e outra partia de Jerusalém, na direção nordeste, para Betânia, Jericó e Damasco. Paulo estava percorrendo esta última quando teve sua visão de Cristo. A segunda estrada principal se separava da primeira na Transjordânia e atravessava Decápolis até Cafarnaum. A maioria dos judeus percorria essas duas estradas quando de viagem entre a Galiléia e a Judéia, a fim de evitar entrar em Samaria. Uma terceira estrada principal subia pela costa mediterrânea de Gaza a Tiro. Uma estrada secundária, na qual o Cristo ressurreto conversou com dois discípulos, seguia para além de Emaús até Jerusalém. A quarta estrada principal ia desde Jerusalém e seguia direto para o norte, atravessando Samaria e terminando em Cafarnaum. Ao longo dessa estrada foi que Jesus entabulou conversa com a mulher samaritana, à beira do poço de Jacó. Finalmente, a Via Maris (Estrada do Mar) partia de Damasco, atravessava Cafarnaum perto do mar da Galiléia e seguia na direção de Nazaré, prosseguindo até à costa do Mediterrâneo.

Embora na Palestina o sistema de estradas fosse comparativamente deficiente, por quase todo o império romano as rodovias eram famosas com razão. Eram construídas tão retas quanto possível, e muito duráveis. Os primeiros missionários cristãos usaram‑nas com grande proveito. O correio imperial transportava despachos governamentais por essas estradas. As empresas particulares tinham seus próprios mensageiros, que levavam suas mensagens. As pessoas viajavam a pé, em lombo de burro, a cavalo ou montadas em mulas, e usavam carruagens ou liteiras. Visto que as hospedarias à beira do caminho eram bastante sujas, as pessoas de posses dependiam de seus amigos para se alojarem. Era possível adquirir‑se mapas de turismo em forma de manuscritos, e até havia manuais de orientação para os turistas.

Por água é que se escoavam acima de tudo, os transportes comerciais. Visto que o Egito era o fornecedor de pão do império romano, Alexandria era o porto principal e o escoadouro dos cereais produzidos no Egito. Navios alexandrinos atingiam cerca de 60 m de comprimento, possuíam velas e levavam remos para casos de emergência. Um navio dos grandes podia transportar várias centenas de passageiros, em adição à carga. Paulo estava embarcado em um navio alexandrino quando sofreu naufrágio. Os navios de guerra eram mais leves e mais ligeiros. Escravos de galé brandiam os remos, havendo navios com duas a cinco fileiras de remos, e às vezes nada menos de dez fileiras. Barcaças cruzavam rios e canais.

Estradas, rios e o mar Mediterrâneo proviam as linhas de comunicação. O material de escrita para cartas e outros documentos era o papiro, os óstracos (pedaços quebrados de cerâmica) e tabletes recobertos de cera. Mas no caso de manuscritos importantes era empregado o couro ou o pergaminho. A maior parte das notícias era propagada oralmente pelos arautos ou em notificações públicas, colocadas em quadros de boletim.
SERVIÇOS PÚBLICOS
Alexandria contava com um bem desenvolvido sistema escolar. A biblioteca da cidade continha acima de um milhão de volumes. As escavações têm demonstrado que a cidade de Antioquia, na Síria, dispunha de dois quilômetros e meio de ruas dotadas de colunas, pavimentadas de mármore e com um completo sistema de iluminação noturna. As principais cidades do império contavam com sistemas de esgotos subterrâneos. Havia banhos públicos para todos: a admissão custava dez centavos. A princípio as pessoas costumavam tomar um banho só por dia; mais tarde, entretanto, alguns já estavam tomando quatro a sete banhos diários. Os banhos de chuveiro desde há muito tinham sido inventados pelos gregos.
AS MORADIAS
As casas de moradia da porção ocidental do império romano eram construídas de tijolos ou de concreto, pelo menos nas cidades. Os bairros mais pobres e as áreas rurais contavam com casas de madeira ou cabanas. Na porção oriental do império, as casas usualmente eram de estuco e de tijolos cozidos ao sol. Poucas janelas se abriam para a rua, porquanto nas cidades havia falta de um adequado policiamento que impedisse os assaltantes de vaguearem pelas ruas à noite ou penetrarem nas residências através das janelas. As moradias de melhor qualidade dispunham de entradas com portas duplas, algumas vezes com aldravas. Depois da porta havia o vestíbulo, além do qual se encontrava um espaçoso pátio central chamado atrium. Os telhados eram cobertos de telhas ou de palha. Na cozinha havia uma fornalha aberta, além de um forno de barro ou de pedras, que servia de fogão. Lâmpadas de azeite proviam iluminação. Serviços de encanamento de água e de aquecimento já eram bem desenvolvidos. Algumas casas contavam com uma fornalha central, de onde o ar era bombeado por meio de foles para diversas partes das mesmas. Muitos lavatórios romanos dispunham de água corrente, e as casas de Pompéia eram construídas com pelo menos um banheiro, e às vezes até dois. As paredes eram decoradas com murais. Nas cidades maiores as pessoas das classes média e baixa, freqüentemente, alugavam apartamentos em edifícios de apartamentos.

As cidades e as moradias da Palestina eram um tanto diferentes de suas congêneres greco‑romanas, e eram comparativamente atrasadas. A entrada numa cidade se fazia por meio de um portão nas muralhas. Do lado de dentro do portão havia uma praça que provia espaço público para comércio e para atividades sociais e legais. Jesus deve ter pregado com frequência nessas praças citadinas. As casas eram baixas e com cobertura plana, algumas vezes com um quartinho para hóspedes encarapitado no alto. O material de construção usado nessas edificações usualmente consistia de tijolos de barro amassado com palha e ressecados ao sol.


O habitante típico da Palestina dispunha de um apartamento em algum edifício, o qual contava com muitos apartamentos, todos no nível do chão. Cada apartamento consistia exclusivamente de um aposento. Parte desse aposento era construída em nível levemente superior à outra parte. Leitos, baús para roupas e utensílios de cozinha estavam localizados no nível levemente superior. Animais de abate e outros animais domésticos ocupavam o nível inferior, ou, quando tais animais eram mantidos do lado de fora, as crianças brincavam nesse nível inferior. Galhos deitados cruzados sobre vigas, emboçados com barro, formavam os eirados planos. A chuva provocava goteiras, pelo que, após cada chuva, tornava‑se mister fazer rolar o barro para tapar as fendas. Um parapeito, levantado ao redor da beira do eirado, servia para impedir as pessoas de caírem dali, e um lance de escada, pelo lado de fora da casa, conduzia ao eirado. Esse eirado plano era usado para as pessoas ali dormirem na estação quente, para secar verduras, para amadurecer frutas, e, nos lares devotos, como lugar de oração. O piso consistia de terra batida, ou, nas casas mais bem feitas, de pedras. Os leitos não passavam de um colchão ou de uma colcha estendida no chão. Somente nas casas mais abastadas havia camas armadas. As pessoas dormiam vestidas com as roupas que usavam durante o dia.


ALIMENTAÇÃO
Os romanos tinham quatro refeições por dia. A dieta do indivíduo médio consistia de pão, mingau de aveia, sopa de lentilhas, leite de cabra, queijo, verduras, frutas, azeitonas, toicinho defumado, lingüiça, peixe e vinho diluído em água. Os judeus costumavam ter somente duas refeições formais, uma ao meio‑dia e outra à noite. A dieta dos judeus consistia principalmente de frutas e legumes. Carne, assada ou cozida, usualmente era reservada para dias de festa. Uvas passas, figos, mel e tâmaras supriam os adoçantes, porquanto era desconhecido o açúcar. O peixe era um freqüente substituto da carne. Quando das refeições formais as pessoas costumavam reclinar‑se em divãs acolchoados. Nas refeições informais, se assentavam.

VESTUÁRIO E MODAS


Os homens usavam túnicas, que eram vestes semelhantes a camisas, que se prolongavam dos ombros aos joelhos. Um cinto ou uma faixa, de nome "cinturão" no Novo Testamento, era enrolado em volta da cintura; e também eram usadas sandálias grosseiras nos pés, e um turbante ou chapéu na cabeça. Nos meses frios, uma manta ou capa pesada era usada por cima da túnica, provendo agasalho. As vestes usualmente eram de cor branca. As mulheres usavam uma túnica curta como roupa de baixo, e algumas vezes usavam uma túnica externa brilhantemente colorida que descia até os pés. As mulheres mais elegantes usavam cosméticos em grande abundância, o que incluía o batom, sombras para os olhos, pintura das sobrancelhas, e, quando se tratava de jóias, usavam brincos e pendentes no nariz. Os penteados femininos mudavam constantemente de estilo, embora as mulheres da Palestina costumassem cobrir a cabeça com um véu (mas nunca cobriam o rosto). Os homens traziam os cabelos curtos, raspados com navalhas. Havia janotas que mandavam encaracolar os cabelos, nos quais aplicavam pródigas quantidades de óleo para cabelos e perfumes. Tanto os homens quanto as mulheres tingiam os cabelos, com freqüência para disfarçar os cabelos grisalhos. Cabelos falsos ajudavam a armar os penteados, e ambos os sexos usavam perucas. Na Palestina os homens deixavam a barba crescer. Seus cabelos eram conservados um pouquinho mais longos do que em outras regiões, mas não tão compridos como se vê nas gravuras que representam pessoas dos tempos bíblicos. A moda, na Palestina, usualmente se mantinha em níveis conservadores para ambos os sexos.
AS CLASSES SOCIAIS
Na sociedade pagã as camadas sociais eram vigorosamente delineadas. Os aristocráticos proprietários de terras, os contratadores do governo e outros indivíduos viviam no luxo. Não existia uma classe média forte, porquanto os escravos é que perfaziam a maior parte do trabalho manual. Tornando‑se mais tarde dependente do sustento dado pelo governo, a classe média de tempos prévios se transformara em uma turba sem lar e sem alimentos nas cidades. Uma estratificação menor prevalecia na sociedade judaica, por causa da influência niveladora do judaísmo. A grosso modo, no entanto, os principais sacerdotes e os rabinos liderantes formavam a classe mais alta. Fazendeiros, artesãos e pequenos negociantes compreendiam a maior parte da população.

Entre os judeus, os cobradores de impostos (publicanos) tornaram‑se objetos de uma especial aversão, como classe. Os demais judeus desprezavam a esses cobradores de impostos, ou, mais acuradamente ainda, cobradores de taxas, e isso devido ao seu necessário contato com superiores gentios. Os romanos leiloavam as vagas para coletores de taxas numa espécie de concorrência pública, a saber, para os que aceitassem as menores taxas de juros como comissão, em contratos de cinco anos. Os coletores de taxas recolhiam não somente as taxas e suas respectivas comissões, mas também tudo quanto pudessem embolsar ilegalmente. Por essa razão, como igualmente devido à sua colaboração com dominadores estrangeiros, os cobradores de taxas geralmente eram odiados. O suborno pago aos cobradores de taxas pelos ricos aumentava ainda mais a carga que recaía sobre os pobres.

No império romano, os escravos quiçá fossem mais numerosos que os homens livres. Era comum condenar criminosos, endividados e prisioneiros de guerra à servidão. Muitas das declarações e parábolas de Jesus dão a entender que a escravidão também existia na cultura hebréia de Seu tempo. As epístolas de Paulo refletem a presença de escravos nos domicílios cristãos. Muitos desses escravos ‑ médicos, contadores, professores, filósofos, gerentes, balconistas, escriturários ‑ eram mais aptos e mais bem educados que seus senhores. Alguns escravos conseguiam sua redenção a dinheiro, ou então recebiam a liberdade da parte de seus senhores.

Originalmente, os escravos que se tivessem tornado criminosos eram os únicos que podiam ser executados por crucificação. Mais tarde, todavia, libertos que houvessem cometido crimes hediondos também passaram a sofrer a crucificação. Durante o assédio de Jerusalém, no ano 70 D. C., Tito crucificou nada menos de quinhentos judeus em um só dia, fora das muralhas da cidade, a plena vista do povo que ainda se encontrava no interior das mesmas. (Josefo, Guerra dos Judeus, V. xi.1.) A execução na fogueira, em que a pessoa viva era amarrada a um poste no meio do combustível, ocasionalmente chegou a ser praticada. Noutras oportunidades, homens condenados foram forçados a lutar como se fossem gladiadores, nas arenas. Grupos inteiros algumas vezes assim se chacinavam, em combates simulados.


A FAMÍLIA
A unidade social básica era a família. Alguns fatores tendiam por decompor a família, entretanto, como, por exemplo, a predominância, numérica dos escravos e o treinamento de crianças por parte de escravos, em lugar dos próprios pais das crianças. A família greco‑romana típica contava com baixa taxa de nascimentos. A fim de encorajar famílias mais numerosas, o governo oferecia concessões especiais aos pais de dois ou mais filhos. Mui provavelmente os solteirões tinham de pagar impostos especiais.

Na Palestina eram comuns as famílias de muitos membros. Havia alegria ante o nascimento de um menino, mas tristeza ante o de uma menina. No oitavo dia de vida, o infante do sexo masculino era circuncidado e recebia o seu nome. A outorga de um nome a uma menina podia esperar pelo espaço de um mês. As famílias não tinham sobrenomes, pelo que pessoas com um mesmo nome eram distinguidas mediante a menção do nome do pai (“Simão, filho de Zebedeu”), mediante a filiação política ("Simão o Zelote"), pela ocupação ("Simão, o curtidor"), ou mediante o lugar de sua residência ("Judas lscariotes", onde a palavra "Iscariotes" significa "homem de Queriote"). Quando ocorria um falecimento, a família do morto levava a efeito alguma forma de lamentação, como o ato de rasgar as vestes ou o jejum, além de contratar carpideiras profissionais, usualmente mulheres treinadas em soltar lamentações. Em adição a isso, a família podia contratar os serviços de um agente funerário.


MORALIDADE
Nas exortações das epístolas do Novo Testamento, os pecados sexuais usualmente encabeçam as listas de proibições. Toda modalidade concebível de imoralidade era atribuída às divindades pagãs. As "virgens" dos templos faziam parte integral dos ritos religiosos pagãos. A prostituição, da parte de mulheres e de homens, era uma instituição bem reconhecida. Meninas escravas com freqüência eram as vítimas desses excessos. Alguns homens lançavam na prostituição às suas próprias esposas e filhas, a fim de ganhar dinheiro. Gravuras obscenas com freqüência decoravam as paredes externas das casas, conforme se tem descoberto na escavação de residências em Pompéia.

O divórcio era fácil de arranjar, freqüente e aceitável. De fato, documentos de divórcio se acham entre os papiros remanescentes mais numerosas. Os pais com freqüência "expunham" os seus infantes, isto é, abandonavam‑nos no tribunal da cidade, em alguma colina ou em alguma viela. O assassínio era prática comum. Uma carta, dirigida por um homem à sua mulher, diz: "Caso você venha a ter criança, se for menino, deixe‑o viver. Se for menina, exponha‑a". (P. Oxy. 744 (1 A. C.) Ver C. K. Barrett, The New Testament Background. pág. 38.) Com muita freqüência, as meninas assim enjeitadas eram recolhidas a fim de serem criadas como prostitutas. Deveríamos acrescentar, contudo, que a despeito da prevalência de tão baixa moralidade, não se faziam inteiramente ausentes pessoas decentes no mundo greco‑romano.



ENTRETENIMENTOS


Talvez a forma mais espetacular de diversão fossem as lutas dos gladiadores. Os gladiadores podiam ser escravos, cativos, criminosos ou voluntários. De certa feita o picadeiro de uma arena foi cheio de água, e então levou‑se a efeito uma batalha naval ali. Nada menos de dez mil indivíduos morreram em um único desses eventos. A areia da arena ficou tão empapada de sangue que foi preciso trocar a areia várias vezes naquele dia. Os espetáculos de gladiadores com freqüência exibiam animais ferozes. Em uma dessas oportunidades, trezentos leões foram sacrificados. Quando da abertura inaugural do anfiteatro de Tito, cinco mil animais ferozes e quatro mil animais mansos foram trucidados. Elefantes, tigres, panteras, rinocerontes, hipopótamos, crocodilos e serpentes foram postos a lutar uns contra os outros.

As corridas de bigas correspondiam às nossas corridas de automóveis. As apostas eram muito comuns. Naturalmente, o público idolatrava as carruagens vencedoras.

Peças teatrais maliciosas refletiam a imoralidade da época. Todavia, as diversões não consistiam somente de deboches. Os Jogos Olímpicos desde há muito vinham sendo eventos esportivos que atraíam a muita gente. Havia boa música e boa literatura. As crianças brincavam com brinquedos como chocalhos infantis, bonecas com membros móveis, casas e móveis em miniatura, bolas, balanços e jogos similares à amarelinha, ao esconde‑esconde e à cabra‑cega.

NEGÓCIOS E TRABALHO


Grêmios profissionais, com suas divindades patronas, prefiguravam as modernas uniões trabalhistas. Esses grêmios de profissionais se ocupavam de intrigas políticas, prestavam auxílio a seus membros em situação precária e distribuíam benefícios às viúvas e aos órfãos de membros já falecidos. Na Palestina, esses grêmios regulamentavam os dias e as horas de trabalho.

A indústria limitava‑se a pequenas oficinas locais, porquanto o transporte de bens para lugares distantes era proibitivamente dispendioso. As caravanas eram lentas e estavam sujeitas a ataques. A navegação, no mar Mediterrâneo, só era exeqüível durante os calmos meses de verão.

A agricultura era surpreendentemente avançada quanto a certos aspectos. Os agricultores estavam familiarizados com diferentes tipos de fertilizantes, e praticavam a seleção de sementes de acordo com o tamanho e a qualidade das mesmas. Usavam pesticidas mergulhando o grão em misturas químicas que protegiam o cereal dos insetos daninhos. E também praticavam a rotatividade no plantio.

Companhias particulares exploravam a atividade bancária de modo muito parecido com o que é feito modernamente, emprestando, descontando notas, cambiando moeda estrangeira e expedindo notas de crédito. As taxas de juros em voga variavam de quatro a doze por cento ao ano.


CIÊNCIAS E MEDICINA
Embora os judeus não estivessem particularmente interessados em assuntos científicos, no período do Novo Testamento, a ciência existia. Por exemplo, no século III A. C., Eratóstenes, bibliotecário em Alexandria, ensinava que a terra é esférica e calculou que ela teria 24 mil milhas de circunferência (somente oitocentas milhas menos que o cálculo moderno), além de ter calculado a distância da terra ao sol em 92 milhões de milhas (a estimativa moderna é de 93 milhões de milhas). E por igual modo ele conjecturou a existência do continente americano.

A medicina, ou pelo menos a cirurgia, estava mais avançada do que poderíamos imaginar ‑ uma relevante informação, porquanto um dos escritores do Novo Testamento, Lucas, era o médico pessoal de Paulo. Os cirurgiões faziam intervenções cirúrgicas no crânio, traqueotomias (incisões na traquéia) e amputações. Não obstante, era limitado o conhecimento e o uso de anestésicos, pelo que também as qualificações de um cirurgião eram as que damos abaixo:


Um cirurgião precisa ser jovem, ou, pelo menos, não muito idoso; suas mãos devem ser firmes e seguras, sem jamais tremerem; deve ser capaz de usar tão bem a mão esquerda quanto a direita... deveria ser dotado de tão grande compaixão que se torne desejoso da recuperação de seu paciente; mas não tanto a ponto de deixar‑se comover com seus gemidos; não deve apressar a operação mais do que o caso requer, e nem cortar menos do que é necessário, mas deve fazer tudo como se os gritos do enfermo não exercessem sobre ele impressão alguma. (Citado de A.C. Bouquet, Evereyday Life in New Testament Time, (Nova Iorque: Scribner's. 1953), pág. 171, uni livro do qual fui respigada grande porte do material deste capítulo.)
Era usada certa variedade de instrumentos médicos, como lancetas, agulhas de costura, um instrumento de elevar porções deprimidas do crânio, várias modalidades de fórceps, catéteres, espátulas para examinar a garganta e instrumentos tipo alavanca para dilatarem passagens no corpo, permitindo o exame do seu interior. No campo da odontologia, preenchiam‑se cavidades dos dentes com ouro. Dentaduras provinham das bocas de pessoas falecidas ou de animais. Algumas vezes as pessoas usavam pós abrasivos para polir e branquear os dentes.

Desse modo, um mostruário da cultura greco‑romana do primeiro século mostra que, embora a gente do Novo Testamento tiveste vivido antes da época da ciência, era um povo inteligente, cuja sociedade e cultura em muitas particularidades eram surpreendentemente semelhantes às nossas. Isso não era tão característico na Palestina, onde teve início o cristianismo, mas assim acontecia fora da Palestina, para onde o cristianismo rapidamente se propagou.


Para discussão posterior:

‑ Qual preparação cultural pode ser vista no mundo greco‑romano para a vinda de Cristo e o surgimento da Igreja?

‑ Por que os judeus da Palestina tendiam por ser culturalmente atrasados? A Igreja cristã, por igual modo pende para o atraso cultural? Nesse caso, deve‑se isso a razões similares ou diferentes? Em caso contrário, por que não, em face do fato que o cristianismo se originou do judaísmo?
Para investigação posterior:
Barrett. C. K. The New Testament Background: Selected Documents. Londres: S.P.C.K., 1958. Especialmente as págs. 36‑44, quanto a citações extraídas de fontes primárias.

Bouquet, A. C. Everyday Life in New Testament Times. Nova Iorque: Scribner's, 1953.

Daniel‑Rops. H. A Vida Diária nos Tempos de Jesus. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983.

Jones, C. M. New Testament Illustrations. Cambridge University Press, 1966.

Everyday Life in Bible Times. Editado por M. B. Grosvenor. Nacional Geographic Society, 1967.

Corswant, W. A. Dictionarv of Life in Bible Times. Completando e ilustrado por E. Urech: traduzido por A. Heathcote. Nova Iorque: Oxford, 1960.

Bailey, A. E. Daily Life in Bible Times. Nova Iorque: Scribner's, 1943.

Miller, M. S. e J. L. Encyclopedia of Bible Life. Nova Iorque: Harper, 1944.

Wight. F. H. Manners and Customs of Bible Lands. Chicago: Moody, 1953.



CAPÍTULO 3 - O Ambiente Religioso do Novo Testamento



Perguntas Normativas:

‑ Quais eram as crenças e práticas religiosas ‑ esotéricas, mitológicas, supersticiosas, filosóficas ‑ entre os pagãos, no período greco‑romano?

‑ Como se desenvolveram as instituições e as crenças judaicas do Antigo Testamento para os tempos do Novo Testamento?

- De que modo se combinaram o meio ambiente pagão e o meio ambiente religioso dos judeus, em contribuição para o nascimento do cristianismo?

O PAGANISMO

Mitologia


O deus supremo do panteão grego ou hierarquia de divindades era Zeus, filho de Cronos. Cronos, que arrebatara o governo do mundo das mãos de seu pai, Urano, canibal que era, devorava os seus próprios filhos conforme iam nascendo. Todavia, a mãe de Zeus salvou ao seu infante ao entregar a Cronos uma pedra envolta em cobertores infantis, para que a engolisse. Ao atingir a idade adulta, Zeus derrubou seu pai e dividiu os domínios daquele com seus dois irmãos, Poseidom, que passou a governar os mares, e Hades, que se tornou senhor do mundo inferior. O próprio Zeus pôs‑se a governar os céus. Os deuses tinham acesso à terra, vindos de sua capital, o monte Olimpo, na Grécia.

De acordo com a mitologia, Zeus era forçado a abafar ocasionais rebeliões da parte dos deuses, os quais exibiam pendores perfeitamente humanos de paixões e concupiscências, de amor e ciúmes, de ira e ódio. De fato, os deuses seriam superiores aos homens somente quanto ao poder, à inteligência e à imortalidade ‑ mas por certo não quanto à moralidade. Um deus extremamente popular era Apolo, filho de Zeus, inspirados de poetas, videntes e profetas, e que também realizava numerosas outras funções. Em Delfos, na Grécia, um templo dedicado a Apolo fora erigido por cima de uma caverna, de onde se emanavam vapores, que o vulgo julgava ser o hálito de Apolo. Uma sacerdotisa, assentada sobre um tripé, acima da abertura, inalava os vapores e, em estado de transe, murmurava palavras que eram registradas e interpretadas de modo muito vago pelos sacerdotes, em respostas aos adoradores inquiridores.


Religião oficial.

A religião oficial de Roma adotou grande parte do panteão e da mitologia gregos. As divindades romanas vieram a ser identificadas com os deuses gregos (Júpiter com Zeus, Vênus com Afrodite, e assim por diante). Os romanos também adicionaram certas características, como a de um sacerdócio sobre o qual o próprio imperador atuava como pontifex maximus (sumo sacerdote). As características perfeitamente humanas de tais deuses destruíam a fé de muitas pessoas no panteão greco‑romano. Quanto a outras pessoas, entretanto, tal fé persistiu por todo o período do Novo Testamento.


Adoração ao Imperador.

Seguindo a prática desde há muito firmada de atribuir atributos divinos aos governantes, o senado romano lançou a idéia do culto ao imperador, ao deificar, após a morte, a Augusto e a subseqüentes imperadores que porventura tivessem servido bem como tais. Elementos leais e entusiastas das províncias orientais algumas vezes antecipavam essa deificação pós‑morte. Os imperadores do primeiro século que reivindicaram a divindade para si mesmos, enquanto ainda viviam ‑ Calígula, Nero e Domiciano ‑ não foram honrados com tal distinção ao morrerem. O insano Calígula (37‑41 D.C.) ordenara que uma estátua sua fosse levantada no templo de Jerusalém, a fim de ser adorada. Afortunadamente, tal medida foi adiada pelo mais sensato embaixador sírio, porquanto os judeus sem dúvida ter‑se‑iam revoltado. Nesse ínterim, Calígula foi assassinado. Domiciano (81‑96 D.C.) foi o primeiro a tomar providências sérias e generalizadas para forçar a adoração de sua pessoa. A recusa dos cristãos em participarem do que passou a ser tido como um dever patriótico, como uma medida tendente a unificar o preito de lealdade ao imperador, como uma divindade, provocou uma perseguição que foi crescendo de intensidade.


Religiões misteriosas.

Muito se tem escrito sobre a larga popularidade e influência das religiões misteriosas dos gregos, egípcios e povos orientais sobre o primeiro século cristão ‑ os cultos de Eleusis, Mitra, Isis, Dionísio, Cibele e inúmeros cultos locais. Prometendo purificação e a imortalidade do indivíduo, freqüentemente esses cultos giravam em torno de mitos sobre uma deusa cujo amante ou filho fora arrebatado dela, usualmente através da morte, para ser subseqüentemente restaurado. Esses mistérios também envolviam o ritos secretos de iniciação e outras cerimônias, como lavagens cerimoniais, aspersão de sangue, refeições sacramentais, intoxicação alcoólica, frenesi emocional e um impressionante fausto, por meio dos quais os devotos entrariam em união mística com os deuses. A igualdade social no seio desses cultos misteriosos contribuía para a atração que exerciam. Em anos mais recentes, contudo, tem‑se percebido de maneira crescente que a ausência de antigas informações sobre essas religiões mui provavelmente significa que não desempenham um papel dos mais importantes nos estudos sobre o Novo Testamento.

É somente já nos séculos II, III e IV da era cristã que chegamos a obter informações detalhadas a respeito das crenças defendidas pelos devotos desses mistérios. Assim sendo, apesar de ser indubitável a existência das religiões misteriosas antes do cristianismo, suas crenças pré‑cristãs nos são desconhecidas. Onde as suas crenças posteriores se tornaram um tanto paralelas às crenças cristãs (aliás, esse paralelismo com freqüência tem sido exagerado), o mais provável é que as religiões misteriosas é que tenham tomado por empréstimo certas idéias do cristianismo, e não vice‑versa, mormente se levarmos em conta que os pagãos eram notáveis assimiladores (ver abaixo acerca do sincretismo), ao passo que os primitivos cristãos eram exclusivistas. Não obstante, os paralelos geralmente são mais aparentes do que reais, e mesmo quando são reais, isso não implica necessariamente em que tenham havido empréstimos de uma coisa para a outra.

Por exemplo, os mitos sobre deuses que morriam e ressuscitavam não correspondiam verdadeiramente às narrativas do Novo Testamento sobre a morte e a ressurreição de Jesus. Em primeiro lugar, as mortes de tais divindades não tinham cunho redentor. Outrossim, a história da morte e ressurreição de Jesus está vinculada a um bem recente personagem histórico, ao passo que os mitos usualmente tinham algo a ver com personificações de processos vegetativos, pelo que também nada tinham a ver com o plano da história, e muito menos com a história recente. Finalmente, os deuses mitológicos não ressuscitavam de modo plenamente corpóreo, mas ressuscitavam apenas em parte, ou meramente reviviam no mundo inferior. Quando as catorze porções constituintes do corpo de Osíris foram reunidas, ele se tornou o rei dos mortos no mundo inferior. Tudo quanto Cibele pôde conseguir acerca do corpo de Atis, é que este não entraria em decomposição, que seus cabelos continuariam a crescer e que seu dedo mínimo se moveria ‑ e no entanto, a história de Cibele e Atis (que teria morrido por haver castrado a si mesmo) é algumas vezes citada rumo um paralelo e como uma fonte originadora da narrativa sobre a morte e a ressurreição de Jesus, da parte daqueles que, por negligência, não examinam os pormenores de tal mito. A bem da verdade, as próprias idéias de morte por crucificação e de ressurreição física pareciam abomináveis aos povos antigos, os quais sabiam que a crucificação estava reservada aos criminosos e que concebiam o corpo como uma prisão da alma e como sede do mal. Se houvessem os cristãos tomado os seus conceitos por empréstimos das religiões misteriosas, bem poderíamos indagar por qual motivo os pagãos consideravam, de modo geral, o evangelho cristão, como algo tolo, incrível e somente digno de perseguição. (Ver J. G. Machen, The Origin of Paul's Religion,Grand Rapids: Eerdmans, 1947, caps. vi e vii; J. S. Stewart, A Man in Christ, Nova Iorque: Harper, n.d., págs. 64‑68.)


Superstições e Sincretismo.

As superstições estavam firmemente entrincheiradas nas mentes da maioria do povo do império romano. O emprego de fórmulas mágicas, consultas de horóscopos e oráculos, augúrios ou predições sobre o futuro, mediante a observação do vôo dos pássaros, os movimentos do azeite sobre a água, as circunvoluções do fígado e o uso de exorcistas profissionais (peritos na arte de expulsar demônios) ‑ todas essas práticas supersticiosas, além de muitas outras, faziam parte integrante da vida diária. Os judeus eram numerados entre os exorcistas mais avidamente procurados, em parte porque julgava‑se que somente eles eram capazes de pronunciar corretamente o nome magicamente potente de Yahweh (nome hebraico traduzido por "Senhor"). A pronúncia correta, juntamente com a idéia de algo secreto, segundo se pensava, seria necessária para a eficácia de qualquer encantamento. Na prática apodada de sincretismo, o povo comum simplesmente fazia a mescla de diversas crenças religiosas com práticas supersticiosas. As prateleiras para ídolos, existentes nas residências, eram atulhadas de imagens de aves, cães, crocodilos, bezouros e outras criaturas.


Gnosticismo.

O contraste dualista concebido por Platão entre o mundo invisível das idéias e o mundo visível da matéria, formava o substrato do gnosticismo do primeiro século de nossa era, e segundo o qual a matéria era equiparada ao mal, ao passo que o espírito seria eqüivalente ao bem. Daí resultavam dois modos opostos de conduta: (1) a supressão dos desejos do corpo, devido à sua conexão com a matéria má (ascetismo) e (2) a indulgência quanto às paixões físicas, por causa da irrealidade e inconseqüência da matéria (libertinagem ou sensualismo). Em ambos esses casos as noções religiosas orientais haviam corrompido as idéias originais de Platão. O conceito da ressurreição física era abominável, devido ao fato da matéria ser tida por inerentemente má. Todavia, a imortalidade do espírito seria desejável, podendo‑se chegar a ela por meio do conhecimento de doutrinas secretas e de senhas, através das quais coisas a alma, por ocasião da morte, conseguiria escapar da vigilância de guardiães demoníacos dos planetas e das estrelas, em seu vôo da terra para o céu. Segundo esse ponto de vista, o problema religioso não consistia da culpa humana, para a qual é preciso que se proveja perdão, mas consistia muito mais da ignorância humana, para a qual era mister prover conhecimento. De fato, o vocábulo gnosticismo vem de gnosis, termo grego que significa conhecimento. A fim de assegurar‑se a pureza do Deus supremo, era este separado do universo material, e, portanto mau, mediante uma série de seres progressivamente menos divinos, chamados "aeons", que se teriam emanado dele. Dessa forma, uma elaborada angelologia se desenvolveu paralelamente à demonologia.

As idéias gnósticas parecem ocultar‑se por detrás de determinadas heresias que são atacadas no Novo Testamento. Porém, o conteúdo da biblioteca gnóstica, descoberta na década de 1940, em Nag Hammadi ou Chenoboskion, no Egito, parece confirmar que não existia ainda o conceito gnóstico de um redentor celestial, quando começou o movimento cristão. Ao que parece, os gnósticos tomaram por empréstimo do cristianismo, em data posterior, a doutrina de um redentor celeste. No primeiro século, o gnosticismo era ainda um agregado de concepções religiosas frouxamente ligado, e não um sistema doutrinário altamente organizado.
Filosofias.

Os entendidos no assunto estavam se voltando para formas filosóficas mais puras. O epicurismo pensava ser os prazeres (não necessariamente de ordem sensual) o sumo bem da vida. O estoicismo ensinava que a aceitação racional da própria sorte, determinada por uma Razão impessoal, que governaria o universo e da qual todos os homens fazem parte, é dever do homem. Os cínicos, antigas contrapartes dos modernos "hippies", reputavam a virtude suprema como se fora uma vida simples e sem convenções, rejeitando a busca popular pelo conforto, pelas riquezas e pelo prestígio social. Os céticos, tendo abandonado em seu relativismo toda esperança de qualquer coisa em termos absolutos, sucumbiam ante a dúvida e a conformidade para com costumes prevalescentes. Essas e outras filosofias, entretanto, não determinavam as vidas de um grande número de pessoas. De modo geral, as superstições e o sincretismo caracterizavam as massas, pelo que também o cristianismo teve de penetrar numa sociedade religiosa e filosoficamente confusa. A antiga confiança dos primeiros gregos desaparecera. O enigmático universo desafiava a compreensão. A filosofia não obtivera êxito em fornecer respostas satisfatórias. Outro tanto sucedera às religiões tradicionais. Os homens se sentiam inermes ante a sorte ditada pelas estrelas, as quais eram consideradas seres angélico‑demoníacos. Prevalecia uma atitude de desespero, ou, pelo menos, de pessimismo.


O JUDAÍSMO
A Sinagoga.

Mais importante que o meio ambiente pagão religioso e filosófico era o judaísmo, do qual se originou o cristianismo. O judaísmo, tal qual era no primeiro século, teve seu começo perto do final do período do Antigo Testamento, durante o exílio assírio‑babilônico. Os profetas haviam predito o desterro como uma punição pela idolatria praticada pela nação israelita. O cumprimento dessa predição curou permanentemente a nação de sua idolatria. A perda temporária do templo, durante o exílio deu azo a um crescente estudo e observância da lei (a Torá - O termo hebraico torah tinha sentido mais lato que "lei". Também indicava instrução, ensino e a revelação divina in toto, aludindo ora aos dez mandamentos, ora ao Pentateuco, ora ao Antigo Testamento inteiro, e também à lei oral, ou seja, as interpretações tradicionais dos rabinos.) do Antigo Testamento, e, pelo menos, afinal de contas, ao estabelecimento das sinagogas como uma instituição. É motivo de debate se as sinagogas tiveram origem justamente durante o exílio ou mais tarde, já no período intertestamentário. Uma conjectura razoável, entretanto, é que em face de Nabucodonosor haver destruído o primeiro templo (o de Salomão) e haver deportado da Palestina a maioria de seus habitantes, os judeus estabeleceram centros locais de adoração intitulados sinagogas ("assembléias"), onde quer que pudessem ser encontrados dez judeus adultos do sexo masculino. Uma vez instituída como uma instituição, as sinagogas prosseguiram em existência até à reconstrução do templo, sob a liderança de Zorobabel. (Vide Esdras 3 ‑ 6; Ageu: Zacarias 1 ‑ 8 quanto à reedificarão do templo.)