Palavras-chave: História do teatro no Brasil. Bibi Ferreira. Gota d’água. Chico Buarque. Paulo Pontes. Abstract



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BELING, Ana Paula. Muito mais que uma Gota d’água – Bibi Ferreira: a explosão da fera enjaulada. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); Mestrado em Teatro; Professor Orientador: Vera Regina Martins Collaço.

RESUMO

Esta pesquisa de Mestrado em Teatro pretende abordar uma trajetória artística de acordo com o próprio discurso da artista: Bibi Ferreira, por ela mesma, como mulher, atriz e cantora. A dramaticidade, a musicalidade e a comédia serão aspectos analisados durante sua carreira, com o intuito de compreender o percurso vivido pela artista para preparar Bibi Ferreira para sua explosão nos palcos, na interpretação de Joana, em Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, em 1975. A relevância deste estudo encontra-se na escassez de registros sobre a artista e sobre as obras nas quais desenvolveu seu trabalho artístico. Para o desenvolvimento desta pesquisa, serão utilizadas fontes escritas (materiais escritos sobre os objetos de investigação, assim como programas, críticas, jornais, arquivos históricos, etc.), fontes imagéticas (fotografias e vídeos) e fontes orais (entrevistas). Com isso, pretende-se construir um panorama da carreira artística de Bibi Ferreira, revisitando uma significante obra teatral e um importante período histórico para o teatro brasileiro.



Palavras-chave: História do teatro no Brasil. Bibi Ferreira. Gota d’água. Chico Buarque. Paulo Pontes.

ABSTRACT

This research Masters in Theatre want to address an artistic trajectory according to the artist's own speech: Bibi Ferreira, for herself, as a woman, actress and singer. The dramaticity, the musicality and comedy aspects will be analyzed during her career, in order to understand the course lived by the artist to prepare Bibi Ferreira for her outburst on stage, the interpretation of Joana, in Gota d’água, written by Chico Buarque and Paulo Pontes in 1975. The relevance of this study lies in the scarcity of records about the artist and about the works in which she developed her artistic work. For the development of this research will be used written sources (written materials on the objects of research as well as programs, reviews, newspapers, historical archives, etc.), source imagery (photos and videos) and oral sources (interviews). With this, the research intend to build a panorama of artistic career of Bibi Ferreira, revisiting one significant play and an important historical period for the Brazilian theater.


Keywords: History of Brazilian theater. Bibi Ferreira. Gota d’água. Chico Buarque. Paulo Pontes.
Este texto é ainda um esboço sobre a pesquisa que realizo, atualmente, como mestranda do Programa de Pós-Graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC): a atriz e cantora Bibi Ferreira e sua atuação no espetáculo musical Gota d’água. O trabalho de pesquisa está sendo ainda desenvolvido e, aqui, portanto, apresento uma parte do que foi coletado até o momento, sobre a vida da atriz e sua carreira artística até a estréia de Gota d’água, no Rio de Janeiro, em 1975.
Em 1921, o ator Procópio Ferreira, jovem e ainda desconhecido como artista, conheceu, no Rio de Janeiro, a bailarina espanhola Aída Izquierdo. A bailarina tinha apenas quinze anos de idade e ele, vinte e três. Quatro meses depois, no dia 23 de outubro, ocorreu o casamento. No ano de 1922, nasceu uma menina, fruto desta união, a qual se deu o nome de Abigail, carinhosamente chamada de Bibi.
Abigail Izquierdo Ferreira, ou Bibi Ferreira, não sabe bem o dia exato em que nasceu. Sua mãe, Aída, aos quinze anos de idade, passou por dificuldades no parto e afirmou que a menina nascera no dia 1º de junho. Seu pai dizia ter sido no dia 4 de junho. Porém, em sua certidão de nascimento consta a data de 10 de junho de 1922.
Sua estréia nos palcos ocorreu aos vinte e quatro dias de vida, na peça Manhãs de Sol, cujo autor era seu padrinho, Oduvaldo Viana, no Teatro Trianon, no Rio de Janeiro. Entrou em cena no colo de Abigail Maia – sua madrinha e, na época, esposa de Oduvaldo Viana –, de quem herdou o nome. A participação na cena aconteceu como forma de substituição de uma boneca que havia desaparecido instantes antes do espetáculo começar.
Em 1923, apenas um ano após o nascimento da menina, sua mãe, a bailarina Aída, foi trabalhar em uma companhia de teatro de revista espanhola, a Companhia Velasco, onde Bibi Ferreira viveu até os quatro anos de idade. O primeiro idioma apreendido pela menina, portanto, foi o espanhol. Viajando com a Companhia Velasco e vivenciando a arte nela realizada, conheceu seu gosto pela música, dança, teatro e artes no geral. Com apenas três anos, participava de espetáculos da Companhia, cantando e dançando, tornando-se conhecida como “la niña de Velasco”.
Quando retornou ao Brasil, seu pai já era um grande ator de sucesso. Foi com ele que aprendeu o idioma português e herdou o amor pela ópera. Aos sete anos de idade, entrou para o Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, posteriormente, estreou na Companhia Procópio Ferreira. Aos nove anos, teve sua matrícula no tradicional Colégio Sion, em Laranjeiras, negada por ser filha de artista de teatro. Assim, completou seus estudos no Colégio Anglo Americano e aprimorou seu conhecimento de balé no Teatro Colón, da Argentina, em Buenos Aires.
Sua vontade primeira não era a de ser atriz. Queria estudar música. Contudo, uma dificuldade financeira sofrida por seu pai fez com que a menina se aproximasse do teatro.
Recebi um telegrama de papai, que na época encontrava em temporada em São Paulo, dizendo: Quer estrear comigo próxima temporada Teatro Serrador? Responda. Beijos. Procópio. Por longo tempo demorei em responder. Já estava encaminhada no balé, em muitos estudos e sacrifícios, não pensava em entrar para o teatro. Mas acabei aceitando o convite de papai (BIBI FERREIRA apud VILHENA, 2000, p. 29).
No entanto, a versão de Procópio Ferreira diz que:
Bibi sempre sonhou com o teatro. Com seus cinco aninhos, já fazia momices, imitação de pessoas amigas e, quando a mãe não estava em casa, vestia um paletó meu, punha uma cabeleira, empunhava uma bengala, e ia assustar as criadas. Nossa casa, muito freqüentada por artistas, fora o ambiente propício à formação da sua mentalidade. Estudou para ser artista. Entrou no teatro pisando firme, com seu curso de bailado, canto, música, pintura e senhora de vários idiomas. Sua estréia foi uma consagração. Lancei-a como protagonista da peça de Goldoni La Locandiera, traduzida por Gastão Pereira da Silva, com o título O inimigo das mulheres (PROCÓPIO FERREIRA, 2000, p. 289).
Aos dezoito anos, em 28 de fevereiro de 1941, teve sua estréia profissional, interpretando Mirandolina, no espetáculo La Locandiera, de Carlo Goldoni, que, no Brasil, na tradução de Gastão Pereira da Silva, recebeu o título de O inimigo das mulheres.
Contudo, não durou muito sua carreira na companhia de seu pai. Pouco mais de três anos, apenas. “O público não aceitou ver Bibi, aos 18 anos de idade, interpretar o papel da amante de seu próprio pai” (VILHENA, 2000, p. 38), e a jovem grande atriz brasileira que recebeu casa cheia em sua estréia, recebeu a casa vazia na temporada de Uma noite de amor, obra húngara de Ladislau Fedor, com tradução de Paulo Cabral.
“Minha filha, juntos somos uma bolsa só. É melhor nos separarmos” (PROCÓPIO FERREIRA apud VILHENA, 2000, p. 41). Após trabalhar em diversos espetáculos da companhia de seu pai, a jovem, aos vinte e três anos, foi intimada a fundar sua própria companhia, a Companhia Bibi Ferreira.
A Companhia de Comédias Bibi Ferreira estreou no dia 18 de julho de 1944, no Teatro Phoenix – a atriz conseguiu a liberação deste teatro pelo, então, prefeito Henrique Dodsworth, que na época era o segundo mais importante teatro do Rio de Janeiro, perdendo apenas para o Municipal. O teatro foi totalmente reformado para a estréia da companhia. Entretanto,
o relativo sucesso de público e crítica, não permitem à empresa estabelecer estruturas sólidas o suficiente para manter-se de pé. Sem recursos financeiros, contando apenas com seu próprio talento e ousando manter-se na mesma linha de teatro defendida por Procópio, Bibi não vê outra alternativa: resolve aceitar um convite para filmar na Inglaterra. Chega ao fim a primeira etapa da vida de empresária da jovem atriz (VILHENA, 2000, p. 51).
Logo, Bibi Ferreira permaneceu dois anos em Londres, filmando The end of the river (O fim do rio) e freqüentando algumas aulas na Royal Academy of Dramatic Art, gratuitamente, dando em troca algumas palestras sobre o teatro realizado no Brasil.
Com interpretações de grandes clássicos, de revistas e de musicais, alcançou grande sucesso tanto no Brasil quanto no exterior. Porém, presenciou alguns insucessos também. Na década de 1950, trouxe para o país dez dançarinas americanas para a montagem de um grande musical, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, chamado Escândalos 1950. Como os cachês eram muito altos, Bibi Ferreira se responsabilizou pelas despesas no geral, até mesmo as passagens aéreas. O que ela não esperava era a ocorrência de um incêndio no teatro alguns dias após a estréia, consumindo todo o investimento e deixando a artista com uma enorme dívida, a qual levou cinco anos para pagar. Como se não bastasse, o prejuízo foi maior por estarem no mesmo teatro todos os figurinos e cenários do repertório de sua companhia.
Foram dois anos muito difíceis. Bibi Ferreira recompôs sua companhia de comédias e só chegou a se restaurar financeiramente com um novo grande espetáculo de sucesso: A Herdeira (The Heiress), de Ruth e Augustus Goetz, que lhe deu o Prêmio de Melhor Atriz do ano de 1952, da Associação Brasileira dos Críticos de Teatro.
Inspirada no sucesso da atriz Eva Todor, decidiu viajar também para Portugal com sua companhia e encenar um repertório de comédias. A crítica, no entanto, esperando que a atriz interpretasse grandes clássicos, não foi das melhores. Como resultado, passou alguns meses com dificuldades, fome e frio na terra portuguesa. Quando pôde finalmente saldar suas dívidas e marcar seu retorno ao Brasil, recebeu uma proposta de trabalho e permaneceu em Portugal por mais quatro anos. Atuou em revistas e dirigiu alguns trabalhos, alcançando uma temporada de grande sucesso.
Em 1960, inaugurou a TV Excelsior, de São Paulo, com o programa Brasil 60. O programa levava ao ar, nas noites de domingo, entrevistas, musicais, humor e reportagens especiais. E o sucesso segue em Brasil 61, líder de audiência. Na mesma emissora, apresentou Bibi sempre aos domingos e atuou no Tele Teatro. Na TV Tupi, do Rio de Janeiro, apresentou Bibi Especial, Bibi ao Vivo, Festival do Carnaval, e Curso de Alfabetização para Adultos, com o qual recebeu prêmio de Melhor Comunicadora, no Festival Internacional da Cultura em Tóquio. Com ela, tivemos o primeiro programa no Brasil transmitido via satélite, de Los Angeles, pela Rede Associada, o Oscar 72. Sua temporada televisiva fez com que se afastasse do teatro e dos palcos brasileiros na década de 1960, com exceção para dois espetáculos: My fair lady e Alô, Dolly, os quais dão início a sua jornada nos musicais.
Minha querida lady (My fair lady), de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, foi seu primeiro musical. O texto é uma adaptação da peça Pigmaleão, de George Bernard Shaw. Em 1962, a produção de Victor Berbara e Oscar Ornstein proporcionou a um elenco brasileiro a oportunidade de realizar um musical da Broadway. Ao lado de Bibi Ferreira, estavam Paulo Autran, Jayme Costa e Estellita Bell, com um grande número de atores e bailarinos como coadjuvantes – entre os quais estava Marília Pêra. A produção contou com mais de cem pessoas, entre artistas e técnicos, e deu a Bibi Ferreira o título de “a mais completa atriz brasileira”, formando uma nova geração de atores que, inspirada nos atores americanos, começou a incluir a dança e o canto em sua formação.

Seu segundo musical foi Alô, Dolly (Hello, Dolly), de Jerry Herman e Michael Stewart, baseado na obra de Thornton Wilder, The Matchmaker. Novamente, numa superprodução de Victor Berbara, o espetáculo estreou em 1964, no Teatro João Caetano.


Após sete anos ausente dos palcos – as dificuldades e incertezas políticas que levaram o país a vinte anos de ditadura militar mantiveram Bibi Ferreira ligada à televisão –, em 1972, voltou ao teatro com O homem de la mancha (Man of la mancha), de Dale Wasserman, baseado no Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, ao lado de Paulo Autran e Grande Otelo. A estréia aconteceu em 11 de agosto de 1972, off-Broadway, em Santo André, para depois estrear no Teatro Anchieta, em São Paulo, no dia 1º de setembro. Após a curta temporada paulista, o espetáculo inaugurou, no Rio de Janeiro, o Teatro Adolpho Bloch, e depois seguiu para uma temporada popular no Teatro João Caetano.
Após 1964 e sua estréia nos musicais, os próximos trabalhos de Bibi Ferreira foram marcados pela forte presença da música e sua trajetória profissional ficou eternamente ligada à história do teatro musicado no Brasil. Sua explosão nos palcos, porém, de maneira completamente inusitada, unindo a atriz e a cantora com uma força dramática jamais empregada anteriormente, foi em 1975, no espetáculo Gota d’água, no qual assumiu o papel da protagonista Joana. A obra, escrita e publicada em 1975, por Chico Buarque e Paulo Pontes, como uma versão brasileira da tragédia grega Medéia, de Eurípides, foi também encenada no mesmo ano, no Rio de Janeiro, em 26 de dezembro, no Teatro Tereza Rachel, sob a direção de Gianni Ratto.
No conjunto de críticas ao espetáculo, a unanimidade foi em relação à atuação de Bibi Ferreira no papel de Joana. Ela, que até então pisava nos palcos com um glamour especial, cantando em musicais da Broadway ou em números de revistas, sempre muito bem vestida e muito maquiada, chocou público e crítica ao pisar no palco de forma completamente inusitada, explodindo como atriz e cantora com uma carga dramática inesperada. E é esse vigor, comparado por Sábado Magaldi com a explosão de uma “fera enjaulada” (MAGALDI apud RABELO, 1998, p. 129) – fator que me inquieta enquanto atriz e pesquisadora – que pretendo discutir e analisar nesta pesquisa embasada, em sua maior parte, por entrevistas da atriz durante sua trajetória e raras bibliografias encontradas sobre o tema. Pela escassez de materiais, acredito na relevância desta pesquisa e pretendo, com ela, contribuir para o registro da história do teatro brasileiro.

REFERÊNCIAS

FERREIRA, Procópio. Procópio Ferreira apresenta Procópio: um depoimento para a história do teatro no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.


RABELO, Adriano de Paula. O teatro de Chico Buarque. São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP), 1998. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira).
VILHENA, Deolinda Catarina França de. Bibi Ferreira – A trajetória solitária de uma atriz por seis décadas do teatro brasileiro. São Paulo: USP, Escola de Comunicações e Artes – ECA, 2000. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas).



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