Padre amado gastão decleene



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Campo Grande, 15 de abril de 1975

Prezados irmãos em Dom Bosco, a um ano, quase, do falecimento, cumpro o dever de comunicar, por esta carta mortuária, os dados biográficos do



Padre AMADO GASTÃO DECLEENE

falecido em Cuiabá, Mato Grosso, aos 28 de maio de 1974, aos 82 anos de idade, cinquenta de vida missionária, intensamente vivida, quarenta e cinco dos quais no sacerdócio, benemérito da Inspetoria e da Igreja em Mato Grosso, a que serviu até os últimos dias com amor e dedicação.

P. Amado Decleene nasceu em Bierne, França, aos 20 de maio de 1892, primogênito de Henrique e Júlia Maria Dagmey. Feitos os primeiros estudos, foi encaminhado, aos vinte anos, ao Instituto São Paulo para vocações tardias em Melles, Bélgica. No ano seguinte, porém, teve que interromper os estudos para se engajar no exército, servindo durante sete anos e participando de duas guerras: a do Marrocos e a de 1914 na Europa.

Data deste período um episódio que atesta a coerência de suas atitudes. No inverno de 1917 escrevera, em caracteres cubitais sôbre a neve, VIVA A PAZ! Condenado pelo Conselho de Guerra como derrotista, foi-lhe permitido justificar-se. Em tantos anos de vida militar e de guerra, disse, a minha caderneta não apresenta observação alguma. Porque estamos lutando? Não é para conseguirmos a paz? Seja ela, portanto, bem-vinda! - A absolvição foi unânime.Terminada a guerra, voltou ao Instituto, condecorado com a “Cruz de Guerra” e o honroso atestado do comandante de “bom seminarista-soldado, assíduo às funções religiosas e devotado na organização de festas”. O vigário da localidade atestava também ter ficado na paróquia a lembrança cheia de edificação pelo muito que fizera em favor das obras paroquiais. A longa permanência em regime de disciplina militar muito contribuiu para aquela metodicidade que caracterizou sua vida religiosa, proverbial até em suas longas viagens pelo sertão.

Em 1920, o diretor do instituto acompanhava-lhe o pedido de admissão ao noviciado com o atestado de “excelente moço, dedicado, trabalhador e de profunda piedade”. Recebeu a batina pelas mãos do Pe. Paulo Albera, Reitor Mor da Congregação. Ao término do noviciado, apesar do esforço e da boa vontade no exercício de seus deveres, o Conselho da Casa, julgando-o demasiadamente “condicionado” pela vida militar, admite-o à profissão sob condição de depor a batina. Quem me deu a batina, retrucou o noviço, foi o Reitor Mor. Somente ele poderá tirá-la! Abandona o noviciada e parte para Turim.

Na administração do Boletim Salesiano Francês, refere Pe. João Duroure, precisava-se de mais uma pessoa, porque, terminada a guerra, havia grande desordem: centenas e até milhares de leitores haviam sido sinistrados, evacuados ou mortos. O fichário estava, praticamente, reduzido duns 50 a 60%. O jovem Declèene, que acabava de chegar da França, num trabalho paciente, anota os boletins devolvidos, organiza listas, escreve a vigários e conhecidos, e... após seis meses, o fichário está novamente em perfeita ordem. P. Auffray, diretor do Boletim, admirado com a capacidade organizadora do jovem ajudante, vai perorar com Pe. Ricaldone a solução do empasse de sua vocação. Os superiores do noviciado mantem-se irredutíveis. Não resta ao Decleene senão procurar outra congregação. A Divina Providência tem, porém, seus caminhos. Chega, nesta oportunidade em Turim, Pe. Hermenegildo Carrá em procura de vocações para sua Inspetoria de Mato Grosso. Pe. Auffray apresenta-lhe seu protegido. Dissipadas algumas dúvidas, a oferta é aceita e Decleene, sem se despedir de parentes e amigos, parte definitivamente para o Brasil.

Em Lavrinhas, São Paulo, reinicia o noviciado, concluindo-o com a profissão religiosa em 1924. No mesmo ano, desejoso de consagrar-se às missões, parte para a colônia indígena do Sangradouro, onde, por dez anos, se consagra “com inesgotável paciência e inquebrantável energia à educação dos filhos dos índios bororo”. Atarefado o dia todo, subtrai ao sono horas para estudo da teologia, em preparação ao sacerdócio, que é conferido a ele e a outros três salesianos a 17 de março de 1929 em Cuiabá por Dom Francisco de Aquino Corrêa. Aos 37 anos, por caminhos nem sempre fáceis, alcança a meta: sacerdote do Senhor!

Retornando a Sangradouro, os indiozinhos bororo fazem ressoar a pobre capela da missão com as melodias da Missa de Angelis, que ele mesmo ensaiara. O campo de atividade se alarga: o vigário encontra no novel sacerdote zeloso e sacrificado apóstolo das desobrigas que permitem levar à população dispersa pelo território da imensa paróquia a mensagem evangélica. Escreve ao Boletim Salesiano, descrevendo uma destas desobrigas: “de 12 de janeiro a 10 de julho, percorrí a cavalo 2.100 km, no meio de peripécias sem conta. Durante esta longa viagem visitei 70 povoados ou aldeias com uma população de 2.531 pessoas, distribuidas em 293 famílias cristãs e 6 protestantes. Administrei 150 batismos dos quais 20 de adultos, 275 crismas, 960 comunhões. Ouvi 996 confissões e abençoei 12 matrimônios’. Tudo isto implicava naturalmente num trabalho de catequese, que era administrada nos sermões, no catecismo às crianças, nas visitas a doentes e nos contatos familiares.

Em 1935 é transferido para o sul do Estado, em Ponta Porã, na divisa com o Paraguai. Meu novo campo de trabalho, escreve em outra relação, são duas grandes paróquias: a de Ponta Porã e de Maracajú, que juntas abrangem uma extensão territorial de 10.800 léguas quadradas. O primeiro semestre foi destinado à visita das povoações dependentes da paróquia de Maracajú. No segundo visitei todos os povoados dependentes da paróquia de Ponta Porã. Tive de percorrer a cavalo milhares de quilômetros, ora sob um sol ardente, ora debaixo de chuva torrencial, protegido sempre por uma especial assistência do céu”. Não faltaram dificuldades, incompreensões e até ameaças, mas ele generosamente fazia-se tudo a todos para levar todos a Cristo.

Em 1940 volta à Prelazia e durante anos percorre uma após outra as paróquias de Guiratinga, Alto Araguaia e Araguaiana. Apóstolo incansável, meses a lombo de burro nos sertões da Prelazia, sofrendo fome, sede, chuva, sol tórrido, por caminhos e pistas impraticáveis, pregando a Cristo a caboclos e garimpeiros, esparsos pelo território da Prelazia. Conhecedor das plantas medicinais sabia ser o bom samaritano curando as feridas da alma e também do corpo. Refere ainda Pe. João B. Duroure: um dia apresentou-se um homem pedindo para falar com Pe. Amado. Perguntado do motivo, contou como há muito tempo sofresse duma ferida incurável na perna direita. Gastara quase tudo com médicos e remédios sem obter melhora, quando se encontrou com o padre que lhe aconselhara preparar com a casca duma árvore conhecida uma bebida para tomar e ao mesmo tempo para lavar a ferida. Vinha agora agradecer o padre: estava completamente curado e mostrava a perna sã.

Após vinte anos de atividade missionária neste teor, os superiores destinaram-no confessor no colégio de Corumbá. Foi quando Dom Orlando Chaves, bispo então desta cidade, solicitou aos superiores lho cedessem como chanceler da Cúria. Revivendo dotes outrora manifestados na reorganização do fichário do Boletim francês, atualiza o arquivo da cúria, escreve cartas e circulares aos vigários para observância de determinações, para solicitar relatórios: uma, duas ou mais vezes, até conseguir. Padre sempre e, em toda parte, por isso, todos os dias reserva em seu horário horas para visitas a doentes, levando-lhes o conforto da religião e de sua palavra amiga e cheia de esperança. Em 1967, a pedido ainda de Dom Orlando Chaves, arcebispo de Cuiabá, é transferido para a cúria de Cuiabá, atendendo ainda os doentes da santa casa, que visita diariamente.

Nesta metodicidade transcorre os últimos anos de sua vida, fiel a seus compromissos sacerdotais e religiosos.

No dia 20 de maio do ano passado, seu aniversário, queixou-se de tonturas: a pressão era muito alta. Acompanhado ao quarto, foi levado a contragosto ao hospital, entrando numa sonolência, que se transformou rapidamente em estado comatoso até seu encontro com o Bom Pastor, no dia 28, quando certamente, ouviu de seus lábios as palavras:Vem servo bom e fiel, entra no gozo de teu Senhor.

Seu corpo foi levado ao santuário N. S. Auxiliadora onde foi concelebrada Missa em sufrágio de sua alma, na presença de todos os salesianos da cidade, de amigos e beneficiados.

Perdemos nosso saudoso Pe. Amado, escrevia Dom Orlando Chaves ao comunicar seu falecimento, ficamos sem o nosso dedicado Chanceler. Deixou-nos edificado por seu bom espírito e sua regularidade em tudo. Que a lembrança destes missionários que, sem grandes meios mas impulsionados por grande amor a Cristo e às almas, implantaram a Igreja neste recanto de Mato Grosso, confiantes na Providência e firmes em seu ideal, inspire a todos fidelidade e amor à própria vocação.

Recordando nas orações este nosso irmão, lembrai também esta Inspetoria e quem se professa irmão em Dom Bosco

P. José Corazza

Vigário Inspetorial 

Necrológio:Bierne-França-20/05/1892

Cuiabá-MT-28/05/1974



82 anos,50 de profissão, 45 de sacerdócio



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