Os relatos de trajetórias escolares como fonte para a compreensão da história e memória de escolas



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OS RELATOS DE TRAJETÓRIAS ESCOLARES COMO FONTE PARA A COMPREENSÃO DA HISTÓRIA E MEMÓRIA DE ESCOLAS.
Giana Lange do Amaral

Faculdade de Educação/ Universidade Federal de Pelotas



giana@ufpel.edu.br

Palavras-chave: trajetórias escolares; história e memória de escolas; cultura escolar

Introdução

Nos meios acadêmicos os estudos sobre a história das instituições educacionais contribuem na elucidação e compreensão da História da Educação brasileira, pois ao buscarem estabelecer o perfil de determinadas escolas, enfatizam aspectos da cultura escolar e urbana, exploram questões didático-pedagógicas, político-ideológicas, étnicas e de gênero em diferentes dimensões temporais e espaciais.

Nesse sentido, a utilização de relatos sobre as trajetórias escolares é uma possibilidade de dar voz a quem vivenciou o jogo de identidades em determinadas instituições educacionais, servindo como uma importante fonte para os estudos em História da Educação.

No presente trabalho, pretendo apontar aspectos metodológicos da organização de coletâneas de textos que abordam histórias e memórias de escolas da cidade de Pelotas. Tendo por base o relato de trajetórias escolares de alunos, professores e funcionários de determinadas escolas já foram organizados três livros. Nas coletâneas, a pluralidade de textos que se abre ao leitor e/ou pesquisador mostra diferentes olhares em diferentes tempos sobre o cotidiano de uma mesma instituição. É uma travessia fascinante em que a memória pessoal e social se entrecruza com os processos cognitivo-afetivos vivenciados na escola, sendo uma preciosa fonte a ser explorada, permitindo um olhar sobre tempos e espaços hoje distantes. Os relatos servem para aprofundarmos dimensões, sinalizando para as contradições inerentes a todo o processo que envolve a busca de identidade institucional a partir do olhar dos sujeitos que delas participaram.

Nas coletâneas também há textos de caráter histórico e acadêmico, fruto de pesquisas de suas organizadoras, e de artigos e dissertações apresentadas junto ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas, assim como artigos de jornais e revistas e fotos, que abordam aspectos de interesse histórico sobre escola apresentada.

Em cada um dos volumes dos livros organizados pretendeu-se contemplar uma determinada escola da cidade que tenha se destacado por sua representatividade junto à comunidade pelotense, tanto em termos de proposta pedagógica como de abrangência de alunos atendidos. No ano de 2002 foi organizado e publicado o primeiro livro “Gymnasio Pelotense, Colégio Municipal Pelotense: entre a memória e a história (1902-2002)” que marcou o centenário dessa que é a mais importante escola municipal da cidade. Dando continuidade a essa iniciativa publicou-se em 2007, os livros “Colégio Anglicano Santa Margarida: entre a memória e a história (1934-2005)”, organizado em 2005, em seu último ano de funcionamento e “Instituto Estadual de Educação Assis Brasil (1929-2007)”, que foi a primeira escola pública de formação de professores, criada em 1929 e que mantém seu funcionamento até os dias de hoje.

É importante salientar que este trabalho visa contribuir com os estudos que vêm sendo desenvolvidos pelo Centro de Estudos e Investigações em História da Educação (CEIHE- FaE/UFPel), criado em 2000, e que tem privilegiado em suas pesquisas os processos históricos da constituição da escola, da profissão docente e das idéias pedagógicas.1 Dessa forma, o levantamento, a localização e o material recolhido no transcorrer da organização da coletânea (mesmo que não tenha sido aproveitado em sua totalidade para a elaboração dos livros) vem sendo transformado em base documental, arquivado no CEIHE e disponibilizado a outros investigadores interessados nas questões da História da Educação pelotense, e que poderão se utilizar desse material para novas pesquisas e novas abordagens deste mesmo objeto.

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1. Balizando caminhos

Nesse período emblemático de virada de século e de milênio constata-se a preocupação de muitos grupos sociais em resgatarem aspectos de suas memórias e história. Das muitas instituições, a escola tem sido um terreno fértil para a realização de rituais de rememoração e de identidade e pertencimento a um grupo. Alunos e professores de todas as épocas reúnem-se para lembrarem “do seu” tempo naquela escola. Nesses encontros muitas histórias e seus personagens são lembrados, acontecimentos e práticas escolares são enfatizados, enfim o cotidiano vivido em outros tempos vem à tona.

Como pesquisadora em História da Educação com um interesse especial no que tange à história das instituições educacionais, percebi a possibilidade de organizar coletâneas de livros em que os próprios atores escrevessem sobre suas experiências vividas em determinadas escolas da cidade. Isso também porque, era solicitado a mim que escrevesse “a história desta ou daquela escola”, fato que, acredito poderia ser constituído com o auxílio de muitos através de seus depoimentos e reflexões sobre as particularidades do tempo escolar de cada um.

O trabalho ora apresentado tem por base uma tendência atual da História, especialmente da História da Educação, que é a de regionalizar os estudos históricos, buscando a compreensão das singularidades locais e institucionais, visando basicamente a compreensão da história das instituições. Nesse sentido, Justino Magalhães enfatiza a necessidade de (re) escrever e sistematizar o itinerário de vida de uma instituição educativa na sua multidimensionalidade, medeando a memória e o arquivo “onde se cruzam informações de várias naturezas - orais, arquivísticas, museológicas, arquitetônicas, fontes originais e fontes secundárias”. (MAGALHÃES, 1996, p. 2)

É importante dizer que a pesquisa e publicação de livros que abordem aspectos da história e da memória de instituições de ensino específicas que constituem em si modelos culturais em circulação, parte de uma necessidade presente de compreender a produção dessas escolas, sua atuação junto à comunidade pelotense, suas práticas, e suas culturas escolares ao longo deste último século.2 Dessa forma, espera-se poder contribuir, também, como referencial histórico para outras análises sobre a educação no município de Pelotas e das instituições educacionais.

Como busco referências históricas na memória dos que passaram por algumas instituições educacionais num dado período, considero pertinente apontar a seguir algumas relações que envolvem a questão da história, memória e de sua dimensão temporal3..

O sociólogo Maurice Halbwachs, na primeira metade do século XX, realizou estudos sobre a memória coletiva, que até hoje são uma referência aos historiadores que se utilizam da memória como um instrumento de suas pesquisas. Esse autor enfatiza o caráter social da memória, considerando-a um dos suportes essenciais na busca dos sujeitos coletivos e na definição dos laços de identidade. Ele nos diz que a memória é individual mas também social, pois depende do relacionamento do indivíduo com os grupos com os quais travou conhecimento e manteve contato. Sendo assim, no ato de lembrar, temos como pontos de referência “campos de significados”, ou seja, espaços sociais (família, escola, trabalho, lazer, religião, etc.) onde são estabelecidos laços afetivos que criam o pertencimento ao grupo. Esses laços afetivos, mantém junto ao grupo lembranças comuns geradoras de uma memória social e de referenciais identitários. Dessa forma, passam a desenvolver uma tendência a analisar e interpretar os acontecimentos seguindo determinados esquemas comuns e coerentes que constituem “universos de significado” e que acabam por oferecer uma versão consagrada dos fatos (HALBWACHS, 1990).

Por sua vez, CARTROGA (2001, p. 45) nos diz que recordar é um ato de alteridade, pois

“ninguém se recorda exclusivamente de si mesmo, e a exigência de fidelidade, que é inerente à recordação, incita ao testemunho do outro; e, muitas vezes, a anamnesis pessoal é recepção de recordações contadas por outros e só a sua inserção em narrações coletivas – comumente reavivadas por liturgias de recordação – lhes dá sentido”.

A memória se projeta no presente com representações do passado. Ela é sempre mediada pelo presente; com imagens e idéias de hoje, não revive, mas refaz e repensa as experiências do passado. O indivíduo que lembra, ao não fazer ruptura entre o passado e o presente, retém do passado apenas o que está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém.

Mas convém esclarecer que não considero a memória como sinônimo de história. A memória, assim como a história, é seletiva na lembrança e no esquecimento. Ambas lidam com um problema central: o peso do passado nas representações feitas em torno dele, seus usos, suas conexões com o contexto, suas projeções políticas, sociais e intelectuais. Ambas encontram no passado o seu substrato e se complementam no fazer historiográfico (PINTO, 1998, p. 205).

Torna-se fundamental, então, que se tenha presente a linha que separa a história da memória. Cabe à história a análise, o distanciamento, a problematização, a crítica e a reflexão sobre as memórias. A memória, por seus laços afetivos e de pertencimento a um grupo, é subjetiva e afeiçoada ao passado e à sua permanência. Através da repetição e tradição, por vezes, sacraliza o vivido pelo grupo social (FÉLIX, 1998).

É função da história dessacralizar a memória e fazer aflorar o seu reverso, ou seja, os esquecimentos, os silêncios, os não ditos: “a memória petrifica, marmoriza, fossiliza, estratifica. A História é análise, é crítica, é vida que flui e muda de acordo com as necessidades sociais, econômicas do presente e as aspirações e esperanças do futuro” (RODRIGUES, 1980, p. 220).

Nesse sentido pode-se dizer que a memória traz a história vivida em uma dada temporalidade, sem que haja o compromisso com uma racionalidade conscientemente organizada, pois, geralmente, ela é carregada de uma forte carga emocional. Na memória, o passado representa muito mais do que análise e reflexão; ele é elevado a um grau de sacro e de mito.

No entanto, não se pode negar que outras fontes históricas também apresentam esse caráter tendencioso e frágil da memória, o que requer do historiador uma aproximação crítica e cautelosa de suas fontes. 4

Outrossim, há que se considerar que a utilização da memória na pesquisa histórica incorpora elementos e perspectivas às vezes ausentes em outras práticas históricas. Existem facetas e mazelas do cotidiano em que o uso da memória é muito eficaz. Há percepções e sentimentos de quem viveu a história que escapam aos arquivos. Dessa forma, passando pela instância da memória, o objeto de estudo do historiador pode ser recriado, surgindo novos caminhos alternativos de interpretação dos fatos. Pode-se afirmar, então, que a memória introduz subjetividade ao conhecimento, pois coloca as sensibilidades e o cotidiano na trama histórica5, o que certamente contribui para novas abordagens na pesquisa histórica.

Em relação aos relatos escritos que constituem as coletâneas de textos sobre as escolas, cito Viñao (2000) que ressalta a importância para os estudos de História da Educação do que denomina ego-documentos e da literatura autorreferencial, ou seja, aqueles em que o sujeito refere-se a si mesmo, encontrando refúgio ou se convertendo em elemento de referência da narrativa. O autor afirma que o interesse por estes tipos de textos estão inter-relacionados aos seguintes aspectos:

-Uno es de los contenidos. Aquello narrado o que es objeto de referencia en los mismos, además del yo que escribe. Dicha escritura contituye en sí misma una fuente histórica, lo que, a su vez plantea la doble cuestión de sus posibilidades y uso como tal fuente.

-Además es un género textual con sus características propias, que es preciso estabelecer y delimitar. En cuanto tal posee unas formas (léxico, estilo, fórmulas etc) específicas que le distinguen de otros. Por otra parte posee una materialidad. Ello obriga a esclarecer cuál era su bibliografía material, los suportes y formas en que se materializa. Todo ello con el fin de mostrar las relaciones existentes entre dichas formas y suportes, el tipo de documento, su contenido y su configuración textual.

-Por último, tras la escritura autorreferencial hay alguien que escribe, un autor – si es que es posible utilizar aquí este término – que se mueve en el doble plano de lo personal/privado y lo exterior/ público desde el momento en que se decide a escribir y acepta, con todas las limitaciones y precauciones que se quieran, que lo que escribe puede ser leído por alguien. Eso si no escribe, como sucede con la correspondencia, para ser leído por otro u otros o, en los demás casos, teniendo en la mente un determinado tipo de posible lector futuro. Y es que, aunque a veces se olvide, también están los otros, los lectores; aquellos que al apropriarse de dichos textos hacen de ellos nuevos refugios
Dessa forma, lembrando que o passado das instituições educacionais não pertence apenas à instituição, mas à sociedade em que ela se encontra, têm-se como objetivos nesse trabalho além da elaboração de textos, organização e publicação das coletâneas, o resgate de documentos escritos, orais e iconográficos sobre as escolas, formando um banco de dados no CEIHE.

2. Os bastidores do processo de elaboração de textos, organização e publicação das coletâneas
Inicialmente é preciso dizer que este é um trabalho que demanda muito tempo e persistência para que seja finalizado. Envolve desde a disponibilização do acervo das instituições pesquisadas e a constituição de outros acervos (no caso do CEIHE, a partir de doações institucionais e pessoais) até a constituição de textos (alguns entregues prontos e acabados; outros frutos de relatos orais transpostos para o escrito, e de pesquisas feitas pelas organizadoras em acervos públicos e pessoais) e material iconográfico .

Com o apoio financeiro da Prefeitura Municipal de Pelotas, através das Secretarias de Educação e da Cultura, foi possível a publicação do livro sobre o Colégio Pelotense. Os livros sobre o Santa Margarida e o Assis Brasil, receberam auxílio da FAPERGS.

A compilação de textos e imagens sobre estas escolas objetivou, através de um tema único, fazer uma exposição de quadros feitos por muitos pintores em diferentes épocas e diversos estilos.

As manifestações enfocam, no transcorrer das décadas, desde a ex-aluna que já havia vivido mais do que a própria escola (dona Julieta contando, na época do relato sobre o Colégio Pelotense, com 102 anos de idade), passando por diferentes pessoas nas mais variadas abordagens e emoções do tempo de cada um, até alcançar o aluno e o professor do ano em que foi elaborado o livro sobre a escola.

Como pesquisadora que vem há muitos anos dedicando-se ao estudo de instituições escolares, realizei este trabalho tendo sempre presente a importância da abordagem de aspectos de sua história e da memória dos que por ela passaram. Isto com o objetivo de nos aproximarmos de fatos significativos e de registrar aspectos do cotidiano que foram constituindo as suas identidades de Escola.

Na organização destes textos, muitos baús de recordações foram mexidos, alguns de há muito fechados, todos eles guardando verdadeiras relíquias pessoais. Este trabalho não abarcou somente o recebimento e organização de textos. Foram muitos telefonemas, visitas, trocas de fotos, de histórias e de materiais “daquele tempo” que despertaram muitas emoções. Às vezes, até mesmo constrangidos pela intromissão, juntos nos emocionamos. Foram sendo despertadas lágrimas e sorrisos, invadida a intimidade de pessoas antes desconhecidas. Pessoas cujas vivências rememoraram buscando colaborar com o propósito desses livros.

Difícil tarefa foi a de, seguindo indicações diversas, elencar o grupo de colaboradores. A maioria deles foram lembrados por pessoas “da época” como sendo os que teriam “interessantes depoimentos a fazer”. O objetivo era atingir participantes das mais variadas atividades desenvolvidas nas escolas, e acreditamos tê-lo alcançado. Há, portanto, relatos com diversas abordagens sobre o cotidiano vivido nas escolas: atuação de professores, alunos, funcionários, métodos de ensino, ensino religioso, disciplina, atividades extra-curriculares (esportes, escotismo, grêmio estudantil, CTG, jornais estudantis, banda, feira de ciências, feira do livro, informática, entre outras.)

Algumas pessoas diziam logo que não poderiam dar seu depoimento. Entretanto, outras prometiam, e prometiam... Protelavam. E um desafio à persistência de quem organiza esse tipo de trabalho, seguir sua tarefa. Sempre se corre o risco de deixar de lado colaboradores que, em tempo hábil, não se tomou conhecimento de sua disponibilidade e potencialidade para a escrita de um relato.

Ao relatarem suas memórias sobre o seu tempo na escola muitos aspectos da cultura escolar de cada época são enfatizados. A escola passa a ser um lugar de memória (NORA, 1993) em que a imaginação se investe de uma aura simbólica.6 A proposta é que escrevessem sobre uma mesma escola, um espaço em comum que unia as muitas memórias de tempos diversos. Os relatos de trajetórias de tempos diferenciados refletiram particularidades de cada momento histórico atrelado ao contexto educacional maior. Os textos marcados por uma diversidade de vivências, em sua maioria identificam a escola como um espaço de saudosa memória. São ressaltadas as festas, os momentos culturais, as práticas pedagógicas, a disciplina, os horários, os uniformes, o espaço escolar, enfim, fatos marcantes que envolviam a vida naquela escola.

No que diz respeito à organização dos textos, eles estão apresentados de acordo com a ordem cronológica aproximada dos fatos narrados, de forma a facilitar a compreensão do leitor.

No livro sobre o Pelotense, de uma lista que beirou ao número de 100 possíveis autores, consegui apresentar 45 textos em forma de pequenos relatos e crônicas. Desses textos, três não foram elaborados pelos autores para serem apresentados nessa coletânea7 e um foi de minha autoria apresentando aspectos da história da escola que acabaram sendo pintados através de diversas cores ao longo dos textos que compuseram a coletânea.

A organização do livro sobre o Colégio Anglicano Santa Margarida foi realizada junto com Gladys Amaral, ex-aluna da escola, membro atuante da Igreja Anglicana e minha mãe.8 A escolha por este educandário deu-se não só por sua representatividade junto à comunidade pelotense, mas também pelo fato de que ele estava na iminência de fechar suas portas, após 71 anos de importante atuação no âmbito educacional da cidade. Ao realizar este trabalho, ao mesmo tempo em que nos admirávamos com a importância e o significado da Escola ao longo de muitas décadas, sentimos de perto seus momentos agonizantes e sofremos com aqueles que até os últimos instantes acreditavam que uma escola construída com tanto idealismo, sonhos e realizações não poderia acabar! A organização desta coletânea ocorreu exatamente no último ano de funcionamento do “Santa”, como carinhosamente era chamado.



Num exíguo espaço de tempo, pela imperiosa necessidade de esvaziamento do prédio a curto prazo, acompanhamos de perto um verdadeiro processo de desmantelamento da estrutura que constituía o Santa Margarida que, em função de dívidas, teve de fechar suas portas. Ao que pudemos constatar, os credores levaram grande parte de sua estrutura material. E o que parecia não ser do interesse de alguém, inclusive livros e documentos, seria descartado para a venda como papel para reciclagem. Nesse processo, conseguimos intervir e levar para o CEIHE muitas caixas de “livros velhos” e de documentação da Escola que iria para o “lixo” e que certamente contribuirão para muitas pesquisas que ainda poderão ser realizadas.

Na organização do livro sobre o Santa Margarida, foram contatadas 86 pessoas. Destes 86 contatos iniciais, houve mais 60 de reforço da cobrança de textos, perfazendo um total de 146 contatos (pessoais, telefonemas, Emails e pelo correio). Foram realizados 11 relatos orais, transcritos pelas organizadoras e, posteriormente, aprovados pelos autores. São relatos de pessoas que, pela idade, não puderam escrever e/ou pessoas que preferiram dar somente seu depoimento oral. Observou-se que algumas pessoas não se dispuseram a dar o seu relato, pelo clima de insegurança e frustração em virtude do possível fechamento da Escola.

No livro sobre o Instituto de Educação Assis Brasil o primeiro texto apresentado foi elaborado quando a escola completara 50 anos9. Os demais foram escritos para compor a coletânea. Da mesma forma que os anteriores, mais de 100 contatos foram realizados para se chegar ao número de 50 textos.



3. Palavras finais

No trabalho ora apresentado, o foco é o registro de memórias preservado numa obra específica sobre determinada escola. Acredito que a relevância de tal trabalho consiste em fazer emergir fontes históricas, tidas como não convencionais - como as memórias pessoais e de grupos sociais – que nos trazem características de períodos mais distantes no tempo. Elas servem para aprofundarmos dimensões, sinalizando para as contradições inerentes a todo o processo que envolve a busca de identidade institucional a partir do olhar dos sujeitos que delas participaram.

Dessa forma, espera-se poder contribuir, também, como referencial histórico para a compreensão e construção de propostas pedagógicas que levem em conta suas identidades de escola. É inegável que todo grupo social que esquece o seu passado, que apaga sua memória, acaba por perder sua identidade. Certamente, a compreensão do presente é incompleta sem a inserção do passado, da experiência vivida e consolidada. A organização e publicação desses textos constituem-se numa forma de recuperação de uma identidade ameaçada pelo tempo e que precisa ser historicizada

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1 O CEIHE reúne pesquisadores e pesquisadoras da área de História da Educação e funciona como centro de documentação e centro de pesquisa.

Como centro de documentação enfatiza a História da Educação em geral e a História da Educação pelotense e regional em especial. Nesse sentido, desenvolve ações com vistas ao: resgate da memória da História da Educação local e regional preservando todo o tipo de material, tendo em vista a constituição de acervos documentais temáticos (História da infância, das escolas, da Universidade, dos processos não-formais de educação, etc); disponibilização de um acervo documental (fontes impressas, manuscritas e iconográficas) para pesquisadores em História da Educação, professores, alunos e comunidade em geral; constituição de um acervo de dissertações e teses produzidas no campo da História da Educação; recolha e organização de materiais doados por pessoas, grupos ou instituições de ensino; promoção de exposições periódicas sobre História da Educação.



Como centro de pesquisa, o CEIHE tem como objetivos principais: fomentar a pesquisa historiográfica; desenvolver investigações individuais e coletivas sobre temas diversos do campo historiográfico educacional; produzir trabalhos científicos e divulgá-los em diferentes fóruns de história e educação; manter sessões de estudos de caráter teórico-metodológicos; promover debates e seminários específicos; apoiar alunos em fase de preparação de monografias, artigos e dissertações.

2 Nesse sentido são fundamentais para essa análise, reflexões de autores como Pierre Bourdieu, Roger Chartier, Michel De Certeau, Antônio Viñao Frago e Jean Hérbard que sinalizam vários caminhos possíveis para o estudo do território escolar.

3 Esse é um assunto especialmente tratado por vários pesquisadores. Dentre eles cito Maurice Halbwachs, Michel de Certeau, Pierre Nora, Jacques Le Goff, Paul Thompson, Michelle Perrot, Paul Ricouer e Fernando Catroga. E, no Brasil, Marilena Chauí, José Honório Rodrigues, Ecléa Bosi, entre outros.

4 A problemática da memória e história vem sendo debatida pela historiografia brasileira desde as décadas de 1970, mas esse debate ganha vulto, realmente, a partir dos anos 90, quando as fontes orais experimentam, aqui, uma expansão mais significativa. No âmbito da História da Educação este é um assunto sempre presente nos fóruns de discussão, suscitando uma farta produção teórico-metodológica sobre ele. Veja-se, por exemplo, a Revista “História da Educação” da ASPHE (Associação Sul-rio-grandense de Pesquisadores em História da Educação) que, na maioria de seus números traz artigos que contemplam vários aspectos da utilização da memória nas pesquisas que vêm sendo realizadas.

5 VEYNE (1995, p. 28) utiliza-se da expressão trama histórica para identificar o “tecido da história, uma mistura muito humana e muito pouco ‘científica’ de causas materiais, de fins e de acasos; de um corte de vida que o historiador tomou, segundo sua conveniência, em que os fatos têm seus laços objetivos e sua importância relativa”, onde os fatos não existem isoladamente.

6 Os lugares de memória para Pierre Nora constituem-se do objeto material e concreto ao mais abstrato, funcional e simbólico, coexistindo simultaneamente seus diversos aspectos. O autor afirma: “mesmo um lugar de aparência puramente material, como um depósito de arquivos, só é lugar de memória se a imaginação o investe de aura simbólica. Mesmo um lugar puramente funcional, como um manual de aula, um testamento, uma associação de antigos combatentes, só entra na categoria se for objeto de um ritual. Mesmo um minuto de silêncio, que parece o extremo de uma significação simbólica, é, ao mesmo tempo, um corte material de uma unidade temporal e serve, periodicamente, a um lembrete concentrado de lembrar. Os três aspectos coexistem sempre [...]. É material por seu conteúdo demográfico; funcional por hipótese, pois garante ao mesmo tempo a cristalização da lembrança e sua transmissão; mas simbólica por definição visto que caracteriza por um acontecimento ou uma experiência vivida por pequeno número uma maioria que deles não participou”. (NORA, 1993, p. 22 e 23)

7 Trata-se do texto de Victor Russomano, aluno da primeira turma a se formar no Gymnasio, em 1909, e também lá seu professor, sobre o Prof. Dr. Francisco Araújo, um dos fundadores do Pelotense, apresentado no jornal Diário Popular de 03.04.1927; do texto “Reminiscências” de Francisco de Paula Alves da Fonseca - aluno do Gymnasio na primeira década e renomado professor da cidade – que inaugurou a seção “Página do Ex-Aluno” do jornal do Grêmio “Estudante”, em junho de 1947; do texto de Alcides de Mendonça Lima – aluno do Pelotense nas décadas de 1920 e 1930, sendo lá, também, professor e diretor – publicado na “Página do Ex-Aluno” do jornal “Estudante” de dezembro de 1947.

8 Fundamentada em pressupostos da Ego-história e em vários autores que sinalizam para o uso da memória e da história de vida como fonte para pesquisas historiográficas, confesso que dividir com esta pessoa maravilhosa a organização dos livros sobre o Santa Margarida e o Assis Brasil foi uma das melhores experiências que trago em minha trajetória como pesquisadora. Sua disponibilidade, capacidade organizativa, incansável dedicação e amorosidade ao “trabalho de sua filha” foi uma importante motivação para que ela lutasse pela vida. A organização desses livros serviu, também para que acreditássemos mais na vida e na história e memórias que ficam registradas.

9Texto disponível na biblioteca do IEAB.




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