Os projetos educacionais do empresariado industrial mineiro associado a fiemg a partir das diretrizes educacionais da cni (1980-2000) Jane Maria dos Santos



Baixar 122,99 Kb.
Página1/2
Encontro07.11.2018
Tamanho122,99 Kb.
  1   2


OS PROJETOS EDUCACIONAIS DO EMPRESARIADO INDUSTRIAL MINEIRO ASSOCIADO A FIEMG A PARTIR DAS DIRETRIZES EDUCACIONAIS DA CNI (1980-2000)
Jane Maria dos Santos

(Doutoranda: jane05@uol.com.br)

Prof. Dr. Carlos Alberto Lucena

(Orientador: carloslucena@centershop.com.br)

(Universidade Federal de Uberlândia – UFU)
Tendo como referência as mudanças políticas e econômicas ocorridas na sociedade brasileira desde a última década do século passado, essencialmente marcada pela ascensão da ideologia neoliberal e por diversas transformações no setor produtivo, torna-se necessário ter como tema de análise, os projetos e ações do empresariado industrial no âmbito da educação, no que concerne à formação de um novo perfil de trabalhador. Haja vista que é notável a ênfase das entidades representativas dos interesses empresariais na reformulação do sistema educacional, objetivando uma economia avançada e competitiva. Além disso,
A educação ou formação para o trabalho não pode ser considerada uma forma isolada de outros processos sociais, pois ela assume diferentes aspectos, papéis de organização conforme o contexto histórico e as novas relações sociais em que se desenvolve. É preciso, então, ter como referência considerações sobre a sociedade, a estrutura social e a produção e para qual trabalho ela está orientada. (FIDALGO & MACHADO, 2000, p. 128).

Essa realidade consiste no desdobramento do cenário internacional, marcado por um caráter fundamentalmente ideológico e apologético, no contexto da economia global na qual o principal recurso é o conhecimento, que por sua vez, não tem limites e está acessível para todos (FRIGOTTO, 2003). Fato esse que demanda uma nova “qualidade” dos processos de qualificação e requalificação da força de trabalho, ou uma “Educação para a Nova Indústria”, como é designado o mais recente programa educacional da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

O rápido e intenso processo de crescimento industrial acionado pelo Estado, nos marcos do corporativismo, levou a uma complexificação da sociedade brasileira, propiciando o surgimento de uma teia de organizações que passaram a articular e dar identidade coletiva aos agentes sociais, que moldam seu comportamento e veiculam suas demandas fora do antigo encapsulamento corporativo. (CUNHA, 2000, p. 213).
Sob os ditames do processo de monopolização do capital, o empresariado industrial brasileiro se vê pressionado por novas demandas, de um trabalhador apto a atuar em determinado setor produtivo condizente com a acirrada competitividade da concorrência capitalista e das relações inter-firmas. E essa demanda pode ser apreendida pela ação das entidades de classe como a CNI e a FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) em suas respectivas articulações com os organismos internacionais.

Não compactuando com a tese do quanto pior melhor e com as perspectivas apologéticas, parece-nos importante mostrar primeiramente que os novos conceitos abundantemente utilizados pelos homens de negócios e seus assessores – globalização, integração, flexibilidade, competitividade, qualidade total, participação, pedagogia da qualidade e defesa da educação geral, formação polivalente e “valorização do trabalhador” – são uma imposição das novas formas de sociabilidade capitalista tanto para estabelecer um novo padrão de acumulação, quanto para definir as formas concretas de integração dentro da nova reorganização da economia mundial. (FRIGOTTO 2003, p. 144).


É necessário compreender o vínculo dessas entidades com os organismos internacionais, haja vista que suas condições e possibilidades de estar à frente de um projeto nacional, voltado para o desenvolvimento da economia brasileira, “esbarram” nas exigências de tais organizações multilaterais ou propriamente mundiais, que pairam acima das nações (IANNI, 2004).

Mediante essa contextualização, cabe indagar: o que significa para o empresariado industrial preparar para o trabalho em um mundo como este? Quais conhecimentos, para que trabalho? Segundo Ciavatta (1998), a formação de trabalhadores ou o ensino profissional é sinônimo de uma resposta estratégica embora polêmica aos problemas colocados pela globalização econômica, pela reestruturação produtiva, pela busca da qualidade e competitividade, pelas mudanças ocorridas no mundo do trabalho e pelo desemprego estrutural.

Para Ciavatta (1989), o trabalho, o emprego e a formação profissional são percebidos por determinados ângulos e visões, que constituem três perspectivas: o Estado, os empresários e os trabalhadores. O Estado possui o papel de regulador da correlação de forças políticas e os setores hegemônicos, ainda que tal papel esteja sofrendo uma minimização característica da política econômica neoliberal, na qual o trabalhador fica à mercê dos impactos da precarização do trabalho. Para os empresários, a formação de um novo perfil de trabalhador é vista claramente como meio de aumentar a produtividade e de geração de riqueza, e, além disso, eles têm o poder de decisão de configurar a produção da melhor maneira possível para que tais objetivos se concretizem, independentemente da desumanização que tal fato possa acarretar para a classe trabalhadora. E por fim, quanto aos trabalhadores e suas respectivas necessidades de sobrevivência, as reais possibilidades educacionais, de aquisição de novos conhecimentos e habilidades para a valorização de sua força de trabalho são mais obscuras.

Nesse contexto, a educação hoje é uma necessidade da empresa e conseqüentemente, implica em repensar um novo perfil de trabalhador, que seja submetido a uma formação que esteja em consonância com a nova realidade produtiva e organizacional do trabalho. Logo, enquanto a FIEMG é a considerada a “porta-voz” da indústria mineira, à CNI é designada a “voz” da indústria brasileira. A FIEMG hoje é uma das 27 federações dispersas no território nacional, articuladas à CNI. Neste cenário, a tal entidade assume destaque por pertencer à região sudeste, a qual apresenta significativa concentração industrial.

O objetivo principal da CNI é defender e representar a indústria brasileira em diferentes esferas e sua atuação tem como foco a formulação de políticas públicas que garantam estabilidade no desenvolvimento dos negócios do empresariado industrial brasileiro. Desde sua fundação em 1933, na qual a FIEMG estava à sua frente juntamente com as federações de São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro – tal qual foi problematizado na dissertação de mestrado (SANTOS, 2008), era perceptível a consonância da atuação da FIEMG em relação à CNI. Ambas as entidades compartilham essa mesma perspectiva até os dias atuais, no intuito de fortalecer, consolidar e expandir o parque industrial do país.

A CNI gerencia as entidades do Sistema Indústria, composto pelo SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), o SESI (Serviço Social da Indústria) e o IEL (Instituto Euvaldo Lodi). Sua função é fazer com que tais instituições atuem de forma articulada – por isso a designação de “Sistema Indústria”. Em síntese, a atuação deste sistema expressa os projetos educacionais oficiais do empresariado industrial nacional, por meio de uma rede de escolas, laboratórios e centros tecnológicos, para que assim a CNI deixe claro o papel da indústria brasileira enquanto “agente de transformação”. Cabe analisar, a dimensão educacional da FIEMG, no intuito de problematizá-la em relação às diretrizes nacionais de formação de um novo perfil de trabalhador, colocadas pela CNI no contexto atual.

No que concerne à educação, a CNI está representada pelo SENAI e seus respectivos serviços ligados ao ensino profissional e pelo SESI, que hoje atuam em parceria com o Ministério da Educação, com o objetivo de “fortalecer” o ensino técnico e profissionalizante ofertado pelo “Sistema S”1. Cabe saber como essas diretrizes oriundas de uma tendência nacional, se configuram no estado de Minas Gerais, sob a tutela da FIEMG e seus departamentos regionais do SENAI e do SESI.

A estrutura da CNI está sustentada em Conselhos Temáticos Permanentes, que são órgãos consultivos estrategicamente distribuídos entre várias áreas de abrangência temática, que agem em defesa da indústria brasileira e de suas respectivas entidades representativas. Dentre tais órgãos, se faz presente o da educação (COED – Conselho Temático Permanente de Educação), responsável pela promoção do debate sobre a educação brasileira em seus diversos níveis e modalidades, sob a percepção do empresariado industrial. Nesse sentido, a educação a serviço do capital, é concebida como chave para o desenvolvimento do empreendedorismo (CNI, 2008).

O Conselho Temático Permanente de Educação, assessora às ações da CNI, em seus projetos educacionais e na política educacional brasileira. Este conselho está à frente do atual Programa da CNI, denominado “Educação para a Nova indústria”. Tal programa faz parte de um projeto maior, chamado de “Mapa estratégico da indústria (2007-2015)”, que foi elaborado no seio do Fórum Nacional da Indústria da CNI – um órgão colegiado de natureza consultiva da diretoria da CNI que formula estratégias favoráveis à indústria e à economia brasileira (CNI/DIREX, 2005, p. 10).

O foco principal de atuação do COED está na proposição de estratégias que atendam aos objetivos do Mapa estratégico da Indústria que estejam relacionados aos aspectos educacionais, por meio do Programa “Educar para a Nova Indústria”. Ou seja, colocar em destaque o ponto de vista do “setor produtivo”, acerca da realidade educacional do país. Seu presidente é Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira (presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro – Firjan), e é composto por vários membros, dentre os quais merecem destaque: Celso Antunes, Cristovam Buarque, Paulo Renato Costa Souza.

Desse modo, o atendimento das demandas do setor produtivo, expressas na “Educação para a Nova Indústria”, representa o projeto das elites para formar a mentalidade tanto da classe trabalhadora, quanto da sua própria classe, que perpassa desde os diversos níveis da educação brasileira (da básica à superior) a até mesmo à construção do conhecimento tácito implícito no ato de “aprender-fazendo”.

Essa construção de um novo tipo médio de trabalhador aponta a afirmação de Gramsci (1976) que a vida da indústria demanda a “adaptação psicofísica” de determinadas condições de trabalho, costumes, habitação, etc, que não é algo inato, mas que requer uma assimilação, que consiste na delimitação de um processo formativo por parte das elites, que por meio da reconfiguração do sistema educacional vigente, coloca uma nova maneira de viver e trabalhar – que por seu turno, não é assimilada passivamente pelos indivíduos, pelo contrário, é conflituosa e possui focos de resistência.


A história do industrialismo sempre foi (e hoje o é de forma mais acentuada e rigorosa) uma luta contínua contra o elemento “animalidade” do homem, um processo ininterrupto, muitas vezes doloroso e sangrento, de sujeição dos instintos (naturais, isto é, animalescos e primitivos) a sempre novos, complexos e rígidos hábitos e normas de ordem, exatidão precisão, que tornem possíveis formas sempre mais complexas de vida coletiva, que são a conseqüência necessária do desenvolvimento do industrialismo. (GRAMSCI, 1976, p. 393).

Na atualidade, essa imposição de certo perfil se faz presente nos modos de organização da produção, ainda que se utilize da captação da subjetividade dos trabalhadores para que a face exploratória e precarizada do trabalho se torne ainda mais oculta e complexa. O que demanda que sejam criadas e recriadas técnicas de controle tanto do trabalho quanto do trabalhador (SALM, 1980). Na perspectiva da CNI, A educação é uma das vertentes fundamentais para o crescimento da economia, seja pelo efeito direto sobre a melhoria da produtividade do trabalho – formação de trabalhadores mais eficientes, capital humano – seja pelo aumento da capacidade do país de absorção e geração de novas tecnologias (CNI, 2007, p. 09).

O Programa “Educação para a Nova Indústria” consiste na junção entre nova territorialidade da indústria, novos conteúdos, atualização tecnológica, modernização da infra-estrutura, aprendiz flexível e inovação, tendo como finalidade última a consolidação de uma indústria competitiva. Todas essas modificações, num aspecto mais amplo, são compreendidas enquanto “ajustamento” à globalização do capital. Para Chesnais (1996, p. 20) este fenômeno é concebido por várias pessoas como “irreversível” – todos devem a ele se adaptar (CHESNAIS, 1996, p. 20).


Nova territorialidade da indústria + Novos Conteúdos + Atualização Tecnológica + Modernização Infra-estrutura + Aprendizagem Flexível + Inovação

=

INDÚSTRIA COMPETITIVA



Mediante a nova realidade colocada pelo capitalismo global e financeiro, a indústria competitiva requer um novo projeto que forme um novo tipo de trabalhador, adaptado e/ou adptável aos novos conteúdos de aprendizagem delineados por competências e habilidades voltadas para a utilização abstrata das novas tecnologias presentes nos mais diversos setores produtivos.

De fato, o contexto mais amplo da reestruturação capitalista contemporânea no plano político, econômico, jurídico e educacional funcional como um enquadramento iniludível para avançar tanto a crítica teórica aos enfoques apologéticos da sociedade pós-industrial, quanto para recusar as saídas individualistas e místicas que acabam defendendo os intelectuais apocalípticos. (FRIGOTTO, 2003, p. 13).
Sob o discurso no qual a educação é concomitantemente vista enquanto peça chave para o desenvolvimento do país e empreendimento econômico, a preocupação com formação dos trabalhadores que nela atuam, se dá no sentido de contribuição para a “sustentabilidade” da indústria na sociedade e como conseqüência uma força de trabalho dotada de melhor nível educacional. Mas por outro lado, a educação consiste numa força social dinâmica e contraditória: por mais que sob a ótica do Estado e do empresariado industrial se façam presentes os projetos das elites voltados para a reformulação do sistema educacional, nunca se tem total controle sobre esse processo de formação. Tanto que, para Kuenzer (1989, p. 15), a qualificação do trabalhador vista enquanto aquisição do conteúdo do trabalho desenvolvido pelo capitalimo é essencial, mas não resolve a questão, pois o que virá superar este modo de produção vigente é o desenvolvimento da consciência da classe trabalhadora.

Ou seja, há formas de resistências à esse novo perfil de trabalhador. É por isso que segundo Fidalgo & Machado (2000), a educação para o trabalho pode e deve se recusar à formação de mentalidade que lhe é imposta; pode e deve ampliar o conhecimento dos trabalhadores refletindo de modo crítico sobre os aspectos sociais, econômicos e políticos das situações de vida e de trabalho, de modo a perceber novas alternativas de construção de uma vida social.



É possível perceber que há diversos interesses em disputa, cerceados por projetos contraditórios. As resistências presentes nessa dinâmica, constituem no que Salm (1980) denomina de entraves decorrentes das condições naturais do trabalhador, de não-submissão às condições de trabalho que lhe são colocadas. Neste sentido a formação para o trabalho remete à “[...] funções que se revestem de um duplo aspecto coletivo e, outro, despótico, necessário para enfrentar as resistências dos trabalhadores.” (SALM, 1980, p. 65). A questão chave é que o trabalho é processo de valorização do capital e a este objetivo deve estar submisso, de se adequar às alterações na tecnologia, na sua organização e nas qualificações necessárias (SALM, 1980, p. 63).

Logo, compartilhando da mesma perspectiva de Antunes (2002), torna-se necessário destacar a importância de um redesenho de um projeto alternativo, capaz de resgatar os valores fundamentais da humanidade. E uma crítica contemporânea e aprofundada à “(des)sociabilização” da humanidade sob o capital seria um bom começo. Nesse sentido, este projeto pretende somar mais uma contribuição para a elaboração dessa crítica.

Nesse sentido, a questão da formação de trabalhadores, sempre se fez presente e necessitou ser debatida no que se refere a qualquer contexto ou conjuntura. Conseqüentemente, essa pesquisa que envolve as relações entre trabalho e educação, objetiva abordar as transformações no mundo do trabalho e suas implicações em tais processos formativos.

O que por sua vez, se desemboca no aprofundamento da pesquisa de mestrado que problematizou as estratégias, propostas e projetos educacionais formulados e desenvolvidos pelo empresariado mineiro associado à FIEMG (Federação Nacional das Indústrias do Estado de Minas Gerais) no contexto do nacional desenvolvimentismo, mediante a emergente necessidade da educação voltada para a formação de trabalhadores (SANTOS, 2008). Tal estudo, como consta na ata da defesa, foi aprovado com Louvor em virtude de seu caráter inédito na produção em Educação em nível de estado e indicada para publicação. E este cunho de originalidade da pesquisa está articulado ao diálogo estabelecido entre as fontes primárias e a fundamentação teórica referente ao tema abordado. Tais fontes, localizadas na capital mineira (Belo Horizonte), pertencem ao Centro de Memória da FIEMG e também estão presentes, ainda que em menor teor, no Arquivo Público Mineiro e na Biblioteca Regional do SESI.

Conseqüentemente, os estudos alavancados na referida pesquisa apontam para a continuidade e das análises, avançando agora para um trabalho mais aprofundado, de âmbito nacional. Pois rumo a uma investigação mais pormenorizada, torna-se necessário que essa análise seja contextualizada nas dimensões econômicas, históricas e sociais próprias da realidade brasileira. Na mesma perspectiva da pesquisa de mestrado, o presente trabalho consiste em avançar um pouco mais, ao dialogar com as fontes mais recentes da CNI e da FIEMG (Programas, documentos, revistas, etc) vinculando-as ao debate teórico, no intuito de elaborar uma análise minuciosa acerca da reformulação do sistema educacional proposta pelo empresariado industrial rumo a uma economia avançada e competitiva.

Ou seja, é necessário discutir o projeto educacional das elites, de forma articulada ao atual contexto no qual a primazia do mercado sobre o Estado, do econômico sobre o social e do individual sobre o coletivo se estabelece por meio da consolidação das teses neoliberais. Isso porque, a medida que o governo brasileiro veio se aproximando da ideologia neoliberal, foi ficando cada vez mais clara a posição do empresariado nacional favorável às reformas institucionais, no intuito de regular os mercados e privatizar os serviços estatais (OLIVEIRA, 2003, p. 253).

Enquanto que em consonância com a política econômica neoliberal, o processo de reestruturação produtiva assentado na emergência das novas tecnologias, das novas formas de organização do trabalho, das mudanças na gestão dos recursos humanos e nas estratégias empresariais de um modo geral, se desdobra na ascensão de formas alternativas de organização da produção no intuito de promover um aumento da flexibilidade e produtividade do trabalho, que por sua vez demandam a construção de um novo perfil de trabalhador (FIDALGO & MACHADO, 2000). O que para Antunes (2002) implica na alteração, mescla, e até mesmo substituição do binômio taylorismo/fordismo por formas produtivas flexibilizadas e desregulamentadas, pertencentes ao toyotismo. Essa complexidade de relações e forças sociais, faz parte do amplo e dinâmico fenômeno da globalização: Ainda que a nação e o indivíduo continuem a ser muito reais, inquestionáveis e presentes todo o tempo, em todo lugar, povoando a reflexão e a imaginação, ainda assim já não são “hegemônicos”. Foram subsumidos, real ou formalmente, pela sociedade global, pelas configurações e movimentos da globalização (IANNI, 2004, p. 13).

E compartilhando da mesma perspectiva de Ianni (2004), Antunes (2002) aponta que bem como o capital é um sistema global, o mundo do trabalho também se torna cada vez mais “transnacionalizado”, ainda que a classe trabalhadora ainda não tenha dado uma resposta internacional à cadeia produtiva



Uma discussão que tendo a educação voltada para a construção de um novo tipo de trabalhador perpassa pela questão do atual desenvolvimento brasileiro e os processos (e também categorias analíticas) que a ele estão diretamente atrelados, conforme o esquema a seguir:











Por ora, tem-se como hipótese que em consonância com as diretrizes educacionais da CNI, os projetos educacionais da FIEMG revelam o aspecto da polivalência, da captação da subjetividade do trabalhador, para que ele não consiga enxergar o sentido opressor do trabalho que executa e a dimensão unilateral da formação educativa à qual ele está submetido. Contraditoriamente, a atividade que funda o homem enquanto ser social humanizando-o, se transforma em instrumento de opressão, de sacrifício, alienando a vida do trabalhador.


A qualificação humana diz respeito ao desenvolvimento de condições físicas, mentais, afetivas, estéticas e lúdicas do ser humano (condições omnilaterais) capazes de ampliar a capacidade de trabalho na produção dos valores de uso em geral como condição de satisfação das múltiplas necessidades do ser humano no seu devenir histórico. Está, pois, no plano dos direitos que não podem ser mercantilizados e, quando isso ocorre, agride-se elementarmente a própria condição humana. (FRIGOTTO, 2003, p. 31 e 32).
No entanto, nessa perspectiva analítica é impossível descartar as prováveis formas de resistência presentes neste aspecto, de modo a apontar que, fazendo uma analogia ao pensamento de Marx, é entremeio à esta formação que se encontram os germes de sua auto-destruição. Essa nova configuração da força de trabalho não é um processo passivo e homogêneo, mas complexo, constantemente mutável e conflituoso.

A relevância desta proposta de trabalho está no fato de problematizar de modo crítico e pormenorizado a temática história, trabalho e educação – pertencente à linha de Políticas, Saberes e Práticas Educativas, contribuindo para com a produção e avanço da área do conhecimento que tem como foco as complexas práticas e relações sociais, que são delineadas pelas forças produtivas e pelas relações de produção tipicamente capitalistas.

Além disso, entende-se que esses estudos são de significativa importância para a análise da atual formação dos trabalhadores mineiros mediante as estruturas educacionais postas pela CNI. Acredita-se que o mesmo está longe de se esgotar, pois, desde o mestrado, oferece contribuição para o desenvolvimento de análises e pesquisas posteriores. Cabe aqui, contribuir com as investigações que contemplam o empresariado industrial e sua influência organização do sistema educacional do país e de Minas Gerais. Afinal, tanto a empresa quanto os empresários constituem as categorias-chave que expressam a concretude e dinâmica do sistema capitalista de produção na realidade social. E como se sabe, os parâmetros que norteiam a educação são frutos desse movimento.

O fato de ter como eixo norteador os projetos educacionais gestados e concretizados pelo empresariado industrial representado pela CNI e uma de suas Federações, parte do pressuposto de que a educação sempre teve destaque dentre as preocupações empresariais. Embora fosse negado o caráter de investimento lucrativo aplicado à dimensão educacional, sabe-se que ele sempre esteve à frente dos interesses das classes produtoras. Tanto que para Almeida (2003, p. 49), o Estado há muito tempo possui destaque enquanto responsável pela educação básica, voltada para a preparação do trabalhador além de subordiná-lo aos imperativos da produção. E nesse sentido, é importante destacar que, ainda que não tenha abrangido satisfatoriamente toda a demanda, as iniciativas do empresariado em criar centros de formação específicos foi essencial, além da elaboração das “propostas pedagógico-industriais” de formar o trabalhador dentro das próprias fábricas – o que implica em analisar a luta de classes nas fábricas por meio da relação entre a teoria e a prática.

E a CNI, por seu turno, foi fruto de um projeto industrial impulsionado pelo nacional desenvolvimentismo, que se impulsionou um projeto político para a Nação, de caráter essencialmente urbano-industrial, sem, no entanto, romper com as elites agrárias-exportadoras. Com isso, é possível constatar que este trabalho procura privilegiar em suas análises, a presença da ação empresarial nos projetos educacionais voltados para a capacitação de trabalhadores para a indústria brasileira – o que por sua vez pode revelar não somente este aspecto aqui priorizado, como também as especificidades do empresariado nacional e mineiro e a maneira pela qual eles se revelam, concomitantemente, frutos e agentes do capitalismo monopolista, da política econômica neoliberal.

Isso implica reconhecer o estado típico de uma sociedade de classes, que representa os interesses hegemônicos das classes dirigentes, nas quais se encontram a classes produtoras e dentre elas, o empresariado industrial – um instrumento de manutenção da ordem burguesa. É por isso que a educação, segundo as análises realizadas na pesquisa do mestrado não era a mesma para todos. Era a educação burguesa, restrita às limitações econômicas, históricas, políticas, ideológicas e sociais do capitalismo, expressando um projeto educacional das elites (BRAVERMAN, 1980, p. 103). Este projeto, voltado para uma reconfiguração do sistema educacional adaptado às necessidades da economia avançada e competitiva é das elites no sentido que:

Seriam os grupos que inovam, mobilizam, organizam, dirigem, explicam e põem em prática. O povo, as massas, os grupos e classes sociais são induzidos a realizar as diretrizes estabelecidas pelas elites modernizantes e deliberantes. Daí a necessidade de alfabetizar, profissionalizar, urbanizar, secularizar, modificar instituições e criar novas, reverter expectativas e outras diretrizes, de modo a viabilizar a execução e dinamização dos objetivos e meios de modernização, modernos, modernizantes. (IANNI, 2004, p. 101).
Este projeto hegemônico se estabelece no interior das relações sociais – movimentos econômicos, políticos e culturais, que demandam o desenvolvimento de um amplo processo pedagógico, por meio do qual a classe objetiva ser dirigente, lançando mecanismos de persuasão e exercício da força. Logo, o projeto das elites é o que Kuenzer (1989) denomina de “Pedagogia da Fábrica”, ou alternativa pela qual a classe burguesa busca consolidar o seu projeto hegemônico.

Afinal, como aponta Sanfelice (2007, p. 544), o que parece bom para as elites – independentemente de estarem decadentes ou dependentes, é considerado bom para seus próprios interesses e, conseqüentemente, deve ser bom também para cada cidadão. Está em voga então o papel da educação em preparar o trabalhador para agir conforme as ordens ditadas por aqueles que se encontram no topo hierárquico da estrutura produtiva, de modo a revelar uma educação fragmentada, plenamente adaptável ao modelo produtivo vigente, que requer um grande número de trabalhadores polivalentes, de modo a apreender até mesmo a sua subjetividade. Controle este passível de questionamentos constantes, em contraposição à resistência das classes trabalhadoras a este contexto. Haja vista que a luta é justamente contra a subordinação às leis do mercado e à sua adaptabilidade seja enquanto adestramento próprio dos princípios tayloristas, seja enquanto a polivalência inerente aos esquemas da organização flexível (FRIGOTTO, 2003, p. 31).

Ao defender a importância da educação como elemento fundamental para o desenvolvimento de uma economia competitiva, o empresariado deve levar em consideração que as ações e projetos por ele desenvolvidos mediante a CNI, obstaculizariam uma melhor distribuição de renda e acentuariam a diferença entre classes – ainda que provoque certa ascensão social de parte dos seus trabalhadores, não que este fosse o seu objetivo central, mas sim em detrimento das instalações das bases necessárias para a concretização deste processo.

Desse modo, a relevância da pesquisa se justifica pelo fato que a atuação da CNI em conjunto com uma de suas Federações, no caso, a FIEMG é primordial para o desenvolvimento industrial brasileiro e para a consolidação do projeto neoliberal – fato este que merece ser analisado de modo crítico e aprofundado.



  1   2


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal