Os primeiros repórteres do Brasil



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




História_do_Jornalismo'>GT História do Jornalismo

Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)



Os primeiros repórteres do Brasil

Por Maria Cecília Guirado1


Resumo: Testemunhas verdadeiras da formação do país e do povo brasileiro, Pero Vaz de Caminha (1500), Pero Lopes de Sousa (1530-1532) e Pero de Magalhães de Gândavo (1576), ao traduzirem a realidade que brotava do aparente paraíso, podem ser considerados como os primeiros repórteres do Brasil.
Palavras-chave: reportagem, livro-reportagem, relatos de viagens quinhentistas, História da Comunicação no Brasil, colonização brasileira.

A forma de olhar os que estão perante nós, como a nós próprios, varia segundo os grupos sócio-culturais e os objectivos por eles prosseguidos. Navegadores, mercadores, guerreiros, padres e missionários, cavaleiros-mercadores, administradores, capitães, colonos ("casados estantes") e lançados, são levados por motivações que se chocam ou se completam (...) (Godinho 1994:44).
1. Caminha, Pero Lopes e Gândavo
As primeiras notícias sobre o Brasil em língua portuguesa, descobertas até este momento, são: a Carta, de Pero Vaz de Caminha (1500), o Diário da Navegação, de Pero Lopes de Sousa (1530-1532) e o Tratado da Província do Brasil, de Pero de Magalhães de Gândavo (c.1570). Inseridos nos primórdios da Literatura Brasileira como textos de informação, estes escritos contêm as primeiras impressões do descobrimento e do início do período colonial brasileiro:

«Enquanto informação não pertencem à categoria do literário, mas à pura crónica histórica e, por isso, há quem omita por escrúpulo estético (...). No entanto, a pré-história das nossas letras interessa como relfexo da visão do mundo e da linguagem que nos legaram os primeiros observadores do país. É graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte» (sublinhado meu, Bosi 1993: 15).

Estes primeiros observadores do país produziram matérias noticiosas que foram, ainda no século XVI, alvo de «cuidadosa investigação policial ou procura jornalística», conforme observa Banha de Andrade (1972:227).

É verdade que os textos produzidos por Caminha, por Pero Lopes e por Magalhães de Gândavo, se aproximam em forma ou conteúdo do conceito atual de reportagem, mas, também é verdade que não foram elaborados para estampar as páginas da imprensa, pois, naquela altura, o jornalismo em lusa-língua ainda engatinhava manuscritos2.

Daí que pode parecer absurda a tentatia de ler autores/viajantes do século XVI com lentes jornalísticas, mas por outro lado, tem-se a hipótese de fazer com que, vistos por um outro prisma, estes textos possam ser úteis para compreender o engendramento entre História, Literatura e Filosofia, três áreas que se confundem nas narrativas dos Descobrimentos. É também na confluência, na intersemiose, destas áreas que se fundamenta o jornalismo enquanto gênero literário, que desemboca nos meios de comunicação em forma de reportagens, documentários, grandes reportagens ou livros-reportagens.

E quando se usa aqui o termo reportagem para designar os primeiros relatos do Brasil, é porque se encontra (além das "parecenças" quanto ao processo criativo) apoio na etimologia da palavra3. Tanto a Carta como o Diário e o Tratado se adaptam ao conceito de relação4 e ao mesmo tempo exercem a função de um relato5. O objetivo da produção destes textos é a elaboração de uma reportagem, no sentido latino de reportare, porque são textos que funcionam como uma resposta, que trazem uma notícia das ações percepcionadas. Na imprensa periódica atual, “é da natureza da reportagem revelar a origem e o desenrolar da questão que ela retrata. Assim, de alguma forma, a reportagem responde, ou busca responder - em tese - temas de interesse social” (Guirado 1993:11-12).

Sob o ponto de vista histórico, literário, antropológico, enfim cultural, estes três textos marcam etapas fundamentais tanto para a formação do povo brasileiro, como para a formação da imagem européia sobre esta nova terra dos papagaios. São três viagens, distantes entre si, divergentes na forma de apresentação textual (uma carta, um diário e um tratado), mas com um ponto em comum: a descrição do Brasil, nos primórdios de sua história. Três formas de encontro com o outro, três maneiras de traduzir a realidade e de registrar o olhar, que marcam as três primeiras fases do confronto entre portugueses e ameríndios.
1ª fase) Carta de Caminha: o deslumbramento, fase inaugural da alteridade (o descobrimento da terra, vista sobretudo a partir do mar);

«(...) pelo sertão nos pareceu do mar muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão a terra e arvoredos, que nos parecia mui longa terra.» 6.

2º fase) Diário de Pero Lopes: o reconhecimento e defesa da terra (conflitos por terra e por mar)

«Estando assi com a nao tomada chegou o capitão Irmão com os outros navios, logo abalroei com a nao e entrei dentro. E o capitão irmão abalroou com o seu navio e os mais franceses se passaram ao navio. A nao vinha carregada de brasil, trazia muita artelharia e outra muita munição de guerra. Por lhes faltar pólvora se deram. Na nao não demos mais que üa bombardada com um pedreiro ao lume d'água. Com a artelharia meúda lhe ferimos 6 homens. Na caravela me não mataram nem feriram nenhum homem. De que dei muitas graças ao senhor deus» (2/02/1531 Ms.6r)7.

3º fase) Tratado e História de Gândavo: a posse, ocupação e nominação (da terra, na terra).

«(...)são de cor baça, e cabello corredio; tem o rosto amassado, e algumas feições delle á maneira de Chins. Pela maior parte sam bem dispostos, rijos e de bôa estatura; gente mui esforçada, e que estima pouco morrer, temeraria na guerra, e de muito pouco consideraçam (...). Vivem todos mui descançados sem terem outros pensamentos senam comer, beber, e matar gente, e por isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo conseguinte tornam a emmagrecer, e muitas vezes pode delles tanto a imaginaçam que se algum deseja morrer, ou alguem lhe mete em cabeça que ha de morrer tal dia ou tal noite nam passa daquelle termo que nam morra» (Gândavo,1980:122).



2. A viagem da construção do texto
Tanto para o jornalista como para o relator-viajante do século XVI importa, antes de tudo, descobrir...

«As chaves do descobrir são, por conseguinte: saber onde se pretende chegar; estabelecer marcos na via susceptível de nos conduzir ao destino; daí, conseguir traçar a rota que nos conduzirá ao porto de largada; e, finalmente, saber regressar ao mesmo destino são e salvo. O regresso é evidentemente a chave mestra» (Godinho 1994:27).

Na prática do jornalismo, em geral, o repórter recebe uma pauta (planejamento investigativo) que contém, os questionamentos básicos para a feitura da matéria jornalística (seguindo a ideologia da empresa de comunicação a qual pertence), sai a campo para observar e investigar, anota dados, elabora o texto e o encaminha para publicação.

Genericamente, as etapas características da elaboração de uma reportagem são:

1) pauta (metas a alcançar);

2) observação e coleta de dados (anotações);

3) organização e análise das informações colhidas para a preparação do texto;

4) elaboração do texto;

5) publicação do texto-reportagem em veículo da imprensa periódica.
Não é certo afirmar que as narrativas elaboradas durante as viagens de descobertas tenham sido pautadas. Mas é seguro aventar a hipótese de que as viagens eram, de algum modo, direcionadas por pautas régias, ou melhor, obedeciam a um tipo de raciocínio do poder, com a meta de descobrir "cousas" de interesse imperial (como se verá no caso do Diário).

Com base na Carta de Afonso de Albuquerque8, suspeita-se que muitos outros narradores das viagens ultramarinas, deste período, tenham recebido uma orientação sobre o tipo de coisas que deveriam ser por eles retratadas.

Mas, o "faro jornalístico" é indispensável a qualquer relator/viajante. Também na época dos Descobrimentos era necessário decidir, diante das novidades, quais eram merecedoras de adentrar o relato, de traduzir aquela nova realidade. Mas a realidade, ao ser traduzida, sempre se transforma, como garante Foucault:

«(...) por mais que se tente dizer o que se vê, o que se vê jamais reside no que se diz; por mais que se tente ver por imagens, por metáforas, comparações, o que se diz, o lugar em que estas resplandecem não é aquele que os olhos projectam, mas sim aquele que as sequências sintácticas definem» (1968:25).

Caminha era um homem das letras, um humanista, escrivão. Pero Lopes de Sousa era navegador e Pero de Magalhães de Gândavo era professor de latim e gramático. Como a maneira de olhar e de registrar o olhar está condicionada à sensibilidade e à capacidade de traduzir, cada um, ao seu modo, reportou os fenômenos do novo mundo.
3. O alumbramento de Caminha
Imaginando estar na Ilha de Vera Cruz, Pero Vaz de Caminha redige, no dia 1º de Maio de 1500, a primeira notícia sobre a terra brasilis. António Baião (1940:63), que estuda a Carta no âmbito historiográfico, afirma que «nenhum país teve até agora um historiador no próprio dia do seu descobrimento».

Tomando emprestadas as palavras do historiador José Manuel Garcia, «o repórter é o sujeito que presencia as 'novas novidades' transmitindo, nas suas palavras, uma visualização precisa (dentro do possível), directa e viva, dos acontecimentos no qual participa» (1983:113). Já ao historiador não se pode aplicar semelhante definição, pois o indivíduo que registra a história raramente se encontra defrontado com o agon circunscrito pela realidade palpável. O historiador liga-se aos acontecimentos a posteriori, enquanto o repórter, em geral, acompanha, direta ou indiretamente, o desenrolar dos fatos.

Daí que seja razoável dizer que o Brasil teve um repórter no dia do seu descobrimento oficial e não um historiador. Envolvido pela magia da novidade física e sensorial daquela paragem, onde a frota passara uma semana, Caminha deixa-se contaminar pelo prazer da descoberta. Defende a veracidade de sua narrativa quando diz, logo de início: «creia que por afremosentar nem afear haja aqui de pôr mais que aquilo que vi e me pareceu» (op. cit.:165).

Por mais que Caminha se tenha esforçado no sentido de alcançar a verdade, ele tem diante de si uma bela paisagem, «de muito bons ares»; com lindas mulheres, que poderiam encarnar o mito das amazonas «com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas»; numa terra onde os homens parecem viver em paz e não dependem de grandes sacrifícios físicos e morais para obter conforto e alimentação, pois «eles não lavram e não criam»; donde se supõe terem uma vida longa e saudável, assim «andam tais e tão rijos e tão nédios».

Como é possível não distorcer, em algum ponto, a imagem paradisíaca implícita neste contexto? O repórter inaugural elabora um texto instigante, onde há mais espaço para as hipóteses que para as crenças. Por exemplo, sugere que poderá haver ouro e prata naquela terra, mas não afirma que os metais preciosos realmente possam ali existir:

«(...) um deles, pôs olho no colar do capitão e começou a acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata» (op. cit.:168)

Não afirma que os índios tivessem um chefe, mas admira-se por constatar que havia «um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não já que me a mim parecesse que lhe tinham acatamento nem medo». E supõe que os índios também não percebiam a autoridade de Cabral «vieram alguns deles a ele, não por o conhecerem como senhor, cá me parece que não entendem nem tomavam disso conhecimento», como também intui que os selvagens não relutariam em adotar a religião cristã:

«Parece-me gente de tal inocência que, se os homens entendessem, e eles a nós, que seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem nenhuma crença, segundo parece» (op.cit.:180).

Como um hábil repórter diante do inesperado, Caminha cumpre seu papel de declarar, sem muitos rodeios, o resultado de sua percepção (segundo o que viu e o que lhe pareceu) sobre aquele acontecimento inusitado. Um furo de reportagem, se fosse possível usar a linguagem jornalística atual, pois muitos documentos comprovam que a armada dirigia-se à Índia, onde Cabral iria negociar o monopólio das especiarias com o Samorim de Calecute.
4. O confronto com o outro: a “pauta” do Diário
Ao contrário de Caminha, Pero Lopes é um homem que domina mais o leme que a língua. Embarcado ao lado de seu famoso irmão Martim Afonso de Sousa, sua observação, de modo geral, é mais direcionada para os assuntos da navegação (talvez para que o seu Diário pudesse ser de alguma utilidade para as próximas viagens portuguesas). Preocupa-se, sobretudo, o autor-capitão em cumprir as metas da expedição. Neste caso, as exigências de D. João III (Freitas, 1924) direcionam a viagem e a escritura:


  • à exploração e reconhecimento do litoral;

  • à expulsão dos franceses (desde 1501 no Brasil) estabelecidos na feitoria de Pernambuco, que controlavam o comércio do pau-brasil;

  • à tomada de posse do ouro e da prata (exploração do Rio da Prata);

  • à criação das bases para a efetivação da colônia.

De maneira que, o texto - retirados os excessos da linguagem de marinharia - resulta numa espécie de reportagem pré-comprometida quanto ao enfoque de acesso à realidade. Como na lista de D. João III não se encontra qualquer indício de interesse pelo modus vivendi do índio brasileiro, estes trechos brotam do texto, às vezes desconectados no tempo e no espaço, e acabam por constituir uma leitura fragmentada da realidade.

Ao longo do texto o destaque é para o combate. O combate com o mar (o pânico causado pelas tormentas, o fantasma do naufrágio), o combate com os corsários franceses, o reconhecimento do litoral e o patrulhamento incansável da costa brasileira pelos irmãos expedicionários, ocupa grande parte dos fólios. A caminho do Brasil, nas ilhas de Cabo Verde, colocam em prática as ordens do rei:

«Aqui achámos üa nao de 200 tonéis e üa chalupa de castelhanos e em chegando nos disseram como iam ao rio de Maranhão e o capitão Irmão lhe mandou requerer que eles não fossem ao dito rio por quanto era d'el Rei Nosso Senhor e dentro da sua demarcação» (28/12/1530, Ms. 3v).

Este e outros seguimentos podem ser percebidos como trechos de reportagem, da narração in locu. Próximo ao cabo de Sant'Agostinho lutam contra os corsários franceses. A seguir Pero Lopes assiste a uma batalha entre duas tribos. Aparecem neste documento-reportagem os primeiros registros sobre cenas de canibalismo na Bahia de Todos os Santos:

«E pelejaram desd'o meo dia até o sol posto, as 50 almadias da banda de que estávamos surtos foram vencedores. E trouxeram muitos dos outros captivos e os matavam com grandes cerimónias presos percordas. E dipois de mortos os assavam e comiam, não têm nenhum modo de física. Como se acham mal não comem e põem-se ao fumo e assi polo conseguinte os que são feridos» (13/3/1531, Ms. 8r) .

Para além da observação de que os índios «não têm nenhum modo de física», que parece significar a ausência de comportamento natural, o texto prossegue, abordando outro tema, sem qualquer julgamento perceptivo sobre o ritual antropofágico9. Pero Lopes não explora o pormenor, não faz análise detalhada deste ou de outros fatos.

O autor do Diário desconhecia a diversidade das línguas indígenas do Brasil: «A fala sua não entendíamos nem era como a do Brasil, falavam do papo como mouros» (25/11/1531, Ms. 17r). De maneira geral, na literatura de viagens quinhentistas ibéricas, os autóctones são considerados inferiores. Os índios, aos olhos dos brancos, têm uma natureza submissa, praticam o canibalismo, sacrificam seres humanos, ignoram qualquer forma de religiosidade e falam uma língua ininteligível (Todorov, 1990).

Mas, Pero Lopes não admite textualmente o choque causado pelos costumes "bárbaros" das tribos encontradas. Como diz Darcy Ribeiro,

«Os recém-chegados eram gente prática, experimentada, sofrida, ciente de suas culpas oriundas do pecado de Adão, pré-dispostos à virtude, com clara noção dos horrores do pecado e da perdição eterna. Os índios nada sabiam disso. Eram, a seu modo, inocentes, confiantes, sem qualquer concepção vicária, mas com claro sentimento de honra, glória e generosidade, e capacitados, como gente alguma jamais o foi, para a convivência solidária» (1995:45).

A expedição de Martim Afonso de Sousa lança os dados para a possibilidade de colonização. São fundadas as vilas de São Vicente e de São Paulo, os homens adentram o sertão. Pero Lopes anota o acontecimento:

«Aqui neste porto de São Vicente varámos üa nao em terra; a todos nos pareceo tão bem esta terra que o capitão Irmão deteminou de a povoar e deu a todolos homens terras pera fazerem fazendas e fez üa vila na ilha de São Vicente e outra nove légoas dentro polo sartão a borda dum rio que se chama Piratininga e repartio a gente nestas duas vilas, e fez nelas oficiaes e pôs tudo em boa obra de justiça de que a gente toda tomou muita consolação com verem povoar vilas, e ter leis e sacrefícios, e celebrar matrimónios, e viverem em comunicação das artes, e ser cada um senhor do seu, e vestir as enjúrias particulares, e ter todolos outros bens da vida sigura e conversável» (22/12/1531, Ms.27r).

Estava deflagrado o germe da colonização e do desenvolvimento desordenado da sociedade e da formação do povo brasileiro. Dúvidas várias pairam sobre o manuscrito da Ajuda, mas ainda se pode colher neste Diário as notícias daquele povo que vivia uma vida segura e confortável, como afirma o próprio Pero Lopes de Sousa. Assim sendo, extraídas as abundantes anotações de marinharia, o Diário é fruto de registro in locu de uma aventura exploratória e, mesmo tendo sido redigido por um repórter-navegador poderia ser considerada a primeira grande reportagem sobre o Brasil.
5. A História na divulgação do Brasil
Ao contrário dos outros relatores-repórteres mencionados, Gândavo é o primeiro a elaborar a experiência vivida (através de uma leitura sistêmica da realidade brasileira no último quartel do século XVI) com o objetivo de publicá-la. Por esse motivo, e dentro dessa perspectiva singular, é que os textos gandavianos devem ser analisados como fazendo parte de um processo de criação similar ao processo de elaboração de um texto jornalístico e jamais pertencendo ao processo de criação da História, pois conforme já foi mencionado, o repórter presencia o fato, o historiador, junta os dados sabidos, geralmente por outros, e monta a narrativa.

Um bom texto não se concretiza no primeiro jacto de tinta sobre o papel. É um processo de criação, que como qualquer outro, caminha do caos para a ordem, segundo a gênese semiótica abordada por Charles Sanders Peirce. O criador, nesse caso, reescreve sua obra até atingir um estado de satisfação.

A elaboração da grande reportagem de Gândavo tem início provável em 1569. Os estudos de Pereira Filho (1965:19) indicam que Gândavo viveu no Brasil entre 1565 e 1570. Provavelmente enquanto navegava longas distâncias entre as capitanias hereditárias, como provedor da capitania baiana, não deixava de tomar notas das cousas principais da terra e dos índios.

Nesse primeiro estágio ele escreveu o Tractado da Província do Brasil no qual se contem a informação das cousas que ha na terra, assi das captanias e fazendas dos moradores que vivem pella costa, & doutras particullaridades que aqui se côtam: como tam bê da condição e bestiais custumes dos Jndios da terra, & e doutras estranhezas de bichos q ha nestas partes. Já neste texto inicial, o amigo do rei, ilustra seu discurso com cores e sabores capazes de seduzir os que viviam miseravelmente em Portugal. No prólogo, ele declara:

Minha tenção não foi outra (discreto & corioso lector) se não denunçiar neste summario em breves palavras a fertilidade e abundançia da terra do Brasil pera q esta fama venha a noticia de muitas pessoas que nestes Reinos vivê com pobreza, e não duuidê escolhella pera seu Remedio porq a mesma terra he tam natural e fauorauel aos estraños que a todos agazalha e conuida com Remedio por pobres e desemparados que seião. (....)». (Tratado 1965:59).

Tempos depois, já em Lisboa, ele fez correções no texto e resumiu o título para Tractado da Terra do Brasil, no qual se côntem a informação das cousas que há nestas partes. Persistente no aprimoramento de seu texto, Gândavo reescreve e amplia a obra dando-lhe o nome de História da Província Santa Cruz, que mais uma vez sofreu modificações antes de ser publicada em 1576.

Portanto, tem-se quatro versões de um mesmo texto, embora alguns estudiosos não considerem que eles façam parte de uma mesma cadeia genética. O objetivo, que palpita nos textos gandavianos é muito claro: a divulgação do Brasil com a intenção de atrair o maior número de pessoas para a colônia no além-mar. A cada etapa os tópicos vão sendo detalhados, enriquecidos com informações cada vez mais precisas.

Mesmo que em breves trechos, evidenciando-se apenas o último estágio do processo de criação10, pode-se verificar a unidade narrativa do autor e seu propósito: a descrição histórico-geográfica, etnográfica e etnológica, com vistas a divulgar em Portugal as "encelências" do Brasil. Veja-se, a seguir, alguns fragmentos do texto.

Após explicar que no Brasil não há trigo como em Portugal, descreve o costume de comer, em lugar do pão, a farinha de mandioca. A descrição pormenorizada sobre a mandioca aparece no Capítulo V, que trata «Das plantas, mantimentos e fruitas que ha nesta provincia».

«Primeiramente tratarei da planta e raiz de que os moradores fazem seus mantimentos que la comem em logar de pão. A raiz se chama mandioca, e a planta de que se gera he de altura de hum homem pouco mais ou menos. Esta planta nam he muito grossa, e tem muitos nós: quando a querem plantar em alguma roça cortão-na e fazem-na em pedaços, os quaes metem debaixo da terra, depois de cultivada, como estacas, e dahi tornaõ arrebentar outras plantas de novo: e cada estaca destas cria tres ou quatro raizes e dahi pera cima (segundo a virtude da terra em que se planta) as quaes põem nove ou dez meses em se criar: salvo em Sam Vicente que põem tres annos por causa da terra ser mais fria» (História 1980:95)

O mesmo irá ocorrer com a detalhada explicação sobre as frutas da terra. Veja-se o caso do caju:

«Ha outra fruita que nasce pelo mato em humas arvores tamanhas como pereiras, ou macieiras: a qual he de feição de peros repinaldos, e muito amarella. A esta fruita chamão cajús: tem muito sumo, e come-se pela calma para refrescar, porque he ella de sua natureza muito fria, e de maravilha faz mal, ainda que se desmandem nella. Na ponta de cada pomo destes cria hum caroço tamanho como castanha, da feição de fava: o qual nasce primeiro, e vem diante da mesma fruita como flôr; a casca delle he muito amargosa em extremo, e o meolo assado he muito quente de sua propriedade e mais gostoso que a amendoa» (História 1980:98).

Entre os animais dos trópicos o que mais chama a atenção de Gândavo é o tatu. A observação detalhada desse bicho emblemático do Brasil, está no Capítulo VI da História, que fala Dos animaes e Bichos Venenosos que ha nesta provincia:

«Outros ha tambem nestas partes muito pera notar, e mais fora da commum semelhança dos outros animaes, (a meu juizo) que quantos até agora se tem visto. Chamam-lhe Tatús, e são quasi tamanhos como Leitões: tem um casco como de Cágado, o qual he repartido em muitas juntas ou lamninas, e proporcionadas de maneira, que parece totalmente um cavalo armado. Tem um rabo comprido todo coberto do mesmo casco: o focinho he como de leitam, ainda que mais delgado algum tanto, e nam bota mais fóra do casco que a cabeça. Tem as pernas baixas, e crião-se em covas como coelhos. A carne destes animaes he a melhor, e mais estimada que ha nesta terra, e tem o sabor quasi como de galinha» (História, 1980:104).

Ao longo do texto, várias interpretações sobre a vida e os costumes dos índios aparecem esparsas. Entretanto, ao ritual antropofágico Gândavo dedica um longo e minucioso capítulo: Da morte que dão aos cativos e da crueldade que usam com elles. Era impossível para Gândavo, naquela altura, saber que:
«A antropofagia era também uma expressão do atraso relativo dos povos Tupi. Comiam seus prisioneiros de guerra porque, com a rudimentaridade de seu sistema produtivo, um cativo rendia pouco mais do que consumia, não existindo, portanto, incentivos para integrá-lo à comunidade como escravo» (Ribeiro 1995:35).
Dentro de sua visão possível, de acordo com seu background, Gândavo conseguiu publicar, em minúcias, as primeiras imagens do ritual antropofágico que tanto assombrava os europeus. Seu relato continua despertando interesse e acaba de ser relançado, com texto modernizado e notas de Sheila Moura Hue e Ronaldo Mennegaz. No capítulo dedicado à antropofagia a observação dos editores é clara: “(...) Gândavo descreve as etapas do canibalismo tupi de forma bastante semelhante à de seus contemporâneos, mas faz observaçõs fruto de experiências próprias (...)” (Gândavo, 2004: 156). Registro nem sempre fiel ao acontecimento, pois depende da interpretação do Gândavo repórter. Para ele, uma terra “sem Fé, nem Lei, nem Rei”. Clichê reverberado até os dias de hoje, sem que lhe seja dado o crédito de autoria.

“A lingoa de que usam, toda pela costa, he huma: ainda que em certo vocábulos differe n’algumas partes; (...) carece de três letras, convem a saber, nam têm F, nem L, nem R, cousa digna despanto porque assi nam têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente sem terem alem disto conta, nem peso, nem medido” (História, 1980:123-124).

De qualquer modo, a História da Província Santa Cruz ultrapassa as raias de um relato de viagem, pois oferece um amplo quadro dos primórdios da colonização. O livro, como relato de experiência, contem defeitos e qualidades pertinentes ao jornalismo literário, podendo ser considerado o primeiro livro-reportagem sobre o Brasil.
Conclusão

Os textos de Gândavo colaboram para a divulgação do Brasil desde 1576, enquanto a Carta e o Diário esperaram três séculos pela publicação. Contudo, os textos aqui apresentados merecem pertencer a um estilo de reportagens de viajantes quinhentistas, pois refletem a viagem física propriamente dita (deslocamento geográfico; a viagem representada na escritura), a viagem particular de cada autor-repórter (amparado pelo seu quadro de referências mentais, sejam elas advindas do imaginário mitológico literário ou através de informações adquiridas) e a viagem contada aos que ficaram em terra, através do registro do vivido. Processo de elaboração de texto pertinente a qualquer repórter designado a realizar coberturas como correspondente internacional.

Testemunhas verdadeiras da formação do país e do povo brasileiro, Caminha, Pero Lopes e Gândavo, ao traduzirem a realidade que brotava do aparente paraíso, podem ser considerados como os primeiros repórteres do Brasil.
Fontes e bibliografia

1.Fontes manuscritas

GÂNDAVO, Pero Magalhães (1576) Historia da Provincia de Sãcta Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil [B.N.L. 365].

______________ (1579) Tractado da Terra do Brasil, no qual se cõtem a informação das cousas que ha nestas partes [B.N.L. 552].

SOUSA, Pero Lopes (1530-1532) Naveguaçãm q fez Pº Lopes de Sousa no Descobrimento da Costa do Brasil, militamdo na capitania de Marti Aº de Sousa, seu irmão: na era da emcarnaçãm de 1530, Lisboa, Biblioteca da Ajuda [51-V-35].



2. Fontes impressas

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GÂNDAVO, Pero de Magalhães (1980) Tratado da Terra do Brasil/História da Província Santa Cruz, reedição do Annuário do Brasil de 1924, Belo Horizonte, Itatiaia/Edusp.

__________ (1965) Tratado da Província do Brasil, introd. e notas de Emmanuel Pereira Filho, Instituto Nacional e do Livro, Rio de Janeiro, MEC.

___________ (2004) A Primeira História do Brasil – História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, texto modernizado e notas Sheila Moura Hue e Ronaldo Menegaz, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.

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RIBEIRO, Darcy (1995) O povo brasileiro - A Formação e o sentido do Brasil, São Paulo, Companhia das Letras.



TODOROV, Tzvetan (1990) A conquista da América - a questão do outro, Lisboa, Litoral Edições.

1 Jornalista (UEL), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Doutora em Estudos Portugueses/Comunicação (UNL - Universidade Nova de Lisboa), atualmente é professora na Graduação e na Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Marília – SP, onde coordena o Núcleo de História Crítica da Comunicação no Brasil. Desde 1999 é colaboradora do Centro de História de Além-Mar (UNL-Portugal).

2Aliada à aventura da expansão marítima, a invenção da arte de imprimir, engendendrada por Gutenberg (na segunda metade do século XV), faz com que as informações circulem cada vez mais rapidamente: «(...) as notícias dos descobrimentos e as viagens que ampliavam as dimensões de um mundo ainda reduzido para além de cujas fronteiras apenas existia mistério, a inter-relação cada vez maior dos territórios europeus, etc., criaram uma avidez de notícias cuja resposta só podia ser dada por um novo sistema que permitisse reproduzir em grande número» (Quintero 1996: 43). Contudo, desde a Alta Idade Média já existiam as folhas noticiosas manuscritas. Em Portugal, pode-se supor que o surgimento dos primeiros fenômenos jornalísticos possam estar enredados à experiência dos Descobrimentos, através da necessidade do registro dos relatos de além-mar. As técnicas de impressão chegam à Lisboa no final do século XV, mas as notícias ligadas ao Descobrimento do Brasil já circulavam por toda a Europa desde 1501. As primeiras folhas manuscritas (século XVI), assim como as Relações (século XVII), também referem-se à experiências marítimas. Porém, o jornalismo português só seria desenvolvido a partir das "Gazetas da Restauração" e o primeiro periódico em lusa-língua data de 1663, redigido em Lisboa, por António Sousa de Macedo, com o nome de Mercúrio Português.

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Reportagem deriva do francês reportage. O verbo reportar tem sua origem no latim reportare «regressar com, tornar a trazer; trazer uma notícia, uma resposta». O substantivo repórter vem do inglês reporter, que data, no seu sentido atual, dos princípios do séc. XIX; provém do verbo to report, «narrar». Esta palavra talvez tivesse entrado em Portugal por via francesa, em 1890 (Machado 1977:79).


4De relatione, que deriva do latim como «acto de levar, conduzir de novo (...); testemunho de reconhecimento; relatório a magistrado do senado; apresentção à ordem do dia; relato, narração; epanáfora» (Machado 1977: 69).


5Deriva do latim relatu para designar «narração oficial, posta em deliberação; relação, narrativa» (Machado 1977:69).


6Utiliza-se a transcrição de José Manuel Garcia (1983) por acreditar que seja a mais fidedigna.



7Citação da Edição Crítica publicada por Maria Cecília GUIRADO em "Relatos do Descobrimento do Brasil: as primeiras reportagens", Lisboa, Piaget, 2001. O fragmento pode ser localizado no Diário através da data (2/02/1531), ou ainda no referido fólio (6r) do Ms., que encontra-se na Biblioteca da Ajuda.

8Conforme demonstra Magalhães Godinho (1994) ao analisar a Carta de Afonso de. Albuquerque, havia uma receita sobre o método de registrar o descobrimento de novas terras. O caso que este autor apresenta é relativo ao descobrimento de Madagáscar (vê-se aqui o termo descobrimento enquanto exploração metódica). A suposta pauta do "descobrimento" coloca doze questões essenciais que deverão ser abordadas pelo relator-repórter. Entre elas destacam-se os conhecimentos geográficos, comerciais, marítimos, religiosos e antropológicos de Madagascar.


9As interpretações quinhentistas sobre o canibalismo dos índios brasileiros seriam exploradas mais tarde nas publicações de André Thevet (Singularidades da França Antártica, 1557), de Pero de Magalhães de Gândavo (História da Província Santa Cruz, 1576), e de Jean de Léry (Viagem à Terra do Brasil, 1578).


10 Utiliza-se neste estudo a versão editada por Afrânio Peixoto para o Annuario do Brasil, 1924, reeditada em 1980, pela Itatiaia/Edusp.




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