Os deficientes e seus pais



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Adolescência: Os anos adolescentes são difíceis para todos os jovens e são particularmente confusos, frustrantes e traumatizantes para o deficiente mental. Nesse período a socialização atinge o seu momento de maior importância. A aceitação por parte dos colegas e a participação no grupo se tornam fatores vitais para a formação de um conceito positivo de si mesmo. Não é raro que o deficiente mental apresente vários problemas graves de adaptação nessa fase, o que se deve em parte ao fato de que ele interage com os indivíduos de sua idade de um modo inaceitável, facilmente perceptível. As habilidades de socialização são limitadas e as nuanças da linguagem e piadas do grupo lhe escapam.

Durante a puberdade, o aumento dos impulsos sexuais e o desenvolvimento de características sexuais secundárias apresentam problemas adicionais para o deficiente mental. As mudanças fisiológicas ocasionam problemas psicológicos para a maioria das pessoas na puberdade; no entanto, o indivíduo portador de deficiência mental terá menos chances de possuir a capacidade de compreender esses fenômenos. Muitas vezes, ele não possui a capacidade de ler e compreender textos que tratam das funções biológicas e das transformações fisiológicas, e não dispõe de outros meios para obter essas informações.

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O rápido desenvolvimento, ou o não-desenvolvimento, de características sexuais secundárias com freqüência provoca conflitos na formação da auto-imagem, principalmente quando é grande a discrepância entre a idade mental e a cronológica.

Com a chegada da adolescência, muitos pais passam a se preocupar com o comportamento sexual dos filhos. O adolescente portador de um ligeiro retardamento mental comumente não se diferenciará quanto ao desenvolvimento e inclinações sexuais de outros jovens de sua idade. Devido a suas limitações intelectuais, alguns deles se tornam impulsivos e podem apresentar pouco discernimento em seus relacionamentos interpessoais. Essas crianças devem ser educadas quanto à sexualidade e à maturação dos relacionamentos sociais.

Muitas famílias necessitam de uma oportunidade para explorar seus temores e ansiedades relacionados à sexualidade do adolescente, e precisam também de uma orientação específica com base na qual possam traçar planos educacionais.

Embora a “atuação” sexual e outros problemas de ajustamento semelhantes durante a adolescência não ocorram com maior freqüência entre os deficientes mentais do que entre o restante da população, quando ocorrem, os mecanismos para enfrentá-los são inadequados em um maior número de casos. A maturidade, o discernimento e o raciocínio influenciam no comportamento. O nível de funcionamento intelectual representa um importante papel no modo pelo qual os indivíduos lidam com o desenvolvimento sexual. As outras pessoas “significativas” no ambiente do adolescente também exercem influência sobre o seu comportamento nesse período. Por exemplo, se os pais tratarem comportamentos como a masturbação de uma maneira punitiva durante a infância, o adolescente poderá encarar todas as necessidades sexuais de uma forma negativa. O indivíduo poderá desenvolver sentimentos de culpa e uma baixa auto-estima. Naturalmente, a educação sexual de deficientes mentais deve ser individualizada, de acordo com o nível de funcionamento intelectual, os interesses, preocupações, experiência e maturidade emocional da pessoa.

No período da adolescência é muito importante que ao deficiente mental sejam oferecidas atividades que lhe permitam a interação social com pessoas de sua idade. Pode ser difícil estabelecer relacionamentos heterossexuais através do convívio escolar comum, de modo que, sempre que possível, deve ser feito um esforço no sentido de introduzir o adolescente em programas recreativos comunitários.

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Muitas vezes habilidades especiais podem compensar as deficiências e ajudar o indivíduo a obter aceitação social. Qualquer aspecto positivo, como a habilidade de dançar, praticar esporte, um hobby, o talento musical, que o adolescente possa apresentar para o sucesso social deve ser cultivado até seu limite máximo.

Ao lado dos problemas pessoais e sociais característicos da adolescência, existem outras questões que exigirão orientação e aconselhamento. Será necessária a orientação quanto ao estabelecendo de objetivos e aspirações realistas quanto ao treinamento profissional e o futuro emprego. Caso o adolescente não receba esse treinamento na escola secundária, a orientação e aconselhamento oferecidos deverão ser mais intensos. Nesse caso, poderá ser preciso que se busquem instituições comunitárias que ofereçam treinamento e reabilitação profissionais. Esse ponto é de máxima importância para uma transição tranqüila da adolescência para a maturidade, da dependência para a independência.

Idade Adulta: As necessidades de orientação e aconselhamento do adulto deficiente mental variarão muito, dependendo do grau da deficiência, assim como das oportunidades educacionais anteriores, da aptidão vocacional, da personalidade e da adaptação social. Smith (1971) observou que as principais necessidades do adulto deficiente mental são de amor, participação em um grupo, reconhecimento por parte das outras pessoas, prestabilidade, elogios e oportunidade de se envolver de forma significativa em uma tarefa. Muitas vezes é difícil estruturar o ambiente do adulto de modo a satisfazer essas necessidades; conseqüentemente, devem-se buscar serviços comunitários oferecidos por várias instituições. Para que possa manter um padrão de vida adequado e satisfazer as necessidades citadas, em geral o adulto precisa de orientação em áreas como: assistência legal; informação sobre sexo, incluindo planejamento familiar, contracepção e esterilização voluntária; treinamento profissional e trabalho; atividades recreativas; administração de finanças; assistência pública e serviços disponíveis; relacionamentos familiares; e cuidados com crianças.

Na idade adulta, a maior parte das pessoas prefere deixar a casa dos pais e criar seu próprio estilo de vida, compatível com seus interesses e necessidades particulares. Muitas vezes o deficiente mental apresenta essas inclinações e a maioria dos portadores de pequenas deficiências pode realizar essa transição sem muitos problemas.

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O grau da deficiência obviamente é a principal consideração no planejamento dessa mudança no estilo de vida. O desenvolvimento de casas e centros residenciais comunitários para pequenos grupos de adultos oferece oportunidades para experiências que poderão afinal levar muitos adultos portadores de deficiência mental a uma vida independente. Mesmo depois de estabelecida a sua independência, esses adultos poderão precisar de assistência para selecionar e manter um padrão de vida apropriado. Os fatores mais intimamente ligados a essa independência são as habilidades de adaptação social. Os deficientes mentais necessitam de uma oportunidade para desenvolver sua capacidade de socialização até chegar à autoconfiança, através de interações que lhes ofereçam apoio e que não sejam ameaçadoras. Características como a cooperação, a iniciativa, a maturidade do autocontrole e o discernimento, não necessariamente adquiridas de modo incidental, podem ser alcançadas através de experiências repetitivas e de reforço. A principal função do aconselhamento e da orientação nesse estágio é oferecer serviços que levem à maturidade na adaptação social e a uma vida independente.



Se o adulto é totalmente dependente, uma importante consideração no processo de terapia e orientação é a garantia de cuidados e supervisão por toda a vida. Os pais, e outras pessoas que cuidem dos deficientes, precisam de orientação para a tomada de decisão em relação à questão da residência quando não mais puderem oferecer ao deficiente cuidados e proteção.

CONCLUSÃO

O aconselhamento e orientação de deficientes mentais é um processo especifico, que prosseguirá por toda a vida, exigindo cuidados, apoio, compreensão e encorajamento constantes. Esse processo inclui, quando o faz, pouco das interações, em geral de curto prazo, entre terapeuta e paciente, mas pressupõe uma abordagem individualizada e evolucionária, na qual objetivos realistas são alcançados através de experiências positivas. Os problemas dos portadores de deficiências mentais dizem respeito diretamente ao atraso no desenvolvimento, o que significa que o processo de orientação deve objetivar atividades que permitam aos indivíduos crescerem e se tornarem independentes ao mesmo tempo em que seguem suas aptidões e capacidades.

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Tal processo tem duração por toda a vida e implica experiências que levem da dependência à independência, tendo início com as primeiras atividades de desenvolvimento na primeira-infância e prosseguindo até a auto-suficiência na idade adulta, presente no sucesso profissional e na adaptação social. As atividades variam muito no decorrer do processo, embora os conceitos básicos permaneçam os mesmos, ou seja, objetivos realistas, experiências positivas, apoio e encorajamento.

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CAPÍTULO 22

Os Deficientes Também São Sexuados


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É uma grande honra que o Dr. SOL GORDON colabore com o seu conhecimento para este livro. Ele é professor da cadeira de Estudos da Criança e da Família, na Universidade de Syracuse, além de conferencista muito requisitado e de importante escritor. (Uma bibliografia parcial de suas publicações nesse campo se encontra no final do livro, caso o leitor deseje informações mais específicos e detalhados, relacionadas à sexualidade e à educação sexual em geral). O principal, porém, para os nossos propósitos, é que o Dr. Gordon representa uma autoridade renomada internacionalmente no campo da sexualidade do indivíduo deficiente em nossa sociedade. Ele é uma figura polêmica. Podemos concordar ou discordar de suas idéias, como veremos com a leitura deste capítulo, mas não existe polêmica no fato de que o Dr. Gordon é um pioneiro muitíssimo respeitado pelo seu trabalho em ajudar o deficiente a tomar consciência de seus direitos a uma vida sexual plena e satisfatória.

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Talvez, como um início, devamos reconhecer que as pessoas portadoras de deficiências tenham direito à expressão sexual plena e responsável. Muitos indivíduos acham difícil aceitar os desejos e impulsos sexuais normais dos deficientes; erroneamente (talvez de forma inconsciente), presumem que, por serem limitados em certos aspectos físicos ou mentais, eles devam ser limitados também em tudo o mais.

A seguir apresentarei algumas idéias a respeito da sexualidade que me parece importantes que sejam consideradas antes de tratarmos da sexualidade de outras pessoas. Em alguns casos não é essencial que concordemos com essas idéias, na medida em que elas estimulam a discussão e o pensamento. Devemos concordar, porém que as pessoas que reprimem idéias e sentimentos referentes ao sexo, provavelmente transferem essas atitudes para as outras (conscientes ou não). O ajustamento nessa área será muito facilitado por nossa própria liberação da não-comunicação em relação ao sexo. O melhor que poderia resultar desse fato é uma compreensão de nossa própria sexualidade e de como essa compreensão pode criar e influenciar sentimentos saudáveis nas outras pessoas.

As pessoas costumavam pensar (algumas ainda o fazem) que o sexo poderia ser sublimado (propalado a “canais superiores” sem expressão direta), se fossem criativas, praticassem esportes, fizessem trabalhos de caridade ou se fossem sacerdotes. No caso dos deficientes, as perturbações adicionais da limitação das capacidades físicas ou mentais, supostamente apagam quaisquer resquícios de interesse sexual.

Na minha opinião, a sexualidade pós-pubescente só pode ser:

Expressa,

Reprimida,

Suprimida, mas nunca sublimada!

As pessoas que se encontram em apuros são aquelas que reprimem aspectos significantes de sua sexualidade, a qual quando reprimida, pode produzir entre outros resultados:

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* Doenças psicossomáticas;



* Imaturidade;

* Mudanças abruptas na resposta a funções naturais do corpo;

* Mesquinhez;

* Neuroses obsessivo-compulsivas;

* Medo do homossexualismo

* Medo da castração;

* Fracasso em atingir o orgasmo.

O CAMINHO PARA O SUCESSO

Aqueles de nós que possuem larga experiência com indivíduos deficientes e seus pais chegaram à conclusão de que o ajustamento definitivo de uma pessoa à sociedade, em geral, diz respeito menos à natureza da deficiência e ao sucesso ou fracasso na escola do que à auto-imagem, à capacidade de socialização e de produção.

É dura a realidade de que, em nossa sociedade, o fato de o indivíduo apresentar uma limitação física ou mental não lhe ofereça privilégios especiais. As turmas, escolas, terapeutas e programas especiais, que se encontram disponíveis, não compensam completamente as dificuldades enfrentadas. Algumas pessoas se dão conta do dilema e prontificam-se a ajudar, mas a maior parte da população evita os problemas do deficiente.

Muitas pessoas parecem trazer a falsa convicção de que quanto menos as crianças excepcionais souberem sobre sexo, menos provável será que pratiquem o sexo irresponsavelmente. Alguns educadores argumentam que já têm trabalho suficiente para ensinar leitura e aritmética. Para que se envolver em questões “delicadas”? E, no entanto, esses indivíduos experimentam as mesmas mudanças físicas e emocionais que as crianças “normais”, assim como a ansiedade que em gera acompanha a adolescência. Portanto, os deficientes devem lidar com todos os conflitos emocionais que os seus companheiros “normais” e mais aqueles derivados de suas deficiências.

A questão não é se devemos oferecer educação sexual ao deficiente, mas se consideramos “educativas” as informações que ele recebe através da exploração do sexo pela mídia, de pornografia, de mitos aprendidos em discussões sórdidas, da pichação nos banheiros das escolas públicas e de experiências sexuais prematuras e às vezes involuntárias.

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O jovem excepcional deve ser educado a respeito do amor, da concepção, da contracepção e de doenças venéreas. Eles também devem poder discutir a sexualidade no contexto da tomada de decisões maduras e dos dilemas morais; devem aprender que é errado arriscar-se a engravidar antes do casamento, a contrair doenças venéreas e a ter relações sexuais por motivo de exploração; devem saber que a masturbação pode ser saudável, mas que, às vezes, pode ser imprópria se não for praticada com privacidade ou se tornar-se uma prática compulsiva.



Não precisamos pedir que os profissionais respondam sozinhos por essa necessidade urgente de educação sexual. Devemos ter em mente que parte da melhor educação é dada por pessoas consideradas “não-qualificadas”. Nunca percebi que professores, enfermeiras ou médicos sejam educadores sexuais excepcionais. Talvez, estejamos dando uma importância excessiva ao conhecimento teórico, quando o mais importante é a atitude e a boa vontade.

Embora os educadores sexuais possuam a tendência a apresentar informações de uma maneira científica e, infelizmente, obscura, não precisamos aderir a essa estreiteza. Além disso, o tema educação sexual abrange mais do que as questões da reprodução, do ato sexual ou das diferenças entre homem e mulher. O termo cobre todas as áreas que dizem respeito à sexualidade humana, inclusive nossas atitudes, sentimentos, comportamento e a forma pela qual nos relacionamos com nós mesmos e com as outras pessoas. Portanto, é importante compreender vários fenômenos que ocorrem com nossos filhos, deficientes ou não, em seus primeiros anos de vida, se quisermos ajudá-los a desenvolverem atitudes positivas em relação à sexualidade, a si mesmos e aos outros.

O prazer sexual não se restringe à estimulação da genitália, mas muitos de nós crêem que todas as formas agradáveis de contato físico estão relacionadas ao sexo. Isso se aplica até mesmo a bebês que aprendem sobre os prazeres do contato físico através dos primeiros toques e carícias. Os pais acariciam, beijam e acalentam os bebês, que respondem com afeto. Naturalmente, eles estão aprendendo, apesar de ainda não saberem falar, e aplicarão esse aprendizado mais tarde. O que eles aprendem a respeito do amor, da afeição e do contato físico afetará seu comportamento e atitudes sexuais quando estiverem prontos, do ponto de vista biológico.

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QUANDO A CRIANÇA APRENDE SOBRE SEXO?

Muitos de nossos sentimentos e atitudes sexuais são determinados antes dos cinco anos de idade. Grande parte do que a criança, inclusive a deficiente, aprende sobre a sexualidade é oriunda da atmosfera geral de seu lar. Como eles demonstram afeição? Como se tocam? Expressam os sentimentos com liberdade?

Por exemplo, treinar a criança a usar o banheiro antes que ela esteja pronta pode criar sentimentos de insegurança, culpa e vergonha, que podem lhe trazer problemas pelo resto da vida, embora seja provável que ela não tenha consciência da causa. Caso tenha um “acidente” e seja punida ou chamada de “má” ou “suja”, quando ainda não é capaz ou não tem idade suficiente para controlar certas funções fisiológicas, poderá tornar-se séria e sinceramente confusa, de forma a sentir-se ansiosa, culpada e inferior.

O mesmo se dá quando a criança começa a descobrir e explorar seu próprio corpo. Se batermos em sua mão quando ela brinca com a genitália, mas sorrirmos, acariciarmos e comentarmos como é engraçadinho quando ela brinca com os dedinhos do pé, ela ficará confusa e poderá associar a genitália a sentimentos de culpa e vergonha.

Ninguém espera que um bebê que acabou de aprender a andar, falar ou a saber onde é o banheiro seja outra coisa que não um inocente e livre de preocupações. Quando a criança tiver idade suficiente para ir ao banheiro sozinha, podemos ensiná-la a não tocar em seus órgãos sexuais em público, do mesmo modo que a ensinamos a não chupar o dedo.

A nudez em casa é uma introdução natural às diferenças sexuais e à sexualidade. As crianças informarão aos pais quando o pudor exigir a privacidade (fecharão a porta, pedirão para tomar banho sozinhas etc.). Do mesmo modo, os adultos têm direito à sua privacidade e a maioria das crianças é capaz de compreender que seus pais querem ficar sozinhos em determinados momentos.

Também é importante darmos os nomes corretos nos órgãos e funções do corpo desde cedo. É mais fácil ensinar à criança pequena a chamar o pênis de lulu, as fezes de caca ou a vagina de partes. Quando falamos com as crianças, devemos ser receptivos à sua linguagem, mas devemos lhes ensinar os termos próprios. O momento de falar sobre sexo é quando o assunto vem à baila — quando a criança faz uma pergunta (e não mais tarde) ou quando o tema surge em uma discussão.

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Não adie as explicações sobre sexo para uma sessão única onde se comentem todos os aspectos de uma só vez.

As mães sempre se questionam se devem falar aos filhos e os pais às filhas. Ambos os pais — e também a mãe ou o pai solteiros — devem compreender que não existe uma prescrição para que o pai converse com o filho e a mãe com a filha. Se um dos pais não se sentir capaz de dividir a responsabilidade, então, aquele que se sinta mais à vontade com sua sexualidade deve falar às crianças. Do mesmo modo, os profissionais devem estar aptos a orientar pacientes de ambos os sexos.

E o que fazer no caso da criança que não faz perguntas ou do adolescente que precisa de ajuda agora? É difícil falar-lhes abertamente, se antes nunca discutimos sexo com eles. Contudo, mesmo que nos sintamos constrangidos, não devemos recusar a oportunidade de nos comunicar. Talvez seja mais fácil dar-lhes um livro, mas devemos nos lembrar de que o ato de nos comunicar é tão importante quanto a informação. Se estamos pouco à vontade, talvez seja um bom começo reconhecermos nosso embaraço. Uma introdução desse tipo pode ser útil: Para mim, não é fácil falar sobre sexo, mas não há razão para nos envergonharmos de sentimentos ou pensamentos sobre sexo — todo mundo os têm, Talvez eu tenha sido criado com idéias diferentes sobre esse tema, mas seria bom se nós dois pudéssemos discuti-lo”.

ORIENTAÇÃO SOBRE O COMPORTAMENTO SEXUAL

Alguns jovens deficientes se isolam das outras pessoas, talvez por se sentirem incapazes de ter relacionamentos “normais” ou por acreditarem que ninguém se importa com eles. É necessário incitá-los a se envolverem em atividades e a buscar companhia. Qualquer coisa que os faça sentirem-se bem em relação a si mesmos e mais à vontade com os outros ajudará — acampamentos, atividades criativas em conjunto (artes e artesanato), acompanhantes voluntários, tudo que possa promover uma sensação de realização e coletividade é aconselhável. A princípio podem-se organizar reuniões de grupos e discutir suas apreensões, de forma que saibam que seus sentimentos são experimentados por quase todo mundo. Os passeios, mesmo que discretamente impostos, podem ser um bom meio de desenvolver a capacidade de socialização.

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É também aconselhável deixar claro para o deficiente que algumas pessoas podem não se casar ou ter filhos por não considerarem essas atitudes apropriadas para elas, mas esse fato não impede que elas tenham amigos ou que levem uma vida social ativa.

Alguns jovens, deficientes ou não, passarão por experiências sexuais apesar das proibições da sociedade. A questão aí passa a ser se a melhor atitude é arriscar uma gravidez, proibir a ‘jovem as atividades socializadoras (ou permitir somente aquelas supervisionadas bem de perto), introduzir a filha a um método anticoncepcional (pílulas, dispositivo intra-uterino, injeções) ou preparar o filho para o uso de preservativos. Neste caso, a maturidade e a capacidade de compreensão do jovem devem ser consideradas; pode haver o risco da gravidez mesmo que não haja encontros ou festinhas. Caso exista a legítima preocupação de que o jovem vá “arranjar problemas” e a certeza de que o indivíduo não mudará sua atitude, então o controle anticoncepcional ou a esterilização podem reduzir a ameaça dos relacionamentos. É certamente impossível observar alguém a cada minuto do dia e a completa restrição das atividades do jovem irá privá-lo da estimulação física e mental necessária.

REITARDAMENTO MENTAL

Algumas pessoas apresentam um retardamento mental tão grave que não se pode esperar delas experiências sexuais sem a característica de exploração. Nesses casos, é aconselhável a ajuda de um profissional. Caso seja um consenso geral, a esterilização pode ser uma solução justa para a segurança e o bem-estar desses indivíduos. Alguns líderes humanitários e religiosos poderão levantar objeções morais a essa conduta, mas devemos ter em mente que alguns jovens retardados são incapazes de dizerem Não. Ninguém tem o direito de trazer ao mundo uma criança para uma vida de abuso, negligência e exploração.

Muitos deficientes mentais estão aptos e interessados no ato sexual, mas não conhecem tal mecanismo. Eles podem ser facilmente instruídos com o auxílio de fotografias e conversas descrevendo as posições e técnicas envolvidas. Não deve haver objeção moral a esse método, pois os manuais de casamento existem há muito tempo e são hoje bastante numerosos. A expressão saudável da sexualidade e o estabelecimento de um relacionamento de afeição e carinho podem representar a maior satisfação e experiência de aprendizado na vida de uma pessoa deficiente. Aqueles que afirmam que o deficiente mental não é capaz de ter relacionamentos e responsabilidades significativas não sabem do que estão falando.

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Através da paciência e da repetição, os deficientes mentais aprenderão o que precisam saber. Alguns pais, por exemplo, queixam-se de que os filhos retardados insistem em se expor ou se masturbar em público, o que pode causar constrangimentos aos pais e fazer com que outras crianças zombem de tal indivíduo. Contudo, qualquer criança capaz de usar o banheiro sozinha pode aprender a só se masturbar em um ambiente privado.

Como já mencionamos, um dos grandes temores que envolvem a sexualidade do deficiente mental é a sua vulnerabilidade. Como alguns deles são ingênuos e fazem o que quer que lhes seja pedido, podem ser facilmente explorados. Não é incomum que o indivíduo retardado, por falta de discernimento, seja usado sexualmente por outras crianças e adultos. Os deficientes mentais que têm experiências sexuais precoces ou irresponsáveis são aqueles que menos conhecem sobre valores e comportamento sexuais, concepção, contracepção e doenças venéreas. Podemos ajudar a evitar alguns incidentes ensinando a esses jovens o que devem esperar, o que está intimamente ligado à explicação de formas de expressão física apropriadas; devemos enfatizar o fato de que a prática do sexo com um estranho, um conhecido ou amigo não deve ocorrer, mesmo que a pessoa seja “boazinha”.



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