Os deficientes e seus pais



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O meu eu “dividido” estava começando a se unificar através de experiências verdadeiras e da consciência de que eu era uma pessoa real e de que, como tal, nem todos iriam gostar de mim ou me aceitar. As aulas do Dr. Buscáglia me ajudaram a finalmente perceber esse fato. Eu podia dizer “Vá para o inferno!” a algumas pessoas, em vez de tentar agradar a todos, tentando ser algo que eu não era. Já não precisava me sentir culpada por não ser quem eles gostariam ou por não atender às suas expectativas.

AONDE IR AGORA?... E OUTRAS COISAS MAIS

Depois de várias aulas de psicologia e educação especial, mudei minha especialização no último ano e recebi o grau de bacharel em psicologia do excepcional. Candidatei-me e fui aceita no Programa de Terapia de Reabilitação, onde comecei a lutar por um grau de mestre. Meu primeiro ano foi completado com uma ajuda de mil dólares da Escola de Educação e dois mil dólares em empréstimos, e com mais uma chance de provar quem eu sou o que posso realizar. Continuei a encontrar pessoas maravilhosas, abertas e receptivas, que me oferecem sugestões e ajuda quando necessário. O programa representa um desafio acadêmico para mim e me fez descobrir o prazer da observação pessoal e me modificar. Ensinou-me novas formas de interagir com as pessoas e comigo mesma.

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Eu ainda tenho anseios, temores, dúvidas. Ainda sou uma espécie de estranho na sociedade. Mas não quero mais saber de jogos de fingimento, visto que a única pessoa que eu sei ser sou eu mesma. Às vezes, essa é uma tarefa difícil. É preciso força psicológica, audácia, um amor muito grande pela vida e fé nas pessoas.

A solidão é algo com que estou começando a me acostumar; não procuro evitá-la com a frenética busca de amizades casuais. Estou percebendo que, no fundo, todos são sós. Como mulher, com a formação profissional terminada, vejo-me tendo meu próprio apartamento, mobiliando-o, realizando experiências culinárias, recebendo pessoas e me divertindo. Quero viajar. (Tudo isso, naturalmente, depois que pagar meus empréstimos e conseguir um emprego). Quero uma carreira. Quero ser uma mulher completa. Se chegar uma hora em que desejar filhos, adotá-los-ei, se for preciso. Casamento e filhos são alternativas não-planejadas. Quem sabe eu me torne uma escritora, conferencista ou viajante pelo mundo! A imprevisibilidade da vida, na minha opinião, deve ser apreciada e não questionada.

No que se refere aos meus desejos e objetivos, eles se encontram abertos ao futuro. Aprendi o caminho mais árduo. Não quero ter uma imagem específica do que eu deveria ser. Não me darei apenas uma alternativa. Tudo o que consegui até agora se deve em grande parte à minha receptividade ao futuro. Vejo a vida como um presente de Deus e o que eu faço com ela é o meu presente para Ele e para mim mesma. Milagre, para mim, é algo que eu crio com sonhos, esperanças e trabalho.

Para terminar, gostaria de dizer que eu não sou uma mártir, uma santa, um exemplo para as outras pessoas ou uma Helen Keller. Não desejo ser um exemplo para os outros porque acredito que todos devam desenvolver-se e descobrir quem são por si sós. Não culpo ninguém por tudo que passei. Continuarei a tentar conscientizar as pessoas sobre algumas das dificuldades que se encontram quando se é diferente, de forma que aqueles que não são tão cabeças-duras e teimosos como eu possam ter uma chance.

No fim das contas, tudo se resume na minha aceitação de mim mesma com um sorriso. É como a audácia despreocupada de experimentar, de colocar um canudinho na taça de vinho e sorrir!

A meus pais e a você, leitor, deixo-lhes isso...

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Meus obstáculos não são obstáculos.



Talvez, às vezes sejam pedras soltas.

Mas você pode se recuperar de uma queda,

E transformar aquela pedra em degrau.

Todos podem fazer isso se sobreviverem

E forem capazes de reunir resistência e força emocional,

Superando os ferimentos das primeiras quedas.


Há algumas piores do que as outras,

No sentido de que é necessário um tempo maior para se erguer.

O importante é que as quedas fazem parte da vida,

E, portanto, se me machucar, posso xingar,

Tratando-as como o que são — VIDA.
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CYNTIIIA DICKINSON pode não enxergar perfeitamente, mas tem muita “visão”. Eu não a conheço muito bem, mas todas as vezes em que a encontrei fiquei impressionado com seu profundo desejo de se realizar, de não aceitar limites que a impeçam de atingir esse objetivo. A força, perseverança e vontade férrea combinam-se para formar esse ser humano muito especial. Ela tem muito a compartilhar

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Aprender, fazer, experimentar, desfrutar


Nenhuma criança nasce com a consciência de que é cega. Eu também não nasci. Conheci e brinquei com crianças da tinha idade, as quais, eu suponho, tinham conhecimento desse fato: (Lembro-me de um amiguinho que me deu uma folha de carvalho e sugeriu que a comesse!) Mas eu tinha visão suficiente para brincar ocasionalmente com livros de colorir e para desenhar, e podia distinguir as cores escuras das claras, embora não pudesse diferenciá-las entre si.

Meu pai era mestrando da Universidade do Texas e lembro-me de quanto eu ansiava por chegar à idade de ir para a escola também. Finalmente o dia esperado chegou e minha primeira professora começou a me ensinar Braille. Achei tudo muito desconcertante e perguntava quando é que ela começaria a me ensinar a ler as páginas datilografadas de papai, pois eu queria muito saber o que ele tinha a dizer ali.

A consciência de que eu não era exatamente igual às outras pessoas me veio aos poucos e não foi absorvida por completo até por volta talvez dos treze anos. Para as pessoas totalmente cegas, eu imagino que a conscientização de que se é diferente dos outros membros da família seja alcançada em uma idade bem mais precoce. Os indivíduos que possuem uma visão parcial tomam consciência desse fato bem mais tarde. Uma de minhas amigas com essa deficiência afirma que ainda se encontra no processo de aprendizagem sobre suas limitações — nos dois anos que se encontra na universidade, já mudou de área meia dúzia de vezes! Em certa ocasião ela queria muito se tornar uma fisioterapeuta, mas o chefe do departamento disse que não sabia se ela seria capaz de dizer quando um paciente estivesse caindo da cama. Até aqui, a cegueira ainda não serviu de obstáculo a nada que eu quisesse fazer. (Naturalmente às vezes tenho de mudar de opinião a respeito do que quero fazer!).

A cegueira em si não representa limitações intransponíveis, embora, para mim, uma das coisas mais tristes é o fato de as pessoas pensarem em você como cego antes de pensarem qualquer outra coisa. Se você tem pais dispostos a olhar além da cegueira e fazer um grande investimento — em termos de tempo, e não de dinheiro —, então vocês podem conseguir resultados fabulosos!

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Fico muito feliz que meus pais tenham se recusado a me confinar em um cercadinho para bebês, pressentindo que os perigos de eu andar pela casa são bem menores do que a privação da liberdade de aprender através de erros e acertos. Meus tropeções e ferimentos não eram muito mais numerosos que os de meu irmão e de minhas irmãs. E, na verdade uma criança sem problemas de visão pode absorver muito do que se encontra ao seu redor, quando está em um cercadinho ou berço o que não acontece com a criança cega.



Assim, as experiências, no maior número possível, são de valor inestimável para a criança portadora de deficiência visual. Lembro-me bastante bem de uma casinha de bonecas que me ajudou com o sentido do tato; de mamãe lendo os livros diversas vezes até eu conhecê-los de cor; de louças, fogão e geladeira de brinquedo; do meu carrinho favorito que me diziam ser azul; de quebra-cabeças com grandes peças; de conjuntos de contas em um fio; brinquedos de montar. Você pode imaginar com que carinho eu guardo essas lembranças pré-escolares!

Meu pai também providenciava para que houvesse aventuras fora de casa — catar conchas na praia, subir montanhas no Texas, visitar as cavernas Carlsbad. (Acho que seria maravilhoso ser um guia naquelas cavernas adoráveis, frescas e escuras).

A escola abriu muitas portas. Foi nessa época que mamãe começou a ler o que não se encontrava disponível em Braille, um hábito que continuou através dos anos, enquanto papai era uma grande ajuda em matemática. E havia os passeios com objetivos definidos. Lembro-me de um certo dia quando fomos a uma exposição no museu em que cada obra de arte tinha o seu nome escrito em Braille e podíamos tocá-las. Suspeito que em muitos lugares que visitávamos houvesse placas de “Não toque”, mas, felizmente, essa é uma das vantagens de ser cego!

Meus pais têm sido excelentes em oferecer não só experiências de aprendizagem, mas também os instrumentos. Eu nada poderia fazer sem a máquina de datilografar em Braille, a máquina comum, o gravador e o estilete para tomar notas em aula. Esses instrumentos são meus meios de comunicação, não apenas comigo mesma, mas também com o mundo.

Outro “instrumento” indispensável é a bengala. De início, rejeitei a idéia de usar uma bengala, achando que estaria perdendo minha dignidade e individualidade. Porém, um dos meus instrutores em um curso de treinamento de verão insistiu gentilmente para que eu a usasse, ressaltando o perigo das rachaduras, saliências e meios-fios e me assegurando de que a minha velocidade de locomoção aumentaria bastante.

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Ele estava certo. Agora uso a bengala nas ruas, mas em geral posso me locomover em ambientes fechados sem ela. Contudo, sempre a carrego na fila da lanchonete da universidade, pois assim me dizem logo quais são as especialidades do dia! Tenho um amigo cego que se beneficiaria com o uso da bengala. Ele criou um sistema de bater palmas como meio de atravessar recintos amplos, utilizando-se do eco para avisá-lo dos obstáculos. Sei disso porque ouvi suas palmas um segundo antes que ele me desse um encontrão um dia desses. As pessoas cegas, porém, enfrentam o problema da mobilidade de diferentes maneiras. Algumas gostam de explorar, e eu sou uma dessas! Em geral evito ir a um lugar totalmente estranho sem um propósito definido, pois, se me encontro em dificuldades e alguém, desejando ajudar-me pergunta aonde estou indo, sinto-me uma tola se não tenho a resposta! Caso eu esteja completamente perdida (o que não acontece com muita freqüência), não me importo de perguntar onde estou, embora se aquele tiver sido um dia muito frustrante, eu possa acabar chorando (o que também não é muito comum). E, embora em minha opinião a independência signifique provar para mim mesma que sou capaz de fazer algo sozinha, na universidade gosto de andar na companhia de alguém, se tiver certeza de que essa pessoa vai na mesma direção que eu. Não quero que ninguém saia do seu caminho por minha causa, mas gosto de conhecer pessoas e acho que elas podem aprender algo comigo. É extremamente importante, por exemplo, que as pessoas não pensem que eu considero minha deficiência uma tragédia e sempre é agradável quando alguém, que não os amigos íntimos, é capaz de aceitar a sua cegueira sem dramas.

O cuidado pessoal constitui um problema a respeito do qual os cegos não podem fazer muita coisa. Lembro-me de um livro sobre uma mulher que ficou cega já na idade adulta. Ela foi a uma festa com um sapato preto e o outro branco e ninguém lhe comunicou esse fato. Posso compreender o seu embaraço. É preferível tomar conhecimento por ocasião do problema do que descobrir mais tarde e ficar se perguntando, angustiado: “Por que ninguém me avisou?” Isso também se aplica a manchas, buracos e rasgões, embora eu às vezes pense que as pessoas não se olham de qualquer forma! Ainda assim, quero que as pessoas me digam se o laço do meu cabelo não combinar com a roupa ou se o batom estiver borrado!

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Atualmente, minha mãe e minha irmã me ajudam na escolha das roupas, o que resolve essa questão, embora seja um martírio quando as duas não concordam. Em uma de minhas tiras de quadrinhos preferidas, um comerciante telefona para o irmão e diz: “Finalmente vendi aquela roupa cor de laranja iridescente”. O irmão replica: “Ótimo, irei já para aí”. Quando chega, encontra o comerciante em um péssimo estado — amassado e machucado, com as roupas em farrapos. “O que foi que aconteceu?”, pergunta o irmão. “Ah”, replica o comerciante penosamente, “o comprador era cego e o seu cão de guia não gostou da roupa”.



Sob quase todos os aspectos, um cego pode cuidar de uma casa tão bem como qualquer outra pessoa. Deus do céu, a poeira é facilmente identificável ao toque. Devo admitir que minha vida tem estado tão cheia de outras coisas que eu ainda não me dediquei muito à cozinha, embora recorde um dia em que uma amiga e eu confundimos o fermento em pó com o bicarbonato de sódio e o bolo de banana acabou ficando solado!

Alguns de meus amigos cegos acham que eu sou teimosa, particularmente, eu não admiro as pessoas que usam a cegueira como desculpa para fugir ao que não querem fazer. Por exemplo, sempre detestei as aulas de educação física, mas penei durante os três semestres em que tive essas aulas na faculdade. Em retrospecto, lembro-me de ter me perdido várias vezes a caminho dessas aulas e me pergunto se não terá sido meu subconsciente o culpado. Devido ao meu grande interesse por línguas estrangeiras (alemão e russo), fico muito impaciente com as pessoas que usam a cegueira para evitar essa área fascinante. A deficiência visual não diminui a aptidão do indivíduo para a linguagem — muito pelo contrário. A percepção que os cegos instintivamente cultivam em relação à pala falada pode ser uma vantagem. Com franqueza, eu às vezes penso que meus amigos cegos que escolheram o meio mais fácil e escaparam do departamento de línguas estrangeiras são apenas preguiçosos.

Devo também mencionar um outro motivo de irritação, senão de verdadeiro ódio! Fico de fato muito zangada com os arquitetos modernos. Se raiva matasse, eles já estariam extintos! Grandiosos exemplos da moderna arquitetura abundam nos campi universitários, projetados por inconseqüentes possuidores de duas boas pernas e dois bons olhos e que nunca tiveram de considerar a mecânica de se locomover de um lugar a outro. Eu queria que todos os arquitetos que projetaram edifícios circulares tentassem explorá-los com os olhos vendados. Não é nada engraçado.

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E a acústica moderna é tão desnorteante quanto a arquitetura. Já me sentei no centro de salas imensas, sem poder distinguir pelo som em que direção estava o palco.

A individualidade é muito importante para mim, embora eu tenha me dado conta de que vivo e devo atuar em um mundo destinado basicamente àqueles que têm visão. No entanto, tenho consciência de que a opinião que o mundo tiver de mim como indivíduo será sem dúvida transferida para toda a comunidade de deficientes visuais, pela qual sinto uma grande responsabilidade. Se, de fato, eu possuo limitações, então devo identificá-las através da experiência. Ninguém deve querer me dizer o que posso ou não fazer. Se as limitações existem, eu aprenderei a viver em paz com elas. Sentir pena de si mesmo não ajuda em nada, e vejo isso como uma perda de tempo, quando há tanto no mundo para se aprender, experimentar, fazer e desfrutar.

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Vim a conhecer JENNIE PARKER através de uma carta que ela me enviou há vários anos, depois de assistir a uma conferência que fiz no Texas. Nessa carta ela expressava grande confusão, sofrimento e perplexidade, e por toda ela transparecia uma falta de direção. Jennie não tinha nenhuma idéia de “para onde ir”. Respondi a carta imediatamente, sugerindo, entre outras coisas, que ela começasse a ajudar outras pessoas com problemas semelhantes ao dela, pois com certeza possuía um profundo conhecimento de suas necessidades, problemas e frustrações. Isso resultou em seu trabalho voluntário junto a crianças com deficiências de aprendizagem.



Anos mais tarde, quando voltei ao Texas, finalmente encontrei Jennie. Ela agora era uma mulher jovem, bonita, sensível e digna. Não houve necessidade de preliminares. Houve uma integração instantânea entre nós, pois de muitas maneiras havíamos nos ajudado a crescer.

Pedi-lhe que escrevesse sua história, na esperança de que esta lhe ajude tanto quanto me ajudou.

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Para Compreender



São muitos os obstáculos que as pessoas deficientes devem enfrentar. Elas precisam aprender a lidar com os problemas, com as pessoas e com a vida, como todos que desejam construir um bom futuro para si mesmos. Para o deficiente, essa adaptação é muito mais difícil e pode trazer muitas frustrações. Eu, como tantos outros portadores de deficiências, conheço os sentimentos de frustração, rejeição e a luta por que o indivíduo tem de passar a fim de superar a sua deficiência, qualquer que seja o grau desta.

Aos seis anos de idade, fui diagnosticada como vítima de convulsões psicomotoras, causadas por encefalite. O dano inicial ao cérebro foi aos onze meses de idade, quando tive duas convulsões que duraram uma hora e meia cada. Eu tivera uma infecção na garganta que atingira o cérebro, deixando ali uma cicatriz permanente. Assim, quando descargas ou impulsos elétricos ficavam muito ativos próximo à cicatriz, um ataque era provocado.

Tenho agora 21 anos de idade e estou no primeiro ano da faculdade. Há quinze anos sofro ataques epiléticos. Muitas pessoas vêem a epilepsia como algo assustador, principalmente porque não na saem na realidade o que é essa doença. O fato de já ter ouvido falar dela não quer dizer que se compreenda como ela funciona. É com essa questão que eu tenho me defrontado todos os dias de minha vida. É necessário que as pessoas compreendam que existem vários tipos de epilepsia. Aqueles que nunca tiveram contato com a doença talvez não estejam cientes desse fato. Tem sido dada tamanha ênfase à epilepsia idiopática através de livros, televisão e outros meios, que muitas pessoas vivem em completa ignorância da existência de outros tipos de ataques epiléticos. O meu caso é um desses exemplos. Sofro de ataques psicomotores, quando fico inconsciente, “apago” apenas por um minuto ou dois. Não recebo nenhum aviso de que vou ter um ataque, ao contrário de muitos daqueles que sofrem outros tipos de convulsões. Meus ataques ocorrem de forma irregular. Nunca sei quando, ou se vou ter um ataque. Experimento uma espécie de aura, o que produz um estado de confusão momentâneo. Tudo fica difuso e escuro. Eu posso querer falar, mas não consigo. As pessoas e as coisas parecem distantes. Esse estado dura alguns minutos e então eu volto à “consciência”.

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Depois de recuperada, sinto um forte desejo de dormir, o que, naturalmente, representa um problema, pois o ataque pode ocorrer em qualquer lugar — em uma festa, durante as aulas ou enquanto converso com as pessoas. Dormir é às vezes impossível; assim, desenvolvi um método de me manter desperta: balanço a cabeça de um lado para o outro, dou tapinhas em minhas pernas e tento me concentrar de novo no que está sendo dito ou no que estou fazendo. Isso não é uma coisa fácil e às vezes não funciona. Esse problema tem sido muito difícil para mim.

Durante meus ataques psicomotores, experimento também aguçada percepção auditiva e olfativa. Às vezes, ouço palavras ou sons “estranhos”. Posso estar olhando diretamente para a pessoa com quem converso e, de súbito, ouço uma linguagem confusa e não consigo distinguir o que está sendo dito. Esse fenômeno é sempre muito embaraçoso e frustrante. Quando comecei a ter essas experiências, perguntava-me se estava ficando maluca. Descobri com o meu neurologista que esses eram sintomas que ele ouvia os clientes relatarem com certa freqüência e que eram devidos ao tipo de distúrbio cerebral específico. Como nada havia que eu pudesse fazer a respeito, aprendi a aceitar o fato, rir com ele e não deixá-lo me perturbar.

Costumava ouvir uma estação de rádio popular com muita freqüência. Um anúncio, repetido muitas vezes durante a programação, dizia o seguinte: “KILT... 610 em Houston”. Esse anúncio era musicado com uma melodia fácil de lembrar e “ficou” na minha cabeça. Nos momentos mais estranhos possíveis, sem aviso, a melodia se repetia, em alto e bom som, no meu cérebro. Eu estava falando com minha mãe na cozinha e continuava ouvindo a melodia. Você pode imaginar como é difícil pensar, falar e ouvir as respostas das outras pessoas, com uma melodia atormentando-o. Esse fenômeno é também conseqüência do meu tipo de epilepsia. Tenho tentado resolver esse problema contando ao meu interlocutor exatamente o que está se passando. Aprendi a perceber se a pessoa será compreensiva ou se terá uma reação de rejeição. Adquiri essa capacidade de percepção através de muitas experiências humilhantes. Agora sei que existem aquelas pessoas às quais não posso falar, pois desta forma me rejeitarão. Racionalmente sei também que nem sempre é a mim que rejeitam, mas sim ao meu problema, o qual elas temem e não compreendem. Posso entender esse fato; sei que se preocupam com questões tais como: “O que faço se ela tiver um ataque?” “O Que ela fará” “O que ela quer dizer com ataques psicomotores?” “Há risco de vida para ela?” Não é de admirar que sintam medo ou rejeição por mim. Mas o fato de me evitarem não faz com que eu me sinta melhor.

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Há certas ocasiões em que também meu aguçado olfato me prega peças. Muitas vezes entrei em casa e perguntei à minha mãe: “Que cheiro estranho é este?” “Não sinto cheiro algum”, era sua resposta. Eu estava certa de ter sentido um aroma diferente e, após alguns minutos refazendo meu trajeto na casa, tornava-se evidente que o cheiro não mais estava lá. Esse fenômeno incomum pode ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar e me deixa realmente nervosa. Algumas vezes meus amigos íntimos observam: “Jennie, você e suas melodias misteriosas e estranhos odores. Isso é pura loucura!” Agora posso rir dessas coisas, mas enquanto crescia não podia. Elas me magoavam muito; faziam com que me sentisse diferente.

Além da percepção auditiva e olfativa aguçadas, há o problema da coordenação motora. Durante os ataques psicomotores, uma parte de meu corpo está sempre em movimento. Por exemplo, muitas vezes na sala de aula, me recobro de um ataque e vejo que rabisquei todas as minhas anotações. Às vezes, seguro em minhas roupas ou outros objetos ao meu alcance e fico como que brincando com eles. Certa ocasião fui visitar um amigo em Kentucky e me encontrava no avião, de volta para casa. Aterrissamos no Aeroporto Intercontinental de Houston; enquanto esperava no corredor para descer do avião, deixei a bolsa cair. Naquele momento, sofri um ataque e tentava pegar a bolsa no chão à minha frente. Quando “voltei a mim”, encontrei-me ajoelhada no chão, tentando alcançar a bolsa. Pensei comigo mesma: “Que diabos estou fazendo aqui no chão?” Não tinha lembrança de ter me ajoelhado. Foi aí que vi a bolsa e só então percebi que sofrera um ataque. Senti-me muito constrangida. Um homem à frente me perguntava o que havia de errado. O que você faz ou diz em uma situação dessas? Eu não podia falar, pois ainda me encontrava em um estado de pura confusão. Sentia-me perdida, amedrontada e indefesa! Por fim, consegui apanhar a bolsa, como se tivesse acabado de deixá-la cair. Veja bem, eu não poderia simplesmente dizer: “Bem, meu senhor, sofro ataques psicomotores e o senhor é um homem de sorte, pois acabou de presenciar um deles”.

Em muitas situações, eu devo fazer-me de atriz e pensar rápido, no mesmo instante! Se o ataque é óbvio e perceptível, invento desculpas tais como: “Sou muito desajeitada!” ou “Estou sempre deixando as coisas caírem” e sorrio. Parece que isso funciona.

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Também posso emitir sons ininteligíveis durante os ataques, o que não ocorre com freqüência, mas quando ocorre, minha fala é tão confusa que ninguém pode compreender o que digo. Como, naturalmente, nesses momentos não posso me ouvir, também não posso descrever tal fenômeno com precisão. A única razão por que tomo conhecimento dele é porque as pessoas me perguntam: “O que você estava tentando dizer?” Caso a pessoa saiba que sofro esses ataques ela dirá: “Você teve um ataque. Sei disso porque você não me ouvia e falava de uma forma estranha”. Certa vez falava com uma amiga ao telefone e tive um desses ataques. Desliguei o telefone imediatamente e liguei para ela outra vez após me recuperar.

Ela me disse que eu havia falado a palavra “crocodilo” antes de desligar e que ela pensara: “Nossa, essa menina é maluca!” A conversa nada tinha a ver com crocodilos. Eu já lhe falara de meus ataques, mas ela nunca presenciara um deles. Mais tarde, quase morremos de rir da coisa toda. Agora, quando uma pessoa assiste algum de meus ataques, sento-me com ela e lhe digo com franqueza que sou epilética. Em geral, ao ouvirem a palavra “epilepsia”, capto vários tipos de vibrações emitidas por essas pessoas. Algumas vezes elas trazem amor, simpatia e compreensão; outras, medo, curiosidade e rejeição. (Talvez eu sentisse o mesmo se estivesse no lugar delas.) Aprendi a tentar explicar meu problema de uma forma jocosa, o que é mais fácil, pois tudo fica mais leve quando se pode rir da situação. Conto algumas das coisas engraçadas que já me aconteceram graças aos ataques, como por exemplo, a ocasião em que comi a ração do cachorro quando me preparava para servi-la a ele. Ah, que gosto horrível! Bem, esse método parece fazer com que a outra pessoa se sinta mais relaxada e não tão temerosa. Essa é uma tarefa difícil, pois devo rir e falar alegremente da epilepsia, que para mim não é um motivo para piadas. Rio porque sei que as lágrimas ou a autopiedade só servem para afastar as pessoas de mim. Acho que essa regra se aplica a quase todo mundo. Aprendi isso através da experiência, pelo caminho mais difícil.



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