Os anjos existem



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OS ANJOS EXISTEM?
Antônio Mesquita Galvão

Ed. Vozes, 1994 (2ª. edição)

Ed. Lúmen (Buenos Aires), 1995 – em espanhol

Dedicatória

Dedico este livro aos meus queridos filhos


ANA MARIA e SÉRGIO RICARDO
recordando os momentos da infância deles,

quando à noite, junto à cama,

orávamos o “Santo Anjo do Senhor”.
Canoas, RS -1993.

O anúncio

O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava, e disse: “Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está com você!” Ouvindo isso, Maria ficou preocupada, e perguntava a si mesma o que a saudação queria dizer. O anjo disse: “Não tenha medo, Maria, porque você encontrou graça diante de Deus. Eis que você vai ficar grávida, terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor dará a ele o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó. E o seu reino não terá fim”. Maria perguntou ao anjo: “Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?” O anjo respondeu: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus. Olhe a sua parenta Isabel: apesar da sua velhice, ela concebeu um filho. Aquela que era considerada estéril, já faz seis meses que está grávida. Para Deus nada é impossível”. Maria disse: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo a deixou.

(Lc 1,26-38).

SUMÁRIO

Introdução

I Quem são os anjos?

1. Natureza e função

2. O nome dos anjos

3. Os anjos na arte

4. O ensinamento da Igreja

5. Na liturgia
II Os anjos na Bíblia


  1. No Antigo Testamento

    1. O anjo de Javé

    2. O anjo exterminador

    3. Mensageiro e servidor

    4. Aquele que protege

  2. No Novo Testamento

    1. Jesus e os anjos

    2. Na anunciação

    3. Mistério da salvação

    4. Juízo final

    5. No Apocalipse

    6. Nas literaturas apócrifas

III Outras teorias sobre anjos



  1. No platonismo

  2. Teorias esotéricas

  3. No espiritismo

  4. Hierarquia celeste

  5. No Catecismo da Igreja

IV Os anjos caídos



  1. O pecado dos anjos

  2. Potências sobrenaturais

  3. Demonologia

V Os mensageiros de Deus

1. Os papas e os anjos

2. Literatura cristã a respeito dos anjos

2.1 Natureza

2.2 Tarefas dos anjos

2.3 Grupos de anjos

2.4 Nomes dos anjos

3. Ligação


  1. Os anjos existem!

  2. A ladainha dos Santos Anjos



BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

INTRODUÇÃO

Hoje o mundo dos leigos, ditos seculares, descobriu e adentrou ousadamente em terrenos por onde até então só trafegavam místicos, teólogos e pensadores religiosos: o mundo espiritual.


O modismo do ocultismo esotérico, os avanços da parapsicologia, os equívocos do psicologismo pós-freudiano, as teorias sobre UFOs e vida inteligente em outras galáxias, as descobertas das experiências psíquicas, algumas derivadas dos delírios das drogas, o culto das filosofias orientais, a chamada “meditação transcendental” , e a procura de experiências místicas cada vez mais fortes e profundas, indo até os rituais satânicos, tudo isso tem levado o homem ao estudo, nem sempre coerente, acadêmico e racional das ciências espirituais, onde se ressaltam as figuras dos anjos, dos demônios e de outros seres sobrenaturais.
O que antes era vedado à pesquisa secular, hoje é invadido pela livre especulação. E o pior: cada ramo de pesquisa, cada escola, cada tendência ou grupo religioso cria suas leis e dita cátedra, transitando muitas vezes por “achismos” ou evidências empíricas, em geral ao arrepio das fontes mais ortodoxas, como a teologia, a ciência bíblica e as literaturas judaico-cristãs paralelas.
Via-de-regra, esses estudos que se distanciam das bases reais, não se inspiram em textos próprios e, como conclusão, resultam em ciências falsas, em cultos híbridos e em superstições sem a mínima base, científica, lógica ou teo-lógica e, assim, vulneráveis à mais tênue investigação.
A culpa disto reside, em parte, no fato de não existirem hoje muitas obras sobre angelologia (a parte da teologia que estuda os anjos). Nossos sistemas de ensino ou cursos de teologia no Brasil, não tem tratados sugestivos sobre os anjos O lugar dos anjos na vida católica vem sendo cada vez mais reduzido, folclorizado e conduzido aos equívocos da superstição. Em termos de catequese das crianças então nem se fala! Isto sem citar quando os catequizandos não ficam expostos às tendências esotéricas de algum(a)s catequistas.
Em termos gerais, infelizmente, o aprofundamento teológico da fé no mistério dos anjos não realizou grandes progressos desde o fim da era escolástica (século XVI). Os teólogos se preocupam mais com a teologia social (relação Deus-homem), vivendo-se uma era mais cristocêntrica, diminuiu a adoração ao Espírito Santo (a Renovação Carismática tenta revivê-la), a devoção aos anjos e santos, e mesmo à Virgem Maria não tem a ressonância na devoção popular de algumas décadas passadas. Dentro deste contexto, destacamos:


  • A diminuição do interesse e frequência à missa – as antigas tradições católicas ensinavam que os anjos assistiam à missa e, após seu término, “voavam para Deus a fim de levar nossas orações...”;

  • O ceticismo, o racionalismo e o neopsicologismo obscureceram o estudo e a devoção dos anjos;

  • A devoção mariana do século XIX e início do século XX fez diminuir o culto outrora prestado aos anjos;

  • Como hierarquicamente os anjos são simples serviçais de Deus, a mentalidade pragmática do homem moderno imagina que atento à Revelação e sob a Providência pode prescindir da presença e da proteção dos anjos.

O clássico quadro das crianças passando por uma ponte com as tábuas soltas, sobre um rio caudaloso, protegidas pela figura de um anjo com as asas abertas, hoje pertence às imagens do passado e das recordações de infância. No sentimento e na concepção moderna, os anjos se tornaram seres relegados mais ao âmbito da lenda e da fantasia infantil.


Na verdade, como dissemos, existem muito poucas literaturas sérias a respeito dos anjos. E esse foi um dos motivos deste livro: primeiro pela inexistência de bons livros de angelologia em português, e, segundo, por acreditar serem os anjos criaturas de Deus, encarregadas por ele de zelar por nós e nos conduzir ao Reino dos céus. A maioria das obras que se encontra por aí, por incrível que possa parecer, mistura estudos de anjos e demônios, e acaba falando mais nos últimos que nos primeiros.
A teologia referente aos anjos é pouco difundida entre os meios cristãos. São raras as casas de formação que tem a angelologia entre seus currículos. É uma pena, pois se trata de uma irrefutável realidade espiritual, capaz de ajudar os fiéis a enfrentar com mais coragem, serenidade e fé os sofrimentos, as dores, as incertezas e as provas que a vida nos impõe a cada dia. E, ao mesmo tempo, ajuda a intuir a maravilhosa beleza da vida que nos espera no futuro. Os anjos são mensageiros de Deus! Nas páginas deste trabalho vamos discorrer sobre essa realidade.
Os anjos são uma realidade bíblica. Há citações sobre eles desde o Livro do Gênese (3,24) até o Apocalipse (22,16). Sua atividade protetora é relatada em, praticamente, todos os livros das Sagradas Escrituras, em quase trezentas passagens, 110 no Antigo Testamento e 168 no Novo.

Oremos ao Espírito Santo de Deus para que nos dê o entendimento a fim de penetramos nesse mistério.

O Autor.


I QUEM SÃO OS ANJOS

1. Natureza e função

Anjo é o nome dado aos seres espirituais, cuja função é a de serem mensageiros, enviados por Deus. A palavra anjo é originária do hebraico “mal’ak” que nos LXX traduziram por ángelos,  = mensageiro, que pela vulgata foi traduzida para o latim como angelus, chegando até nós como anjo.


A angelologia, como ciência teológica que estuda os anjos, difundiu-se a partir da Idade Media. Como natureza, podemos dizer que os anjos são seres espirituais, supra-terrestres, sobrenaturais, criados por Deus para determinadas funções. Essas funções são, basicamente de servir de mensageiros e pontos de ligação entre o mundo invisível e o visível.
Os anjos estão a serviço de Deus e – por determinação deste- também a serviço dos homens 1.
Diversas culturas e religiões conhecem espíritos da natureza ou seres supra-humanos, semideuses ou demiurgos. O anjo como espírito, mensageiro e serviçal, é uma exclusividade das culturas judaico-cristãs e das religiões influenciadas por estas, entre elas o islamismo.
Os espíritos puros, orientados para Deus, em virtude da sua essência, não são seres petrificados em um ato de adoração muda. Sua essência peculiar vai mais além do mover-se e agitar asas, conforme a narração de Isaías (cf. 6,3), rica em simbolismos e plástica. Encarregados de zelar pelo bem-estar dos homens, eles também vigiam as investidas do maligno e se perfilam diante do trono de Deus, louvando-o com hinos de glória e majestade 2.

A melhor definição de anjos talvez seja a de São Paulo, contida na Carta aos Hebreus:


São espíritos encarregados para um serviço, enviados àqueles que deverão herdar a salvação (Hb 1,14).
A teologia escolástica afirmava serem os anjos os mediadores, subordinados a Deus a serviço de Cristo. Indagado sobre os anjos, assim se manifestou Monsenhor Giuseppe Del Ton, uma das maiores autoridades em angelologia:
Como são os anjos?
São seres espirituais, inteligentíssimos, dotados de personalidades distintas, que tem consciência de suas realidades e missões;
Qual a forma dos anos?

Sua forma corpórea é uma questão controvertida entre os teólogos. São Gregório de Nazianzo afirmou que eles são seres espirituais, mas que para cumprir missões de Deus, podem assumir formas visíveis;


O que os anjos podem fazer a nosso favor?
A rigor tudo! Sendo bons, inteligentes, poderosos e cientes do plano de Deus para os homens, eles podem nos auxiliar nesta vida a buscar a salvação eterna;
Quantos são os anjos do céu?
Incontáveis! São tantos quantos necessários para os projetos de Deus. As Sagradas Escrituras afirmam, em sua linguagem simbólica, serem 1.000 milhares (Livro de Daniel) ou doze legiões (Evangelhos). Sabe-se que o número de anjos é superior ao número de homens 3.
No Concílio de Latrão (1215) foi definida claramente a existência dos anjos, ao afirmar que Deus criou duas espécies de seres: os espirituais (os anjos) e os corporais (os homens e os animais), reafirmando assim na carta de São Paulo aos Colossenses onde é afirmado terem sido criações de Deus “todas as coisas visíveis e invisíveis”, e apresenta a hierarquia angélica. O apóstolo conclui: “Tudo foi criado por Ele e para Ele” (cf. Cl 1,16).
Nada nos impede de admitir que a angelologia bíblica e cristã dos primeiros séculos foi influenciada em parte por doutrinas similares, assiro-babilônicas e irânicas. Deve-se observar que as idéias extra-bíblicas relativas aos anjos, soa derivadas de uma revelação original, que se mesclou no transcurso do tempo com especulações míticas, superstições e fantasias. O crente sem o necessário aporte de uma catequese eficaz cai, muitas vezes, no subjetivismo de alguns erros, em geral de corte esotérico, que desfiguram o conteúdo original da doutrina dos anjos, esquecendo, deste modo, a fé que lhe foi revelada.
No panteão irano-mesopotâmico há um ser sobrenatural, híbrido, com patas de leão, asas de águia e corpo de guerreiro, chamado, no acádico de kari-buh. Ora, esse karibú das culturas dominadoras pode ter gerado na literatura judaico-palestinense do tempo do exílio e do pós-exílio, a figura e a idéia do querubim, considerando-se a época em que apareceu essa expressão entre o povo judeu.
Também entre os teólogos protestantes não são raras as afirmações a respeito das realidades angélicas. Há significativos textos que falam da natureza e função dos anjos em escritos de Karl Barth († 1968), John Wesley († 1791) e do conhecido pregador batista norte-americano Billy Graham.
É provável, como afirmou são Boaventura († 1274), que muitos dos nossos dons espirituais tenham sido mediados pelos anjos. Também é possível que o sucesso dos santos tenha tido realmente esse motivo, que aprenderam a ceder e compreender através dos seus guias angelicais, que lhes foram dados por Deus, com o propósito de ajudá-los a cumprir suas respectivas missões. É curioso que hoje, até a moderna exegese luterana, que sempre se manifestou tão fundamentalista à exclusiva mediação de Cristo (cf. 1Tm 2,5), passa a reconhecer vestígios da intervenção dos anjos no plano da salvação.

Além da natureza espiritual e função de mensageiros, se encontra a expressão anjos na linguagem figurada para exprimir o profeta, o pregador e até os bispos das igrejas. Este uso aparece nas Escrituras e nas literaturas cristãs.


Na arte e na literatura dos últimos séculos, os anjos tem aparecido, transformados em seres etéreos e, com frequência, de natureza ambígua. A arte e as letras românticas geralmente desvirtuam a figura do anjo como ser espiritual e mensageiro. É como escreve o teólogo RomanO gUARDINI:
Sua imagem está se desviando do amplamente belo, até a sensibilidade e o sentimentalismo, havendo sido diminuídos para falar as ambigüidades do barroco e do rococó, e em especial a indústria dos objetos religiosos 4.
Os anjos são seres espirituais dotados de grande poder, que são enviados como ministros de Deus aos eleitos. Porém, tal como sucede aos contatos espirituais de qualquer sorte, a participação apropriada no ministério dos anjos, na existência terrena, depende muitíssimo da abertura espiritual dos crentes, da sua percepção mística e santidade de vida.
Os anjos são mensageiros de Deus, enviados com propósitos especiais, e ministram na vida dos crentes, sob as ordens do Senhor, as orientações do Espírito Santo 5.
A Bíblia está repleta de relatos das atividades dos anjos em cumprimento aos desígnios de Deus, tanto no Antigo como no Novo Testamento, conforme teremos oportunidade de ver no capítulo seguinte.
Com frequência se fala no AT nos anjos de Deus, confundindo o anjo com o próprio Deus. Esses relatos são bem precisos em Gn 18 (os três homens que apareceram a Abraão), em Ex 8 (o episódio da sarça ardente, com Moisés), e em Jz 6,11-18 (com Gedeão). Nesses casos, parece que o estilo de literatura revela uma certa ilusão dos personagens, pois, segundo as antigas tradições literárias judaicas, o mensageiro, ao anunciar a mensagem, em nome de quem a enviou, usa sempre a primeira pessoa do singular, repetindo a palavra do Senhor. Nos textos bíblicos citados, é o anjo quem aparece e fala, de tal modo que sugere ser Deus quem está falando.
Entretanto, em Gn 32,22-32 não fica claro se é o anjo a serviço de Deus ou é o próprio Deus, enquanto Jacó na solidão da noite, espera com temor e terror o encontro com seu irmão Esaú, é atacado por um homem. Os dois lutam até a madrugada. O misterioso inimigo não pode vencer a Jacó, nem sequer pode se livrar dele. Não obstante, com um pequeno movimento de mão paralisa Jacó. Este lhe pergunta quem é, sem obter resposta alguma, dando a Jacó um nome novo: “Não te chamarás mais Jacó, mas Israel, porque lutaste com Deus, e venceste”. Assim, pois, neste caso, o anjo do Senhor é o próprio Deus a intervir diretamente na história humana, dando-lhe forma e estrutura.
As heresias gnósticas dos primeiros séculos desvirtuaram a natureza e a função dos anjos. No origenismo (séc. III-IV dC.) os seguidores de Orígenes († 254) afirmavam que o espírito do homem era preexistente, pois seria a encarnação de algum anjo.
Para penetrarmos de cheio no estudo dos anjos é preciso que se identifique sua natureza (espiritual) e sua função (mensageiros). Feita esta primeira identificação, e a partir dela, a compreensão nos chega de forma mais clara e espontânea.

2. O nome dos anjos
Não são muitas passagens da Bíblia em que haja uma citação nominal dos anjos.Em geral, os textos costumam falar no anjo e em seu trabalho, sem explicitar seu nome. Preliminarmente, os anjos são descritos como serafins, querubins e arcanjos. Trata-se mais de função do que propriamente de nome.
Querubim, derivado do arcádico karibú, , como já vimos, significa, em algumas bibliografias, aquele que tem sabedoria e em outras, aquele que zela.
Serafim, que significa os ardentes, denotam uma classe de anjos que velam a face de Deus, adorando-o com amor ardente.
Arcanjo, do grego , quer dizer príncipe dos anjos, ou, se quisermos ser mais preciosistas, origem ou autoridade ().
Após o exílio babilônico (587-528 a.C.) os anjos passam a ser mais invidualizados, chegando a ter nomes próprios, muitas vezes relacionados com a função específica que exercem. O contato de Israel exilado com a superveniente cultura babilônica pode ter influenciado a maneira de representar a corte divina, de maneira mais variada e mais rica (cf. Zc 1,11s).
Os querubins, serafins e arcanjos aparecem às vezes em figuras humanas, ou em figuras mistas (com asas), significando serem mensageiros do poder e da glória de Deus. Encontramos serafins em 1Rs 6,23-29; Is 6,2.7; Ez 25,18s. Já os querubins aparecem mais vezes:


  • Gn 3,24 – com a espada chamejante para guardar o caminho da árvore da vida;

  • Ex 25,18; 37,7; 1Sm 4,4 – dois querubins de ouro guarnecem a arca da Aliança;

  • 2Sm 22,11; Sl 18,10 – Javé cavalga nos querubins para vir em auxílio dos homens;

  • Hb 9,5 – na narrativa de Paulo, os querubins cobrem com sua sombra a glória de Deus.

Bem mais tarde, a literatura judaica começa a dar nomes aos anjos, surgindo, então os arcanjos Miguel e Gabriel e, posteriormente, Rafael, sendo este último não-canônico nas escrituras judaicas.


Miguel é aquele como Deus, considerado o chefe das milícias celestes que combatem contra os demônios e o poder das trevas. O arcanjo Miguel é patrono e defensor do povo judeu. Há referências bíblicas sobre ele, a partir de Daniel (Dn 10,13. 12,1), passando por 1Ts (4,16) e Jd (9), até o Apocalipse (12,7). A liturgia Católica celebra São Miguel Arcanjo dia 29 de setembro e a Ortodoxa a 8 de novembro. O arcanjo Miguel é importante personagem na luta contra Satanás, na imortal obra de JOHN MILTON († 1674), o Paraíso Perdido.
Gabriel é o anunciador. Há controvérsias sobre o significado de seu nome. Em algumas bibliografias aparece como Homem de Deus, Deus mostrou-se forte e até Herói de Deus. Gabriel é o arcanjo da anunciação a Zacarias (cf. Lc 1,19) e a Maria (v. 26). No Antigo Testamento há referências a ele no livro de Daniel (cf. 8,16; 9,21).
Rafael que dizer Deus cura, ou Cura de Deus. É o menos canônico dos três arcanjos. Todas as referências a ele aparecem no livro de Tobias, cuja canonicidade não é acatada pelos judeus. Para pertencer ao cânon (regra) sagrado dos judeus, o livro tinha que conter os seguintes requisitos: a) ter sido escrito em hebraico (ou aramaico); b) escrito na Palestina; c) até a reforma de Esdras (± 400 a.C.). Ora, como o livro de Tobias teria sido escrito após Esdras, os judeus o classificaram como apócrifo. Quando ocorreu a Reforma Protestante no século XVI Lutero adotou o cânon judaico, razão pela qual o livro de Tobias, e alguns outros, não aparecem nas Bíblias protestantes.
Todo esse aposto histórico foi para explicar porque o anjo Rafael não goza de integral prestígio entre judeus e protestantes, uma vez que todas as suas atividades são descritas numa literatura não-reconhecida por eles. Na Bíblia católica há referências a Rafael apenas no livro de Tobias (cf. 3,16s; 5,4; 9,1.5; 12,15).
Estes são, portanto, os nomes dos três anjos que aparecem na Bíblia. Em outras literaturas apócrifas, cabalísticas ou esotéricas existem outros, que falaremos depois, mas que, por não terem o aval bíblico, são relacionados apenas como curiosidade cultural.

3. Os anjos na arte

Apenas para ilustração, vamos informar aqui a representação de anjos nas principais obras de arte de humanidade. Nesses trabalhos, em geral pinturas, são exaltadas algumas características, como a função de ajudador e guarda, com rostos de crianças, asas e vestes voláteis. O anjo São Miguel é geralmente apresentado como um guerreiro romano, com espada e armadura, envergando grandes asas. Damos a seguir uma relação de autores clássicos que pintaram anjos 6, seja como guardiões, seja como anunciadores ou adoradores na corte celestial:



  • Bosch (1450-1516) - O Paraíso e Ascensão ao céu;




  • Boticelli (1441-1510) - Virgem com o Menino e um anjo.

- Virgem dos serafins,

- Anunciação: Virgem do Magnificat.

- Natividade mística;


  • Del Sarto (1530) - O sacrifício de Isaac;

  • El Greco (1614) - Anunciação,

- Alegria da santa aliança,

- Coroação da Virgem;




  • Filippo Lippi (1460) - A anunciação;




  • Fra Angelico (1455 ) - Anunciação

- A Madona, o Menino e os anjos


  • Goya (1828) - Maria Rainha dos mártires.




  • Giotto (1337) - Madona no trono;

- Anunciação de Santa Ana;

- O sonho de São Joaquim;

- Fuga para o Egito;

- O sonho da Virgem Maria;




  • Da Vinci (1519) - Batismo de Cristo;

- Anunciação;


  • Manet (1883) - Morte de Cristo;




  • Paolo Caliari (-1588) - O sacrifício de Abraão/




  • Pedro Serra (séc. XIV) - A anunciação;




  • Rafael (1529) - Ressurreição;

- Coroação da Virgem;

- Madona de Baldaquim;

- Madona de Foligno;

- Visão de Ezequiel;




  • Rembrandt (1669) - Visão de Daniel;

- O anjo e Tobias;


  • Rubens (-1640) - Adoração dos pastores;

- A virgem em uma grinalda de flores;


  • Simone Martini (1344) - A anunciação;

- Majestade.

Outras belíssimas representações de anjos adoradores são encontradas nos mosaicos bizantinos da basílica de Háguia Sofia, em Istambul, de autores desconhecidos.



4. O ensinamento da Igreja
A Igreja católica, fiel às Sagradas Escrituras, afirma que os anjos existem. Essa existência de anjos, como criaturas pessoais e não simples força, energia ou emanação, foi dogmatizada desde o IV Concílio de Latrão (1215, DS 800) e posteriormente o Concílio Vaticano I (1870, DS 3002) com base nas afirmações do Concílio de Nicéia (DS 327.125). No Credo Niceno-constantinopolitano a Igreja afirma sua fé no Deus criador do mundo visível e invisível.
Diversos teólogos, e o maior deles Tomás de Aquino, tem repetidas vezes afirmado a existência dos anjos Em sua encíclica Humani Generis (1950) o papa Pio XII afirmou categoricamente a existência dos anjos como seres sobrenaturais, com funções de ajuda aos homens, quer no terreno espiritual quanto no material.
Por este motivo, a Igreja ensina a relação dos anjos, não só com Deus mas também com toda a humanidade.
Os anjos trabalham na construção do Reino de Deus, na obra da criação, consolidação e aperfeiçoamento do Reino. São Miguel luta vitoriosamente contra o dragão, jogando-o no inferno (cf. Ap 12,7s). Fiel ao que ensina São Paulo (cf. Hb 1,14), a Igreja afirma que uma das missões dos anjos consiste em servir aos herdeiros da salvação 7.
Nossa Igreja tem proclamado como anjos os pregadores da boa-notícia, com base nos textos escriturísticos (cf. Is 29,7; Ml 2,7; 3,7; Mt 11,10; Mc 1,2/ Lc 7,27; Gl 4,14; Ap 2,1.8.12.18). É rica a manifestação da liturgia com relação aos serviços prestados pelos anjos à Igreja, como veremos no tópico a seguir. A Igreja faz coro à Bíblia ao chamar os anjos de:


  • Santos de Deus (cf. Jó 5,1; 15,5; Sl 89,6.8; Dn 4,10);

  • Santos Anjos (cf. Tb 11,14; 12,15(;

  • Guardas (cf. Dn 4,10; Jd 4,15);

  • Protetores – cada povo tem seu protetor (cf. Gn 10,13,20s).

É preciso um certo senso-crítico e também algum conhecimento teológico para distinguir o que é artigo de fé e o que é religiosidade popular. Antigamente todas as atividades da natureza eram atribuídas aos anjos. Posteriormente, a evolução das ciências mostrou realidades diferentes. Era crença popular, por exemplo, na Idade Média, que os anjos faziam os movimentos do mar, acendiam o sol, criavam a chuva e outros fenômenos naturais. Quando Laplace expôs em 1825, as “leis da mecânica celeste”, tais crenças desabaram, pois não tinham o suporte bíblico-dogmático dos ensinamentos inspirados.


A fé na missão e existência dos anjos consiste no seguimento aos ensinamentos da Bíblia e do Magistério da Igreja. Cabe aos fiéis rejeitar idéias piegas sobre “anjinhos”. O plano de Deus, no qual os anjos estão inseridos, é coisa séria, coerente e vigorosa. A própria expressão “anjinho” é hoje usada de forma pejorativa, como a exprimir alguém ingênuo, fora da realidade.
A fé no serviço dos anjos, depurada de tradições folclóricas, superstições esotéricas ou preceitos da filosofia helenista ou das religiões orientais, deve voltar a constituir elemento vital e sadio da teologia e da piedade do povo de Deus. Nesse sentido movimenta-se o ensinamento da Igreja. Apenas para concluir, é interessante observar que a teologia protestante aceitou, no primeiro momento, os ensinamentos sobre a existência dos anjos. A partir do século XVIII, começou a colocar em dúvida essa existência que, segundo eles, nada mais é que um simples dogma papista.


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