Oriente: primeiros a chegar, últimos a partir, futuro vazio



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Oriente: primeiros a chegar, últimos a partir, futuro vazio
Fernando Correia de Oliveira*
Janus 2004

Em 1498, há 500 anos, Vasco da Gama não só contornou o Cabo da Boa Esperança (repetindo o feito de Bartolomeu Dias, 10 anos antes), como inflectiu mais para leste, atravessando o Oceano Índico e chegando até à região de Goa. Durante o meio século seguinte, os marinheiros portugueses expandiram as suas viagens por todo o Oriente, chegando ao Pacífico e ao Japão. Nesses 50 anos deram-se os hoje tão celebrados "encontros de civilizações" entre o Ocidente e o Oriente.


O arquétipo entretanto criado em Portugal e no Ocidente sobre esse período da História dá aos portugueses e aos outros ocidentais um papel activo e aos indianos, chineses, japoneses e outros povos orientais um papel passivo. O nacionalismo reencontrado após a II Guerra Mundial e a prosperidade económica recente da zona da Ásia-Pacífico têm provocado cada vez mais reacções do Oriente à maneira como a História tem sido contada. Os recentes episódios sobre as comemorações da chegada dos portugueses à Índia são disso um exemplo, mas é mais do que certo que a visão chinesa de como os portugueses se apoderaram de Macau vai ter cada vez menos peso na versão universal do que se terá passado há 450 anos e, com o território a ser entregue em 20 de Dezembro de 1999 de novo à China, Pequim acelerará a sua máquina de propaganda para caracterizar de forma pouco positiva "o colonialismo português", em detrimento da versão mais ou menos romântica que tem vencido, pelo menos no nosso país.
A Europa medieval esteve desde o séc. VII cercada pelo poder do Islão nas suas fronteiras a leste e a sul, enquanto a ocidente ficava o intransponível Oceano Atlântico e a norte a barreira eram os gelos. Aquilo que os navegadores portugueses conseguiram fazer nos séculos XIV e XV foi uma espécie de movimento militar de diversão — apanhar o Islão pelas costas, passando-lhe em volta e concretizando aquilo que séculos de Cruzadas não tinham conseguido.
Em termos económicos, os portugueses abriram a rota das especiarias entre a Europa e as Molucas, um caminho que permitiu um comércio em escala mais maciça e a preços mais baratos, tornando inviáveis as anteriormente usadas pelo Levante e Veneza. Em termos religiosos, essa rota abriu caminho à missionação católica (e depois protestante). Do ponto de vista cultural, com as influências a fazerem-se em ambos os sentidos, com este encontro entre Ocidente e Oriente (enquanto se fazia ao mesmo tempo a descoberta e conquista do continente americano) ocorreu pela primeira vez a ideia de universalidade. E de relatividade política, económica, social, religiosa, cultural. O mundo moderno é o mundo no seu todo.
Portugal, o primeiro a chegar, será formalmente o último a partir, quando Macau for devolvido à China. O que ficou, entretanto, de quase cinco séculos de presença portuguesa na zona? E o que existe hoje em Portugal, restos desse Império a Oriente? Pouco, quase nada. Falando na linguagem fria dos números, Portugal realiza anualmente trocas comerciais que rondam os 5 mil milhões de contos, entre exportações e importações. Desses, apenas 315 milhões de contos dizem respeito à Ásia (cerca de 6,3 por cento). Dos quase 23 milhões de turistas que visitam anualmente Portugal, apenas uns 90 mil são asiáticos (0,4 por cento).
Residuais são também os números respeitantes às comunidades portuguesas na Ásia ou asiáticas em Portugal. A excepção óbvia é Macau, mas os cerca de 100 mil chineses do território portadores de passaporte português não falam português e, a usarem esse título de viagem, só o farão se o processo de integração no continente correr mal, e na esmagadora maioria dos casos utilizando Portugal como sítio de passagem para outros países europeus, Estados Unidos, Canadá ou Austrália. Do ponto de vista social, aquilo que mais tem preocupado as autoridades portuguesas é a possibilidade de o crime organizado chinês (tríades, já presentes em Lisboa, Porto ou Setúbal) alastrar devido à recuperação continental de Hong Kong e Macau. Quanto a refugiados asiáticos em Portugal, tirando o caso de Timor-Leste, eles não têm expressão.
Os fenómenos de "lusitanidade" em Goa, Malaca ou, futuramente, Macau (e Timor?) ir-se-ão perdendo inexoravelmente. Uma segunda língua, na zona, será sempre o inglês. As gerações mais novas não guardam qualquer nostalgia para com um país distante, que não conhecem e que, com poucos recursos, não poderá continuar a firmar aí a sua identidade cultural. Mesmo assim, o Instituto Camões, dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, inclui na sua rede de leitores de Língua e Cultura portuguesas a China (Cantão, Pequim e Xangai), a Índia (Goa e Nova Deli) e a Malásia (Kuala Lumpur). Não há leitorado no Japão, mas o Renaissance Institute, da jesuíta Sophia University, de Tóquio, mantém uma acção regular na divulgação da cultura portuguesa. Em Portugal, a Fundação Oriente e a Missão de Macau são instituições naturalmente orientadas para as acções de divulgação das culturas orientais e há cursos de chinês ou japonês, não homologados pelo Ministério da Educação.
A criação de uma licenciatura em Estudos Orientais continua a ser falada mas, 500 anos depois do diálogo ter começado, Portugal ainda não conseguiu assumir as responsabilidades do pioneirismo e transformar em tradição (escola) o que se tem traduzido em esporádicas boas-vontades, muita curiosidade e total amadorismo.
Informação Complementar
Vasco da Gama visto da Índia
Protestos locais levaram o governo indiano a suspender em 1997 a sua participação na comis­são indo-portuguesa que preparava as comemorações dos 500 anos da chegada do navegador Vasco da Gama à Índia, em 1498. A polémica estalou em Nova Deli em torno da figura e ac­ção do que veio a ser o primeiro Vice-Rei português da Índia, e em Lisboa em torno das ra­zões que levavam Nova Deli a afastar-se das comemorações.
O argumentário indiano a favor e contra a participação nas comemorações ficou bem expres­so, em Agosto de 1997, em dois artigos publicados em Nova Deli pelo jornal India Today, da autoria, respectivamente, de Sanjay Subrahmanyam, historiador residente em Paris e autor de uma biografia de Vasco da Gama, e de Claude Alvares, animador do Comité Nacional (in­diano) Anticolonialista Contra o 500º Aniversário.
No seu artigo, Subrahmanyam, que participou em Lisboa numa conferência internacional sobre o tema, organizada pela Sociedade de Geografia, defende que os indianos não podem "esquecer, por decreto, 1498", e que a comemoração deve ter lugar, porque "quem esquece o passado condena-se a repeti-lo". Este biógrafo indiano de Vasco da Gama está próximo do ponto de vista de António Hespanha, responsável da Comissão portuguesa dos Desco­brimentos, para quem "as versões da História adoptadas por diferentes grupos podem ser di­vergentes; [assim,] seria ingénuo esperar que Angolanos ou Moçambicanos, há menos de 30 anos ainda submetidos a dominação colonial, façam um balanço positivo da expansão por­tuguesa". Sublinha Subrahmanyam: "Se a comemoração tomasse a forma de um horror ar­quitectónico qualquer, haveria sem dúvida razão para nos opormos a ela. Mas (...) se, por exemplo, os portugueses quiserem financiar uma cadeira de história contemporânea numa universidade indiana, no quadro do 500° aniversário, nada tenho a opor, na medida que es­se ensino não se limita à glorificação do passado português".
Por seu turno Claude Alvares, que começa por evocar o "desastre" das comemorações espa­nholas da descoberta da América por Cristóvão Colombo, exprime um ponto de vista mais directamente envolvido na luta política local: "O governo indiano aceitou colaborar em ceri­mónias que celebram o início da época colonial e a servidão do seu povo." Sobre Vasco da Ga­ma, diz ele: "Sabe-se como ele semeou o terror nas povoações da costa ocidental da índia. São bem conhecidos os altos feitos deste herói português que bombardeou Kozhikode (Calicute), pilhou navios, mutilou e desmembrou prisioneiros antes de pendurar os seus corpos nos mastros dos seus navios". Finalmente, Alvares acusa os portugueses de não procurarem, nas celebrações, senão um "exercício de auto-satisfação", e explica que os indianos lhes prestarão um serviço (aos portugueses, bem entendido) se os convencerem "de que não escolheram a melhor maneira de celebrar os feitos de Vasco da Gama".
Apesar de moderadamente favorável a uma forma de comemoração, Subrahmanyam foi cri­ticado em Lisboa por historiadores como Vitorino Magalhães Godinho por descrever um Vasco da Gama "ávido", "cruel" e "paranóico". Sobre o caso da Comissão indo-portuguesa, Veríssimo Serrão, presidente da Academia Portuguesa de História, disse na altura que "a ín­dia deu prova de grosseria e Portugal de cobardia". (texto de João Maria Mendes)

* Fernando Correia de Oliveira

Jornalista do PÚBLICO.








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