Oprimidos e opressores: uma análise comparada dos contextos discursivos entre as obras de alex haley e josé de alencar



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OPRIMIDOS E OPRESSORES: UMA ANÁLISE COMPARADA DOS CONTEXTOS DISCURSIVOS ENTRE AS OBRAS DE ALEX HALEY E JOSÉ DE ALENCAR1
Dislane Zerbinatti Moraes – FEUSP

dzmoraes@usp.br

Fernanda de Jesus Ferreira – FEUSP

fernanda.ferreira@usp.br

Silmara Cardoso – FEUSP

silmaracardoso@usp.br
Eixo Temático: Etnias e Movimentos Sociais

Palavras-chaves: Alencar, escravidão, Haley.
Levando-se em consideração que os estudos históricos mostram o século XIX como extremamente produtivo em políticas e iniciativas que visavam à escolarização das classes populares e à formação da população negra (GONDRA, 2008), apresentamos nesse trabalho os resultados parciais da pesquisa que investiga a produção, circulação e apropriação de processos educativos, a partir do diálogo entre o livro Negras Raízes: a saga de uma família (1970) do escritor negro norte-americano Alex Haley (1921-1992) e a obra literária, política e teatral de José de Alencar (1829-1877).

Adotamos a perspectiva dos estudos comparados em História da Educação, na qual buscamos apreender as aproximações, os afastamentos e entrecruzamentos de modelos de formação e inserção dos negros no período abolicionista nos Estados Unidos e no Brasil, que são produzidos e dados a ver nas práticas discursivas dos autores. Assim, trazemos duas visões sobre a escravidão e os processos educativos justificados pela iminência da abolição: a visão romântica do escritor e político José de Alencar, representante do pensamento da elite oitocentista, e a visão dos escravizados apresentada por Haley. A distância temporal e espacial da escrita dos textos potencializa nosso olhar para a percepção de descontinuidades históricas, bem como, das estruturas mentais e relações de poder, que envolvem a questão.

Neste texto procuramos destacar os modos de construção do “Eu” e do “Outro” comparando-se experiências de escravidão, formas distintas de inserção do ex-escravizado na sociedade e de perfis étnicos específicos, condicionados por modelos culturais e idéias sobre a desigualdade racial que circulavam globalmente. Haley desenvolve um trabalho memorialístico e historiográfico com o objetivo de mostrar ângulos contundentes do sistema escravocrata, ressaltando os processos de sofrimento, resistência e resposta dos próprios escravizados. Em contrapartida, Alencar justifica a manutenção do regime escravocrata pautado pelo discurso da incapacidade dos escravos de atuarem em sociedade e dos inerentes benefícios que traria o contato das “almas rudes” com o homem branco, civilizado.

As condições de circulação e práticas de leitura dos textos também foram analisadas. José de Alencar escreve em um contexto de amplo debate sobre o papel da escravidão na constituição da nacionalidade brasileira, consolidando um discurso sobre a inferioridade que se mantém mesmo após a abolição. Inserido no espaço de lutas por direitos civis lideradas pelo movimento negro nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos, Haley, por sua vez, obteve grande sucesso editorial, chegando a vender quase dois milhões de exemplares nos primeiros seis meses de lançamento. Considerando a capacidade de refletir sobre o real da obra literária, depreende-se o universo de referências comuns, particularizadas em visões sobre a escravidão e educação elaboradas pela elite e pelos descendentes dos escravizados.


Sobre os autores e suas obras
José Martiniano de Alencar nasceu na pequena cidade de Mecejana, interior do Ceará em 1829. Aos onze anos, a família Alencar mudou-se para a corte, na qual o escritor ingressou no Colégio de Instrução Elementar. Formou-se em Direito em 1850. Em 1854 estreou como folhetinista do Correio Mercantil. O ano de 1859 marcou o início de sua carreira política como secretário do Ministério da Justiça. Em 1860 ingressou, pelo partido conservador, como deputado geral pela província do Ceará, chegando depois a exercer o cargo de Ministro da Justiça entre 1868 e 1870. Entretanto, o seu grande sonho de seguir a carreira notável do pai como senador foi barrada por D. Pedro II, com quem Alencar teve muitos desentendimentos ocasionados pela crítica ao poder moderador e pela questão do fim do regime escravocrata. Dessa forma, Alencar voltou a exercer o cargo de deputado geral, de forma descontínua, até sua morte ocorrida em 1877. Dentro desse período, Alencar tornou-se notável escritor com obras indianistas que marcavam a cor local e a formação da nacionalidade e da história brasileiras, assim como escreveu inúmeras peças teatrais, romances, contos e crônicas, com o intuito de utilizar suas obras literárias e teatrais como meio de formação da cultura brasileira e mudar os costumes dessa mesma sociedade, como veremos mais adiante.

Por outro lado, Alexander Murray Palmer Haley (Alex Haley)2, biógrafo, roteirista e romancista nasceu na cidade de Ithaca, Estados Unidos em 11 de agosto de 1921. Ele finalizou seus estudos secundários com 15 anos, e aos dezessete, informou ao pai da sua retirada da universidade estatal Alcor, pois acreditava não ter destaque nos estudos. Simon Haley sentiu que o filho precisaria de disciplina e crescimento, convenceu-o então a alistar-se no serviço militar. Assim, Haley entrou para a Guarda Costeira e foi o primeiro soldado afro-americano a chegar ao posto de Chief Petty Officer.This paved the way for many other black men and women to rise into the senior enlisted ranks in the naval services. Isto preparou o caminho para muitos outros homens e mulheres negros para a ascensão nos altos cargos da Marinha americana. He also holds the distinction of being the first Coast Guardsman to be designated in the specialty rate of Journalist in recognition of his able service to the Coast Guard's and Navy's public affairs and history programsHaley escrevia relatórios e histórias de aventuras com o intuito de repelir o tédio no “além mar”, os seus escritos lhe valeram o cargo de Chefe de Jornalismo. O fato de um negro ocupar um cargo elevado na instituição foi importante para moldar a imagem pública da Guarda Costeira, pois os marinheiros negros atuavam apenas como cozinheiros, mordomos e estivadores. This was a significant position of responsibility for shaping the public image of the Coast Guard, and reporting news within the service, and the broke the previous tradition of black sailors serving almost exclusively in menial jobs as cooks, stewards, and stevedores.

Após vinte anos de serviço, Haley deixou a Guarda Costeira na intenção de se tornar um escritor em tempo integral. Inicialmente escreve para a revista Reader's Digest, que o incumbiu de escrever pequenas biografias de pessoas as quais haviam tido experiências dramáticas ou levado vidas emocionantes. Mais tarde associa-se à revista Playboy, onde ele inaugurou a “Playboy Entrevistas”. Porém, o seu primeiro grande trabalho foi a autobiografia de Malcolm X, lançada em 1965 a qual teve um enorme efeito sobre o poder do movimento negro na América do Norte. O livro vendeu mais de seis milhões de exemplares. Essa autobiografia retrata as experiências do racismo, a violência racial, policial, a vida criminal, as experiências no Islã ortodoxo contendo os princípios de fraternidade universal e as prisões vivenciadas por Malcolm X. "At the time of its publication, the autobiography thus became something more than an exposé of the American Black Nationalist movement: It was a personal witnessing by a black militant of the tenets of universal faith to which he, at least, attributed the potential to resolve the increasingly divisive struggle for civil rights all over the world. Possibly because his autobiography ended with a disavowal of the Black Power movement that was then gaining momentum, both the Nation of Islam and in more radical violence-oriented groups such as the Black Panthers, he fell to assassins' bullets fired by rival African Americans." (from Chronology of Twentieth-Century History: Arts & Culture , volume II, ed. by Frank N. Magill, 1998)A autobiografia apresentava uma exposição do movimento nacionalista americano que culminaria, na década de setenta, com os movimentos Black Power e Panteras Negras.

Haley teve outros projetos literários, dentre os quais estão: Um tipo diferente de Natal (1988), Alex Haley's Queen: A História de uma família americana (1993) e A Playboy entrevistas (1993). Porém, o seu grande sucesso foi Roots: The Saga of an American Family, um fenômeno editorial e best-seller internacional, que vendeu mais de 1,6 milhões de cópias nos primeiros seis meses de seu lançamento. The text was translated into thirty-seven languages and was serialized in the New York Post; the dramatic story stimulated interest in the study of Africa and in African American genealogy. O livro foi traduzido em trinta e sete idiomas e serializado no New York Post. A dramática história estimulou os estudos sobre a África e a genealogia da população afroamericana. No Brasil, o livro foi lançado pela editora Record com a tradução de A. B. Pinheiro de Lemos sob o título Negras Raízes: a saga de uma família. Apresenta 528 páginas, 108 capítulos, capa, prefácio, contracapa, dedicatória, nota do tradutor, considerações de Haroldo Costa e agradecimentos do autor.

A obra é baseada na trajetória da família de Haley, e foi escrita a partir das histórias repetidas por sua avó e de pesquisas em arquivos, bibliotecas, coleções de documentos oficiais e particulares e de viagens à África. Quando era criança, Haley ouviu muitas vezes a avó Cynthia Palmer contar a história de um antepassado africano que saíra um dia para cortar um tronco na floresta perto de sua aldeia, a fim de fazer um tambor, quando foi subitamente agarrado por quatro homens, acorrentado e levado como escravo para a América. Kunta Kinte era o nome desse antepassado que fez questão de contar à filha como era sua vida na África, único meio encontrado de não perder a identidade na terra dos homens brancos, os toubobs, como os chamava. E a história foi transmitida de geração em geração. Já adulto, escritor, Haley decidiu reconstituir a história do seu antepassado africano e sete gerações de negros americanos que o sucederam. Negras Raízes é uma obra híbrida, pois nela há uma mistura de memórias, autobiografia, realidade, ficção e imaginação.
Visões da escravidão e do processo educativo do “elemento servil” em José de Alencar e Alex Haley: uma análise comparada
Colocar-se em diferentes campos de acordo com Silva (2004, pg. 68) é um desafio e obriga uma alteração de olhar que, certamente, enriquece a análise. O modelo explicativo para compreensão de um determinado fenômeno em um espaço não serve, necessariamente, para explicar e compreender o desenrolar dos acontecimentos em outros espaços. Por outro lado, há situações que suportam uma explicação análoga, apesar de diferentes contextos. Nesta direção, o estudo comparado dá mostras de sua fertilidade “por questionar o que parecia inquestionável, por obrigar ao uso de novas lentes para se compreender o que parecia incompreendido, por desinstalar certezas que pareciam cristalizadas e suficientes”.

A idéia da perspectiva em estudos comparados não é nova. Muito já se produziu tomando por base diferentes espaços e contextos geográficos. Entre uma série de trabalhos citamos alguns considerados dos mais importantes: “Sistema Mundial e Inter-Relacionamento de Redes: a Internacionalização da Educação e o Papel da Pesquisa Comparativa” de António Nóvoa (1995); “Estudos Comparados sobre a Escola: Brasil & Portugal (séculos XIX – XX)”, de Antonio Nóvoa e Denice Catani (1999); “Formas de Externalização no Conhecimento Educacional” de Jürgen Schriewer (2001) e “Difusão Mundial da escola” organizado por Nóvoa e Schriewer (2000), o qual, além dos textos sobre educação comparada, traz artigos de diversos outros autores que apresentam seus trabalhos com uma abordagem comparativa.

Os estudos comparados impõem a necessidade de reconhecimento indissolúvel do outro e, como ressalta Nóvoa, (2000, pg. 126-127) é possível compreendermos melhor esta questão:
No passado, a presença do outro justifica-se pela exemplaridade (a imitar ou a recusar); actualmente, ela define-se pela capacidade de organizar uma massa considerável de informações que integram um mesmo quadro o eu e o outro. Mas este processo de inclusão é também um processo de discriminação, tendo em conta a panóplia de níveis e hierarquias que separam os diferentes mundos que existem no mundo.
A comparação é um processo de perceber as diferenças e semelhanças e de assumir valores nessa relação de mútuo reconhecimento. Trata-se de entender o outro a partir dele mesmo e, por exclusão, se perceber na diferença. Neste sentido, o estudo comparativo apresenta-se como um instrumento importante de conhecimento e de análise de uma dada realidade educativa, histórica, social, política, econômica ou cultural.

Assim, analisar o processo escravocrata e a inserção do negro na educação nas obras de José de Alencar e de Alex Haley apresenta-se como um desafio, no sentido de identificar “distâncias e vizinhanças” (CATANI, 2000), pois os autores pertenciam a lugares, contextos, sociedades, culturas e mentalidades diferentes e por outro lado, se aproximam ao tratar de um mesmo fato histórico. É por meio de uma perspectiva comparada que podemos apreender os elementos estruturais e culturais de certa realidade histórica.

Embora possamos, a partir da leitura devidamente mediada, depreender determinados fatos da época e determinados contextos da obra literária, não devemos, por outro lado, desconsiderar o grau de subjetividade e de invenção que por vezes transparecem na obra de ficção. Devemos, portanto, considerar o contexto de produção como “algo que necessariamente antecede a obra, que guarda em relação a ela uma anterioridade inevitável, mundo do qual parte e ao qual se destina, mesmo que seus fins sejam intransitivos e seu exercício seja exclusivamente o do símbolo” (CAMILOTTI, 2009). Em outras palavras, as histórias produzidas pelo escritor não são retiradas e inventadas aleatoriamente e totalmente alheias ao seu tempo, são narrativas retiradas a partir de um contexto pré-existente que acabam influenciando o escritor. Ou seja, a obra final do escritor, pode ser considerada como uma espécie de “co-autoria involuntária”, uma obra construída por várias mãos, determinações de maior ou menor grau assinaladas devidamente por Barthes quando afirma que o texto não é:
(...) feito de uma linha de palavras a produzir um sentido único, de certa maneira teológico (que seria a “mensagem” do Autor-Deus), mas um espaço de dimensões múltiplas onde se casam e se contestam escrituras variadas, das quais nenhuma é original: o texto é um tecido de citações, saídas dos mil focos da cultura. (BARTHES, 1988).
A potencialidade dessas fontes é indiscutível na medida em que nos fornece novas possibilidades de análise baseadas na especificidade que caracteriza essas produções e podem nos fornecer diferentes ângulos de percepção da realidade a partir do ponto de vista de determinado autor. Portanto, para se desenvolver esse trabalho “é preciso ter a sensibilidade para apreender o aspecto da realidade sobre o qual o documento se refere.” (MORAES, 2009). É necessário enfatizar que as análises e conclusões nesse campo não trazem nenhuma resposta indiscutível ou indubitável. Os documentos em si não esclarecem a intenção real ou a realidade, as questões estabelecidas preliminarmente para pesquisa é que nos mostram os caminhos a serem percorridos e as possíveis interpretações são fundamentadas nos argumentos plausíveis por elas produzidos e provocados. Feitas essas devidas considerações, procuraremos analisar as fontes de pesquisa partindo dos seus contextos de produção.

Embora Brasil e Estados Unidos, dois grandes modelos de sociedades que importaram negros da África para servir como força de trabalho escrava, estes países integraram os ex-escravizados de formas diferenciadas as suas sociedades.

É importante lembrarmos que a força de trabalho norte-americana sempre foi, comparativamente a outros países, mais diversificada. O regime de trabalho escravo era predominante nos estados do Sul, onde era utilizado no sistema de plantations algodoeiras, exportando o produto para a indústria têxtil britânica. O Norte, progressista, rumo à industrialização e à mão-de-obra livre e assalariada defendia o fim da escravidão baseado em interesses econômicos advindos da expansão do mercado capitalista. A favor desses interesses, o presidente Lincoln determina o fim da escravidão em 1863. O trabalho livre de nacionais e imigrantes europeus era fundamental para a economia global dos Estados Unidos. A combinação desses fatores gerou, desde as últimas décadas do século XVIII, mas principalmente na primeira metade do século XIX, uma realidade social de convívio de libertos com outros trabalhadores livres. Assim como nos Estados Unidos, o Brasil institui o fim da escravidão por considerar o trabalho livre mais lucrativo e atraente para a imigração européia.

No Brasil, o escravo estava na base de toda a atividade, desde a produção do café, açúcar, algodão, tabaco, transporte de cargas, às mais diversas funções no meio urbano: carpinteiro, pintor, pedreiro, sapateiro, ferreiro, marceneiro, entre outras. Além de mão-de-obra, o escravo representava riqueza: era uma mercadoria, que, em caso de necessidade, podia ser vendida, alugada, doada e leiloada. O escravo era visto na sociedade colonial também como símbolo do poder e do prestígio dos senhores, cuja importância social era avalizada pelo número de escravos que possuíam.

Dessa forma, é possível compreender o desejo de Alencar de manter o cativeiro no país. Segundo o autor "A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto basta para merecer o respeito”. Essa frase aparece numa das sete Cartas de Erasmo em que Alencar critica o imperador D. Pedro II por propor que o país começasse a pôr fim gradual à escravidão. Alencar argumenta, em suas cartas, contra a extinção por lei de uma instituição que deveria acabar como resultado de um processo "natural" de maturação. Em um discurso proferido na câmara dos deputados em 30-09-1870 sobre o Elemento Servil, Alencar explica como está elaborando e pondo em ação suas ideias sobre a emancipação natural:
(...) Seja-me permitido nessa ocasião solene, em que mais uma vez assumo a responsabilidade destas convicções, lembrar que fui um dos primeiros que se inscreveram na cruzada santa que trabalha por extinguir a escravatura, não na lei, mas nos costumes, que são a medula da sociedade (p.197).
Alencar considerava que a “raça bruta”3 deveria ser emancipada lentamente por intermédio da iniciativa particular difundida pela revolução dos costumes. Nas Cartas de Erasmo, ele cita, por exemplo, o caso da emancipação bem sucedida na Inglaterra - exemplo de civilização - ocorrida em 1848:
O negro não era já mero instrumento em sua mão; porém, um operário ao qual só faltava o estímulo do lucro. Quando realizou-se a emancipação, os escravos, se não estavam completamente educados para a liberdade, possuíam pelo menos os rudimentos industriais que deviam mais tarde desenvolver-se com o trabalho independente. (p. 80)

Além de estarem minimamente educados para que pudessem usufruir da liberdade e se enquadrassem modestamente ao sistema capitalista de produção, Alencar ainda cita que nas colônias briânicas só houve a emancipação dos escravos quando os brancos tornaram-se a etnia majoritária da população. A partir desse exemplo, Alencar argumenta que no Brasil não havia nem a primeira e nem a segunda condição. Em contrapartida cita o caso “triste” da emancipação francesa, na qual a “raça bruta”, “ainda não educada para a liberdade, entregou-se à indolência, à miséria e à rapina” ( p. 80/81). Em outras palavras, esse seria, segundo Alencar, o caminho que os escravos provavelmente seguiriam no Brasil.

Partindo do princípio de que o romantismo, contexto do qual Alencar fez parte, é a oposição ao mundo burguês capitalista, é a crítica à modernidade, podemos articular esse posicionamento alencariano com as contraditórias características do romantismo, que ao mesmo tempo era individualista e comunitário, retrógrado e utopista (LÖWY, 1995). O lado individualista de Alencar se estabelece quando ele mesmo se considera um membro da “cruzada santa” que trabalha para extinguir a instituição escravocrata, em uma manifestação de heroísmo que estaria materializada em sua pessoa, em sua subjetividade, em sua atuação. Esse individualismo também transparece quando Alencar defende o direito de propriedade. Considerando que os escravos eram tratados como objetos de valor, a brusca extinção da escravatura poderia trazer mais prejuízos para os proprietários de escravos que teriam seu direito de propriedade violado. Entretanto, Alencar também reconhece que a escravidão no Brasil era ainda a “exceção triste” do mundo civilizado, mas era um mal necessário: “Não queremos a escravidão, entendemos que ela é prejudicial e apenas esperamos o momento oportuno para poder extingui-la sem abalo social e econômico”. (Discurso de 07-07-1870-Agricultura).

Podemos notar que aqui os interesses da Nação, o social e comunitário, devem estar acima do interesse individual. Os interesses econômicos estão acima do interesse individual4, não se poderia sacrificar um país inteiro, que poderia sofrer crises e abalos econômicos desnecessários. A reiterada oposição de Alencar à manumissão dos escravos representou-lhe a imagem de retrógrado. Nas Cartas Políticas escritas entre 1865 e 1866 ele produz todo um discurso articulado tentando persuadir D. Pedro II de que a escravidão não tem nada de retrógrado. Pelo contrário, a escravidão permeou toda a história política e econômica de grandes países e remonta ainda ao Império Romano. Ou seja, a submissão do mais fraco pelo mais forte e o crescimento deste é praticado há séculos e ninguém contestou a grandeza e a força do Império Romano, ninguém criticou os meios para que se alcançassem o progresso, o retrógrado estaria na estagnação do processo de desenvolvimento de um país. Temos aí, mais uma vez uma contradição alencariana manifestando a própria angústia romântica com a impossibilidade de equilibrar o social e o individual, o retrógrado e o utopista.

Outro aspecto romântico que devemos analisar em Alencar, é o idealismo das relações entre senhores e escravos. No caso dos romances Til e O Tronco do Ipê, ambos ambientados em grandes fazendas do interior de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente, o autor nos mostra a conveniência de se mandar os escravos para os trabalhos agrícolas. Em ambos, os escravos são tratados com dignidade e respeito por todos da fazenda. Em Til, a personagem Zana, uma escrava fiel aos seus senhores, acaba a vida em uma casa velha abandonada de tudo e de todos - exceto Berta que a visita sempre- vivendo com medo e sofrendo de loucura e debilidade mentais após presenciar o assassinato de sua sinhá. Ou seja, a preta velha Zana estava vivendo dignamente naquela fazenda até o momento em que perdeu seu alicerce, ou seja, o seu senhor. Baseando-se nessa conseqüência podemos inferir que esse abandono simboliza uma liberdade cerceada pela miséria vivida pelo escravo sem o “auxílio” de seu senhor.

Seguindo o mesmo ponto de vista, no romance O Tronco do Ipê, as personagens escravas são tratadas com respeito e dignidade nas fazendas e até possuem liberdade para fazer suas festas sem a menor restrição. No capítulo X chamado Batuque, os escravos fazem uma grande festa de acordo com seus costumes para comemorar o Natal. Em Til também temos como exemplo o capítulo XVIII intitulado O congo, no qual os escravos desfilam numa espécie de cavalgada vestindo-se de reis e rainhas do Congo e são ovacionados por todos da fazenda, inclusive os patrões. Essa grande harmonia entre senhores e escravos é “uma tentativa de transformar seu meio ambiente imediato e sua própria vida em um paraíso no presente” selecionando alguns traços positivos da realidade (LÖWY, 1995).

Entretanto, nas peças teatrais O Demônio Familiar e Mãe, encenadas em 1857 e 1860 respectivamente, transmitem claramente o equívoco de se manter os escravos nas cidades, pois trazem a imoralidade para o interior das famílias. Na primeira peça, o escravo Pedro, movido pelo sonho de se tornar cocheiro, trama vários desentendimentos dentro da família para que Eduardo se case com uma mulher rica da vizinhança. Ao final de tantas más ações, Eduardo decide libertar Pedro. E até mesmo diz em tom quase pedagógico com intenções claramente persuasivas: “É a nossa sociedade brasileira a causa única de tudo quanto se acaba de passar”. Ou seja, uma pessoa comum, representando a sociedade, teve a iniciativa própria para a manumissão do escravo sem a necessidade da intervenção de leis para que isso ocorresse. Ao acreditar na iniciativa individual, Alencar rejeita o papel extremamente controlador do Estado.

Pensando-se agora em relação à educação necessária aos escravizados, no discurso sobre o elemento servil em 11-07-1871 – um pouco mais de dois meses antes da promulgação da Lei do Ventre Livre - Alencar salienta a importância de se educar os escravos para que os mesmos pudessem sair dignamente do cativeiro:


Nós queremos a redenção de nossos irmãos, como o queria o Cristo. Não basta para vós dizer à criatura, tolhida em sua inteligência, abatida na sua consciência; Tu és livre; vai; percorre os campos como uma besta fera! (p.228)
Pode-se notar nesse discurso como a imagem do escravo é associada à ignorância, e à incapacidade inerentes à condição do elemento servil. Precisando ser “protegida”, portanto, pela manutenção do regime escravista. Devemos também ressaltar que Alencar se posicionava contra a Lei do Ventre Livre por acreditar que tal medida era injusta para com os escravos em geral, pois a lei só “garantiria” a liberdade das crianças que nascessem a partir da promulgação da nova lei, ou seja, Alencar defendia uma solução que atingisse todos os escravos, tanto a criança como o adulto:
Não, Senhores, é preciso esclarecer a inteligência embotada, elevar a consciência humilhada, para que um dia, no momento de conceder-lhe a liberdade, possamos dizer: Vós sois homens, sois cidadãos. Nós vós remimos não só do cativeiro, como da ignorância, do vício, da miséria, da animalidade em que jazíeis (p.229)
A partir desse discurso, percebemos explicitamente que Alencar afirma a ignorância, a miséria, o vício e a animalidade na qual o escravo sobrevive, e acaba contradizendo sua teoria defendida anteriormente de que o contato da “raça bruta” com o branco por si só traria muitos benefícios civilizatórios para os escravos. Visto que a consolidação da emancipação estava próxima, o escritor argumenta a precocidade da manumissão, pois os escravos não estavam ainda preparados e capacitados para se manterem sozinhos. Os brancos, mais uma vez, deveriam protegê-los e instruí-los até elevá-los à condição de cidadãos. Após o contato direto com o africano ocorrido pela colonização do continente, uma visão depreciativa do negro ecoou nas colônias da América: a colonização do Novo Mundo impunha uma ideologia que justificasse o tráfico e a escravização dos negros, passando-se de uma caracterização dogmática para uma definição de caráter científica advinda do Iluminismo (GOMES, 2009). Portanto, a instrução necessária para a “raça bruta” tinha um “conteúdo” bem diversificado:
Refiro-me à deslocação dos braços escravos das cidades para os trabalhos da agricultura, como meio preparatório para a emancipação; o que muito convém até mesmo como medida de segurança pública. (p.36).
Esse trecho retirado do seu discurso sobre o crédito agrícola em 07-07-1870 - portanto, anterior aos discursos sobre o elemento servil - nos dá pistas de como deveria ser, efetivamente e não apenas discursivamente, esse “meio preparatório” para a emancipação. Alencar chega a tocar na questão da instrução pública nesse mesmo discurso sobre a valorização fundiária e também do crédito agrícola necessário para o desenvolvimento da agricultura, principal fonte de riquezas para o país:
Quando tanto se fala em instrução pública, admira que não se tenha atendido a essa necessidade (...). É preciso compreender neste País que ler não é um luxo, e sim uma necessidade do espírito (p.36).
É relevante considerar que Alencar dirige esse apelo ao ministro da agricultura. Embora saiba que não compete ao ministério da agricultura desenvolver a instrução, ela está intrinsecamente ligada à imigração estrangeira. A necessidade de se criar meios para a educação do povo é legítima porque serviria como um atrativo para a imigração dos europeus. Retirando-se os escravos das cidades e elevando o grau de educação das mesmas, o imigrante viria espontaneamente para o Brasil. Em outras palavras, a instrução pública é diretamente ligada ao grau de civilização, dessa forma, deveria ser desenvolvida para que o país pudesse atrair o imigrante europeu afastando a imagem do brasileiro selvagem associado ao estereótipo do escravizado e do indígena, mas para Alencar a imagem do brasileiro idealizado em Peri seria bem mais aceitável que um passado de gerações de escravizados africanos.

Embora Alencar defendesse em um momento que a “raça bruta” não poderia ser “jogada” de repente na sociedade, que deveria ser preparada e educada para que nela atuasse e se integrasse como cidadão, uma leitura mais abrangente da sua produção literária e política, compreendida como integrante de uma mesma estrutura de intencionalidades, permite a percepção do seu posicionamento em relação aos escravizados, deixando bem claro o lugar e a condição que os mesmos poderiam ocupar numa sociedade com sistema livre de trabalho. Alencar apresenta, no jornal Dezesseis de Julho em 1870, o seu projeto para a manumissão progressiva dos escravizados:


Essa verba [fundo misto para a manumissão] será aplicada conforme as condições estabelecidas; devendo entre estas figurar duas à que damos a maior importância, são, a preferência ao sexo feminino, e a preferência à instrução. Manumitir o ventre é um benefício que não fica no indivíduo; mas se estende a uma geração. Dar liberdade a quem saiba ler e escrever, fora emancipar não somente um braço, porém uma cabeça. Serão poucos os indivíduos que estão neste último caso; mas talvez o prêmio da liberdade se torne um incentivo poderoso para a instrução dessa classe infeliz.
A preferência ao sexo feminino vai ao encontro da sua visão nacionalista de manter braços para a produção agrícola. Ou seja, as mulheres deveriam ter preferência como reprodutoras garantindo os futuros trabalhadores agrícolas. A outra condição: saber ler e escrever pode ser interpretada de duas formas: a primeira de que Alencar intencionava com essa medida a manutenção do regime escravista por um bom tempo, pois como ele mesmo assegura, poucos estariam nessa condição. Já uma segunda versão, estaria ligada a uma visão, digamos, otimista, de que Alencar estaria preocupado com a formação básica dos escravizados para se integrarem à sociedade do mundo urbanizado como cidadãos inteligentes. Ambas são perfeitamente válidas e plausíveis se pensarmos no Brasil do progresso e da civilização e ao mesmo tempo no Brasil retrógrado da escravidão, pois para Alencar a primeira dependia substancialmente da segunda.

Para não termos uma limitada compreensão do sentido da instrução proposta por Alencar aos escravizados, precisamos sublinhar que as propostas educativas do Império se estendiam não apenas aos escravizados e negros, como principalmente a educar e disciplinar os pobres (VEIGA, 2008). Acoplada à ideia de construção da moralidade do povo, a instrução elementar, atingiu em grande medida, o discurso hegemônico que considerava esses elementos essenciais ao progresso e à modernidade do país (REIS, 2010). Alencar, inserido nesse contexto de formação de ideias, partilhava dessa mesma concepção de educação:


A devassidão dos costumes nesta grande capital já ataca profundamente a infância, sobretudo nas classes menos abastadas, Não possuímos casas de educação correcional onde se destruam os germens dos vícios precoces. (A Festa Macarrônica – Escritos políticos- 1870)
O próprio escritor defende uma educação voltada para a mudança de costumes das relações sociais. Havendo essa “revolução”, em outras palavras, o progresso natural da cultura e dos costumes nacionais paralelamente com o progresso social e econômico do país, não haveria necessidade da intervenção de leis para a emancipação. Os próprios estudos mostram que houve um programa de políticas e propostas para disciplinar e educar os pobres e os ex-escravizados no século XIX com o intuito de formar a nação, entretanto, deixam claro a necessidade de se educar tanto os pobres, negros livres como os escravizados em diferentes espaços de formação (BARROS, 2005).

Diferentemente de Alencar, em Haley, que fazia parte de outro contexto social, político e histórico e, além disso, era afro-descendente, a escravidão é vista como uma aberração. No seu romance Negras Raízes: a saga de uma família, o autor procura chocar o leitor relatando a sua genealogia, suas negras raízes.

Alex Haley escreveu e publicou seu romance durante o movimento de direitos civis dos anos 1970 – contexto do centenário da abolição norte americana ocorrido em 1863 - quando então os americanos centraram sua atenção na história dos afroamericanos e nas conseqüências deixadas pela escravidão. Assim, no romance encontramos o ponto de vista de um descendente negro, retratando, com detalhes, o cotidiano da vida dos escravizados: sofrimento, tortura, dores e humilhações, assim como todo o processo de lutas, resistências dos ex-escravizados para ter acesso ao conhecimento.

O autor inicia a sua obra com a história do seu trisavô Kunta Kinte em uma tribo na África. Relata os costumes, a educação das crianças, a divisão de posição pela idade e as tradições nessa tribo. Logo então narra a captura de Kunta Kinte, a conseqüente agonia e sofrimento dos cativos no navio negreiro. Nessa passagem do romance podemos identificar uma memória silenciada. Negada por muito tempo pela memória oficial a respeito da escravidão. Haley resgatou essa memória, arrancando-a de dentro dos porões de um navio fétido, agonizante, onde mulheres eram estupradas, os cativos passavam frio, fome, sede, privações, muitos jogados ao mar para saciar a fome dos tubarões. A escrita de Haley, diferente da de Alencar, é de denúncia social:


Kunta perguntou-se se não teria enlouquecido. Nu, acorrentado, algemado, despertou deitado de costas, entre dois homens numa escuridão total, um calor sufocante, um cheiro horrível, uma confusão indescritível, uma algazarra terrível, de gente a gritar, soluçar, rezar, vomitar. Kunta sentiu seu próprio vômito, sobre o peito e a barriga. Todo o corpo doía, das pancadas que recebera desde sua captura, há quatro dias. De costas nuas Kunta sentiu uma estranha vibração nas tábuas em que estava estendido. Um calafrio lhe percorreu o corpo e algo pareceu inchar dentro de seu peito. A seu redor, ouviu estranhos ruídos e compreendeu que eram os cativos tentando erguer-se, fazendo força contra as correntes. Teve a sensação de que todo o sangue de seu corpo concentrava-se na cabeça, que latejava terrivelmente. O terror dominou-o um instante depois ao sentir que aquele estranho lugar estava-se deslocando, levando-os para longe. Os prisioneiros começaram a berrar desesperadamente, clamando por Alá e seus espíritos, batendo com a cabeça na madeira, sacudindo estrepitosamente as correntes. Os gritos, soluços e preces angustiados continuaram, só diminuindo quando os homens ficaram inertes, as forças esgotadas, ofegando ruidosamente para recuperar o fôlego, em meio à escuridão malcheirosa. Kunta sabia que nunca mais tornaria a ver a África (HALEY, 1976, p. 128-134).
Na segunda parte da narrativa o autor relata a chegada de Kunta Kinte à América do Norte, onde é vendido, fugindo várias vezes, até ter metade do seu pé amputado. É comprado por um homem que o trata “melhor”, se tornando jardineiro da casa grande. Casa com a escrava doméstica Bell, que já com 43 anos dá luz a uma menina chamada Kizzy, significando em mandinga aquela que fica. Tal nome fora escolhido pelo pai por saber que sua esposa em outrora tivera duas filhas vendidas pelos seus antigos senhores. Kizzy também é vendida por ter tentado ajudar um amigo escravo fugir. Apesar de o dono ser um homem “bom”, ele não admitia fugas. Kizzy é estuprada pelo seu novo dono e tem um bebê. O autor assim continua contando detalhes dos costumes de cada etapa da escravidão negra na América e dos seus familiares:
Quando Kizzy tinha 16 anos, contaram vovó Palmer e as outras mulheres da família Murray, fora vendida para um novo massa 5, Tom Lea, que possuía uma pequena plantação na Carolina do Norte. E fora nessa plantação que Kizzy tivera um filho, cujo pai era Tom Lea, que dera ao menino o nome de George. Quando George tinha quatro ou cinco anos, a mãe começara contar-lhe as histórias e as palavras que ouvira do Africano, até que ele as conhecesse profundamente. Quando George tinha 12 anos fora entregue a um certo tio Mingo, contavam as mulheres na varanda. Era esse tio Mingo quem cuidava dos galos de briga do massa, e George tornara-se o ajudante dele. Ainda adolescente, George conquistara tamanha reputação entre os aficionados de brigas de galo que ganhara o apelido que levara para o túmulo: “Chicken George”. Quando tinha 18 anos, George conhecera e casara-se com uma moça escrava chamada Matilda, que acabara lhe dando oito filhos. A cada criança que nascia, diziam vovó e as outras, Chicken George reunia a família em sua cabana de escravo, contando novamente a história de seu avô Africano chamado “Kin-tay”, que chamava a guitarra de “ko”, um rio na Virgínia de “Kamby Bolongo” e outros nomes estranhos, que dissera estar cortando madeira para fazer um tambor quando fora capturado e reduzido à escravidão. As oito crianças cresceram, casaram-se, tiveram seus próprios filhos. O quarto filho, Tom, era um ferreiro quando fora vendido com o resto da família para um Massa Murray, que possuía uma plantação de tabaco no Condado de Alamance, Carolina do Norte. Lá, Tom conhecera e casara-se com uma moça escrava que era meio índia, chamada Irene, que vinha de uma plantação de um certo Massa Holt, que tinha também uma fábrica de algodão. Irene tivera também oito filhos. A cada criança que nascia, Tom mantinha a tradição do pai, Chicken George, reunindo a família e contando a história do Africano e seus descendentes (HALEY, 1976, p. 509-510).
A memória histórica vai perpassar quase todo o romance, sempre em disputa com a memória oficial. Assim, na terceira parte da narrativa, o autor trata da resistência à escravidão, revoltas, guerras, a formação das 13 colônias, massacre de índios e negros, mercado de negros escravos, castigo e sofrimento de negros e índios, leis perversas contra negros escravos, costumes indígenas e africanos, guerra da independência americana, a guerra dos sete anos, a revolta no Haiti, guerra dos Estados Unidos contra a Inglaterra, campanhas abolicionistas, guerra do norte livre contra o sul escravista, abolição do tráfico negreiro e etc.

A memória histórica contribuiu para que Haley no presente viesse relatar as atrocidades de um período escravocrata e, com isso, construir uma outra imagem dos saberes e modos de ser dos negros. De acordo com Lovisolo (1989) essa memória pode nos servir como âncora e plataforma. Enquanto âncora possibilita que, diante do turbilhão da mudança e da modernidade, não percamos a nossa identidade. Enquanto plataforma permite que nos lancemos para o futuro com os pés firmes plantados no passado criado, recriado ou inventado. Por fim, Haley apresenta no seu romance todo o processo de luta, resistências, disputas políticas e ideológicas para a emancipação dos escravos como também o fim da escravidão:

(...) Não muito depois que o avanço triunfal dos ianques chegou ao mar, Tom trouxe a notícia sensacional:

- Charleston caiu!

- Pouco depois, uma outra notícia:

- O General Grant tomou Richmond!

E, finalmente, em abril de 1865:

- O General Lee rendeu todo o Exército da Confederação! O Sul desistiu da guerra!

A alegria na senzala foi incontrolável. A família inteira saiu correndo para a estrada, onde já se encontravam centenas de outros pretos. E todos gritavam, riam, choravam, pulavam, cantavam, rezavam.

- Livres, Senhor, livres! Graças a Deus Todo-poderoso, livres finalmente!

Mas alguns dias depois a alegria das comemorações foi substituída diante da notícia terrível do assassinato do Presidente Lincoln.

- Oh, desgraça! - gritou Matilda, enquanto a família chorava desesperadamente em torno dela, assim como milhões de outros pretos, que tinham reverenciado o Presidente como o seu Moisés. Em maio, como estava acontecendo por todo o Sul derrotado, Massa Murray convocou seus escravos para uma reunião diante da casa-grande. Não era fácil para eles contemplarem os rostos abatidos do Massa, de Missis Murray, que choravam sem parar, e de Old George Johnson e sua Martha, que também eram brancos. Com voz trêmula, Massa Murray leu bem devagar o que estava escrito no papel em sua mão, dizendo que o Sul perdera a guerra. E fazendo um esforço tremendo para não sufocar, diante da família preta parada a sua frente, ele acrescentou:

- Acho que isso significa que vocês são tão livres como nós. Podem ir embora, se quiserem. Podem ficar, se preferirem. E quem quer que decida ficar, eu tentarei pagar alguma coisa...Os Murrays pretos começaram a pular, cantar, rezar, gritar, numa explosão de alegria renovada.

- Somos livres! Finalmente livres! Obrigado, Jesus! (HALEY, 1976 pg. 489).


Nesse jogo de memória, ligado aos sentimentos, o presidente Lincoln aparece simplesmente como um salvador, que conhecendo o sofrimento dos escravizados institui a abolição. Entretanto, assim como nos Estados Unidos, no Brasil a emancipação foi uma articulação política desenvolvida com o intuito de atender aos interesses econômicos justificados pela industrialização e o sistema capitalista de produção. José de Alencar defendia a manumissão progressiva exatamente para não abalar a economia do país, baseada na produção agrícola e, além disso, considerava-a como uma missão religiosa de reabilitação e civilização da “classe infeliz” diferente das apropriações igualmente românticas de Haley, nas quais a fé religiosa dos escravizados percorre todo o romance. Alguns intelectuais brasileiros oitocentistas, Joaquim Nabuco é um deles, defendiam a abolição, pois a instituição não mais existia nas sociedades europeias civilizadas e industrializadas e o Brasil portanto, deveria segui-las como modelos sociais, econômicos e culturais.

Quanto à inserção do negro à educação, é possível notarmos diferenças entre Alencar e Haley. Dentro de um sistema escravista altamente repressivo e controlador, o acesso dos escravizados aos códigos de escrita e ao conhecimento eram igualmente controlados. No seu romance, Haley apresenta personagens negros discutindo sobre o seu acesso à leitura e à escrita:


A lei diz que nenhum negro pode aprender a ler e a escrever. A lei diz para não dar nenhum livro a um negro. Eles têm até uma lei que proíbe os negros de baterem em tambores. Os negros não podem fazer nenhuma das coisas que faziam na África. (HALEY, 1976 pg. 217).
Assim, para os escravizados, tão difícil e humilhante quanto viver numa sociedade escravocrata era não ter o direito de adquirir algum tipo de instrução, mesmo que estas se referissem apenas às técnicas elementares da leitura e da escrita.

Observamos nas obras de José de Alencar e Alex Haley como os discursos são apropriados de diferentes pontos de vistas. Alencar propõe uma educação pelo trabalho exatamente porque os escravizados não teriam capacidades para desenvolverem outras atividades, sua inteligência é associada aos instintos animais e infantis. Por outro lado, Haley mostra a posição dos escravizados em relação aos códigos da linguagem. Os escravizados são vistos pelos massas como estúpidos - visão elitista partilhada por Alencar- e aqueles que soubessem ler e escrever eram vendidos, pois não seriam igualmente manipuláveis. No entanto, é possível observar em Negras Raízes, que a resistência dos escravos e as variadas formas das quais se valeram para ter acesso à escrita e à leitura, já se manifestavam desde os duros tempos do cativeiro:


– Ouvi dizer que uma porção de brancos importantes se encontraram lá em Filadélfia. E eles chamaram o encontro de Primeiro Congresso Continental. Bell disse que já tinha ouvido falar a respeito. Lera a notícia com a maior dificuldade, na Gazette da Virgínia, comprada por Massa Waller. Ela partilhou a informação com o velho jardineiro e com o violinista. Eram os únicos que sabiam que Bell era capaz de ler alguma coisa. Conversando a respeito, tinham concordado que Kunta não deveria saber disso. É verdade que Kunta sabia ficar de boca fechada e era capaz de compreender as coisas e expressá-las inesperadamente bem, para alguém que viera da África. Mas os dois achavam que ele ainda não estava em condições de avaliar as graves conseqüências, se o Massa sequer suspeitasse de que Bell sabia ler. Ela seria vendida no mesmo dia (HALEY, 1976 p.236).
- Sei ler alguma coisa – confessa Bell, hesitante. O Massa me venderia imediatamente se soubesse disso (...) Foram os filhos do meu Massa daquele tempo que me ensinaram. As crianças gostavam de brincar de professor, porque estavam indo à escola. O Massa e a Missis não deram a menor importância, porque os brancos preferem pensar que os negros são estúpidos que não podem aprender coisa alguma (HALEY, 1976 p. 273).
É possível observar que na obras de Alencar e de Haley, a visão elitista preferia acreditar ou ver os negros como estúpidos e incapazes de aprenderem ou fazerem parte de um mundo letrado. No entanto, mesmo com todos esses empecilhos, em Negras Raízes, percebemos que os cativos foram capazes de desafiarem os senhores hostis os quais queriam impedi-los do acesso à cultura escrita. Conscientes de suas limitações, os escravizados buscaram alternativas no intuito de derrubar as barreiras impeditivas da aprendizagem, da informação e do conhecimento. Por outro lado, no Brasil Império, a busca de uma homogeneização cultural, permitiu - apesar da lei de 1824 que proibia a freqüência dos escravizados nas escolas públicas brasileiras - que os mesmos freqüentassem aulas de primeiras letras, embora não fossem muitos, como afirma Alencar, alguns escravizados sabiam ler e escrever. Enquanto o Brasil adotava a política da homogeneização e da democracia racial afirmando a necessidade de formar os pobres, negros livres e escravizados, mas não ao lado dos brancos, na obra de Haley, emerge, por sua vez, a “casa dividida”. Lincoln via a questão do Sul como algo a ser resolvido pelos norte-americanos, que dentro do seu conceito de nacionalidade, excluía o negro. Enquanto o Brasil adotava o discurso da falsa democracia racial, e o próprio José de Alencar trabalhou para divulgá-la, os Estados Unidos adotava o discurso da desigualdade racial. Lincoln concordava com essa visão na medida em que, após a abolição ocorrida em 1863, “convidou” os negros a emigrarem para a América Central. Nos dois casos, partia-se do princípio da desigualdade das raças e da supremacia do branco sobre o não-branco (GOMES, 2009).
Considerações Finais
As noções preconceituosas a respeito dos negros foram posteriormente alimentadas pela ciência pós-iluminista, elas terminariam por se cristalizar na ideologia explicitamente racista proposta pelo cientificismo da segunda metade do século XIX, com sua concepção de desigualdades inatas nos diferentes grupos humanos. Dessa forma, comparando as visões de escravidão e do processo educativo dos cativos nas obras de Alencar e de Haley podemos nos apropriar da tecitura do discurso do escravizado e do discurso elitista.

Haley procurou valorizar uma história do cativeiro, toca na “ferida” histórica da escravidão. Diferente de Alencar, que pretendeu romantizar a relação entre senhores e escravos, a sua escrita é de denúncia, de uma história não oficial, esquecida ou nunca conhecida, provando que nem todas as histórias foram escritas pelos vencedores. Haley trata das condições aterrorizadoras e humilhantes do cativeiro, mas principalmente apresenta e valoriza toda uma forma de resistência por parte dos escravos contra ela culminando com a vitória conquistada pelos negros e simbolizada pela sua própria trajetória no mundo letrado.

Quanto ao processo educativo dos escravos, notamos diferenças entre as obras de Haley e José de Alencar. Alencar, seguindo o discurso elitista da supremacia racial dos brancos e o discurso das pacíficas relações sociais entre senhores e escravos, para justificar a permanência da escravidão, sugere uma educação adequada às características intelectuais e inferiores dos escravizados: o trabalho braçal nas lavouras. Com intenções claramente eugenistas, o desenvolvimento dos sistemas educativos para a população era legítimo na medida em que estimularia a imigração europeia. Haley, por sua vez, evidencia a grande capacidade de mobilidade dos escravizados ao buscarem o acesso ao conhecimento numa sociedade racialmente dividida, repressora e claramente adepta ao racismo científico do Iluminismo que considerava os mesmos como incapazes e de baixíssima capacidade intelectual.
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Notas

1 Esta comunicação faz parte das atividades acadêmicas realizadas no âmbito do Grupo de Pesquisa LIHED/FEUSP/CNPq Literatura, História e Educação: faces do ensino e da pesquisa sobre formação e profissão docente, coordenado pela Profa. Dra. Dislane Zerbinatti Moraes (FEUSP).

2 Informações sobre a vida de Haley e seu percurso foram retiradas do prefácio de seu livro traduzido no Brasil como Negras Raízes: a saga de uma família.

3 ALENCAR, José de. Cartas a favor da escravidão.(org.) Parron, Tâmis. São Paulo: Hedra, 2008. Nas Cartas de Erasmo, Alencar salienta reiteradamente que longe de fazer mal, a escravidão foi um grande benefício para a “raça bruta”, visto que pelo contato com o branco, o povo civilizado, “o homem selvagem”, “embrutecido”, seria igualmente civilizado. Porém, esse processo levaria muito tempo, pois a “rude crosta do africano”, seria polida com muito trabalho. Por outro lado, a sua condição de selvagem trouxe a energia necessária “para lutar com uma natureza gigante”. (p.71)

4 Para Alencar, a emancipação dos escravos e toda a articulação política envolvida nessa questão tinham apenas o objetivo de evidenciar figuras e personalidades políticas, ou seja, era apenas uma política de D. Pedro II para elevar sua glória nos países europeus e sua própria vaidade. Em discurso de 13-07-1871, Alencar deixa claro que combaterá com todas as forças a emancipação, pois esta tem apenas a intenção de agradar à “filantropia européia” e à “opinião estrangeira”. (p. 226)

5 Segundo o tradutor do livro A. B. Pinheiro de Lemos, Kunta Kinte ao chegar como escravizado à América do Norte aprende que o dono da plantação e sua esposa são o “massa” e a “missis”. Uma adaptação mais parecida com o português seria “sinhô” e “sinhá”. No entanto, “massa” possuía uma aplicação muito ampla para os negros americanos, servindo para todos os homens brancos, a exceção dos poor crakers, os brancos do Sul que não tinham escravos e trabalhavam a terra pessoalmente.

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