Oficina de ritmo, um relato de experiência Rudá Barreto, Bolsista prolicen



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Oficina de ritmo, um relato de experiência

Rudá Barreto, Bolsista PROLICEN

Projeto Cantar, Encantar e Ensinar

Licenciatura em Música

Coordenação Daniella Gramani/ Dep de Música / CCTA

O projeto “Cantar, encantar e ensinar: vivência orientada da prática do ensino do canto popular”, cuja coordenadora é a da professora Daniella Gramani, tem como principal objetivo fornecer ao aluno de licenciatura em música a oportunidade de vivenciar de maneira orientada a prática específica do ensino do canto popular, bem como iniciá-lo na pesquisa em educação musical. Para a realização dessas metas, no primeiro semestre de 2013, bolsistas e coordenação, se reuniram uma vez por semana para discutir questões pertinentes ao ensino do canto e da música popular. A partir dessas reflexões foram planejadas algumas oficinas que estão sendo ministradas nesse segundo semestre, sendo elas:



  1. Noções básicas de fisiologia da voz: oficina de 3 horas/aula, aberta ao público e ministrada na UFPB. Foram aproximadamente 90 vagas ofertadas;

  2. Exercícios para o cantor popular: oficina que será ministrada em duas turmas, uma de iniciantes e outra de profissionais;

  3. Oficina de ritmo para o cantor popular: oficina de 6 horas/aula, aberta ao público.

O presente relato de experiência trata da descrição da Oficina do Ritmo para o Cantor Popular, ministrada pelo bolsista Rudá Barreto e pelo voluntário Edvaldo Amaral.
O ritmo e o canto

O ritmo é a organização do tempo. O ritmo não é, portanto, um som, mas somente um tempo organizado. Segundo Platão, o ritmo é a ordem do movimento. A palavra ritmo ( em grego rhythmos) designa “aquilo que flui, aquilo que se move”. MED (1996, p.20)

Por ritmo, entendo como sendo um elemento que agrega, sendo a soma das partes que resultam em um todo. O corpo é um instrumento complexo e completo onde dele é possível extrair infindas sonoridades. A fala, espontaneamente é dotada de inflexões, de acentuações, sotaques (podendo ser mais arrastada, mais suave, mais recitada, mais cantada, etc.). Ações voluntárias como andar, respirar e involuntárias como o bater do coração, o ciclo da gestação obedecem a pulsos ou frequências que podem ser regulares ou irregulares. Portanto, nossa vida é cercada de acontecimentos rítmicos.

No entanto na música, e mais especificamente no canto, às vezes nos deparamos com algumas dificuldades que envolvem a percepção rítmica.

É possível notar a dificuldade em manter-se preciso e seguro quando em melodias de maior complexidade rítmica. Ritmos compostos e/ou mistos, melodias sincopadas, ou até retornar após uma “virada” de bateria, por exemplo, ainda são um pesadelo para vários cantores. É preciso, antes de tudo, estar ciente da relevância da escuta – do conjunto e no conjunto – e perceber-se como um elemento integrante e integrador da música.

É bastante comum observar em cantores iniciantes, como também amadores, uma dificuldade em perceber-se na música, de situar-se em meio a um “todo” sonoro, além de manter-se na pulsação. É visto que há uma tendência natural em “correr”, ou seja, adiantar-se no pulso da música. Essa dificuldade é tida como a mais ocorrente nesse âmbito já delimitado e, para resolvê-la é preciso, primeiramente, a prática diária até que a música seja internalizada e cantá-la se torne algo natural, como um desabafo, ou mesmo um diálogo entre amigos. Em segundo lugar é preciso se entender como um elemento de um todo musical. É necessário compreender que, além da voz, há (quando há) outros instrumentos sustentando ritmicamente e harmonicamente a canção, e muitas vezes esta base facilita a compreensão geral da música, construindo e/ou entregando os caminhos que podem ser trilhados pelo intérprete, fazendo assim com que a música deixe de ser um esboço, e passe a ser um desenho com linhas bem definidas.

Não é fácil falar ou discutir de forma clara e precisa a respeito de “tempo” e duração, simplesmente por estarmos lidando com algo abstrato, não palpável. O tempo não se vê, sendo assim, não é tão simples quanto mostrar ao aluno o desenho de um acorde, ou como se toca um ritmo no instrumento. Por isso a oficina do ritmo para cantores foi elaborada tendo como base a vivência rítmica.
A oficina de ritmo

O objetivo principal dessas aulas era aperfeiçoar a percepção rítmica de cantores com exercícios essencialmente práticos, simples, porém eficazes, fornecendo bases para desenvolver outras aptidões e a conscientização dos elementos do ritmo.



Como objetivos específicos podemos destacar a introdução de elementos técnicos da música de maneira lúdica, a descoberta do próprio corpo e de suas possibilidades de movimento como elemento importante no aprendizado musical e do ritmo e o desenvolvimento da criatividade para descoberta do estilo pessoal.

Os conteúdos trabalhados foram:



  1. Noção de pulso (Binário, ternário)

  2. Andamento (rápido, lento)

  3. Acentuação (tempo forte, tempo fraco)

  4. A importância de cantar e tocar ouvindo.

  5. Memorização Rítmica

  6. Combinação Rítmica

  7. Reconhecimento rítmico.

Na primeira turma foram ofertadas 20 vagas e houve um grande interesse por parte dos alunos.

Durante o processo inicial de elaboração da oficina, foi preciso ter em mente de que nada é tão óbvio quanto parece. Assuntos e exercícios que, para mim, pareciam infantis e extremamente simples se mostraram de grande riqueza e relevância pois, a partir destes, novos exercícios com variados graus de dificuldade surgiram e sempre vinham carregados de novidades até mesmo para nós, os professores. Mais difícil ainda, é consertar certos vícios que os alunos trazem de “casa”. É preciso resignificar, reconstruir, e saber aproveitar o que lhe foi oferecido, não querendo retirar do aluno a bagagem musical que ele já carrega, mas objetivando a melhoria e o aperfeiçoamento de uma compreensão que pode ser, dependendo da situação, expandida ou simplificada.

A oficina foi elaborada sobre três importantes pilares: percepção, improvisação e criação. A partir destes alicerces buscamos trazer para um universo amplo e panorâmico, assuntos que a estes eram correspondentes.

Houve uma busca pelo aprendizado a partir da percepção. Dissociamos-nos de termos técnicos, “frios e calculistas” e procuramos sempre direcionar o entendimento pelo viés da ludicidade e promovendo a integração de diferentes assuntos. Conceitos de elementos musicais de maior relevância, como pulsação, foram trabalhados exaustivamente, mas de maneiras distintas, de modo que não houve cansaço.

Músicas de diferentes gêneros (coco, samba, baião, xote, salsa) e compositores foram trabalhadas visando a ampliação do universo sonoro. Como a oficina se destinava a cantores, foi explorado o ritmo das palavras, sua entonação, sua acentuação e demais atributos correlatos à fala. Vários exercícios foram propostos acerca desse assunto.

Durante as aulas, o enfoque manteve-se em pulsação e andamento. Foram propostos exercícios como andar no pulso e andamento de uma música; dizer o próprio nome no pulso estabelecido; reconhecer e distinguir um compasso ternário e quaternário; além de exercícios que exigiam uma maior coordenação motora.

A percussão corporal foi bastante utilizada, trabalhando simultaneamente o reconhecimento, combinação, memorização e improvisação rítmica, propiciando a descoberta do próprio corpo e de suas possibilidades de movimento.

O principal objetivo destes exercícios e da oficina em geral foi de causar um estranhamento e motivar os alunos a buscarem superar as possíveis dificuldades apresentadas durante a prática dos exercícios. Procuramos, assim, sempre relacionar as “brincadeiras” propostas com o ato em si de cantar, o modo de se portar em palco e de usar o corpo como um aliado durante as apresentações. Enfim, todos os exercícios tinham uma finalidade.

Podemos dar destaque a um exercício realizado na última aula da oficina que envolvia a noção de pulsação, de alturas, além da criatividade. Esse exercício foi posto para o desfecho da oficina por demandar um conhecimento que fora acumulado durante as aulas anteriores e exigir uma integração e conforto entre os alunos, os deixando inibidos e bastante à vontade.

O exercício foi nomeado “Baião das frutas”. Em círculo, cada um disse um nome de uma fruta qualquer, sem que houvesse nomes repetidos. Feito isso, o objetivo era que a pessoa que sugeriu a fruta pusesse uma melodia em sua fruta, em seguida a pessoa ao lado deveria fazer o mesmo até chegar à última pessoa da roda. Ao final desta brincadeira, tínhamos uma música criada exclusivamente pela turma.

Este exercício foi bastante satisfatório. A empolgação dos alunos os levou a bater palmas, a bater o pé no ritmo, a dançar. O resultado foi além de nossas expectativas.
Conclusão

Foi observado, durante a oficina, que a maioria dos alunos conseguiu acompanhar o ritmo dos exercícios, porém houve uma minoria que apresentou dificuldades em exercícios básicos como bater o pé no pulso e cantar “Parabéns pra você”. Esta minoria teve um acompanhamento diferenciado, porém, não separado da turma, onde tiveram o auxílio de um assistente.

Pudemos perceber, no decorrer da oficina, um progresso e uma maior conscientização quanto aos assuntos abordados, em especial o pulso musical. Os alunos já sentiam e notavam quando em algum exercício, involuntariamente, a pulsação acelerava. Houve, além do mais, um desenvolvimento motor, sendo assim, um maior domínio do corpo associado ao canto, trabalhados simultaneamente, porém de maneira independente.

Numa tentativa de buscar uma significativa compreensão musical não apenas para fins performáticos, mas para compreender a música como algo natural ao ser humano para que todos sejam capazes, de alguma forma, de perceber e externar a música de forma criativa além de desenvolver e aprimorar em nós (alunos de licenciatura em música) técnicas e ferramentas metodológicas para a transmissão de tais conteúdos, acreditamos ter atingido nossa meta.

Ao término da oficina houve uma breve discussão a fim de saber se a oficina correspondeu ao esperado dos alunos e todos os comentários foram positivos. Portanto, houve uma troca enriquecedora de aprendizado professor-aluno.
REFERÊNCIAS
MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. rev. e ampl. Brasília: Musimed, 1996.

SANDRONI, Carlos. “Uma roda de choro concentrada”: reflexões sobre o ensino de músicas populares nas escolas. IX Encontro Anual da Associação Brasileira de Educação Musical. ANAIS, p.19-26, 2000.



SCHAFER, Murray. O Ouvido Pensante. São Paulo: Editora Unesp, 1991.





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