Observemos alguns exemplos de variação relacionados à classe social, à idade e ao sexo



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APOSTILA DE LÓGICA,

ARGUMENTAÇÃO E COMUNICAÇÃO II

Curso: Administração

Profa. Ms. Rejane da Silva Marques

JUIZ DE FORA

2012.1

UNIDADE I – ARGUMENTAÇÃO E LINGUAGEM

1. DISSERTAR E ARGUMENTAR

Dissertar é o mesmo que desenvolver ou explicar um assunto, discorrer sobre ele. Assim, o texto dissertativo pertence ao grupo dos textos expositivos, juntamente com o texto de apresentação científica, o relatório, o texto didático, o artigo enciclopédico. Em princípio, o texto dissertativo não está preocupado com a persuasão e sim, com a transmissão de conhecimento, sendo, portanto, um texto informativo.

Os textos argumentativos, ao contrário, têm por finalidade principal persuadir o leitor sobre o ponto de vista do autor a respeito do assunto. Quando o texto, além de explicar, também persuade o interlocutor e modifica seu comportamento, temos um texto dissertativo-argumentativo.



1.1 A ESTRUTURA DO TEXTO ARGUMENTATIVO

A argumentação formal:

A nomenclatura é de Othon Garcia, em sua obra "Comunicação em Prosa Moderna". O autor, na mencionada obra, apresenta o seguinte plano-padrão para o que chama de argumentação formal:



1. Proposição (tese): afirmativa suficientemente definida e limitada; não deve conter em si mesma nenhum argumento.

2. Análise da proposição ou tese: definição do sentido da proposição ou de alguns de seus termos, a fim de evitar mal-entendidos.

3. Formulação de argumentos: fatos, exemplos, dados estatísticos, testemunhos, etc.

4. Conclusão.

Observe o texto a seguir, que contém os elementos referidos do plano-padrão da argumentação formal.



TEXTO 1

A formação da cidadania

Em todas as manifestações de caráter social, político e econômico, da mais inconsequente opção pessoal às mais sérias decisões de governo, o ser humano é guiado por dois comportamentos básicos: pensar e agir, de acordo com os conhecimentos disponíveis.

A interação contínua entre pensamento e ação permite ao homem tomar decisões, tanto as de natureza particular - como a escolha de um curso ou profissão ou a compra de um par de sapatos -, quanto as que terão consequências coletivas, como a eleição de governantes ou a participação em manifestações públicas. Portanto, de modo geral, as decisões não são arbitrárias. Não importa o grau de consciência política que o indivíduo possui, ou a massa de conhecimentos de que ele dispõe sobre uma questão: há sempre uma dose de reflexão em cada um dos seus atos.

É fácil de constatar que as ideias, as opiniões, as atitudes e as ações não seguem um esquema simples, mecanicista e uniforme, pois as diferentes preocupações que atormentam o homem se embaralham e se cruzam a cada instante e às vezes se chocam. É como se todas as provas automobilísticas do mundo fossem disputadas ao mesmo tempo no mesmo autódromo.

A formação do cidadão consiste em capacitá-lo a pôr ordem nesse processo, que se desenvolve ao seu redor mas sempre explode dentro dele. A principal contribuição formativa da educação é a de atuar sobre esse mecanismo mental decisório e ajustá-lo o mais corretamente possível, equilibrando os conhecimentos, as habilidades e as atitudes segundo padrões éticos, morais e outros, válidos para todas, ou para a maioria das pessoas.

Não existe um método infalível para que alguém possa chegar, sempre, às melhores decisões sobre todas as coisas, mas pode-se melhorar a capacidade de raciocínio com a prática, o estudo, a crítica, a reflexão. O grande objetivo, que mais parece um ideal inatingível, é conseguir que cada indivíduo se torne autônomo, isto é, que seja capaz de decidir por si mesmo, não se sujeitando a interferências ou pressões externas. É o caminho que levará à formação de cidadãos conscientes.

MARTINEZ, Paulo. Direitos de cidadania - um lugar ao sol. São Paulo: Scipione, 1996.

EXERCÍCIOS:


  1. Qual é o tema do texto?



  1. Sintetize a ideia básica de cada parágrafo.



  1. No segundo parágrafo, o autor do texto desenvolve um raciocínio para, em seguida, chegar a uma conclusão. Qual é essa conclusão?



  1. Você é um cidadão consciente? Escreva um parágrafo defendendo seu ponto de vista. Não se esqueça de que, independentemente do tamanho de seu texto, você tem de: organizar as ideias antes, montando um pequeno plano com elas para guiar seu raciocínio; incluir nele uma introdução, um desenvolvimento do(s) argumento(s) e uma conclusão.

1.2 ESTRUTURA LÓGICA DO PENSAMENTO

Leia o texto que se segue. Trata-se de uma distribuição feita pelo escritório da


empresa ANTHROPOS Consulting (à Rua Manoel Afonso, 64, Sorocaba, S. Paulo). A ANTHROPOS tem uma publicação semanal por fax, intitulada "Motivação & Sucesso", direcionada a empresas, através de assinatura anual. O texto em questão foi publicado na semana de 04 a 10 de agosto de 2006.

TEXTO 2

Viver é arriscar sempre

Em geral as pessoas morrem em torno dos trinta anos e são sepultadas por volta dos setenta. Leva quarenta anos para os outros perceberem que aquela pessoa está morta. Lembre-se: a vida é sempre uma incerteza. Somente o que é morto é certo, fixo, sólido. Tudo o que está vivo, muda sempre e se movimenta, é fluido, flexível, capaz de se mover em qualquer direção.

Quanto mais você se toma inflexível, mais está perdendo a vida. Viver é arriscado. Morrer é que não tem nenhum risco. Viver é sempre perigoso. Viver significa conviver com o desconhecido. Morrer é muito, muito mais seguro. Não há lugar mais seguro que um túmulo. Nenhum acidente pode acontecer a quem está morto.

Deseje a insegurança, pois isso é desejar a vida. Busque a insegurança e a mudança. Procure os caminhos ainda não trilhados e navegue por mares ainda não navegados, porque esse é o caminho da vida.

O crescimento é sempre um jogo arriscado. Às vezes a pessoa tem que perder aquilo que conhece em troca de algo que ainda não conhece.

Na vida real não há segurança total; exceto a da morte. E esta é a beleza da vida. É por isso que há tanta emoção.

O sucesso na vida só é alcançado por um alto preço. O risco é o preço. Pague esse preço.

ANÁLISE DO TEXTO:

Título:__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

1°parágrafo:_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

2°parágrafo:_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

3°parágrafo:_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

4°parágrafo:_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

5°parágrafo:_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

6°parágrafo:_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Objetivo do texto:________________________________________________________

________________________________________________________________________________________________________________________________________________



Veja ainda:

Podemos estabelecer para toda a mensagem do texto o seguinte silogismo:



Premissa maior Viver é evoluir e assumir riscos;

Premissa menor quero continuar vivendo,

Conclusão logo quero evoluir e assumir riscos.

Observe que o texto é um apelo a investimentos financeiros. Busca convencer o leitor em mensagem onde se contrapõem vida e morte, com benefício da primeira, óbvio, num jogo de exposição de motivos, e dentro de uma sequenciação lógica, o que leva o interlocutor optar pelo risco; em outras palavras, a optar pela vida, pela emoção, pelo novo. O modo de organização é de um texto argumentativo.



O logotipo da empresa é muito sugestivo. Apela para o desenvolvimento, conforme você pode constatar a seguir:

Tivemos aí duas formas de chegar ao interlocutor (= empresário): pela sedução e

pela argumentação.

1.3 COMO ORGANIZAR UMA REFLEXÃO COERENTE

Uma argumentação compõe-se de uma tese com a qual o autor do texto concorda, ou de que discorda (a posição de neutralidade não interessa, já que estaremos desenvolvendo um texto cujo objetivo é convencer). Vamos analisar o desenvolvimento textual em que o autor tem opinião (contra ou a favor) a apresentar, ponto de vista do qual busca convencer o interlocutor. Cumpre conceber um plano, estabelecer uma ordem de raciocínio e, especialmente, sermos claros e coerentes no que expomos. Constam de uma organização coerente do pensamento:



a) necessidade de distinguir os diferentes elementos que constituem a base estrutural do raciocínio (a tese, a antítese e a conclusão), bem como os fatos que servem de ilustração (exemplos, provas) na organização do texto como um todo.

Um bom exemplo de persuasão pode ser visto na propaganda, em que se faz, com frequência, uso de texto e figura. No exemplo a seguir, uma propaganda de um posto de gasolina, são usados esses dois veículos comunicativos:





Comentário: A carinha alegre auxilia a compreensão da meta a alcançar: a satisfação do cliente. Pelo que está escrito, trata-se de gasolina pura, boa e barata (o cartaz diz que a gasolina Premium está a R$0,90 o litro, e sabemos que Premium é gasolina pura). A sigla ABB, do nome do posto (equivalente a Atendimento Bom e Barato) pretende que o posto faça jus ao nome. Os elementos básicos da argumentação - preço e qualidade da gasolina - formam o encadeamento possível de Silogismos:

1. Premissa maior - O Posto ABB vende gasolina Premium a R$ 0,90;

Premissa menor - gasolina Premium a R$ 0,90 o litro é barata,

Conclusão - logo o Posto ABB vende gasolina barata.

2. Premissa maior - Gasolina filtrada é gasolina pura;

Premissa menor - o Posto ABB vende gasolina filtrada,

Conclusão - logo o Posto ABB vende gasolina pura.

3. Premissa maior - Gasolina pura é boa;

Premissa menor - a Premium é uma gasolina pura,

Conclusão - logo a Premium é boa.

4. Premissa maior - Quem abastece com gasolina barata, pura e boa lucra;

Premissa menor - você abastece seu carro com gasolina barata, pura e boa, no Posto ABB,

Conclusão - logo você lucra no Posto ABB.

Observação: Nem sempre a ideia de um texto se resume num único silogismo; pode ser uma sequência deles.

A figura tem papel importante, dentro do todo: a carinha alegre demonstra satisfação do cliente e o cartaz comprova que a gasolina está barata. O entendimento se faz rapidamente. O convencimento a que almejamos deverá ser feito com argumentos, apenas com o desenvolvimento lógico do nosso raciocínio, conforme os silogismos apresentados. Também os gestos auxiliam a conversação.



b) existência de relação "problema - solução", a solução obviamente em função do problema. Vamos exemplificar com uma frase que poderia estar numa propaganda do posto referido no item anterior:

Se você passar a abastecer seu carro no Posto ABB, deixará de ter problemas com o motor.

Comentário: Nesse exemplo, parte-se de um problema implícito, o de que o motor do seu carro possa não estar funcionando a contento, ou o de que a gasolina da região, naquela época, pudesse estar adulterada. A solução proposta está na oração condicional com que se inicia o período: "se você passar a abastecer seu carro no Posto ABB ... ". Você vai naturalmente se interessar em resolver o problema, se o tiver, ou mesmo prevenir-se contra ele.

c) Emprego adequado dos conectores. Veja os exemplos:

Ela entrou na sala porque eu saí.

Ela entrou na sala para que eu saísse.

Comentário: Se substituirmos o conector "porque" por "para que", substituição que pode implicar mudança no tempo verbal, teremos outro sentido. Isso mostra a importância do conector: com ele indicamos uma determinada relação entre dois termos, ou, como no segundo exemplo, entre as duas orações. E por essa relação estruturamos a tese. No primeiro, a minha saída explicou a entrada dela, já que não nos damos bem; no segundo caso, a ideia é apenas a de que ela foi me render, ou seja, entrou na sala para que eu pudesse sair.

Outros empregos de conectivo, possíveis, para a mesma relação "alguém sair, outrem entrar":



Ela entrou na sala quando eu saí.

Comentário: Temos mera indicação de tempo das ações de entrada (dela) e saída (minha).

Ela entrou na sala embora eu saísse.

Comentário: Vê-se uma ideia de oposição ao esperado: se eu saí, esperava-se que ela não entrasse, mas ela o fez.

Se eu sair, ela entra na sala.

Comentário: Fica claro que há uma animosidade entre mim e ela, e a minha saída é condição para a entrada dela.

d) Importância da memória cultural. Exemplo:

Aquele articulador político é o "garrincha" do governo!

Comentário: Se meu interlocutor não sabe, nem nunca ouviu falar do jogador Garrincha, famoso pelos dribles no futebol, não entenderá minha metáfora: Assim é importante saber se o interlocutor participa do mesmo "conhecimento de mundo" do autor da frase, ou seja, se são da mesma faixa etária, do mesmo país etc., enfim se os elementos citados no texto são do universo de conhecimento do emissor e do destinatário.

e) Necessidade de coerência macro e microtextual. A coerência pode ser obtida pela observância de vários fatores. Só para repassar alguns pontos de coerência, vejamos:

Quero um apartamento de três quartos na Tijuca. Já comprei um conjugado em Copacabana. Minha única exigência é que o apartamento seja bastante ensolarado.

Quero um apartamento de três quartos na Tijuca, porque já comprei um conjugado em Copacabana, para que minha única exigência seja a de o apartamento ser bastante ensolarado.

Comentário: No primeiro não temos conjunções ligando as três orações; mas há uma certa coerência no conjunto: alguém comunica seu desejo de comprar um apartamento, informando já possuir um menor e dizendo de sua exigência como qualidade de apartamento. No segundo exemplo até há conjunções ligando as três orações que formam um só período, mas não há coerência. Falta sentido no que se expressa; os conectivos estão mal empregados.

Outro exemplo - Consideremos o conjunto de frases:

Minha mãe é jovem e vaidosa. Gosto de minha mãe. Hoje é Dia das Mães. Que presente devo comprar para minha mãe? Acho que vou dar a ela uma joia e um vestido novo.

Perguntamos: Isso é um bom texto? Se deve haver sempre um objetivo, qual foi o do emissor do texto? Será que lhe foi pedida alguma redação e ele escreveu essas frases? Qual o melhor título para essa "redação"? "A juventude de minha mãe?" "A vaidade de minha mãe". "O dia das mães?" "O que vou fazer hoje, dia das mães?" "Por que gosto de minha mãe?"

Se você escolheu um dos títulos apresentados, pense agora qual o objetivo do texto que mais se adequaria ao conjunto de frases do exemplo de que estamos falando.

Opções:


( ) Mostrar que gosto de minha mãe porque ela é jovem e vaidosa

( ) Presentear minha mãe no dia das mães porque ela é jovem e vaidosa.

( )Presentear minha mãe com joia e vestido novo porque gosto dela e ela é jovem e vaidosa.

( )Programar meu dia hoje, Dia das Mães, em função da juventude e da vaidade de minha mãe.

Provavelmente nenhuma opção lhe satisfez e você nem entendeu bem o que estamos propondo. Antes de responder-lhe, vejamos outro conjunto de frases, em que se explicita claramente o dilema de escolha do presente e a explicação dada pelo filho para o cuidado na escolha do presente:

Hoje é Dia das Mães e necessito decidir sobre o presente que vou dar à minha mãe. Pensei em comprar uma joia e um vestido. Gosto muito de minha mãe e quero presenteá-la com algo de sua predileção: por ser jovem e vaidosa, deverá apreciar enfeites e roupa nova.

Você poderia escolher um título para este exemplo como Presente para minha mãe, no seu dia especial.

Também podemos estabelecer o objetivo que se depreende do texto: a preocupação de um filho em agradar à mãe, ao escolher um presente, no segundo domingo de maio.

Compare os dois exemplos vistos e observe que você pôde estabelecer título e objetivo no segundo, ao contrário do que acontecia em relação ao primeiro. Isso porque o segundo caso preenche uma condição para haver textual idade: a mensagem elaborada pelo enunciador seleciona e estrutura de forma clara o que ele achou bastante e necessário para alcançar o fim almejado.



1.4 CONTRA-ARGUMENTAÇÃO (REFUTAÇÃO DE UMA TESE)

Consiste em considerarmos o ponto de vista contrário ao que foi exposto e elaborarmos uma contra-argumentação, ou seja, uma segunda argumentação cuja tese vai opor-se ao ponto de vista do enunciador da primeira. .

Meyer (op. cit., p.135-141) considera alguns pontos que vamos resumir e discutir, a partir da seguinte pergunta: - O procedimento de evocar uma tese para refutá-la seria arriscado, por propiciar a divulgação de ideias contrárias à minha?

Sendo procedimento lógico o pesar prós e contras, é até meritório evocar ideias contrárias. Importante é conseguir refutar os argumentos da tese contrária, anulá-los. Há até quem use como estratégia expor uma tese "X" e logo depois refutá-la, construindo, nesse processo de refutação, a sua tese, ou seja, procurando convencer o interlocutor do seu ponto de vista, a partir da negação do ponto de vista contrário. É a estratégia de prevenir eventuais contra-argumentações. Como fazer tal? Expondo-as e, a seguir, mostrando que elas não são pertinentes. A concessão, por exemplo, é recurso muito explorado como técnica argumentativa; consiste em parecer que aceitamos uma ideia, a princípio, para depois rejeitá-la, geralmente em parte, trabalhando o ponto de vista oposto.



Refutar uma tese é argumentar sob outro prisma, digamos, explicar por que não nos convencemos de algo que alguém diz.

A seguir, vejamos as maneiras de refutar uma tese. Podemos fazê-lo, ora pelo questionamento da validade de opiniões emitidas, ora através da concessão, ora pela diminuição dos excessos de uma argumentação, ora pelo destaque de pontos falhos no raciocínio argumentativo.Vejamos cada um desses itens.



a) Questionamento da validade de opiniões emitidas

A validade dos fatos ou das opiniões usadas na estrutura argumentativa da primeira, contra a qual nos colocamos. Ela pode ser rejeitada em sua totalidade, com expressões como "Não é verdade que ... ", "Não posso aceitar que... "; "Suponhamos a verdade desse fato, embora todos sejam ... ", como no exemplo:



Não posso aceitar que um professor desconheça e despreze as agruras financeiras da classe.

Ou pode ser rejeitada em parte, como em:



Suponhamos que seja possível a cura desta doença, embora todos sejam unânimes em dizer que a partir de um estágio avançado, o câncer não tem cura.

Outra forma é invalidar a ideia contrária pela apresentação de outra oposta, precedida de torneios como "Na verdade ... ", "De fato ... " etc., como em:



Se você é o primeiro do time, na verdade esse time não tem bons jogadores.

Comentário: Nos três casos, discute-se a validade dos fatos e opiniões apresentados na tese contrária: validade parcial no segundo e total no primeiro e no terceiro.



b) A concessão

A concessão acaba sendo a base da refutação de uma tese, na medida em que refutar é exatamente partir do ponto de vista do outro, para negá-lo, em parte, ou destruí-lo. Voltemos ao exemplo Suponhamos que seja possível a cura desta doença, embora todos sejam unânimes em dizer que a partir de um estágio avançado, o câncer não tem cura. Supõe-se possível a cura do câncer, mas em estágio primeiro, ou seja, faz-se uma concessão para negar a tese, em parte. Já no exemplo a seguir, nega-se a possibilidade do empréstimo, ante o fato de que a pessoa não tem dinheiro:



Você pretende um empréstimo de meu pai, mas ele não tem dinheiro.

c) Diminuição dos excessos de uma argumentação

Discutir pontos falhos na tese, a partir de seus excessos, seria como refutar alguém que dissesse "Museus são lugares aborrecidos".Teríamos, para refutá-lo, algo como:



Se, como diz o Aurélio, museu "é lugar destinado não apenas ao estudo, mas também à reunião e exposição de obras de arte, de peças e coleções científicas, ou de objetos antigos", e se você se diz um estudioso, um amante das artes, um homem ávido de saber, não é cabível um adjetivo tão forte como "aborrecido", para qualificar exatamente o que deveria ser para você tão agradável.

Comentário: Aqui apresentamos a definição do dicionário de Aurélio Buarque, para, a partir dela, fazermos um jogo de oposição entre os itens ali expostos e as características da pessoa, quais sejam:

... lugar destinado a estudo / (se) você se diz estudioso, não é cabível ... ;

... lugar destinado a exposição de arte / (se) você se diz amante das artes, não é cabível que ...

Pelo jogo dessas oposições, apontamos as falhas da tese adversária, especialmente o exagero do adjetivo em "Museus são lugares aborrecidos".



d) Destaque de pontos falhos no raciocínio argumentativo

Consiste em discutir pontos falhos do raciocínio da parte contrária e, com isso, minimizar sua eficácia, como em:



Pleiteia-se assistência judiciária gratuita sob a alegação de insuficiência de recursos para pagar custas processuais, sem detrimento de sua própria subsistência. A parte apelada, por sua vez, também pleiteia assistência jurídica gratuita, sob a mesma alegação; e propõe contrato de risco ao advogado, oferecendo sucumbência': Pergunta-se: Como fica o advogado do apelado? O que leva nisso?Ganhando ou perdendo, não receberá.

Comentário: Na refutação importa construir uma estrutura lógica, que anule a tese do interlocutor. Dessa forma estaremos também selecionando dados técnicos capazes de um raciocínio claro e fechado, que se oponha à tese adversária.

1.5 ESTRATÉGIAS DA ARGUMENTAÇÃO

Observe os recursos argumentativos que são importantes para a argumentação: a polifonia, o implícito, a pergunta retórica, o destaque das ideias mais importantes.



a) A polifonia

A polifonia também chamada de intertextualidade é o aproveitamento da fala de outrem, uma boa estratégia de argumento. É fácil compreender que o sujeito argumentador projeta sua vivência e a de seu interlocutor no ato da comunicação.

− Como fazer isso?

Repetindo discursos anteriores, seu ou de outras pessoas, pelos quais se transmitem conhecimentos adquiridos. Nesse reportar do discurso alheio, o sujeito argumentador do novo texto aproveita o tema da fala alheia e abstrai dela as emoções do enunciador. Podemos ver um exemplo dessa anulação e/ou de substituição das emoções no aproveitamento de enunciados de outrem quando, numa discussão, alguém repete assertiva que não lhe agradou, como no exemplo:



Pois é, "eu sou ingênuo", mas jamais emprestei dinheiro sem documentação adequada, fiador, registro em cartório etc. Você, o gênio, o esperto, empresta cem mil reais a um vigarista, sem documentação alguma!

Comentário: Entende-se que o sujeito argumentador não aceita a qualificação de "ingênuo"; antes repete o que seu interlocutor disse, para defender-se e caracterizar a seguir que o ingênuo é o interlocutor. E repete com mágoa, ou com raiva, sentimentos que não acompanharam antes a fala da frase "Você é ingênuo", quando pronunciada pelo outro.

b) O implícito

Meyer (op. cit., p.129) qualifica o implícito como noção sutil e onipresente, equivalente aos postulados matemáticos, por ser, como eles, um dado que não se demonstra, mas se considera aceito por todos. Podemos caracterizá-lo como a ideia que se deixa para o interlocutor reconstituir, reconstituição que desempenha importante papel na compreensão da mensagem. Interessante observar que o implícito, por não estar explicitado numa estrutura argumentativa, não pode ser contestado. É aceito, é inconteste, abonado pelo conhecimento do mundo. Vejamos o exemplo:



Fulano vende tudo! Se achar quem compre, é capaz de vender a poltrona número 01 do céu, ao lado direito de Deus.

Comentário: Como você pode notar, o implícito se presta à ironia. Aqui, por exemplo, para ironizar a febre de venda do Fulano, cita-se a "poltrona número 01 do céu, ao lado direito de Deus", algo fictício e, em existindo, a ambição máxima de qualquer um, como capaz de ser vendida pelo Fulano, ou seja, está implícita a intensidade da "febre de venda" no absurdo da coisa vendida.

c) A pergunta retórica

A figura da ocupação é aquela pela qual supomos que nosso interlocutor vá interpelar-nos, contra ou a favor do que estamos dizendo, e então antecipamos essa interpelação para contestá-la ou aboná-la. A partir da entrada do que imaginamos ser a fala do interlocutor, fortificamos nossa argumentação, rebatendo o aparte contrário do interlocutor imaginário, ou endossando-o, se a interpelação foi favorável.

A pergunta retórica funciona de forma parecida. Fazemos uma pergunta, como se fora outrem a fazê-la, e a respondemos. Essa técnica torna mais participante, "sacode" por assim dizer o interlocutor, e funciona como instrumento de sedução, na medida em que a sacudidela tem implicações psicológicas, de trazer o interlocutor para dentro do processo dissertativo, torná-lo simpático à nossa tese. Desse modo levaremos nosso interlocutor a aceitar melhor nossa resposta, já que ele agora se vê convidado a participar do ato de comunicação, e ficará sugestionado a aceitar nossa argumentação. A propósito, essa pergunta se denomina "retórica", por não estarmos de fato interpelando alguém.Vejamos o exemplo:

O Serviço Nacional de Trânsito pôs em prática uma indústria de multas, através de marcadores eletrônicos de velocidade, colocados como armadilhas nas estradas, nas pontes e nos elevados do Estado do Rio. Será correto cobrar quantias exorbitantes, que se acumulam em progressão geométrica, de usuários colhidos de surpresa, já que os limites de velocidade variam, conforme o local e nem sempre há placas de aviso? Discute-se a propriedade dessas armadilhas e, especialmente, o propósito dessas cobranças tão intempestivas! É óbvio que a finalidade de cobrança não é coibir abusos e educar o motorista; muito menos evitar acidentes. Se houvesse mais avisos da presença de marcador de velocidade e dos limites conforme a localidade, haveria muito menos multas.

d)O destaque das ideias mais importantes

Recurso que consiste numa hierarquia dos argumentos, destacando os que você julga fundamentais na comprovação de sua tese. Os demais são secundários.



EXERCÍCIOS

Questões 1 a 7: Leia o texto abaixo para responder às questões seguintes:



Efeitos da inclusão de redação no vestibular

Não se pode negar que a inclusão de prova de redação no vestibular terá como efeito - e já se vem mesmo observando o fato - a inclusão do ensino sistemático de redação nas escolas. Não se pode, porém, afirmar que tal efeito conduzirá forçosamente a um melhor desempenho linguístico, a ser demonstrado em prova de redação, ou a uma melhor ou mais adequada seleção de candidatos ao ensino superior.

O problema do uso inadequado e deficiente da língua materna é muito mais complexo do que pode parecer à primeira vista, e muito mais amplo. Não é um problema apenas brasileiro: na Europa, nos Estados Unidos, nos países da América Espanhola, o problema vem sendo insistentemente levantado, estudos e pesquisas vêm sendo feitos, reformas do ensino têm sido tentadas. Não é também um problema a ser explicado apenas como o fracasso ou ineficiência do ensino da língua materna: é um problema que ultrapassa o âmbito da escola ou da educação sistematizada.

No Relatório apresentado pelo Grupo de Trabalho instituído pelo Senhor Ministro da Educação para apresentar sugestões objetivando o aperfeiçoamento do ensino do Português, a que já se aludiu anteriormente, e de que faz parte a autora deste trabalho, apontaram-se as principais causas da ineficácia no uso da língua materna. Uma análise ainda que pouco profunda de tais causas evidencia imediatamente a complexidade do problema e desmistifica a suposta eficiência de soluções superficiais.

O uso da língua é um comportamento que deve ser visto no contexto mais amplo das circunstâncias culturais em que se insere. As civilizações modernas vivem sob a poderosa influência de meios de comunicação em que o verbal é suplantado pelo visual, em que à palavra se associa o icônico, que cada vez mais busca superá-la. São palavras do Relatório acima citado: "As afirmações 'li' no jornal, 'ouvi' no rádio vão sendo substituídas por 'vi' na televisão, 'vi' no cinema. As revistas ilustradas, os quadrinhos, as telenovelas competem cada vez mais com os livros. E, como o ler e o ouvir exigem maior esforço de decodificação, o homem adere facilmente à comunicação pela imagem. Ouvindo e lendo cada vez menos, ouve e lê cada vez com mais dificuldade. Em consequência, fala e escreve cada vez com menos precisão, perde a fluência da expressão verbal, e o uso da língua vai-se empobrecendo e deteriorando': E conclui: "Levando em conta esse contexto cultural, não se podem atribuir apenas a um fracasso do ensino da língua materna as deficiências atuais de comunicação, a fragmentação e má estruturação do conteúdo das mensagens, a incorporação e inadequação no uso da língua, oral ou escrita. É que, ao lado do ensino regular e sistemático, e em competição com ele, há o 'ensino paralelo' dos meios de comunicação de massa, cuja influência é certamente mais presente, mais extensa e mais poderosa”.

A esses problemas de natureza sociocultural, acrescentam-se problemas de natureza socioeconômica que também constituem explicação para a ineficácia no uso da língua materna. A massificação do ensino, decorrente da democratização da educação, trouxe, como consequência, o acesso à escola das mais diversas camadas sociais. Pesquisas linguísticas já demonstraram que desigualdades sociais conduzem a desigualdades culturais que se manifestam especialmente no desempenho linguístico: as classes menos favorecidas trazem para a escola um saber linguístico deficiente em relação ao padrão de língua exigido pela escola. A heterogeneidade social na escola resulta, pois, em heterogeneidade linguística que, em geral, é ignorada: a escola se nega a reconhecer a distância entre o padrão linguístico que usa, que ensina e que


exige, e os padrões linguísticos de estudantes de meios socioeconômicos diferentes. E se grande é a distância entre o padrão de língua oral exigido pela escola e os padrões de língua oral de diferentes camadas sociais, maior ainda é a distância entre estes e o padrão de língua escrita exigido pela escola. Resulta daí o fracasso escolar, em geral, e particularmente o fracasso na redação.

Bastam os problemas acima apontados para que se evidencie que a capacidade de redigir está condicionada por fatores que ultrapassam o âmbito do sistema escolar. Simplista é pois a solução de incentivar, no nível exclusivamente curricular e metodológico, o ensino da redação nas escolas; mais simplista ainda é tentar efetivar essa solução por meio do mecanismo da inclusão de prova de redação nos exames vestibulares. Antes que as escolas estejam conscientes da influência, no uso da língua, das circunstâncias culturais em que vivemos, e da heterogeneidade linguística resultante da heterogeneidade social dos estudantes que recebe; antes que o ensino da língua adapte seus objetivos e sua metodologia a essas circunstâncias culturais e a essa heterogeneidade; antes que os professores de Português estejam preparados para trabalhar em função desses novos objetivos e dessa nova metodologia, é inútil e é, sobretudo, injusto pretender avaliar os estudantes em habilidades cuja ausência se deve a fatores extraescolares que a escola não lhes possibilitou superar. Tal avaliação beneficiará, mais uma vez, as classes mais favorecidas, aqueles que, oriundos das classes média e alta, já trazem para a escola um domínio da língua


muito próximo do que é exigido por ela. Estes terão provavelmente sucesso na prova de redação do concurso vestibular e mais uma vez serão reforçadas as desigualdades sociais. Este será, a nosso ver, o principal – e lamentável - efeito da inclusão da prova de redação no vestibular.

SOARES. Magda Becker. Efeitos da inclusão de redação no vestibular. In: Exame crítico dos concursos vestibulares. simpósio da 29ª reunião anual da SBPC. Rio de Janeiro: Cesgranrio, 1977.



1) Qual a ideia básica apresentada no primeiro parágrafo? Ela serve como introdução? Justifique.

2) No segundo parágrafo, a autora generaliza o problema levantado, ampliando-o. Como se dá essa generalização?

3) No terceiro parágrafo, a autora coloca-se na terceira pessoa para destacar o caráter impessoal do texto. Assinale a passagem em que isso ocorre.

4) A partir de qual parágrafo a autora inicia a argumentação?

5) Nos parágrafos 4 e 5, a autora destaca e analisa dois tipos de problemas que servem de base para sua argumentação. Quais são os problemas levantados?

6) No parágrafo 6 temos a conclusão. Na abertura desse parágrafo, a autora emprega uma palavra que desempenha um papel muito importante. Comente a função dessa palavra que inicia a conclusão.

7) Compare a última frase do texto com o parágrafo de abertura.

8) Coloque nos parênteses à esquerda “S” para o texto que busca seduzir, e “A”, para o texto que realmente convence pelo raciocínio lógico:

( ) “VOCÊ 10 X CELULITE 0” (propaganda da Vip-clinique, publicada em O GLOBO, de 9/06/98, p.14)

( ) Compre um amor de joia para o seu amor, que você julga uma joia, no Dia dos Namorados.

( ) “De mão em mão as crianças enchem-se de saúde”. (“slogan” para angariar dinheiro para o menor abandonado)

( ) Se você ainda não viu, não deixe de ver o maior espetáculo de balé do mundo!

9) Falando a estudantes de engenharia, numa faculdade da Zona Sul da cidade de Rio de Janeiro, aquele candidato a presidente promete irrigar terras para aumentar a produção agrícola do País.

PERGUNTA-SE: Do ponto de vista argumentativo, considerando-se que os políticos buscam votos acenando cm “favores” imediatos, assinale a melhor opção:

a) houve adequação ao interesse do auditório

b) o auditório é heterogêneo e por isso importa utilizar argumentos básicos

c) tornar-se-ia argumento adequado se o candidato associasse a necessidade de irrigação das terras a uma possível abertura de campo de trabalho a futuros engenheiros.

10) Justifique sua resposta à questão anterior em um parágrafo de quatro linhas aproximadamente.

11) Leia o texto que se segue e responda ao que se pede sobre ele:

Armadilhas

O serviço nacional de trânsito conseguiu, em quarenta dias, aplicar 110 mil multas, em apenas duas rodovias federais. Considerando um valor médio de R$300,00 por multa, teríamos o vultoso percentual (16%) de R$5.600 mil recolhido aos cofres da ENGEBRAS. É claro que essas armadilhas não visam a evitar velocidade excessiva e os consequentes acidentes que daí provêm; é claro que o interesse de gerar dinheiro sobrepõe-se, melhor dizendo, é o único nessas multas. Há testemunhas dizendo que não sinalizaram a colocação dos marcadores eletrônicos. Claro que, se o tivessem feio, não haveria tanta grita, mesmo porque não haveria tantas multas. Até quando assistiremos a abusos do tipo?! Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?!(Tradução: Até quando abusarás, Catilina, da nossa paciência?) (variação livre de uma carta ao leitor, em O GLOBO, p.06, dia 18/6/98)

a) Sublinhe com um traço as marcas de subjetividade nele encontradas;

b) Retire um exemplo de aproveitamento da fala de outra pessoa sob forma de discurso indireto;

c) A partir de que período fica claro que o autor está contra a forma de cobrança das multas por velocidade excessiva?

d) Onde se argumenta para comprovar que os administradores das estradas não se preocupam com a segurança dos usuários, mas com o dinheiro?

e) Como você entende o aproveitamento da frase latina nesse texto?

12) Desenvolva pequeno texto argumentativo sobre o tema “Greve nas empresas de ônibus urbano”. Você pode ser contra ou a favor da greve; o importante é saber argumentar na apresentação de seu ponto de vista.

13) Qual o implícito na assertiva “Político Beltrano vende até a alma para ganhar eleição?”

14) Nominalização é uma forma de polifonia. Consiste na substituição de uma oração que representa fala de outrem, por um nome (substantivo abstrato) que a resuma. Assinale, no texto a seguir, um caso de nominalização:

Depois de dez anos de casamento, percebem-se sinais de desgaste no relacionamento de meus amigos. A empregada me contou da irritação frequente entre eles: por qualquer motivo estão discutindo.



15) Onde poderíamos inserir a pergunta retórica “Como posso comprovar isso?” no parágrafo transcrito no exercício anterior?

16) Sublinhe os exemplos de polifonia que você encontrar nos seguintes textos:

a) “A gratificação oferecida por S. Exa. O Ministro da Educação aos professores das universidades federais, em substituição ao aumento do salário pleiteado, está preocupando a classe. O professor já está sem aumento salarial há uns quatro anos, e o Governo agora vem com essa! Se o Ministro diz que aceita estender a gratificação aos inativos e menos titulados, como prova de ter retrocedido em sua primeira proposta, se o Governo enfim conseguiu a verba que dizia não possuir para os reajustes, se o Ministro e o Presidente reconhecem que professor é mal remunerado, por que essas autoridades não aceitam aumentar salário em lugar de conceder gratificação? Dá até para pensar que, com os professores de voltas às salas de aula, alguém resolva tirar a gratificação, não?”

b) “Ainda que hoje você jure nada ter a ver com o acidente que vitimou aquelas duas pobres mulheres, não consigo acreditar que você estivesse ali no momento e nada fizesse por absoluta falta de meios. Essa justificativa me parece muito pequena.”

c) É sabido que medidas provisórias não visam a atender as necessidades do povo.

Questões 17 a 26: Leia o texto abaixo para responder às questões seguintes:

O MURO DOS NÃO-FUMANTES

Fumar é prejudicial à saúde. O bordão é conhecido e hoje bastante consensual. Sabe-se mais: os males do fumo prejudicam os não-fumantes que convivem com a fumaça do tabaco alheio. O que não é fácil, porém, é decidir os interesses de fumantes e abstêmios que porventura compartilhem o mesmo ambiente. A solução seria fazer com que o adepto do vício prejudicasse apenas a si mesmo, segregando-o do convívio em lugares comuns. Mas, dado que o hábito pernicioso de fumar é legal, seria tolerância recomendável, ou questão de igualdade, preservar o direito do fumante.

Um decreto do governo federal e um projeto de lei pretendem fechar ainda mais o cerco aos tabagistas. As duas normas vão determinar que recintos privados de uso coletivo deverão resolver a querela da fumaça com a construção de uma separação física dos contendores. Locais como bares e restaurantes deverão isolar fumantes e não-fumantes.

Parece tratar-se de uma solução salomônica, por assim dizer, para uma questão pública complicada. Tolhe-se um pouco o direito de empresa e dos cidadãos para melhor atender o direito de todos. Abrir restaurantes apenas para fumantes ou não-fumantes tolerantes poderia tornar inaplicável qualquer legislação. No entanto, resta o curioso problema de como segregar a fumaça com rigor – não haverá, pois, portas entre os dois mundos?

Quanto à questão de fundo, o problema de saúde pública causado pelo tabagismo, custo que pesa sobre toda a sociedade, parece meritória a linha geral do pacote antifumo. É correta a regulamentação minuciosa da propaganda de cigarros, punindo, por exemplo, a indução de jovens e crianças ao consumo do fumo.

Espera-se que outras medidas tornem ainda mais pesado o custo de manter esse vício deletério. Isso não deve fazer com que uma política de saúde se transforme numa cruzada intolerante contra aqueles que infelizmente ainda insistem em exercer o direito hoje legal de macular seus pulmões - e apenas os seus.

(editorial do Jornal Folha de São de Paulo, 27/8/98)

17) De que assunto o texto trata?

18) Qual é o tema que o texto desenvolve?

19) O que é “bordão”?

20) Qual é o impasse levantado pelo enunciador do texto, que dificulta a solução do problema?

21) A solução dada ao problema pelo decreto do governo federal e pelo projeto de lei resolve a questão que está sendo analisada? Justifique.

22) O enunciador chama a atenção para um problema mais profundo. Qual?

23) Quais as soluções que o enunciador propõe para a solução do problema?

24) Um texto argumentativo deve primar pela objetividade, isto é, o enunciador deve discutir e analisar um problema sem envolvimento emocional, buscando sempre a generalidade. Embora o texto em análise contenha passagens ou expressões que evidenciam a subjetividade do enunciador, o tom impessoal do texto não fica comprometido. Por quê?

25) O enunciador do texto, ao analisar o problema destacado, tinha em mente atingir um objetivo. Qual?

26) Pelos argumentos selecionados, é possível compreender o posicionamento do enunciador. Ele demonstra ser favorável ou contrário ao tabagismo?

1.6 TIPOS DE ARGUMENTOS
a) __________________________________

Consiste em apresentar exemplos retirados da realidade para comprovar a tese.



Ex: “Apesar desse nosso atraso, ainda é possível reverter esse quadro tecnológico, porque temos algumas entidades em que se pode fazer pesquisa de qualidade internacional, está se falando das Universidades públicas, cuja capacidade advém principalmente da mão-de-obra altamente qualificada a qual produziria mais ainda, se viesse a ser melhor equipada.” Isto É

b) __________________________________

Apresenta cifras ou dados estatísticos. Tem grande valor de convicção, constituindo quase sempre prova ou evidência incontestável.

Ex: “O supermercado é, por excelência, o lugar onde o brasileiro compra comida: 98,2% dos entrevistados se abastecem nesses estabelecimentos. Nove em dez pessoas, surpreendentemente, passam ao largo de sacolões e cooperativas de consumo.” Veja

c) __________________________________

Utiliza-se da opinião de um especialista da área tratada.

Ex: “O cinema nacional conquistou nos últimos anos qualidade e faturamento nunca vistos antes. ‘Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça’ - a famosa frase-conceito do diretor Gláuber Rocha – virou uma fórmula eficiente para explicar os R$ 130 milhões que o cinema brasileiro faturou no ano passado.” (Adaptado de Época, 14/04/2004)


d) __________________________________

Apresenta os porquês de uma determinada situação e suas consequências.

Ex: “A ganância pela posse da terra, exacerbada por uma arcaica estrutura fundiária e pelo modelo econômico brasileiro – excludente, concentrador e dependente – gera a fome e a doença, as migrações forçadas, a escassez de produção e de produtividade, a precariedade das moradias, prisões arbitrárias, injustiças, destruições de casas e outras formas de opressão contra a pessoa humana.”

Mensagem ao povo de Deus – Bispos do Regional Nordeste III

e) __________________________________

Compara-se o antes e o hoje, elucidando os motivos e consequências dessas transformações. Cuidado com dados como datas, nomes de que não se tenha certeza.



Ex: Nesse tempo até o padre sabia quem viera ou não à missa, pois o rebanho era pequeno e contíguo; se chegasse um estranho à cidade, todos ficavam sabendo disso, de quem se tratava e o que viera fazer. A troca de cumprimentos na rua não era apenas educação, mas conhecimento. A solidariedade não era obrigação, mas algo natural, afinal todos conviviam há uma eternidade e havia tempo para isso, para se conhecerem, para serem solidários e para as pequenas maldades do dia-a-dia.

Célio Montes Claros – O complexo social


f) _________________________________

Usam-se duas ideias centrais para serem relacionadas no decorrer do texto. A relação destacada pode ser de identificação, de comparação ou as duas ao mesmo tempo.

Ex: De tanto ser repetido pela cultura de massa, o mito perde a singularidade e passa a ser consumido como um tênis ou uma coca-cola.
g) _________________________________

O testemunho é ou pode ser o fato trazido à colação por intermédio de terceiros. Se autorizado ou fidedigno, seu valor de prova é inegável. O testemunho continua a merecer fé até mesmo nos tribunais.

Ex: A violência vem crescendo muito nos últimos anos, afirma Carmem Rocha, uma das moradoras da favela de Vigário Geral no Rio de Janeiro.

h) __________________________________

Aparece quando o autor sente a necessidade de definir uma expressão, um termo.

Ex: “Por "estudo intencional da gramática" entende-se o estudo de definições, classificações e nomenclatura; a realização de análises (fonológica, morfológica, sintática)...”

i) __________________________________

Argumento baseado nos processos dedutivo ou indutivo.

Ex: I – “Todo homem comete erros. Einstein foi um homem e, por essa razão, cometeu vários também. A ideia de infalibilidade atribuída ao cientista é falaciosa.”

Matheus De Luca — O pensar e sua função social


Ex: II – “O sonho de um estudante é poder participar da vida universitária, mas para isso o ato de estudar diariamente deve tornar-se uma regra, principalmente pelo fato de as universidades estaduais e federais serem as mais concorridas e terem um número de vagas restrito a oferecer. Por essa razão todos os que anseiam por chegar ao 3º grau e o posterior devem estudar com muito afinco.”

j) __________________________________

Apresenta uma defesa contra um possível ataque do interlocutor.

Ex: “O médico tem o dever de alertar a população para os perigos ocultos em cada remédio, sem que, necessariamente, faça junto com essas advertências uma sugestão para que os entusiastas passem a gastar mais com consultas médicas” Veja


k) __________________________________

Consiste na especificação, designação de coisas uma por uma.

Ex: O adolescente moderno está se tornando obeso por várias causas: alimentação inadequada, falta de exercícios sistemáticos e demasiada permanência diante de computadores e aparelhos de tv.

l) _________________________________________

Consiste em apresentar uma situação hipotética para mostrar um possível acontecimento.

Ex: “Mesmo que o vírus da Aids viesse a ser, em breve, totalmente controlado e o contágio, rotineiramente evitável, o que ele provocou e provoca até hoje, na humanidade, equivale aos prejuízos humanos causados por uma grande guerra. Crime hediondo, se um dia ficar provado que ele foi criado em laboratório norte-americano, para realizar o intento de eliminar minorias consideradas indesejadas. Isso sob o desejo e orientação da cultura Wasp (White, anglo-saxon and protestant), conforme hipótese (bem provável), recentemente divulgada pela imprensa.”

Maria Rita Kehl – A psicanálise e o domínio da paixão


EXERCÍCIOS
1) Identifique os tipos de argumentos encontrados nos trechos abaixo:
a) “A miséria que ataca grande parte da população brasileira não é gratuita, porque tem origem na péssima distribuição de rendas, no desemprego, nas injustiças sociais.”
b) “Na política do Mercosul, o que é bom para a Argentina é bom para o Brasil.”
c) “Cada sistema tem seus indicadores. A Inglaterra, os Estados Unidos, por exemplo, têm dinheiro sobrando e, claro, uma Bolsa de Valores respeitável. Mas quando o assunto é futebol, o Brasil não perde para ninguém, ou melhor, iguala-se à Inglaterra: os brasileiros não sentem inveja da torcida inglesa e vice-versa.”
d) “Considerando-se o nível a que chegaram as escolas brasileiras de primeiro e segundo graus, o refinamento dos vestibulares das principais universidades do país, reduzido número de vagas em cada uma das faculdades mais procuradas, é necessário que o aluno faça um pré-vestibular para estar apto a concorrer com os demais a tão desejada vaga ─ embora, com isso, não se defenda aqui o cursinho.”
e) “A liberdade é fundamental a todos os seres humanos, com ela podemos construir nosso mundo, afirmar a nossa personalidade, derrubar as barreiras que impedem o crescimento do indivíduo. Não é possível aceitar que a obra de arte pertença ao domínio da coação.”
f) “Uma parcela significativa de nossa sociedade sofre de problemas de saúde, alimentação, moradia, educação, por isso há necessidade de uma política voltada para os problemas sociais, em defesa dos excluídos pelo sistema.”
g) “Octavio Paz, poeta e ensaísta mexicano, ao analisar o seu país, concluiu que “Quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que gangrena é a linguagem”. No Brasil, a gangrena linguística começa pela recusa a dar o verdadeiro nome às coisas, e continua com o desprezo pelas palavras, pela inversão do significado delas, pela apropriação indébita de vocábulos ricos em sua significação, pela corrupção ideológica com que se contaminam as palavras, pelo desrespeito total ao universo a que elas pertencem.”
2) Leia atentamente os textos argumentativos abaixo e responda às questões propostas:
a) Explique, com suas palavras, qual a tese defendida pelo autor.
b) Retire dois argumentos empregados, classifique-os e explique por que o autor os utilizou para fundamentar sua tese.


TEXTO 1


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