Obrigado por me mandar esse cartazinho



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BOLSA FAMÍLIA OU BOLSA JUROS

Gerson Lima, 20 de março de 2010.

Está rolando na Internet esse cartazinho, certamente feito por alguma pessoa bem intencionada. Entretanto, ele serve muito mais para que a classe média não perceba quem está de fato arrancando o couro dela.

A informação equivocada transmitida por esse cartaz me dá uma boa oportunidade para explicar como a ideologia popular ajuda os economistas de banco a manterem a ideologia deles e enfiar a mão no seu bolso sem que você perceba. O cartazinho que eles mostram para a população o tempo todo é esse outro:



Eu penso, logo sou um ser humano, social e político. Mas não sou lulista, sou economista keynesiano preocupado com o emprego e a renda dos brasileiros, inclusive pelo fato de que o meu emprego e a minha renda dependem deles. Há alguns economistas que, depois de trabalhar no Banco Central do Brasil, ganham muito dinheiro no mercado financeiro e acham que são Deus. Eu sou mais modesto, considero-me apenas a reencarnação de Keynes. Ele morreu e ficou olhando para escolher como voltar e quando, cinco semanas depois, eu nasci, ele me viu e me deu o privilégio de ser o escolhido para abrigar seu espírito.

Falando sério, o bolsa família está dando, em média, 200 pila por ano para cada Severino porque ele não trabalha. Aí ele gasta, e você pode imaginar que ele é um vagabundo que gasta tudo em pinga no Bar Biboca, cujo slogan é “Chove lá fora, aqui dentro só pinga”. Não importa como o Severino gaste no Brasil, ele passa duas notas de 100 pila para alguéns, o Raimundo dono do Biboca, por exemplo. Aí o Raimundo gasta o dinheiro pagando um salarinho de miséria para um ajudante, o fornecedor da branquinha, o vendedor de mandioca, etc. Em seguida essas pessoas gastam comprando alguma coisa de alguéns que, como eles e diferente do Severino, trabalharam para produzir e ganhar dinheiro. O dinheiro vai assim circulando pela sociedade, passando algumas vezes por pessoas que não gastam tudo e poupam um pouquinho. Como alguns poupam e tiram o dinheiro do Severino de circulação, um dia os 200 pila viram tudo poupança e param de garantir emprego para mais alguns brasileiros. Mas, enquanto circulou, aquelas duas notas de 100 criaram uma produção no valor de 300 pila. Ao gastar essa renda maior, a população causa um certo aumento nos preços e os 300 viram 600 pila. 300 é a quantidade maior que as pessoas estão comprando e outros 300 são devidos à inflação. Tudo bem, afinal a gente agora tem mais dinheiro para gastar e é melhor ter dinheiro para comprar coisas mais caras do que não ter dinheiro para comprar coisas baratas. Aí o danado do governo taxa essa renda e recebe 200 de imposto e então ele tem renda para pagar o Severino. Aí ele paga o Severino, o dinheiro circula e muitos brasileiros têm emprego. É claro que o Lula faz isso para ter votos, e é claro que dá certo. Política é isso – quando agrada o eleitor o sucesso é certo. Se agradar a sociedade, melhor ainda.

Indo agora para o sul maravilha, o Banco Central do Brasil está dando, em média, 600 mil reais por ano para cada Otávio Augusto Bandeira de Melo Prado de Cerqueira Barros. Como essa doação “casualmente” não merece a atenção da imprensa, ela não tem sido objeto de espanto da sociedade. Por isso, explico. O Otávio recebe essa bolsa do Banco Central do Brasil, cujo dono é o governo federal, aquele mesmo que dá 200 pila para o Severino, porque o Otávio não trabalha, mas tem muito dinheiro que o bisavô deixou para o avô que deixou para o papai que deixou para ele. Como faz tempo que ninguém trabalha na família, ele não aprendeu o que é isso. O coitado do Otávio então empresta o dinheiro dele para o governo e depois vai lá no Banco Central receber os juros. Por que isso acontece? Porque o Banco Central esperto e os economistas autistas dizem que isso combate a inflação. Na ideologia popular, combater a inflação agrada o eleitor e dá muitos votos. Mas não agrada a sociedade. Só economista acredita que aumentando os gastos do governo, no caso gastos com juros, os preços vão cair.



Na verdade o Otávio não vai ao Banco Central e nem tem cartão bolsa-juros, ele tem computador e internet e faz todas as cansativas operações financeiras por meio de seu banco sem sair do seu modesto escritório de 12 milhões de reais na Avenida Paulista. Aí o Otávio, que sempre teve muito dinheiro, não gasta quase nada, a não ser o salário miserável da Monica, a estagiária, o motel para levar a estagiária, o broche de ouro para a estagiária, o farmacêutico que lhe entrega o Viagra, etc. Ah, também tem os gastos com a viagem a Paris, o Patek Phillip, o Mercedes, etc., e a champanhe francesa – o Otávio e a Monica não tomam pinga - mas esses não contam nessa história porque não são produzidos por brasileiros. Como, exceto a Monica e o farmacêutico, as pessoas que recebem o dinheiro do Otávio são como ele e não precisam gastar tudo que ganham, a circulação do dinheiro da bolsa-juros do Otávio gera apenas, digamos, 300 mil reais de arrecadação de impostos. O governo gasta, por meio do Banco Central, 600 mil reais e recebe apenas 300 mil de volta. Aí então a Globo diz que o Lula tem de economizar 300 mil para pagar o resto, ele tem de fazer o tal de superávit primário, que é arrancar mais impostos da classe média e não devolver o dinheiro na forma de escolas, hospitais, estradas, etc. O Lula esperto que quer votos para ele e a Dilma não faz tudo isso, ele economiza só 150 mil. O resto ele gasta com os Severinos e promove o crescimento da renda do brasileiro. Mas o Banco Central não esquenta por causa disso, ele imprime os 150 mil que faltam, paga o Otávio e esconde isso do contribuinte. E continua dizendo para a Velhinha de Taubaté que está combatendo a inflação. É claro que imprimir dinheiro não combate a inflação, mas como os economistas e os contribuintes não sabem... O cartaz que deveria ser mostrado à população que paga imposto, vê a riqueza de uns poucos crescer e fica com cada vez menos renda para gastar, menos emprego e menos escolas, hospitais, estradas, etc., poderia ser:

Espero não ter quebrado o brinquedinho de ninguém, mas o meu bolso está cansado de sofrer e eu estou cansado dos economistas que não sabem o que estão fazendo e que, de diferente dos médicos, só têm o fato de que os médicos matam no varejo.








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