O veleiro de Cristal



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JOSÉ MAURO DE VASCONCELOS


O Veleiro de Cristal
Ilustrações em preto e a cores de JAYME CORTEZ

Para


Francisco Matarazzo Sobrinho

e Fayez José Mauad.


Índice
Primeira e última parte: "Monólogo da Solidão"

1 A Viagem

2 A Conquista do Veleiro

3 Gakusha, o Tigre

4 A Dama das Sombras

5 Conversas nas Tardes sem Importância

6 O Cavaleiro Bolitrô

7 Gabriel, a Lua e o Lago

8 Conversas, Simples Conversas

9 Ao Cair das Velas

10 Veleiro de Cristal, Veleiro das Estrelas

11 O Grito de Anna

Sobre o Autor


PRIMEIRA E ULTIMA PARTE:

"Monólogo da Solidão"



Primeiro Capítulo

A Viagem

Anna abanou-se com o lenço e enxugou o suor dos braços. Apesar da tarde estar começando e o sol tendendo a desaparecer, continuava o calor reinando dentro do carro. Toda a viagem fora sob o domínio do verão. As janelas arriadas deixavam penetrar um vento morno e abafadiço.

Eduardo, recostado no banco, olhava impassível o pescoço de Nonato, o chofer. Ele nem parecia sentir o calor e sim fazer parte, ser uma continuação do volante.

Anna olhou os olhos semicerrados de Eduardo e sorriu, passando-lhe as mãos na testa úmida.

— Cansado, querido?

— Um pouco, titia. Mas estou mesmo gostando da viagem.

— Com todo esse calor?

— Eu sempre gosto mais do verão.

Ela sorriu compreendendo:

— É. Você sempre gostou mais do verão.

Calou-se, pensando no sobrinho. No verão as suas pernas não doíam. A sua cabeça parecia tornar-se mais leve e os seus olhos sempre sorriam de alegria. No inverno era aquela tristeza. Não queria levantar-se, ficava o dia encolhido na cama como se vegetasse, e gemia demais quando era preciso colocar os aparelhos em seus pés e pernas. Além disso, aquela dor de cabeça que lhe inchava os olhos. Tudo que falava parecia mais a continuação de um gemido.

— Você está precisando de alguma coisa?

— Não, titia. Muito obrigado.

Bem que estava. Sentia a bexiga tão cheia que incomodava. Mas na parada da viagem, quando todos desceram para o restaurante, ele negou-se a ir. Preferia deixar de fazer pipi a ser motivo de curiosidade e pena.

— Falta muito tempo ainda, titia?

— Quando descermos a serra, pegaremos a estrada. Calculo que mais ou menos uma hora. Está cansado, não, meu filho?

— Não muito.

Quando a gente chegar à cidade, toma uma estrada particular que vai subindo; depois começa a descida e se avista a casa. Olhe, Edu, poucas vezes vi uma casa tão linda assim! Tem uma piscina entre as pedras. Com jeito, você pode até tomar banho.

— A senhora acha que vai adiantar alguma coisa?

— Sem dúvida, Edu, você vai ficar forte, corado, bronzeado e...

— E o quê, titia?

— Ora, nada. Você vai ser muito feliz. E estou aqui para que todas as suas vontades sejam feitas. Isso não basta?

Desajeitadamente alisou a mão da tia num gesto de simpatia. Sabia o significado da reticência dela. Pobre tia Anna que ignorava metade do que ele descobrira. Mas também não iria afligi-la nunca.

A tarde refrescava agora, e até um vento friozinho penetrava no automóvel. Fechou os olhos para pensar. Como seriam os caseiros, o jardineiro e o resto do pessoal? Novamente tudo iria acontecer. Com o tempo logo se acostumariam com ele. Tinha certeza, e tia Anna prometera, que na casa haveria o mínimo de gente trabalhando. E quando tia Anna prometia, não podia duvidar.

Uma sonolência morna pesava-lhe. Devia ser o mar por perto. O vento, o ruído dos pneus na estrada, as curvas, tudo parecia concorrer para o seu amolecimento.

Quando abriu os olhos, sentiu de novo que a sua bexiga incomodava. Mas negou-se a pedir para pararem o carro. Seria um trabalho penoso. Sentia até o rosto esquentar e avermelhar-se pensando no incômodo que poderia causar. Um pouco mais de paciência e chegariam.

A noite agora imperava e os faróis do carro riscavam a estrada. As árvores circundantes adquiriam um aspecto sombrio e assustador. Se olhava para o céu, a noite estava vidrada de estrelas.

— Estamos chegando à cidade. Vou ajeitá-lo melhor no banco, quer?

— Não precisa, titia. Já estamos perto. O pior já passou.

— Mas você não quer ver a cidade?

— Eu posso ver como estou, titia.

A vontade era de chegar logo, sentir o vento do mar mais perto do seu corpo e do seu cansaço.

Respirou aliviado quando as luzes foram desaparecendo e sentiu que tomavam o rumo de uma nova estrada.

Agora o carro andava mais devagar e o asfalto desaparecera, cedendo lugar a um caminho pedregoso e áspero.

— Estamos quase no alto da serra, não é, Nonato?

— Daqui a pouco vou parar e a senhora reverá a paisagem como da outra vez.

— Isso é bom. Assim Edu vai se encantar com a casa. O carro diminuía a marcha.

— Chegamos, Dona Anna.

Freou o veículo e desceu, vindo ajudar a senhora e o menino a descerem:

— Pronto, Edu. Eu dei ordem para que deixassem a casa toda iluminada. E obedeceram às minhas ordens. Nonato vai ajudá-lo.

Nonato o susteve nos braços, enquanto tia Anna apanhava as duas muletas para que se amparasse.

— Estou meio tonto.

— É natural. Você viajou muito tempo sentado. Eduardo suplicou:

— Titia, eu precisava ficar só um momento com Nonato.

Anna sorriu no escuro e afastou-se para baixo, na estrada. Olhava o céu tão lindo e estrelado. Esperou paciente na sua contemplação até que ouvisse o pequeno ruído sobre a areia. O menino deveria ter sofrido muito. Agora tudo estava terminado.

Sabia que podia retornar. Fê-lo calmamente.

— Vamos devagar até aquela parte mais alta. Apoiado pelas muletas, Eduardo caminhava com cuidado; mesmo assim, sentia-se amparado pelas mãos de Nonato em suas costas.

Agora o vento do mar jogava-se contra todos os rostos.

— Não é uma beleza, Edu?

Como se estivesse ancorada na escuridão, a casa aparecia toda iluminada.

Na primeira vez, eu não tinha notado tanto, mas agora, com mais calma, vejo que ela parece um navio ancorado num cais.



Um sorriso rasgou o rosto de Eduardo. — Não, titia, não é um navio. É mais bonito que isso. Com todas as luzes acesas, ela parece mais um Veleiro de Cristal.











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