O sr. Nilson mourãO



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Encontro12.09.2017
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O SR. NILSON MOURÃO (PT-AC. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, há 54 anos anos atrás, o mundo comemorava um avanço nas relações diplomáticas e no respeito aos direitos individuais das pessoas. Havia terminado a Segunda Guerra Mundial há apenas três anos e a humanidade respirava o desejo de reconstruir as relações entre os povos e o respeito pelos cidadãos, profundamente abalados pelas milhares de mortes causadas em inúmeros países. Em 10 de dezembro de 1948, era assinado pelos países membros da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em mais de meio século, muita coisa mudou nas relações entre os países e na defesa dos direitos humanos. Hoje, a consciência das liberdades individuais é muito maior do que há 50 anos atrás. Outra guerra mundial a humanidade não se aventurou a fazer, até porque, com as armas que dispomos hoje, provavelmente não haveria vencedores. A humanidade alcançou o progresso tecnológico, chegou à lua, descobriu medicamentos para muitos males, já anuncia a clonagem humana, mas infelizmente, em relação aos direitos humanos, chega ao século 21 como se estivesse ainda na idade média, promovendo lutas fratricidas por interesses exclusivamente econômicos, de domínio, de poder. Nessa conjuntura, os direitos humanos são usados para condenar países e legitimar guerras, mesmo que a motivação de fundo seja a mesma de séculos passados: a ampliação de domínios e de poder. A perigosa hegemonia dos chamados países ricos ou G-7, especialmente dos Estados Unidos e o atual maniqueísmo estabelecido nas relações internacionais e decretado pelo Presidente George Bush quando afirmou, após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, que quem não estiver ao lado dos Estados Unidos, estará contra e sofrerá as conseqüências dessa escolha, maquiam mais uma vez a realidade, escondem interesses e agridem profundamente os direitos humanos como se ainda estivéssemos na Segunda Guerra Mundial.

Senhor Presidente, a propósito da comemoração de mais um aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, quero registrar nos anais desta Casa, juntamente com este meu pronunciamento, o artigo que reproduzo a seguir, de autoria do monge beneditino Marcelo Barros, escritor renomado e membro da comunidade do Mosteiro da Anunciação, de Goiás Velho.

Direitos humanos, direitos divinos
Marcelo Barros[1]
A ONU tem o que comemorar neste aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada no dia 10 de dezembro de 1948? Mais de 50 anos depois, governos orientais e árabes continuam sustentando que esta declaração decorre da cultura ocidental e, por terem outra cultura, não estão obrigados a obedecê-la. Mas, os Estados Unidos, metrópole do mundo ocidental, também não respeitam leis que possam ir contra seus interesses imediatos. Apenas um exemplo recente: todos os Estados representados na ONU assinaram a declaração dos direitos da criança, exceto a Somália e os Estados Unidos da América. O governo americano não quer desgostar suas empresas multinacionais que obtém lucros fáceis com o trabalho pesado de crianças de cinco a dez anos, em países do leste asiático, para que, a bom preço, neste Natal, jovens americanos comprem o tênis da moda e os pais possam dar a seus filhos um novo tipo de brinquedo.

Enquanto a sociedade civil aprofunda a consciência do direito à diversidade das culturas, dos direitos das crianças, das mulheres e de todo tipo de minorias oprimidas, muitos Estados ainda se isolam na pretensão ao domínio sobre os outros e na recusa de respeitar o outro como um ser humano diferente.

Uma área na qual os direitos humanos são mais desrespeitados é a da diversidade religiosa. A organização internacional AIN (Ajuda às Igrejas Necessitadas), em recente “Informe sobre a liberdade religiosa no mundo” constatou que um bilhão e 400 milhões de pessoas sofrem discriminação e, em muitos casos, perseguição, por causa de sua religião. Desses, 200 milhões são cristãos, perseguidos por sua fé, na Argélia, Afeganistão, Sudão, China, Indonésia e Egito. Na Índia, extremistas hindus continuam profanando cemitérios cristãos. Ocorreram casos em que violaram religiosas e assassinaram missionários. Somente em uma província da Índia, de um ano para cá, 11 escolas sustentadas por entidades cristãs foram fechadas . No Afeganistão e na Argélia, 38 pessoas, a maioria jovens, foram presas, ao serem surpreendidas tendo nas mãos a Bíblia ou um livro dos Evangelhos. Há um ano, no Egito, 95 muçulmanos invadiram uma Igreja Copta, depredaram o templo e mataram 20 cristãos. No
Paquistão, em um templo católico, onde se fazia um culto evangélico, extremistas muçulmanos assassinaram mais de 30 pessoas.

No sul da Índia, muçulmanos são perseguidos. No Irã, fiéis da fé Baha’i são presos e mortos. Em países da África e na Austrália, religiões ancestrais continuam proibidas ou marginalizadas. Nos Estados Unidos e em outros países ocidentais, depois dos atentados do 11 de setembro de 2001, aumentou muito o preconceito e a intolerância aos muçulmanos.

Na maioria dos casos, a religião serve de pretexto para a intolerância e a guerra, mas na prática, os verdadeiros motivos são sociais, políticos e econômicos. De qualquer modo, se uma comunidade religiosa aceita que o nome de Deus seja usado para a violência, profana a santidade de Deus. Qualquer religião que se compreende como dona da verdade tende a cair no dogmatismo e no fundamentalismo intolerante. O papa João Paulo II repete sempre: “A verdade não é propriedade de ninguém. É um processo e um caminho a serem percorridos juntos”.

O cristianismo tem uma longa história de intolerância e de desrespeito aos direitos humanos. Hoje, somos chamados a ver em todo ser humano o rosto do Cristo, principalmente naquele cuja dignidade está sendo ameaçada ou não reconhecida. Se Deus é Paz, Compaixão e Amor universal, enquanto houver uma pessoa humana vivendo na pobreza ou tendo sua dignidade humana desrespeitada, é o próprio Deus que tem seus direitos violentados. Assim se pode compreender o fato de que a jovem escritora e mística judia Etty Hillesum, condenada à morte em um campo de concentração, afirmou: “É Deus que está precisando de nossa ajuda e eu tenho de fazer tudo para salvá-lo”.




[1] - Marcelo Barros, monge beneditino, autor de 25 livros, dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas" (A crise mundial da Água e a Espiritualidade Ecumênica) Ed. CEBI- Rede. Fax: 062- 3721135. Email: mostecum@cultura.com.br



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