O sr. Jonival lucas júnior



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Encontro06.07.2017
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O SR. JONIVAL LUCAS JÚNIOR (PMDB - BA) pronuncia o seguinte discurso: Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, a influência africana está nas raízes da civilização ocidental. Antropólogos reconhecem no machado duplo de Zeus o mesmo machado de Ogum, e nas runas viquingues o alfabeto fenício, que, por sua vez, veio do maior rio africano, o Nilo.
No caso da península hispânica, e da América Latina, a dívida cultural é ainda maior. Portugal colonizou o Brasil por pouco mais de três séculos, mas em 1500 Lisboa vinha de cinco séculos de ocupação Moura. Ou seja: a influência de Portugal no Brasil é menor do que a influência africana sobre Portugal e Espanha. Mapas, marinheiros e rotas de origem africana permitiram aos cristãos ibéricos descobrirem o Novo Mundo. A escravidão continuou, de forma muito mais selvagem, o intercâmbio cultural que antes era pacífico.
Toda essa influência africana é ideologicamente obscurecida; é como se até hoje os generais de Roma clamassem pela destruição de Cartago, sua rival Africana.
A biblioteca de Alexandria, a maior da Antigüidade, estava na África, e foram os africanos que preservaram a sabedoria dos gregos, desprezada pelos cristãos até o Renascimento. A Etiópia, terra do Preste João, já era cristã e tinha um alfabeto próprio ao tempo em que os ingleses eram bárbaros analfabetos. E convém nos lembrarmos de que, se o Novo Testamento tem raízes em Roma, o Velho as tem na África, pois os hebreus eram um povo de origem africana.
No entanto, como os alicerces africanos do Ocidente costumam ser esquecidos, quando falamos de religiões afro-brasileiras referimo-nos apenas àquelas que não chegaram até nós por meio dos cristãos ou mouros do Mediterrâneo.
As religiões africanas se transformaram no vodu haitiano, e na “santería” cubana; no Brasil, deram origem ao candomblé, à umbanda e às suas variações. O último censo do IBGE mostrou que é no Rio Grande do Sul que está a maior parte dos cidadãos que se declararam seguidores desses cultos; provavelmente, grande parte dos brasileiros de outros estados com notável influência africana, como Bahia, Maranhão, Rio de Janeiro e Pernambuco, se declararam católicos, mesmo apesar da adesão a crenças e rituais afro-brasileiros.
A propósito, convém lembrar que as religiões afro-brasileiras, graças ao fervor dos gaúchos, espalharam-se de forma massiva por todos os países do Mercosul, e hoje não são incomuns pais e mães-de-santo argentinos ou uruguaios.
Senhoras e Senhores: durante o Estado Novo essas religiões chegaram a ser proibidas. Apesar do inegável avanço em termos de tolerância religiosa, o Brasil ainda discrimina não só as religiões africanas, mas até mesmo seu sincretismo com o catolicismo. Ora, os preconceituosos se esquecem de que muitos elementos do cristianismo europeu também não têm fontes bíblicas; basta dizer que a data em que se comemora o Natal é uma apropriação da data em que os romanos comemoravam o aniversário de Zaratustra, numa religião persa. Já a árvore de natal e os duendes de Papai Noel são apropriações da mitologia germânica. O sincretismo é próprio das culturas, e também das religiões.
O Brasil, país de maior população negra depois da Nigéria, orgulha-se da enorme contribuição cultural e religiosa vinda desse continente do qual muitos negam os méritos. Cabe a esta Câmara, instrumento de um Estado laico, perguntar-se o que pode ser feito para não privilegiar, mesmo que simbolicamente, nenhuma das cada vez mais numerosas religiões do povo brasileiro. Pois só um Estado laico e neutro pode garantir o respeito a todas as denominações religiosas.









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