"O significado de cura na psicanálise hoje – transformações e construções no processo analítico"



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CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE PSICANÁLISE
Salvador, novembro de 2007
Mesa-redonda: O significado de cura na psicanálise hoje

transformações e construções no processo analítico

Construções em análise hoje: a concepção freudiana ainda é valida? *

Luciane Falcão**

Proponho-me a uma reflexão sobre o conceito de construção, considerando esta um dos aspcetos da cura na psicanálise contemporânea. Para que um processo analítico possa ocorrer, para que construções possam ocorrer, precisamos de um espaço constituido subjetivamente pelo paciente e pelo analista. Precisamos do espaço intrapsíquico criado entre estes. Precisamos pensar que a psicanálise evoluiu, que estamos no século XXI, que muitos conceitos tem seus limites históricos e culturais e que para podermos escutar nossos pacientes precisaremos seguir nos escutando e acompanhando a evolução dos conceitos, como o prórpio Freud fez com a sua invenção. Sabemos que qualquer reflexão psicanalítica implica um trabalho reflexivo em direção à amplitude de conceitos que evoluiram e se transformaram graças à evolução da técnica e do conhecimento da mente. Isso torna impossivel se esgotar a discussão nesse debate. Pretendo considerar a questão da construção em análise abarcando dois aspectos. O primeiro, introduzido por Freud, no qual refere que há construção “quando se põe perante o sujeito da análise um fragmento de sua história primitiva, que ele esqueceu...” (Freud, 1937b, p. 295, grifos meus). Um segundo aspecto, uma conjetura ligada à psicanálise contemporânea, onde pensaríamos a questão da construção como algo psíquico criado pela primeira vez atravéz da relação analista-paciente, onde este passaria a compor novas tessituras psíquicas, primevas.


Freud: Construções em Análise, 1937

Freud já havia começado a pensar na questão da construção em 1918, com o Homem dos Lobos (Freud, 1918) onde revela que alguns eventos psíquicos não podiam ser elaborados através da rememoração, isso parecia impossível para certas estruturas psíquicas. Surgia a necessidade de construir, ou reconstruir, uma noção ligada a questão de construção psíquica. A construção diz, então, respeito a todo um período esquecido da pré-história do paciente. Traz a idéia de que a construção é uma necessidade técnica. Apesar de já ter apresentado algumas reflexões sobre o tema, principalmente no Homem dos Lobos (1918) e de forma não menos importante em Dora, será em 1937 que ele se dedica a uma reflexão mais profunda atribuindo à construção um status metapsicológico. Certamente para chegar aqui, precisou da sua segunda tópica e, a partir de 1920, da compulsão a repetição e da pulsão de morte. Mas em que momento traz esse conceito de forma mais estruturada? Já no final da sua vida, quando ele próprio já tinha construido muitos conceitos, fazendo da psicanálise uma obra em permanente construção. Publica esse artigo três meses depois de ter escrito Análise terminável, análise interminável (Freud, 1937a).

Ao mesmo tempo, Freud parecia preocupado em responder às críticas que os analistas vinham recebendo pelas interpretações dadas à seus pacientes. Na época, o objetivo da análise seria o de suprimir o mundo recalcado do paciente para que este pudesse restaurar um equilíbrio psíquico. O analista teria por tarefa – a partir do material já fornecido pelo paciente, sonhos, associações livres, atos falhos, etc. – construir o que foi esquecido e, no momento oportuno, comunicaria ao paciente. É o trabalho que Freud (Freud, 1937b) comparou com o do arqueólogo no qual não haveria destruição total de uma formação psíquica:
...o trabalho de construção, ou, se preferirem, de reconstrução assemelha-se muito à escavação , feita por um arqueólogo, de alguma morada que foi destruída e soterrada... (...) O analista trabalha em melhores condições e tem mais material à sua disposição para ajudá-lo, já que aquilo que está tratando não é algo destruído, mas algo que ainda está vivo... (p.293).
Segue:
Se nas descrições da técnica analítica se fala pouco em ‘construções’, isso se deve ao fato de que, em troca, se fala nas ‘interpretações’ e em seus efeitos. Mas acho que ‘construção’ é de longe a descrição mais apropriada. ‘Interpretação’ se aplica a algo que se faz a algum elemento isolado do material, tal como uma associação ou uma parapraxia. Trata-se de uma ‘construção’ porém, quando se põe perante o sujeito da análise um fragmento de sua história primitiva, que ele esqueceu... (id, p. 295, grifos meus).
Penso que esses argumentos de Freud se referem a idéia de que as vivências psíquicas buscadas pela análise teriam tido um tipo de registro e vivido um recalcamento ou seja, há uma busca de algo, um fragmento de sua história primitiva, que ele esqueceu. Press (2007) – acompanhado de Freud, refere que o passado não se esconde no presente, ele se infiltra e lhe dá modos de funcionamento particulares.

Como sempre na sua obra, Freud não fecha questão com relação a suas concepções e, nesse artigo, diz que as estruturas tem “tanta coisa misteriosa” (Freud, 1937b, p. 294). Freud nos deixa aberta a possibilidade de seguirmos suas investigações e poderíamos incluir a questão das dificuldades de grande parte de nossos pacientes atuais com relação à representações e simbolizações, ou melhor dito, àquilo que é da ordem do irrepresentável ou do não-simbolizado. Isso permite uma abertura para pensarmos que construção em análise poderia também ser algo novo, criado a partir da relação analista/paciente e que não necessariamente venha por fragmentos da história. Penso que há, sim, no processo momentos de construção primeira. Voltarei a esse tema mais adiante. Obviamente essas questões podem levar a uma ampliação do debate (o que não seria nosso objetivo nesse artigo) como por exemplo, o que Freud quer dizer aqui quando fala em estrutura? Existiria algo de estrutra nessas construções primeiras? De qualquer forma quero deixar claro que minha proposta de reflexão estará sempre considerando que tudo o que se referir ao inédito ou ao nunca vivido será sempre uma questão especulativa.

Ainda com relação ao artigo Construções (Freud, 1937b) ele também propõe uma aproximação entre o delírio e a reconstrução:
Os delírios dos doentes afiguram-se como equivalentes das construções que erigimos no tratamento psicanalítico - tentativas de explicação e de reconstituição que, entretanto, nas condições da psicose, só podem substituir o fragmento da realidade que se nega no presente por um outro fragmento que foi igualmente negado no período de um passado distante (p. 303).
Nele retoma também a questão de 1925, do sim e do não em A negativa e dá um destaque às reflexões referentes a repetição e verdade histórica.
Verdade histórica, verdade material, realidade psíquica

A questão da verdade histórica e da verdade material trazida por Freud (principalmente em Moisés e o Monoteismo, 1939 [1934-1938]) merece algumas reflexões. Green (1990) pensa que Freud não nos dá uma definição precisa das duas noções mas nos faz compreender que a verdade histórica é o que é considerado como verdadeiro pelo indivíduo num período de sua história, durante sua infância e é precisamente o que o analista deverá reconstruir através de seu trabalho. Já a verdade material se refere a uma verdade objetiva. Para Green (1990), a verdade histórica é uma interpretação subjetiva que constitui um sistema de crenças que se fixa no indivíduo, no inconsciente e sobre o qual a evolução ulterior não toma conhecimento. Um grande número de fenômenos psíquicos saem desse sistema: as teorias sexuais infantis são testemunhas. Quanto a verdade material, ela é desconhecida e a encontramos sobre formas hipotéticas que deverá ser sempre questionada e verificada novamente. A questão então é:


Qual a diferença entre verdade histórica e realidade psíquica? A realidade psíquica que governa o mundo interior se constitue quase independentemente do mundo exterior. A verdade histórica comporta sempre um núcleo de verdade ao redor do qual se elabora um imenso trabalho psíquico que, na medida em que ele progride, deforma esse núcleo primitivo. (...) A verdade histórica é uma construção pessoal mas não é inteiramente arbitrária. Mesmo o delírio tem no seu fundo qualquer coisa de verdadeiro (Green, 1990, p. 69).
E segue:
... à construção do paciente, nós não podemos fazer nada mais do que propor-lhe outra construção – hipotética – que não será do domínio do verdadeiro, mas do próximo ao semelhante. Nós lhe apresentamos também uma outra versão do mito pessoal ao qual ele dará sua adesão. Essa constitue uma verdade partilhada entre ele e nós, uma verdade que ele pode reconhecer como sua naquilo que nós lhe transmitimos, depois que nós pudermos reconhece-la, através da transferência (p. 70).
Se seguirmos acompanhados por Freud, veremos que já em 1911 ele buscava entender os delírios e a paranóia de Schreber também com esse foco: “Compete ao futuro decidir se existe mais delírio em minha teoria do que eu gostaria de admitir, ou se há mais verdade no delírio de Schreber do que outras pessoas estão, por enquanto, preparadas para acreditar” (Freud, 1911a, p. 85). Tanto no artigo Construções em Análise (1937) como em Moisés e o Monoteismo (1939), Freud refere que o delírio, assim como a religião contém uma parcela de verdade histórica. Ainda em dois artigos fundamentais – Neurose e Psicose (1923a) – e A perda da realidade na neurose e na psicose (1923b) Freud discute a importância da realidade na formação dessas duas estruturas e reforça que também na neurose não faltam tentativas de substituir uma realidade desagradável por outra que esteja mais de acordo com os desejos do indivíduo. Diz que isto é possibilitado pela existência de
um mundo de fantasia, de um domínio que ficou separado do mundo externo real na época da introdução do princípio da realidade (...) É deste mundo da fantasia que a neurose haure o material para suas novas construções de desejo (...). O [mundo externo] da neurose está apto, como o brinquedo das crianças, a ligar-se a um fragmento da realidade – um fragmento diferente daquele contra o qual tem de defender-se – e emprestar a esse fragmento uma importância especial e um significado secreto que nós (nem sempre de modo inteiramente apropriado) chamamos de simbólico (grifos do autor, p. 233-234).
Cabe aqui deixarmos algumas questões: qual o valor da criação da fantasia? Qual o compromisso entre o primário e o secundário? Qual a origem do material que usamos para criar um conto, um devaneio, um mito (Moisés é um exemplo em Freud)? ...

Mesmo com essas criações, com o primário e o secundário tendendo a se misturar, penso que com o artigo de 1937, por mais que Freud esteja de acordo que o original é inacessível, ele acredita, ao mesmo tempo, que a análise o encontrará...

Green diz que o psiquismo se constitui pelo soma e pelo real (Green, 1993) e não podemos negar que uma verdade, histórica ou material, não pode ser excluída de seu contexto sem se referir a um aspecto da sua história. A realidade psíquica sempre conterá algo da verdade material. Os pais sempre serão os pais da infância, os das fantasias e os do real. O incesto, por exemplo, poderá ocorrer se ocorrer a perda da realidade psíquica – é o enlace entre o real, o imaginário e o simbólico. Será que, num psiquismo, podemos localizar um ou outro? O que sabemos, no entanto, é que todo e qualquer traço poderá, mais cedo ou mais tarde, se manifestar, mesmo que silenciosamente.

O que realmente se passou, o que Freud nomeou como a verdade material do passado, nós jamais conheceremos – a concepção kantiana de que a coisa em si não existe. Ao mesmo tempo, tocar nesse núcleo de verdade material nos permite uma aproximação do que constitui o coração de nossa identidade e permitirá a transmição de um sentimento de verdade às construções (oriundas da relação analisando/analista) que comunicamos aos nossos analisandos ou, dito de outra forma, de ganhar sua convicção (Freud, 1937b, Botella e Botella, 2001). O que ocorre na cena da análise constrói uma versão única a cada dupla analítica – uma verdade histórica da dupla. Em outras palavras, a verdade histórica tal qual aparece nas análises não é um dado, é - no sentido mais nobre do termo que aparece no artigo de 1937 - uma construção resultante de um trabalho comum. Esse caminho passa por uma prova do analista e de suas falhas, inevitáveis, nas quais virá se alojar as que fazem parte da história do paciente com seu peso de verdade histórica (Press, 2007). E eu acrescentraria, nas quais virão se alojar as que fazem parte da história do analista com seu peso de verdade histórica.


O debate a partir de Vidermam

Para melhor compreendermos algumas discussões psicanalíticas sobre a questão da construção, retomarei resumidamente um debate lançado por Serge Vidermam (1982) na década de 70, na França, onde este propõe uma retomada e uma guinada na conceitualização de construção. A noção de construção, para ele, seria um elemento da metapsicologia. Distingue, por um lado, as certezas possíveis em relação à reconstrução do passado perdido pelo efeito do recalcamento e, por outro lado, as incertezas de que toda a construção do núcleo originário será afetado. Refere:


A recuperação da história é sempre apenas parcialmente possível pelo próprio fato de o recalque primário ter desde a origem proibido sua inscirção memorial. A reconstrução visa à história do sujeito – mas qual? Qual é seu grau de credibilidade; qual a importância dos mecanismos de distorção projetiva acionados pelo paciente; quais nossos meios de corroboração objetiva dos fatores colocados em evidência; quais os meios de correção da alteração da recordação devida ao decorrer do tempo? (pg 32).
Vidermam (1982) considera ainda as defesas situacionais ligadas às atrações transferencias, sendo estas diferentes (pelo menos, de um sentido não necessariamente semelhante aos afetos originais), sentido refratado pelas emoções transferencias vividas no momento em que a evocação do passado está no primeiro plano do material apresentado. Para ele, é evidente que não é o passado que o paciente irá evocar através de todos os meios de distorção que as defesas lhe impõem, mas seu passado. Essa passagem do definido para o possessivo marca a própria passagem da história para a construção mítica; de uma história objetiva irrecuperável para a história imaginária.

A tese central de Vidermam é de que construção em análise não seria a do passado do analisando. Ela seria criada, imaginada, inventada pelo analista que faz literalmente exisitr a realidade psíquica do analisando pela palavra ou mais, pela nominação no processo analítico. Para ele a questão da verdade histórica perderia toda sua importância e o que realmente importa é o aqui e agora da sessão.

O debate proposto por Vidermam se apóia na questão da realidade histórica na análise e será a partir da análise da contra-transferência que se estabelece a aborgadem de cura analítica, centrada na capacidade do analista de construir, isto é, de inventar a partir do que ouve, do que sabe da análise em função da sua própria experiência analítica e de seu saber teórico. O trabalho da análise consiste em tentar juntar o incogniscível da pulsão com a representação que a diz, a qual, por sua vez, sofrerá o efeito da interpretação, do que o analista diz dela (Vidermam, 1982, Mijolla, 2002). Esses aspectos nos remetem ao aprendendo com a experiência de Bion (Bion, 1962).

Obviamente que essa posição gerou um debate que mobilizou a psicanálise. Francis Pasche num artigo intitulado “Le passé recomposé” critica as teses de Vidermam e refere:


Acreditamos que ao longo de um tratamento [cure] o que procuramos é o quadro dos anos esquecidos e este quadro deverá ser, ao mesmo tempo digno de si e completo no essencial. Esse projeto pode parecer ambicioso, talvez utópico, mas ele deverá permanecer, para nós, o esquema diretor de nossa ação (p. 171).
A idéia de Pasche (1974) nesse artigo é fundamental porque ele vê que esse quadro dos anos esquecidos, podemos dizer, recalcados, é apenas um fragmento da nossa realidade psíquica – e, nesse sentido, estou totalmente de acordo. É então conveniente nos perguntarmos quais os elementos que constituem esse quadro e se existe nele elementos que poderão ser reconstruídos. Penso aqui no trabalho de artistas-restauradores de obras de arte que recebem verdadeiras jóias e precisam reconstitui-las para dar o seu aval de verdadeiras ou falsas. Quantos precisarão olhar, analisar, remover resíduos, às vezes camadas e camadas de tintas para afirmarem que aquele é, por exemplo, um verdadeiro Caravaggio? Quantos destes restauradores, técnicos especialistas, poderiam afirmar com absoluta segurança sobre a origem do quadro, seu autor, sua data, etc? Acho esse um trabalho fantástico porque exige uma análise minuciosa, uma busca infindável de elementos que precisarão ser reconstituídos para se chegar no veredito final: verdeiro ou falso! Mas que jamais será o verdadeiro, o original. O original foi se modificando com as intemperes do tempo e no momento em que qualquer artista-restaurador colocar seus instrumentos investigativos naquela obra, a obra estará recebendo a interferência de um outro que, querendo ou não, alterou o original...

Poderíamos hoje, mais de três décadas depois da afirmação de Pasche – freudiana, certamente - mantê-la como nosso objetivo nos trabalhos analíticos que realizamos com nossos pacientes? Temos instrumentos de análises, de busca do passado que nos permitiria afirmarmos o passado dos nossos pacientes e reconstruirmos sua história?

Penso que não temos essa capacidade, essa precisão, porque por mais camadas e camadas que possamos acessar nos pacientes, jamais chegaremos a coisa em si, essa não existe (Kant)...

Freud, em Pulsões e destino da puslões (1915) nos mostra através de sua genialidade, o quanto está em jogo na construção dessas camadas:


Na medida em que o eu é auto-erótico, não necessita do mundo externo, mas, em conseqûencia das experiências sofridas pelas pulsões de auto-conservação, ele adquire objetos daquele mundo e, apesar de tudo, não pode evitar sentir como desagradáveis, por algum tempo, estímulos pulsionais internos. Sob o domínio do prazer ocorre agora um desenvolvimento ulterior do eu. Na medida em que os objetos que lhe são apresentados constituem fontes de prazer, ele os toma para si próprio, os ‘introjeta’ (para empregar o termo de Ferenczi) e, por outro lado, expele o que quer que dentro de si se torne uma causa de desprazer ( p. 157).
E, completa:
O ‘eu da realidade’ original que distinguiu o interno e o externo por meio de um sólido critério objetivo, se transforma num ‘eu prazer’ purificado, que coloca a característica do prazer acima de todas as outras. Para o eu do prazer o mundo externo está dividido numa parte que é agradável que ele incorporou a si mesmo e num remanescente que lhe é estranho. Isolou uma parte do prórpio eu que projeta no mundo externo e que é hostil (p.157-158).
Esse pensamento de Freud nos conduz a uma reflexão que inclui um eu que constrói camadas, introjeta, expula, etc. Essas camadas se misturam e, como já questionamos, teríamos acesso a elas? Mesmo reconhecendo a inacessibilidade do original, do primevo, devemos manter o conhecimento de que isto existiu e de que faz parte do humano. Como refere Press: isso é o que nos move não adiante, mas em direção ao passado. Defaut de passividade no analista? Certamente. Mas também necessidade de uma origem fundadora ancorada no real – real da história individual, real da filogênese, real da ancoragem somática – se não quisermos cair numa especulação delirante (Press, 2007).

Vidermam também foi criticado por Janine Chasseguet Smirgel (1974) que diz que suas idéias fazem da psicanálise um idealismo, onde tudo estaria no espírito do sujeito – o analista – criador da realidade do objeto. Ela assinala ainda a questão concernante a natureza da comunicação entre analista e paciente, onde Viderman dá um lugar de destaque ao analista, sendo este quem confere um sentido ao material trazido pelo paciente. Smirgel questiona onde estaria, no pensamento de Vidermam, a questão do conceito de espaço psíquico, presente na primeira tópica e como compreender o recalque, a resistência, as defesas se o sentido não estivesse já no inconsciente do paciente. Ela lembra ainda que o texto de Vidermam remete a outra questão importante: a questão do poder do analista* e esta posição de Vidermam abriria uma brecha para isso ocorrer nas análises.


O trabalho analítico e a construção

Mas o que temos para o nosso trabalho analitíco - como o técnico restaurador de quadros – que por sua vez também fará um trabalho pessoal em cima da tela que está avaliando ou restaurando...?

Penso que temos nossas mentes, com nossas histórias pessoais, com nosso desenvolvimento primitivo, sexual, que foram submetidas as nossas análises ou reanálises pessoais e temos nossos defaut, que não puderem ser analisados e que também estarão presentes nos encontros analíticos que propomos realizar com nossos pacientes.

E como pensarmos a ação dos jogos posteriores de introjeção e projeção para estabelecer e preservar o eu-prazer que altera as representações das duas realidades invertendo-as, em parte, mas depois que elas foram apreendidas em seu justo lugar, porque projeção e introjeção se fazem a partir da situação real do sujeito e do objeto, o qual deve ter sido, primeiramente, percebido num certo nível de consciência? (Pasche, 1974).

Podemos recorrer as fórmulas conhecidas e afirmar que as vivências primitivas, recalcadas, poderão retornar através da compulsão a repetição que se esforça para se fazer persisitir o idêntico ao original e de lhe revelar seu estado anteriror, de perpetuar desejos e afetos fixados às experiências primitivas que poderão ser vivenciados na tranferência/contra-transferência. Mas sabemos das dificuldades que temos nas análises atuais onde nossos pacientes se apresentam com o vazio, com os buracos, com o vago das tessituras psíquicas que não ocorreram... Aqui, nosso trabalho se dificulta e exigirá mais de nosso psiquismo. O espaço analítico existirá apartir das condições que o analista lhe impõe – condições que obrigatoriamente passam pelo seu mundo interno, conhecido ou desconhecido - acrescido pelo funcionamento mental do paciente.

O discurso do analisando – resultado de um duplo compromisso: por um lado, expressão do compromisso entre inconsciente e consciente; por outro, expressão do compromisso entre desejo de contato e desejo de não contato com o analista – e a escuta do analista serão os intrumentos que esse último utilisará no processo. Essa escuta também estará conectada com o que o analista ouve, entende com a ajuda do seu consciente e do que ele é capaz de entender do seu inconsciente (Green, 1990).

Mas, voltemos ao texto de Freud (1937b) e vamos refletir sobre outros aspectos que implica a questão da construção em análise e o trabalho do analista:

O caminho que parte da construção do analista deveria culminar em uma lembrança do analisando; no entanto nem sempre vai tão longe. Com certa frequência, não conseguimos levar o paciente até a lembrança recalcada. Em lugar disto, se a análise foi executada de maneira correta, se alcança nela uma convicção certa sobre a verdade da construção que, terapeuticamente, seria o mesmo que uma lembrança recuperada” (Freud, 1937b, p. 300).


Freud levanta o problema de como conhecer as circunstâncias em que isso ocorre e acredito que os estudos dos Botella – entre outros - sobre o irrepresentável (Botella e Botella, 2001,2006) nos auxiliaram nessa compreensão.

Conhecemos as dificuldades de se realizar o trabalho de cura analítica com pacientes que sofrem, por exemplo, de transtornos narcísicos-identitários nos quais são confrontados a formas de intricações que são dominadas pela confusão e paradoxos, impasses e não chegam a interiorizar psiquicamente os conflitos, dificultando as vivências transferencias clássicas, uma vez que essas confusões e paradoxos invadem a cena transferencial. Muitas vezes, ficamos anos e anos esperando que o paciente venha para a sessão com uma representação para que pudessemos então, interpretar o conflito. A questão é que com esses pacientes raramente teremos esse trabalho da utilização das representações na transferência. Voltamos então a idéia central do artigo de Freud (1937b) que coloca as bases para o trabalho de construção quando volta a se perguntar sobre a questão do retorno quase alucinatório de certas impressões ou de certas lembranças. René Roussillon (1999), a partir desse artigo de Freud, lembra que:


...nos estados narcísicos, mais que realizações de desejos, trata-se do modo de retorno alucinatório dos acontecimentos ou de modos relacionais traumáticos anteriormente percebidos que se misturam com o presente, apoiando-se sobre ele e assim se disfarçando. Fornecidos pela alucinação como presentes e habitando a realidade atual, oriundos de um período precoce do desenvolvimento psíquico que precede a organização da linguagem, esses acontecimentos anteriores não podem ser significados como lembranças nem mesmo como passado. Conservados em estado de traço mnésico perceptivo, eles não foram jamais simbolizados, não viveram o après-coup da evolução psíquica anterior. Eles invadem assim o sujeito privado de referência quanto a origem do que ele vive ou percebe: ele se abusa e é abusado pelo que é confrontado, ele ‘delira’ ” (p. 54).
O dilema seria entre ou renunciar uma parte da realidade atual, delirar, mas buscar significação da parte essencial de si e de sua história ou renunciar a significar esse história desconhecida no centro de sua identidade essencial, negando sua existência mas permanecendo presente à realidade perceptiva atual que, de repente, perde sua animação e seu sentido. Roussillon (1999) refere que Freud nesse artigo de 1937(b), propõe uma saída para esse dilema graças a um trabalho de reconstrução da realidade/verdade histórica que se apresenta assim alucinatoriamente ao sujeito. Assim Freud completa uma de suas proposições de 1896, no manuscrito G, a propósito do que ele nomeia delírios de assimalação, no qual o sujeito, confrontado a uma realidade objetiva insustentável e que contém uma negação dele mesmo, não deixa de fazer como se fosse o sujeito dele mesmo.

Freud (1937b) diz:


Renunciaremos ao vão esforço de persuadir o doente da loucura de seu delírio e basearemos mais o tabalho terapeutico sobre o fato de reconhecer com ele o nível da verdade contida no seu delírio. Esse trabalho consistirá em libertar o pedaço da verdade histórica de suas deformações e de ligações na verdade atual e lhe conduizir ao ponto do passado ao qual ele pertence ( p. 303).
Roussillon (1999) vê nesse texto que cabe ao analista a iniciativa de construir em qual (is) momento (s) da história do paciente ou da pré-história do sujeito e/ou a qual (is) modo (s) relacional (is) a reminiscência refere, sem esperar que uma rememoração efetiva venha caucionar esse trabalho:

No trabalho de reconstrução de que se trata aqui – experiências precoces, refutadas, não simbolizadas, anteriores à linguagem, de natureza traumática, etc – não se pode jamais esperar confirmações diretas da veracidade da construção, ainda mais na medida onde de fato a construção lembra ao sujeito sua dependência primeira, seu sofrimento, suas agonias primitivas, seus sofrimentos enclausurados. É preciso esperar lhe ver bravamente se opor ao conteúdo da construção, ou aderir de maneira submissa e inutilisável se ele não está em condições de se opor à nós”. (p. 56)


Esses pensamentos de Roussillon sobre a tarefa do analista em construir momentos da história do paciente – ou da pré-história – exigem uma reflexão importante. Penso que numa análise não há absolutamente nada que seja puro, original, primevo. Há criações e transformações desde o início – desde o útero, desde o parto, desde as mamadas, desde as trocas afetivas, ou as não-trocas... O que se passa na sessão é o resultado do encontro de duas mentes, cada qual com sua história psíquica, que podem estar num momento fecundo e em condições de criar (ou recriar) relações ou, ao contrário, em função de suas limitações não puderem proporcionar algo criativo. Essas construções são o resultado desse trabalho a dois. Não existe análise se não houver esse trabalho.

Seguindo Roussillon (1999), quando propomos uma construção concernante ao modo relacional entre o sujeito e o seu ambiente primário, em resposta a um movimento narcísico ou a uma transferência extrema, nós desencadeamos um processo, nós fazemos uma proposição ao nosso paciente. O que conta então, é a maneira que ele vai se comportar, em relação a essa construção. Se ela possue uma certa pertinência, se ela representa uma primeira aproximação conveniável, no momento ou no pós-sessão, ele reagirá a essa construção e, de uma maneira ou de outra, vai afastá-la ou se afastar. A maneira na qual o objeto construção é tratado (despedaçado, invertido, jogado fora, evacuado, etc. – como equivalente ao primário?) nos informa sobre a maneira pela qual devemos transformar, retificar, retomar, remodelar, etc, o que dissemos e assim por diante. A negativadade e a destrutividade que manifesta o paciente nesse momento deve ser utilisado como energia de transformação e de adequação. Globalmente, a construção será, pouco a pouco, fundada na medida mesma onde ela aceitará de ser destruída e transformada (Roussillon, 1999).

Freud referia que o trabalho analítico consiste em duas peças inteiramente distintas que se desenrolam em dois palcos e dois cenários separados, envolvendo dois personagens, cada um dos quais encarregado de desempenhar um papel diferente (Freud, 1937b, p. 292). Penso, a partir dessa colocação, que a história é uma construção realizada num trabalho a dois - e que necessitará de todo um aparato da linguagem – a colocação em palavras para poder ser vivenciada. Podemos pensar que o trabalho da análise seria dar ao paciente a possibilidade de criar novas formas de relações para estabelecer novas simbolizações para que na continuidade de sua vida, a verdade construída possa lhe permitir uma continuidade coerente. Ou, como refere Faimeberg e Corel:
...resgatar um fragmento da história precoce – e em consequência romper com o ciclo de repetição na transferência – significa para nós que precisamente graças a construção chega a ser história o que nunca foi nem história nem lembrança, se não somente repetição” (Faimberg & Corel, 1989).

Em Para introduzir o narcismo (1914) Freud utilza os versos de Heine: “...Criando, pude recuperar-me; criando tornei-me saudável” (Freud, 1915, p. 102). O nosso trabalho nos leva a criar novas simbolizações através da reconstrução feita no campo vincular, transferencial e contra-transferencialmente. Isso, implicito nessa bela citação de Hime, nos leva a pensar que o analista criando (com o paciente) cura-se a si próprio. “Portanto, a análise criativa não o é apenas para o paciente, também o é para o analista” (Machado, 2007).

Se Freud se referia à construção, em 1937, como vimos, baseada na possibilidade de que questões psíquicas vividas pelo paciente, mesmo primitivamente mas que nunca tinham sido constituidas por eles viessem à análise pelo trabalho de construção, hoje pensamos na ampliação deste conceito e vamos considerá-lo como havendo uma outra forma de construção: aquela vivência que ocorrerá pela primeira vez durante o processo analitico. Arriscaria a chamá-la de construção primeira em análise. E deixaria os termos contrução/reconstrução para aquelas vivências oriundas de experiências infantis já vividas e que a análise permite reconstrui-las a partir de uma outra relação – a analítica. Por isso penso que a construção analítica não descobre a história, mas a inventa numa relação analista-paciente, num setting, num timming. Essa história é criada e vivida pela primeira vez nesse processo. A metáfora que me ocorre vem da construção de casas: algumas são feitas com tijolos de demolição, ou seja, tijolos que faziam parte de alguma construção, que fora demolida, mas cujos tijolos são reaproveitados e passarão a fazer parte de uma nova construção – o material usado era o antigo, o cimento que permite as ligaduras é novo... E teremos casas construidas com tijolos novos, que serão usados pela primeira vez na casa e que também necessitarão de cimento para as ligaduras. Obviamente, esses tijolos foram, antes de mais nada, areia e água (o primário?). Para mim, a construção primeira ocorrerá na análise, em presença do analista, num trabalho em duplo (Botella e Botella, 2001) e existirá quando o paciente não tem tijolos de demolição, onde houve uma falta radical. Aqui, será preciso construir, pela primeira vez, algo que nunca foi construído. O espaço criado (ou recriado) é o resultado do tabalho de duas mentes que estão tendo uma vivência originária que permitirá a emissão e a criação de outras cadeias que percorrerão o caminho progrediente até a simbolização. Quando digo construir pela primeira vez quero me referir a uma construção psíquica. Com isso, não nego – e nem poderia! – a hipótese de que em toda a vivência, o primário e o secundário estão contidos. Para que se chegue a uma representação há necessidade de uma potencialização para isso – a areia, a água, a forma do tijolo, o cimento. No entanto, a areia e a água, sós, isolados e sem uma ligadura, não se transformarão num novo tijolo.

Penso também na idéia de que o sonho é uma criação, é um trabalho que exige construção a partir de diferentes elementos. O trabalho do sonho sendo o “modelo de um processo de transformação de uma coerência de elementos heterogeneos e heterocronos presentes simultaneamente no psiquismo num dado momento” (Botella, 2007, p. 27 - prefácio)


A mente do analista: um processo em construção *
O que se passa durante a sessão na mente do analista? Em que estado mental ele se encontra quando recebe seu paciente? O que ele escolhe para interpretar? O que ele descobre no paciente vem de dentro deste ou de si próprio? Como ocorre este processo que implica o inconsciente do analista? O que lhe é objetivo ou subjetivo? André Green, referindo-se ao que se passa na sessão, diz:
Não é dele, não é meu, é nosso, é alguma coisa que tem uma força e uma realidade própria no espaço e no tempo da sessão e que, no momento em que o analisando sai do consultório, torna-se outra coisa. Mas o momento da ligação, o momento quando isto se une, é um momento muito forte. É a visão moderna da transferência (Green, 2004, p. 116-117).
Sugiro ampliarmos essa idéia e vê-la como um conceito moderno de construção - assim como pensei que poderia servir para pensarmos a questão da neutralidade (Falcão, 2007) que vê a transferência também como algo que ocorre a partir da dupla e do estado de sessão implicando a mente do analista. De qualquer forma, hoje sabemos que uma relação entre dois (no caso, analista e paciente) é algo mais que a soma dos atributos de cada um dos objetos na composição da relação e caracterizará a sessão de análise quando ocorre o processo (Green, 2002). Incluo aqui a necessidade de uma reflexão que implica pensar que o que se passa na sessão passa pela mente do analista e que, quando falamos em construção também corremos o risco de nos depararmos com situações onde os analistas vão necessitar construir suas histórias a partir de suas relações com seus pacientes... corremos sérios riscos... Ao mesmo tempo, o risco é próprio da organização fálico-genital e uretral e faz parte da criação, da gestação de algo novo...
A ligação – o vínculo: a situação analisante

O momento da ligação necessariamente forte – é imprescindível para a evolução da relação – o cimento necessário para a construção das casa. O mundo inconsciente, o mundo dos afetos do analista deverá estar disponível para apreender e vivenciar aquele momento. Há a necessidade de um jogo dinâmico entre os dois parceiros. Na minha opinião não há relação que leve a crescimento e a transformações se nela o afeto não se fizer presente. Ao mesmo tempo, insisto, penso que o analista deve perceber como olha para seu paciente. A partir de que posição ele o faz? Estará ele neutro em relação aos conceitos, às concepções de mente? Sua posição favorece o crescimento do paciente, permite a expansão da sua mente? Permite uma nova gestação?

Jean Luc Donnet, em seu livro La situation analysante (Donnet, 2005), utiliza intencionalmente o particípio presente na palavra analisante para sublinhar a primazia do ponto de vista dinâmico, servindo-se da referência winnicottiana paradoxal entre a dependência da transferência e a autonomia que sustenta as verdadeiras introjeções pulsionais do Eu. Ora, nessa situação, não temos como não levar em consideração que aquilo pelo qual optamos na hora de intepretar ou construir é algo amplo e incerto e que a equação pessoal e as teorias do analista estão inseridas no contexto do setting. Donnet refere que a profundeza da regressão, a intensidade da dependência fazem com que as interpretações ganhem um peso mais e mais considerável, carregando a carga da contra-transferência. Penso que esse é o momento de paixão durante a análise e que a expressão disto será uma nova construção-compreensão que se presentifica.

O que Donnet denomina como a situação analisante implica, pois, permanentemente, a idéia de um conjunto para marcar a unidade funcional específica constituída pelo conjunto analisando-analista-situação: unidade de ligação entre os processos intrapsíquicos do paciente e sua exteriorização na cena da transferência, mas também entre os processos psíquicos dos dois protagonistas, a ponto de tornar o jogo da transferência e da contra-transferência uma atividade de co-pensamento (Daniel Widlocher, 1996), um campo (M. e W. Baranger, 1966), uma fusão parcial que vem através dos processos identificatórios primitivos; uma quimera (M. de M’Uzan, 1983); um ar de jogo compartilhado (Donnet, 2005).


O jogo e a figurabilidade

O caráter aproximativo da memória dá a liberdade ao psíquico, que leva a vida a promover a criatividade, que leva ao jogo, que confere à memória suas potencialidades simbolizantes (Roussillon, 2003). Se o analista não entra em cena nesse jogo, estaremos diante das patologias do setting e, num não-envolvimento, não-jogo, estaremos face a situações que impedem a tessitura psíquica, a construção, (ou a re-construção) de tecidos psíquicos.

Winnicott (1971, 1979) enfatizou o brincar nas análises, brincar esse que tem um papel fundamental, pois há de ser através dele e nele que ocorrerão as trocas que vão contribuir para as tessituras dos tecidos psíquicos, verdadeiros constituintes do psiquismo. É ali que haverá o movimento da transformação através do prazer, muitas vezes vivido como momentos de sedução que vão colaborar para o entrelaçamento dos tecidos psíquicos. Não se pode jogar em qualquer lugar ou condição, é preciso uma segurança de base para afrontar o risco que implica o jogar. O momento do jogo é um momento sagrado (como o da cena primária criativa, por exemplo) que deve ser respeitado pelo ambiente, respeitado em particular nos paradoxos (também momento profano!) que supõe e que devem ser tolerados. O jogo pode passar a ter um valor de exploração das situações subjetivas, de valor enigmático, de valor de uma criação ou recriação da subjetividade, de uma descoberta ou de uma invenção de uma nova forma de relação consigo mesmo e com o outro (Winnicott, 1971; Roussillon, 2003).

Essa idéia de jogo me agrada bastante. Penso ser reveladora da necessidade de haver a troca, a ligadura entre os parceiros do jogo. Gostaria de completar essa idéia referente aos ingredientes de que o analista precisa dispor para entrar nesse jogo – necessário para a construção - com o pensamento de Cesar e Sara Botella (2001, 2006), que, partindo das concepções freudianas e bionianas, concebem um ponto de vista metapsicológico para os processos mentais do analista em sessão. O jogo e o trabalho de figurabilidade são, do meu ponto de vista, formas de pensarmos como a mente do analista entra e age no processo.

Quando penso no trabalho da construção em análise – e principalmente na construção primeira – vejo o trabalho da figurabilidade do analista, produto da regressão formal do seu pensamento na sessão, como um meio de acesso ao além do traço mnésico que é a memória sem lembranças. A regrediência da mente do analista abre a sessão a uma inteligibilidade da relação de dois psiquismos que funcionam em estado regressivo. É o que os Botella denominam o trabalho em duplo (Botella e Botella, 2001), cuja realização será o revelador do que, existindo já no paciente em estado não-representável, em negativo do trauma, pode enfim aceder à qualidade de representação. Seguindo a minha metáfora com os tijolos, pensaria que seria um estado de pó, água, ingredientes de um futuro tijolo mas ainda sem ser um tijolo, ainda não constituido como tal. Devido à regressão a que o setting analítico induz o analisando (posição deitada, analista investido, porém fora da visão, ausência de toda ação com exceção da palavra, livre associação, etc) e o analista, e devido a outras restrições, produz-se um estado psíquico da sessão analítica, meio diurno, meio noturno, um estado psíquico de uma natureza singular, única, híbrida, constituído tanto pelo funcionamento diurno como pelo noturno. Sem ser nem um nem outro, beneficia-se das qualidades dos dois e possui capacidades específicas de outro modo inalcançáveis. Esse estado de sessão é o palco para o trabalho de figurabilidade entrar em ação e acessar o irrepresentável (Botella e Botella, 2001, 2006).

Diante de situações limites, de uma forma inesperada, totalmente involuntária, na qual o pensamento do analista regride além da atenção flutuante e suas representações palavras tendem a ser desinvestidas, pode surgir um acidente do pensamento, uma ruptura com o mundo das representações em favor de uma expressão perceptiva-alucinatória derivada (Botella e Botella, 2001).

Freud (Freud, 1937b) referiu que

O caminho que parte da construção do analista deveria culminar em uma lembrança do analisando; no entanto nem sempre vai tão longe. Com certa frequência, não conseguimos levar o paciente até a lembrança recalcada. Em lugar disto, se a análise foi executada de maneira correta, se alcança nela uma convicção certa sobre a verdade da construção, que terapeuticamente seria o mesmo que uma lembraça recuperada (...) Fiquei impressionado pelo modo como, em certas análises, a comunicação de uma construção obviamente apropriada evocou nos pacientes um fenômeno surpreedente e, a princípio, incompreensível. Tiveram evocadas recordações vivas – que eles próprios descreveram como ‘ultraclaras’ – mas o que eles recordaram não foi o evento que era o tema da construção, mas pormenores relativos a esse tema (...) O ‘impulso ascendente’ do recalcado, colocado em atividade pela apresentação da construção, se esforçou por conduzir os importantes traços de memória para a consciência...” (p. 300-301).

O ultraclaro (überdeutlich) referido aqui por Freud pode ser pensado, hoje, como a figurabilidade. Freud estaria se referindo aos efeitos da intensidade da figurabilidade e podemos dizer que quando há uma figurabilidade, há um certo grau de alucinação e, esta, suscita e se faz acompanhar de uma convicção. Na vivência do paciente a figurabilidade alucinatória (überdeutlich), convicção (überzeugung) e transferência (übertragung) se interpenetram num ponto em que sentimentos transferencias (amor e ódio) se tornam suficientes. (Botella, C. e S., 2001).

Com o texto de Construções em análise, Freud (1937b) nos permitiu pensarmos em outras fórmulas de se desenvolver o trabalho analítico. O trabalho pode ser pensado como algo que não revelaria uma estrutura existente ou, como pensa Press (2007), um trabalho feito em diferentes níveis de discurso que encontra – ou não – um pedido tendo sua economia e sua dinâmica com uma resposta – ou não resposta que põe em risco a todo o momento de cair na recusa pelo objeto da pulsionalidade do sujeito. Esse trabalho poderia, quem sabe, propor novas formas de trocas. Trocas nas quais há uma presença da pulsionalidade que até então não tinha encontrado seu lugar.

Há uma fórmula dos Botella que nos mostra o caminho para refletirmos o quanto da percepção do analista em sessão irá conduzir o trabalho em duplo: “...o objeto está ‘somente dentro-também fora’ ” (Botella e Botella, 2001, p. 122). Essa fórmula nos ajuda a pensar o quanto os objetos internos do analista vão influenciar a sua forma de perceber os objetos do paciente. Ou seja, se o a analista percebe algo do paciente (e devemos sempre questionar nossa percepção, uma vez que, se a realizamos com nossos órgãos dos sentindos, estes, por sua vez, estão também submetidos à fórmula somente dentro também fora), não poderá esquecer que uma representação – a sua representação – contém o real (realität) de um lado (a percepção) e a fantasia e o recalcado de outro. E, como sabemos, o que existe e se impõe inicialmente é o fantasmático: no momento em que há a perda do objeto que estava na realização alucinatória, o indivíduo terá que reencontrá-lo na relidade. E que objeto será este que ele deverá reencontrar também fora?
As coisas existem no meu universo interior da forma como eu as fantasio, sonho, construo, fabrico (...) O ‘também fora’ quer dizer que eu busco encontrar o objeto que estava no meu universo interior, na minha realidade psíquica, para saber se eu posso reencontrá-lo no mundo exterior... (Green, 2004, p. 82-83).
Uma vinheta clínica

João é um homem de 50 anos, caráter fóbico-obssessivo e apresenta alguns traços esquizóides. Está em análise há oito anos. Dificilmente mostra, tanto na transferência como na vida real, qualquer sentimento em relação ao outro.

Recentemente, pela primeira vez, manifesta uma transferência positiva, (“amor de transferência”) e, ao mesmo tempo, relata um sonho/terror, também raríssimos nessa análise. Esse homem suporta mal esse movimento e começa a negar a realidade dessa transferência positiva. Vive uma situação nesse momento que a relação com a analista é muito dificil e inaceitável para ele e isso se transforma num pesadelo.

E tem um pesadelo/um terror: Está deitado e uma aranha lhe ameaça. Fica completamente imobilizado. Não pode mexer nenhuma parte do corpo. Acorda muito assustado, pensando que aquilo podia ter sido real.

O que fiz - apesar de mim? Não fui buscar a interpretação da aranha como o sexo da mãe, etc. Resolvi escutar as associações do paciente: ele conta o sonho, tem medo e passa a falar de homossexualidade: quando era adolescente tinha um menino do grupo que todos sodomizavam. Na sessão seguinte, continua falando das experiências homossexuais, relatando que fazia sexo oral e que ele era o homem, o que era chupado. O seu relato é sempre repetitivo e cansativo. Desligo-me do conteúdo do seu discurso por alguns momentos. Quando volto a ouvi-lo, penso em lhe perguntar o que seria dele igual a aranha, mas falo sobre o “veneno que a aranha largara nele, que o imobilizara”. Assim que falo sobre o veneno, me sinto mal, culpada, porque me dou conta que ele não utilizara a palavra veneno, eu é que pensara nisso... Mas, aí, já tinha falado. Percebo logo o meu erro técnico.

Para minha surpresa, ele diz que sim, que a aranha lhe picara e que fora o veneno que o imobilizara. Obviamente que esse caso poderia ser compreendido em diferentes níveis: por exemplo, poderiamos nos perguntar porque não teria ocorrido a representação? Poderíamos pensar que o sonho, a associação com a homossexualidade projetada e a esquizoidia (como defesa) não são passiveis de representação exatamente no momento que a paixão pela analista se fez presente; ou pensar que sou uma aranha venenosa como ele sente a mãe interna, ou que na reconstrução o analista tem medo de amar porque teria medo de ser envenenado, etc, etc. Enfim, tantas hipóteses que não são descartadas mas que o exame delas não nos é possível nesse momento. Não entrarei, pois, nos detalhes desse contexto e de sua análise, e me deterei na questão técnica que passa pela mente do analista e que fez com que eu utlizasse uma palavra, minha, e não do paciente.

O que ocorreu na minha mente? Estou dizendo uma barbaridade e introduzindo algo que não existe no paciente? Algo ligado ao meu sexual infantil? Porque ocorre isso? Teria a ver com o que Freud refere na Interpretação dos sonhos (1900) sobre o ontogenético, pessoal e universal?

Après coup, me dou conta que havia ocorrido uma figurabilidade atuada. Eu não havia tido uma imagem de uma figurabilidade, mas a inteligibilidade através de uma espécie de figurabilidade atuada e me escapa a idéia de veneno. Pelo trabalho em duplo, estado de sessão, há um trabalho de figurabilidade que leva a uma inteligibilidade.

Também après coup, pensei que o importante nesse caso é pensarmos na capacidade do criança de criar uma imagem terrorífica que vai representar um estado de sofrimento e de terror que não tem conteúdo que não se possa buscar. É um estado de pânico e quando Freud fala do desamparo - hilflosigkeit -, está falando do bebê desesperado que não pode falar, que grita, chuta e não pode criar nenhuma representação verbal. Penso também nos efeitos negativos do trauma, nas tentativas de negativação radical das experiências traumáticas, nas experiências de satisfação que não ocorreram no momento em que deveriam ter ocorrido e ter sido proposta pelo objeto, experiência que não foi construida. E, num momento dado, pode encontrar no sonho uma imagem universal para explicar o terror sem nome. Isso já é um progresso e quando digo veneno não dou uma interpertaçao real de um conteúdo e sim lhe ofereço uma inteligibilidade de algo que o paciente vai aproveitar do irrepresentavel da relação primitva com a mãe. Essa figurabilidade – essa construção – me permite abrir caminhos para transformar a potencialidade traumática interna do paciente. Isso é, do meu ponto de vista, uma construção em análise que precisou ser posta em palavras.


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Resumo:

O autor apresenta uma revisão do conceito de Construção em Análise talhado por Freud em 1937 articulando-o com questões metapsicológicas e com questões da psicanálise contemporânea. Para isso, bebe na fonte da psicanálise francesa, através de Videraman, A. Green, JL. Donnet, R. Roussillon, C. e S. Botella e outros. Propõe para um debate a possibilidade de se pensar nas construções primeiras em análise que, diferentemente da construção proposta por Freud – construção feita a partir de material da pré-história do paciente -, existiria e se constituiria a partir da relação com o analista que, através do processo e do vínculo proporcionado por esse, permitiria novas construções, novas tessituras psíquicas que poderiam ocupar o que antes era o vazio.

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** Psicanalista, Membro Associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre


* Para mais detalhes do debate atual sobre esse tema ver Revista Brasileira de Psicanálise, v. 39, n. 2 e 3, 2005.

* Algumas destas questões são uma continuidade de reflexões apresentadas no artigo intitulado “Neutralidade e abstinência ontem e hoje” apresentado no Mesa Redonda com o mesmo título, no XXI Congresso Brasileiro de Psicanálise realizado em Porto Alegre, maio de 2007 e publicado na Revista de Psicanálise da Sociedade sicanalítica de Porto Alegre, v. 3, 2007.


 Não me refero aqui a sentimentalismos e sim ao afeto como portador de um trabalho psíquico que leva à ligação, à tecitura psíquica. Vamos lembrar que o pulsional obriga a incluir o afeto e a intepretação do analista deve ter passado pelo psíquico, portanto, ligado ao afeto. Para aprofundamento do tema ver: Green, A. (1998) Sobre a discriminação e a indiscriminação afeto-representação. In: Rev. Brasileira de Psicanálise, vol 32, n. 3, p. 407-456.




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