O segredo da longevidade segundo as percepçÕes dos próprios longevos



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O SEGREDO DA LONGEVIDADE SEGUNDO AS PERCEPÇÕES DOS

PRÓPRIOS LONGEVOS


THE SECRET OF LONGEVITY ACCORDING TO ELDER´S PERCEPTIONS
Karina Pavão Patrício

Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UNESP de Botucatu

Distrito de Rubião Jr, Cx –549, Botucatu 18618-970

pavao@fmb.unesp.br
Helena Ribeiro

Departamento de Saúde Ambiental

Faculdade de Saúde Pública da USP
Katsumasa Hoshino

Departamento de Ciências Biológicas

Faculdade de Ciências da UNESP
Silvia Cristina Mangini Bocchi

Curso de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu/UNESP



O SEGREDO DA LONGEVIDADE SEGUNDO A PERSPECTIVA DOS PRÓPRIOS LONGEVOS

THE SECRET OF LONGEVITY ACCORDING TO ELDER´S PERCEPTIONS

Resumo

Estudos apontam fatores que podem aumentar a longevidade, no entanto, muitas questões pertinentes a este tema ainda não foram elucidadas. Percepções do próprio longevo a respeito dos fatores contribuintes para longevidade são importantes, permitindo levantamento de cada fator e suas interações com demais variáveis que promovem a longevidade. O presente artigo relata dados da investigação sobre “o segredo da longevidade”, segundo percepções dos próprios longevos, analisados pelo referencial metodológico da grounded theory. Entrevistou-se 30 ferroviários longevos do município de Botucatu (SP). A análise das falas dos longevos possibilitou determinar que a percepção dos fatores se aglutina em torno de categorias progressivamente abrangentes que culminam na representação coletiva de que a longevidade é dependente do embate entre fatores prejudiciais que aniquilam a vida e fatores saudáveis que geram e preservam a vida, sobre o qual a falta de controle social e do Estado torna pessimista a visão do futuro.

Palavras-chave: Longevidade; Grounded theory; Envelhecimento
Abstract

Many studies point factors that can increase longevity. However many questions regarding this theme have not been elucidated. Perceptions of elders regarding factors that contribute to increase longevity are important and allow to the identification of each factor and its interactions with other variables that promote longevity. This article presents results of an investigation about “the secret of longevity”, according to elder’s own perceptions, analyzed through grounded theory. Thirty old aged men former railroad workers were interviewed in the municipality of Botucatu (SP). The analysis of their talks allowed to determine that the perception of the factors can be grouped around categories progressively inclusive that culminate in a collective representation that longevity depends on the struggle between negative factors that destroy life and healthy factors that generate and preserve life, over which there is a lack of social and state control, generating a pessimistic view of the future.

Key words: Longevity; Grounded Theory; Ageing

INTRODUÇÃO


O aumento da expectativa de vida, no século XXI, tem sido uma preocupação e um campo de muitas discussões. No entanto, vários esforços acabam sendo centralizados em pesquisas voltadas mais para tentar aumentar a longevidade humana do que para compreendê-la1. Hayflick2 chama a atenção para o fato de que os determinantes da longevidade devem ser diferenciados daqueles do envelhecimento, embora os temas se sobreponham parcialmente. Ele coloca duas perguntas fundamentais: Por que envelhecemos? Por que vivemos tanto tempo quanto vivemos? Apesar das pesquisas sobre envelhecimento terem se intensificado há 30 anos, pouco se avançou também no sentido de compreender o complexo fenômeno do envelhecimento, pois elas enfocaram mais as patologias associadas com o envelhecer, como critica esse autor.

Acreditava-se anteriormente que o tempo máximo de vida do ser humano seria de 100 anos, mas, atualmente, considera-se 125 anos 2. Por outro lado, estudos têm demonstrado que o ser humano, em condições ambientais ótimas e tendo comportamentos saudáveis, pode alcançar uma expectativa de vida média de 85 anos 3. O aumento no tempo de vida está muito associado aos avanços da tecnologia da saúde, que diminuíram as taxas de mortalidade. Atualmente, nota-se que a queda da mortalidade não teria mais tanto impacto no aumento da expectativa de vida, como teve no século XX, com o controle das doenças infecto-parasitárias, medidas de saneamento básico e imunizações, entre outros avanços4.

Em um cenário de envelhecimento populacional e aumento da expectativa de vida, aliados à motivação instintiva humana de preservar a vida ao máximo quando se pode usufruí-la com qualidade, gerou a necessidade de se estudar quais os fatores reais que interferem ou que promovem aumento da longevidade. A questão alimentar tem sido bastante enfatizada. Sabe-se que a ingestão excessiva de alimentos pode estar associada à obesidade e a outras doenças que acabam por encurtar o tempo de vida. Demonstrou-se, em experimentos laboratoriais, inicialmente com camundongos, que a restrição alimentar (redução percentual da quantidade de alimentos ou redução calórica) de 30 a 50% sobre a oferta de alimentos, nos períodos iniciais da vida, aumentava em até 40% a expectativa de vida desses animais5,6,7,8,9,10. Entretanto, ainda não se conseguiu comprovar esta propriedade na espécie humana11.

Já, o papel desempenhado pela genética é fato verificado e, cada vez mais, tenta-se identificar genes responsáveis pela longevidade12,13. A maioria dos estudos, com enfoque genético, tem demonstrado que, aproximadamente, 25% do tempo de vida das pessoas são determinados por componente genético. Uma das dificuldades metodológicas em se estudar estes fatores é que a longevidade envolve um complexo fenômeno14,15. Paralelamente à procura dos genes, existem estudos que analisam a contribuição da hereditariedade16,17,18. Observou-se que os filhos dos centenários tinham riscos reduzidos para as doenças associadas com a idade, como infarto, hipertensão e diabetes. Além disso, percebeu-se que eles apresentavam um processo de envelhecimento mais lento e que as doenças, quando se manifestavam, ocorriam em idade bem avançada19.

Observou-se, também, que mulheres que tinham filhos após os seus 40 anos mostravam maior chance de viver mais. Isto não estava associado simplesmente ao fato de terem filho com esta idade, mas porque seu sistema reprodutor funcionava muito bem e, provavelmente, os outros órgãos também, tendo um processo de envelhecimento mais lento20.

Com base em trabalhos realizados com população de centenários italianos, notou-se que os idosos que mantinham uma boa atividade mental viviam mais quando comparados aos que apresentavam algum problema, como isolamento e falta de atividade intelectual, que tendiam a morrer mais precocemente21,22. Por outro lado, pessoas com hábitos não-saudáveis, como uso de álcool e falta de atividade física, podem apresentar envelhecimento e doenças crônicas prematuramente3. Outros autores confirmam que a atividade física é uma grande aliada da longevidade, além de diminuir o risco de aparecimento de algumas doenças. Jones e Eaton23, entretanto, demonstraram que somente exercícios vigorosos teriam a propriedade de aumentar diretamente a longevidade.

A existência de uma área do noroeste e outra no sul do Estado de São Paulo onde predominavam idosos do sexo masculino na década de 1990, ao contrário da maior longevidade feminina em todas as regiões adjacentes, aponta um possível envolvimento de fatores ambientais na longevidade. Atualmente, na região sul do estado, este predomínio ainda existe24,25.

Frente a essa diversidade de pesquisas e fatores apresentados, verifica-se que a longevidade humana é um tema bastante complexo e que muitas perguntas ainda precisam ser respondidas. Kirkwood26, que tem publicado vários artigos discutindo envelhecimento e longevidade, em um de seus artigos mais recentes coloca:

Feito o progresso para entender a função e evolução dos fatores genéticos e não-genéticos na longevidade humana, são necessários mais detalhes de estudos teóricos sobre como ocorrem as variações dentro das populações, e como fatores socioeconômicos influenciam a seleção de forças que modelam a história de vida”. (p.737)

Esses fatores socioeconômicos não podem ser separados dos fatores psicológicos, principalmente emocionais, pois os próprios idosos associam como fatores, responsáveis por uma vida mais longa, a postura perante a vida (modo de ser -“viver bem e ser feliz na vida”; serenidade; autocontrole emocional) e o engajamento social (profissão, sociedade, família e lazer)27. O principal obstáculo para se estudar esses fatores são as dificuldades de se abordá-los diretamente em seres humanos, pois, além do tempo que as pesquisas demandam, há escassez de métodos epidemiológicos para a sua investigação17,14.

A dificuldade metodológica das pesquisas que dependem de informações verbais de entrevistados é patente quando se considera a natureza de dados obtidos, cujo exemplo é “viver bem e ser feliz na vida”. Ser feliz na vida é relativo, pois uns podem ser felizes com pouco, outros somente com muito. Isto leva a crer que ser feliz é resultante da percepção de um conjunto de eventos agradáveis, ou seja, uma representação perceptual geral atribuída à soma dos elementos comuns existentes nas coisas ou eventos particulares que formam uma categoria. A pesquisa qualitativa é adequada para a abordagem dessas representações perceptuais e a técnica da grounded theory28 tem mostrado grande poder heurístico na abordagem e determinação dessas categorias que leva à formulação de um modelo teórico geral que, por sua vez, fundamenta todos os dados particulares coletados. Sua aplicação na abordagem dos fatores psicológicos e sociais da longevidade se afigura, portanto, como promissor na geração de novos conhecimentos.

As percepções do próprio longevo a respeito dos fatores contribuintes para a sua longevidade são de extrema importância, pois permitem o levantamento geral inicial que possibilitará o estudo subseqüente de cada fator e sua interação com as demais variáveis na promoção da longevidade. As percepções e significados das coisas e dos acontecimentos são construídos pelas relações dos indivíduos com um meio ambiente determinado e ao longo da história que nele transcorre. Assim, é justificável que estas percepções sejam determinadas em cada região e em função do tempo para que se obtenha o conhecimento amplo e correto dos fatores envolvidos na longevidade.


OBJETIVO

O presente artigo tem como objetivo ampliar a compreensão sobre os possíveis fatores associados ao aumento da longevidade humana, através do relato e análise de dados oriundos de investigação sobre “o segredo da longevidade”, segundo as percepções dos próprios longevos.


MATERIAL E MÉTODOS

A presente pesquisa foi realizada em uma amostra 30 ex-ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana, residentes no município de Botucatu (SP). Diante da inexistência de uma definição internacionalmente aceita para longevo, na pesquisa definiu-se como sendo aqueles indivíduos com idade dentro do último quartil da população de idosos do município, considerando como idosos aqueles com sessenta anos e mais27. Segundo este critério, foram identificados como longevos aqueles com idade igual ou superior a 74,8 anos para o município de Botucatu em 2002.

Elaborou-se uma entrevista semi-estruturada, que foi realizada individualmente na amostra delineada, atingindo a saturação da amostra na 30ºentrevista, ou seja, quando as respostas começaram a se repetir, seguindo um mesmo padrão de resposta e não acrescentando novos elementos aos pontos investigados29.

Para a análise das entrevistas, que foram todas gravadas em fitas magnéticas K7 e posteriormente transcritas na íntegra, foi utilizada a técnica da Grounded theory28. Esta técnica consiste na obtenção de dados, sistematicamente coletados e analisados ao longo do processo da pesquisa. É um método de indução sistemático, desde a coleta de dados até a análise, para construir um modelo teórico que explique as vivências relatadas. Ou seja, hipóteses e teorias emergem durante o procedimento de coleta e análise de dados, gerando categorias analíticas com base nos dados, chegando a um modelo teórico que explique todo o processo investigado29.

A base central da Grounded é fazer comparações – comparações teóricas, de forma sistemática e criativa, levantando questões e descobrindo propriedades e dimensões que podem estar nos dados30,31,32. Os passos iniciais da Grounded Theory são semelhantes a outras metodologias qualitativas, ou seja, as entrevistas são transcritas na íntegra e, depois, passam por uma micro-análise, linha por linha, gerando as categorias e os códigos iniciais. Deve-se ter senso analítico, não somente descritivo. Desta forma, as falas são quebradas em pequenos pedaços, para se entender a lógica do processo. Depois, faz-se uma organização conceitual (organizando os dados em categorias de acordo com suas propriedades e dimensões). Enquanto se estudam os dados, são elaboradas categorias. O processo de se elaborar categorias é feito por meio do exame de cada linha de dados e definindo-se ações ou eventos dentro destes – linha por linha, apontando nexos e guiando em direção ao foco, durante a coleta subseqüente dos dados. Ao longo da análise, trabalha-se com diagramas, que são artifícios visuais que retratam a relação entre os conceitos e auxiliam a descobrir as categorias, subcategorias, elementos, chegando a uma matriz axial condicional, que é um diagrama analítico, que mapeia as mudanças de condições e conseqüências relativas ao fenômeno ou categoria.

A grounded theory preconiza um rigor sistemático desde o delineamento da amostra, a coleta de dados, a análise, culminando com a teoria. Todos os passos, todas as etapas são feitas de forma sistemática, permitindo que a mesma pesquisa seja reproduzida, no sentido de ser reavaliada e validada. Para fazer a validação deste modelo existem algumas técnicas. Uma é voltar aos dados, às falas e verificar se este modelo explica a maioria delas. Outro é apresentar os resultados aos sujeitos entrevistados e averiguar se eles julgam que o modelo representa a maioria de suas vivências. As duas técnicas foram utilizadas neste trabalho.

Em relação aos aspectos éticos, o presente estudo foi aprovado pelo Comitê de ética em Pesquisa da USP, tendo cumprido todos os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinki.
RESULTADOS

O procedimento metodológico empregado permitiu detectar três fenômenos principais na matriz axial: aniquilando a vida; gerando vida; faltando controle social e do Estado. Neste artigo será discutido somente o segundo fenômeno axial: “gerando vida”, visto que nele aparecerem os fatores que favorecem a longevidade. Este eixo emergiu da composição de quatro temas, dos quais o mais específico foi Favorecendo alcançar maior longevidade. Os outros temas do eixo considerado apontam também os fatores que podem ter contribuído para a longevidade dos ferroviários, que vêm reforçar os do tema anterior. O terceiro tema descreve como a saúde pode ser influenciada pelo meio ambiente, sendo a poluição prejudicial à saúde e sendo esta melhor em locais com maior área verde. Outro tema dentro deste fenômeno trata das riquezas geradas pela ferrovia, levando desenvolvimento e progresso às cidades. Os quatro temas que compõem este fenômeno axial são apresentados visualmente no diagrama 1.





Diagrama 1. Fenômeno 2 – Gerando vida: temas.
O primeiro tema derivou de fatores que puderam ser agrupadas nas categorias mostradas no diagrama 2.









Diagrama 2. Favorecendo a alcançar maior longevidade: Categorias.


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