O screening que o ser humano pode se sujeitar por crer em vida após a morte



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O screening que o ser humano pode se sujeitar por crer em vida após a morte

Tiarajú Alves de Freitas1

Lívio Luiz Soares de Oliveira2

Giácomo Balbinotto Neto3

RESUMO
Este artigo responde através da Teoria dos Jogos, especificamente screening, porque o ser humano adota uma religião e se submete a uma série de restrições durante a sua vida. A fé é considerada como parte da cesta de mercadorias de consumo dos indivíduos. Desenvolve-se a idéia de “estágio probatório” onde, no primeiro período de existência humana as pessoas, com base em suas crenças, se tornam aptas ou não a usufruir um prêmio após a sua morte. O seu esforço será o sinalizador para a conquista do “prêmio”. Tomando o caso do Deus bíblico, este conseguiria gerar um equilíbrio separador entre as pessoas através do comportamento destas durante sua vida na Terra. Por fim, o trabalho que começa focando especificamente na Bíblia, percebe que o screenig funciona de forma generalizada independente de religião, explicando no contexto de um “jogo” seqüencial de informação incompleta o comportamento de cerca de oitenta e cinco por cento da população no mundo, a qual acredita em vida após a morte.

ABSTRACT

This paper shows, through of Games Theory, specifically screening, because the humans have religious behavior, obeying one set of rules along their lives. The faith is treated as component of one bundle with materials and spirituals goods. Is developed the idea of “training period”, where, in first period of the human being, the humans, in reason of your faith, reveal or not whether shall get the award after your death. Your persistence in order to obtain those award will be employed as gauge to choose who will be approved. The principals will get to generate the separating equilibrium among the people, through of behavior of same along of their lives in Earth. Finalizing, this paper aim that the screening work very well for any religion, explain in sequencial context of information assimetry the behavior of around eighty five percent of people in the world, who belief in life after death.



JEL Classification: D82, D84, D91

1 Introdução
É importante salientar ao leitor que dado o enfoque deste artigo ser com base no comportamento das pessoas sobre suas crenças em relação à vida após a morte optou-se metodologicamente a contextualização disto com base em uma das dezenas de crenças sobre o tema. Tendo em vista a Bíblia Sagrada representar uma destas crenças e ser o livro de maior tiragem no mundo utilizou-se como base para esta introdução.

Ao lermos o primeiro livro Pentateuco da Bíblia Sagrada, em seu primeiro capítulo há a apresentação da relação que Deus pretende estabelecer, por meio de um contrato, com os únicos seres racionais por ele criados no planeta terra, ou seja, homem e mulher. Deus esclarece ao casal humano que além da racionalidade, este possui o livre-arbítrio para tomar suas decisões. Contudo, se eles quisessem gozar do apoio divino eles deveriam respeitar algumas restrições.

Mesmo tendo a possibilidade e a liberdade de praticar determinadas ações que, em princípio, não seriam consideradas condenáveis sob uma ética laica, boa parte da humanidade opta por não praticá-las, em decorrência da observância de uma determinada ética religiosa.

Ao longo das eras os seres humanos adotaram algum tipo de credo religioso que influenciou e moldou decisivamente o ambiente e a sociedade em que viveram inclusive a economia. Na Idade Média, por exemplo, quando a vida social era quase totalmente regulada pela Igreja Católica, o juro era visto como algo a ser evitado em nome de uma determinada ética cristã. As pessoas, durante a maior parte desse período, foram desestimuladas a acumular riquezas materiais, pois isso, conforme o pensamento anti-crematístico1 da Igreja Católica de então, poderia por em perigo a salvação da alma humana. A pobreza era vista como uma condição favorecedora da beatidude eterna. Em decorrência desses ensinamentos, os fiéis católicos, em sua grande maioria, se contentavam com o mínimo necessário à sobrevivência. Com isso, o impulso aquisitivo foi desincentivado e as trocas sociais praticamente regrediram para o sistema de escambo, dado o caráter auto-suficiente da economia do período. A circulação de moeda reduziu-se bastante, apenas tendo readquirido um papel importante com o crescimento das cidades e das feiras, quase no final do período medieval.

WEBER (2001), em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, defende a idéia de que a Reforma Protestante contribuiu decisivamente para superar os preconceitos medievais contrários à acumulação de riquezas materiais, uma das faces do que ele classifica como “tradicionalismo”. Outra categoria conceitual criada por Weber, “o espírito do capitalismo” associado à ética protestante, principalmente a de corte calvinista e puritano, teria, para esse autor, influenciado de modo inequívoco o desenvolvimento econômico dos países onde se verificou a Reforma, como teria sido o caso da Holanda, Suíça e Inglaterra.

Para além desses enfoques, surge o questionamento dos motivos que conduziram e conduzem boa parte das pessoas no mundo a adotar um determinado credo religioso. Existiriam outras razões, além daquelas de cunho sócio-psicológico, que levariam os indivíduos a praticar uma religião? Por que existem tantas religiões no mundo?

Este trabalho se propõe a dirimir a essas perguntas, ao menos parcialmente, por meio do enfoque econômico, especificamente por meio da abordagem do comportamento individual maximizador da Teoria do Consumidor, da Teoria dos Jogos e da Economia da Informação.

Na literatura internacional já existem diversos trabalhos que estudam os mais diversos efeitos da religião na sociedade. Um survey muito interessante sobre o tema é o que foi realizado por Iannaccone (1998) onde o autor reuniu as mais diferentes abordagens até então publicadas sobre a área que vem sendo chamada de Economia da Religião. Segundo Iannaccone (1998) a partir da obra de Adam Smith em 1776 houve uma lacuna de dois séculos sem estudos sobre a economia e a religião, mas que foi rompida por Corry Azzi e Ronald Ehrenberg a partir de 1975. Desde então o autores identifica algumas dezenas de economistas que desenvolveram artigos sobre o tema.

O trabalho está estruturado como segue. Na segunda seção abordam-se os pactos que a Bíblia relata que Deus teria feito os seres humanos, empregando conceitos da Teoria dos Jogos. Após, aborda-se sob a luz da Teoria do Consumidor como os agentes incorporam suas crenças em relação aos seus gostos e preferências e a suas restrições orçamentárias. Entre os produtos consumidos pelos indivíduos surgem os bens espirituais, que se somam aos bens materiais. Propõem-se, na quarta seção, dois modelos para analisar o comportamento religioso das pessoas: um modelo de gerações sobrepostas, com os indivíduos decidindo como consumirão sua riqueza em um modelo de dois períodos e, outro modelo baseado nos jogos de sinalização – screening, para tentar elucidar como se processa um contrato religioso entre agente e principal, com e sem informação assimétrica, tendo como objetivo gerar um equilíbrio separador que satisfaça a ambos os lados. Por fim apresentam-se as considerações finais.



2.O Pacto Adâmico
Novamente chama-se a atenção que o artigo utiliza-se de uma das crenças existentes na história da humanidade para contextualizar este artigo. Poderia ser utilizada a crença judaica, muçulmana, xintoísta, budista, espírita, entre outras. O fato é que a religião no mundo tem como característica comum a crença de vida após a morte. É preciso ter em mente que o artigo metodologicamente utiliza uma crença em particular, mas que pretende no momento oportuno realizar a generalização em relação a todas às religiões, inclusive incorporando os indivíduos que não possuem religião.

É interessante notar que a literatura econômica através de BRAMS (1982)2 apresenta um jogo sob a luz da Teoria dos Jogos sobre o momento em que a Bíblia relata da criação do primeiro casal humano e dos objetivos de Deus para com esse casal e sua descendência. BRAMS (ibidem) teoriza que Deus teria considerado um conjunto de estratégias para se relacionar com o primeiro casal humano. Esse conjunto estaria baseado nos seguintes pressupostos:

i. Deus teria duas ações possíveis: a primeira, impor restrições (IR) à condição humana e a segunda a não imposição destas (ÑIR);

ii. Os seres humanos teriam como ações obedecer (O) ou não obedecer (ÑO) às imposições.


Nesse formato o jogo apresentaria quatro resultados possíveis, ou seja:
Espaço de Estratégias = {(IR; O), (IR; ÑO), (ÑIR;O) e (ÑIR;ÑO)}
Esses quatro resultados são ranqueados por BRAMS (ibidem) de um a quatro para a representação do ganho gerado em cada payoff para os jogadores, como mostra a matriz de resultados abaixo:
Tabela 1 – O jogo de imposição de restrições e (des)obediência

Adão e Eva



Obediência Não Obediência
Impõe Restrição ( 3 , 2 ) ( 2 , 3 )

Deus

Não Impõe Restrição ( 4 , 1 ) ( 1 , 4 )

Fonte: Brams (1982)

A idéia por trás dos resultados dos payoffs propostos é que no caso (ÑIR;O) o ganho para Deus é o máximo possível, porque, mesmo não impondo restrição, o casal humano obedece. Já para Adão e Eva o seu ganho é o menor possível, pois estão restringindo seus gostos e preferências. O segundo melhor resultado para Deus seria impondo restrição e o casal humano obedecendo. E os dois piores resultados possíveis para Deus seriam os ganhos de dois e um para os casos de (IR;ÑO) e (ÑIR;ÑO), respectivamente. Do lado humano, o melhor resultado possível seria obtido se eles não obedecessem e Deus não impusesse restrição e, o pior resultado seria se eles obedecessem com Deus mantendo a não imposição.

Veja que o ótimo de Paretto em cada espaço de estratégias é igual, ou seja, a soma dos ganhos coletivos é a mesma para cada payoff possível. Em relação às ações extremas, o melhor resultado para Deus é (NIR;O) e para o casal humano (NIR;NO).

Pode-se notar que este jogo apresenta um equilíbrio de Nash com o resultado da imposição de restrição por Deus e desobediência dos homens (IR;NO). Este acabou sendo o desfecho da passagem humana pelo Éden narrada no livro de Gênesis.




    1. Um novo pacto bíblico com a presença de screening

O jogo apresentado na seção anterior é deveras interessante, contudo, há uma questão importante que não é considerada. Adão e Eva já recebem de Deus a vida eterna3, ou seja, já possuem o prêmio máximo. Sendo assim, não há qualquer incentivo para que exerçam esforço, dadas as restrições impostas.

Contudo, mesmo com a desobediência do primeiro casal humano, Deus resolve manter seu propósito para as próximas gerações. Desencadeia-se todo um processo ao longo do tempo e dos textos canônicos. Uma linhagem é escolhida a partir de Abraão, aonde de sua descendência viria alguém que, tendo a mesma condição original de Adão4, estaria apto a pagar o resgate da aliança com Deus. Esta pessoa teria sido Jesus Cristo e a sua passagem pela Terra está descrita no Novo Testamento.

Como Deus mantém o propósito de uma aliança com os homens, surge um novo jogo, ou uma nova proposta de contrato. Contudo, há uma mudança fundamental. Os humanos não possuem mais a perfeição e agora terão de sinalizar esforço durante toda a sua existência na terra para conquistarem a promessa de Deus originalmente feita a Adão e Eva.

Para isto eles terão que seguir os Dez Mandamentos5 de Moisés no período compreendido pelo Antigo Testamento, bem como realizar sacrifícios de animais, sinalizando o perdão por seus pecados, comunhão e aliança com Deus. A partir dos livros compreendidos como Novo Testamento, o mandamento máximo seria o amor e Jesus Cristo encerraria o período de sacrifícios ao fornecer a si próprio como resgate da raça humana perante Deus6.

Deus apresenta, assim, um contrato de dois períodos a partir dos descendentes de Adão e Eva. No primeiro período os homens durante a sua vida deveriam respeitar as leis de Deus ou não. Veja que este ponto é semelhante ao jogo do Éden de Brams (ibidem). Porém aqui Deus já impõe suas condições e caberá aos homens optarem por obedecer a Deus ou não. Jesus usa a metáfora do joio e do trigo que mostra esta situação em Mateus 13.24-30; 36-43:

“Jesus apresentou-lhes outra parábola: O reino dos Céus é como alguém que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os servos foram procurar o dono e lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio? O dono respondeu: Foi algum inimigo que fez isso. Os servos perguntaram ao dono: Queres que vamos retirar o joio? Não! Disse ele. Pode acontecer que, ao retirar o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita. No momento da colheita, direi aos que cortam o trigo: retirai primeiro o joio e amarraio-o em feixes para ser queimado! O trigo, porém, guardai-o no meu celeiro” Bíblia Sagrada (2002 pág. 1165).

A seguir segue os versículos finais que explicam o significado da parábola:

“Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: Explica-nos a parábola do joio! Ele respondeu: Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os que cortam o trigo são os anjos. Como o joio é retirado e queimado no fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará seus anjos e eles retirarão do seu reino toda causa de pecado e os que praticam o mal; depois, serão jogados na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos ouça.” Bíblia Sagrada (2002 pág. 1165,1166).

Ao impor as condições e os seres humanos terem de tomar a decisão de seguir a Deus ou não, este formato estaria praticando um screening, uma espécie de jogo de sinalização dentro do arcabouço da Teoria dos Jogos. No screening bíblico, Deus oferece um contrato tal que obriga o ser humano a revelar o seu tipo, seguindo ou não as restrições impostas pelo ser Divino.

O primeiro jogo apresentado por Brams (ibidem) começou e terminou no Paraíso. O segundo jogo, aqui proposto, iniciou-se após a expulsão do primeiro casal do Éden e se desenvolveu através do período do Antigo Testamento, do Novo Testamento7, perpetuando-se e tornando-se um jogo contemporâneo.

3.Uma proposta de abordagem microeconômica
Tomando um enfoque microeconômico através da Teoria do Consumidor, sabe-se que as pessoas no mundo administram seus gostos e suas preferências através de um limitador chamado de restrição orçamentária. Pode-se configurar um vetor de bens oriundos da fé das pessoas. Este enfoque visa trazer objetividade para este artigo no que tange ao tema religião. As pessoas utilizam, assim, parte de sua riqueza e de seu tempo para atender os requisitos ou restrições de sua fé.

Seguindo a ótica de que o consumidor escolhe o que é melhor para si, pode-se supor que este dispõe de dois tipos de cestas, representadas por (x1, x2). Admitindo que se possam obter os preços (p1, p2) dos bens componentes destas cestas e que o consumidor tenha um limite de renda, chamado de restrição orçamentária, tem-se:


(1)

onde:


- são os bens religiosos (ou espirituais)

- são os bens materiais

- é a riqueza do consumidor
A equação (1) representa o conjunto orçamentário do consumidor que, aliado a seus gostos e preferências, determinará os pontos de equilíbrio. As preferências devem atender aos pressupostos clássicos8 estabelecidos pela Teoria Microeconômica e são representadas por curvas de indiferença, também chamadas de funções utilidade.

Com isso, é possível classificar três tipos básicos das preferências dos consumidores quanto aos dois tipos de bens apresentados, conforme os três gráficos a seguir.




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