O santo Graal e a Linhagem Sagrada



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MICHAEL BAIGENT - RICHARD LEIGH - HENRY LINCOLN

O SANTO GRAAL E A LINHAGEM SAGRADA

Tradução Nadir Ferrari

1982


SUMÁRIO
Introdução, 1
1. O mistério, 5

I. Cidade de mistério, 7 

II. Os cátaros e a grande heresia, 21

III. Os monges combatentes, 35

IV. Os Documentos secretos, 63
2. A sociedade secreta, 75 

V. A ordem atrás da cena, 77 

VI. OS grão-mestres e a corrente subterrânea, 97

VII. A conspiração através dos séculos, 127

VIII. A sociedade secreta hoje, 161 

IX. OS monarcas de cabelos longos, 189 

X. A tribo exilada, 221

3. A linhagem sanguínea, 229 

XI. O cálice sagrado, 231 

XII. O rei-sacerdote que nunca reinou, 261 

XIII. O segredo que a Igreja proibiu, 301 

XIV. A dinastia do cálice, 323 

XV. Conclusão e perspectivas, 337 

Apêndice: Os supostos grão-mestres do Monastério do Sinai, 353 Notas, 375 

Bibliografia, 399

INTRODUÇÃO
Em 1969, quando estava de férias em Cévennes, comprei o livro de bolso Le Trésor maudit, de Gérard de Sede. Era uma história de mistério, uma mistura leve e interessante de fatos históricos, mistérios genuínos e conjecturas. Depois das férias ele teria sido esquecido, como todas as leituras desse tipo, se eu não tivesse tropeçado em uma omissão evidente e curiosa em suas páginas.

O "tesouro amaldiçoado" do título havia sido aparentemente encontrado nos idos de 1890 por um padre de vilarejo que decifrara alguns documentos enigmáticos desenterrados em sua igreja. Os supostos textos de dois desses documentos foram reproduzidos, mas não as mensagens secretas que estariam codificadas dentro dele. A inferência era que as mensagens decifradas haviam sido novamente perdidas. Entretanto, conforme descobri, um estudo superficial dos documentos reproduzidos no livro revelava pelo menos uma mensagem oculta. O autor certamente a percebera. Ao trabalhar em seu livro, dera aos documentos mais do que uma atenção passageira. Era claro que ele encontrara o que eu havia encontrado. Além disso, a mensagem era um excitante fragmento de prova, do tipo que ajuda a vender um livro popular. Por que o senhor de Sède não a publicara?

A peculiaridade da história e a possibilidade de outras descobertas voltaram à minha mente de tempos em tempos nos meses seguintes. Sentia-me atraído por esse quebra-cabeça mais intrigante do que os usuais e curioso pelo silêncio de De Sède.

Na medida em que ia descobrindo novos e intrigantes lampejos de significados no texto dos documentos, comecei a querer dedicar mais do que momentos de folga ao mistério de Rennes-Ie-Château. No final do outono de 1970, apresentei a história como um possível documentário para Paul Johnstone, então produtor executivo da série Crônica, sobre história e arqueologia, da BBC.

Paul achou o projeto viável. Fui então enviado à França para falar com De Sède e explorar as perspectivas de um filme. Encontrei De Sède em Paris na semana do Natal de 1970. Naquela primeira reunião, fiz a pergunta que me intrigara por mais de um ano: "Por que você não publicou a mensagem oculta nos pergaminhos?" Sua resposta me surpreendeu. "Qual mensagem?”

Parecia-me inconcebível que ele desconhecesse aquela mensagem elementar. Por que estaria duelando comigo? Subitamente eu me vi, relutante, a revelar o que havia encontrado. Continuamos um elíptico jogo de esgrima verbal durante alguns minutos. Então se tornou claro que ambos conhecíamos a mensagem. Repeti minha pergunta: "Por que você não a publicou?" Desta vez a resposta de De Sède foi calculada: "Porque nós pensamos que alguém como você se interessaria em descobrir por si mesmo.”

Essa resposta, tão enigmática quanto os misteriosos documentos do padre, era o primeiro indício claro de que o mistério de Rennes-Ie-Chatêau deveria ser muito mais do que uma simples fábula de tesouro perdido.

Comecei a preparar, juntamente com meu diretor, Andrew Max­well-Hyslop, um filme Crônica na primavera de 1971. O projeto era realizar um bloco de vinte minutos para um programa. Mas, na medida em que íamos trabalhando, De Sède nos alimentava com outros fragmentos de informação. Primeiro surgiu o texto integral de uma importante mensagem cifrada, que falava dos pintores Poussin e Te­niers. Era fascinante. O código era incrivelmente complexo. Fomos informados de que ele havia sido decifrado por especialistas do departamento de códigos do exército francês, através de computadores. Estudando as circunvoluções do código, convenci-me de que a explicação obtida era no mínimo suspeita. Investiguei junto a especialistas em códigos do serviço de inteligência da Grã-Bretanha e eles concordaram comigo: "O código não configura um problema válido para um computador." Ou seja, era indecifrável. Mas alguém, em algum lugar, devia ter a chave.

Então De Sède entregou sua segunda bomba. Urna tumba semelhante àquela do famoso quadro Les Bergers d'Arcadie, de Poussin, havia sido encontrada. Ele enviaria detalhes "assim que os obtivesse". Alguns dias mais tarde chegaram fotografias. Ficou claro que nosso filme sobre um pequeno mistério local começava a assumir proporções inesperadas. Paul decidiu abandoná-lo e nos engajou em um longa-metragem. Agora haveria mais tempo para pesquisar e mais tempo de cena para explorar a história. A transmissão foi adiada para a primavera do ano seguinte.

O Tesouro Perdido de Jerusalém saiu em fevereiro de 1972 e provocou uma reação muito forte. Eu sabia que havia encontrado um assunto interessante para o grande público. Uma pesquisa posterior não significaria, portanto, auto-indulgência. Em algum momento teria que haver um segundo filme. Em 1974 eu já possuía grande quantidade de material. Paul contratou Roy Davies para produzir meu segundo filme Crônica, chamado O Padre, o Pintor e o Demônio. Mais uma vez, a reação do público mostrou quão fortemente a história havia impressionado a imaginação popular. Mas então ela havia se tornado muito complexa, e muito extensa em suas ramificações. A pesquisa detalhada estava rapidamente excedendo a capacidade de uma única pessoa. Havia muitos caminhos diferentes a percorrer. Quanto mais eu prosseguia em uma linha de investigação, mais consciente me tornava da quantidade de material que estava sendo negligenciado. Nesse ponto crucial, o destino, que de início havia colocado a história casualmente em minhas mãos, agora assegurou que o trabalho não estagnaria.

Em 1975, tive a grande sorte de encontrar Richard Leigh, durante um curso de verão em que ambos dávamos aulas de literatura. Richard é um romancista e escritor de contos, com pós-graduação em literatura comparada e um conhecimento profundo em história, filosofia, psicologia e esoterismo. Havia trabalhado durante vários anos como professor universitário nos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha.

Durante os intervalos de nossas aulas, passamos muitas horas discutindo assuntos de interesse mútuo. Eu mencionei os templários, que desempenhavam um papel importante no pano de fundo do mistério de Rennes-Ie-Château. Para minha satisfação, vi que essa sombria ordem medieval de monges combatentes já havia despertado o interesse de Richard, que desenvolvera pesquisas consideráveis sobre sua história. Subitamente, meses de trabalho que eu via se prolongarem à minha frente se tornaram desnecessários. Richard podia responder à maioria de minhas dúvidas. E ficara tão intrigado quanto eu com as anomalias evidentes que eu havia encontrado. O mais importante é que meu projeto de pesquisa também o fascinava. Percebendo o significado do projeto, ele se ofereceu para ajudar-me nos aspectos que envolviam os templários. E trouxe Michael Baigent, um psicólogo que recém-abandonara uma bem-sucedida carreira em foto-jornalismo para se dedicar ao estudo dos templários, visando ao projeto de um filme.

Se eu tivesse procurado, não teria encontrado dois parceiros mais bem qualificados e mais compatíveis para formar um time. Após anos de trabalho solitário, o ímpeto trazido ao projeto por dois cérebros novos foi muito estimulante. O primeiro resultado palpável de nossa colaboração foi o terceiro filme Crônica sobre Rennes-Ie-Château, A Sombra dos Templários, produzido por Roy Davies em 1979.

O trabalho realizado para aquele filme finalmente nos colocou face a face com as fundações sobre as quais todo o mistério de Rennes-Ie-­Château havia sido construído. Mas, no filme, o que estávamos começando a discernir só podia ser insinuado. Sob a superfície havia algo mais chocante, mais importante e mais imediatamente relevante do que podíamos imaginar quando começamos nosso trabalho sobre o pequeno e intrigante mistério que um padre francês provavelmente encontrara em um vilarejo montanhoso.

Em 1972, eu terminara meu primeiro filme com as seguintes palavras: "Algo extraordinário está esperando ser encontrado... e o será, em um futuro não muito distante.”

Este livro explica o que é este "algo" - e quão extraordinária foi sua descoberta.

H.L.
1

O MISTÉRIO
I

CIDADE DE MISTÉRIO
No princípio de nossa pesquisa não sabíamos exatamente o que estávamos procurando ou, naquele contexto, o que estávamos vendo. Não tínhamos teorias ou hipóteses. Começamos sem a intenção de provar coisa alguma. Pelo contrário, estávamos simplesmente tentando encontrar uma explicação para um pequeno e curioso enigma do século XIX. As conclusões a que posteriormente chegamos não foram previamente postuladas. Fomos conduzidos a elas, etapa por etapa, como se as evidências que havíamos acumulado possuíssem vida própria, como se elas nos estivessem dirigindo de acordo com seus próprios desígnios.

No início acreditamos que se tratasse de um mistério local ­intrigante, sem dúvida, mas de significado essencialmente confinado a uma cidadezinha do interior da França. Um mistério de interesse puramente acadêmico, embora envolvesse fatos históricos fascinantes. Pensávamos que nossa investigação pudesse iluminar certos aspectos da história do Ocidente, mas de forma alguma imaginávamos que ela implicaria reescrevê-la. Imaginávamos ainda menos que qualquer descoberta que fizéssemos pudesse ter relevância para o mundo contemporâneo - e de forma explosiva.

Nossa busca, porque era realmente uma busca, começou com um enredo mais ou menos banal, à primeira vista não muito diferente de inúmeras outras histórias de tesouros ou mistérios não desvendados, que abundam na história e no folclore de quase todas as regiões rurais. Uma versão dela havia sido publicada na França, onde atraíra um interesse considerável, mas - até onde pudemos saber - nenhuma conseqüência maior lhe fora atribuída. Mais tarde soubemos que essa versão continha uma série de erros. Para começar, entretanto, devemos recontar a fábula tal qual ela foi publicada nos anos 60, com as informações de que dispúnhamos então.
Rennes-le-Château e Berenger Saunière
Uma minúscula cidadezinha francesa, Rennes-le-Château, recebeu no dia primeiro de julho de 1885 um novo pároco: Berenger Saunière, um homem de 33 anos, robusto, atraente, energético e brilhante. No seminário, parecia estar destinado a uma carreira eclesiástica promissora. Certamente, almejava algo mais importante que uma cidadezinha remota no topo de uma colina ao leste dos Pirineus, mas em algum momento ele deve ter caído no desagrado de seus superiores. Se fez alguma coisa para merecer isso não sabemos, mas o fato é que perdeu todas as chances de promoção. Talvez para se livrarem dele, o enviaram a Rennes-le-Château.

Naquele tempo Rennes-Ie-Château abrigava apenas duzentas pessoas. Era um pequeno povoado pendurado no topo da serra a 40km de Carcassonne. O lugar teria significado o exílio para um outro homem, uma condenação perpétua a viver em um fim-de-mundo, longe das amenidades urbanas da época, longe de qualquer estímulo para uma mentalidade vigorosa e questionadora. A ambição de Saunière sem dúvida sofreu um golpe. Entretanto, houve compensações. Saunière era originário da região, pois nascera e crescera perto dali, na cidade de Montagels. Apesar de tudo, Rennes-le-Château deve ter-lhe proporcionado o conforto da familiaridade, do sentimento de estar em casa.

O salário de Saunière, entre 1885 e 1891, foi, em francos, o equivalente a seis libras esterlinas por ano - longe de significar opulência, mas muito mais do que se esperaria para um pároco rural na França do final do século XIX. Somado às gratuidades oferecidas pelos habitantes da paróquia, tais rendimentos seriam suficientes para viver bem, sem extravagâncias. Saunière levou uma vida agradável e plácida durante seis anos, caçando e pescando nas montanhas e rios de sua infância. Leu vorazmente, aperfeiçoou seu latim, aprendeu grego e embarcou no estudo do hebraico. Uma camponesa de dezoito anos chamada Marie Denarnaud, sua servente e governanta, foi para ele companhia e confidente durante toda a vida. Ele visitava com freqüência seu amigo Henry Boudet, pároco da vizinha cidade de Rennes-le-Bains, sob a tutela do qual mergulhou na turbulenta história da região, uma história cujos resíduos se apresentavam constantemente ao seu redor.

A poucos quilômetros a sudoeste de Rennes-le-Château surgia outro pico, chamado Bézu, coberto pelas ruínas de uma fortaleza medieval, antiga morada de templários. Sobre um terceiro pico, a cerca de 2km de Rennes-le-Château, se erguiam as ruínas do castelo de Blanchefort, lar ancestral de Bertrand de Blanchefort, quarto grão-mestre dos templários, que presidiu a famosa ordem em meados do século XII. Rennes-Ie-Château se situava numa antiga rota de peregrinação que ia do nordeste da Europa até Santiago de Compostela, na Espanha. A região era mergulhada em lendas evocativas, em ecos de um passado dramático, freqüentemente embebido em sangue.

Saunière vinha querendo havia já algum tempo restaurar a igreja local. O edifício, consagrado a Madalena em 1059, repousava sobre fundações de uma estrutura visigótica ainda mais velha, datada do século VI. Não se admira então que estivesse em péssimo estado de conservação.

Encorajado por seu amigo Boudet, Saunière iniciou em 1891 uma restauração modesta, utilizando uma pequena soma emprestada dos fundos municipais. Durante os trabalhos, removeu o altar-mor, uma pedra que repousava sobre duas antigas colunas visigóticas. Uma dessas colunas revelou-se oca. Dentro dela havia quatro pergaminhos guardados em tubos de madeira selados. Dois desses pergaminhos continham genealogias, uma datada de 1244 e outra de 1644. Os dois documentos restantes haviam sido compostos, aparentemente, nos idos de 1780, por Antoine Bigou, um dos predecessores de Saunière em Rennes-le-Château. Bigou havia sido também capelão pessoal da família nobre Blanchefort, que no início da Revolução Francesa ainda era uma das mais importantes donas de terras da região.

Os dois pergaminhos do tempo de Bigou eram textos virtuosos em latim, extraídos do Novo Testamento. Pelo menos, aparentavam isso. Em um deles, no entanto, as palavras se seguiam de forma incoerente, sem espaço entre elas. Várias letras supérfluas haviam sido inscritas. No segundo pergaminho as linhas eram truncadas de forma indiscriminada e irregular, algumas no meio de uma palavra, enquanto certas letras estavam evidentemente levantadas acima das outras. Na realidade, os pergaminhos continham uma seqüência de códigos e cifras, alguns deles fantasticamente complexos e imprevisíveis. Sem a chave certa, eram indecifráveis. A seguinte decodificação surgiu em trabalhos franceses dedicados a Rennes-Ie-Château, e em dois de nossos filmes sobre o assunto, realizados para a BBC.
BERGERE PAS DE TENTATION QUE POUSSIN TENIERS GARDENT LA CLEF PAX DCLXXXI PAR LA CROIX ET CE CHEVAL DE DIEU J'ACHEVE CE DAEMON DE GARDIEN A MIDI POMMES BLEUES.*
* Pastor, nenhuma tentação. Que Poussin, Teniers possuem a chave. Paz DCLXXXI (681). Pela cruz e seu cavalo de Deus, eu completo (ou destruo) este demônio do guardião ao meio-­dia. Maçãs azuis.

Se algumas dessas cifras eram desencorajadoras em sua complexidade, outras eram patentemente, mesmo flagrantemente, óbvias. No segundo pergaminho, por exemplo, as letras levantadas, quando tomadas em seqüência, formavam uma mensagem coerente.


A DAGOBERT ROI ET A SION EST CE TRESOR ET IL EST LA MORT.*
* A Dagobert rei e a Sion pertencem este tesouro e ele está aqui morto.
Embora esta mensagem deva ter sido compreensível para Saunière, é de se duvidar que ele possa ter decifrado os códigos mais intricados. Entretanto, ele percebeu que havia tropeçado em algo importante. Com o consentimento do prefeito da cidade, levou sua descoberta até seu superior, o bispo de Carcassonne. Não se sabe o quanto o bispo entendeu, mas Saunière foi imediatamente enviado a Paris - despesas pagas pelo bispo -, instruído a se apresentar a algumas autoridades eclesiásticas com os pergaminhos. Entre elas estavam o abade Biel, diretor-geral do Seminário Saint Sulpice, e seu sobrinho Emile Hoffet, que naquele tempo estava aspirando à vida religiosa. Embora ainda estivesse nos seus vinte anos, ele já havia estabelecido uma reputação intelectual impressionante, especialmente em lingüística, criptografia e paleografia. A despeito de sua vocação pastoral, ele era sabidamente envolvido com o pensamento esotérico e mantinha relações cordiais com os vários grupos orientados para o oculto, além de seitas e sociedades secretas que proliferavam na capital francesa. Estes contatos introduziram Saunière em um círculo cultural ilustre, que incluía figuras literárias como Stéphane Mallarmé e Maurice Maeterlinck, bem como o compositor Claude Debussy. Ele também conheceu Emma Calvé que recentemente havia retornado de apresentações triunfantes em Londres e Windsor. Emma Calvé era como uma diva, a Maria Callas da época. Ao mesmo tempo, era uma grande pitonisa da sub-­cultura esotérica parisiense, mantendo relações amorosas com vários ocultistas influentes.

Após apresentar-se a Bieil e Hoffet, Saunière passou três semanas em Paris. O resultado de suas reuniões com os eclesiásticos é um mistério. O que se sabe é que o padre provinciano foi pronta e calorosamente recebido no distinto círculo de Hoffet. Afirma-se mesmo que ele se tornou amante de Emma Calvé, que, segundo um conhecido seu, ficou "obcecada" pelo padre. De qualquer modo, não há dúvida de que eles gozaram de uma estreita e longa amizade. Nos anos que se seguiram, ela o visitou freqüentemente nas vizinhanças de Rennes-Ie­-Château, onde, até recentemente, podiam-se encontrar corações românticos gravados com suas iniciais nas rochas das montanhas.

Durante a permanência em Paris, Saunière passou também algum tempo no Louvre, o que pode explicar o fato de, antes de sua partida, haver adquirido reproduções de três pinturas. Uma delas teria sido um retrato, pintado por um artista não identificado, do papa Celestino V, que reinou brevemente no final do século XIII. Outra teria sido o trabalho de David Teniers, não se sabe se o pai ou o filho. O terceiro seria um quadro - talvez o mais famoso - de Nicolas Poussin, Les Bergers d'Arcadie ["Os pastores da Arcádia"].

Ao voltar a Rennes-le-Château, Saunière completou a restauração da igreja. Teria exumado então um bloco de pedra, curiosamente esculpido, datado do século VII ou VIII, que estaria cobrindo uma câmara funerária na qual esqueletos teriam sido encontrados. Saunière embarcou também em projetos mais singulares. No jardim da igreja, por exemplo, havia o sepulcro de Marie, marquesa de Hautpoul de Blan­chefort, desenhado e construído pelo abade Antoine Bigou, predecessor de Saunière, um século antes, aparentemente autor de dois dos misteriosos pergaminhos. A inscrição na pedra sepulcral - que incluía vários erros deliberados de soletração e de espaço - era um anagrama perfeito para a mensagem contida nos pergaminhos referindo-se a Poussin e Teniers. Quando as letras eram rearranjadas, formavam a asserção críptica que já reproduzimos. Os erros pareciam ter sido planejados precisamente com este fim.

Sem saber que as inscrições na tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Saunière as obliterou, e essa profanação não foi o único comportamento curioso que ele exibiu. Acompanhado de sua fiel governanta, começou a fazer longas caminhadas pelo campo, coletando pedras sem nenhum valor ou interesse aparentes. Também embarcou numa troca volumosa de cartas com correspondentes desconhecidos em toda a França, bem como na Alemanha, Suíça, Itália, Áustria e Espanha. Começou a colecionar pilhas de selos sem valor e efetuou transações suspeitas com vários bancos. Um deles até enviou um representante, que viajou de Paris a Rennes-le-Château com o único objetivo de tratar de negócios com Saunière.

Só com despesas de correio Saunière estava gastando mais do que seu salário poderia cobrir. E em 1896 ele começou a gastar verdadeiramente, numa escala surpreendente e sem precedentes. Ao final de sua vida, em 1917, suas despesas haviam atingido o equivalente a vários milhões de dólares.

Uma parte dessa inexplicada riqueza foi empregada em excelentes obras públicas - a construção de uma rodovia moderna até a cidade, por exemplo, e a introdução de facilidades para água corrente. Outras despesas foram mais quixotescas. Uma torre foi levantada, a Torre Magdala, com vista para a montanha. Uma opulenta casa de campo foi construída, chamada Villa Bethania, que Saunière pessoalmente nunca ocupou. E a igreja não só foi decorada de novo, como o foi de um modo muito bizarro. No pórtico, acima da entrada, a seguinte inscrição foi gravada:
TERRIBILlS EST LOCUS ISTE. *
* Este local é terrível.
No interior, logo na entrada, foi erigida uma estátua horrenda, uma representação do demônio Asmodeus - detentor de segredos, guardião de tesouros escondidos e, segundo antiga lenda judaica, construtor do Templo de Salomão. Nas paredes da igreja, placas ostensivamente pintadas representavam as estações da Via Sacra. Cada uma delas era caracterizada por alguma estranha inconsistência, algum detalhe inexplicável, algum desvio, flagrante ou sutil, da narrativa oficial das Escrituras. Na estação VIII, por exemplo, havia uma criança envolta em uma capa escocesa. Na estação XIV, que retrata o corpo de Jesus sendo levado à tumba, aparecia um fundo de céu noturno, escuro, dominado por uma lua cheia. Como se Saunière estivesse tentando dizer algo. Mas o quê? Que o enterro de Jesus ocorreu após o início da noite, várias horas depois do que diz a Bíblia? Ou que o corpo estaria sendo levado para fora da tumba e não para dentro dela?

Enquanto realizava esses adornos curiosos, Saunière continuou a gastar de maneira extravagante, colecionando porcelana rara, tecidos preciosos e mármores antigos, criando um jardim e um zoológico e reunindo uma biblioteca magnífica. Pouco antes de sua morte ele estava, supostamente, planejando a construção de uma torre como a de BabeI, forrada de livros, de onde pretendia pregar. Seus paroquianos tampouco foram negligenciados. Saunière lhes presenteava com banquetes suntuosos e outras generosidades, mantendo assim o estilo de vida de um potentado. Em seu remoto e ao mesmo tempo próximo e inacessível ninho de águia, recebia inúmeros hóspedes ilustres. Um deles, é claro, era Emma Calvé. Outro era o ministro da Cultura do governo francês. Talvez o mais augusto visitante do desconhecido padre provinciano tenha sido o arquiduque Johann Von Habsburgo, um primo de Franz Josef, imperador da Áustria. Extratos bancários revelaram depois que Saunière e o arquiduque haviam aberto contas no mesmo dia, e que este último havia transferido para a conta do primeiro uma soma substancial.

As autoridades eclesiásticas fizeram, no início, olhos de mercador sobre o assunto. Contudo, quando o superior de Saunière morreu, em Carcassonne, o novo bispo tentou chamar o padre à ordem. Saunière respondeu com uma desobediência inesperada e insolente. Recusou-se a explicar sua riqueza e a aceitar a transferência que o bispo ordenava. Na falta de uma acusação mais substancial, o bispo o acusou de vender missas ilicitamente, e um tribunal local o suspendeu. Saunière apelou para o Vaticano, que o exonerou e depois o reinvestiu.

No dia 17 de janeiro de 1917, Saunière, então com 65 anos, sofreu um derrame cerebral. A data de 17 de janeiro talvez seja suspeita, pois também aparecia na tumba da marquesa de Hautpoul de Blanchefort, a tumba que Saunière havia erradicado. E 17 de janeiro é também a festa de Saint Sulpice, que reapareceria através de toda a nossa história. Foi no seminário de Saint Sulpice que ele confiou seus pergaminhos ao abade Bieil e a Emile Hoffet. O que torna o derrame de Saunière em 17 de janeiro mais suspeito é o fato de, cinco dias antes, em 12 de janeiro, seus paroquianos terem declarado que ele parecia estar gozando de uma saúde invejável para um homem de sua idade. Entretanto, em 12 de janeiro, segundo um recibo que está conosco, Marie Denarnaud encomendou um caixão para seu mestre.

Quando Saunière estava em seu leito de morte, o padre de uma paróquia vizinha foi chamado para ouvir sua última confissão e administrar a extrema-unção. O padre chegou e confinou-se no quarto do doente. De acordo com testemunhas oculares, ele saiu logo depois, visivelmente chocado. Nas palavras de algumas testemunhas, "nunca mais sorriu". Nas palavras de outras, caiu em uma depressão profunda que durou vários meses. Se são afirmações exageradas não sabemos, mas o padre, presumivelmente com base na confissão de Saunière, recusou-se a administrar-lhe o último sacramento.

Em 22 de janeiro Saunière morreu sem o perdão da confissão. Na manhã seguinte seu corpo foi colocado verticalmente numa poltrona no terraço da Torre Magdala, envolto em uma indumentária enfeitadas de pingentes com franjas escarlate. Certas pessoas compadecidas e não identificadas desfilaram, uma a uma, muitas delas arrancando franjas dos pingentes como lembrança do morto. Nunca houve qualquer explicação para tal cerimônia. Confrontados com ela, residentes atuais de Rennes-Ie-Château ficam tão aturdidos como qualquer outra pessoa.

A leitura do testamento de Saunière foi esperada com grande ansiedade. Para surpresa geral, contudo, ela revelou que não tinha nenhum tostão. Algum tempo antes de sua morte, aparentemente, transferira sua fortuna para Marie Denarnaud, que compartilhara de sua vida e de seus segredos por 32 anos. Ou talvez a maior parte daquela fortuna tenha estado em seu nome desde o início.

Depois da morte de seu mestre, Marie continuou a viver confortavelmente em VilIa Bethania até 1946. Depois da Segunda Guerra Mundial, entretanto, o governo francês recém-instalado estabeleceu uma nova moeda. Como meio de apreender sonegadores de impostos, colaboradores e especuladores do tempo da guerra, os cidadãos franceses eram obrigados a declarar seus rendimentos quando trocavam francos velhos por novos. Confrontada com a perspectiva de ser obrigada a dar explicações, Marie escolheu a pobreza. Foi vista no jardim da mansão, queimando maços de notas de francos velhos.

Durante os sete anos seguintes, Marie viveu de forma austera, mantendo-se com o dinheiro obtido da venda de ViIla Bethania. Prometeu confiar ao comprador, Noel Corbu, antes de morrer, um segredo que o faria não só rico mas também poderoso. Em 29 de janeiro de 1953, entretanto, Marie, como seu mestre antes dela, sofreu um súbito e inesperado derrame cerebral que a deixou prostrada em seu leito, incapaz de falar. Para grande frustração do senhor Corbu, ela morreu logo depois, carregando consigo o segredo.


Os Possíveis Tesouros
Em linhas gerais, esta é a história na forma em que foi publicada na França nos anos 60. Foi a forma sob a qual a descobrimos. E foi para as perguntas levantadas por ela que dirigimos nossa pesquisa, do mesmo modo que outros pesquisadores o fizeram.

A primeira pergunta é bastante óbvia. Qual era a fonte do dinheiro de Saunière? De onde poderia vir tão súbita e enorme fortuna? Haveria uma explicação banal? Ou envolveria alguma coisa mais excitante? Esta segunda possibilidade deixava entrever um aspecto fascinante do mistério, e nós não podíamos resistir ao impulso de brincar de detetives.

Começamos por considerar as explicações fornecidas por outros pesquisadores. Segundo vários deles, Saunière tinha encontrado, na realidade, alguma espécie de tesouro. Uma conclusão plausível, pois a história da cidade e de seus arredores incluía muitas possíveis fontes de ouro e de jóias escondidos.

Nos tempos pré-históricos, por exemplo, a área ao redor de Ren­nes-Ie-Château era considerada sítio sagrado pelas tribos celtas que viviam por perto. A cidade em si, antes chamada Rhédae, deriva seu nome de uma dessas tribos. Nos tempos modernos, uma comunidade grande e promissora ocupara a área, importante por suas minas e fontes termais terapêuticas. Os romanos também consideravam sagrado o local. Mais tarde, pesquisadores ali encontraram traços de templos pagãos.

Durante o século VI, o pequeno vilarejo pendurado no topo da montanha possuía presumivelmente 30 mil habitantes. Ele parece ter sido, em determinada época, a capital nortista do império dos visigodos, o povo teutônico que varreu a Europa de centro a oeste, saqueou Roma, derrubou o Império Romano e estabeleceu seu próprio domínio cavalgando sobre os Pirineus.

A cidade permaneceu como sede de uma importante região, ou condado, o Condado de Razès, por mais quinhentos anos. No início do século XIII, uma armada de cavaleiros do norte desceu pelo Languedoc para exterminar as heresias cátaras e albigenses e requisitar para si os ricos espólios da região. Durante as atrocidades da chamada Cruzada Albigense, Rennes-Ie-Château foi tomada e transferida de mão em mão, como um domínio. Após pouco mais de um século, por volta de 1360, a população local foi dizimada por uma peste; logo depois, Rennes-le-Château foi destruída por bandos catalães. 

As lendas de tesouros fantásticos são entremeadas por essas vicissitudes históricas. Os hereges cátaros, por exemplo, eram considerados possuidores de alguma coisa de valor fabuloso e mesmo sagrado ­ que, segundo várias lendas, era o cálice sagrado. Estas lendas, segundo relatos, teriam impelido Richard Wagner a peregrinar até Rennes-Ie­Château antes de compor sua última ópera, Parsifal; durante a ocupação de 1940-1945, época em que Wagner foi muito popular, as tropas alemãs teriam realizado inúmeras escavações infrutíferas nas vizinhanças. Havia também o tesouro desaparecido dos templários, cujo grão-mestre, Bertrand de Blanchefort, teria organizado misteriosas escavações nas vizinhanças. Segundo todos os relatos, essas escavações eram de natureza marcadamente clandestina, realizadas por contingentes de mineiros alemães trazidos especialmente para este fim. Algum tipo de tesouro de templários, guardado ao redor de Rennes-Ie­-Château, explicaria a referência a Sion no pergaminho descoberto por Saunière.

Outros tesouros existiram. Entre os séculos V e VIII, grande parte da França foi governada pela dinastia merovíngia, que incluía o rei Dagobert II. Rennes-Ie-Château, no tempo de Dagobert, era um baluarte visigodo, e o próprio Dagobert foi casado com uma princesa visigoda. A cidade poderia ter constituído algum tipo de tesouro. Há documentos que falam da grande riqueza acumulada por Dagobert e guardada nos arredores de Rennes-Ie-Château, visando conquistas militares. A descoberta de algum desses depósitos por Saunière explicaria a referência a Dagobert nos códigos.

Os cátaros. Os templários. Dagobert lI. E ainda um tesouro, produto de saques acumulados pelos visigodos durante seus avanços tempestuosos pela Europa. Tal tesouro poderia incluir mais que o resultado de saques convencionais - possivelmente, artigos de relevância, tanto simbólica quanto literal, para a tradição religiosa ocidental. Em resumo, o legendário tesouro do Templo de Jerusalém poderia estar aí incluído - o qual, ainda mais que os templários, explicaria a referência a Sinai. 

Em 66 d.C., a Palestina ergueu-se em revolta contra o jugo romano. Quatro anos depois, em 70 d. C., Jerusalém foi arrasada pelas legiões do imperador, sob o comando de seu filho Titus. O Templo foi saqueado, e o conteúdo do lugar "mais sagrado dos sacros" foi levado para Roma. Conforme descrição no arco triunfal de Titus, este conteúdo incluía o imenso candelabro de sete braços, tão sagrado ao judaísmo, e possivelmente a Arca da Aliança.

Mais de três séculos depois, em 410 d.C., Roma foi por sua vez saqueada. Invasores visigodos, liderados por Alaric, o Grande, pilha­ ram toda a riqueza da Cidade Eterna. Segundo o historiador Procopius, Alaric escapou com "os tesouros de Salomão, rei dos hebreus, maravilhas aos olhos, pois eram em sua maioria enfeitados de esmeraldas e haviam sido roubados de Jerusalém pelos romanos".

Um tesouro poderia então ser a fonte da inexplicável fortuna de Saunière. O padre poderia ter descoberto um dos vários tesouros, ou um único que mudara de mãos repetidamente através dos séculos, passando talvez do Templo de Jerusalém aos romanos, depois aos visigodos e finalmente aos cátaros e/ou aos templários. Estaria explicado o fato de o tesouro pertencer a Dagobert II e a Sion.

Até aí nossa história parecia ser essencialmente uma história de tesouros. Como tal - mesmo envolvendo o Templo de Jerusalém ­seria de relevância limitada. Pessoas estão constantemente descobrindo tesouros de um tipo ou de outro. São, com freqüência, descobertas excitantes, dramáticas e misteriosas, e muitas delas lançam importantes luzes sobre o passado. Poucas, no entanto, exercem alguma influência direta, de ordem política ou não, sobre o presente - a menos, é claro, que o tesouro em questão inclua um segredo de algum tipo, possivelmente explosivo.

Nós não eliminamos a possibilidade de Saunière haver descoberto um tesouro. Ao mesmo tempo, parecia claro que, além de qualquer outra coisa, ele descobrira também um segredo histórico de imensa importância no seu tempo, e talvez no nosso. Dinheiro, ouro ou jóias não explicariam, por si mesmos, muitas facetas de sua história. Não levariam à sua introdução no círculo de Hoffet, por exemplo, à sua associação com Debussy ou à sua relação com Emma Calvé. Não explicariam o imenso interesse da Igreja no assunto, a impunidade com a qual Saunière desafiara o bispo ou sua subseqüente exoneração pelo Vaticano, que pareceu mostrar uma preocupação urgente com o caso. Não explicariam a recusa de um padre em ministrar a extrema-unção a um moribundo, ou a visita de um arquiduque de Habsburgo a uma longínqua cidadezinha dos Pirineus, especialmente numa ocasião, em 1916, em que seu país estava em guerra com a França. Dinheiro, ouro ou jóias tampouco explicariam a poderosa aura de mistificação que envolveu todo o caso, desde os códigos sofisticados até a queima, por Marie Denarnaud, de sua herança em dinheiro. E a própria Marie prometera divulgar um "segredo que conferia não só fortuna, mas poder" .

Na medida em que as informações se acumulavam, ficávamos cada vez mais convencidos de que a história de Saunière envolvia, além de riqueza, um segredo polêmico. Em outras palavras, pareceu-nos que o mistério não estava confinado a um remoto e isolado vilarejo e a um padre do século XIX. Algo irradiava de Rennes-Ie-Château e produzia ondas, talvez mesmo uma enchente, no mundo exterior. Teria a fortuna de Saunière vindo não de algo com valor intrinsecamente financeiro, mas do conhecimento de alguma coisa? Se este era o caso, poderia tal conhecimento ter-se traduzido em bens materiais? Poderia ter sido utilizado em chantagem, por exemplo? Seria a fortuna de Saunière oriunda do pagamento pelo seu silêncio?

Nós soubemos que ele recebera dinheiro de Johann Von Habsburgo. Ao mesmo tempo, o segredo do padre, qualquer que fosse, parecia ser de natureza mais religiosa que política. Além disso, suas relações com o arquiduque austríaco, segundo todos os relatos, era marcadamente cordial. Por outro lado, no final de sua carreira o Vaticano ameaçava-o com luvas de veludo e parecia bastante temeroso dele. Estaria Saunière chantageando o Vaticano? Tal chantagem seria tarefa presunçosa e arriscada para um homem, qualquer que fossem suas precauções. E se ele estivesse sendo ajudado e apoiado por outros, cuja importância os tornasse invioláveis, tais como os Habsburgo? E se o arquiduque Johann fosse apenas um intermediário, e o dinheiro fornecido por ele a Saunière proviesse, na realidade, dos cofres de Roma?


A Intriga
O primeiro de nossos três filmes sobre Saunière e o mistério de Rennes-Ie-Château - O tesouro perdido de Jerusalém - foi exibido em fevereiro de 1972. Não usava argumentos polêmicos. Simplesmente, narrava a história básica, tal como foi contada nas páginas anteriores. Não houve qualquer especulação sobre a existência de um segredo explosivo ou de chantagem em altas esferas. Vale mencionar que o filme não citava o nome de Emile Hoffet, o jovem seminarista parisiense a quem Saunière confidenciou seus pergaminhos.

Como talvez fosse de se esperar, após a exibição do filme recebemos um dilúvio de cartas, elogiosas ou excêntricas. Algumas ofereciam intrigantes sugestões. Uma delas, que o autor não desejava ver publicada, parecia merecer especial atenção. O missivista era um padre anglicano aposentado que parecia ser um curioso e provocador non sequitur. Escreveu com certeza e autoridade categóricas, com asserções claras e objetivas, sem titubeios, e com aparente descaso por acreditarmos ou não no que dizia. O tesouro, declarou sem escândalo, não envolvia ouro ou pedras preciosas. Era, ao contrário, uma "prova irrefutável" de que a crucificação havia sido uma fraude e que Jesus vivera até 45 d.C.

Isso soou, evidentemente, absurdo. O que seria, mesmo para um ateu convicto, uma prova irrefutável da sobrevivência de Cristo à crucificação? Éramos incapazes de imaginar algo crível que pudesse constituir não somente prova, mas, além disso, fosse irrefutável. Ao mesmo tempo, a abrupta extravagância da afirmação pedia esclarecimentos.

Como o autor da carta havia fornecido endereço para retorno, na primeira oportunidade fomos vê-lo para tentar uma entrevista.

Ele foi muito mais reticente no contato pessoal. Aparentou arrependimento por nos haver escrito. Recusou-se a desenvolver sua referência à "prova irrefutável" e só ofereceu um fragmento adicional de informação. A prova, ou sua existência, havia sido revelada a ele por outro clérigo anglicano, Alfred Leslie Lilley.

Lilley, que morreu em 1940, havia publicado muito e não era desconhecido. Durante a maior parte de sua vida, mantivera contatos com o Movimento Modernista Católico, baseado principalmente em Saint Sulpice, em Paris, e conhecia Emile Hoffet. A trilha tornou-se circular, mas a conexão entre Lilley e Hoffet nos impedia de rejeitar sumariamente as afirmações do nosso missivista.

Evidências similares de um segredo monumental haviam surgido durante nossa pesquisa sobre a vida de Nicolas Poussin, o grande pintor do século XVII, cujo nome reaparecia ao longo da história de Saunière. Em 1656, Poussin, que vivia em Roma, teria recebido uma visita do abade Louis Fouquet, irmão de Nicolas Fouquet, superintendente de finanças de Luís XIV da França. De Roma, o abade despachara uma carta a seu irmão, descrevendo sua visita a Poussin. Parte desta carta merece menção.
Nós discutimos certas coisas que devo sem óbice ser capaz de explicar-lhe em detalhes - coisas que lhe darão, através do Senhor Poussin, vantagens que mesmo reis teriam dificuldades em obter e que, segundo ele, é possível que ninguém mais venha a redescobrir nos próximos séculos. São coisas tão difíceis de descobrir que nada sobre a Terra, hoje, pode significar melhor ou igual fortuna.
Nenhum historiador ou biógrafo de Poussin ou Fouquet explica esta carta, que se refere claramente a um assunto misterioso de imensa importância. Logo depois de recebê-la, Nicolas Fouquet foi detido e encarcerado por toda a vida. Segundo alguns relatos, foi mantido incomunicável - alguns historiadores o vêem como o provável Homem da Máscara de Ferro. Toda sua correspondência foi confiscada por Luís XIV, que a inspecionou pessoalmente. Nos anos que se seguiram o rei procurou obstinadamente obter o original de Les Bergers d'Arcadie, de Poussin. Quando finalmente conseguiu, guardou o quadro em seus apartamentos privados, em Versalhes.

Embora de grande qualidade artística, o quadro é aparentemente ingênuo. Três pastores e uma pastora, em primeiro plano, estão reunidos em volta de uma grande e antiga tumba, contemplando a inscrição na pedra envelhecida: ET IN ARCADlA EGO. No fundo vislumbra-se uma paisagem montanhosa, irregular, do tipo geralmente associado com Poussin. Segundo Anthony Blunt e outros especialistas em Poussin, essa paisagem é totalmente mística, produto da imaginação do pintor. Entretanto, no início dos anos 70, uma tumba real foi localizada, idêntica àquela do quadro - idêntica em cenário, dimensões, proporções, forma, vegetação e até mesmo nas camadas circulares de rocha em que um dos pastores de Poussin repousa o pé. A tumba real se localiza na periferia de uma cidade chamada Arques, a aproximadamente 10km de Rennes-Ie-Château e a 5km do castelo de Blanchefort. A paisagem vista da frente do sepulcro é idêntica à do quadro. E um dos picos no fundo do quadro é, evidentemente, Rennes-Ie-Château.

Não há indicação da idade da tumba. Ela pode ter sido erigida recentemente, é claro, mas como fizeram seus construtores para encontrar um cenário tão parecido com aquele do quadro? De fato, ela deveria estar lá já no tempo de Poussin, e Les Bergers d'Arcadie deve ser um retrato fiel do sítio real. Segundo camponeses das vizinhanças, a tumba sempre esteve lá, até onde eles, seus pais e avós podem se lembrar. Fala-se de uma menção específica a ela, contida numa mémoire datada de 1709. Segundo registros na cidade de Arques, a terra em que se ergue a tumba pertenceu a um americano chamado Louis Lawrence, de Boston, Massachussetts, até sua morte, nos anos 50. Lawrence abriu o sepulcro nos anos 20 e encontrou-o vazio. Sua esposa e sua sogra foram sepultadas ali.

Se algum dia houve uma inscrição na tumba real, ela desapareceu há muito tempo. Quanto à inscrição na tumba do quadro de Poussin, esta parecia convencionalmente elegíaca, com a Morte anunciando sua presença sombria também na Arcádia, paraíso pastoral idílico do mito clássico. Todavia, a inscrição é curiosa porque nela falta um verbo. Quando traduzida literalmente, lê-se: E EM ARCÁDIA EU...

Por que faltaria o verbo? Talvez por uma razão filosófica, para evitar qualquer noção de tempo, qualquer indicação de passado, presente ou futuro, induzindo assim à idéia de algo eterno? Ou talvez por uma razão de ordem mais prática.

Os códigos nos pergaminhos encontrados por Saunière repousavam fortemente em anagramas, na transposição e rearranjo de letras. Seria ET IN ARCADIA EGO também um anagrama? Poderia o verbo ter sido omitido de modo que a inscrição pudesse consistir unicamente de letras precisas? Um de nossos telespectadores, ao nos escrever, sugeriu que este poderia ser o caso, e rearranjou as letras em uma afirmação coerente em latim. O resultado foi:


I TEGO ARCANA DEI. *
* Vá embora! Eu guardo os segredos de Deus.
Ficamos contentes e intrigados com este engenhoso exercício. Não percebemos então quão extraordinariamente apropriada era a advertência resultante.
II

OS CÁTAROS E A GRANDE HERESIA
Começamos nossa investigação num ponto que já nos era razoavelmente familiar: a heresia cátara, ou albigense, e a Cruzada provocada por ela no século XIII. Já sabíamos que os cátaros figuravam de alguma maneira no mistério que circundava Saunière e Rennes-Ie-Château. Hereges medievais haviam sido numerosos na cidade e seus arredores, e sofreram brutalmente durante a Cruzada Albigense. De fato, toda a história da região é imersa em sangue cátaro, e os resíduos desse sangue persistem, com muita amargura, até os dias de hoje. Muitos camponeses atuais da região, sem os inquisidores para irromper sobre eles, proclamam abertamente sua simpatia pelos cátaros. Existiram até mesmo uma igreja cátara e um papa cátaro que, até sua morte, em 1978, viveu na cidade de Arques.

Nós sabíamos que Saunière havia mergulhado na história e folclore de sua terra natal. Assim, ele não poderia ter evitado contato com o pensamento e as tradições cátaros. Não poderia desconhecer que Ren­nes-Ie-Château tinha sido uma cidade importante nos séculos XII e XIII, algo assim como um baluarte cátaro.

Saunière deve ter-se familiarizado com as inúmeras lendas ligadas aos cátaros. Deve ter ouvido os rumores que ligavam essas lendas ao fabuloso objeto, o cálice sagrado. E se Richard Wagner, em busca de alguma coisa relacionada com o cálice, realmente visitou Rennes-Ie­ Château, Saunière não pode ter ignorado o fato.

Além disso, em 1890, um homem chamado Jules Doinel tornou-se bibliotecário em Carcassonne e fundou uma igreja neocátara. O próprio Doinel escreveu muito sobre o pensamento cátaro e, por volta de 1896, se tornara um membro eminente de uma organização cultural local, a Sociedade de Artes e Ciências de Carcassonne, da qual foi eleito secretário em 1898. Esta sociedade incluía vários conhecidos de Saunière, entre eles seu melhor amigo, o abade Henri Boudet. Assim, é muito provável que Doinel e Saunière tenham se conhecido.

Outra razão existe, e mais provocante, para relacionar os cátaros com o mistério de Rennes-Ie-Château. Em um dos pergaminhos encontrados por Saunière, o texto é respingado com uma porção de letras pequenas - exatamente oito -, deliberadamente diferentes de todas as outras. Três dessas letras estão no topo e cinco no pé da página. Lidas em seqüência, formam duas palavras - REX MUNDI -, um termo indiscutivelmente cátaro, logo reconhecível como tal por qualquer pessoa familiarizada com o pensamento dessa seita.

Parecia razoável, portanto, iniciar nossa investigação pelos cátaros. Assim, começamos a estudar em detalhes suas crenças e tradições, sua história e seu meio. Nossa pesquisa abriu novas dimensões do mistério e gerou perguntas assustadoras.


A Cruzada Albigense
Em 1209, um exército de cerca de 30 mil homens, incluindo cavaleiros e infantes, desceu do norte da Europa para o Languedoc, as montanhas a nordeste dos Pirineus, onde fica hoje o sul da França. Na guerra que se seguiu, todo o território foi pilhado, as colheitas destruídas, as cidades e vilarejos arrasados. A população tomou a espada. Este extermínio ocorreu numa extensão tão vasta que pode bem ter constituído o primeiro caso de genocídio na história da Europa moderna. Só na cidade de Beziers, por exemplo, pelo menos 15 mil homens, mulheres e crianças foram mortos, muitos no próprio santuário da igreja. Quando um oficial perguntou ao representante do papa como ele conseguiria distinguir hereges e crentes verdadeiros, a resposta foi: "Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus." Esta citação, amplamente narrada, pode ser apócrifa. Mesmo assim, caracteriza o fanatismo, o zelo e o prazer sanguinário com que as atrocidades foram perpetradas. O próprio representante papal, ao escrever a Inocêncio III em Roma, anunciou orgulhosamente que "nem idade, nem sexo, nem posição foram poupados".

Após Béziers, o exército invasor varreu todo o Languedoc. Caíram Narbonne, Carcassonne e Toulouse. Os vitoriosos deixaram uma trilha de sangue, morte e carnificina por onde passaram.

Essa guerra, que durou cerca de quarenta anos, é hoje conhecida como Cruzada Albigense: Foi uma Cruzada no sentido exato do termo, enviada pelo próprio papa. Seus participantes usavam uma cruz em suas túnicas, como os cruzados da Palestina. E as recompensas eram as mesmas: absolvição de todos os pecados, remissão de penas, um lugar seguro no céu e, naturalmente, os produtos dos saques. Nessa Cruzada, além disso, não era necessário nem mesmo atravessar o mar e, de acordo com a lei feudal, era-se obrigado a lutar por no máximo quarenta dias. Assumia-se, é claro, que não havia interesse em saquear.

Quando a cruzada terminou, o Languedoc havia sofrido uma grande transformação, mergulhando na barbárie que caracterizava o resto da Europa. Por quê? Para que toda essa destruição, brutalidade e devastação?

No início do século XIII, a área hoje conhecida como Languedoc não fazia oficialmente parte da França. Era um principado independente, cuja cultura e instituições políticas possuíam menos afinidades com o norte do que com os reinos de Léon, Aragon e Castela, na Espanha. O principado era governado por várias famílias nobres, cujos chefes eram os condes de Toulouse e sua poderosa casa de Trencavel. Floresceu nos confins desse principado uma cultura que, na época, era a mais avançada e sofisticada da cristandade, com a possível exceção de Bizâncio.

O Languedoc e Bizâncio possuíam muitas coisas em comum. O ensino, por exemplo, era altamente considerado, o que não acontecia no norte da Europa. A filosofia e outras atividades intelectuais floresciam, poesia e amor cortês eram aplaudidos; o grego, o árabe e o hebraico eram entusiasticamente estudados; e em Lunel e Narbonne cresciam escolas devotadas à Cabala, antiga tradição esotérica do judaísmo. Mesmo a nobreza era letrada e literata, numa época em que a maioria dos nobres do norte não sabia sequer assinar o nome.

No Languedoc, como em Bizâncio, praticava-se uma tolerância religiosa civilizada, em contraste com o zelo fanático que caracterizava outras partes da Europa. Linhas de pensamento islâmico e judaico, por exemplo, eram importadas da Espanha, através de centros mercantis como Marselha ou através dos Pirineus. Ao mesmo tempo, a Igreja Romana não gozava de alta estima; a notória corrupção dos clérigos romanos no Languedoc afastava a população. Em algumas igrejas, por exemplo, passavam-se trinta anos sem celebrar-se uma missa. Muitos padres, ignorando seus paroquianos, dirigiam negócios ou terras. Um arcebispo de Narbonne nunca visitou sua diocese.

Qualquer que tenha sido a corrupção da Igreja, o Languedoc havia atingido um ápice de cultura sem igual na Europa antes do Renascimento. Como em Bizâncio, havia elementos de complacência, de decadência e de fraqueza trágica que tornaram a região despreparada para enfrentar as invasões que sobrevieram depois. A nobreza do norte europeu e a Igreja Romana sabiam dessa vulnerabilidade e estavam ávidos por explorá-la. Por muitos anos eles tinham invejado a riqueza e o luxo do Languedoc. E a Igreja tinha razões para interessar-se. Sua autoridade na região estava enfraquecida. Além disso, no Languedoc, enquanto a cultura florescia, algo mais florescia também: a maior heresia da cristandade medieval.

Nas palavras da Igreja, o Languedoc estava "infectado" pela heresia albigense, "a lepra louca do sul". Embora os adeptos dessa heresia fossem essencialmente pacíficos, eles constituíam uma ameaça grave à autoridade romana, a mais grave que Roma experimentaria até três séculos depois, quando os ensinamentos de Martinho Lutero iniciaram a Reforma. Por volta de 1200, havia uma perspectiva real de que o catolicismo romano, como forma dominante de cristianismo, fosse substituído, no Languedoc, pela heresia. Ela estava se irradiando para outras partes da Europa, especialmente os centros urbanos da Alemanha, Flandres e Champagne, o que era ainda mais ameaçador aos olhos da Igreja.

Os hereges eram conhecidos por vários nomes. Em 1165 eles haviam sido condenados por um conselho eclesiástico no Languedoc, na cidade de Albi. Por esta razão, ou talvez porque Albi continuasse a ser um de seus centros, eles eram chamados com freqüência de albigenses; em outras ocasiões eram cátaros; na Itália, patarines. Não raro, eram também estigmatizados com nomes de heresias anteriores, como arianos, marcionistas e maniqueístas.

Albigense e cátaro eram nomes genéricos. Não se referiam a uma única igreja coerente, como aquela de Roma, com teologia e doutrina fixas, codificadas, definitivas. Os hereges em questão pertenciam a uma multidão de seitas diversas, muitas sob a direção de um líder independente, cujo nome seus seguidores assumiam. Essas seitas se atinham a certos princípios comuns, mas divergiam radicalmente nos detalhes. Muitas de nossas informações provêm de fontes eclesiásticas, tais como documentos da Inquisição. Criar um quadro a partir de tais fontes é como tentar compreender a Resistência Francesa a partir de relatórios da Gestapo. Assim, é virtualmente impossível apresentar um resumo coerente e definitivo do que realmente constituiu o pensamento cátaro.

Em geral, os cátaros acreditavam numa doutrina de reencarnação e no reconhecimento de um princípio feminino de religião. De fato, os pregadores e professores das congregações cátaras, conhecidos como parfaits ["perfeitos"], eram de ambos os sexos. Ao mesmo tempo, rejeitavam a Igreja Católica e negavam a validade das hierarquias clericais, ou de intercessores oficiais e ordenados entre Deus e o Homem. No centro desta posição, reside um princípio importante: o repúdio à fé, pelo menos na forma em que a Igreja a prega. No lugar da fé aceita em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento direto e pessoal, numa experiência religiosa ou mística apreendida em primeira mão. Esta experiência chamava-se gnosis, termo grego para "conhecimento", e os cátaros a privilegiavam sobre todos os credos e dogmas. A ênfase no contato pessoal direto com Deus tornava supérfluos padres, bispos e outras autoridades eclesiásticas.

Os cátaros eram também dualistas. Todo o pensamento cristão podia, certamente, ser visto como dualista, pois insistia no conflito entre dois princípios oponentes: bem e mal, espírito e carne, alto e baixo. Mas os cátaros levavam a dicotomia muito além do que o catolicismo ortodoxo estava preparado para aceitar. Para os cátaros, homens eram as espadas com que os espíritos lutavam, sem que ninguém visse suas mãos. Toda a Criação estava imersa numa guerra perpétua entre dois princípios irreconciliáveis, luz e escuridão, espírito e matéria, bom e mau. O catolicismo posicionava um Deus supremo cujo adversário, o demônio, era definitivamente inferior. Os cátaros proclamavam a existência não de um Deus, mas de dois, com posições mais ou menos comparáveis. Um deles - "deus um" - era um ser, ou princípio, de puro espírito, limpo das manchas da carne. Era o deus do amor, considerado incompatível com o poder. Ora, a Criação material era uma manifestação de poder. Assim, a Criação material - o mundo - era intrinsecamente mau. Toda matéria era intrinsecamente má. O Universo, em síntese, era a obra de um deus usurpador, o deus do mal - ou, como os cátaros o chamavam, REX MUNDI, "deus do mundo".

O catolicismo repousava no que podia ser chamado um dualismo ético. O mal, embora saído talvez do demônio, manifesta-se primariamente através do homem e de suas ações. Em contraste, os cátaros viam a realidade totalmente impregnada de uma forma de dualismo cosmológico. Esta era, para eles, uma premissa básica, mas a resposta variava de seita para seita. Segundo alguns cátaros, o propósito da vida do homem na Terra era o de transcender a matéria, renunciar para sempre a qualquer coisa relacionada com o princípio do poder e, dessa forma, atingir a união com o princípio do amor. Segundo outros, o propósito do homem era reclamar e recuperar a matéria, espiritualizá-la, transformá-Ia. É importante notar a ausência de um dogma, doutrina ou teologia fixos. Como na maioria dos desvios da ortodoxia estabelecida, havia apenas algumas atitudes definidas de forma flexível, e as obrigações morais pertinentes a essas atitudes eram sujeitas à interpretação individual.

Aos olhos da Igreja Romana, os cátaros cometiam sérias heresias ao considerar a Criação, em nome da qual Jesus supostamente havia morrido, como intrinsecamente má, e ao considerar que Deus, cuja palavra havia criado o mundo no início, era um usurpador. Sua mais grave heresia era, contudo, a atitude em relação ao próprio Jesus. Se a matéria era intrinsecamente má, Jesus não poderia ter partilhado dela, encarnado, e ainda ser o filho de Deus. Para alguns cátaros, ele era totalmente incorpóreo, um fantasma, uma entidade de puro espírito que, é claro, não poderia ter sido crucificado. A maioria dos cátaros, no entanto, parece tê-lo considerado um profeta como outros, um ser mortal que, em nome do princípio do amor, morreu na cruz. Em suma, não havia nada de místico, de sobrenatural, de divino, envolvendo a crucificação. Muitos pareciam duvidar que ela tivesse mesmo ocorrido.

De qualquer modo, todos os cátaros repudiavam veementemente a significância tanto da crucificação quanto da cruz, ou por considerarem essas doutrinas irrelevantes, ou porque Roma as exaltava tão fervorosamente, ou porque as circunstâncias brutais da morte do profeta não merecessem adoração. E a cruz - pelo menos em associação com o calvário e a crucificação - era considerada um emblema de Rex Mundi, senhor do mundo material, a própria antítese do verdadeiro princípio redentor. Jesus, se era mortal, tinha sido um profeta do amor. E AMOR, quando invertido ou pervertido, ou ainda deturpado em poder, tornava-se ROMA, cuja opulência e luxo figuravam para os cátaros como a manifestação palpável, na Terra, da soberania de Rex Mundi. Como conseqüência, eles não só recusavam a adoração da cruz como também negavam os sacramentos, inclusive o batismo e a comunhão.

A despeito dessas posições teológicas sutis, complexas, abstratas e, para uma mentalidade moderna, irrelevantes, a maioria dos cátaros não era fanática. Atualmente, é moda no meio intelectual considerar os cátaros uma congregação de sábios, místicos iluminados ou iniciados em conhecimentos misteriosos, e detentores de segredos cósmicos. Na realidade, a maioria deles era composta de homens e mulheres mais ou menos comuns, que encontraram em seu credo um refúgio contra a severidade do catolicismo ortodoxo e um repouso para os dízimos, penas, obséquias, exigências e outras imposições sem fim da Igreja Romana.

Por mais intricada que fosse sua teologia, os cátaros, na prática, eram um povo eminentemente realista. Por exemplo, condenavam a procriação - uma vez que a propagação da carne não estava a serviço do princípio do amor, mas de Rex Mundi - mas não eram ingênuos a ponto de advogar a abolição da sexualidade. Havia, é verdade, um sacramento cátaro, ou algo equivalente, chamado Consolamentum, que compelia à castidade. Com exceção dos parfaits, contudo, que eram normalmente homens e mulheres sem família, o Consolamentum não era administrado até que se estivesse à beira da morte, e não é muito difícil ser casto quando se está morrendo. A congregação, de modo geral, tolerava a sexualidade, se não a sancionava explicitamente. Como se pode condenar a procriação enquanto se desculpa a sexualidade? Algumas evidências sugerem que os cátaros utilizavam controle de natalidade e aborto. Nós conhecemos a posição atual de Roma sobre estes assuntos. Não é difícil imaginar com que energia e zelo vingativo esta posição se manifestava na Idade Média.

Em geral, os cátaros pareciam levar uma vida de extrema devoção e simplicidade. Como deploravam igrejas, usualmente conduziam seus rituais e serviços ao ar livre ou em algum edifício disponível - um celeiro, uma casa, o salão municipal. Também praticavam o que hoje chamamos meditação. Eram estritamente vegetarianos, embora se permitissem comer peixe. Quando viajavam pelo interior, os parfaits iam sempre aos pares, o que dava crédito aos rumores de sodomia lançados pelos seus inimigos.



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